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Eu diria que os documentos se impõem por uma mistura de sorte, de intuição e de obstinação. O objetivo é achar palavras que possuam nelas mesmas um tipo de perfeição, que se sustentem independente do contexto no qual foram produzidas. É necessário escutá-las até que tenhamos a impressão de compreendê-las intimamente. (LACOSTE, 2015)10

O próximo passo na construção do espetáculo é inserir as gravações em um contexto teatral, encontrar os corpos dessas vozes. Em um processo de pesquisa vocal a equipe de criação descobre os contrastes, os acordos, os pontos de dissonância e também propõe diálogos e encontros com outras gravações. Acreditamos que a organização final do espetáculo passa antes de tudo por um entendimento da natureza do material. A oralidade advém de uma proposição não indicativa, na qual a existência de repetições, saltos de tempo e espaço, e a composição não linear de nuances de ritmo e intensidade são pontos cruciais para o entendimento. Suíte n°2 parece compreender essa lógica e nos proporcionar uma viagem sem caminhos óbvios, em um percurso melódico intenso e provocativo. Portanto, finalizando essa reflexão, gostaríamos de ressaltar que a possibilidade de construção de uma Babel se dá justamente pela potência de sua parole, que nos conecta através das ações que a musicalidade da fala e o som das palavras nos propõem. As 16 línguas são ditas respeitando os sotaques de seu material de origem, o que reforça a preservação da sonoridade. Apesar da legenda, que acompanha a dança das palavras no espaço, o significado não se sobrepõe à musicalidade. As línguas se confrontam, se superpõem, conversam e afirmam a cada minuto o multilinguismo ao qual estamos expostos cada dia mais. A Torre de Babel construída pelo Encyclopédie de la Parole reforça a existência de uma linguagem por trás dos significados das palavras, tão ou mais pulsante e acessível quanto a mot. A comunicação continua mesmo com a pluralidade de línguas, através de outras vias, da não lógica e da sinestesia Referências: AUSTIN, John. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Tradução de Danilo Marcondes de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. DARGE, Fabienne. Avec Suite nº2, Joris Lacoste tient sa parole. Le Monde, 1 oct. 2015. Disponível em: http://www.lemonde.fr/scenes/article/2015/10/01/avec-suite-n-2-joris-lacoste-tient-sa-parole_4779353_1654999.html. Acesso em: 15 jan.2018. ENCYCLOPÉDIE DE LA PAROLE. Disponível em: https://www.encyclopediedelaparole. org/. Acesso em: 15 jan.2018. LACOSTE, Joris. Entretien avec Joris Lacoste. 2015. Disponível em: http://www.kfda.be/fr/ programme/suite-n2-2. Acesso em: 28 jan. 2018. LOPES, Angela Leite; KFOURI, Ana; REYS, Bruno Netto dos (Orgs.). Novarina em cena. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011.

10 Livre tradução do trecho em francês: “Je dirais que les documents s’imposent par un mélange de hasard, d’intuition et d’obstination. L’objectif est de trouver des paroles qui ont en elles-mêmes une sorte de perfection, qui tiennent debout toutes seules hors du contexte dans lequel elles ont été produites. Il faut les écouter jusqu’à ce qu’on ait l’impression de les comprendre intimement.”

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Catalogo Mitsp 2018  

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