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obra revisitada, o tempo gasto por cada visitante, o tempo de trabalho dos atores e a duração de toda a exposição, o que cria, com suas mudanças permanentes, uma dramaturgia própria. Retrospective “compõe-se de situações que questionam as várias experiências de como usamos, consumimos e produzimos o tempo”.18 Mas enquanto em Retrospective o tempo é uma consideração essencial, em muitas outras exposições ao vivo ele parece mais um acessório: por mais que Obrist enfatize verbalmente seu interesse pela duração, observando-se cuidadosamente suas curadorias baseadas no tempo, o potencial real do “ao vivo” parece negligenciado: em 11 Rooms19 (cocuradoria com Klaus Biesenbach), por exemplo, trata-se de uma exposição onde onze trabalhos de arte ao vivo são colocados em onze cubos brancos: as performances são claramente estruturadas como trabalhos de arte, como objetos em uma exposição um tanto quanto antiquada. As performances duram o dia inteiro durante a duração da exposição. Mas as convenções para assisti-las não são desafiadas. Talvez o tempo em que se assiste a elas seja mais longo do que a média infame de 30 segundos dedicada a cada trabalho de arte na maioria das exposições, mas não há interesse em criar uma experiência de duração no visitante, nem mesmo uma experiência de duração do performer, a mudança de seu corpo, sua atitude etc. É temporal, porque é isso que o formato clássico da exposição requer. Para Obrist e muitos dos artistas com quem ele trabalha, o principal interesse é substituir objetos por pessoas – e não desenvolver trabalhos de arte que consistem em pessoas. A abordagem é (com algumas exceções) na maior parte escultural ou espacial: o material é o ser humano. Ou como Obrist mesmo diz: 11 Rooms é “como uma galeria de esculturas onde todas as esculturas vão para casa às 18 horas”.20 Longo demais, curto demais, rápido demais, lento demais Mas o tempo é uma ferramenta mais poderosa do que isto. Teatro não dramático ou pós-dramático, por exemplo, “em vez de usar um Welt-Zeit ficcional” (e assim fingir uma tempo-realidade diferente) insiste em “constituir tempo e espaço no palco”. “O que é especial em relação a esse tipo de teatro é a orientação de toda a situação teatral no sentido da relação entre atores e público.”21 O teatro nesse entendimento não é necessariamente definido por uma história, uma ficção, um faz de conta e arcos dramáticos etc. (embora possa conter tudo isso) – ele é definido pela criação de uma realidade temporariamente compartilhada. E esta é uma oportunidade também para a curadoria performativa. Truth is concrete (A verdade é concreta)22 foi um projeto curatorial ambicioso montado em setembro de 2012 em Graz, na Áustria, em que nós (a equipe de curadoria do Steirischer Herbst Festival) tentamos forçar essa noção ao extremo. O ponto de partida foi a forte impressão do papel dos artistas no turbilhão político no mundo inteiro (de Tahrir a Syntagma, de Zuccotti à Praça Taksim, do Japão depois de Fukushima a Moscou durante a onda de manifestações, de Londres, Budapeste, Atenas, Istanbul, a Ramallah, Tel Aviv, Túnis, Rio), e a pergunta aberta sobre o papel possível das estratégias artísticas nessas situações. Concebido bem antes do início do movimento Occupy e tendo ocorrido pouco depois de seu primeiro aniversário, o acampamento-maratona Truth is concrete reuniu mais de 200 artistas, ativistas e teóricos. A eles se juntaram 100 estudantes e jovens profissionais, bem como a plateia local e internacional, que se encontraram no campo comum da arte e do ativismo: um acampamento-maratona 24 horas por dia, sete dias por semana, com 170 horas de palestras, apresentações, performances, produções, discussões de exploração de estratégias e táticas úteis na arte e na política. A máquina-maratona funcionou sem parar – às vezes muito rápida, outras, muito lenta, – o dia inteiro, todos os dias, e a noite inteira, todas as noites. Produziu pensamento, argumentos, conhecimento, mas também criou frustração e exaustão. Usou o tempo como uma ferramenta para criar uma experiência social extrema. Mas ao fazer isso, não era ela somente um espelho ou até mesmo o cumprimento da agenda neoliberal de mais e mais, de trabalho extremo e disponibilidade permanente? Será que ela não apenas prolongou a corri-

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Catalogo Mitsp 2018  

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