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uando fui convidada a escrever sobre curadoria para o catálogo da MITsp, fiquei surpresa e busquei compreender quais eram as expectativas. Consequentemente, busquei também as minhas possibilidades de atender a esse chamado, uma vez que minhas articulações acerca do fazer teatral e de sua reflexão são expressadas mais comumente através da fala, em conversas informais, debates, infinitas reuniões de trabalho e, particularmente nos últimos anos, nas ações do cotidiano de um grupo teatral. Escrevo mais raramente do que gostaria e, se o faço aqui, é com a esperança de colaborar na construção de um registro que compartilhe vozes diversas e provoque outras insurreições. Recapitulando algumas conversas com Luciana Romagnolli sobre teatro, festivais, mostras, representatividade, programação, entendi o convite como uma provocação para trazer a minha perspectiva sobre curadoria a partir da experiência como integrante do Espanca!, um grupo de teatro que já foi programado em muitos festivais ao longo de 13 anos de trajetória, mas também como curadora da mostra Polifônica Negra e coordenadora da programação do Teatro Espanca!. Além disso, como mais recentemente estou ocupando a função de Diretora de Promoção das Artes na Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, pretendo falar um pouco da experiência de colaborar na concepção do FIT-BH 2018 – Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte. Mas antes gostaria de conversar um pouco sobre a palavra curadoria. Desde que comecei a pensar neste texto, me veio o desejo de compreender um pouco melhor a relação entre a cura e a função de curador. A cura alopata, muitas vezes, cura o sintoma e busca a eficiência do resultado imediato. Mas existem possibilidades de cura como processo, sobretudo as vindas de povos originários de culturas que enxergam a natureza como força vital. Refletindo sobre a cura, procurei o Pai Geraldo (coordenador da Casa de Cultura Lodé Apará, em Santa Luzia, MG) pra me falar mais sobre bere, um ritual de cura do Candomblé. Contei para ele que estava tentando entender melhor a curadoria artística sob esse viés. Ele me respondeu bastante interessado na conversa e me felicitou pela “percepção da existência de uma relação entre a curadoria (ao se falar de arte) e a cura (marcas feitas nas pessoas em várias partes do corpo)”.

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Catalogo Mitsp 2018  

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