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Ressaltamos ainda, nesse trabalho, a construção de dois níveis distintos de musicalidade, que se completam. Um deles é o trabalho técnico de reprodução das falas. Em cada língua apresentada existe uma musicalidade, reforçada principalmente pelos sotaques – o inglês, por exemplo, é dito em três acentos distintos – o americano, o britânico e o australiano. Cada língua e cada situação dada possui uma qualidade vocal extremamente específica e a reprodução dessas minúcias passa por um domínio técnico visivelmente aprofundado, mas também pela sensibilidade dos atores que trabalham em cena como se cantassem as palavras. Por outro lado, o trabalho do maestro, juntamente com o diretor Lacoste, promove outro nível de leitura do espetáculo: as sobreposições, a simultaneidade, a repetição, o eco e a ambientação sonora construída em torno de cada fala exaltam em alguns momentos, e, em outros, problematizam a construção sonora original, produzindo tensões extremamente potentes no decorrer do espetáculo. Nesse sentido, exemplificamos com o trecho falado em língua portuguesa. Com ritmo extremamente lento, ele é sobreposto a mais de 10 gravações com ritmos, situações, alturas e andamentos completamente distintos, construindo uma paisagem sonora que ultrapassa o entendimento lógico das situações de origem e nos coloca em ato, presentes, experienciando uma nova compilação de sons. Sobre as sobreposições e montagens, Lacoste explica:

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Aqui, trata-se de fazer coexistir diferentes palavras, mas não somente como uma montagem sucessiva, como nas peças anteriores. Em alguns momentos nós tentamos fazê-las coexistir ao mesmo tempo, o que produz algo muito novo para mim – formas ressonantes que permitem que eu me libere da montagem linear. Não se trata mais de criar uma terceira relação entre dois elementos, mas um conjunto de relações possíveis, em termos de conteúdo, forma e situação: o significado torna-se uma tonalidade movente, um acordo complexo feito de registros em constante mudança. (LACOSTE, 2015)9

É nesse contexto que podemos afirmar que se trata de um espetáculo que borra os limites entre o canto e a fala e nos proporciona, a partir dessa configuração, uma nova relação entre significante e significado. Seguindo essa configuração borrada de materiais e criações de sentidos provisórios e sensações múltiplas, nos questionamos sobre a construção estrutural do espetáculo e a forma como as gravações foram escolhidas e colocadas em ordem. Todos esses questionamentos ainda se encontram na reflexão sobre a atuação da música no espetáculo. À primeira vista, podemos equivocadamente afirmar que as gravações são alinhadas e sobrepostas aleatoriamente, pois não há nenhuma ordem de sentido, nenhum desenho que nos sugira qualquer construção narrativa, qualquer relação semântica entre os trechos apresentados. São situações extremamente plurais, sobretudo nas temáticas. Porém, um outro fio condutor nos transporta pelo espetáculo. Como em uma sinfonia, os registros vocais nos revelam sons ora harmoniosos, ora dissonantes, num andamento que passa por solos, duetos e momentos corais. As construções musicais do espetáculo mostram uma existência não lógica de sons, potentemente comunicante, algo além de uma construção ordenada de acontecimentos. Para que o espetáculo chegasse a essa estrutura não linear, a equipe de criação traçou um percurso também não lógico de triagem das gravações. São definidos eixos de classificação mutáveis, a partir dos quais a equipe faz uma primeira seleção dos materiais. Após isso, escolhe e organiza os documentos que estarão no espetáculo através de uma sensibilidade musical, fora dos preceitos narrativos: 9 Livre tradução do trecho em francês: “Ici, il s’agit de faire coexister différentes paroles, mais plus seulement dans un montage successif comme dans les pièces précédentes. À certains moments, on tente de les faire exister en même temps, ce qui produit quelque chose de très nouveau pour moi – des formes de résonance qui me permettent de me libérer du montage linéaire. Il ne s’agit plus de créer un rapport tiers à partir de deux éléments, mais un faisceau de relations possibles, sur des niveaux à la fois de contenu, de forme et de situations : le sens devient une tonalité mouvante, un accord complexe fait de registres toujours changeants.”

Catalogo Mitsp 2018  

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