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culo de pessoas, um mecanismo que atravessa o corpo é desencadeado e, nesse momento, as questões do subconsciente de cada indivíduo são transportadas para o domínio criativo. Eu não acredito que uma sessão espiritual seja algo completamente falso, mas tampouco constitui uma evocação de espíritos; manifesta a imagem do inconsciente coletivo do grupo. Na realidade, o teatro também é uma sessão espiritual, o que não é o caso do cinema, porque com a película não existe esse envolvimento carnal, corporal – que é absolutamente essencial. Picon-Vallin: A impressão que passa é que você conduz os atores através da música. Isso significa que você não utiliza instruções verbais? Alguns diretores sobem no palco e atuam; isso não significa que eles queiram que o ator reproduza o que eles estão representando, mas que buscam estabelecer um diálogo físico com o ator. Você utiliza essa forma de “demonstração de atuação”? Lupa: Sim – de forma espontânea. Porém, não utilizo palavras, nem mesmo faço referência à cena que o ator está realizando. Em outras palavras, não aponto as coisas diretamente. Nunca apontarei – como fazem os diretores que também são atores – como a entonação de uma frase deve ser. Conosco, isso ocorre de maneira espontânea, de uma forma diversa. E, de fato, percebi que, em geral, o que aponto [para os atores] equivale a uma tentativa de colocar em movimento o monólogo [interior] do ator. Não é uma questão de apontar para os atores o que deve ser exposto, mas o que está ocorrendo na paisagem em que eles se encontram. A “paisagem” é análoga à imaginação ativa anterior à movimentação dos atores, anterior às suas expressões. Essa paisagem deve existir antes das palavras. O ator tem que decorar o texto e não há como escapar disso, mas, em seu cerne, esse mecanismo está distorcido. No começo, está a palavra. [Com frequência, no teatro], a memória reproduz o texto como uma fita cassete, de forma automática, e as emoções seguem as palavras. Isto é o que eu chamo de modo “recitativo” de atuar, porque, com esta abordagem, as emoções encontram dificuldade em seguir as palavras decoradas (nesse ponto são, de certa forma, secundárias), e isso acontece assim, quer o ator queira ou não. Entretanto, se um indivíduo se expressa de forma verdadeira, é porque a sua “paisagem” já existente o possibilita falar dessa maneira. Como se houvesse algo dentro dele – seu desejo ou sua imaginação – que se transforma em uma palavra-movimento. A paisagem deve ser algo muito superior tanto ao que é completamente idêntico, quanto ao que é coerente com o que está escrito na peça. Se o ator possui, em sua alma, somente o que já foi escrito, ele não está em posição de expressar, de forma verdadeira, o que tem a dizer. Como qualquer ser humano, o ator deve querer dizer mais, dizer algo diverso; logo, torna-se possível que o fato de dizer as falas se transforme em uma aventura extraordinária, porque o fluxo das palavras cria uma lógica própria, que está sempre “por vir”. Aqui, um exemplo básico de algo que se torna autônomo, e até mesmo incoerente, ao que se almeja dizer: tento responder à pergunta “Por que eu te amo tanto?” e, de repente, apesar de mim mesmo, o que vem à tona neste momento específico, é “Por que eu te abomino tanto?”. Construir a tensão entre a paisagem e as palavras a serem ditas é muito importante. Ao longo dos ensaios, subo no palco quando sinto que as coisas não estão vivas antes das palavras. O ator frequentemente me diz: “Mas eu não posso fazer isso dessa forma”. E eu respondo: “Claro, você deve fazer algo completamente diferente. O que estou lhe mostrando nesse momento é apenas algo a que você pode se opor – é o que lhe permitirá criar a tensão interna”. Muitas vezes, quando falamos na vida real, não estamos satisfeitos com o que estamos dizendo. Ficamos infelizes porque nem sempre conseguimos nos expressar da maneira que queremos.

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Catalogo Mitsp 2018  

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