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Foi um momento importante de empoderamento dos espectadores como coautores de sua própria experiência, mas teve um significativo efeito colateral: o público passou a ser visto menos como um coletivo possível e mais como um agrupamento de pessoas. Teatro pós-dramático e dança conceitual — mais uma vez ecoando as mudanças na sociedade — formaram um espectador que, ao emancipar-se da força da imaginação do diretor, assemelha-se ao sujeito neoliberal ideal que busca seu individualismo no consumo ativo. A reação resultante do teatro pós-dramático e da dança conceitual para o uso frequentemente simplista e moralista de noções como verdade, realidade ou mesmo política, em um jogo complexo de camadas, ambiguidades e requestionamentos, deu lugar a novas perspectivas e possibilidades que também caminharam longe no campo do teatro dramático. Mas construindo sobre as reflexões de filósofos que retiraram seus conceitos teóricos de suas próprias experiências e engajamentos políticos (Michel Foucault lutando pelos direitos humanos em prisões com o Groupe d’information sur les prisons, Alain Badiou engajando-se em políticas de asilo e migração na Organization politique, Jacques Rancière como membro temporário de um grupo maoísta, para mencionar apenas alguns), a nova geração de pensadores, artistas e curadores com muita frequência esqueceu-se de vincular seu pensamento, ainda mais abstrato, de volta à própria realidade contemporânea e concreta. Como resultado, ficamos acostumados demais a chamar teorias filosóficas e performances de “políticas”, mesmo que sejam apenas muito remotamente baseadas em pensamentos, já estes abstratos em relação aos impulsos políticos concretos que os desencadearam. Uma ideia homeopática, de segunda mão sobre filosofia e arte políticas tornou-se a linha principal do discurso cultural contemporâneo. O que se vê é uma linha tênue entre a consciência necessária de que tudo é contingencial e a pura preguiça. Complexidade pode se tornar uma desculpa para relativismo intelectual e político. Os escritos de Rancière, especificamente, têm sido usados como argumentos principais de lados muito diferentes – seu ceticismo em relação a qualquer declaração claramente política em arte e sua valorização do poder da ambiguidade e da ruptura como sendo as verdadeiras virtudes da arte ajudaram a abrir o caminho para definições amplas do que seja o político. Ao final, se tudo é político, nada mais é político. Afinal, onde estamos hoje? Como pode o teatro ainda criar esferas nas quais alternativas possam ser imaginadas, testadas, discutidas e confrontadas coletivamente? Como o teatro pode criar modelos alternativos de como podemos viver juntos, ou do tipo de sociedade ou mundo que desejamos? Um olhar sobre o cenário das artes performativas contemporâneas mostra um forte desejo por um teatro que não apenas se foque em questões políticas prementes, mas que também se torne um espaço político – uma esfera pública – em si. Não há um órganon comum a seguir. Estamos num período de experimentação, de procura – artistas e público da mesma maneira. Mas há fragmentos suficientes (às vezes até mesmo grandes bocados) de trabalho artístico e engajamento político que nos permitem supor o potencial de um teatro engajado novamente. Um teatro que mantenha a autorreflexão necessária das décadas passadas, mas evite as armadilhas da pura autorreferencialidade. Isso compreende o contingencial não como algo meramente arbitrário e uma desculpa para o relativismo, mas como um chamado para um engajamento ativo que contrabalanceie suas consequências. * Quando suas calças estão literalmente grudadas ao seu assento do teatro em uma Serata Futurista (saraus organizados pelos futuristas italianos a partir de 1910 que uniam teatro, pintura, música e, frequentemente, piadas), esse tipo de participação pode não ser particularmente desejável. Mas embora a participação – nas artes e na política – nem sempre seja agradável, a crença de que o indivíduo pode participar na formação da sociedade é uma necessidade da democracia. Por outro lado, a participação putativa com a qual somos permanentemente confrontados dentro de um sistema capitalista totalmente inclusivo (que – diferentemente da previsão de Marx – tem sido, até agora, capaz de absorver suas contradições internas por afirmação) fez com que o termo se tornasse quase inútil: um pacificador que perversamente delega

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Catalogo Mitsp 2018  

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