Catalogo Mitsp 2018

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O arquivo como campo minado Ana Bernstein Unirio

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m um pequeno fragmento escrito por volta de 1932 e publicado postumamente sob o título “Escavação e Memória”, Walter Benjamin observa:

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A linguagem deixou indiscutivelmente claro que a memória não é um instrumento para explorar o passado, e sim um meio. É o meio daquilo que é experienciado, assim como a terra é o meio no qual cidades antigas jazem sepultadas. Aquele que busca abordar seu próprio passado enterrado deve conduzir-se como um homem que escava. Acima de tudo, ele não deve temer retornar repetidas vezes à mesma matéria, para espalhá-la como se espalha a terra, revolvê-la como se revolve o solo. Pois a “própria matéria” não é mais do que o estrato que produz seus tão almejados segredos somente para a investigação mais meticulosa.1 (BENJAMIN, 1999, p. 576)

Assim como as cidades antigas, as memórias jazem, em grande parte, sepultadas. Para Benjamin, é preciso proceder, de forma metódica e meticulosa, como um arqueólogo, cuja pá sonda cuidadosamente a argila escura. A analogia de Benjamin nos remete a outra, elaborada alguns anos antes por Freud em seu artigo Uma nota sobre o bloco mágico (1925), no qual ele descreve a tabuinha de cera coberta por uma camada dupla, composta por uma folha de celuloide e uma folha fina encerada e translúcida, que ilustra o funcionamento da psique: os traços da escrita sobre a superfície desaparecem ao levantarmos as folhas, mas um exame atento revelará que os mesmos permanecem indeléveis no papel encerado. Da mesma forma, os traços da memória são impressos em nosso inconsciente, em camadas subjacentes ao sistema perceptivo, e não podem ser apagados definitivamente. A psique constitui-se, assim, como um arquivo em que traços da memória são continuamente armazenados, censurados e, em certos casos, reprimidos. A psicanálise, nesse sentido, configura-se como “uma ciência do arquivo, incessantemente preocupada com questões de memória e esquecimento”. (VAN ZYL, 2002, p. 41) No bloco mágico, a folha de celuloide protege o fino papel encerado da pressão da escrita que poderia rasgá-lo. Segundo Freud, nosso aparelho psíquico perceptual também consiste em duas camadas, uma que nos protege contra estímulos, reduzindo seu impacto e magnitude, e outra, a superfície receptora desses estímulos. Em casos extremos de eventos catastróficos como guerras, acidentes e tragédias, cuja lembrança se torna insuportável para aqueles que os vivenciaram, as memórias traumáticas, num primeiro momento reprimidas pelo inconsciente, retornam muitas vezes posteriormente, de modo incontrolável, repetido, manifestando-se em forma de alucinações, sonhos ou outros sintomas. Paradoxalmente, é apenas por meio da tentativa de relembrar ou narrar o evento traumático, elaborando (working through) o trauma e seus mecanismos de resistência, que o sujeito é capaz de acessar a memória inconsciente e, eventualmente, libertar-se de seus sintomas. Não surpreende que, em uma época (pós)traumática como a que vivemos, abalada por duas guerras mundiais, o Holocausto, a explosão da bomba atômica, inúmeros genocídios étnicos e religiosos, além da ameaça de uma guerra nuclear, o testemunho se tornou, como observa Shoshana Felman, “um modo crucial de nossa relação com […] os traumas da história contemporânea”. De fato, “nossa época pode ser definida precisamente como uma era do testemunho.” (FELMAN; LAUB, 1992, p. 5) Não apenas no campo da psicanálise, mas nas artes e na literatura em geral, o testemunho tem se revelado um modo discursivo privilegiado na reflexão sobre a história contemporânea. O mesmo se dá com o tropo do arquivo, que a partir dos anos 1960 marca forte presença na teoria e na arte contemporânea, tanto por meio do uso de coleções, séries e inventários, quanto da exploração da própria arquitetura do arquivo em obras de artes visuais, cinema e teatro. 1 Tradução da autora.