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Um primeiro traço caracteriza o regime da lembrança: a multiplicidade e os graus variáveis de distinção das lembranças. A memória está no singular, como capacidade e como efetuação, as lembranças estão no plural: temos umas lembranças.[...] sob esse aspecto, as lembranças podem ser tratadas como formas discretas com margens mais ou menos precisas, que se destacam contra aquilo que poderíamos chamar de um fundo memorial, com o qual podemos nos deleitar em estados de devaneio vago (RICOEUR, 2007, p. 41).

O espectador percebe (e esse deve ser o intuito) a construção, que se realiza no palco como um exercício necessário de compreensão para os atores-criadores, é uma procura por tentar entender a história política “real” e a si mesmos dentro dessa história. A política funciona por meio de mecanismos complexos que hoje tendem a anular a participação efetiva dos cidadãos. Exercer a cidadania dentro desse habitat é uma aposta difícil, o sujeito contemporâneo está exposto a armadilhas que muitas vezes lhe dificultam o reconhecimento do que está em jogo. Essa preocupação da Compañía Les Five Pays nos encaminha para uma estética do “real” que procura um diálogo com a sociedade. Silvia Fernandes inicia um dossiê sobre a presença do real no teatro na Revista Sala Preta com as seguintes palavras: [...] percebe-se que o desejo de real, onipresente na pesquisa teatral contemporânea, não é mera investigação de linguagem. Ao contrário, ele parece testemunhar a necessidade de abertura do teatro à alteridade, ao mundo e à história, em detrimento do fechamento da representação, predominante na década de 1980. (FERNANDES, 2013, p.4).

Uma situação semelhante à descrita por Silvia Fernandes é a que observamos em País Clandestino, dirigido por Jorge Eiro e Maëlle Poésy: uma necessidade de dar conta da história ou, pelo menos, entendê-la, é o motor da peça. Esse leitmotiv não exclui que a reflexão sobre a própria prática teatral (eixo central das gerações anteriores) seja também um elemento configurador da dramaturgia. O ponto central, contudo, é criar os imaginários de Argentina, Brasil, Espanha, França e Uruguai e dentro deles a si mesmos. O dispositivo escolhido para esse fim é articular suas lembranças, as de suas famílias, alguns dados históricos isolados e uma e outra referência teórica. O resultado é o país “clandestino” construído no interior dos artistas. Clandestino por estar fora da História e sim nas histórias privadas dos artistas. Cinco diretores-atores jovens com currículos reconhecidos:2 Florencia Lindner (Uruguai), Lucía Miranda (Espanha), Pedro Machado Granato (Brasil), Jorge Eiro (Argentina) e Mäelle Poésy (França) colocam em questão, a partir de um diálogo que atravessa os espaços de enunciação, a situação tanto deles quanto dos cinco países de origem. Os artistas se conheceram numa residência do Lincoln Center em Nova York (2014) e decidiram realizar um projeto juntos que dura três anos. De fato, apenas esses dados nos situam dentro de um grupo que teve acesso a esse movimento de globalização do qual se fala muito, mas, como dizíamos anteriormente, nem todos podem participar. O resultado é precisamente a abertura do processo de encontro no qual se expõem e expressam desde os preconceitos existentes sobre todos os países de origem até suas vivências pessoais, num tom humorístico. Este tom é quebrado pelo relato de algumas experiências 2 Maëlle Poésy (Paris) é atriz e diretora. Em 2016, foi reconhecida com o prémio Jean-Jacques Lerrant na categoria revelação teatral do ano. Jorge Eiro (Buenos Aires) é ator, diretor, dramaturgo e docente. Foi reconhecido com os prêmios Mejor Director en la Bienal de Arte Joven (2013) e Teatro del Mundo (2014). Lucía Miranda (Valladolid) é diretora e dramaturga. Foi reconhecida com distintos prêmios, entre eles o da ONU Woman de América Latina contra la violencia de género. Pedro Granato (São Paulo) é diretor e dramaturgo. Suas obras foram reconhecidas pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo (APCA) e pela Cooperativa Paulista de Teatro. Florencia Lindner (Montevideo) é violinista, diretora, dramaturga e atriz. Em 2010, obteve o prêmio Nacional Florencio Sánchez, categoria revelação. Informação extraída de http://www.fundacionteatroamil.cl/noticia/5-razones-ver-pais-clandestino-estrenomundial-presentaremos-fiba-chile/. Acesso em

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Catalogo Mitsp 2018  

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