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Mais do que apenas um “programador” ou “apresentador” que viaja pelo mundo para escolher trabalhos e remendá-los juntos, [o curador] é aquele que questiona pressupostos preconcebidos que formatam os trabalhos artísticos, assim como o seu próprio papel na formulação desse discurso. (FERDMAN, 2014, p. 17)

Curadoria Nos últimos anos, o debate a respeito da curadoria em artes cênicas vem ganhando destaquee os festivais têm sido um ambiente favorável para observar algumas dessas experiências. O surgimento de eventos e publicações dedicados ao tema evidencia uma preocupação em contextualizar e conceituar esta atuação. Para avançar na discussão, nos parece pertinente visitarmos o percurso da curadoria em artes visuais, linguagem que consolidou práticas, amadureceu teorias e expandiu a função, a qual se deslocou em direção a outros campos. Ao longo do século XX, as ebulições artísticas repercutiram diretamente no papel do curador. Primeiramente vinculado às instituições – sobretudo aos museus –, exercendo um papel de cuidador e zelador do acervos (GROYS, 2013), o curador passou a ocupar gradativamente uma posição mais central, “um papel mais proativo, criativo e político no desempenho da produção, mediação e divulgação da arte em si” (O’NEILL, 2012, p. 9). Nesta breve visada histórica, destacamos os seguintes momentos: a contestação da institucionalização da arte pelas vanguardas das primeiras décadas do século passado; a atribuição da função de mediador ao curador a partir do final dos anos 1960; a tendência do curador-autor do final dos anos 1980; e a consolidação de um discurso centrado no curador na década de 1990. Nos concentraremos nos anos 1960, quando a força dos movimentos das neovanguardas – a exemplo da Arte Conceitual, Body Art, Pós-Minimalismo, Arte Povera, Happening e Performance – irrompe no espaço expositivo. As experimentações dessa época distanciaram os artistas do objeto e “desmaterializaram” a arte em ideias e conceitos; deslocaram papéis, com os próprios artistas confundindo-se com os curadores. As exposições coletivas de curadoria independente passaram a ser pensadas sob a lógica de projetos artísticos (CASTILLO, 2008). Para estes eventos produziam-se obras inéditas, criadas especificamente para as ocasiões, em um processo de organização e preparo envolvendo artistas e curadores para a exibição, enfatizando a centralidade da apresentação da obra e sua função no espaço-tempo (O’NEILL, 2012). São exposições emblemáticas deste período: 557,0871 de Lucy Lippard, Happening & Fluxus2 de Seth Siegelaub e Quando as atitudes se tornam forma: Trabalhos, Conceitos, Processos, Situações, Informações de Harald Szeemann. 1 2

Exposição realizada no Seattle Museum, em 1969. Exposição realizada em Kölnischner Kunstverein, em 1970, organizada com Hans Sohm.

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Catalogo Mitsp 2018  

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