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entrevista com Krystian Lupa

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eu voltava a dormir por cinco minutos e logo era despertado pela noção de que o gravador ainda estava gravando. Mais adiante, quando coloquei os atores para ouvir a gravação, eles tiveram a impressão de que eu estivera sob hipnose quando a realizei. Mostrar uma dessas gravações para os atores permitiu-me constatar as premissas do trabalho para a cena que, na quinzena anterior, não sabíamos como abordar. Anteriormente, não tínhamos êxito em encontrar o seu ritmo, ou o seu “monólogo interior”. Após ouvir a gravação, realizamos uma improvisação e então surgiu o que estávamos buscando, como se as coisas estivessem ocorrendo por osmose, como se as nossas mentes subconscientes trocassem informações, como se os atores estivessem descobrindo uma música secreta. Além disso, na “gravidez” do ator, do personagem [...], muitas vezes a música se torna um universo de inspiração. Os atores se deparam com um caminho que ainda não tinham percorrido, e o próprio fato de se submeterem a um espaço, ou a um ritmo, já é mais fértil do que a busca realizada apenas por meio de suas mentes conscientes. O simples fato de ouvir essa música faz com que o ator se aproxime de outra paisagem, ajuda-o a encontrar um ponto de partida diverso. Eles adentram uma paisagem de inspiração, confrontam o seu par com algo imprevisto e, de repente, se deparam com um caminho do qual, até então, não tinham conseguido se aproximar – uma trilha que os leva a descobertas. Desde muito tempo, enquanto observo os atores em seu processo de pesquisa, se possuo um instrumento musical à mão – como um pandeiro –, de forma muito discreta, como se estivesse tocando para mim mesmo, utilizo o instrumento para “entrar” ainda mais nos corpos dos atores, para acompanhar os seus ritmos, ouvi-los e me permitir ser conduzido por eles. É assim que compreendo melhor o que está ocorrendo no seu interior. É como se o percurso do ator se tornasse mais visível, mais tangível para mim. Muitas vezes, a pessoa que está sentada na plateia percebe mais claramente do que os próprios atores para onde eles se encaminham. É somente uma questão de lhes dizer: “Sim, é esse o caminho”, ou de sussurrar em seus ouvidos que deveriam se arriscar mais. Se você diz isso depois do ensaio, é tarde demais. Com frequência, tenho momentos singulares de entendimento, porém, quando busco elaborá-los para os atores depois dos ensaios, percebo que não pertenço mais a essa paisagem, que não possuo mais essa clareza. Eu estava a par de algo ao longo do ensaio e, depois, não tinha mais essa ciência. Eu compreendi que, na qualidade de diretor, se quisesse fazer parte da improvisação rítmica dos atores, não poderia me expressar verbalmente, mas sim através de um movimento musical, de um movimento rítmico. E é nessas ocasiões que os atores podem se tornar capazes de seguir um caminho que não tomariam se estivessem trabalhando por conta própria. [...] Thibaudat: É de onde vem essa crescente impressão, ao longo da sequência de suas produções, de que o entendimento é alcançado mais por meio do ritmo do que pelo significado das palavras. Lupa: O espaço entre o espectador e o ator é dominado pelo ritmo. E no momento preciso em que o ritmo consegue penetrar nesses dois espaços, vem à tona um fenômeno de intersubjetividade – fenômeno esse que Teilhard de Chardin buscou através de seu conceito de interpenetração psíquica.2 É exatamente o mesmo fenômeno do espiritualismo: em um cír2 Para mais informações sobre essa concepção de intersubjetividade, ver, por exemplo, CHARDIN, Pierre Teilhard de. The Phenomenon of Man. Tradução de Bernard Wall. Londres: Harper Centennial, 2008.

Catalogo Mitsp 2018  

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