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entrevista com Krystian Lupa

Paisagens a ativar N

a entrevista a seguir, o encenador polonês Krystian Lupa esclarece dois conceitos importantes do seu trabalho, seminais para a compreensão do embate criativo entre o elenco e o diretor: paisagem e monólogo interior. O recorte foi feito a partir de uma longa entrevista realizada há alguns anos por dois importantes pesquisadores da cena teatral francesa, Béatrice Picón-Vallin e Jean-Pierre Thibaudat, na qual eles abordam visadas diversas sobre a trajetória do diretor e seu pensamento sobre o teatro. O destrinchar da metodologia de criação cênica nos parece colaborar para a percepção de Árvores Abatidas, espetáculo que integra a programação da MITsp 2018. Escolhemos estas palavras de Lupa justamente por acharmos que elas funcionam como um convite para que o espectador tome parte na dinâmica do desejo de ingressar nessa paisagem e de acessar a energia do espetáculo.

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Trabalhando com a “Paisagem” Thibaudat: Em meados da década de 1980, você começou a pesquisar as literaturas alemã, austríaca e russa – em sua maioria, escrita em prosa. Lupa: A totalidade dessa literatura visava a perceber o imperceptível, o inexprimível – e buscar transpô-la para o teatro, torná-la “viva”, é provavelmente o maior desafio que já encarei. [...] Comecei a gravar em áudio não os momentos [do processo] em que sentia que sabia o que estava transcorrendo, mas aqueles de profunda decomposição, de desintegração psicológica. E o próprio fato de realizar essa gravação [de tais momentos] começou, por sua vez, a desencadear uma situação análoga. Após esse processo de gravação, algo começou a emergir. Eu não tinha essa expectativa, mas às vezes eu simplesmente, de súbito, começava a criar as cenas [para a adaptação] e, consequentemente, a desenvolver o texto para elas. Os diálogos se sucediam, os monólogos tomavam forma; era como se eu estivesse trabalhando sob hipnose. Então, em diversas ocasiões, à noite, eu acordava e ligava o gravador, em um estado que [Hermann] Broch descreve em Os sonâmbulos como “sonhando em uma potencializada vigília”, ou como “despertando”.1 É um estado em que você tem grande dificuldade em emergir. Às vezes, quando você permanece em um estado de vigília à noite, ao longo de um duradouro tempo, você fica com dificuldades de compreender o espaço, você fica totalmente submerso em pensamentos sob os quais você não tem controle, que se sucedem por si mesmos – como em sonhos. Eu tentava não sair desse estado; 1 Disponível em: https://culturehub.co/works/Returning_to_the_Garden_of_Childhood#mce_394 Acesso em: 5 fev. 2018.

Catalogo Mitsp 2018  

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Catalogo Mitsp 2018  

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