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mito nietzschiano da batalha entre Apolo, cujo instrumento é a lira, e Dioniso, possível patrono do rock’n’roll, poderia ser feita com base no estudo dos diferentes instrumentos para a reprodutibilidade técnica de sua música empregados pelos gregos ao longo do tempo. Outra coisa que Sócrates omite nessa primeira descrição, mas que é o pano de fundo de todo o diálogo: o fato de que os rapsodos, além de intérpretes no sentido teatral e musical dos poemas homéricos, eram também intérpretes dos pensamentos dos poetas. Além de performers, eram mediadores (ou professores, ou explicadores de uma poesia épica cuja linguagem muitas vezes parecia hermética já aos ouvintes do tempo de Sócrates). Recitavam os poemas em praça pública, para todos, mas em momento posterior, já sem acompanhamento musical e sem indumentária, diante de um público seleto (e preferencialmente abastado), explicavam em prosa o teor e o alcance simbólico dos poemas em troca de dinheiro. Neste sentido aparentavam-se aos sofistas, os grandes antagonistas de Platão na batalha em torno da “verdade” (ou da correção epistemológica) dos discursos, e, como eles, assim pensavam Sócrates e Platão, precisavam ter sua autoridade social desconstruída. Em seu diálogo com Íon, a estratégia desconstrutiva de Sócrates aparece com especial clareza. Se os filósofos queriam roubar de Homero e dos poetas e artistas em geral o posto de pedagogos da Grécia, era fundamental atraí-los para fora do campo performático, para um campo discursivo no qual a potência gestual e vocal (isto é, formal) de suas interpretações não pudesse prevalecer sobre as sóbrias armas da dialética, daquela linguagem argumentativa característica dos filósofos. Assim, embora a princípio diga que tem “inveja da técnica” de Íon, o que Sócrates fará ao longo de todo o diálogo é mostrar de forma irônica que Íon não poderia se considerar um “intérprete do pensamento do poeta”, do espírito do texto; não poderia se considerar um verdadeiro conhecedor de seus múltiplos conteúdos; e, por isso, não poderia de forma alguma pretender disputar com o filósofo o posto de intérprete-explicador do que quer que fosse. Sócrates começa perguntando a Íon se ele é um especialista em todas as coisas de que fala Homero. Ser especializado num domínio específico de conhecimento, esta é a posição de Sócrates, aparece como sinônimo de ser dotado de “técnica”. Íon responde que sim, que é capaz de falar belamente sobre todas as coisas de que fala Homero. Sócrates então pede a Íon que recite algumas passagens de Homero nas quais o poeta fala da técnica de conduzir carros; da cura de um ferido; da pesca; e das artes da adivinhação. Íon o faz com a competência habitual. Na sequência de cada recitação, no entanto, criando uma separação estrita entre os conhecimentos especializados envolvidos em cada uma das passagens e o modo como as recita Íon, concentrando-se exclusivamente no conteúdo e não na forma do discurso, Sócrates submete seu interlocutor a uma série de perguntas, até certo ponto escolares, sobre as técnicas referidas por Homero. E leva-o a reconhecer, a cada vez, que não é a melhor pessoa para falar corretamente dessas coisas. Em vez do poeta, que teria a pretensão desvairada de falar de tudo, o filósofo pretende mostrar que os únicos pedagogos aceitáveis devem ser os respectivos especialistas em cada área de conhecimento: o condutor de carros; o médico; o pescador; o adivinho. E, claro, o filósofo, como o verdadeiro especialista em um conhecimento universal. Sócrates encaminha-se então para o final do diálogo: “Assim como eu selecionei para ti, tanto da Odisseia quanto da Ilíada, quais coisas pertencem ao adivinho, quais ao médico e quais ao pescador, escolhe tu, para mim, já que és mais experiente do que eu nos versos de Homero, quais são as coisas que pertencem ao rapsodo Íon, e à técnica rapsódica, aquelas que convêm mais ao rapsodo, em comparação com os outros homens, tanto investigar quanto julgar.” Íon, com uma ironia que escapa a Sócrates e a muitos leitores desse diálogo, obstina-se em sua posição: “Mas eu afirmo, Sócrates, que são todas.” Então, como exemplo derradeiro, Sócrates refere a técnica da estratégia, própria aos generais, e quando Íon insiste que domina também essa técnica, a ironia socrática é impiedosa: “Mas por que então, pelos deuses, sendo o melhor dos helenos em ambas as coisas, tanto general quanto rapsodo, estás em toda parte recitando poemas épicos para os helenos, mas não atuas como general? Ou te parece haver, para os helenos, muita necessidade de um rapsodo coroado com uma coroa de louros, mas de um general, nenhuma?” (2012: 57)

Catalogo Mitsp 2018  

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