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tura e a atriz Emmanuelle Lafon que respira serenamente. Dando início à sua partitura sonora ela agradece a presença do público ali naquela noite, respira já com o fôlego um pouco mais curto e começa a falar com alguém íntimo e ausente a quem deixa uma mensagem oral ao se levantar da cama. Nota-se ali um ligeiro sotaque canadense, a voz duvida, as consoantes hesitam, as vogais se arrastam, vão ganhando espaço e de repente se transformam em uma repetitiva e desconhecida prece. Para quem ainda não conhecia a proposta dos espetáculos do Encyclopédie de la Parole, não era possível em um primeiro momento suspeitar que aquilo que se ouvia era a reprodução de falas gravadas. A primeira fala instaura uma atmosfera, cria uma qualidade de escuta, uma relação de confiança com a plateia permitindo à atriz muito sutilmente deslizar para outra fala. Cria-se um pequeno estranhamento respiratório, em seguida uma ruptura de ritmo, um choque de sentido... e o jogo está lançado. Embora não me recorde com exatidão da sequência falada, lembro-me de que aquilo que mais me chamou a atenção na performance da atriz era o deslizar de uma fala para a outra e a metamorfose corporal que isso induzia. Seus gestos, postura e expressões se deixavam modelar pelas variações orais, sem que houvesse a vontade ou a necessidade de representar um personagem, ou imitar a pessoa “dona” da fala. Era como se a atriz se deixasse hipnotizar por aquilo que dizia, transformando-se através da própria ação de falar e não em função do conteúdo da fala. Havia sempre uma minuciosa surpresa que se renovava a cada fala, um prazer em descobrir a plasticidade daquele corpo-voz. Vi esta performance com estudantes universitários de teatro no contexto de um “Atelier du spectateur”, um curso voltado para a experiência do espectador e a análise da representação, no qual debatíamos e estudávamos em sala de aula diferentes espetáculos. Parlement deu o que falar. A estética do espetáculo contrariava as expectativas e os a prioris teatrais de uns, e revelava, a outros, uma abordagem lúdica da fala no palco. Uns diziam que o espetáculo, por ser uma justaposição de falas gravadas, não possuía uma real dramaturgia, outros, brincando de reconstituir mentalmente os contextos de enunciação das falas, não mostrados em cena, contavam ter vivenciado o espetáculo como uma experiência em si, como um jogo de imaginação. Havia também aqueles que abandonaram a tentativa de seguir o sentido das falas, uma vez que o que importava era vê-las sendo ditas e não o que efetivamente diziam. E havia ainda aqueles que, embora admirados com a virtuosidade da atriz, não reconheciam o espetáculo como uma forma teatral, mas como a apresentação de um exercício vocal. Saímos dali repletos de nossas discórdias, mas com a certeza de que algo em Parlement intrigava. Ao me debruçar novamente sobre o trabalho de Lacoste, e retraçando o episódio da aula que me veio à memória, vejo com recuo que a discussão suscitada por Parlement tocava em um ponto nevrálgico da cultura teatral francesa. Pois tanto no que diz respeito à concepção de uma dramaturgia quanto no que concerne à atuação, a performance vinha questionar, de forma talvez inédita para alguns alunos, o estatuto da fala nas práticas teatrais. O que primeiramente incitava a curiosidade ou a crítica dos alunos era a possibilidade de conceber uma dramaturgia composta exclusivamente de falas, que não criam entre si nem diálogos, nem história, nem representação. Duvidando da natureza e da capacidade mimética do teatro, Joris Lacoste explora, desde suas experimentações com o Projet W, métodos, ferramentas e estratégias para desconstruir o pacto de ficção que define, mesmo que tacitamente, o tipo de expectativa que o espectador tende a ter diante de um espetáculo teatral: Não tenho a convicção de que o teatro disponha de meios particularmente adaptados para contar ou representar histórias, expondo situações, ou mostrando subjetividades que se enfrentam em um espaço específico. No entanto, este continua sendo o modelo dominante das dramaturgias atuais. A ideia, em particular, de que o teatro nos apresenta um

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Catalogo Mitsp 2018  

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