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Julian*n, sob esta ótica, aparece como um Íon empoderado o suficiente para confrontar Sócrates – o Sócrates que mora em cada um de nós – diretamente por meio de palavras, de ações e de música. É desconfortável pra caralho. Mas, no final das contas, o espetáculo leva às últimas consequências o imperativo ético inescapável de ouvir o outro, independentemente de qualquer possível empatia. E isso é muita coisa. #13 O espetáculo de Christoph Marthaler, King Size, estrutura-se como uma Liederabend, literalmente uma noite de canções, uma noite musical, um sarau, ao longo do qual dois atores-cantores e um pianista apresentam um repertório de registros variados, que vai desde canções mais eruditas de Mahler, Satie e Wagner, até músicas mais populares, como uma canção dos Jackson 5. O trio principal apenas canta e performa situações físicas inusitadas que entram em contradição com o aparente realismo do cenário, um quarto de hotel onde a estrela é a cama King Size do título. Além dos três, uma velha senhora entra em cena sem razão aparente, dá alguns textos em prosa e interrompe a cantoria com ações bizarras, como na cena em que come um macarrão que estava guardado em sua bolsa. Nesse espetáculo, em que o textocentrismo é especialmente recusado, já que todas as ações são estruturadas em torno dos afetos produzidos e evocados pelas músicas escolhidas pela dramaturgia, temos outro exemplo de uma forma de rapsódia, menos radical do ponto de vista da concepção cênica, que se aproxima do que mais vulgarmente reconheceríamos como um espetáculo musical – afora as interrupções surrealistas da velha senhora. A dificuldade de comentar esse espetáculo, que por alguma razão me evocou o mais recente trabalho da companhia Hiato, de São Paulo, intitulado Amadores, é que, ao contrário do que acontece na peça dirigida por Leonardo Moreira, as canções escolhidas por Marthaler não dialogam diretamente com a minha herança afetivo-musical. Assim, é difícil falar de seus possíveis efeitos sobre um público com o qual as canções escolhidas efetivamente dialoguem, para o qual as distintas camadas de sentido e as muitas subversões dessa herança afetivo-musical produzidas por Marthaler façam de fato sentido. Apesar de eu não ter ouvidos para King Size, por conta da minha formação cultural de brasileiro, é evidente que, ao construir uma contraposição dialética entre a situação realista dos personagens, um casal com dificuldade de pegar no sono, e a situação surrealista das músicas e da velha senhora, que surgem como irrupções do inconsciente com sua lógica própria; mesmo que difícil de decifrar – “Loucura embora, tem lá o seu método”, dizia Polônio sobre o príncipe Hamlet –, Marthaler se alinha de alguma forma com o princípio fundamental de Suíte n°2, de Joris Lacoste. Para ambos os realizadores, o mais determinante para a compreensão da nossa realidade – seja do ponto de vista existencial, seja do ponto de vista social – não está nas palavras que dizemos conscientemente e nos discursos que sustentamos voluntariamente, mas naquilo que nos escapa e que apenas certas “memórias involuntárias”, não raro produzidas pelas músicas com as quais esbarramos sem querer, são capazes de evocar. #14 Já em Campo Minado, de Lola Arias, a julgar apenas pelo resultado, e não pelo processo, o conceito proustiano de “memória involuntária” não se aplica. A diretora argentina coloca em cena seis antigos combatentes da guerra das Malvinas: dois ingleses e um nepalês que lutou junto com os britânicos, e três argentinos. A experiência da guerra, como seria de se esperar, marcou-os profundamente, mas Lola tem interesse tanto nas suas memórias conscientes de eventos específicos quanto, e sobretudo, pelo modo como suas vidas puderam continuar, apesar do absurdo da guerra liderada pelos hediondos Margaret Thatcher e Leopoldo Galtieri – as máscaras usadas em cena pelos próprios performers, que reproduzem discursos de época de seus “líderes”, deixam isso claro.

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Catalogo Mitsp 2018  

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