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Palmira M i lt o n d e A n d r ad e U de s c

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terror nos reaproximou de Palmira e de seus contornos legendários quando, em 2015, tomados pelo ódio execratório aos “falsos deuses” do Ocidente, os milicianos do Estado Islâmico destruíram o templo de Bel, divindade comparável ao Zeus grego e ao Júpiter romano, senhores dos deuses e do universo. Ao atacarem o teatro antigo, o tetrápilo, as colunas milenares gravadas com inscrições em grego e aramaico, ao abaterem a águia e os raios do deus solar Bel-Shamin, os terroristas feriram terrivelmente a nossa adoração pelos cultos de origem e a paixão pela arte e pela história. Pela decapitação de Khaled al-Asaad, estudioso sírio responsável pela direção geral dos sítios arqueológicos e dos museus de Palmira, e pelas imagens difundidas online com a cena do fuzilamento de 25 soldados sírios alinhados no proscênio e executados por adolescentes que se exibiam para uma plateia de muçulmanos que ocupavam a summa cavea do teatro romano de Palmira, mergulhamos abismados no impiedoso mecanismo: a destruição de imagens monumentais icônicas é figura de fundo na Gestalt mediática e propagandística superproduzida e funestamente difundida na internet pelos terroristas num rito sanguinolento.

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A arcaica e barbárica demolição de símbolos idolatrados (reconhecidos como patrimônios da humanidade por meio do culto moderno aos monumentos) é rematada pela violência da morte encenada, compartilhada e moída no engenho da mídia terrorista. A dissonância gerada na “mente civilizada” é tensionada pelo contraste entre a consciência do significado cultural de Palmira (lido, escrito e socialmente reconhecido) e uma póshistória rudimentar inscrita macabramente nos monumentos e nos corpos com um gesto malevolente narrado pela própria imagem da morte. Palmira, assim como Antioquia e Alexandria, foi na antiguidade um lugar de encontro e irradiação: num oásis do deserto sírio, entre a antiga Emesa (atual Homs) e Dura-Europos (margeada pelo Eufrates) a 230 quilômetros de Damasco, surge paulatinamente uma cidade cortada por aquedutos e estradas não geometrizadas, templos monumentais circundados por amplas áreas, portas extraordinárias, uma longa estrada com colunas esplêndidas que emolduravam lojinhas de um comércio frenético. Tudo se misturava. Como Veneza no Renascimento, Palmira (chamada anteriormente de Tadmor, localidade citada na Bíblia Hebraica como a mítica cidade fortificada pelo rei Salomão) era o centro das trocas entre Oriente e Ocidente. Anexada ao Império Romano em 64 a.C. pelo general Pompeu, tornou-se ponto de ingresso da seda chinesa, das especiarias e de todos os produtos da Pérsia, Índia, Arábia e do extremo Levante para o Mediterrâneo. Foi resultado de migrações de populações de diferentes origens durante centenas de anos e no seu apogeu chegou a ter por volta de 250mil habitantes, o que a equipara às maiores cidades da antiguidade (BROWNING, 1979). Nas palavras de Paul Veyne, a cidade era um patchwork de multiculturalismo, de comércio internacional, uma cidade oriental-aramaica onde se interpretava o grego e a ideologia voraz do direito romano, um lugar onde os deuses eram traduzidos. (BERTELLOTTI, 2016) Todavia, Palmira foi também um destes lugares onde as diferenças socioculturais e religiosas dramaticamente acabam por se anular na amálgama abrupta do autoritarismo. Foi lugar das conversões forçadas à fé monoteísta; templos viraram igrejas, depois mesquitas, e agora um amontoado de entulho. Como grande Reino que se estendeu do estreito de Bósforo ao vale do Nilo, do mar Mediterrâneo ao rio Eufrates, em lugares onde hoje se encontram o Egi-

Catalogo Mitsp 2018  

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