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espectador é recebido por um vídeo projetado. As luzes, ainda acesas, sugerem que a peça “de verdade” ainda não começou. A jovem Joana, em entrevista a um desconhecido, reflete sobre sua crença em torno das artes, ao passo que também tenta se justificar pelo total fracasso de sua última aula para atores. Simplesmente ninguém apareceu. A quem a jovem Joana deseja falar? Em pouco tempo, descobrimos que Joana não está mais entre nós. Essa espécie de prólogo, que recebe pouca atenção dos espectadores, configura-se como um chamado à liberdade que o próprio fazer artístico pode nos oferecer, em embate contra uma arte que vem sendo mascarada por um verniz esteticista em prol de uma lógica capitalista. No primeiro ato, os personagens, apresentados pouco a pouco, apontam para um alto grau de abstração. O assunto que rege o encontro é a busca por compreender as atitudes artísticas de Joana e sua escolha pelo suicídio. Seria ele um réquiem? Morre Joana e junto dela o impulso criativo, a paixão motriz que rege os artistas para além das estruturas do capital. A primeira hora de encenação, marcada pelo caráter naturalista, cede espaço ao onírico, levando o espectador a adentrar uma espécie de sonho do próprio Thomas, demarcado pelo elemento apócrifo, inexistente na obra de Bernhard. Lupa agora impõe sua voz em diálogo com Bernhard.

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O jantar fúnebre, ao mesmo tempo artístico e fantasmagórico, é finalmente concretizado no segundo ato, com a dinâmica da reunião e o devanear do ator convidado que passa a ser o alvo da atenção e digressão do narrador. Com exceção desse momento, durante a quase totalidade do espetáculo estamos atentos à sua presença fora do espaço cênico, reservado aos demais personagens. A delimitação imposta por uma linha vermelha, quase no proscênio da cenografia assinada por Lupa, funciona ora como limite de uma prisão física e psicológica, ora como fronteira imaginária deste narrador carente da presença de outras personagens para construção de sua própria identidade. Camadas são sobrepostas. Sentado em uma cadeira, não é mais só um narrador da obra, mas sim a própria dualidade Thomas Bernhard/Krystian Lupa, exposta a partir de monólogos internos, sem isolamento de frases e réplicas, absorvida e dissolvida na estrutura apresentada. Como domador da narrativa, provocará os demais convidados desse “jantar artístico” a se exporem, objetivando a reiteração de sua própria avaliação sobre os temas propostos. Suas mediocridades são escancaradas através do tom irônico e da visão aguda do autor, que nos apresenta personagens vivenciado seus próprios absurdos inconscientemente. A variedade de estilos com que Lupa coloca em cena esse romance demonstra a profunda maturidade de seu ofício. Se o espetáculo é marcado pelo viés naturalista, por vezes também abunda o grotesco expressionista, algo bastante característico do teatro polonês. Muito mais que o fascinante rigor expressivo com que todos os intérpretes levam à cena esse museu de artistas apodrecidos, Árvores Abatidas nos prende em uma atmosfera na qual o tempo se desenrola com uma inquietante lassidão. A monotonia, fruto das estruturas repetidas, é um convite para se perder em um labirinto, de onde não fazemos questão de sair durante o tempo da representação.

Catalogo Mitsp 2018  

Catalogo Mitsp 2018

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