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5 ANOS, 5 QUESTÕES, 100 MEDO

A

MITsp chega a seu quinto ano. Atravessados por um misto de alegria e incredulidade, lutamos para mantê-la viva à revelia da retração de recursos, do crescente conservadorismo e dos recentes ataques ao campo das artes. Diante das impostações risíveis do teatro da democracia que vivemos – e, pior ainda, no qual acreditamos –, que caminhos restam aos artistas da cena para se contraporem a esses fake times? Como em doenças graves, contra as quais são múltiplos os remédios, também aqui várias respostas serão ensaiadas. Tais tentativas de enfrentamento talvez

pudessem ser pensadas a partir de cinco eixos, ou melhor, questões. Evidentemente, elas se configuram sobretudo como ênfases, mais do que delimitações ou filiações rígidas, já que as obras e os encontros movem-se concomitantemente por entre várias dessas questões – além de outras, é claro.

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A primeira delas, “memória, história e política”, nos convida a revisitarmos o passado, individual e coletivo, para pensarmos criticamente o presente. Seja pelo trauma da Guerra das Malvinas, como em Campo Minado, ou pelo horror colonialista do tráfico de escravos, em sal., ou ainda pelo cruzamento entre lembranças pessoais e fatos históricos de cinco países, em País Clandestino, somos instigados a entretecer os campos da subjetividade e da macropolítica, de modo sempre movediço e borrado. Já em “migrações e deslocamentos”, a ameaça do outro – ou apenas a sua simples presença, fator suficiente para provocar desconfortos e desconfianças –, é invocada para pensarmos sobre um mundo cada vez mais repleto de muros. Palmira e AudioReflex, pela via do silêncio ou por meio de audioguias, nos levam a repensar os limites sobre quem são os novos bárbaros e aqueles que, supostamente, pertencem ao mundo civilizado. A música e a palavra – e seus inevitáveis imbricamentos – percorrem e inseminam a Mostra como um todo, de forma mais incisiva que nas edições anteriores. Poderiam, portanto, ser destacadas em outros dois “eixos”. Em “a palavra como protagonista”, possível vértice comum a obras muito distintas, como Suíte nº2, Árvores Abatidas e A Gente Se Vê Por Aqui, a palavra se concretiza em matéria, sonoridade, duração, crítica e ação. Palavras de (des)ordem, (pen)últimas palavras, palavras (des)medidas. O sopro do artista diante do ruído do mundo. Turbilhões verborrágicos como antídotos para o anestesiamento da escuta e a opacidade da fala. Por sua vez, em “reverberações entre teatro e música”, somos imersos em outros modos de diálogo entre esses dois campos, para além dos padrões cênico-musicais formatados, tão em voga na lógica dos mercados globais de espetáculos. Seja na contraposição de um

Catalogo Mitsp 2018  

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