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mais subsidiados pelas noções tradicionais de nação e de memória coletiva. Então, nos perguntamos mais uma vez: qual o significado para nós, hoje em dia, desta cultura da diáspora? Em que medida as aflições que emergem tanto do poema de Lorde quanto da performance de Selina Thompson, sobretudo quando tratamos desses fantasmas que nos inspiram medo e desse sentimento de uma morte sempre a rondar, Para aqueles entre nós que foram impressos com o medo como uma linha tênue no centro de nossas testas, ganham terreno ao explicitar uma condição da qual nunca nos livramos e que Frantz Fanon tão bem caracterizou como aquela experiência de “uma pele que chega antes”, antes do próprio sujeito, de seu corpo, de sua história? Atualizar o debate da diáspora e torná-lo peça fundamental para pensar a sempre necessária auto-afirmação dos sujeitos diaspóricos não equivale, do meu ponto de vista, a praticar uma espécie de arqueologia perdida. Penso que denunciar o racismo estrutural de nossas sociedades ajudaria a pensar sobre a dimensão histórica da diáspora no Velho-Novo Mundo, em que pese seu espelhamento nas formas artísticas e culturais contemporâneas que de algum modo lhes são tributárias. Do lado de cá do Atlântico, nos “tristes trópicos” (mais tristes nestes tempos de uma guerra declarada pelas elites contra os mais pobres), recorremos a essa travessia muito mais como salvo-conduto para endossarmos o quanto essa diáspora representou uma nova cultura em terras ocidentais, destacando-se por sua notável capacidade de produção, de transformação e de reinvenção. Onde houvesse a presença negra africana, suas canções, seus ritos, suas danças, seu axé ajudariam a consolidar as culturas afro-americanas em territórios tão distintos como o Brasil, Cuba, as Antilhas, as ilhas do Caribe, além, é claro, dos Estados Unidos. Mas o que se preserva dessa experiência histórica da diáspora, seja em terras matriciais da empresa capitalista ou no Terceiro Mundo, corresponde a compreender como os sujeitos partilharam da monumental presença africana, cada qual à sua maneira. E como essa presença, contando apenas com a sua memória, seus laços étnicos e sua resistência cultural, conseguiu se autoinventar a partir do entrelaçamento com outras matrizes culturais dominantes. Para Lorde, a ideia “de que nunca fomos destinados a sobreviver” supõe ao mesmo tempo um desafio para os que decidiram “escapar” das formas de apagamento e silenciamento operadas pelo racismo estrutural, e torna cada vez mais inadiável a disputa por esses lugares de fala que a crescente visibilidade das questões relativas às mulheres e ao feminismo interseccional impõe. Daí ser uma constante no texto de Thompson a presença de mulheres que a acompanham nesta travessia: Saidiyah Hartman, bell hooks, Audre Lorde, dentre outras. Das lembranças que acompanham a menina de Birmingham que frequentou lugares aos quais sua pele chegava sempre antes, sal. pretende ainda recuperar um imaginário do que representou e ainda representa a carnificina da escravidão: Corpos explodidos com pólvora, pendurados, queimados no tronco, corpos deixados para se putrefazer, picados por abutres, devorados vivos por formigas de fogo, assados no espeto. Cenário dos filmes de terror que eu nunca tenho estômago para assistir vibrando na minha garganta, fazendo eco em nosso DNA e nos atrapalhando .4

Olhando de perto para a nossa tragédia particular, que perfaz as cifras escandalosas de milhares de óbitos ao ano de corpxs negrxs5, óbitos que concretamente apontam para uma 4Tradução livre do seguinte trecho peça:“Bodies blown up with gunpowder, hanged, burned at the stake, bodies left to putrefy, pecked at by vultures, devoured alive by fire ants, roasted on pikes. The fodder of the horror films I never have the stomach to watch vibrating in my throat, echoing through our DNA and choking us both..” 5Uma consulta ao Mapa da violência 2015, homicídio de mulheres no Brasil, estudo capitaneado por Julio Jacobo Waiselfisz, poderá ser de grande utilidade para traçarmos as relações entre racismo e violência contra as mulheres, em especial contra as mulheres negras no Brasil.

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Catalogo Mitsp 2018  

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