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diferenças, se observarmos as produções regionais? O que o elemento de regionalidade tem oferecido em termos de distinção em relação aos modelos hegemônicos de linguagem? De outro modo: o que é que o teatro brasileiro, nas condições dadas, está performando não só em termos de invenção, de novidade, mas também nos termos da tradição? Em outra frente, a dos fatores mais marcadamente externos: independente da novidade formal, que elementos da sociabilidade neste Brasil da aporia, cunhados na criação cênica, têm interesse para o trabalho curatorial, a ponto de indicarem campos de pensamento visíveis, prontos para aqueles arranjos, aquelas “formalizações intencionadas”? Quais os modos próprios de criação e produção teatral no Brasil atual e sua relação com o precário panorama de uma esperada política de fomento às artes? Se levarmos em consideração que os fatores que constrangem a criação em termos de produção surgem amarrados às questões de fundo sobre as quais o pensamento curatorial se orienta, a insuficiência dos meios tem consequências também para o trabalho curatorial? Propomos então que aquelas ótimas expressões usadas por Malzacher a partir de uma percepção geral do trabalho do curador (“amplo contexto”, “experiência coletiva”, “campo vasto da comunicação performativa”) possam ser visitadas nos terrenos específicos da linguagem e das operações de fruição, como ele propõe; e também, decididamente, que possam ser utilizadas como princípio para o fomento de uma concepção de curadoria cujo contorno é desenhado com o lápis de uma experiência em que a linguagem se enraíza em chão próprio, não genérico. Uma concepção que não tome como acidente o fato de que nos jogos de linguagem está implicada uma sociabilidade com dinâmicas, materiais e impasses particulares. Em que, portanto, os elementos a serem performados – os estéticos bem como os conjunturais – têm condições de existência singulares. Para lembrar uma anotação importante de Marvin Carlson sobre as relações entre performance e política (ele refere-se a perguntas lançadas por Dwight Conquergood): quais são as consequências de se pensar a cultura “como invenção performativa que se desenrola, ao invés de um sistema reificador? [...] Como a performance reproduz, permite, naturaliza; ou desafia, subverte, critica a ideologia?” (CARLSON, 2010). Curadoria e crítica, mediação e mercadoria Não são poucas, em tese, as pontes e as reverberações mútuas entre curadoria, crítica e mediação cultural, ainda que uma disciplina não se limite a outra, que cada uma tenha as suas linhas de fuga próprias. De todo modo, as definições não estão fixadas porque cada um destes ofícios pede caracterizações que estão longe de serem pacíficas. Para o propósito deste artigo, vamos retomar uma fala de Mário Pedrosa sobre a função da crítica, feita em um momento determinado, o de maior temperatura da discussão sobre a arte moderna no Brasil: “O problema da crítica? Recriar o processo da obra e a consciência da criação. O crítico é, pois, o apreciador consciente da obra de arte” (PEDROSA, 1995).2 Atualizando uma posição de Baudelaire, Pedrosa vê na crítica um ofício parcial, apaixonado, político, que assume o ponto de vista não para fechar, mas para abrir horizontes. Ressalvada a tomada de posição política, é uma fala que se aproxima do projeto dos críticos da nossa modernidade teatral em alguns aspectos. Primeiro, na vocação pedagógica que foi tarefa quase comum. Em Pedrosa, ela se expressa no desejo de “recriar” a obra para discutir a consciência da criação. Em Décio de Almeida Prado ou Sábato Magaldi, esse desejo vai aparecer como militância permanente pela divulgação e renovação do repertório dramatúrgico e das técnicas de atuação e encenação, estes, por sua vez, também reveladores de uma consciência que haveria de dar nova cara, mais avançada e mais preparada, à cena nacional. Na literatura, na crítica de Antonio Candido em especial, é o trabalho de cotejamento entre forma artística e processo social que tem ampla reverberação em uma didática que visa ao acesso do leitor às letras. O fato é que, já nos anos 1950, o mesmo Pedrosa intuía o estreitamento radical dos espaços para estas pedagogias humanistas, que vinham sendo substituídas nos canais instituídos 2

O texto foi publicado originalmente n’O Jornal do Brasil em 17 de janeiro de 1957.

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Catalogo Mitsp 2018  

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