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a expectativa é a de que o “pequeno” não seja indicador de obras artísticas de má qualidade. Ao contrário, são condições a partir das quais a própria linguagem se articula. No caso do teatro, é ideia que pressupõe dramaturgias sintéticas no plano formal. Quem sabe com poucos personagens e em situações concentradas (se for este o caso, o de um teatro de personagem e situação), em que o plano de pensamento seja mais importante e não dependa de muitos recursos materiais para a encenação. Ou que se inventem com meios que, senão estes, estejam preocupados com a concisão poética. Então, o pequeno formato já não será uma contingência e sim um campo de provocações, de fomento criativo. E assim tem sido. Nos dois primeiros editais tivemos cerca de 200 inscritos (por edição). No terceiro, o número subiu. Destes, selecionamos três textos por ano, que foram montados e ganharam a cena durante as mostras. Os textos escolhidos perfazem um amplo painel da sociabilidade e das subjetividades emergentes no Brasil. De uma revisitação/homenagem a Plínio Marcos que refaz o retrato e relocaliza os párias e as margens sociais do país no presente (Hotel Jasmim, de Claudia Barral) à narrativa “em pedaços” sobre a condição da mulher e do feminino (Memórias Impressas, de Claudia Schapira, e A mulher que digita, de Carla Kinzo), do nonsense beirando o fantástico e lambendo a ficção científica que metaforizam, entre outras coisas, a grande e paradoxal solidão existencial no tempo das redes (O teste de Turing, de Paulo Santoro; Os arqueólogos, de Vinícius Calderoni; O Taxidermista, de René Piazentin; e Mantenha fora do alcance do bebê, de Silvia Gomez), até fábulas desconstruídas sobre os impasses sociais que alcançaram o estado de aporia em que vivemos (ANTIdeus, de Carlos Canhameiro, e Boi ronceiro, de Ricardo Inhan). Na quarta edição, em andamento, seguem em montagem as obras de Ave Terrena (As 3 uiaras de SP City), Jhonny Salaberg (Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã) e Marcos Barbosa (Necropolítca). São em geral escritas de jovens autores, inéditos ou recém-lançados às tábuas. O edital através do qual os textos são selecionados não define idade, mas a prevalência de jovens autores entre os inscritos, se aproximada do baixo valor do prêmio, já diz alguma coisa sobre os modos de funcionamento do sistema de produção teatral. A repercussão pública do projeto tem sido uma alegria. As mostras têm acontecido com boas plateias, o público está vindo. E o reconhecimento institucional também veio. Nas duas primeiras edições, ao menos um dos três espetáculos nascidos do edital esteve entre os mais premiados do ano e o próprio Centro Cultural São Paulo foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro, na categoria Inovação, “pelo estímulo à experimentação de novas formas cênicas, dramatúrgicas e de produção”. Em 2016 começamos uma discussão com a Secretaria Municipal de Cultura, que não avançou. A ideia é ampliar o alcance do edital: premiar mais autores e multiplicar a mostra, fazê-la circular pelos outros teatros da prefeitura. Desta maneira teríamos algo inédito, sem par entre os festivais de teatro brasileiros: uma mostra de teatro só com espetáculos criados a partir de dramaturgia original, de autores contemporâneos e vivos. Nenhuma garantia de sucesso. Seria, sem dúvida, um projeto de risco, como tem sido. É que entre o texto e a cena há um espaço mais que razoável, que é o da criação teatral propriamente dita. Então, entre outras possibilidades, está a de a montagem malograr. Esta é a sua inegociável condição. Avaliação: quanto ao horizonte da prospecção estética que o projeto evidencia, o dado que logo salta aos olhos é que se trata em princípio, deliberadamente, de uma abordagem relativamente conservadora da ideia de dramaturgia. O edital seleciona textos para teatro em um momento de emergência das dramaturgias que já o abandonaram. Mas aí voltamos ao princípio, quando desconfiávamos da função da curadoria como aquela em que prioritariamente se busca a novidade formal. Antes dela, insistimos, é preciso considerar o contexto das urgências. E ele nos diz, hoje – apesar de todos os apelos teóricos e, sem dúvida, de parte considerável da produção teatral conclamando uma cena que abandone a fábula e o texto –, que o Brasil, além do bem e do mal, continua vivendo violentamente o choque de realidades, subjetividades e formas de sociabilidade a um só tempo arcaicas, modernas e contemporâneas. E o contemporâneo é fruto de uma dialética fake, ou seja, sem salto qualificativo porque o arcaísmo, modernismo e pós-modernismo permanecem justapostos e não em embate dialético.

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Catalogo Mitsp 2018  

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