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De fato, diferentes artistas têm sido perseguidos por grupos nacionalistas nos últimos anos, sendo inclusive acionados judicialmente para que obras sejam censuradas. Em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo, em 2015, Lupa é taxativo: “Nos últimos tempos, houve uma onda de jovens diretores que abordaram problemas dos indivíduos e agora há uma tendência das autoridades de discriminar esse teatro, que não é boa.” (SÁ, 2015) Assim, desde sua estreia, os atores responsáveis pela representação de Árvores Abatidas têm frequentemente lido ao final de cada representação, em diferentes teatros do mundo, uma carta-protesto contra as repressões que o país vem enfrentando. O lema constante é: “Tribunais livres. Cultura livre”. A este coro vem somando forças as vozes de diferentes artistas poloneses. No ano passado, por exemplo, a diretora Maja Kleczewska, uma das discípulas de Krystian Lupa, ao receber o Leão de Prata da 45ª Bienal de Teatro de Veneza, assinalou: [...] desde 1989 o teatro floresceu graças a muitos jovens diretores que estudaram com Krystian Lupa e iniciaram uma nova linguagem. Ele modificou o método de trabalhar com os atores e de ensaiar, sem estar tão apegado ao texto, improvisando e podendo explorar as ideias. Desenvolver uma linguagem é um longo processo, que leva anos, e tememos que esse processo seja interrompido. O Teatro de Breslávia, o Teatr Polski, era reconhecido mundialmente. Lupa dirigiu nesse teatro, tinha uma companhia de atores, o que também requer tempo, e as autoridades decidiram pará-lo e destruíram tudo em três meses. Não há companhia, não há estreia. E tememos que o mesmo aconteça com o Stary Teatr na Cracóvia, um lugar muito importante para nós. (LLORENTE, 2007)

Recentemente, a comissão europeia expressou sua preocupação com a ascensão ao poder do partido nacionalista “Lei e Justiça”, liderado por Jarosław Kaczyński. Nessa ocasião, considerou falta de respeito pelo “estado democrático de direito” as novas leis de mídia, que conferem ao governo autoridade para nomear e exonerar diretores executivos nos meios de comunicação financiados publicamente, o que poderia limitar a liberdade de expressão. Árvores Abatidas retoma a reflexão sobre a maneira como a arte tem se tornado mercadoria por meio da transformação dos artistas em produtos inorgânicos. Se a ação humana é capaz de mudar sua natureza conforme as necessidades, no capitalismo mudamos conforme as necessidades do capital, eliminando até mesmo a ação do sujeito como uma práxis. Árvores Abatidas se configura, então, como uma retomada de consciência: O mais atual nesse texto é sua denúncia das armadilhas que residem nas relações entre o mundo artístico e político e nos mecanismos de consumo de massa. Através do processo de degradação, também mostra a decadência dos artistas a partir desses relacionamentos. E também o aumento implacável da traição de si mesmo, da perda de ideais artísticos e, em especial, da intransigência como base da condição artística. As árvores a cair são uma luta com nós mesmos, contra este processo. É um ataque raivoso contra os nossos amados do passado, aqueles que confraternizaram com a comunidade artística, que se juntaram e que sucumbiram a essa traição. Esse assunto parece-me cem vezes mais atual hoje do que trinta anos atrás. (PERRIER, 2016)

O espetáculo, narrado como uma espécie de monólogo interior, é labiríntico, aproximando-se do fluxo de consciência. A narrativa caminha por lugares e tempos sem seguir nenhuma regra ou encadeamento lógico rigoroso, como sequências temporais e espaciais ou evolução linear de personagens e situações. Dividido em dois atos, com tempo médio de duas horas cada um, o que vemos em cena é a adaptação do romance em sua quase totalidade. Ao adentrar a sala de espetáculos, o

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Catalogo Mitsp 2018  

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