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mundo que o acometeu após a guerra o levou a tornar-se psicólogo, dedicado ao trabalho com veteranos. Uma das cenas mais tocantes é o testemunho de Armour sobre um oficial argentino ferido que lhe diz, em inglês, pouco antes morrer, não saber por que estava lutando. O testemunho se dá em dois tempos, passado e presente, por meio da projeção de um documentário em que vemos Armour, bem mais jovem, narrar o acontecimento e chorar a morte do argentino. Atormentado desde então pela vergonha e culpa produzidas por seu próprio testemunho – que fez com que evitasse reuniões de veteranos desde então, pois como oficial da Marinha Real inglesa não deveria lamentar a morte de um inimigo e sim a de seus compatriotas –, o Lou Armour de hoje afirma ter aprendido a controlar suas emoções: “Eu poderia contar-lhe de novo a estória do soldado argentino ferido que morreu em meus braços, mas não me faria necessariamente chorar agora. Às vezes pode parecer cru novamente. Mas mantenho sob controle e narro como se fosse uma estória.” O testemunho, como se vê, é não apenas o meio pelo qual a dramaturgia se constrói, mas também um de seus principais temas e, nesse sentido, se alinha com outras obras contemporâneas (FELMAN; LAUB, 1992). Em entrevista a um jornal inglês, o veterano argentino Ruben Otero, um dos poucos sobreviventes do naufrágio do cruzeiro General Belgrano, torpedeado pelos britânicos fora da zona de guerra, explica sua decisão de participar do espetáculo por sua promessa de testemunhar: “Tenho falado sobre o que vivi durante os últimos 34 anos. Eu sobrevivi, mas muitos não sobreviveram. Para eles fiz a promessa de toda vez que me pedissem para falar, seja na escola, no rádio ou para um jornal, eu o faria. É por isso que estou aqui.”4 A promessa de narrar os acontecimentos, de testemunhar, como Felman nos lembra, constitui um ato de fala, uma ação performativa que transforma o mundo no ato de/por meio de sua enunciação. É portanto uma ação capaz de produzir efeitos, de afetar e transformar não só aqueles que testemunham como também aqueles que ouvem os testemunhos, os espectadores sem os quais tais testemunhos não seriam possíveis. Um testemunho é sempre endereçado a um outro, é um apelo à escuta. A escuta do trauma, entretanto, não é isenta de riscos. Confrontado com experiências de situações limites, “[o] ouvinte não pode mais ignorar a questão de encarar a morte, de encarar o tempo e sua passagem, o sentido e o propósito da vida, os limites de sua onipotência, de perder aqueles que nos são próximos, a grande questão de nossa solidão última; de nossa alteridade em relação a qualquer um, de nossa responsabilidade para e pelo nosso destino […]”. (FELMAN; LAUB, 1992, p. 72) Tampouco podemos ignorar questões políticas. Os testemunhos tanto dos argentinos quanto dos ingleses expõem uma guerra travada por interesses escusos de governos em situação política e econômica insustentável e para os quais o conflito armado representou uma saída populista, insensíveis ao custo humano da guerra. Os soldados argentinos, derrotados e humilhados, foram escondidos pelo governo militar após seu retorno e obrigados a assinar declarações comprometendo-se a não revelar as condições sob as quais lutaram, além de serem abandonados sem pensão5, cuidados médicos e suporte psicológico. Para os ingleses, a vitória militar levou à consolidação do governo e das políticas neoliberais de Thatcher, com a consequente perda de direitos trabalhistas, enfraquecimento dos sindicatos, desregulação do mercado e das instituições financeiras e massivas reduções de impostos para os ricos. E embora a guerra tenha se encerrado em 1982, o conflito e seus traumas seguem vivos, como provam os testemunhos de Campo Minado. Não obstante serem baseados em experiências pessoais, de cunho autobiográfico (“Por que digo eu ao invés de nós?”; “Que direito tenho eu de me colocar aqui e falar em nome de 4 Tradução da autora. No original: “I have been talking about what I went through for the past 34 years. I survived but many did not. For them I made a promised that every time I’m asked to talk, whether it’s at a school, on the radio, or to a newspaper, I would do so. That’s why I’m here.” Cavendish, Dominic. The Scars Run Deep: The Explosive Drama That Reunites Old Enemies On The Stage, The Telegraph, May 27 2016. 5 Somente em 1988 o governo argentino estabeleceu uma pensão honorífica para os veteranos das Malvinas.

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Catalogo Mitsp 2018  

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