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ras diferentes – salvar o ideal de uma sociedade consensual, acreditando que a racionalidade incentivaria a humanidade a superar seus interesses individuais. Mas nós não somos seres racionais, a emoção sempre terá um papel, como Chantal Mouffe enfatiza no The Democratic Paradox (2000): “Enquanto desejarmos um final para o conflito, se quisermos que as pessoas sejam livres, devemos sempre permitir a possibilidade de o conflito surgir e prover a arena onde as diferenças possam ser confrontadas.” O conceito de Mouffe de “pluralismo agonístico”, portanto, objetiva a democracia como uma arena na qual podemos representar nossas diferenças como adversários sem ter que reconciliá-las. Numa época em que o ditado “Quem não está conosco, está contra nós”, que outrora fazia as pessoas franzirem a testa com estranhamento, renasce em todos os lados do espectro político, precisamos de agonismos brincalhões (mas sérios) nos quais as contradições não somente são mantidas vivas, mas, acima de tudo, podem ser livremente articuladas. Apenas dessa forma podemos impedir um antagonismo que aborte toda negociação. Não é por acaso que o conceito de Mouffe pegou seu nome do teatro, de “agón”, que significa o jogo, a competição de argumentos na tragédia grega. Enquanto alguns dos trabalhos do diretor de teatro suíço Milo Rau fiam-se no choque muito bem trabalhado e no realismo profundo, sua encenação de julgamentos políticos parece ser um compêndio de exemplos fiéis de um teatro agonístico. The Moscow Trials, de 2013, apresentou uma montagem teatral na qual três casos legais traumáticos contra artistas e curadores russos foram novamente levados frente ao juiz, mas desta vez no âmbito artístico. Protagonistas dos julgamentos atuais assim como pessoas com laços próximos a elas confrontavam-se de maneira artificial, mas, ao mesmo tempo, numa situação altamente realística. Curadores, artistas e críticos lutavam por liberdade artística por um lado, moderadores de TV conservadores, ativistas ortodoxos e sacerdotes, do outro. Por três dias, o Centro Sakharov em Moscou tornou-se um espaço agonístico, no qual opiniões radicalmente diferentes eram trocadas de tal forma que não seria possível fora dali. Como Mouffe sugere, o espaço público é o “campo de batalha” para a luta agonística entre projetos hegemônicos opostos. Em uma pequena escala, o teatro pode criar tais esferas de troca aberta, mesmo em sociedades em que há pouca liberdade de expressão ou nas democracias ocidentais nas quais o espaço entre consenso e antagonismo está se tornando cada vez mais estreito. Arte – usando a diferenciação do teórico de arte Miwon Kwon — não dentro de um espaço público, mas como espaço público pode ser uma das contribuições mais importantes que o teatro tem a oferecer. Esse espaço público não se limita ao espaço físico e material da apresentação. Assim como os julgamentos iniciados por Milo Rau foram eventos únicos com uma plateia bastante limitada, eles estenderam seu palco para o âmbito das notícias e outras mídias, em que discussões sobre política e arte continuaram. Enquanto o outrora corrente instrumento crítico de escândalos mediados – uma característica essencial da arte política, especialmente na segunda metade do século XX – parece ter ficado desdentado devido à sua previsibilidade, ele às vezes ainda consegue quebrar a rotina. O diretor croata Oliver Frljić é um dos protagonistas de uma abordagem neoescandalizadora, e cria, regularmente, calorosos debates na Croácia, Sérvia ou Eslovênia, onde ele rotineiramente coloca seu dedo nas feridas da crise de identidade pós-iugoslava. Esse método não funciona em todos os lugares; na Alemanha, por exemplo, o trabalho de Frljić é considerado controverso, mas não notoriamente perturbador em termos emocionais. Escândalos desenvolvem seu potencial onde as linhas de demarcação dentro de uma sociedade precisam se tornar visíveis e/ou onde há uma necessidade de se encontrar aliados por meio da concentração em suas próprias tropas. Manipular a mídia de massa com o objetivo de disseminar uma mensagem o mais amplamente possível é o domínio do grupo norte-americano Yes Men. Sua estratégia é primeiramente chegar às manchetes dos noticiários com uma notícia falsa, mas que desarma, e depois chegar ao noticiário novamente revelando a traquinagem. Em 2004, o grupo recebeu muito destaque quando conseguiu aparecer no noticiário da BBC no papel do porta-voz da Dow Chemical,

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Catalogo Mitsp 2018  

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