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músico eletropunk a um quarteto barroco, em Hamlet, ou em um teatro musical atravessado pelo patético e pelo melancólico, em King Size, a musicalidade aqui engendra outros modos de cena. Porém, é importante relembrar, a palavra aqui também vira música e a música, palavra, como em outras obras e ações dessa edição. Por fim, a questão de “mediação e censura nas artes”, no contexto do Brasil atual, estará presente nas Ações Pedagógicas e, especialmente, nos Olhares Críticos, por meio do seminário “O Estatuto da Arte no Brasil Contemporâneo: Liberdade, Alteridade, Mediação”. Essa discussão é mais do que urgente face às polarizações acirradas que estamos enfrentando na esfera pública e o risco de uma “censura prévia” ser assimilada – velada ou inconscientemente – no âmbito das instituições culturais, dos festivais e das próprias práticas artísticas. Quem poderia imaginar que, em pleno século XXI, o corpo nu nas artes ainda se configuraria como ameaça e tabu? Por outro lado, a problematização dos limites de uma autonomia em abstrato da arte é igualmente necessária, a fim de que possamos reconhecer, de fato, o(s) lugar(es) e a(s) voz(es) do outro. A desqualificação sumária das demandas dessas vozes ou a recusa intransigente ao diálogo – substituído, muitas vezes, por “palavras de ordem” em looping –, são extremos inconciliáveis que dificultam o avanço da discussão – e as necessárias ações de reparação e de estabelecimento de igualdades de direitos. Nessa quinta edição ainda teremos uma nova ação, ensejada desde a primeira MITsp: a MITbr – Plataforma Brasil, um programa de internacionalização das artes cênicas brasileiras. Fruto do incômodo pela pouca visibilidade no exterior da potente produção contemporânea local, no âmbito do teatro, dança e performance, idealizamos um projeto-piloto que procura jogar luz nessa produção, criando, por um lado, contextos de diálogo com tais trabalhos e, por outro, se distanciando da lógica mercantilista das feiras artísticas. Acreditamos, nesse sentido, que nossa criação cênica mereça ser compartilhada no âmbito internacional, não apenas por sua qualidade e força, mas também pelas possibilidades de tensionamento e de inflexão que ela pode provocar em outros contextos culturais. Lembramo-nos de uma conversa que tivemos há vários anos, na qual dissemos que se a MITsp conseguisse realizar-se por cinco edições seguidas, então, talvez, somente aí, ela pudesse aspirar a uma vida longa. Que os próximos anos confirmem tal suposição! Enquanto isso, esperamos que as obras, as discussões e os intercâmbios previstos para essa quinta edição possam nos trazer algumas luzes e sopros, pequenos que sejam, para atravessarmos a escuridão e a surdez crescentes de nossos tempos.

AntOnio AraÚjo idealizador e diretor artístico

guilherme marques

Idealizador e diretor-geral de produção

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Catalogo Mitsp 2018  

Catalogo Mitsp 2018

Catalogo Mitsp 2018  

Catalogo Mitsp 2018

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