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Editorial

10 anos de uma escolha

s década como tal é mair em cil. Manter-se por uma Ser uma exceção é difíesta esta e cial na diferença este ideo belecer o diferentem ainda. Ter por princípidesa igante. Com r e ao mesmo po inst constante mutação é de sefiado ista-laboratório rev a o a cada context al e com a capacidadeprimeiraadadécptar ada. Exceção chega a sua ita, de revisão e uisas, de apuração, de escr São 10 anos de ideias, deumpesq pre ê, voc zado leitor, narel propósito: trazer para pre envolvimento. Tudo nocoma encont nsuráv peças para com enderóriao sime rativas que ajudem- lidade humrar escapam . Isto por meio de histtas queque quebra-cabeça da rearativas escrana ainda soitas por futuros jornalis do olhar comum, nar do ao mesmo ptam a este ada se bém tempo em que tam nham em mudar o mun universo complexo. surgiu, a obrigatoo acordo ortográfico tra Os desafios foram muitos.alisUmtanov tais nsformaram a jorn caiu e as redA esExcdigi riedade do diploma de nais o se adaptou às muda comunicação. eçã realidade dos profissio publica as em preto páginas internas impne,resscom danças. Passou de uma com conçãoteúcom o Blog, do em plataformas onli e branco a uma revista Facebook e Twitter. -o , o produto de tudo isso todas essas adequações Entretanto, mesmo com teve a sua essência de con o no meio impresso - man jornalismo apresentadriên se de ade acid o. Essa cap que fogem do cotidiantém tar realidades e expeao mescias to pósi firme no pro mo tempo em que se man moldar à realidade ar uma unicação da Unisc Com de so rência no Cur fez a publicação se torns com estarefe edição especial de 10 anos. e chegar em suas mão úcia da escolha de serórcapa. Ela simboliza a min Por isso a fotografia da rep ilustra o olhar de cadoafutu s atento verá que ela tra Exceção. Um olhar mairev ro a par inhar . Verá que ilus o cam ter que já passou pela vistista sa ou. entos que ele deix Des o passado e os ensinamular sem jamais perder de sonaalida é e a realidade, um olhar sing sobr forma, aliada com peré possíveldeseefaze mui r jornalismo, por tos e muitos anos. possível ser Exceção, Boa leitura.

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ÍNDICE


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Os últimos da fila Os últimos da fila da adoção são os primeiros na do abandono. As crianças soropositivas vivem na constante espera por uma família. É a tal da esperança líquida REPORTAGEM: BETINA NUNES SAMPAIO FOTOGRAFIA: AGÊNCIA BRASIL

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or volta das sete horas da manhã o sol nasce. Com ele, brincadeiras, amigos, mãos sujas de barro e esconde-esconde. Para cumprir a obrigação, fazer o tema de casa e ir para o banho faz parte do roteiro. Com a chegada da noite, o calor da família aumenta e o cuidado reina. Essa é a rotina diária de muitas crianças brasileiras, a

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não ser daquelas que estão na fila de adoção e, mais do que isso: são soropositivas. O dia a dia destas é sombrio e isolado. Marcado pelo constante muro que separa o preconceito de uma nova vida. Nesta incansável espera pela adoção, os soropositivos são os últimos da fila. Em 2015, houve 143 adoções de crianças e adolescentes com alguma limitação ou en-


fermidade em todo o Brasil (Corregedoria Nacional de Justiça). Das 143 adoções, apenas 19 eram crianças com o vírus HIV. Parece que o “bicho papão” mudou de nome e se chama AIDS, afinal, somado ao preconceito, este se tornou o pior pesadelo das crianças e o único capaz de acabar com os seus sonhos. O cadastro também aponta que 70% dos pretendentes à adoção não aceitam crianças e adolescentes com doenças ou deficiências. E, da parcela que aceita, a maioria só permite doenças de menor gravidade. O mais desnorteador desta realidade é que as crianças são rotuladas sem nem entender a razão. A grande maioria delas já nasceu com o vírus por ter a mãe biológica soropositiva e acabam vivendo o preconceito desde então. Existem crianças que nunca receberam um abraço. Elas são tratadas como um vírus ambulante que pode infectar a todos só com o olhar. As pessoas não fazem ideia de que o olhar destas crianças carrega muito amor e um bocado de solidão. E com o crescimento dos dentes e as suas primeiras palavras o abandono só aumenta: quanto maior a criança, mais difícil de ser adotada. Nem sei por que falei das suas primeiras palavras, afinal, ninguém quis escutá-las ainda. Até o primeiro ano de vida as crianças portadoras do vírus devem fazer um acompanhamento de saúde completo, pois após os 12 meses a doença pode positivar ou negativar. Em Santa Cruz do Sul, este trabalho é feito pelo Centro Municipal de Atendimento à Saúde, no qual

a assistente social, Tiane Lopes Reis, nos conta que os casos de crianças soropositivas adotadas que seguem o tratamento no CEMAS são praticamente inexistentes. O que mais chama a atenção é que, a cada ligação de interesse nessa parcela de crianças que esperam por uma família, a surpresa aparece. Entramos em contato com 15 abrigos do estado, questionando se poderíamos visitar a casa e, principalmente, saber informações sobre as crianças soropositivas. Em um deles a resposta foi: “Moça, nunca alguém pediu para ver essas crianças antes, é muito raro despertar interesse”. Mais uma vez, o preconceito bate na porta da realidade. Mesmo em menor número, ainda bem que existem pessoas que se preocupam com o fim da fila. A Organização Não Governamental Amigos de Lucas, de Porto Alegre, é um grupo de apoio à adoção que, além de outras atividades, realiza reuniões mensais para todos os interessados na causa, auxiliando os pretendentes a padrinhos com apoio psicológico, rodas de bate-papo e demais recursos para mostrar às pessoas que a adoção é uma causa nobre. A presidente da ONG, Rosi Prigol, nos conta que nenhuma das centenas de pessoas que já passaram pela organização adotou uma criança com o vírus HIV. As duas principais causas relatadas são o medo de perder a criança e o preconceito que ainda existe.

A face mais triste desta realidade é que mesmo não possuindo culpa, as crianças são rotuladas.

A missão dos jornalistas é passar um pouco mais de informação para as pessoas que nunca pensaram sobre o caso. Porém, de nada adianta a informação se o descaso se fizer presente. No último ano, o cadastro nacional de pretendentes à adoção computava mais de 33 mil inscritos e destes só 19 aceitaram adotar as crianças soropositivas. São milhares de histórias que não são escritas por causa da falta de informação e do medo. O velho mito que acredita que HIV é a mesma coisa que morte. O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, publicado em dezembro de 2013, mostra que nos últimos 10 anos houve uma redução de 14% na taxa de mortalidade envolvendo o HIV no Brasil. Ou seja, cada vez mais a morte pela doença está caindo. Enquanto isso, aquelas milhares de crianças seguem em um quarto fechado, imaginando uma casa, rabiscando sentimentos e desejando carinho. Crianças que, a cada comemoração imaginária de aniversário, desejam uma família antes de assoprarem a vela do bolo.

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Igreja à esquerda A Igreja Católica já foi mais identificada com ideologias de esquerda e teve papel importante na resistência à ditadura REPORTAGEM: FELIPE ANDRÉ KROTH ILUSTRAÇÃO: PEDRO ANDRADE DA SILVA

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e tentarmos generalizar o espírito dos anos 1960, diremos que foi a década das revoluções culturais no mundo. A consolidação do rock ‘n roll, a politização da juventude, o feminismo, black power, gay power, e a contracultura. Os anos 60 também foram marcados pela Revolução Cubana e pelo Woodstock. Esse período revolucionário afetaria até uma das mais poderosas e conservadoras instituições do ocidente: a Igreja Católica Apostólica Romana. Foi nessa década que o papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II. A série de conferências

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que é considerada o maior evento da Igreja no século XX levaria a uma revolução nas formas de praticar o catolicismo. Revolução que, principalmente na América Latina, acabaria por surtir efeitos também fora das igrejas. O Concílio Vaticano II ocorreu entre 1962 e 1965 e mudou a maneira como a religião era celebrada e até a imagem dos padres. A partir do concílio, os sacerdotes foram autorizados a usar trajes sociais no dia a dia e a celebrar as missas de frente para os fiéis e na língua do país em que se encontravam — antes, as missas eram celebradas em latim, com o padre de frente

para o altar e de costas para as pessoas. A Igreja Católica também passou a permitir uma interpretação maior dos textos da Bíblia e aumentou a participação dos leigos (cristãos que não integram os quadros da Igreja) nas celebrações. A doutrina católica continuou condenando o comunismo — talvez o grande “vilão” do século passado, para quem adotava o ponto de vista das grandes potências capitalistas ocidentais —, mas condenava também (ao menos na teoria) o capitalismo. Frei Betto, no livro O que é uma comunidade eclesial de base, afirma que a leitura “inevitavelmente ideológica”


do Evangelho, leva à percepção de que as posições de Jesus constituem uma “crítica implacável” ao modo de produção e a ideologia capitalistas. O cristianismo é contrário à opressão; deve estar comprometido com o oprimido, com as classes populares. Esta posição é legitimada dentro da Igreja na América Latina a partir da Conferência do Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM), ocorrida em 1968, em Medellín, na Colômbia. A conferência repensou o papel da Igreja na região, defendendo mais atenção aos pobres e às injustiças sociais. Essas mudanças levariam a Igreja Católica a uma maior identificação com ideologias políticas de esquerda. Na América Latina se desenvolveu, na mesma época, talvez a mais forte representação dessa preocupação com os menos favorecidos dentro do catolicismo: a Teologia da Libertação. Os irmãos Clodovis e Leonardo Boff, no livro Como fazer Teologia da Libertação, afirmam que esta corrente teológica nasceu da fé confrontada com a injustiça feita aos pobres. Segundo eles, a Teologia da Libertação pressupõe protesto contra a opressão e exclusão social e contra a negação da dignidade humana. Os adeptos da libertação defendem que se ultrapasse duas estratégias: o assistencialismo — que faz caridade, mas nega a própria capacidade do oprimido e gera dependência — e o reformismo — que tenta melhorar a situação dos pobres sem modificar a estrutura da sociedade.

A IGREJA NA RESISTÊNCIA À DITADURA MILITAR “O Vaticano II abriu a cabeça da Igreja Católica no Brasil, que adquiriu uma posição mais progressista a partir da Conferência Episcopal de Medellín. Na mesma época brota, das Comunidades Eclesiais de Base, a Teologia da Libertação. Sem dúvida, esses três fatores de renovação eclesial e pastoral influíram decisivamente no fato de a Igreja Católica se tornar, sob a ditadura, a voz dos que não tinham voz”, afirma Frei Betto, frade dominicano, adepto da Teologia da Libertação e preso duas vezes pela ditadura militar. De acordo com o Doutor em Sociologia César Goes, nos anos 1950 e 1960 a Igreja Católica pas-

O envolvimento com os movimentos sociais fez com que vários religiosos fossem vistos como subversivos pelo regime ditatorial.

sava por um processo de inserção em questões sociais — legitimado no Vaticano II —, participando, principalmente, nos movimentos sindicais brasileiros. Isso levou diversas lideranças católicas brasileiras a se envolverem com movimentos sociais. Em 1964 ocorreria no Brasil o golpe militar, inicialmente apoiado por parte da Igreja Católica, com o pretexto de combater o comunismo. “Na raiz do golpe, no primeiro semestre de

1964, a CNBB apoiou-o oficialmente, grata à Nossa Senhora Aparecida e aos militares por terem livrado o Brasil da ameaça comunista”, confirma Frei Betto. No entanto, o envolvimento com os movimentos sociais fez com que vários religiosos fossem vistos como subversivos pelo regime ditatorial. A repressão e até a morte de alguns desses religiosos levou a Igreja a assumir uma posição contrária à ditadura. “Quando leigos da Ação Católica, religiosos e padres começaram a ser perseguidos pela ditadura, e bispos, como Dom Helder Camara, a serem censurados, a Igreja Católica mudou sua posição, adotando posição crítica, embora alguns bispos e cardeais continuassem a apoiar o regime militar. A partir do AI-5, em dezembro de 1968, a CNBB passou a se opor à ditadura, e bispos, como Helder Camara, Paulo Evaristo Arns, Pedro Casaldáliga, ousaram levantar a voz em defesa de perseguidos, presos, torturados, exilados e assassinados”, conta Frei Betto. Com o posicionamento contrário à ditadura, a Igreja Católica brasileira acabou servindo de abrigo para diversas ações de combate ao regime. Isso levaria as paróquias e as missas a serem também, muitas vezes, vigiadas. Nesse contexto, segundo Goes, as Comunidades Eclesiais de Base — pequenos grupos formados a partir dos anos 1960 por trabalhadores cristãos em periferias e zonas rurais —, mais difíceis de controlar, assumiriam um papel importante, permitindo a organização de uma rede de resistência.

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No livro Combate nas Trevas, Jacob Gorender relata que muitos encontros de lideranças do enfrentamento à ditadura eram marcados a partir de telefones de conventos. Frades dominicanos dirigiam veículos que levavam homens importantes da resistência, entre eles o líder da Ação Libertadora Nacional, Carlos Marighella — que chegou a ser considerado o inimigo número um do governo militar —, a reuniões. A prisão e tortura de dois destes frades e a confiança de Marighella nas imunidades da Igreja Católica, segundo Gorender, levariam ele à emboscada em que acabaria morto, no ano de 1969. Lúcio Konzen, duas vezes candidato a prefeito de Venâncio Aires pelo Partido dos Trabalhadores, iniciou sua vida política nos anos 1970. Suas primeiras atividades com viés político ocorreram quando estudava Engenharia na Universidade Federal de Santa Maria. O período era de repressão e o ambiente universitário era muito visado. Para defender aquilo em que acreditavam, muitos jovens se utilizavam deste papel da Igreja. Muitas igrejas da época permitiam a atuação de padres mais engajados em questões sociais. Com a permissão de maior interpretação da Bíblia pelos sacerdotes, dada no Concílio Vaticano II, se abria a possibilidade de as missas contarem com discursos mais politizados. O político venâncio-airense lembra de um padre que celebrava missas em Santa Maria nos tempos em que ele estudava naquela cidade. As pregações eram, é claro, baseadas no evangelho, mas tinham,

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nas entrelinhas, mensagens políticas. Lúcio participava, na época, de uma caminhada em Santa Maria. A atividade tinha uma proposta religiosa, no entanto, assumia viés político sempre que os jovens se sentiam seguros, longe dos espiões do regime militar. De volta a Venâncio Aires, formado, Lúcio Konzen seria um dos fundadores de uma iniciativa parecida, vinculada à paróquia local: a Cajova — Caminhada dos Jovens de Venâncio Aires. Com esse histórico de militância e graduado engenheiro (o que, por si, o alçava a uma posição de maior destaque na comunidade), Konzen foi pressionado por assumir posição política. Ele assumiu sua posição de esquerda em 1984, quando se filiou ao PT. A história de Venâncio Aires também registra religiosos com atuação política. Um destes — provavelmente o mais notável — foi Selvino Heck. O frade franciscano era atuante no movimento estudantil, participou da fundação e milita até hoje no Partido dos Trabalhadores, integrando, inclusive, a equipe dos governos Lula e Dilma. Elegeu-se Deputado Estadual duas vezes nos anos 1980, tendo sido um dos primeiros parlamentares eleitos pelo PT no Rio Grande do Sul. A história de Selvino Heck não é exceção: “Através das CEBs e das pastorais populares, a Igreja formou inúmeras lideranças populares que estão na origem do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], da CUT [Central

Única dos Trabalhadores], do PT e de muitos outros movimentos sociais”, afirma Frei Betto. Heck deixou o interior de Venâncio Aires em 1963, rumo ao seminário franciscano no município de Taquari. E foi no seminário que começou a se interessar por política. O ambiente, no entanto, não teria como ser o principal responsável pela politização do futuro frade. “O seminário, em geral, era conservador. O medo do comunismo imperava nos corredores”, lembra. “Meu engajamento começou mesmo, primeiro com as aulas de Antropologia Filosófica do, hoje Cardeal então professor, D. Frei Cláudio Hummes, com quem pela primeira vez, em 1971/1972, ouvi falar sem ranços do marxismo, nas aulas de filosofia no Seminário Maior de Viamão, e onde comecei, timidamente, a atuar no Diretório Acadêmico Tristão de Ataíde”. A partir de 1973, Selvino


Heck se engaja no movimento estudantil na Pontífica Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Esse engajamento o levaria a ser expulso da PUC, ter a ordenação sacerdotal negada e ser fichado pela ditadura. “Acabei ‘famoso’ – página inteira na [revista] Veja em função da expulsão”. A ordenação negada impactou a vida de Selvino. “Eu fui para o seminário para ser padre. Quando isso não foi mais possível, um objetivo na vida, até então principal, se dissipou, acabou”, relata. Mas nem isso o fez pensar em deixar de lado a atuação política: “As coisas não se separavam. Fé e política andavam juntas. A fé levando à militância, a militância fortalecendo a fé. Nunca pensei em abandonar a militância, até porque isso não estava colocado e eu não saberia viver sem uma ou sem a outra”. “As circunstâncias da vida e do momento histórico é que me levaram aos engajamentos, e uma coisa foi me levando a outra. Se não tivesse sido expulso da PUC, se, na sequência, Dom Vicente Scherer não tivesse vetado minha ordenação sacerdotal, eu talvez não tivesse ido morar na Lomba do Pinheiro, me engajado nas CEBs, Pastoral Operária e movimentos

populares e depois entrado na política”, conta o frade e político venâncio-airense. Selvino Heck acredita que o engajamento de religiosos nas questões políticas na segunda metade do século XX tem a ver, “fundamentalmente, embora não exclusivamente, com o contexto”. “Tem também o engajamento pessoal, em função das injustiças vividas, da origem de classe – muitos religiosos e padres vinham de famílias de agricultores familiares – muita religiosidade misturada com pobreza, etc”, pondera. FIM DA DITADURA NO BRASIL E PAPADO DE JOÃO PAULO II MUDAM SITUAÇÃO O papa que sucedeu João XXIII, em 1963, não impediu as mudanças pelas quais a Igreja Católica passava. Paulo VI permitiu a atuação política de religiosos e também o desenvolvimento da Teologia da Libertação. Após a morte de Paulo VI, em 1978, assumiria o comando da religião católica no mundo aquele que foi provavelmente o papa mais popular até então: João Paulo II. A popularidade de João Paulo II talvez tenha escondido de muitos um outro lado dele. De acordo com o sociólogo César Goes, a linha de trabalho centralizadora, doutrinadora e europeizante de Karol Wojtyła acabou levando a religião católica a um recrudescimento, a um fechamento. A Teologia da Libertação, por exemplo, passou a ser condenada. No Brasil, pouco depois, ocorreu o processo de redemocratização e o espaço que a religião oferecia para a

resistência deixou de ser necessário. Ainda assim, religiosos estiveram envolvidos nos anos 1980 nas bases do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, por exemplo. Mas a Igreja Católica afastou-se da política e, talvez principalmente, dos movimentos de esquerda. “Os ventos renovadores soprados pelo papa Francisco ainda não tiveram tempo de provocar mudança significativa no episcopado brasileiro”, afirma Frei Betto. O venâncio-airense Lúcio Konzen viu o partido de esquerda em nome do qual pedia ética na política migrar mais ao centro, chegar ao poder e se atolar em escândalos de corrupção. Hoje ele é bem menos atuante no Partido dos Trabalhadores em Venâncio Aires. Desiludido, fez as contas e viu o quanto a política o tinha prejudicado profissionalmente; voltou a se dedicar à engenharia. Lúcio, de tanto ver sofrimento e injustiça, de ver a opressão que a Igreja um dia já combateu, afastou-se também da fé. E quem o poderia condenar? Ao olhar para o Brasil — principalmente, mas também para o mundo de hoje — não é difícil ver o fracasso tanto da ideologia de esquerda quanto da religião. São milênios de uma religião que prega paz e igualdade e décadas de atuação política por uma sociedade mais justa e menos desigual, mas a opressão, a pobreza e até as guerras continuam rondando a nossa porta. O povo tem a voz e o amor de Deus, mas, aparentemente, as mordaças e correntes ainda têm mais poder e estão nas mãos dos representantes de outras forças.

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Adrenalina do começo ao fim O Rafting é um esporte radical que ganha a cada dia mais adeptos, entre eles as repórteres da Exceção REPORTAGEM: DANIELA ELOIZA CEZAR E LUANA DANIELA CIECELSKI FOTOGRAFIAS: DIVULGAÇÃO/RAFT ADVENTURE

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ram por volta das 6 horas de uma manhã fresquinha de março quando Luana chegou em frente à Secretaria Municipal de Educação de Santa Cruz do Sul, onde uma van estava a sua espera. Ela entrou, sentou e esperou enquanto as outras pessoas chegavam aos poucos. Conforme isso ia acontecendo e a condução ia lotando, uma euforia também enchia a van.

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Luana podia sentir. Todos estavam com sono, bocejando, claro, era muito cedo. Mas eles estavam indo para a Serra Gaúcha. Não em busca de neve, das compras, dos chocolates ou de qualquer evento famoso realizado por lá. Estavam indo em busca da aventura que as águas do Rio Paranhana prometiam oferecer. Luana e o restante do grupo buscavam o Rafting. Luana tinha data e hora para

ir se aventurar e quando ela me contou sobre sua aventura, eu lhe contei sobre a minha, que, ao contrário, foi decidida de uma hora pra outra. Saí às 18 horas de uma sexta-feira apenas com planos de visitar as cunhadas em Porto Alegre, e no meio do caminho veio a mudança de planos repentina: um convite pra fazer Rafting. Eu, meio aventureira, topei na hora. De Porto Alegre a Três Coroas, me perdi três


vezes, mas com certo atraso chegamos na cidade, pequena mas muito receptiva. Era eu, meu namorado e mais um casal de amigos que acamparíamos no parque, para no dia seguinte nos aventurar nas águas do Paranhana. Brinquei com Luana que ela não era a única eufórica. No meu corpo, a adrenalina estava circulando também. A chegada ao camping do Raft Park é sempre emocionante. Depois de alguns quilômetros de uma estradinha estreita e de chão batido, o aventureiro entra por um portal de madeira e desce uma ladeira. Quando chega lá embaixo, depois de uma curva à esquerda, chega-se ao estacionamento. Luana contou que o primeiro impacto dela foi o som do rio correndo há poucos metros e o ar fresco que lhe causou arrepios imediatamen-

te. Mas não eram arrepios de frio. Era de emoção mesmo. Já eu senti frio, aquele frio na barriga. Depois de descer no estacionamento e caminhar alguns metros pelo camping foi possível ver os botes e sentir um misto de medo e euforia. A verdade é que eu não tinha ideia do que me aguardava. Montamos a barraca, a fogueira e a noite veio. Nem jantei direito, fiquei com receio de que poderia fazer mal durante a aventura do dia seguinte. E não demorou até que amanheceu. Mal tomamos café e já era hora de reunir o grupo aventureiro. Colocados os equipamentos e explicados os itens fundamentais aos aventureiros de primeira, segunda, terceira descida, chega a hora de subir no ônibus que leva os rafiteiros até a cabeceira do rio, oito quilômetros acima. Eu contei, no total, eram oito

instrutores, oito botes, e neles entrariam até oito pessoas. Como meu número da sorte é oito, deduzi que este era um bom sinal. Todos dentro do ônibus, voltamos à estradinha de chão batido pela qual chegamos e seguimos por mais alguns quilômetros pelo interior do município de Três Coroas até o local onde desembarcaríamos, uma antiga barragem. E se o trajeto até ali tinha sido impressionante pela natureza e emocionante pela expectativa, chegar no local de início da descida é incomparável. Não vou contar como é, a surpresa da vista do momento, de ver aquela água, naquele local, é uma sensação incrivelmente forte. Luana ao ver toda aquela paisagem sentia vontade de rir e chorar, de medo e de alegria. Num primeiro momento um breve treino é realizado dentro da

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. .a água, que com sua força carrega as pedras e muda o rio, também muda as pessoas.

água. O instrutor nos faz sentir um gostinho de como será nas quase duas horas que seguirão. O grupo que está dentro do bote cria um grito de guerra, dá as primeiras remadas em conjunto com o objetivo de se sintonizar, aprender a responder aos comandos que o instrutor já havia ensinado em terra firme, como “direita”, “esquerda”, “dentro”, “remos pra cima”, “remando”, “descanso”, entre outros. No dia em que fui, o instrutor ainda perguntou: “Com ou sem emoção?”. A gente já estava vivendo uma grande emoção, mas ainda assim a resposta do grupo foi unânime: “COM EMOÇÃO!”. Acreditem, até da minha boca saíram essas palavras. Naquele momento eu pensei no velho ditado que diz “se está no inferno, abraça o diabo”. A Luana também se lembra per-

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feitamente do momento que veio a seguir disso. O bote foi levado pelo instrutor para o meio do rio, a água começou a levar a equipe então formada, e não demorou nem 30 segundos para que as primeiras pedras surgissem e os braços tivessem que começar a trabalhar. Logo em seguida veio a primeira pequena queda de água. Ela só conseguia dar risada de tão nervosa que estava. Depois se acostumou, pegou o ritmo e estava se sentindo ‘a aventureira’, mas confessou, que por alguns instantes o coração dela parou. Eu também dei risada, mas só depois de ter gritado pra caramba, e foi apenas para não chorar. De qualquer forma, uma coisa é certa: ao descer do bote, na linha de chegada, a sensação que fica é a de superação do medo da água e das corredeiras e também do corpo físico. Fica a sensação de integração com a natureza, por ela ter mostrado sua força e ao mesmo tempo proporcionado momentos tão inesquecíveis. Fica também, claro, a vontade de voltar, de voltar lá no começo e fazer os oito quilômetros outra vez. Mas acima de tudo, a sensação de sair da água sendo uma pessoa diferente, mais forte e mais corajosa, e assim fica a

lição de que a água, que com sua força carrega as pedras e muda o rio, também muda as pessoas. EMPOLGANTE, DIVERTIDO, INTENSO Para Felipe Fritzen e Cristina Fan, estudantes de Ciência da Computação e Publicidade e Propaganda respectivamente, palavras que também descrevem o Rafting são “empolgante” e “divertido”. O casal, que já foi três vezes para Três Coroas, destaca ainda que a prática do Rafting, além da descida do rio, proporciona contato com a mata nativa. “É um lugar lindo que me fez sentir o mais próximo da natureza que eu já senti”, diz Felipe. Já educadora física Bruna de Souza destacou que na primeira vez que se faz o Rafting a adrenalina é muito intensa e que a emoção é muito forte, mas que a partir da segunda vez, especialmente se a pessoa vai no mesmo rio, como foi o caso dela - três vezes no Rio Paranhana, em Três Coroas - a pessoa se acostuma com a intensidade das corredeiras e a emoção diminui um pouco. Por outro lado, é então que pode-se aproveitar outros aspectos da descida, como curtir a vista, exercitar mais o corpo e a mente, etc.


HISTÓRIA E POPULARIDADE O Rafting é um esporte aquático e radical que consiste basicamente em desafiar corredeiras descendo as águas de um rio apenas com um bote. Ele surgiu em 1869, nos Estados Unidos, e foi praticado pela primeira vez por John Wesley Powell, que desceu o Rio Colorado com um barco de madeira. Mas apesar de já ter quase 150 anos de existência, o Rafting ficou por algum tempo esquecido e só voltou a ser mais praticado na década de 1980. As primeiras competições oficiais registradas, por sua vez, são da década de 1990. Em 1995, o primeiro campeonato brasileiro ocorreu em Tibagí, no Paraná, e, em 1999, a primeira competição a nível mundial aconteceu na África do Sul. O Brasil ficou em 7º lugar na época. Desde então o Rafting tem se popularizado. Em Santa Cruz do Sul, um dos principais organizadores de equipes, Rafael Camargo, planeja e estrutura pelo menos três viagens para fazer Rafting por ano, levando a cada vez cerca de 15 pessoas. E ele garante que só não organiza mais por falta de tempo - a profissão dele não é essa -, porque pessoas pedindo pra ir é o que não falta. “Há aqueles que ouviram falar,

que um amigo indicou, e que estão curiosos, mas há muitos que já foram e querem ir outra vez”, conta. Aliás, essa é uma das grandes verdades do esporte radical. Depois que se faz uma vez, e que se prova o sabor da adrenalina, o desejo de voltar e viver a emoção outra vez está sempre presente. “Eu vejo na cara de uma pessoa quando ela não gostou de praticar um esporte radical, como o rapel ou o pêndulo, mas no Rafting até hoje não vi isso. Quem vai uma vez sempre quer voltar”. Dessa forma, não é surpresa quando uma empresa que oferece a prática do Rafting diz que o turismo de aventura é uma das áreas que mais tem crescido no Brasil. Também não surpreende quando a empresa Eco Parque Cia. Aventura, de Nova Roma do Sul, diz que atende mais de 10 mil pessoas em um ano, entre elas 4 mil em busca de Rafting, ou quando a empresa Raft Adventure, de Três Coroas, uma das mais populares do Estado, diz que aproximadamente 13 mil pessoas fizeram

Rafting com eles em 2015. O que leva essas pessoas até essas corredeiras? Dizemos por experiência própria: a emoção. É emocionante do início ao fim.

EQUIPAMENTOS

Os equipamentos básicos de toda a prática de Rafting: - Bote - Remos - Colete salva-vidas - Capacete - Roupa e sapatos adequados - Corda

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Uma palavra estranha, mas necessária Quando olhar para o outro é melhor que olhar para si mesmo

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m algum momento você ouviu ou vai ouvir falar sobre feminismo, sobre as reinvindicações das mulheres e sobre a luta pela igualdade de gêneros. Mas você já ouviu falar sobre sororidade? Ao conversar com algumas pessoas e escutar tantas coisas com relação ao movimento feminista, descobri essa palavra que até então era desconhecida para mim e que, apesar de soar estranha, carrega um significado acolhedor. Vinda do latim sóror que significa irmãs, sororidade representa uma espécie de laço de irmandade entre as mulheres. Como uma for-

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REPORTAGEM: TAIS MORAES ARTE: MIRIAN FLESCH ma de proteção e cuidado. Não entendeu? Calma, eu explico. Mas antes de falar sobre isso, é preciso resgatar um pouco da história do feminismo. É difícil estabelecer um período exato. De acordo com o professor de História, Carlos Gilberto Pereira Dias, há registros de que o feminismo tenha surgido através de vozes femininas. Elas inspiraram um movimento organizado no século XIX, em torno dos sindicatos, principalmente na França, Inglaterra e Estados Unidos, fortalecendo o movimento sufragista

– direito ao voto – anos mais tarde. As principais reivindicações na época foram a luta por melhores condições de trabalho envolvendo redução da jornada trabalhista, melhores condições de higiene e repouso semanal, além dos direitos de cidadania. Desde o início o movimento sofreu preconceitos, principalmente pelos setores conservadores, já que as ações foram conduzidas por mulheres cultas que prepararam a efetiva conquista do voto feminino no Brasil, em 1932. Uma das principais justificativas dos opressores era que as mulheres estavam se distanciando de seu verdadeiro papel: o de serem mães e servirem seus maridos. Há quem diga que esse tempo já passou. No entanto, ainda existem pessoas que continuam com o mesmo pensamento de dois séculos atrás. É verdade, sim, que, com o passar do tempo, as mulheres tiveram muitas conquistas. Direito ao voto e à candidatura política, direito


ao estudo, leis e delegacias especializadas, dentre outros. Mas a marca da desigualdade ainda está presente na sociedade. No que diz respeito ao mercado de trabalho, às responsabilidades da família, ao modo de se vestir, às piadas e cantadas ouvidas na rua e à violência. De acordo com a ONG ActionAid, que realiza ações em vários países, inclusive no Brasil, a cada hora, cinco mulheres morrem no mundo vítimas de violência doméstica. Aqui no país, as mulheres são maioria, mais de 100 milhões, o que corresponde a 51,6% da população, segundo o IBGE. E na tentativa de transformar essa realidade hostil, os grupos feministas continuam cada vez mais fortes. Ao perguntar a duas mulheres ativistas do movimento sobre o que representa e qual a importância dele na vida delas, ambas responderam que se sentem livres enquanto mulheres. É nele que buscam fortalecimento para enfrentar as violências e opressões. Ao mesmo tempo em que se sentem fortes elas também se mostram sensíveis. Mas não pense pelo lado da fragilidade. Pelo contrário, essa sensibilidade se refere a forma de percepção do outro, a forma de se deixar tocar pela história do próximo. E é aí que a sororidade aparece. “Os homens sempre foram e são muito unidos, nós mulheres, somos ensinadas a disputar umas com as outras desde muito cedo. A sororidade vem pra romper com essa cultura há tanto tempo engessada em nossa sociedade, fortalecendo os vínculos entre nós” – afirmou Valquíria Rodrigues, estu-

dante de 23 anos, de Cachoeira do Sul. É a forma de dizer para o sistema que nos é imposto que fomos criadas para agir com tal indiferença com relação a outras meninas, mas que não somos obrigadas a fazer dessa forma. Podemos ser diferentes – completou a professora de 22 anos, Yasmin D’Avila, de Santa Cruz do Sul. Entendeu o que é sororidade? Pense nela como o amor para os apaixonados ou como a fé para os religiosos. Não podemos tocar e nem ver, apenas sentir. Isso já basta para nos sentir e fazer o bem a outra pessoa. Valquíria e Yasmin possuem muitos aspectos em comum, apesar de viverem em cidades diferentes – são 95 km de distância entre Cachoeira do Sul e Santa Cruz do Sul. A realidade que elas vivem, entretanto, as aproxima muito. Em comparação com meninas que não possuem condições financeiras, nem de ir à escola e que sofrem certos abusos desde crianças, ambas podem-se dizer privilegiadas. Até elas se darem conta de tudo o que acontecia ao redor, a se perguntarem o porquê das coisas e a questionarem sobre o modo como estavam inseridas na sociedade e se encontrarem dentro do feminismo, talvez nenhuma delas se importasse com a vida dessas milhares de garotas menos favorecidas. A sororidade veio para ensinar

Pense nela como o amor para os apaixonados ou como a fé para os religiosos.

a prestar atenção no próximo. Para entender que, muitas vezes, o outro pode estar em uma situação pior do que a gente. Para sensibilizar e ensinar a estender a mão. É claro que podemos fazer isso todos os dias mesmo sem participar de um movimento social, como o feminismo, por exemplo. Contudo, a sororidade existe quase que internamente entre as mulheres porque infelizmente precisamos nos fortalecer umas nas outras para amenizar as situações desrespeitosas e covardes que enfrentamos quase que diariamente. Não peço para que, ao terminar de ler esta reportagem, você saia por aí ajudando as pessoas pelas ruas enlouquecidamente. Vá com calma! Nenhuma grande mudança é feita de uma hora para outra. Comece aos poucos. Pode ser até emprestando uma caneta na sala de aula, por exemplo, ou dividindo um guarda-chuva em um dia chuvoso. A forma como vai fazer pouco importa. Só é preciso ter vontade e o mais importante, começar.

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Tem pedra na lavoura Apontado como epidemia nas periferias, o crack avança na zona rural de municípios da região e desafia famílias, autoridades de segurança e serviços de saúde REPORTAGEM: LEANDRO PORTO E IGOR MÜLLER ILUSTRAÇÃO: PEDRO ANDRADE DA SILVA

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eu pedra na lavoura. Para quem convive com a cultura do tabaco, o principal produto agrícola do Vale do Rio Pardo, a frase que abre este texto virá acompanhada do peso invisível do prejuízo, da frustração, da derrota. A pedra em questão é a de granizo. Comum na primavera, quando as folhas de fumo tomam corpo, as granizadas vêm com força de tornado e chegam a comprometer a safra inteira. No entanto, tem outra pedra que assusta os agricultores. A pedra não é de gelo, seus estragos são potencializados com o tempo e aquela esperança de que a safra que vem será melhor, não existe. Apontado há quase uma década como epidemia nas periferias

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das grandes cidades, o crack avança nas comunidades rurais fazendo com que as famílias sintam a devastação desta outra pedra, produzida com o resto da cocaína. Que o diga dona Isabel, 56 anos. Depois de lidar por quatro décadas com os humores do clima e as incontáveis perdas com granizo no interior de Vale do Sol, ela tenta juntar os cacos após sofrer os efeitos do crack. Foi com o filho mais novo, hoje com 26 anos. Faltava um mês para o rapaz completar 24 anos quando ela descobriu que os frequentes sumiços, a magreza e o desespero por dinheiro eram consequências do vício. Foi por acaso, ao flagrar o filho fumando crack no galpão cheio de fumo. “Achei aquilo muito estranho. Ele disse que era um

cigarro diferente, mas desconfiei e no fim de semana falei com meu filho mais velho. Ele logo disse que não era normal”, conta. E não era. Aperta daqui, aperta dali e o rapaz admitiu que consumia crack. Conheceu a droga em um baile, meses antes, no interior de Candelária. Foi um baque para dona Isabel, que era acostumada a ouvir no rádio os relatos do drama causado pela droga. Sozinha - o marido morrera de câncer um ano antes, ela demorou a pedir ajuda. Viu que o problema estava fora de controle quando o filho saiu de moto numa tarde de domingo e voltou a pé, na segunda-feira. Disse que fora assaltado, mas, a mãe sabia que a moto, na verdade, tinha virado pó, aliás, pedra. Foi um ano e meio de pavor.


Com o filho distante, ela perdeu a companhia em casa, a ajuda nas lidas da propriedade e o gosto pela vida. Roupas, comida e até fardos de fumo sumiam como em um passe de mágica. “É um horror, a pessoa fica sem controle, briga e pega o que não deve. Não adianta falar. Eu só rezava, rezava e rezava”, diz. De repente, ela se viu envolvida com a polícia. “Meu marido jamais admitiria isso”, frisa constrangida, antes de contar que o filho foi acusado de roubar dos vizinhos. Orientada pelo médico, a agricultora buscou ajuda em Vera Cruz. Ele até melhorou, mas não totalmente. Dona Isabel desconfia que o jovem deixou o crack, mas segue usando drogas. “Nunca mais foi o mesmo, mas pelo menos saiu do fundo do poço. É uma tristeza muito grande”, sentencia. A terapeuta comunitária Lídia Tondello Finkler conta que, por meio do Núcleo de Apoio à Saúde Mental da Prefeitura de Vale do Sol, usuários e famílias participam de grupos de conscientização. O objetivo é que os mais próximos aprendam a lidar com os dependentes e possam ajudá-los no processo de recuperação. A internação, se necessária e consentida, é realizada ou no Hospital de Candelária ou no Hospital Regional, em Rio Pardo, via Sistema Único de Saúde (SUS). Contudo, casos que envolvam algum tipo de problema mental são encaminhados para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Santa Cruz do Sul. A terapeuta considera que os casos de crack em Vale do Sol são pontuais, ao menos aqueles que chegam ao conhecimento do poder público. Porém, diversas outras dependências, em especial, a do alcoolismo ocorrem com

frequência. “A introdução daquele dependente que parte para drogas mais pesadas geralmente é pelo álcool, dentro do círculo familiar ou em festas. É uma questão cultural”, alega. Apesar do trabalho de conscientização no ensino fundamental, Lídia revela que a facilidade de acesso dos jovens às substâncias é motivo de preocupação. “Estamos alertas, porque cada vez mais os traficantes estão próximos dos alunos nas escolas”, salienta. QUANDO O TRÁFICO É OPÇÃO DE RENDA Criado no campo, filho de agricultores familiares, fumicultor desde que se conhece por gente, pai de três crianças. Pedro, 35 anos, encontrou no comércio de substâncias ilícitas um rendimento extra. A maconha foi a primeira droga com que teve contato, na época em que estudava no quinto ano do ensino fundamental, em uma pequena Brizoleta - escola criada por Leonel Brizola para erradicar o analfabetismo no Estado quando era governador no começo da década de 1960 - no interior de Santa Cruz do Sul. Um colega, que viera do bairro Bom Jesus para morar na localidade apresentou-lhe a droga. Com o tempo, o rapaz passou a trazer com mais recorrência. “Era por folia. Boa parte da gurizada experimentou na época. Alguns seguiram usando”, alega. Mais tarde, o jovem agricultor se viu obrigado a ir estudar em uma escola na periferia de Santa Cruz para concluir a oitava série, já que onde morava não existia o ensino fundamental completo. Foi nesta época que ele foi apresentado a drogas mais pesadas, como a cocaína. Por algum motivo que não sabe explicar, Pedro começou

a se envolver com “más companhias”. De consumidor esporádico, passou a fornecedor para outros jovens. Ao mesmo tempo, se envolveu com furtos, quando não diretamente, através de “dicas” para comparsas. Em certa ocasião, chegou a ser detido pela polícia por receptação. No entanto, por falta de provas, foi liberado. Quando nasceu o primeiro filho, hoje com 8 anos, Pedro decidiu parar. Estava cansado da vida conturbada e com medo do risco iminente de ser preso ou morto. “Quando a gente lida com esse tipo de coisa, quanto mais o tempo passa, mais perto a gente está de cair”, relata.

Quando a gente lida com esse tipo de coisa, quanto mais o tempo passa, mais perto a gente está de cair.

No entanto, uma, duas, três safras de tabaco frustradas levaram-no ao desespero. O agricultor voltou às velhas parcerias, que efetivamente nunca havia deixado de lado. Voltou a usar pó. Para sustentar o vício e ganhar algum dinheiro retomou as vendas. Mas, a maconha estava fora de moda e a cocaína não era para todos os bolsos. Já o crack começava a chegar com força na cidade. Foi preciso pouco tempo para que os jovens da localidade que faz divisa com o município de Rio Pardo procurassem a droga. “Toda a gurizada me procura pra comprar tóxico. Gente que tu nem imagina está usando. Nos bailões é direto, maconha, pó e pedra. Gastam tudo o que tem no bolso”, relata.

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Eventos com circulação de muitas pessoas, em áreas rurais ou pequenos municípios, são os preferidos dos traficantes – que às vezes são moradores da própria comunidade, mas na maioria dos casos, vem da cidade para comercializar as drogas. O capitão Cristiano Cuozzo Marconatto, do Setor de Inteligência do Comando Regional de Polícia Ostensiva do Vale do Rio Pardo (CRPO-VRP), constata uma aproximação entre cidade e interior, que facilita o acesso. “Tem o lado positivo, dos meios de informação, como telefonia e internet. No entanto, também aproxima para coisas noci-

vas, como as drogas”, afirma. O monitoramento destas situações pela Brigada Militar acontece por meio do setor de inteligência e das Patrulhas Comunitárias do Interior – são 19 nos 30 municípios do comando. De acordo com Marconatto, essa modalidade de tráfico tem características bem específicas. “São pequenos traficantes que pegam pequena quantidade de drogas para vender nesses eventos que tem grande circulação de pessoas. Geralmente os jovens experimentam pela curiosidade, até como afirmação social. No caso do crack, a dependência chega

logo”, argumenta. Por isto, mesmo quando acontecem prisões ou apreensões, dificilmente o envolvido fica preso, o que acaba gerando a sensação de impunidade. O capitão da BM enfatiza que 80% da criminalidade está vinculada ao tráfico ou ao uso de entorpecentes. “A prática de furtos e roubos acaba sendo um efeito colateral disso”, pondera. Outro elemento maléfico neste contexto, conforme Marconatto, é que as famílias rurais têm dificuldade em reconhecer o vício de um parente e buscar ajuda, o que gera uma “cifra negra” quanto ao diagnóstico e a solução dos casos.

ENTREVISTA

“DIFUSÃO DE SOLIDARIEDADE, AO INVÉS DE MEDO”, DIZ SOCIÓLOGO Exceção: O uso de drogas, especialmente o crack, teve incremento nos últimos anos? Dênis Petuco: Se observarmos os levantamentos de anos atrás, vemos que houve um incremento no uso desta variação da cocaína. E isto é algo importante de ser dito: crack é apenas uma nova forma de cocaína. Importa, porque convém observar que o aumento no consumo de crack se fez acompanhar do declínio no uso de outras formas de cocaína. Exceção: A disseminação das drogas em comunidades rurais tem aumentado? Quais podem ser os motivos para isto? Petuco: Houve, sim, uma interiorização da cocaína a partir da forma crack. Uma das respostas deve levar em consideração o surgimento do crack como mercadoria. Com o controle de produtos químicos necessários ao refino de cocaína, notadamente acetona e éter, os países produtores passaram a exportar a pasta base, já que a compra de insumos necessários ao refino passou a ser controlada pela polícia internacional. Assim, os compradores da

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pasta base tiveram de desenvolver estratégias de refino descentralizadas. Com o tempo, os compradores de base passaram a experimentar novas formas de processamento, com solventes mais baratos. Isto é um dos elementos que pode ajudar a entender este processo de interiorização da cocaína, através do crack. Exceção: O alcoolismo, que é notório entre agricultores, é uma porta de entrada para drogas como o crack? Petuco: As “portas de entrada” para o consumo de uma ou outra droga são basicamente a curiosidade e a pressão do grupo; já para a dependência (e apenas uma minoria, algo em torno de 15%, se tornará dependente), as portas de entrada seriam muito variadas, e incluiriam elementos como exclusão social, múltiplas formas de miséria, desemprego, frustração, desespero, comorbidades... O simples uso de uma droga - mesmo o crack - não determina dependência. As questões são sempre muito profundas, e será necessária uma escuta clínica aprofundada para compreender as razões que leva-

ram uma pessoa, não ao uso, mas à dependência. Qualquer processo de cuidado deve partir daí. Exceção: De que forma a educação e a informação podem auxiliar neste contexto? Petuco: Seria preciso pensar educação e informação em direções muito diferentes, que ajudassem a construir solidariedade social para com estas pessoas. Seria preciso que os meios de comunicação informassem a respeito das políticas públicas de qualidade que funcionam, ao invés de preconizar estratégias falidas, caras e sem efetividade, como a internação e o recolhimento compulsório. O enfraquecimento dos laços de solidariedade e de coesão social, tão contemporâneos, está na base do uso problemático de drogas, e é preciso construir estratégias para enfrentar este estado de coisas. Difusão de solidariedade ao invés de medo: este seria um caminho distinto do que a mídia vem tomando ao uso de crack, e certamente contribuiria para equacionar o problema.


O CRACK  Composição da droga O crack é obtido a partir da mistura da pasta-base de coca ou cocaína refinada com bicarbonato de sódio e água. Quando aquecido a mais de 100ºC, o composto passa por um processo de decantação, em que as substâncias líquidas e sólidas são separadas. O resfriamento da porção sólida gera a pedra de crack, que concentra os princípios ativos da cocaína. Segundo o químico e perito criminal da Polícia Federal (PF) Adriano Maldaner o nome ‘crack’ vem do barulho que as pedras fazem ao serem queimadas durante o uso. “A diferença entre a cocaína em pó e o crack é apenas a forma de uso, mas o princípio ativo é o mesmo”, afirma Maldaner.  Forma de uso e ação no organismo O crack geralmente é fumado com cachimbos improvisados, feitos de latas de alumínio e tubos de PVC, que permitem a aspiração de grande quantidade de fumaça. A pedra, geralmente com menos de 1 grama, também pode ser quebrada em pequenos pedaços e misturada

a cigarros de tabaco ou maconha – o chamado mesclado, pitico ou basuco. A ação do crack no cérebro dura entre cinco e dez minutos, período em que é potencializada a liberação de neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina. “O efeito imediato inclui sintomas como euforia, agitação, sensação de prazer, irritabilidade, alterações da percepção e do pensamento, assim como alterações cardiovasculares e motoras, como taquicardia e tremores”, explica o psiquiatra Felix Kessler, do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).  Surgimento O crack surgiu nos Estados Unidos na década de 1980 em bairros pobres de Nova Iorque, Los Angeles e Miami. O baixo preço da droga e a possibilidade de fabricação caseira atraíram consumidores que não podiam comprar cocaína refinada, mais cara e, por isso, de difícil acesso. Aos jovens atraídos pelo custo da droga juntaram-se usuários de cocaína injetável, que viram no crack uma opção com

efeitos igualmente intensos, porém sem risco de contaminação pelo vírus da AIDS, que se tornou epidemia na época. No Brasil, a droga chegou no início da década de 1990 e se disseminou inicialmente em São Paulo.  Sinais da dependência Um dos sintomas físicos mais comuns que ajudam a identificar o uso da droga é a redução drástica do apetite, que leva à perda de peso rápida e acentuada – em um mês de uso contínuo, o usuário pode emagrecer até 10 quilos. Fraqueza, desnutrição e aparência de cansaço físico também são sintomas relacionados à perda de apetite. É comum ainda que o usuário tenha insônia enquanto está sob o efeito do crack, assim como sonolência nos períodos sem a droga. Sinais físicos como queimaduras e bolhas no rosto, lábios, dedos e mãos podem ser sinais do uso da droga, em função da alta temperatura que a queima da pedra requer. Fonte: Portal da Justiça e Cidadania do Governo Federal

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A história da cidade engolida pela lama da Samarco Memórias e sonhos enterrados sob o barro marrom e o minério de ferro REPORTAGEM: RÉGIS DE OLIVEIRA JÚNIOR FOTOGRAFIAS: CESAR LOPES

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despertar da quintafeira, 5 de novembro, inicia como todos os outros dias para os moradores da pacata cidade de Mariana, em Minas Gerais. Nas três barragens da mineradora Samarco, Germano, Santarém e Fundão, controlada pela Vale e pela australiana BHP Billiton, os empregados seguem a rotina de trabalho normalmente. Explosivos são acionados na demolição dos pedaços de montanha para obtenção do minério de ferro. Por volta das 15h30, os funcionários da mina são surpreendidos por um alerta no rádio da companhia. O dique 1, nome da barragem de Fundão, que armazenava 55 milhões de metros cúbicos de lama, correspondente a 22 mil piscinas olímpicas, havia rompido. Nenhum sinal sonoro ou sirene é acionado. A lama avança perversamente e devora tudo que encontra pelo caminho. Os operários telefonam para a delegacia, igreja, posto de saúde, creche e escola que estão na rota da destruição. Os vizinhos mobilizam-se e tentam avisar o maior número de pessoas possível antes

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que a lama chegue, mas um gigantesco tsunami de sopa lamacenta, resultado da junção natural de areia, terra, água e resíduos de minério de ferro, engole os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. O barro marrom enterra casas, carros, plantações, recordações, histórias, sonhos e vidas. A maior tragédia socioambiental do Brasil acontece deixando marcas impossíveis de serem esquecidas. Além de devastar os distritos de Mariana, a lama invade o rio Gualaxo, afluente do Rio Doce, em direção ao município vizinho. Os 60 quilômetros que separam Barra Longa da Barragem de Fundão não são empecilhos para que o mar de lama soterre o vilarejo de Gesteira, na modesta cidadezinha com 6 mil habitantes. Quedas d’ água são substituídas por cachoeiras de barro e as ondas de lodo avançam descontroladamente madrugada adentro. Diante dos olhos incrédulos dos moradores, a enxurrada avermelhada promove uma verdadeira devastação e passa impiedosamente carregando bujões de gás, árvores, geladei-

ras, capivaras e até telhados inteiros. O barro bate no teto das moradias às margens do rio do Carmo, quando a mancha marrom perde força, deixando para trás um longo rastro de tristeza e dor. Atônitas as pessoas vagam pelas ruas da cidade, perdidas, sem rumo, em busca de sobreviventes do desastre. O dia seguinte amanhece como um grande pesadelo. Envoltos em uma atmosfera fúnebre, moradores derramam lágrimas no mesmo momento em que, em vão, tentam recuperar algum pertence enterrado sob o barro. Os primeiros raios de sol revelam a magnitude do estrago provocado pela lama da Samarco. Cães perambulam sem destino em busca de seus donos. Na hora do acidente, o presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, e outros diretores estavam em Belo Horizonte, na sede da empresa, debatendo questões de segurança nos serviços da mineradora. Inaugurada em 2007, a barragem que rompeu entre os municípios de Mariana e Ouro Verde tinha sido construída há menos de dez anos.


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Quero um Bento novo para meus filhos, meus netos e meus bisnetos. Quero meu Bento de volta, limpo e sem barro. Quero meu lar e minha história.

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MEMÓRIAS APAGADAS Cinco meses não foram suficientes para riscar da lembrança de Orides, ex-moradora de Bento Rodrigues, o que vivenciou naquele 5 de novembro. Ela ainda se recupera do enterro da filha e do neto que não sobreviveram à fúria do mar de lama. Depois do barro, tudo mudou. Orides vive à base de medicamentos e antidepressivos de tarja preta. Além dos remédios, ela passou a receber acompanhamento psicológico. Antes da tragédia, a agricultora de 83 anos, ocupava-se com o cultivo da horta e o cuidado com os animais. No centro de Mariana, todos conhecem Orides da Paixão de Souza. A aposentada mora na Rua Santana, 158. Ela chama a atenção porque anda para cima e para baixo com terço nas mãos. Foi o único objeto que restou de sua casa. A televisão da sala é silenciada. Grudada no rosário, ela fica quietinha diante das memórias. Antes do gigantesco tsunami de lodo soterrar a casa de três cômodos, toda mobiliada com madeira sucupira, Dona Orides estava capinando o terreno. O neto avisou que era preciso

correr dali, porque a Barragem de Fundão havia se rompido e vinha um turbilhão de lama. Duas semanas depois, a aposentada voltou em busca de algum pertence. No quarto, a fotografia do casamento foi tingida pelo tom avermelhado da enxurrada de barro. Além das recordações, do chalé de madeira e dos dois familiares, a lama roubou o sono de Dona Orides. Até hoje, ela não consegue dormir direito com medo que as outras duas barragens, Germano e Santarém, estourem também. Neuza Maria Souza, de 53 anos, está abrigada na casa de alvenaria verde alugada pela mineradora Samarco. Ela é uma das moradoras de Paracatu de Baixo que perdeu a própria história. Com uma fratura no fêmur, teve dificuldades de correr e quase foi levada pela onda de lama. A cozinheira servia pratos mineiros, como frango com quiabo, ao molho madeira, para os turistas que passavam pela Estrada Real. O botequim era ponto de referência na vila, com torneios de canastra e lugar para reunir os amigos para

assistir os jogos de futebol. Antes saber do paradeiro da mãe, Neuza não quis embarcar no ônibus de Santa Rita Durão que seguiria até o centro de Mariana. Ela, o neto e a filha vagaram noite adentro até o alto do morro, pois a ponte que ligava os dois distritos havia sido carregada pela cachoeira acinzentada. A Samarco hospedou vinte pessoas da família Souza, no Hotel Providência, que fica na Rua Dom Silvério, antes de alugar uma casa. Dona Orides é mãe de quinze filhos, dos quais três são adotivos, tem 50 netos e 60 bisnetos. Neuza dorme e acorda com a esperança de ter sua casa reconstruída pela Samarco. A mineradora se comprometeu a erguer uma nova vila para abrigar os moradores, mas não definiu um prazo para entrega das obras. Segundo a Prefeitura, a mineradora Samarco realocou 908 pessoas após a tragédia, a maioria delas em imóveis mobiliados pela empresa ou em casas de parentes. Algumas seguem hospedadas em hotéis e pousadas de Mariana.

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ENTREVISTA

“AS CONSEQUÊNCIAS AMBIENTAIS SÃO MUITAS” Carlos Machado de Freitas, especialista em Meio Ambiente e coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), visitou Mariana (MG). Para a Revista Exceção, Freitas diz que o Brasil precisa inverter o foco e trabalhar com a prevenção dos acidentes. O especialista defende que é necessário um órgão centralizador das ações emergenciais, além de um treinamento prévio da população dos arredores desses empreendimentos para que as pessoas saibam como agir em caso de desastre, o que não ocorreu em Mariana. Exceção: Quais as consequências ambientais do acidente em Mariana? Machado: As consequências ambientais são muitas. Resultou não só em danos ambientais comprometendo solo, cobertura vegetal e rios de modo imediato com a lama de rejeitos, mas também trazendo consigo o potencial de danos extensivos. Entre os danos extensivos e de longo prazo não podemos deixar de considerar que o desastre ocorreu no período de defeso, comprometendo a reprodução de várias espécies, mas com danos e custos ambientais ainda não devidamente estimados. A força da passagem da lama provavelmente revolveu e colocou em suspensão os sedimentos com contaminantes de processos de mineração do passado que estavam no fundo dos cursos d’águas afetadas, como Alumínio, Arsênio, Cádmio, Cobre, Cromo, Manganês e Níquel, sendo que alguns destes, como Chumbo e Mercúrio com níveis superiores ao limite da legislação de 165 e 1465 vezes, respectivamente, segundo relatório da Agência Nacional de Águas (ANA).

Exceção: A Samarco cumpriu as regras de segurança e prevenção contra acidentes? Machado: Ao analisarmos um estudo realizado para a União Europeia, tendo como base a análise de 147 incidentes em barragens de mineração, encontramos um conjunto de causas que, segundo as investigações em andamento, estão presentes neste desastre: 1) a manutenção deficiente das estruturas de drenagem; ausência de monitoramento contínuo e controle durante construção e operação; 2) crescimento das barragens sem adequados procedimentos de segurança; 3) a sobrecarga a partir de rejeitos de mineração. Além destes, a falta de regulamentação sobre os critérios de projetos específicos, combinada com políticas frágeis e instituições públicas de controle e prevenção desestruturadas, principalmente os órgãos ambientais. O desastre não teve um único motivo, mas um conjunto de causas que já eram internacionalmente conhecidas, e nada justifica o desconhecimento ou a transformação de anormalidades no sistema de monitoramento e prevenção em normalidades, a ponto da empresa se tornar míope aos riscos que estava impondo à população e ao meio ambiente. Exceção: Quais punições poderão ser aplicadas aos responsáveis pelo acidente? Machado: Há dois caminhos bem diferentes nesta direção. O primeiro, o acordo entre Samarco, Vale e BHP e Governo Federal, envolvendo também os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Seria criada uma fundação, que se constitui como uma espécie de consórcio entre empresas e governo, sem a participação dos atingidos e sem permitir responsabilizar ninguém e que está em

torno de 4,5 bilhões de reais. O segundo é o que considero mais realista no sentido de efetivamente punir os responsáveis e possibilitar recursos para a longa e custosa recuperação dos danos ambientais, sociais, econômicos e humanos causados pelo desastre. É ação do Ministério Público Federal, no valor de 155 bilhões (mais de 30 vezes o valor do acordo governo e empresas) que tem como réus (e não como consorciados em uma fundação) a Samarco, a Vale e a BHP, além dos órgãos federais e estaduais responsáveis pelo controle e fiscalização. Ela aponta não só para a responsabilidade direta das empresas, mas também para a necessidade de se reestruturar os órgãos públicos. Exceção: A lei brasileira sobre barragens é boa? Machado: Bem, uma lei que deixa as empresas informarem seus níveis de riscos, que não garante aos órgãos públicos o poder real de fiscalização e de fazer valer cumprir exigências básicas, como a do Plano de Emergência para a comunidade que não foi cumprida, certamente não é uma boa lei. Além disto, não podemos deixar de considerar que estas leis vêm sendo produzidas e ratificadas por um lobby das empresas de mineração através do financiamento de campanha de deputados, governadores e presidentes da república. Além de ser insuficiente, a lei vem sofrendo pressões para ser flexibilizada cada vez mais (exemplo a PEC 65 do Senador Romero Jucá). Além disto, temos de considerar o processo de desestruturação dos órgãos ambientais, que muitas vezes acabam se limitando ao controle burocrático e por vezes artificial das empresas com potencial de riscos, como no caso das barragens de mineração.

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DIÁRIO DE REPORTAGEM De Belo Horizonte até Mariana é preciso viajar cerca de 117 km, mais ou menos duas horas de estrada. Chegamos atrasados, desembarcamos por volta de 10h, uma hora depois do previsto. Havíamos perdido a primeira lotação por conta do congestionamento até a rodoviária de BH. Em Mariana, Seu Geraldo, taxista há mais de 30 anos, aguardava ansiosamente nossa chegada. O senhor de pele morena e cabelos grisalhos estava desconfiado. Muitos repórteres

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circularam pela cidade mineira apenas no primeiro mês da tragédia. Depois eles desapareceram, segundo ele. A história da cidade engolida pela lama da Samarco é o tema das rodinhas de conversa e pauta confirmada no jornal local. Decidimos que nosso primeiro destino seria o distrito de Bento Rodrigues. Nas ruas estreitas de chão batido era necessário dividir o espaço com os caminhões e máquinas da Samarco. No caminho, encontramos

árvores retorcidas, arrancadas impiedosamente do chão. Alguns troncos exibiam brotos verdes. A lama aparentemente endureceu por cima das casas e vilas, mas era só pisar com força no chão que ela se desfazia e delatava o tom escuro do minério de ferro. Nem a Defesa Civil e muito menos a Samarco permitiram nossa entrada no vilarejo. O medo segue, pois a barragem de Germano, tem chances de se romper. Caso isso ocorra, a sopa lamacenta seguirá a mes-


ma rota de Fundão. Depois, foi preciso andar por mais 60 km até chegarmos a cidade fantasma, nominada assim pelos antigos moradores. Submersa sob a lama com minério de ferros e resíduos tóxicos, apenas uma capivara, seguida por dois filhotes, denuncia que há vida em Paracatu de Baixo. No distrito, não sobrou nada. À medida que avançam, máquinas e escavadeiras revelam o que o barro soterrou. As roupas que um dia vestiram pessoas

estão rasgadas pelo chão. São fotografias, brinquedos e livros envoltos pelo barro vermelho. O que mais dói é ver que na Escola Municipal de Educaç ão Infantil José de Venâncio Lanna sobraram apenas seis cadeiras e nas paredes, uma cortina marcada pela lama. Não há mais escolas para estudar. Não há praças para paquerar. Nem o campo de futebol serve mais para os torneios de final de semana. O solo está praticamente infértil por conta dos resíduos tóxicos.

De lá, percorremos mais 20 km até Barra Longa. Na cidade, o clima é o mesmo. Alguns cães mexem no lixo podre a espera dos donos. Geladeiras, parabólicas e fogões começam a ser removidos pela mineradora. Nas margens do rio, a sensação é de desolação. O rio que era doce, morreu. Não há mais peixes, apenas muitos urubus sobrevoando o distrito. Cesar Lopes, Geraldo e eu retornamos praticamente em silêncio até o centro de Mariana.

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Uma força chamada família As lutas e as conquistas de quem precisa conviver com a Síndrome de Down REPORTAGEM: PRISCILA KELLERMANN ARTE: MIRIAN FLESCH

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amuel é caprichoso, e mesmo durante as brincadeiras, não gosta de se sujar. Também é independente: ao sair do banho, seca o cabelo, põe desodorante e perfume, e escolhe sozinho a roupa que irá vestir. Além disso, vai à escola de transporte público coletivo, sem a companhia da mãe. “Ele tem muita vontade própria. Tudo acontece no tempo dele”. É assim que Tânia Pantaleão define o filho de 12 anos, portador de Síndrome de Down. A patologia, causada pela presença de três cromossomos 21 na maior parte das células do indivíduo, foi descoberta pela mãe no momento do nascimento. Hoje, Tânia não esconde a alegria que sente ao falar sobre o filho, mas lembra das dificuldades que precisou enfrentar ao receber a notícia. “No início é um susto, mas depois tudo vai se tranquilizando. Só depois que tu passa a conviver com uma criança Down, é que vai se interessar pra saber mais”, explica. Tânia e o filho moram em Cachoeira do Sul. Já Marcelo, pai de Samuel, atualmente reside em Porto Alegre, e costuma passar o final de semana com o filho uma vez por mês. Pela manhã, Samuel frequenta o 5º ano da Escola Estadual Angelina Salzano Vieira da Cunha, que fica no

mesmo bairro onde mora. Questionado se gosta e se sente à vontade ao estar na escola, Samuel é determinado: logo muda de assunto e evidencia sua preferência por outro lugar. Esse local é a Afad (Associação de Familiares e Amigos do Down), entidade que complementa a aprendizagem de pessoas portadoras da síndrome de uma maneira mais próxima e familiar. “Eu sei que a inclusão social e a convivência com os outros é importante. Mas eu percebo claramente que ele aproveita e se identifica muito mais na escola especial”, assegura Tânia. Dessa forma,

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Às vezes, demora pra ele assimilar determinadas coisas, mas quando consegue é uma vitória.

a opinião de mãe e filho confronta os argumentos das educadoras da área pedagógica da escola Angelina, e também das orientadoras do setor de Educação Especial do município, que defendem o aprendizado através do ensino regular. Conforme a assessora do Nú-

cleo de Apoio Pedagógico da 24ª CRE (Coordenadoria Regional de Educação), Cleonice Bankow, Cachoeira do Sul atende 202 crianças e adolescentes com deficiência intelectual. Das 22 escolas estaduais do município, 16 delas possuem estrutura de Sala de Recursos Multifuncionais e professores habilitados para exercerem a função. O acompanhamento acontece no turno inverso ao do ensino regular, e a frequência é estabelecida de acordo com a necessidade de cada aluno. Quando está em casa, Samuel se diverte assistindo filmes. Na sala, embaixo da televisão ligada em volume alto, ficam algumas caixas decoradas com personagens de desenhos animados. Lá dentro estão organizadas as histórias fictícias que o deixam fascinado. “A maioria das palavras que ele aprendeu foi olhando os filmes. Ele sabe todas as falas dos personagens”, ressalta Tânia. Com a convivência familiar, algumas características vão sendo identificadas na personalidade de quem é portador de Síndrome de Down. Conforme a mãe de Samuel, qualquer planejamento deve ser pensado em longo prazo, pois para essas pessoas, a noção de tempo é gradativa, e está vinculada às vontades e limitações de cada um. Segundo ela, um dos principais sinais é o isolamento. “Ele se enturma com os colegas, mas tudo


acontece no tempo dele. Quando se cansa, vai brincar sozinho na pracinha que ele adora”, exemplifica. Para fazer da rotina um ensinamento diário, Tânia destaca a importância de um detalhe fundamental: a paciência. Para os familiares de portadores da síndrome, o exercício do convencimento anda lado a lado com a compreensão. Durante muito tempo, Tânia incentivou Samuel a praticar algum esporte. Escolheram o Karatê, mas, por hora, ele não aceitou. O mesmo ocorreu quando precisou usar óculos, aos seis anos de idade. A decisão de Samuel, mais uma vez, foi negativa. Hoje, orgulhosamente, a mãe conta que essas duas barreiras já foram superadas. “Isso é o que eu considero evolução. Às vezes, demora para ele assimilar determinadas coisas, mas quando consegue é uma vitória”, conta, emocionada. OBSTÁCULOS Muitas são as inseguranças de Tânia. Em meio às recordações, alguns obstáculos contribuíram para que ela desanimasse. Um deles foi a luta junto à Promotoria de Justiça de Cachoeira do Sul, em 2015, pela disponibilidade de um profissional para auxiliar Samuel em sala de aula. Conforme Elaine Dalcin, também assessora da Coordenadoria de Educação, o acompanhamento de um monitor é fornecido às escolas quando há estudantes que apresentam dificuldade nas áreas de locomoção, alimentação e higiene pessoal. “A deficiência do Samuel não é física, mas é intelectual. Na maioria das vezes, ele não aprende quase nada e fica rabiscando num papel a manhã inteira”, contesta Tânia. REALIDADE ESCOLAR Assim como a maioria dos pais, os educadores especiais também entendem a importância de um en-

sino diferenciado e que valorize as habilidades de cada aluno. Conforme a educadora especial da Escola Angelina Salzano Vieira da Cunha, Luziane Oliveira, a maior dificuldade é conseguir desenvolver um trabalho integrado com a comunidade escolar, que envolve os docentes do ensino regular, supervisão, orientação e direção da instituição. Ela considera a inclusão social algo que está sendo construído a passos lentos e afirma que a formação profissional está deficitária. Segundo a professora, os principais fatores negativos são a falta de cursos de capacitação, necessidade de materiais, jogos e equipamentos para compor as salas de recursos, e a carência do acompanhamento de profissionais da área da saúde, como fonoaudiólogos e fisioterapeutas, que possibilitariam

o encaminhamento dos alunos com maiores necessidades. FAMÍLIA Para os portadores de Síndrome de Down, esse pilar é ainda mais concreto. Além de um aprendizado, é um exercício constante, que requer total comprometimento com uma virtude almejada por muitos: a persistência. “Com ele, tudo funciona através de muita argumentação e conversa”, diz. Mas para isso, Tânia já sabe a fórmula certa: “Eu tenho que acordá-lo fazendo bagunça, cócegas ou beijando-o, para que ele já amanheça bem humorado. Ou seja, muitas coisas que se referem a ele, dependem de mim. A forma como eu o acordo, por exemplo, influencia o restante do dia que ele terá pela frente”, revela.

IMPRESSÕES QUE FICARAM NO CORAÇÃO Usando óculos de grau na cor azul, Samuel já me esperava na porta, eufórico. Sem compreender efetivamente a amplitude de sua participação em minha reportagem, ele me convidou para sentar ao seu lado, onde assistia desenho animado. Sem dúvidas, é um menino independente e caprichoso. Gosta de combinar suas roupas e perfumar-se ao sair do banho. “Cheira aqui”, me pediu ele, orgulhoso, apontando para o seu pescoço. Assim que entrei no apartamento, foi fácil sentir a energia amorosa vinda do menino. Um beijo e um carinho feitos em meu rosto foram algumas das tantas recordações que me acompanharam por dias, depois que saí de lá. Durante a conversa com Tânia, Samuel desenhava com seus lápis de cor. “Vou usar amarelo,

que nem o sol”, disse. Mesmo concentrado nas pinturas, sua atenção também estava voltada ao nosso diálogo. Emocionada, a mãe desabafou suas inseguranças e relatou as dificuldades que precisou enfrentar com o filho não somente no âmbito escolar, mas na vida. Passadas quase duas horas de minha visita, com cuidado, Samuel retirou do caderno as folhas em que havia desenhado. Entregou para que eu guardasse e, de mãos dadas comigo, acompanhou-me até a frente do prédio. Na despedida, carinhosamente beijou-me no rosto. E antes que eu desse o primeiro passo em direção à minha casa, surpreendeu-me com mais uma de suas tantas sacadas espontâneas: “Tu gostas de mim”? Nesse momento, meu sorriso e meu olhar significaram mais do que qualquer palavra que eu tentasse pronunciar.

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As mídias digitais como articuladoras de ensino De tablets a aplicativos; professores da Região do Vale do Rio Pardo inovam seus métodos em sala de aula REPORTAGEM E FOTOGRAFIA: JÚLIA IPÊ DA SILVA

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ão ignorar que a tecnologia chegou para ficar, mas também não deixar que o aluno fique à mercê das informações instantâneas que contemplam a realidade. Um dilema comum quando se fala de ensino em meio às mudanças das tecnologias de informação. A partir daí começa-se a desenhar o que pode ser feito em sala de aula para que a educação continue cumprindo seu papel de formação. A essência é visualizar nas novas ferramentas tecnológicas mais do

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que um recurso, uma nova forma de ensinar e aprender. Dilermando Piva Junior, doutor em Engenharia de Computação, já questionava em sua obra Sala de aula digital: uma introdução à cultura digital para educadores: como utilizar de forma eficiente os recursos existentes, como a Internet, os softwares educacionais e os aplicativos no processo educacional? Isso porque não basta termos todas as opções tecnológicas possíveis se os educadores não sabem utilizá-las da maneira mais adequada.

As reflexões em torno do assunto mídia e educação vêm sendo aprofundadas há décadas, dada a constatação de sua influência na formação do sujeito contemporâneo e da necessidade em explorar o assunto diante do rápido desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação. O principal desafio que envolve as duas áreas é a inserção do professor dentro deste contexto educativo tecnológico, em contraposição às maneiras mais antigas de educar. “A educação está acostumada a


Veja da seguinte maneira: ao invés de recursos tecnológicos substituírem o papel professor, é muito mais produtivo pensar em como a tecnologia pode ajudar no trabalho dele.

modelos estruturados, sólidos e previsíveis”, comenta o Diretor do Colégio Marista São Luís, Nei César Morsh. Segundo ele, muitos gestores de escolas e professores não estão preparados mental e organizacionalmente para incorporar todo o potencial de flexibilidade, colaboração e personalização que as tecnologias podem trazer para a escola. A escola dirigida por Nei fica em Santa Cruz do Sul, município repleto de casos sobre a boa utilização das tecnologias a favor da educação. Desde professores de escolas de nível básico, fundamental e médio, até de cursos pré-vestibulares e de nível superior estão trabalhando ativamente a inserção da cultura digital. Professora do 2º ano do ensino fundamental da Escola Estadual Gaspar Bartholomay, Lúcia Silva é uma destas profissionais. Há cerca de dois anos ela começou a trabalhar com aplicativos para alunos com dificuldade de aprendizagem. A intenção era praticar através de atividades dinâmicas. “Atualmente temos inúmeros jogos que exercitam a alfabetização ao nosso dispor. A essência é dosar a quantidade de tempo destinada a esse tipo de atividade”, ressalta. Hoje, ao pesquisar o termo “alfabetização” em ferramentas de busca de aplicativos, centenas de milhares de opções de jogos e exercícios são ofertadas. De acordo

com o neurologista infantil Christian Muller, o principal foco que se deve ter no momento de utilizar estes aplicativos é a cautela. “O advento de todas novas formas de tecnologia tem de ser vistos como auxiliares. Não é necessário bloquear o uso destes dispositivos, mas, sim que haja normatização e responsabilidade”, afirma. Após bons resultados na aprendizagem de seus alunos, Lúcia passou a incorporar o uso dos aplicativos educacionais para a turma inteira. O tradicional “dia do brinquedo”, atividade praticada pela professora nas sextas-feiras, tomou novas proporções. “Desde que percebi os benefícios de utilizar estes aplicativos, com jogos interativos e interessantes, incentivei que os alunos também trouxessem celulares e tablets neste dia”, conta a professora. O APLICATIVO FÍSICA BÁSICA Estudar não é mais sinônimo de livro, papel e caneta. Cada vez mais a Play Store e a Apple Store são procuradas como ferramenta de busca de ensino. Ali é possível encontrar aplicativos para aprendizagem em diversas áreas, entre elas o Física Básica. Ângela Dreissig é professora de física em Santa Cruz do Sul e exerce esta profissão há 34 anos. No dia 14 de abril de 2015 lançou, com a ajuda de seu filho – o programador Mauro Dreissig, o apli-

cativo para revolucionar os estudos de física, especialmente para vestibulares e para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Segundo a educadora, nestas provas os conteúdos de física estão sendo cobrados de forma contextualizada e acabam abordando a aplicação de conceitos e leis nas mais diversas situações. Para a criação do aplicativo, o maior cuidado foi de selecionar conteúdos que não são básicos do currículo. “Muitos conteúdos apresentados ali, a grande maioria não chega a estudar nas escolas”, comenta. No aplicativo é apresentada uma listagem de exercícios de vestibulares e de Enem com resoluções ou uma cartilha de conteúdos. As situações problema e questionamentos presentes no “Física Básica” desafiam o raciocínio de tal forma que várias possibilidades de perguntas surgem numa questão que passa a ser explicada em seguida. “Dessa forma, é possível revisar e aprender muito mais em pouco tempo”, diz Ângela. A motivação em criar o software surgiu pelo acesso fácil aos aplicativos e pela praticidade de poder estudar a qualquer momento e em qualquer lugar. “Física não é um assunto fácil, por isso é necessário estudo fora de sala de aula. Com as atividades do ‘Física Básica’ as pessoas podem estudar durante uma viagem, por exemplo”, comenta.

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O PAPEL DO EDUCADOR Não, não veja as novas tecnologias como inimigas da educação. Veja da seguinte maneira: ao invés de recursos tecnológicos substituírem o papel do professor, é muito mais produtivo pensar em como a tecnologia pode ajudar o trabalho dele. Estudos, inclusive, indicam que não adianta usar a tecnologia apenas por usar: projetos que não tenham objetivos claros e integração com o currículo escolar vão agregar pouco ao aprendizado.

Ângela Dreissig afirma que, apesar da cultura digital estar cada vez mais presente na realidade das escolas, o professor continua cumprindo seu papel da mesma forma que cumpria antes das tecnologias. “É um profissional essencial na mediação do conhecimento, nas explicações gerais, nas dúvidas individuais e, principalmente, como exemplo de organização, disciplina e cultura de valores éticos e morais”,

defende a professora. O advento de todas novas formas de tecnologia tem de ser visto como auxiliar. Como defende Muller, as escolas têm de fazer projetos-piloto, com uso em disciplinas especificas, e não em todos os conteúdos. “Pode ser mais um meio de ensino, mas de nenhuma maneira pode retirar o papel principal, fundamental da escrita e leitura, e dos meios tradicionais de ensino”, pontua o neurologista.

e Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas (PPGMP/ UFPEL) e antropóloga do Museu Antropológico do Rio Grande do Sul (SEDAC/RS). Segundo ela, diversas tentativas de trabalhar com o auxílio da internet em sala de aula já aconteceram, como por exemplo, em trabalhos de grupo, mas as experiências não teriam dado certo por causa do uso excessivo de sites que não os de pesquisa acadêmica. “O uso de redes sociais em aula é péssimo. Os alunos não aprendem em aula e não aprendem na rede. Salvo uma ou outra exceção”, enfatiza. A docente atribui o insucesso das práticas de inclusão dos recursos da web a uma utilização mecanizada das tecnologias, ou seja, a uma falta de reflexão sobre seu uso. “O pensamento tecnicista prejudica, pois nem sempre há uma compreensão da importância dos saberes das ciências humanas. Assim, alguns

alunos adotam certa seletividade em relação às disciplinas que farão ou não uso das redes sociais durante as aulas. Poderiam enriquecer o conhecimento, trazendo informações pertinentes ao debate em aula, para confrontar opiniões a partir de buscas em internet. Como não fazem, perdem a oportunidade de aprender, de debater com os professores, com a turma”. A pesquisadora, no entanto, não é contra as redes sociais. Ela considera apenas que esses sites deveriam ser utilizados apenas para lazer, e que a internet, com todo o seu potencial, poderia ser melhor utilizada, até mesmo como um exercício de cidadania. Na sala de aula, no entanto, o que ela busca são “vivências que prescindam da internet, ou que a partir dela possam estabelecer atitudes e formas de vida menos sedentárias corporalmente, e também presenciais em termos de relações afetivas humanas”.

E AS REDES SOCIAIS? Por Jéssica Keroláine Imhoff Enquanto os aplicativos são tidos como saudáveis se utilizados na dose certa, as redes sociais não são vistas da mesma forma por parte dos professores. Cada vez mais utilizados, especialmente através da criação de grupos e bate-papos que permitam conversas e trocas de informações de forma coletiva, os sites de relacionamento são tidos como dispersivos da atenção e por isso, ferramentas que devem ser evitadas, pelo menos dentro da sala de aula. Os alunos garantem que é útil, sim. A estudante de Ciências Biológicas, Bruna Toillier, de 22 anos, conta por exemplo que a ferramenta proporciona uma “agilidade na comunicação e uma dinâmica maior” na troca de informações. Já os educadores relatam experiências menos proveitosas. Esse é o caso da professora de antropologia da Unisc Maria Helena Sant’ana, que é doutoranda em Memória Social

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Cupido Moderno. Ao invés da flecha, o celular Aplicativos de relacionamento se tornaram febre e têm dado uma mãozinha extra na hora da paquera REPORTAGEM E FOTOGRAFIA: DÉBORA PRICILA DA SILVEIRA

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unca se sabe quando o amor da sua vida irá bater em sua porta. Talvez ele nem bata. Encontrar um parceiro ou parceira para embarcar em um relacionamento sério pode não ser tarefa fácil e, por diversos fatores: a timidez, a dúvida em saber o momento certo de se aproximar da pessoa ou até mesmo a dificuldade de encontrar aquele alguém especial. Mas não percamos a esperança, a tecnologia está aí para dar uma “mãozinha” a quem está em busca de um novo amor. O reforço em questão tem nome: aplicativos de relacionamento. E tem muita gente que está usando e abusando desta ajuda extra na hora da paquera. Certamente você

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já ouviu falar, conhece alguém que faz ou já fez uso desta ferramenta que é febre entre os jovens. Mas será possível encontrar o tão falado amor verdadeiro através de um app? É perigoso conhecer e se relacionar com alguém de forma virtual? Para a estudante de Relações Públicas Michele Lisboa, 29 anos, se o usuário adotar alguns cuidados como pesquisar informações sobre a paquera, procurar saber as verdadeiras intenções da pessoa com a qual está

conversando e marcar os primeiros encontros em um local público, seu uso é, sim, indicado. Ela, que de início não levava fé na ferramenta, foi surpreendida com uma nova paixão. Foi por meio do aplicativo Tinder, um dos mais populares, que Michele conheceu Moisés Agne, 29 anos. O relacionamento, que começou através de conversas realizadas na tela de um smartphone, já dura pouco mais de um ano e meio. O jovem casal demonstra ser companheiro. Enquanto concediam a entrevista para esta reportagem, as mãos, pousadas sobre a mesa marrom do centro de convivência do bloco 16, da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), permaneceram a maior parte do tempo entrelaçadas. Michele e Moisés


moram na mesma cidade, Cachoeira do Sul, mas foi preciso ambos se cadastrarem no serviço de relacionamentos para que de fato se conhecessem. Não que seus caminhos já não tivessem se cruzado antes. Os dois estiveram presentes em uma mesma festa de formatura, contudo não chegaram a conversar. O evento foi uma semana antes de acontecer o famoso “match”. A expressão é utilizada quando duas pessoas usuárias do aplicativo demonstram interesse uma pela outra. Michele e Moisés consideram-se pessoas com gostos diferentes, mas para eles é justamente isso que faz o casal dar certo. Moisés já utilizava aplicativos de relacionamento há algum tempo e até já havia conhecido outras pessoas por meio da ferramenta. Michele havia adentrado neste universo há pouco tempo. Ele procurava um relacionamento sério. Ela não acreditava que fosse possível encontrar alguém para dividir seus dias através de um app. Mas bastou o início de uma conversa no bate-papo para que um interesse em comum surgisse: o de se encontrarem pessoalmente. A partir daí muitos outros interesses surgiram. FERRAMENTA ANTIGA Pode parecer que a prática de conhecer pessoas para possíveis relacionamentos amorosos através dos aplicativos seja algo recente, porém não é. As pessoas já faziam isso desde quando a internet começou a se popularizar, contudo, na época, essa ação ganhou o estigma de que só era feita por “desesperados”. Com a popularização dos aplicativos de relacionamento o preconceito parece ter sido vencido e na atualidade tornou-se algo comum. A estudante de Produção em Mídia Audiovisual, Jéssica Gomes

Dick, 25 anos, diz que foi justamente em virtude do preconceito que demorou a falar para sua família e amigos que conheceu o namorado, Matias Felipe Wartchow, 31 anos, através de um aplicativo. A jovem e Wartchow estão em um relacionamento sério há nove meses e há um mês assumiram o compromisso de morar juntos. Jéssica que é de Vale Verde, agora mora em Santa Cruz do Sul, cidade natal do namorado. Assim que se conheceram pessoalmente, após aproximadamente uma semana de conversa pelo celular, ambos excluíram suas contas da rede de relacionamentos. “Não precisamos mais, se a intenção era de encontrar uma pessoa, encerrou ali a procura”, destaca a jovem, que garante que a sinceridade é a melhor receita para fazer um relacionamento dar certo. Logo no primeiro contato virtual, Jéssica e Wartchow aproveitaram para perguntar e deixar claras informações que julgavam ser importantes, de modo que não ficasse nenhum dado essencial para trás. Conforme o casal, isto evita surpresas e decepções na hora de dar um passo adiante na relação. “A primeira coisa que ele me disse é que tinha uma filha de 11 anos”, aponta a estudante. O que não foi problema algum para a pretendente. Desta forma, mesmo em pouco tempo de conversa realizada pelo celular, o casal diz que já se sentia muito próximo. O primeiro encontro pessoalmente do casal aconteceu no dia 6 de agosto de 2015 em um lugar bastante conhecido de Santa Cruz do Sul - a Avenida Imigrante, ambos foram sozinhos, pois não sentiram a necessidade de levar algum amigo junto. “A gente já tinha conversado tanto, que já sabia tudo, tudo um do outro”, lembra Jéssica. “Quando a gente começou a

conversar, foi quando minha irmã ganhou bebê e teve complicações no parto e aí a família em si estava toda abalada, quem me ajudou foi ele. Então já estávamos muito próximos” acrescenta. Mas isso não impediu que ambos tivessem cautela ao se encontrarem pessoalmente pela primeira vez. Alguns cuidados como marcar em um local público e avisar conhecidos para onde estariam indo foram adotados. O casal diz que a ferramenta fez a mediação para que se conhecessem, mas acreditam que o destino quis que ficassem juntos. É como se o app fosse um cupido moderno. Isto porque no dia em que seus perfis se cruzaram no aplicativo, Jéssica estava passean-

A sinceridade é a melhor receita para um relacionamento dar certo.

do na casa de uma amiga em Santa Cruz do Sul. Se não estivesse na cidade, dificilmente se encontrariam, pois o aplicativo procura por pessoas que estejam próximas ao usuário. No caso de Matias, a ferramenta estava configurada para encontrar perfis em um raio de até 20 quilômetros. Mais tarde os dois descobriram que já poderiam ter se encontrado anteriormente, visto que seus primos tiveram um relacionamento de curta duração. “Era pra ser”, declara ela. Eles dizem que o uso deste tipo de serviço é indicado, mas alertam que é preciso ter cuidado se a vontade for encontrar alguém que esteja disposto a embarcar em uma nova paixão, pois não são apenas solteiros que figuram por ali.

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RISCOS NEM TÃO NOVOS ASSIM Para a psicanalista Vanessa De Cesero Holuigue aplicativos de relacionamento são apenas mais uma forma de encontros se darem entre as pessoas, assim como acontece em boates, no trabalho, nas universidades. Mas é necessário se preservar. “O problema não me parece ser o uso de uma ferramenta virtual para se encontrar parceiros, mas sim, muitas vezes, a maneira como se utiliza esta ferramenta. Aqui refiro-me à falta de ética que muitas vezes permeia nesta sociedade… e isto pode ser identificado nos apps, mas também em tantos outros setores de nossas vidas”, destaca. Ela afirma que, entre os principais problemas que o uso destes serviços pode trazer, estão as questões práticas referentes à segurança e à integridade do sujeito, bem como as subjetivas, como, por exemplo, desilusões e tristezas. “Mas cabe salientar que este não é um problema gerado pelos apps. As desilusões fazem parte da vida e dos relacionamentos; não devemos passar a vida tentando não senti-los, mas sim devemos desenvolver a capacida-

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de de por eles passar e com eles amadurecer”, reflete Vanessa. Já a psicóloga Daniele Roesch ressalta que cada pessoa irá levar esse contato virtual de uma forma distinta, isso tudo em função de suas experiências já vividas. “Aos meus olhos, um dos principais problemas, é você entrar de corpo e alma na vivência virtual, sem questionar a forma que é proposta pelos aplicativos. Cito aqui, a forma como cada pessoa se apresenta, geralmente passando o melhor de si, mostrando suas melhores fotografias, sua gentileza... passando muitas vezes a impressão de uma pessoa perfeita... ou então, quase perfeita”, aponta. Ambas concordam que ao criar expectativas sobre o outro alguém, o sujeito apresenta um risco maior de passar por conflitos emocionais, e por decepções, por isso é necessário cautela. Em relação ao perfil das pessoas que mais recorrem aos aplicativos de relacionamento, Daniela afirma que como o número de adeptos a estas ferramentas é

grande, é difícil definir um perfil de pessoas que buscam pelos aplicativos. Porém, pode-se afirmar que eles facilitam as tentativas de contato (mesmo que virtual), logo os mais tímidos podem se sentir encorajados a buscarem novos amigos, conhecidos ou futuros pares por ali, mas não se deve generalizar; perfis distintos utilizam a ferramenta. As profissionais deixam algumas dicas para que se faça uso do cupido moderno de forma saudável para tirar proveito das coisas boas que a ferramenta oferece. Vanessa aconselha manter-se discreto, porém atento aos comentários do outro, além de desenvolver a autocrítica, questionando-se, por exemplo, se não está muito carente ou suscetível. Daniela aconselha que em primeiro lugar você deve se conhecer muito bem, saber quais são seus limites e o que você busca ao se apropriar destes aplicativos. “Os contatos virtuais acabam fascinando, criando expectativas de pessoas perfeitas por todas facilidades que os aplicativos propõem”, enfatiza.


DIZ AÍ: EU UTILIZO A jornalista Heloísa Letícia Poll é adepta aos aplicativos de relacionamento, assim como a maioria de seus amigos. O primeiro contato com a ferramenta aconteceu em 2014, por indicação de um amigo. Ela conta que decidiu fazer seu cadastro para conhecer pessoas e, quem sabe, ter algo mais. “No início diziam que Tinder era somente para quem procurava sexo. Por isso demorei um pouco para instalar. Mas depois percebi que não era só isso. É você quem determina o que vai rolar ou não”, comenta. Heloísa afirma que no momento busca conhecer pessoas interessantes e que possam agregar algo. Ainda não pensa em namoro sério. Ela indica o uso de aplicativos de relacionamento, mas alerta que a ferramenta acaba sendo apenas um complemento para ter contato com novas pessoas. “Não acho saudável, por exemplo, que a pessoa queira conhecer outras pessoas somente por meio dele”, aponta.

É PRECISO FICAR DE OLHO Com o uso da ferramenta a jornalista conta ter tido muitas experiências divertidas e outras nem tão agradáveis. “Felizmente conheci muitas pessoas legais. Tive a sorte de conhecer pessoalmente algumas delas. Com outras ficou a amizade só pelo aplicativo mesmo. E, claro, conheci pessoas que não gostaria de ter conhecido (risos)”, declara ela. Embora Heloísa se defina como alguém aberta a conhecer novas pessoas e não lhe falte animação, ainda assim ela toma alguns cuidados ao fazer uso da ferramenta. “Logo corto aquela pessoa que não está dentro daquilo que procuro. Também não combino de sair com algum cara com quem conversei somente um dia. Marco encontros somente com quem sinto que o papo rola legal, e em ambientes com muita gente. Também procuro adicionar no Facebook e sentir que a pessoa é de verdade (risos). Eu já namorei por três anos e meio um cara que conheci no chat do Terra, em 2006 (mais risos)”, conta a jovem. COMO FUNCIONA O processo de utilização de um app de relacionamento acontece da seguinte forma: após realizar o cadastro na ferramenta, apenas por pessoas maiores de 18 anos, uma lista de homens ou mulheres irá aparecer no visor do celular. O usuário indica aqueles que acharem mais atraentes e os quais têm interesse em conversar. Se sua ação for correspondida, isto significa que “deu match” e uma caixa de diálogo aparecerá para que ambos conversem. Ou seja, para que o bate-papo seja iniciado é necessário que o interesse seja recíproco.

O primeiro sargento responsável pelo comando do 3º Pelotão da Brigada Militar de Vera Cruz, Celiomar da Silva Acosta, alerta que é preciso ter cuidado ao se relacionar com alguém de forma virtual, pois assim como pessoas bem-intencionadas utilizam os aplicativos, gente de má índole, inclusive estelionatários enxergam nos usuários destas ferramentas alvos fáceis para golpes. Ele deixa a quem está se relacionando com alguém de forma virtual as seguintes dicas:  Evitar fornecer dados pessoais (endereço seu e de seus familiares, entre outros)  Certificar-se que a pessoa com quem se está conversando é realmente quem ela diz ser.  Desconfiar sempre que a pessoa demonstrar muito interesse por sua rotina (como horário de chegada e de saída), quantas pessoas moram com você, seus dados patrimoniais como identificação veicular ou até mesmo dados bancários.  Marcar encontros em local público, obtendo-se o máximo de características da pessoa com a qual vai se conversar (cabelo, altura, cor da pele, idade). Se possível, levar uma terceira pessoa para monitorar o encontro.  Nunca aceitar carona nem de ida, nem de volta. Procurar marcar o encontro na cidade em que reside e não dar hospedagem para o novo conhecido, indicando um hotel ou algo do gênero para que ele faça a sua estadia. O sargento ainda ressalta que no caso de crianças ou adolescentes deve-se ter ainda mais atenção ao utilizar a internet. Segundo ele, é comum que delinquentes se passem pela mesma idade da vítima para praticar seus crimes.

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Vila Mariante: de centro comercial ao ostracismo Do período de glória, o distrito vive hoje uma calmaria indesejada REPORTAGEM E FOTOGRAFIA: DANIEL HECK

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uem ingressa no distrito de Vila Mariante avista edificações antigas e casas de dois pisos preparadas para fugir das enchentes que atingem anualmente a região, mas não imagina que este local já foi um dos mais importantes do Rio Grande do Sul. Este vilarejo é daqueles que já viveram seu

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tempo de glória. Por volta de 1900, o porto da localidade era um dos principais centros para o escoamento da produção agrícola, petrolífera e de diversos outros produtos para todas as regiões do estado. Hoje este recanto é tomado pela calmaria; seus moradores mais antigos recordam os períodos de glórias e vislumbram um futuro diferente.

Ao ingressar pela RS-130, via que cruza o distrito, é possível ver algumas edificações novas, uma ilusão, se comparada ao que se vê nos próximos passos. Com exceção de algumas casas e prédios comerciais, a Vila Mariante ainda tem características antigas, traços do povo açoriano. Na frente das casas existem redes


de pesca e pequenos barcos encostados nos pátios residenciais. O antigo prédio ocupado pelo porto, castigado pelo tempo, já sem pintura e sem traços que indiquem que neste local havia um porto, hoje é ocupado por uma empresa de materiais de construção. Outro local na região central, onde havia um armazém, hoje é utilizado na extração de areia do rio Taquari. Com uma memória incrível, recordando datas, relacionando-as com personalidades do período e com vizinhos, Ênio Fernando Junqueira, de 72 anos, relembra quando o porto de Mariante recebia grandes navios de carga. “Tinha dias que havia tantos cami-

nhões e carroças esperando para descarregar ou carregar que a fila chegava até Itaipava das Flores (comunidade distante cerca de dez quilômetros da área central). O pessoal dormia nos veículos ou ia para os hotéis. Vinha gente de tudo que era lugar, o dia inteiro era movimentado aqui em Mariante”, recorda. O porto da Santinha hoje é um local turístico, com a presença do santuário de Nossa Senhora dos Navegantes, possivelmente trazida pelos portugueses durante a colonização da área. Não há como cruzar a região sem ser notado, qualquer movimentação diferente é percebida pelos moradores. O oposto do que ocorria há cerca de

100 anos, quando trabalhadores de outras cidades vinham diariamente para Vila Mariante. Hoje a economia do segundo distrito de Venâncio Aires é focada na agropecuária, a partir da venda de fumo, milho e pastagens, além da criação de gado em grandes fazendas. “Em Mariante, havia três depósitos de petróleo para estoque e posterior distribuição de combustível, grandes armazéns, os hotéis e mercados eram importantes fontes de arrecadação. Para ter uma ideia do movimento, tinha seis ou oito linhas de ônibus que passavam por aqui para nos levar para o centro”, diz enquanto sorve um chimarrão, preparado para receber os visitantes.

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ENCHENTES

Ênio vive com a esposa Maria Clotilde Junqueira, de 72 anos, em uma casa antiga, elevada sob fortes estruturas de concreto, no local que abrigou a primeira escola da região e sobreviveu às diversas enchentes. O agricultor recorda como os principais fenômenos naturais os casos de 1941 e 1942, mas descarta que esses efeitos tenham prejudicado o desenvolvimento local. “Quem mora em Mariante já está acostumado com as enchentes, não foi isso que fez com que a região fosse desvalorizada. As casas foram preparadas para suportar esses efeitos naturais. Quem vive aqui precisa se adaptar ao rio Taquari. A desvalorização de Mariante não passou pela elevação da água”, afirma de forma enfática. Pensando da mesma maneira que o agricultor, o aposentado João Francisco Dutra, de 72 anos, com tranquilidade, reafirma o perfil da comunidade ao enfrentar esse tipo de fenômeno. “Não é esse o motivo que fez o distrito de Vila Mariante deixar de prosperar. Há uma série de fatores que podem ter prejudicado, mas a comunidade sabe conviver com a situação das enchentes. Muitos dependem do rio Taquari e atribuir essa culpa às águas é injusto”, explica.

QUANDO PROSPERAR É UMA ENGANAÇÃO

O dia 20 de setembro de 1958 está cravado na memória de Ênio Junqueira. Naquela data, aos 14 anos, o jovem, que ajudava os pais nos trabalhos diários da lavoura, viu o governador Ildo Meneghetti chegar ao distrito de Vila Mariante. A visita do político, ainda sem se envolver diretamente no golpe militar e na queda do presidente João Goulart, tinha o objetivo de inaugurar a ponte que ligava os Vales do Rio Pardo e Taquari à região central do estado. “Foi uma festa muito bonita, muitas pessoas vieram para cá e o pensamento é de que viria

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BALSA INATIVA

Além da movimentação portuária, com a vinda de diversos produtos para o Porto de Mariante, a região também tinha a balsa que fazia o transporte de uma margem à outra do Rio Taquari. Como não havia a tecnologia atual, o deslocamento, muitas vezes, se tornava perigoso. “Os carros subiam na balsa, não me recordo quantos veículos cabia, mas dependendo como se acomodava pendia para um lado e começava a afundar, tinha que manobrar tudo rapidamente para evitar uma tragédia. Uma vez, o freio de um carro falhou. O veículo caiu na água, mas o pessoal que trabalhava foi rápido e conseguiu salvar a família.”, relembra Ênio. Com os portos e a balsa desativados, o distrito de Vila Mariante aguarda uma maré favorável para a mudança de ares. A vinda de iniciativas públicas ou o retorno do transporte fluvial são as esperanças, mesmo vendo que a região já conta com o remodelado porto de Estrela e a barragem de Bom Retiro do Sul, fatores que dificultam qualquer projeção, mas não naufraga os sonhos dos moradores.

Depois da inauguração, os portos foram desativados e a movimentação, antes intensa, caiu abruptamente.

crescimento. Todos achavam que Mariante iria prosperar, mas foi o contrário. Depois da inauguração, os portos foram desativados e a movimentação, antes intensa, caiu abruptamente. Foi um baque muito grande”, diz Ênio, sem a mesma animação que apresentou ao falar das longas filas de caminhões.


Os primeiros roncos de motor em Santa Cruz do Sul Por Thiago Haas Carlotto

Era dia 6 de maio de 1914, na pacata Santa Cruz, que desde 19 de novembro de 1905 deixara de ser a Vila de São João de Santa Cruz para ser elevada à cidade de Santa Cruz. Naqueles tempos, os veículos automotores eram uma novidade no Brasil. Trazidos da França para o país em 1891 por Santos Dumont e José do Patrocínio, os carros apareceram pelos recantos do Rio Grande do Sul somente em 1906, por meio do comerciante de secos e molhados Januário Greco. O veículo, um De Dion Bouton, também era de procedência francesa e chegara desmontado em caixas no cais do porto de Porto Alegre. Em Santa Cruz, um homem importara o motor e, com peças próprias e mão de obra local, construíra o primeiro veículo movido a motor de explosão do município. Era o Sr. Henrique Melchiors – que instalara a luz elétrica na cidade em agosto de 1906 e era o diretor-técnico da Usina Elétrica Municipal. No fim de 1911, ele apresentara a grande novidade à comunidade, quando circulara pelas ruas com a sua geringonça. Em 26 de fevereiro de 1912, o jornal Kolonie publicara que em breve haveria outro automóvel em Santa Cruz. Meio ano depois - em agosto - o Sr. Henrique recebia, diretamente do Estados Unidos, o primeiro carro importado da localidade, que tinha 16 cavalos de potência e assim desativava o primeiro auto. Em pouco tempo, surgiram interessados em passear de carro e, num domingo ensolarado, o Sr. Melchiors os convidou a ir até Vila Thereza (atual Vera Cruz). Todavia, os tempos não eram fáceis. A viagem foi só de ida, pois o automóvel não funcionou e os passageiros voltaram numa carroça puxada por cavalos que rebocava a novidade. O entusiasmo pelo modernismo tomava conta de Santa Cruz. Em novembro de 1912, o homem

responsável pela energia elétrica local dispunha de mais um automóvel, o segundo importado - da britânica Humber - que tinha capacidade para quatro passageiros. Interessado em lucrar, Melchiors comercializava viagens com a nova atração da cidade para Vila Thereza e Rio Pardinho. Um mês depois, o Sr. Carlos Lund apresentou à comunidade o seu carro, da alemã Neue Automobil-Gesellschaft (NAG), chamado Colibri, com espaço para duas pessoas. O ano de 1913 notabilizou-se pela chegada de incontáveis autos à Santa Cruz. Nesta época surgiram os primeiros problemas de trânsito na até então pacata cidade. Os carroceiros recusavamse a dar passagem aos novos automóveis. O barulho do ronco dos motores e o odor de gasolina afligiam os moradores, que reclamavam ao redator do Kolonie, Sr. José Ernesto Riedl. Eram quase 11 horas da manhã daquele dia 6 de maio de 1914. O Sr. Melchiors passeava calmamente pela Rua da República (atual Marechal Floriano) com o seu Humber até que, num instante de distração após um chamado de uma pessoa que caminhava na calçada, colidiu na traseira de um carro que estava estacionado em frente ao Clube União - o Colibri do Sr. Lund. Os viventes mais próximos assustaramse. O acidente transformou-se em acontecimento. Após alguns instantes de exaltação, os proprietários chegaram a um acordo sobre o pagamento dos estragos. Cada motorista arrancou seu carro e partiu, sob aplausos do público. Fontes: Recortes do Passado de Santa Cruz – Hardy E. Martin – Edunisc – 1999. Blog Almanaque Gaúcho, coluna Memória do jornal Gazeta do Sul. *Acadêmico do Curso de Comunicação Social - habilitação Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul

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Foto: Marlon Costa


Desenhos e cores que transformam lugares e vidas A arte que surgiu como meio de expressão das ruas vem conquistando seu espaço e transformando os centros urbanos REPORTAGEM: PÂMELA CAPORALLI FOTOGRAGIAS: MARLON COSTA E VICTOR COSTA

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anta Cruz do Sul é um lugar cheio de histórias, onde a cultura dos imigrantes está presente na língua alemã falada por muitos e passada de geração em geração nas festividades da cuca e da linguiça e da aguardada Oktoberfest – a terceira maior festa germânica do mundo - que este ano celebra sua trigésima segunda edição. Quem caminha pela cidade encontra ruas limpas com canteiros floridos e pedras pintadas, geralmente, de branco. Mas, as ruas vêm ganhando um colorido diferente. Desenhos pintados em muros e paredes começam a fazer parte do visual urbano do município. Essa arte, conhecida mundialmente como grafite, é feita com latas de tinta spray e seu nome deriva da palavra italiana “grafito”, que significa a “escrita feita com carvão”. Presente nos grandes centros urbanos, o grafite é uma importante manifestação cultural e social de um povo. Por meio dele é possível transmitir mensagens, emocionar e embelezar as ruas das cidades, dando vida ao que antes não possuía cor. Com o intuito de incentivar e ajudar jovens que tem interesse pelo grafite, o artista plástico e grafiteiro Rodrigo de Almeida criou um espaço nos fundos da própria casa para unir tribos e talentos. O local é chamado

carinhosamente de “Vivências Urbanas” e fica em uma antiga garagem, que hoje está toda grafitada e, de tempos em tempos, abriga eventos que reúnem grafiteiros e dançarinos de Hip-Hop da região. “O grafite surgiu para mim através da cultura hip-hop e hoje eu me orgulho desse espaço, pois não só eu e sim todos os meus amigos e familiares deixaram suas marcas aqui através de desenhos de grafite”, salienta Rodrigo.

São poéticos. Ácidos. São metáforas, antíteses!

Além de ganhar a vida com a arte de rua, nas horas vagas Rodrigo é professor e realiza, de forma gratuita, oficinas em escolas da rede pública, nas quais fala sobre a história da dança e do grafite, procurando incentivar a prática da arte em crianças e adolescentes. “É uma oportunidade para que o grafite e a dança ganhem outro status e os jovens ampliem suas referências de arte e não saiam por aí riscando muros ou dançando no meio da rua”, afirma. A arte do grafite surgiu em paralelo a diferentes movimentos

e tribos urbanas, como o hip-hop, também conhecido como dança de rua. Muitas vezes, as pessoas associam o grafite ao hip-hop, “É como se o hip-hop fosse a palavra da periferia e o grafite a expressão gráfica dessa palavra, sendo o grafite a pintura e o muro seu suporte, e por meio da musicalidade o DJ através do Hip-Hop passa sua mensagem”, enfatiza o dançarino santa-cruzense de Hip-hop Maicon Oliveira. HISTÓRIA Segundo o portal Dom Total, o grafite é uma arte urbana caracterizada por desenhos em paredes, muros, edifícios e ruas, disseminada a partir do movimento contracultural de 1968, quando os muros de Paris foram suporte para inscrições de caráter poético-político. O grafite tomou forma em Nova Iorque, no ano de 1970, depois que jovens deixaram suas marcas em muros da cidade, de acordo com o site TodaMatéria. No Brasil, esta forma de arte apareceu na mesma época, em São Paulo, como a linguagem das ruas e da marginalidade, como uma arte transgressora, proibida, que não pedia licença e retratava nas paredes das cidades todos os anseios de uma geração. Nos primeiros anos, o grafite surgiu como um importante veículo de comunicação urbana, uma espécie de demarcação de território,

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Foto: Victor Costa

afirma o site Arte de Rua. Ele se caracterizava pela autoria anônima, dessa forma o que importava naquele momento, era a arte em si e não o nome de seu autor. “Nas ruas, o grafite se tornou uma arte de todos e para todos, arte de rua, na rua e para a rua, na cidade e para a cidade”, destaca Rodrigo. Dessa forma, a arte começou a entrar na vida das pessoas, se tornando parte do visual urbano. Agora, ela estava nas paredes, nos tuneis, nos prédios da cidade, no espaço público para quem tivesse o interesse de ver, e não apenas dentro de museus ou centros culturais. Rodrigo salienta que os grafiteiros expressam nos grafites seus pensamentos sobre a sociedade, a política, o futebol, a própria vida em si e, principalmente, as suas concepções artísticas. Desde 1988, no dia 27 de março, é comemorado em São Paulo o Dia do Grafite. Essa data surgiu, como uma homenagem ao artista plástico Alex Vallauri que foi uma figura importante no cenário no grafite, na cidade. O fascinante dessa arte é que, embora seja autoral, ela é muito democrática, pois, o desenho fica exposto para todos sem qualquer

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distinção, basta parar para observá-lo. Dessa forma, o grafite ocupa um espaço e interage o tempo inteiro com as pessoas, podendo provocar emoções, reflexões ou simplesmente não provocar nada, tudo depende de quem for parar em frente dele e pensar sobre o que está exposto. Quem nunca, por exemplo, ficou surpreso ao se deparar com alguma frase escrita em alguma parede ou muro pela cidade que lhe deixou pensativo? Para Rodrigo “as histórias da música do hip-hop e dos grafites se juntam e se recriam. É como se estivessem em um catálogo de cores, onde assumem novas formas e tons”. Maicon complementa destacando que “os muros e paredes são a alma dos grafiteiros, o suporte e o lugar onde habitam todas essas histórias e memórias de uma metrópole”. Dessa forma, o grafite e a dança, nasceram da necessidade de transmitir uma mensagem para a sociedade. Caminham com cores em ruas cinzas, provocam o olhar para a cidade e o pensar sobre ela. Em cada símbolo e passo tornam os muros mais visíveis e a arte mais exposta. São poéticos. Ácidos. São metáforas, antíteses!

NO MUNDO DAS GÍRIAS Writer: é o nome dado ao grafiteiro individual Tag: é a assinatura do grafiteiro, sua logomarca. Toy: é um novato na arte do grafite, aquele que está nos primeiros grafites. Bites: é o nome dado para quem copia, os que não têm ideias próprias. Wild Style: é o estilo das letras entrelaçadas, consideradas muito difíceis de fazer. Bomb/ Bombig: são os grafites feitos em um tempo recorde, mas é mais usado para designar pichações ilegais, que geralmente são feitas à noite ou na madrugada. Scribblers: são os pichadores, que realizam o grafite de forma ilegal. Bubble Style - é o estilo de letras arredondadas, mais simples, sendo um dos estilos mais presentes no grafite. Crew - grupo de amigos que geralmente grafitam juntos e que representam todos o mesmo nome. Asdolfinho - Novo estilo de grafite desenvolvido por americanos, no qual é visado a pintura animal.


CONTO

O exterminador Diana Azeredo*

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ra o quinto filme do Schwarzenegger que terminava de rever naquele semestre. Ação era seu gênero preferido e as poucas horas de folga eram dedicadas à sessão improvisada na sala apertada da pequena casa. Não que a esposa detestasse aquele tiroteio cinematográfico, apenas não gostava de ver sangue e, para não implicar com o marido, permanecia na cozinha dedicada a outros afazeres. O futuro filho, esperava, seria seu companheiro durante as tardes diante da tela. Aqueles primeiros meses estavam sendo inesperadamente difíceis e os planos da gestação tiveram de ser adiados para o ano seguinte. A carreira de ambos mal dava conta do financiamento da casa. Até mesmo cogitaram a hipótese de negociar o carro, caso ela fosse aprovada no vestibular e decidisse iniciar o curso técnico. Não poderiam contar com os pais para ajudá-los financeiramente porque de ambos os lados os familiares também estavam em situação semelhante. Dividia-se, mentalmente, culpando o governo e a própria carreira. Não que tivesse sido um aluno brilhante. Mas se esforçara para conseguir o diploma com a promessa de um aumento significativo. Que demorava para vir. Que talvez nem viesse. Que talvez, quando viesse, estivesse defasado. O complemento da renda teria que vir de outro jeito, conforme alertara o colega. Pensava em aceitar a proposta. Era competente no que fazia. Co-

rajoso, bom de mira. E o esquema funcionava há anos. Todos sabiam. Ninguém denunciava. Os soldados obedeciam e os comandantes protegiam. Sem risco de dar errado. Bastaria topar e seria aceito na hora. A próxima missão começaria na madrugada seguinte e estavam precisando aumentar a equipe. A mão trêmula suava e, pela primeira vez, foi difícil segurar o revólver. A faca na cintura apertava a costela esquerda e aumentava a sensação de desconforto. Mas, era necessário terminar o serviço. Que ignorasse os pedidos de clemência, que não desse ouvidos ao choro do outro lado da porta. Naquele momento, seria o exterminador. Logo mais, seria o novo herói da corporação. Voltou a tempo de ser abraçado pela esposa que recém havia terminado de passar o café. O aconchego aromático daquele abraço emoldurado pelos primeiros raios de sol só seria interrompido pela voz do locutor. Após a vinheta com o som da sirene, anunciava o triplo homicídio ocorrido na noite passada. Os corpos dos jovens negros foram encontrados no matagal próximo à entrada do bairro Aurora. Desligando-se daquele rádio sanguinário, tomou um banho rápido e preparou-se para iniciar a jornada. Saiu apressado e só não se esqueceu do distintivo porque a esposa o alertou. *Acadêmica do Curso de Comunicação Social - habilitação Jornalismo, na Universidade de Santa Cruz do Sul

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Por onde passam espalham alegria Buscando na simplicidade da arte, a riqueza da emoção REPORTAGEM E FOTOGRAFIA: MARIELI ROSA

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ram 8h30min quando uma Kombi com os Doutores Só Riso me pegaram na frente da Unisc para irmos ao Hospital Beneficente de Sinimbu. Mas antes de seguirmos viagem, eles me convidaram para fazer uma oração. Ao longo do caminho fomos conversando, expliquei sobre a revista Exceção e depois me falaram um pouco sobre o grupo. Quando chegamos, os Doutores colocaram seus jalecos, pega-

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ram seus instrumentos e fomos encontrar as funcionárias que nos recepcionaram e logo apareceu uma paciente para nos receber, a dona Caecilia Backes, de 85 anos. Todos cantaram uma música para ela e depois começamos a visitar os quartos da ala geriátrica. A instituição tem, em média, 20 residentes na ala geriátrica colocados ali por indicação médica. A rotina dos pacientes começa às 7 horas da manhã com o banho. A adequação à rotina e aos horários

é a parte mais difícil do processo, pois muitos idosos não caminham e outros sofrem de demência. Alguns recebem visitas dos familiares, porém, nem todos têm essa alegria. Ao logo da nossa visita, além da dona Caecilia, outras pacientes nos acompanharam: dona Hedi Bechert, de 75 anos, que ficou o tempo todo quietinha, a dona Gertha Kohls, de 84, que nos presenteou com sua voz suave, dona Noêmia Henckes, de 76, que ficou disputando um dos Drs com a mais animada de todas


- a Dona Ilse Scherer, mais conhecida como a Vó Ila, de 98 anos. Sem dúvida ela roubou a cena, sempre muita alegre e extrovertida, falava o que vinha a sua cabeça e dizia para alguns pacientes que deviam se animar mais. No decorrer da visita percebi que por todo o lugar que passavam espalhavam a alegria. Dava para ver no rostinho de cada paciente a felicidade de ouvir uma música ou participar de uma brincadeira. Por fim fomos levados por elas até a porta do hospital para nos despedirmos. A outra visita do grupo que eu acompanhei foi até a Associação de Auxílio aos Necessitados (Asan) de Santa Cruz do Sul, na qual também esteve presente no passeio o Ministério Vida Plena e o Pastor Jair Hein, da Igreja Batista Pioneira de Santa Cruz do Sul. Quando chegamos quase todos

os residentes estavam nos esperando na frente da instituição em uma parte coberta, onde foram realizadas as atividades. Como não estavam todos presentes, fomos até o interior do prédio buscar os que faltavam. Assim que entrei senti um aperto no peito, uma tristeza. E logo percebi que eles estavam precisando muito dessa visita, para alegrar um pouco o coração daqueles que já foram muito felizes e hoje estão sós. Então começaram as musicas, brincadeiras e também a oração para felicidade reinar um pouco naquele lugar. A felicidade é isso, pequenos momentos, pequenos gestos, com carinho, afeto e amor. A Asan é uma entidade filantrópica que atende aproximadamente 80 idosos em sistema de abrigamento integral,

com atendimento especializado 24h. A presença dessas atividades segundo a psicóloga da entidade, Géli Bringmann, a nível de interação é muito importante para as vovós e os vovôs. “O idoso passa o dia todo na instituição, e nem sempre ele tem o que fazer. Então essas atividades são importantes para parte cognitiva, de interação, de fazer eles se sentiram importantes. E cada visita dos Doutores Só Riso para nós é um presente”, afirma.

Logo percebi que eles estavam precisando muito dessa visita.

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O NASCIMENTO DE UM GRUPO Os Doutores Só Riso surgiram em 2001 tendo como inspiração os Doutores Só Alegria e a história de seu fundador, o Dr. Patch Adams contada no filme O amor é contagioso de 1998. O grupo resolveu iniciar em Santa Cruz uma atividade parecida que atendesse os Hospitais da Região. “O trabalho iniciou no Hospital Ana Nery e logo estendeu-se ao Hospital Santa Cruz, com poucos voluntários, mas com muita vontade de ajudar e alegrar a vida de pacientes e quem encontrássemos pela frente”, conta o coordenador do grupo, Oglacir Rodrigues. Segundo ele, a equipe tenta manter uma agenda priorizando os

hospitais mais próximos, mas mesmo os mais longínquos são visitados sempre que possível - acredita que já visitaram mais de dez hospitais. Normalmente são eles que escolhem os lugares que irão visitar e a ideia é sempre bem recebida. No trabalho de Palhaço Humanizador visitam várias Clínicas e Casas Geriátricas. Na trajetória do grupo foram muitos encontros, momentos e histórias permeadas de emoções, mas há uma história que os marcou. “Vamos usar o pseudônimo “Simone”. Nós a conhecemos na Unidade do Centro de Tratamento de Criança com Câncer (CTCriac), do Hospital de Santa Maria. Sua

carequinha não deixava dúvida do dilema que vivia junto com sua mãe. Ao conversarmos, cantarmos e brincarmos nasceu uma amizade, e em nós uma baita responsabilidade de ajudar. Só que poucos meses depois, a notícia de sua morte nos pegou de surpresa, o seu sorriso dos últimos encontros e o testemunho de sua mãe nos motivam para continuarmos a levar sorrisos, a crianças, adultos, idosos e a maior mensagem do mundo: Deus nos criou para sermos felizes independente da nossa saúde, situação financeira, independente de qualquer coisa, Deus não nos abandona”, relata Oglacir.

O PALHAÇO KICO E A VOVÓ MAFALDA Oglacir, mais conhecido como Kico e Rejane Schoepf, mais conhecida como Mafalda, são, junto com o João Custódio, os que mais participam das atividades. Nascido em Rosário do Sul, mas morador de Vera Cruz há mais de 20 anos, Oglacir, de 49 anos, atualmente se dedica integralmente ao grupo. Ele conta como se tornou o palhaço Kico. “Inicialmente foi para alegrar e levar mensagens educacionais às crianças. Só que em determinado tempo vimos quão grande é essa questão de usar o palhaço como ferramenta transformadora de ambientes”, fala. Foi conversando com outros voluntários que surgiu a ideia de começar os Doutores Só Riso. Ele revela que fez oficinas de teatro e circo há anos

atrás, o que facilitou a criação do personagem. “Contamos com a criatividade de cada um na formação do seu personagem, contamos com músicos que agregam a sonoridade, e letras das músicas que readaptamos para os diversos momentos e tipos de pacientes que encontramos: crianças, adultos, idosos e de acordo com a situação muda a tonalidade, entonação e exige muita sensibilidade”, relata. De acordo com Kico, saber que se pode fazer a diferença na vida de alguém ajudando no seu tratamento e, principalmente no seu caso que teve um familiar (irmão) que lutou durante muito tempo contra um câncer na garganta,

faz a diferença. “Nos sentimos tão impotentes diante de algumas situações, mas eis que em meio a esse turbilhão que nos atinge podemos ver a diferença que há em uma palavra de esperança, um abraço, uma oração, um sorriso, de ‘estamos juntos’. Encontramos nesses momentos sempre uma via de dois sentidos. Doamos e recebemos muito mais em sentimentos que é difícil de descrever”, confessa. “Quando trabalhei em fumageira sempre participei de teatro nas Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho (Sipat), depois, durante cinco anos, fui cuidadora de idosos. Só que logo comecei a ter problemas de coluna e dor no corpo todo, foi quando o médico constatou que tenho fibromialgia”, descreve Rejane Schoepf. Então o seu filho, que já tinha participado do grupo, falou com Kico sobre sua mãe, foi o momento que ela começou a participar e não parou mais. “É muito gratificante, quando estou com eles não tenho dor, é inexplicável, só participando para saber”.


CRÔNICA

Sala de espera

É

uma manhã ensolarada de outono. São oito horas e quinze e o celular informa que a temperatura é de quinze graus. Catorze pessoas estão numa sala de espera de cerca de dois metros quadrados para uma consulta pelo serviço de saúde pública municipal. Um homem de um metro e setenta e cinco de altura, com uniforme cinza de operário, olha para o tênis em seu pé e repara: o sapato está gasto por fora e com o solado descolando. Sob o seu boné de um tom bege sujo cai uma gota de suor que desce ao lado do seu olho esquerdo e revela um par de bochechas largas. O homem se mantém cabisbaixo. Seu corpo parece clamar por descanso. Ele levanta a cabeça e com o boné tenta cobrir o rosto. Neste ínterim percebe-se a brancura dos seus olhos contrastante com a sua negritude. Seu olhar aparenta desconfiança. Logo percebe-se que ele presta atenção num ponto a se movimentar na parede, é um mosquito não identificado. Observo cada movimento da sala. Meu olhar se esconde por detrás dos óculos caídos sobre o nariz. Uma mãe ralha ao fundo com o seu filho: “Tu quer que eu chame a brigada de novo?”, diz ela. O rapaz, de voz grave, não sabe

o que responder. Emite alguns sons ininteligíveis. De onde estou, vejo-o baixar a cabeça. O espaço da sala a qual estamos confinados neste momento é estreito e ainda é ocupado por mais duas pequenas mesas com quatro mini cadeiras para as crianças brincarem. Neste momento, uma criança, a única com esperança nos olhos dentre os presentes no recinto, tenta brincar com dois plásticos que parecem peças grandes de lego. Uma negra, de boca larga e carnuda, apresenta um olhar pesado. As pernas estão a balançar e o corpo a suspirar. Rugas parecem surgir na sua tez. Ela aperta sua bolsa, tão preta como a sua blusa, junto ao corpo. Seu olhar parece se perder na imensidão das suas preocupações. Um homem ao seu lado, provavelmente seu esposo, veste uma camisa polo branca e preta, calça de jeans azul claro e tênis branco desgastado. Está com barba por fazer. Ele coça os olhos e fita o cronista, que está sentado no chão. Conversa com a mulher negra e me espia. Parece adivinhar que é observado. Evita de abrir a boca, pois, quando a abre percebe-se que está com poucos dos dentes da frente. Observa suas unhas e olha para a mulher. Volta a baixar a cabeça. Uma senhora passa e pergunta: “Ele já veio?” O médico ainda não

Thiago Haas Carlotto*

chegou. São dez horas da manhã. Um homem de meia idade e cabeça raspada bate o pé e respira fundo. Olha para o alto. Deve se perguntar o porquê de tanta espera. Uma senhora com sotaque alemão conversa com a enfermeira: “Moça, tenho dores nos braços e nas pernas. Será que vocês conseguem um remédio do SUS para mim?” São onze horas e quatro minutos. Finalmente ele chega e logo começa a atender. A sala de atendimento é ao lado. O primeiro a ser chamado dá entrada para a consulta. Ouve-se uma breve conversa, que mais parece um monólogo do paciente, um som de papéis sendo mexidos e, por fim, o grampeador a grampeá-los. Feita a receita, sistematizada a consulta. Conto no relógio. Passaram-se apenas três minutos. Segue o próximo paciente. Um monólogo de um minuto, alguns sons de outra parte que não explicam nada, papéis mexidos e um grampeador a grampear. Foram dois minutos e trinta e seis segundos. O terceiro paciente entra na sala. Em dois minutos e dezessete segundos sai com o papel na mão. O médico não tem muito a pensar e fazer. A saúde é burocrática e industrial. *Acadêmico do Curso de Comunicação Social - habilitação Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul

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Refúgio do tráfico Traficantes de drogas têm usado a Lei de Refúgio brasileira para atrair estrangeiros e abastecer o país com cocaína

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REPORTAGEM: RÉGIS DE OLIVEIRA JÚNIOR FOTOGRAFIA: CESAR LOPES

ara ultrapassar os portões e as grades de ferro da Penitenciária Feminina da Capital (PFC), é preciso autorização prévia. Na semana anterior, antes de viajar a São Paulo (SP), enviei um ofício à Secretaria de Administração Penitenciária.

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Do Aeroporto Internacional de Congonhas até a PFC foram quase duas horas de trânsito. Desembarquei na estação Carandiru, linha azul do metrô, e segui caminhando por oitocentos e vinte metros até o presídio. Antes da entrevista, a agente confere meu nome no ofício.


Entrego meus documentos e ela tira uma cópia apenas do RG. A televisão em preto e branco, pendurada no canto do teto, quebra o silêncio do local. Outra agente leva meus pertences até um armário enferrujado. Sou liberado após a revista inclusive do bloco de anotações que eu carregava. Meus passos são guiados pela policial até chegar às salas, onde mulheres de mais de cinquenta e cinco países estão detidas por tráfico de drogas. A cela branca recém-pintada tem duas janelas. A porta é azul, pesada e grossa. No varal há duas toalhas brancas estendidas, uma de banho e outra de rosto. Na parede, uma figura feminina, de cabelos pretos longos e chapéu

vermelho. O espaço deveria abrigar apenas uma pessoa, mas serve de lar para três mulheres. Joyce, Helena e Mercedes dividem o calabouço de seis metros quadrados. Na cela há apenas uma cama, um lavatório, um vaso sanitário e um chuveiro com água fria. Elas vestem calças amareladas e camisetas brancas. Joyce é africana. Helena, peruana. Mercedes veio da Bolívia. No pátio, os jardins floridos e bem cuidados escondem a realidade de quem teve seu futuro trancafiado. A Penitenciária Feminina da Capital detém seiscentas e vinte e quatro mulheres, concentrando a maior parte de estrangeiras. Nessa conta, sessenta e quatro são bolivianas.

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CINCO ANOS, DOIS MESES E QUINZE DIAS DE RECLUSÃO Um mil trezentos e oitenta e sete gramas de cocaína embalados em pequenos sacos plásticos dentro do estômago e a sentença do juiz: “5 (cinco) anos, 2 (dois) meses e 15 (quinze) dias de reclusão”. Joyce, da África do Sul, foi presa em 2013, no Aeroporto Internacional de Guarulhos com passaporte falso e papelotes de cocaína. A africana engoliu 71 cápsulas por 2 mil euros, o equivalente a 8 mil reais. Grávida de cinco meses, Joyce foi presa pela Polícia Federal e levada à Penitenciária Feminina da Capital, em Santana. Teve direito a apenas um telefonema. O contato da família se limitava às cartas que recebia do marido. Enfraquecida pelo avanço do HIV, Joyce teve uma gravidez complicada. Ela queria parto normal, mas a obrigaram a fazer cesariana. Recebeu acompanhamento médico e psicológico contínuo dentro da penitenciá-

ria. Por força da lei, seis meses após dar à luz Manuela, quando a menina ainda mamava e começava a engatinhar, Joyce precisou entregar a filha ao Conselho Tutelar. A africana passou dias e noites contando os minutos para ser liberada da prisão e cuidar de sua filha. Até recorreu ao Consulado da África do Sul, mas sequer foi atendida. Depois de muita insistência, uma equipe do Departamento Africano resolveu ajudar. Eles pagaram a passagem aérea do marido, pai de Manuela, para que ele pudesse vir buscá-la. Por conta do trabalho prisional e do bom comportamento, Joyce conseguiu redução da pena em 2014.A africana pretendia voltar para casa e reencontrar a filha, mas como não conseguiu alojamento e emprego formal, acabou envolvendo-se com o tráfico novamente. Foi em Cuiabá, no Mato

A africana pretendia voltar para casa e reencontrar a filha, mas como não conseguiu alojamento e emprego formal, acabou envolvendo-se com o tráfico novamente.

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Grosso do Sul, que os policiais pararam o ônibus em que Joyce estava. Preso ao corpo havia dois quilos de drogas. Antes de ser levada à PFC, a africana permaneceu por três semanas na Penitenciária de Pirajuí até uma nova sentença do juiz: “6 (seis) anos e 4 (quatro) meses de reclusão”. Mesmo sem nunca ter encontrado com Joyce, o parecer descrito no processo era claro: “Conduta social reprovável, uma vez que aceitou realizar o transporte pela segunda vez, mesmo já ciente das consequências penais do crime”. Não foi pelo céu que Helena e Mercedes chegaram ao Brasil. Diferentemente de Joyce, que veio de avião e foi pega no aeroporto, a peruana e a boliviana foram presas durante a travessia de ônibus pela fronteira. No corpo carregavam drogas que abasteceriam o tráfico no país.


PAÍS PRISIONEIRO O Brasil é o segundo país com maior população carcerária estrangeira no mundo. Contabiliza atualmente 3.308 estrangeiros presos por crimes em território brasileiro, segundo dados Departamento Penitenciário Nacional (Depen). Na Penitenciária Feminina da Capital há 624 mulheres, procedentes de 55 países, mas a maioria hoje é de origem boliviana (64), africana (63) e angolana (52). Na lista de crimes, mais de 90% dos casos são flagrantes da tentativa de transportar drogas. Até 1990, presos estrangeiros ficavam em uma custódia montada dentro da unidade da Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Por conta do aumento do número de prisões, os acusados do sexo masculino passaram a esperar o julgamento na penitenciária de Itaí, no interior do Estado, e as mulheres na Penitenciária Feminina da Capital. Em um relatório publicado em 2014, a Human Rights Watch afirmou que a política de “dureza com o crime”, adotada na década de 80, encheu as prisões com infratores não violentos, falhando em reabilitar prisioneiros que, assim como no Brasil, têm altíssima taxa de reincidência. A entidade ainda revelou que programas de reabilitação podem ter melhor custo-benefício que prisões. De acordo com Marcos Rolim,

jornalista gaúcho e consultor em segurança pública, o Brasil ratificou as Regras Mínimas para o Tratamento de Prisioneiros das Nações Unidas. “Penso que o essencial na luta pelos direitos dos presos e presas no Brasil é a produção insistente de inspeções independentes, com repercussão na mídia, com a participação de comissões e entidades comprometidas com os Direitos Humanos”. Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), afirma que os refugiados e solicitantes de refúgio estão sujeitos às mesmas legislações de qualquer cidadão brasileiro. “A prisão não suspende a condição de refugiado e, de acordo com a lei brasileira, o exercício de atividades contrárias à segurança nacional ou à ordem pública pode levar à perda da condição de refúgio”, disse. Os presos que estão ilegais no país são automaticamente deportados. Mesmo aqueles que têm permissão para ficar podem sofrer processo de expulsão. Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), no país há cerca de 8.530 refugiados reconhecidos vindos da Angola, República Dominicana do Congo, Colômbia, Líbano, Libéria, Iraque, Serra Leoa, Palestina, Senegal, Somália, Nigéria, Cuba e Bolívia. Na fila, 12 mil

solicitantes aguardam julgamento do Conare. Ativistas dos Direitos Humanos dizem que é preciso aprovar uma nova Lei de Migrações para evitar a superlotações nos presídios brasileiros. Tiago Leão Monteiro, pesquisador e consultor jurídico da Comissão de Direito Internacional na OAB/RJ, defende políticas públicas efetivas e específicas para atender os refugiados em situação de prisão. “Uma pessoa que foi coagida a participar de tráfico de drogas não pode ser excluída da proteção do refúgio. A pessoa, que provavelmente será excluída da proteção, está entre as mais vulneráveis, haja vista sua origem em país conservador e notoriamente intolerante à orientação sexual e o grave risco de morte no caso de seu retorno”. Maria João Guia - investigadora em direitos humanos dos imigrantes e criminologista europeia da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em Portugal, diz que a comunidade internacional associa a crise de refugiados ao aumento da criminalidade. “Muitos países adotam políticas de imigração como uma ferramenta para controlar isso. Ao mesmo tempo, os crimes cometidos por imigrantes também atraem a atenção e impactam debates sobre quão generosa a Europa deve estar em acolher requerentes de asilo”, afirma.

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ENSAIO

Turismo como fator de desenvolvimento Mariana Heck González* O turismo é uma das atividades que mais se desenvolve nos últimos tempos. A justificativa para esse crescimento é que atualmente o turismo está muito mais acessível, seja pelas facilidades de acesso a informações ou pela redução dos valores das viagens. Assim, o segmento está mais em alta em relação a anos atrás e, cada vez mais, se apresenta como um fator de desenvolvimento social e econômico. Essa atividade abrange uma área muito complexa, pois, segundo Beni (2004), o turismo é um produto intangível, não pode ser estocado, depende da sazonalidade e sua qualidade é medida em escalas, ou seja, o produto turístico faz parte de uma corrente de serviços e a má qualidade de um dos serviços prestados irá comprometer todos os demais. O mesmo autor afirma, ainda, que os deslocamentos de um núcleo emissor (região geradora de turistas) para um núcleo receptor (região de destinação de turistas), entre tantos outros, compreendem desde o lazer até os negócios. Além destes, o processo de definição de

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uma viagem passa por vários fatores de realização pessoal e social, natureza motivacional, econômica, cultural, ecológica e científica. Conforme Beni (2004), para uma melhor percepção do fenômeno turístico, três linhas de análises diferentes da teoria turística são consideradas. A primeira se coloca na perspectiva da produção e envolve uma diversidade de empresas que atuam no setor, algumas das quais operam a agregação de matéria prima, enquanto outras oferecem serviços e bens que já existem. A segunda linha se limita à distribuição do produto ao consumidor. Nesta há uma semelhança entre a atividade de produção e a de distribuição, pois, sendo o turismo um setor no qual são produzidos preferencialmente os serviços, é também um setor de atividades, no qual o momento produtivo pode corresponder ao distributivo, com a passagem dos bens e serviços turísticos diretamente do produtor ao consumidor. Já a terceira e última se resume em identificar e estabelecer as condições da viagem e os comportamentos do viajante, o tempo de permanência

no local, os equipamentos de recepção, motivações de sua ida até o referido destino, além de seus gastos com e na viagem. Pode-se dizer, então, que a primeira procura saber quais os segmentos produtivos e as empresas que devem ser consideradas por natureza como turísticas, e que integram o setor de turismo na economia. A segunda procura compreender as relações do turismo com o resto da atividade econômica e faz isso a partir da demanda. A terceira e última linha gira em torno da própria definição de turista, cujas atividades permitem determinar o que se entende por Turismo. De fato, o Turismo se encontra ligado a praticamente todos os setores da atividade social humana, além disso, é uma das principais causas da grande variedade de conceitos. Não há como considerar que haja um único conceito, ou que um seja mais adequado que outro quando se pretende conceituar o Turismo, pois o tema levaria a discussões inacabáveis que, de certo modo, colocariam em evidência as limitações conceituais que existem sobre este fenômeno.


DEFINIÇÃO DE PRODUTO TURÍSTICO O produto turístico é constituído de bens e serviços variados e essencialmente relacionados entre si, tanto em razão de sua integração com as demandas, quanto pelo fator de unir os setores primário, secundário e terciário. O turismo está situado no setor terciário, e caracterizase como uma organização que possibilita ou viabiliza viagens, hospedagens, alimentação e meios de lazer às pessoas que se deslocam de suas residências (ANDRADE, 2001). O turismo se aproveita de maneira intensa e permanente de todos os recursos naturais possíveis sem esgotá-los, e também de recursos criados, levando em conta todos os meios possíveis de conservação e valorização. Andrade (2001) afirma que o produto turístico em si é sempre único e diferenciado, ao contrário do industrializado, que é produzido em série. A diversificação do produto turístico faz com que a oferta torne-se heterogênea e permite consumo de bens não turísticos agregados, como atividades diversas e serviços produtivos de setores relacionados ou não com o turismo. As características que tornam o setor turístico produtivo, em todas as fases de sua efetivação, se manifestam pelos recursos que

o turismo utiliza, pelos resultados que produz e pelas características econômicas do fenômeno. Relacionado aos recursos que utiliza, faz com que os bens naturais e culturais se tornem atrativos, sem depredação ou consumação total. Colabora com a produção de bens e prestação de serviços pela mão de obra especializada ou não, além disso, necessita de bens de capital e capital de giro para garantir o sucesso das aplicações para a rentabilidade dos empreendimentos. Demonstrando os resultados que o turismo produz, é lucrativo aos indivíduos e às empresas que se dedicam à produção de bens e prestação de serviços, permitindo uma boa captação de recursos, além do recolhimento de taxas e contribuições diversas. Tratando de suas características econômicas, o turismo cria meios para formação de recursos para as empresas envolvidas na produção de bens e serviços, promove intercâmbios entre todo o conjunto produtivo, entre outros. Todos os bens, sejam eles naturais ou artificiais, atingem bons resultados de produtividade, se forem bem administrados, seguindo uma política turística séria e realista. Segundo Ruschmann (2001), o produto turístico irá se diferenciar dos produtos industrializados e

de comércio, pois ele é composto de elementos e percepções que são intangíveis, sendo sentido pelo consumidor final como uma experiência. É uma fusão de elementos tangíveis e intangíveis, centralizados numa atividade específica e numa certa destinação, as formas e facilidades de acesso. Um assento de avião ou uma cama de hotel, por exemplo, podem ser produtos individuais, porém, são elementos ou componentes de um grande serviço que está por trás do objeto. As singularidades de um produto turístico demonstram claramente que os mesmos diferem-se dos bens industriais como também de outras prestações de serviços e necessitam da utilização de técnicas mercadológicas específicas para a sua comercialização, desde a definição do produto, as atrações, facilidades, acessos e marketing para divulgação. REFERÊNCIAS

ANDRADE, José Vicente de. Turismo: fundamentos e dimensões. 7. ed. São Paulo: Ática, 2001. BENI, M.C.: Análise estrutural do turismo. 10ª Ed. São Paulo: Senac, 2004. RUSCHMANN, Doris van de Meene. Marketing Turístico: um enfoque promocional. 7 ed. Campinas: Papirus, 2001.

*Turismóloga

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O mundo encantador do Dudu Com seu jeito único ele encanta a todos ao seu redor REPORTAGEM: LUANA SILVA FOTOGRAFIA: NECA MAGALHÃES

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duardo Martins, 12 anos, carinhosamente chamado de Dudu é uma estrela, mas ele não sabe. Ele mora com sua mãe Ane Martins, 44 anos, seu pai Idalêncio de Almeida Flores, 46 anos e seus irmãos, Gabriel Martins Flores, 20 anos e Patrícia Martins Flores, 17 anos. O Dudu tem um jeito peculiar, um modo diferente de se aproximar das outras pessoas e isso já chamou atenção de alguns veículos de comunicação de Santa

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Cruz do Sul. Para se ter uma ideia, ele já deu entrevista para o jornal Riovale, RBS TV e Unisc TV. O menino adora jogar no computador e assistir filmes na internet, principalmente os de ação. Ele se comunica geralmente através de perguntas e adora mostrar para as pessoas os seus brinquedos, jogos e outras coisas que gosta. Dudu possui uma inteligência incrível. Ele sabe todos os nomes de atores e atrizes dos filmes que mais gosta e já compôs uma música com seu

professor na aula de canto. Entre uma coisa e outra, o menino sai do quarto, fecha todas as portas da casa e volta novamente para o computador. Dudu ainda prefere ficar isolado naquele lugar por um bom tempo. Para cada dia da semana ele tem uma atividade. Pela manhã frequenta a Escola Municipal de Ensino Fundamental Duque de Caxias, no quinto ano, onde é acompanhado por uma monitora; na segunda faz natação; terça, uma


hora de academia e karatê; quarta, aula de recurso na escola; quinta, academia e psicóloga e, na sexta, aula de música. Depois de chegar da escola, ele almoça e vai para o computador do quarto e se isola lá; às vezes vai para o computador da sala. Normalmente permanece em frente ao monitor das 13 horas até por volta das 16h30, quando vai tomar banho e trocar de roupa para ir às atividades. Estas características e rotina cheia de atividades podem ser de qualquer menino de 12 anos. Mas você já reparou, né?! Nos pequenos detalhes Dudu é especial. Então vou te contar, ele nasceu com autismo, um transtorno que afeta o sistema nervoso da criança. Ainda é desconhecido para algumas pessoas, mas os números referentes ao autismo no Brasil crescem a cada dia. A estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de que 2 milhões de crianças brasileiras sejam autistas. Porém, muitas pessoas ainda não sabem lidar com uma criança autista e os médicos têm dificuldades para diagnosticar o transtorno, em vista disso, o tratamento é mais difícil. “O autismo compromete três áreas do desenvolvimento: comunicação, comportamento e interação social. Normalmente o tratamento se dará com psicólogo, mas também, quando necessário, existem outros tipos de tratamentos como neurológico, fonoaudiológico, de estimulação precoce, ou

seja, levando em conta a situação de cada caso”, esclarece à psicóloga Hanelore Herberts. Dudu foi diagnosticado com autismo aos seis anos de idade em Porto Alegre, pois em Santa Cruz do Sul havia poucos recursos para esse diagnóstico, uma realidade que não mudou muito. “No primeiro momento tudo é bem complicado. Meu marido ficou mais tranquilo, mas eu me culpava. Será que eu que errei em alguma coisa, vai ser pra vida toda e agora? Mas depois tu percebes que

Nós percebemos que a gente tem mais força quando conhece outros pais de autistas, para trocar experiências.

não é questão de culpa. Mesmo não sabendo certo o diagnóstico dele, nós sempre o incentivávamos onde ele mais necessitava. Quanto antes começar o estimular, melhor”, relata a mãe. Ane conta que, quando Dudu tinha três meses, a pediatra aconselhou ela e o esposo a levarem o menino para fazer fisioterapia, pois ele estava com o corpo muito molinho, não firmava muito a cabeça e tinha dificuldade para sentar.

Na fisioterapia ele chorava muito e não queria fazer os exercícios. Então os pais o levavam na APAE, onde ficou até os sete anos. Ane e Idalêncio, no entanto, sempre tiveram vontade de procurar outras famílias que poderiam estar passando pela mesma situação. “A gente sempre teve vontade de conhecer outros pais, porque na APAE é muito down e paralisia. Autismo é um e outro que a gente conhecia e às vezes não era da mesma turma ou não vinha no mesmo horário. Nós percebemos que a gente tem mais força quando conhece outros pais de autistas para trocar experiências”. E foi no final de 2013 que os pais do Dudu conseguiram esta troca de conhecimentos tão desejados e outro método de tratamento para a criança. Foi quando Dudu começou a participar da Luz Azul - Associação Pró-Autismo de Santa Cruz do Sul, um projeto desenvolvido em parceria com o curso de Educação Física da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), coordenado pela professora Sâmara Bittencourt Bergel. O projeto visa promover o bem-estar, a proteção, o desenvolvimento pessoal, e a inclusão social das crianças com autismo. Dentro das atividades do grupo são apresentados métodos diferentes de tratamento para pessoas com autismo, brincadeiras e natação. Como o principal tratamento para autismo é feito por uso de remédios, o tratamento do pro-

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jeto vai pelo lado oposto: busca a interação social, estimulando as crianças a desenvolverem atividades físicas e se divertirem em conjunto: pular corda, bambolê, basquete, pular na cama elástica e prática de natação. E o mais importante - essas atividades são feitas para estimular interação das crianças com os pais, de forma que elas possam expressar seus sentimentos e os pais possam conhecer mais seus filhos. O projeto ocorre nas segundas, com natação, e nas terças e quintas, quando há atividades no ginásio. Segundo a psicóloga Hanelore Herberts: “A participação dos pais é fundamental no tratamento dos seus filhos, pois isto os ajuda a compreender o que passa com seus filhos, suas alegrias, angústias,

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dúvidas e incertezas”. O trabalho também busca a defesa dos direitos das pessoas com autismo, tanto os previstos a todos na Constituição Federal, como os garantidos às pessoas com deficiência. A presidente Dilma Rousseff, em 2012, sancionou a lei 12.764, que garante os direitos de pessoas com autismo, desde a inclusão social à participação no mercado de trabalho, e instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Para Cléia Souza dos Santos, 27 anos, mãe do Lucas Santos, 6 anos, que participa do projeto há quatro meses, este método faz a diferença na vida das crianças autistas. “O projeto Luz Azul é maravilho-

so, porque não é só medicação. Na minha cidade eu só ia para o médico para medicação, não tinha outra coisa. Eu estava na fila do psicólogo, da fonoaudióloga, da terapia ocupacional, e fazia anos que estava nessas filas. Mas aqui é toda uma atenção, elas ligam para marcar as consultas, é maravilhoso e nos ajudam bastante”, diz Cléia Souza dos Santos. O Dudu está passando por um processo de mudança formando sua personalidade. Já quer fazer as atividades sozinho, como ir para a escola. Ele evoluiu participando do projeto da Luz Azul. Na natação, tem a companhia do irmão Gabriel e toda sua família o estimula a cumprir sua rotina. O Dudu tem um mundo misterioso, mas ao mesmo tempo encantador.


CRÍTICA

Da entrevista a um grande filme Thiago Haas Carlotto*

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diretor Ron Howard (O Código da Vinci) acertou em cheio ao refazer a trajetória do antes, do durante e do depois da entrevista mais assistida de todos os tempos. O drama histórico Frost / Nixon, de 2008, revive a tensão e as lutas internas de dois homens num dos encontros mais notáveis do século, ocorrido no verão de 1977. Méritos para o roteirista Peter Morgan, criador da peça que deu origem ao filme que fez uma narrativa descontínua de fácil compreensão. Méritos para as atuações de gala dos protagonistas Richard Nixon (Frank Langella) e David Frost (Michael Sheen) que souberam trazer todo o clima da batalha retórica daqueles momentos. Três anos após renunciar ao mandato, o ardiloso Richard Nixon aceitou negociar uma entrevista para confrontar as perguntas sobre seu tempo na Casa Branca e o escândalo de Watergate. Quem pagou mais para entrevistá-lo foi David Frost - um excêntrico apresentador britânico de talk show da Austrália, que, sem a menor credibilidade nos Estados Unidos, vislumbrou um meio de engordar sua conta bancária. A transição dos fatos reais à representação cinematográfica dá o tom da obra. Ela começa com imagens da época do escândalo e da renúncia do 37º presidente americano. Após, Langella é quem aparece declarando a renúncia. Uma espécie de semidocumentário corre ao longo do filme de pouco mais de duas horas. Os assessores

de Frost e Nixon - vividos pelos coadjuvantes Oliver Platt, Kevin Bacon, Matthew Macfadyen e Sam Rockwell - falam diretamente para a câmera, relembrando os dias de tensas gravações, o que ajuda o público a compreender os fatos. Por girar em torno de uma entrevista, o filme preza por ângulos médios e fechados, com variações entrevistado/entrevistador que ressaltam as alterações de postura e semblante. A trilha sonora de Hans Zimmer é outro ponto alto. De forma discreta, ela traz toda a tensão dos momentos e, com suas diferentes intensidades, auxilia na transição dos estados emocionais dos personagens. Ao longo da narrativa, Langella desenvolve os tiques e as paranoias do ex-presidente norte-americano; a voz grave do ator traz as perturbações vividas pelo único líder daquele país a renunciar ao mandato, de forma a trazer o seu lado humano à tela. Ao longo da trama percebe-se que, muito além do dinheiro, estava em jogo a memória do entrevistador e do entrevistado para a história. Nos momentos mais “quentes”, a postura formal ficou de lado e as verdades latentes dos protagonistas se sobressaíram. De um David Frost alienado a um homem decidido, de um Richard Nixon pomposo e falastrão para um homem disposto a manter a honra e a dignidade. Frost / Nixon é um filme para ser lembrado pelas grandes atuações de seus protagonistas, pelo seu roteiro altamente compreensivo e pelos momentos históricos relevantes que revive.

Filme: Frost/Nixon Direção: Ron Howard Gênero: Drama / História Ano: 2008 Duração: 122 minutos Elenco: Frank Langella, Michael Sheen, Kevin Bacon, Oliver Platt, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Toby Jones, Andy Milder, Rebecca Hall, Clint Howard

* Acadêmico do Curso de Comunicação Social – habilitação em Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul

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Eu vou de bike Pedalar traz a percepção de que a vida pode ser bem mais bonita quando desfrutada ao ar livre REPORTAGEM E FOTOGRAFIA: PRISCILA OLIVEIRA

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otivos para trocar o carro pela bicicleta para ir trabalhar não faltam. Engarrafamentos e falta de estacionamento nos centros urbanos transformam pequenas distâncias em verdadeiras viagens. Sair da vida sedentária e incluir uma atividade física no dia a dia é outro bom motivo para adotar a bike como meio de transporte.

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Mesmo que o objetivo seja apenas o deslocamento, e não o exercício em si, o fato de estar em movimento ao ar livre traz benefícios duradouros. Na teoria, tudo perfeito. Na prática, também pode ser assim. Ao menos para Thiago Wiltgen, de 29 anos, que utiliza a bicicleta diariamente e nas provas de longa distância chega a percorrer mais de 600 km. Toda


manhã ele acorda cedo para ir trabalhar. Sem pressa, pega sua bike no galpão da pensão onde mora e pedala para desfrutar as paisagens e os detalhes do seu município, Vera Cruz. O trabalho de jardineiro autônomo permite que faça percursos diversos, já que trabalha em lugares diferentes a cada semana. Em caso de sol, reforça o protetor solar e carrega a garrafinha de água sempre cheia. Já nos dias molhados e frios, coloca uma roupa quente e a capa de chuva. Independente do tempo e da temperatura, a bicicleta é a fiel companheira e o seu único meio de transporte. Um carro ou uma moto não atraem o jardineiro. Essa paixão surgiu em 2007, quando comprou a sua primeira bicicleta – uma Sundown vermelha de 18 marchas – utilizada para ir trabalhar numa indústria de plásticos. Um colega de trabalho mostrou-lhe que a bicicleta poderia ser muito mais que algumas pedaladas até a empresa: ela poderia ser incluída no lazer como uma atividade física que traz muitos benefícios à saúde. O gosto pelo ciclismo aumentou tanto que, em 2013, começou a participar de provas de longa distância com a Sundown vermelha mesmo. Foi então que precisou deixar de lado o vício do cigarro, que já o acompanhava por aproximadamente 10 anos. “O ciclismo me motivou a parar. Eu tive que escolher entre pedalar ou fumar, e a minha escolha só veio a melhorar a minha vida”, diz. Com a decisão, aumentou a autoestima, melhorou o sistema circulatório e respiratório, fortaleceu a musculatura e

começou a perceber que a vida se tornou bem mais bonita ao ar livre do que pelo retrovisor de um carro. Depois de muitas pedaladas pela região, a companheira de 18 marchas não aguentou os percursos de longa distância. Foi então que ele investiu numa Caloi Elite 27 marchas, que utiliza até hoje no trabalho, lazer e esporte. Para suprir a dificuldade de carregar as ferramentas de jardinagem, o ciclista mandou fazer um reboque com engate na bike. Medindo em torno de 90 cm x 70 cm, o reboque de ferro preto com rodas de bicicleta, que ficou pronto recentemente, é motivo de alegria para Wiltgen. Ao falar sobre o “novo

Saio em busca de liberdade, admiro as paisagens e conquisto muitos amigos.

brinquedo”, seus olhos brilharam, assim como os de quem adquire o carro tão sonhado. Thiago também viaja pela região por lazer para conhecer novos lugares. Diariamente ele pedala com os grupos de ciclistas que participa: o Várzea Bikers, de Vera Cruz, e o Santa Ciclismo, de Santa Cruz do Sul. Já passou por Espumoso, Lagoão, Paverama, Arvorezinha, entre outros municípios. “Saio em busca de liberdade, admiro as paisagens e conquisto muitos amigos”, salienta.

Em paralelo à profissão e ao lazer, Thiago Wiltgen também participa de provas de longa distância, agora com a Caloi. Já passou por Santa Maria, Porto Alegre, Teutônia, Erechim, entre outras cidades. Em um ano foram provas de 200 km, 300 km, 400 km e 600 km, que deram a ele o título de Super Randonneur - requisito para participar do Paris-Brest-Paris na França - evento precursor das provas de ciclismo - onde ciclistas do mundo inteiro pedalam 1.200 km. Todas as provas que participa ele mesmo banca e cada uma é tratada como desafio pessoal. Conhecer Montevidéu e Machu Picchu de bike está nos planos do jardineiro, afinal, sonhar e pedalar não custam nada. ANDAR DE BICICLETA MELHORA SAÚDE FÍSICA E MENTAL O vento no rosto do ciclista traduz a sensação de liberdade. No entanto, como tudo, tem seus limitadores. É preciso disciplina. Observar as regras de trânsito, respeitar e administrar os desafios e os limites do corpo. A nutricionista e ciclista Tânia Gassen afirma que pedalar melhora a saúde física e mental e têm benefícios emocionais. Além disso, diminui os níveis de estresse e ansiedade, e desenvolve habilidades socioemocionais. Para quem passou por longo período de sedentarismo, a nutricionista alerta que o ideal seria realizar uma avaliação médica. O conselho é começar devagar. “Em geral, é preciso ter foco e determinação, pois, o corpo arquiva aquilo que a mente acredita”, observa.

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ABALHAR DE BIKE

VANTAGENS EM IR TR

de tempo Economia: de dinheiro, ciso e até de espaço. Não é pre custa abastecer, a manutenção sto muito menos e não há ga to. en am on aci com est liberada Motivação: a endorfina pacto no exercício físico tem im lógica, também na questão psico ,o pois combate a ansiedade ao estresse e a depressão. Ir rte pa r lho me a ser vai trabalho r ga mais do seu dia e você vai che disposto e motivado.

: por Condicionamento físico a bike ser um transporte ativo, exercício proporciona a prática do físico e isso reflete em sua resistência, em seu peso e saúde em geral. um Trânsito mais seguro: em ou ir, tra dis se ê voc carro, se acontecer algum problema ocando a mecânico, você estará col s pessoas sua vida e a vida de outra e acontece em risco, diferente do qu você com a bicicleta: claro que uco, mas pode cair e se ralar um po a de dificilmente colocará a vid outra pessoa em risco. O Por Fonte: Revista Bicicleta -

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da Menos poluição: além ção lui po a ar, do poluição cada sonora das estradas é vez mais prejudicial. De olher bicicleta, você pode esc menos caminhos alternativos, ser movimentados, além de nte bie am um é , uro mais seg . do luí menos po é um Sociabilidade: a bicicleta permite veículo sociável, porque pessoas um contato maior com as pedalar e com o meio. Além disso, r é divertido e o bom-humo is permite criar contatos ma s. vo siti po e s saudávei bicicleta.com.br

tal da Bicleta: www.revista


Sexo por dinheiro Como se fosse uma vitrine, garoto de programa se expõe nas ruas Santa Cruz do Sul REPORTAGEM: RÉGIS DE OLIVEIRA JÚNIOR

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nquanto estou dentro do carro, ele observa. Seu olhar é fixo em minha direção. As mãos abandonam os bolsos e descem até o pênis. Em tom de convite, ele massageia lentamente o volume na calça. Ainda sem coragem de abordá-lo, decido dar mais uma volta na quadra. Cinco minutos depois retorno à esquina da Rua 28 de Setembro com a Assis Brasil, localizada no centro. Como se fosse uma vitrine, o garoto de programa se expõe à noite durante horas na rua escura de Santa Cruz do Sul. Um automóvel estaciona devagar e aguça o atrevimento do rapaz. O que estava dentro da cueca, não está mais. A conversa dura menos de dois minutos e o veículo vai embora. É nesse momento que decido me aproximar. Ele sequer espera que eu diga algo e adentra no carro. Assustado, tento explicar que trata-se de uma reportagem. Com um olhar visivelmente de reprovação, Jonas decide ouvir e aceita conversar comigo. Mesmo dizendo aos clientes que tem 25 anos, Jonas já atingiu os 31. Determinado a deixar as ruas, ele trabalha como michê desde fevereiro de 2013. À época, era caixa de um supermercado no bairro Arroio Grande e buscou as ruas para aumentar sua renda mensal. Três meses depois abandonou o antigo emprego. Jonas é branco. Tem aproximadamente 1,80 metro de altura. Forte. Pernas e braços definidos. Na noite em que nos conhecemos, estava vestindo calças jeans justa e camiseta polo. Ele conta que busca sempre impressionar os clientes, barba bem feita e cabelo arrumado.

Por volta das 23 horas, o garoto de programa surge na rua, isso se não tiver algum encontro agendado. Vai embora somente às 3 horas. Antes de conversarmos, Jonas tinha chegado de um programa com um casal – um homem e uma mulher – e cobrara R$ 50,00. Penetração só com camisinha. No sexo oral, o preservativo é dispensado. Quando começou a vender-se por sexo, Jonas só queria aumentar sua renda, comprar tênis e roupas de marcas, mas acabou gostando. Ele revela que já viajou com clientes

para fora do país, saiu com jogado res de futebol e políticos da cidade. Os valores de cada encontro variam bastante. Uma hora de sexo custa R$ 60. Pouco? Jonas tem uma explicação. Em muitos casos, os clientes têm autoestima baixa e procuram apenas alguém para conversar. Há programas que resumem-se apenas em beijos e preliminares. Jonas diz que os clientes gostam de “pau grande e grosso”, principalmente quem é casado e mantém um relacionamento heterossexual. Jonas prefere homem, mas também sai com mulheres. Como o trabalho dele é fazer sexo, prefere aproveitar

ao máximo, para que os interessados acabem retornando. Nossa conversa é interrompida. O telefone de Jonas toca. Do outro lado da linha é sua esposa. Ele é casado há um ano e vai ser pai. Empolgado diz que ela espera por uma menina. Questionado sobre o consentimento da esposa, afirma que ela não sabe e nem desconfia. No Whatsapp um cliente pergunta se ele está livre. Chamado para fazer sexo até no meio do mato, Jonas registrou o contato como “Gruta”, acrescentando que transou durante a tarde no Parque da Gruta, ponto turístico da cidade. Quando Jonas dorme com o cliente, ele fatura mais, “acordo com o cara me chupando”. Nesses casos, cobra em média R$ 300,00. Já houve situações de preconceito e tentativas de agressão “quando saem bêbados das festas, passam aqui xingando e jogando objetos”. Clientes de má-fé, já levaram Jonas para casa mesmo sem ter dinheiro para pagá-lo, mas ele não sai no prejuízo. Exibe o celular que “pegou” e até um relógio de ouro. Além da rua, Jonas atrai os interessados por um perfil no aplicativo Hornet, utilizado por rapazes gays, bi e curiosos se conhecerem. O faturamento mensal varia, mas ele garante que é possível ganhar até R$ 3 mil reais por mês. Jonas decide mostrar a barriga da esposa grávida. Na pasta do smartphone há fotos de vários clientes nus. Antes de deixá-lo novamente na Rua 28 de Setembro, o garoto de programa desliza sua mão na minha perna. Baixo a cabeça e sinalizo meu desconforto.

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Um amor que torna o ser humano mais sociável Bichos de estimação fazem cada vez mais parte do contexto familiar brasileiro. Especialistas tentam entender as transformações que permeiam a relação entre animais e seus donos. REPORTAGEM: MAHARA DE BRITO FOTOGRAFIAS: ARQUIVO PESSOAL

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uem entende o ser humano com mais profundidade, observa-o com menos julgamento e permite que a experiência de um ar fresco no rosto seja de puro êxtase? Respondeu certo quem disse os animais de estimação - aquelas quase pessoas peludas, de quatro patas, que o ser humano escolhe para compartilhar a vida. Cães ou gatos, comprados ou adotados, de raça ou vira-latas, se tornam parte da família. Há quem diga que são quase gente. Há quem os trate como tal. O fato é que a humanidade nunca teve, como agora, uma relação tão próxima e tão sentimental com os animais. Foi-se o tempo em que os animais de estimação eram relegados ao pátio, comiam restos de comida, tomavam banho de mangueira com água fria e raramente viam um veterinário. Hoje, boa parte deles mora dentro de casa, come ração especial, tem cama, cobertor, visita o veterinário com

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frequência e toma banho em pet shop. Mas por que os animais estão cada vez mais presentes na rotina das pessoas? As pesquisas mostram que os motivos são muitos, como a solidão, a falta de amigos verdadeiros ou, em muitos casos, a ausência dos filhos. A psicóloga e coach santa-cruzense Andrea Inês Biesdorf acredita que o crescente espaço dado aos animais domésticos nos lares se deve ao fato de que no começo dos anos 1970 não se vendia ração para animais. Naquele contexto, lugar de bicho era quase que obrigatoriamente no quintal, ou na rua. Foi somente com a verticalização das moradias – processo urbanístico que consiste na construção de grandes edifícios, dificultando a circulação de ar - e com o aumento da renda brasileira, no fim dos anos 1990, que os animais foram trazidos para dentro de casa, dividindo o sofá com a família. “Essa proximidade física teve como consequência uma proximidade emocional”, garante Andrea.

Na casa da empresária santa-cruzense Édina Luciane Machado, 41 anos, lugar de bicho não é no quintal. É na cama e, até mesmo, na mesa. Sempre que prepara algo para comer, ela separa alimento para a Yorkshire Fyonna, 10 anos, e para o Shih-Tzu Ozzy, 3 anos. “Além da ração, eles comem cenoura, batata doce, clara de ovo, alface e brócolis.” Ela comenta ainda que tem sempre de dois a três tipos diferentes de biscoitos, chocolates e petiscos em casa. Édina fala ainda que em datas comemorativas presenteia os bichos. Há, inclusive, um baú somente para os brinquedos deles. Além disso, tomam banho toda semana no pet shop e de 15 em 15 dias recebem hidratação nos pelos. “Tudo isso vale a pena, pois tenho certeza de que é um amor verdadeiro, incondicional. Eles são uma companhia sem cobranças e preconceitos.” Já deu para ver que a empresária não mede esforços para mimar seus dois filhos de quatro


patas. Segundo Édina, a Fyonna adora brincar, mas com uma certa individualidade, não é muito de interagir com outros cães, somente após muita convivência. Tem diversas roupas e acessórios. É companheira e carinhosa. Já o Ozzy, que embora seja extremamente carinhoso e carente, tem uma história de vida diferente. Logo que nasceu já era o patinho feio da ninhada. Ele tinha uma hérnia umbilical gigante. “Como dizem que são eles quem nos escolhem, fiquei com ele e somos companheiros um do outro até hoje”, fala a empresária. Além da retirada da hérnia umbilical, o Ozzy já passou por uma cirurgia de estômago - pois engoliu três meias – e no início do ano teve uma hérnia de disco.

. .quem possui bichos, geralmente tem boa autoestima, tende a estar em melhor forma física e vive menos estressado.

Por conta disso perdeu o movimento da cintura para baixo. Atualmente, após a realização da cirurgia, está frequentando duas vezes por semana uma fisioterapeuta em Porto Alegre. “Vai ser uma longa caminhada, mas vamos tirar de letra”, fala confiante Édina. Ela tem consciência de

que sua rotina vai mudar drasticamente, mas garante que está pronta para isto. “Se Deus quiser isto será passageiro.” Em decorrência disso, Andrea afirma que os animais favorecem a aproximação entre as pessoas e a interação da família. O convívio com os animais de estimação torna o ser humano mais sociável e carinhoso. Os animais são puros e a resposta cognitiva para isso é o homem agir sem defesa, muitas vezes, com alegria e descontração. Ela acrescenta que quem possui bichos, geralmente tem boa autoestima, tende a estar em melhor forma física e vive menos estressado. Argumenta, ainda, que aqueles que se relacionam bem com os bichos tendem a melhorar o convívio com outras pessoas.

A empresária Édina Luciane Machado não mede esforços para mimar seus dois filhos de quatro patas

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AMOR ENTRE CÃES E TUTORES É O MESMO DE PAIS E FILHOS Através de uma pesquisa com base no hormônio da ocitocina, que mede o afeto e a alegria associada ao carinho nos mamíferos, biólogos de uma Universidade da Hungria detectaram que o laço que é gerado entre mãe e filho também pode ocorrer entre o humano e o animal. De acordo com o médico veterinário homeopata, Marcos Fernandes, que atua em São Paulo, a ocitocina, liberada pelo cérebro materno no parto e na amamentação, é uma das substâncias mais importantes para as relações afetivas dos mamíferos. “Ela promove as contrações uterinas, a dilatação do colo uterino e a descida do bebê no canal da pelve

feminina”, explica Fernandes. A ocitocina traz, segundo Fernandes, uma sensação de bem-estar, aconchego e prazer. A companhia dos bichos é benéfica para as pessoas porque, por parte do animal, o amor é irrestrito e, dessa forma, as pessoas se beneficiam muito da presença deles. Fernandes acredita que o animal estabelece uma zona de conforto para o tutor, uma vez que ele nunca é confrontado ou questionado pelo amigo de quatro patas. “Eles aceitam as pessoas exatamente como elas são e têm uma relação de amor incondicional. Ao contrário das relações humanas, em que o surgimento

e a concretização de sentimentos como o amor, por exemplo, dependem de vários fatores.” Como os cães estão entre os poucos animais que buscam o contato visual com os humanos, os cientistas queriam saber, ainda, se a troca de olhares entre eles e seus tutores também promovia o aumento mútuo de ocitocina. O resultado foi que quanto mais o tutor olhava para seu cão, mais experimentava um aumento de concentração do hormônio. O mesmo valia para os cachorros que recebiam os olhares e fitavam seus donos. “Basta que ambos fixem o olhar durante apenas três minutos”, garante o médico.

INTERAÇÃO ENTRE O HUMANO E O ANIMAL SOB O PONTO DE VISTA TERAPÊUTICO As relações e interações entre animais e humanos existem desde sempre. Há anos cientistas estudam essa relação, pontuando os benefícios que os animais trazem para o bem-estar e saúde das pessoas. Baseada nesses estudos foi criada a zooterapia, que não é nada mais do que animais ajudando humanos na sua reabilitação. “É uma ciência que visa estudar a interação do ser humano com o animal, mas sob o ponto de vista terapêutico e educacional”, explica a coach Andrea. Ou seja, os bichos não são mais tratados como mera companhia, mas são estudados e colocados como

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forma de ajudar as pessoas. Segundo Andrea, a zooterapia, também conhecida como Terapia Assistida por Animais (TAA), é uma técnica de reabilitação e reeducação física, psíquica, social e sensorial, onde os animais são usados como assistentes. “Ela pode tratar tanto de problemas psicológicos quanto físicos, e, se necessário, trata dos dois ao mesmo tempo”, ressalta. A atividade é indicada às pessoas que apresentam indícios de isolamento social, introversão e baixa estima. Andrea explica que métodos zooterapêuticos começaram a ser utilizados no fim do século 19, na Bélgica, quando médicos

perceberam que pacientes que sofriam de algum tipo de deficiência mental passavam a socializar-se melhor devido ao convívio com os animais, tornando-se assim, menos agressivos. Idosos que iam para asilos e podiam levar seus animais tinham uma socialização e uma independência maior do que aqueles que não os levavam. Foram inúmeras as razões para a zooterapia ser, de fato, implantada nos anos 1990 no Brasil. “É importante ressaltar, no entanto, que a terapia com cães não promete a cura de doenças, apenas promove benefícios físicos e mentais”, conclui Andrea.


A EFICÁCIA DO REIKI EM ANIMAIS Um sistema de cura milenar, suave e não invasivo, no qual as mãos canalizam a energia vital do universo (Rei) e irradiam essa vibração de harmonia, restabelecendo o equilíbrio da energia vital do paciente (Ki). Há anos o Reiki tem proporcionado inúmeros benefícios aos animais, que naturalmente reconhecem as propriedades curativas e energéticas da técnica. Quem afirma é a mestre Reiki e psicoterapeuta reencarnacionista santa-cruzense Juliana Xavier. “O Reiki auxilia no tratamento de traumas, induzindo a um estado de relaxamento profundo, amenizando reações ou até mesmo extinguindo-as por completo”, ressalta. A atividade é recomendada a animais que apresentam comportamentos desequilibrados, como pânico de pessoas, latidos nervosos e incessantes, manias e condutas compulsivas, agressividade, obesidade e apatia. Segundo Juliana, os animais recebem o Reiki de forma natural e os resultados podem aparecer mais rapidamente do que em uma

pessoa, uma vez que um animal não possui o ego e a mente racional atrapalhando no momento da sessão. “Enquanto as pessoas racionalizam tudo e precisam ‘ver para crer’, o animal possui percepções naturais, fluidas e amorosas. A energia divina do Reiki é muito compatível com a energia deles.” Ela ressalta, contudo, que nem sempre os resultados são vistos logo; depende muito de cada caso. “Há problemas comportamentais e físicos mais sutis que apresentam melhoras em uma ou duas sessões. Mas é um processo lento e quanto mais sessões ele receber, mais intensa será sua recuperação”, enfatiza. É importante que, mesmo após o bicho apresentar grande melhora ou até a cura, manter a prevenção com sessões mensais, por exemplo. Muito do que o animal sente ele absorve do seu dono, portanto é fundamental que as pessoas também procurem ajuda. Juliana relata que certa vez o gato Moa, de 6 anos, da amiga jornalista santa-cruzense Angélica Weise,

estava com um comportamento estranho, apático e fechado. Na época, Angélica estava com um familiar enfermo e frequentava muito o hospital. “Certamente ela não levava energias muito boas para casa”, diz a mestre. Decidiram aplicar o Reiki no animal que, logo na primeira sessão, demonstrou uma considerável melhora. Na segunda sessão, conforme a profissional, a gata já estava à espera da mestre na cama onde fora realizada a primeira. “Durante o Reiki, ele me passou que estava daquela maneira, pois estava protegendo os donos de energias invasoras da casa”, fala, acrescentando que, caso não tivesse recebido o Reiki, ele, muito provavelmente, adoeceria. Segundo Juliana, este foi um dos casos de problema espiritual e energético, algo que seria muito difícil de detectar em consulta e tratamento veterinário. Ela enfatiza, no entanto, que o Reiki é uma terapia que complementa e potencializa os tratamentos, mas não substitui o atendimento veterinário.

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Entre orquídeas e espíritos A história do homem que encontra no espiritismo a possibilidade de tornar as pessoas melhores. Já na paixão pelas orquídeas, faz da exuberância da natureza a manifestação do imaterial. REPORTAGEM: VERIDIANA RÖHSLER FOTOGRAFIAS: ARQUIVO PESSOAL

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las estavam lá, no orquidário. Belas, coloridas e cheirosas. Transmitindo, apenas, serenidade. Cheguei mais perto e comecei a falar baixinho. O encantamento que as orquídeas nos despertam é diferente de qualquer outra adrenalina que possamos viver. Diferente de outros momentos, quando conhecemos coisas novas e não conseguimos controlar nosso entusiasmo, com as orquídeas eu fiquei mais calma. As flores me fizeram andar de forma lenta, respirar calmamente e, por um momento, relaxar. Tomei cuidado para não incomodar as frágeis orquídeas, que, naquele instante, pareciam possuir uma força enorme. Não pareciam flores, mas uma ‘coisa de outro mundo’. Sílvio Aurélio Jaeger, 57 anos, é um homem que compactua desse pensamento, pois para ele, as orquídeas são mais do que plantas. Silvio é gaúcho, natural do mu-

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nicípio de Campo Bom, morador de Venâncio Aires, orquidófilo e presidente da Federação Gaúcha de Orquidófilos, professor universitário e espírita. As ocupações fazem dele um homem eclético, que conhece diversas áreas e atua em diferentes ramos. Uma lista tão intensa de ocupações, que cansa só de pensar. Porém, as tarefas que envolvem as profissões só lhe dão prazer. E mais do que isso, estão relacionadas. O orquidófilo-médium não só cultiva orquídeas, como também interliga isso com os espíritos. O cultivador diz que quando está com essas flores tão exóticas, remete todo o seu carinho e admiração às plantas, que para ele, vão além do material. O principal ponto destacado por Sílvio Jaeger é que tanto seus trabalhos, quanto as ocupações mais simples do dia a dia fazem ele ter contato com pessoas e, de certa forma, ajudá-las. O professor atua na Universidade de Caxias


do Sul (UCS), no campus central e também nos campi de Canela e São Sebastião do Caí. Ministra disciplinas aos cursos de Administração e Tecnologia de Marketing, auxiliando também no desenvolvimento de Trabalhos de Conclusão de Curso. “No exercício da atividade como professor, contribuo para a formação de pessoas como profissionais. Como orquidófilo, com a exuberância das plantas, acabo deixando as pessoas mais alegres. Indo mais além, por meio da mediunidade, meu grande objetivo é tornar as pessoas melhores hoje do que foram ontem”, explica Sílvio.

Como médium, Silvio atende junto ao Grupo Jornada do Amor, de Venâncio Aires, realizando trabalhos espirituais de orientação. Quando há algum problema relacionado ao corpo, são feitas curiosas cirurgias espirituais. Realiza, ainda, trabalho para afastamento de atividades do mal. Ele afirma que por meio da espiritualidade busca contribuir para que todos possam viver em sociedade, compartilhar a existência e não ficar sós, no pensamento de que são melhores que os próximos. “Todos somos iguais e precisamos de apoio. Devemos compartilhar nossa vida, nossa energia e nosso amor”, destaca.

Silvio Jaeger e as orquídeas cultivadas por ele

AS ORQUÍDEAS E A ESPIRITUALIDADE Com relação às orquídeas, Sílvio salienta que é possível ver nas flores uma manifestação divina: “creio que os seres mais espiritualizados, sejam eles espíritas ou não, providos de sentimentos mais puros, enxergam no exotismo das orquídeas a beleza da criação”. Em suas falas durante as exposições de orquídeas em todo o Rio Grande do Sul, Sílvio diz que sempre representa esse sentimento de que essas plantas são a manifestação divina, já que sua beleza é inexplicável. “Assim como há pessoas que quando olham para uma orquídea veem somente uma flor, também há aquelas que veem nela toda a divindade”, explica o orquidófilo. Sobre seu pensamento da relação entre o cultivo de orquídeas e o espiritismo, o médium deixa o seguinte pensamento: “quantas pessoas você conhece que não

cumprimentam aos outros quando chegam a seu local de trabalho? Esses não reconhecem os outros. Em contrapartida, quantas pessoas você conhece que sorriem, cumprimentam, param para conversar? Essas reconhecem ao outro. Para mim, a verdadeira ligação entre o material e o espiritual, entre o espiritismo e o cultivo de orquídeas, é o amor ao próximo, às belezas do universo e a Deus”. Experimentemos então ter também uma orquídea. Ou até mais de uma. Das mais belas e chamativas até as pequenas, de cor clara. Dessas, que

por meio do cultivo ocupam aquele tempo que temos sobrando e nem nos damos conta. Quem sabe daí, passemos a olhar às orquídeas e não percebermos apenas uma flor, mas também, serenidade. Da mesma forma, podemos seguir o exemplo de Sílvio Jaeger e olhar para o próximo, não vendo um adversário, mas um amigo, a quem ajudar e pedir apoio.

Para mim, a verdadeira ligação entre o material e o espiritual, entre o espiritismo e o cultivo de orquídeas, é esse amor ao próximo, às belezas do universo e a Deus.

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Minha primeira viagem O que parecia distante agora se tornava realidade REPORTAGEM E FOTOGRAFIA: MÔNICA PASSOS

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omada pela ansiedade e ao mesmo tempo muito entusiasmada dei a última conferida na mala abarrotada, afinal, uma marinheira de primeira viagem tem sempre aquela sensação de que está esquecendo alguma coisa. Como se não bastasse o nervosismo, tive que enfrentar o mau tempo. Chovia muito naquela tarde de Sexta-feira Santa. Minha mãe me acompanhou até a estação rodoviária e como também fazia frio e ventava muito, ficamos encharcadas. Dei um abraço nela e embarquei no ônibus que acabava de chegar. Sentei-me ao lado do meu namorado que me esperava com um largo sorriso no rosto e seguimos em direção à nossa primeira parada: Porto Alegre. Depois de algumas horas na estrada, lá estávamos. Desembarcamos e logo tratamos de procurar um táxi que nos levasse até o aeroporto, porém, o preço da corrida era muito alto e nos fez mudar de ideia. Nossa saída então foi usar o trem que tinha um preço mais acessível. Estávamos tão preocupados em não perder o voo que

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chegamos com três horas de antecedência no aeroporto. Nem sequer sabíamos onde fazer o check-in. Ficamos com vergonha de perguntar e resolvemos usar o tempo que tínhamos para procurar o lugar. Andávamos de um lado para o outro e nada. Líamos as placas de indicação, mas mesmo assim nos sentíamos perdidos, até que depois de tanto subir e descer escadas rolantes encontramos o local. Mais aliviados, despachamos nossa bagagem e procuramos nos ocupar até a hora da decolagem. Parecíamos duas crianças. Tiramos muitas fotos e andamos tanto que até tive dor nas pernas. Tudo era festa e eu estava muito tranquila até a hora do embarque. Quando entramos no avião localizamos nossas poltronas, sentamos e tiramos mais fotos, mas, de repente, comecei a suar frio e me deu uma tremedeira sem fim. O nervosismo tomava conta de meu corpo. Eu tentava me controlar para não demonstrar o medo que sentia, mas não foi possível, porque minhas pernas pulavam. Sim! Elas pulavam de tal maneira que despertou a

atenção de meu namorado. Ao perceber o quanto eu estava nervosa ele começou a rir de mim. Então o voo estava autorizado. O avião andava lentamente e, enquanto isso, as aeromoças passavam aquelas instruções que, particularmente, me aterrorizaram ainda mais. Alinhamos na pista, ligaram-se as turbinas e subimos aos céus. O voo em si era tranquilo, parecia que o avião nem saía do lugar e como viajamos de madrugada, só conseguia ver as luzes coloridas das cidades que sobrevoávamos. Às vezes, no entanto, ocorriam umas pequenas turbulências e o avião baixava lentamente. Nessa hora meu coração parecia que ia saltar pela boca, e quando acendia a luz que indicavam o uso obrigatório do cinto de segurança, eu voltava a tremer. Eu sentia muito sono, não tinha dormido nada, mas não consegui dormir de jeito nenhum durante o voo, porque quando eu ia pegar no sono, o avião balançava. De vez em quando meu namorado dava uns cochilos, então eu o olhava e não entendia como uma pessoa que também estava viajando pela


primeira vez de avião não sentia medo. Eu estava apavorada. Aliás, aquelas foram as duas horas e quarenta minutos em que eu mais senti medo em toda a minha vida. A maior felicidade foi quando pousamos sãos e salvos no aeroporto de Porto Seguro. Ah, a Bahia! Terra maravilhosa, clima quente, povo hospitaleiro. Lá foi tudo fácil. O pessoal da companhia aérea nos pegou no aeroporto e nos levou até o nosso hotel. Tudo o que eu queria naquela hora era me atirar na cama e descansar, então fizemos o contrato de hospedagem e logo em seguida fomos

Aliás, aquelas foram as duas horas em que mais senti medo em toda a minha vida. A maior felicidade foi quando pousamos sãos e salvos no aeroporto de Porto Seguro.

até o nosso quarto. Acordamos de manhã com o barulho do telefone tocando, então levantamos e tomamos um café reforçado. Era domingo de Páscoa, e nosso primeiro dia em Porto Seguro. Uma semana inteira nos esperava e parecia que eu vivia um sonho. Mas era realidade, eu estava na Bahia. No nosso primeiro passeio, fomos conhecer a cidade histórica de Porto Seguro, um dos lugares mais visitados. Exatamente nesse ponto surgiu o primeiro aglomerado populacional do Brasil, os principais atrativos do espaço que podem ser apreciados pelos turistas são o Marco do Descobrimento, trazido diretamente de Portugal por Gonçalo Coelho no ano de 1503; a Igreja de Nossa Senhora da Pena, que é a padroeira da cidade; a Casa de Câmara e a antiga cadeia que hoje é o Museu de Porto Seguro. Além disso, lá estão todas as casas que foram construídas no Világio (a vila histórica de Porto Seguro) baseadas nas construções de Portugal e as tendas com vendas de chás, roupas, acessórios e artesanatos. No centro de Porto Seguro

está localizada ainda a Passarela do Descobrimento, uma rua com dois quilômetros de extensão onde estão várias lojas e restaurantes. No dia seguinte nós alugamos um carro, fizemos um cronograma de passeios e fomos visitar os lugares que mais tinham chamado a nossa atenção em fotos e também aqueles que a agente de viagem havia nos indicado. Assim foi até quarta-feira. Todos os dias levantávamos cedo, tomávamos um café no restaurante do hotel e saíamos. No caminho, nossa parada certa era no mercado da beira da estrada, a gente comprava o nosso lanche e íamos aos passeios. Todo o dia era aproveitado. À tardinha nós voltávamos. A piscina do hotel ficava aberta até as oito horas da noite, e como na Bahia sempre faz muito calor, a gente ficava na água até o último minuto. Depois da janta, era então hora de descansar, porque outro dia cheio nos esperava. Nesses três dias, conhecemos belas praias, como as de Trancoso, Arraial d’Ajuda e dos Espelhos. A praia dos Espelhos, na minha opinião é a mais bonita, mas até

Praia do Espelho, Porto Seguro.

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chegar lá tivemos que andar vários quilômetros. A estrada era semelhante aos caminhos que aparecem nos desenhos animados. Eram fortes subidas e longas descidas e muitas curvas, depois seguimos numa estrada de chão e passamos por uma vila. Nesta vila paramos para pedir informação e acabamos dando carona para um menino que vendia chocolate na praia que procurávamos. No fim, ele nos levou até o local. Quando avistamos a praia, ficamos fascinados, era um lugar perfeito parar e fazer selfies. Realmente um paraíso. Nessa hora eu me imaginei morando na beira do mar e indo caminhar na areia todos os dias. Seria maravilhoso ter a praia dos Espelhos como quintal de casa. Na quinta-feira, passamos o dia em uma fazenda de coqueiros. Pescamos, ganhamos o almoço e depois aguardamos o bondinho que iria nos levar de volta. Não foi um passeio muito interessante. Eu achei que seria melhor, e por isso não via a hora de voltar para o hotel. Mas, na sexta-feira, fomos ao passeio mais aguardado. Pegamos uma balsa que ia direto à cidade de Arraial d’Ajuda. Foi a primeira vez que andei de balsa e confesso que não gostei. Lembrei que não

Cruz onde foi rezada a primeira missa em solo brasileiro em Santa Cruz Cabrália. 76

sei nadar e que se ela afundasse eu poderia morrer afogada. Sim, além de avião, também tenho medo de água. Chegando no nosso destino fomos até o Eco Parque, um parque de diversões. Nesse dia eu testei todos os meus limites, fiz o que eu nunca tinha feito antes, como por exemplo, andar de tirolesa. Estava ansiosa para fazer isso, mas quando cheguei lá em cima e fui descer, me arrependi muito, tive vontade de desistir. Mas fui, não quis passar vergonha na frente do meu namorado e do instrutor. Pensei que se até criança fazia eu devia fazer também. Depois senti orgulho de mim, acho que fui muito corajosa. Naquela sexta-feira, também desci vários escorregadores muito altos que terminavam dentro de piscinas. Claro que só fui porque tinha vários salva vidas que iriam me ajudar quando eu chegasse lá embaixo. Também fiz rapel, me banhei na piscina de ondas, entre outras várias coisas. Foi um dia de muitas aventuras! Então chegou o sábado, o último dia da viagem. Nesse dia só fomos na praia que ficava em frente ao hotel. Ainda não tinha sobrado tempo de ir conhecê-la apesar de estar tão pertinho de nós. Nesse dia também percebi que a vontade


de ficar em Porto Seguro era muito maior do que a vontade de voltar para casa. Deu uma tristeza quando pensei que teríamos que ir embora. Acostumamos tão rápido quando é bom! Além disso, eu já estava ansiosa pensando que teria que passar mais duas horas e quarenta minutos dentro de um avião. Mas a noite chegou. Pegamos as malas e fomos para o aeroporto. No avião, tudo outra vez: medo, tremedeira, muita vontade de ir ao banheiro, turbulências e nervosismo. Graças a Deus, entretanto, chegamos em Porto Alegre. Mas ainda faltava um tanto para chegar em casa, porque a seguir seriam algumas horas de estrada. Felizmente, no ônibus consegui dormir um pouco. Quando cheguei em casa, parecia ter chegado em outro lugar, tudo estava tão diferente, apesar de estar tudo igual. Revi minha família, e me dei conta de que, eu nem sabia, mas estava com muita saudade deles. Então dei os presentes e comecei a contar como tinha sido a viagem e como era andar de avião. Agora estou esperando chegar o dia da minha segunda viagem. Espero que seja tão boa como essa foi. E espero, quem sabe, superar o meu medo das alturas.

Ajuda à Nossa Senhora d’ Fitas com pedidos a. de Arraial d’ Ajud no centro histórico

Antiga cadeia está localizada no centro histórico de Porto Seguro.

s

e trouxe Pedro Alvare Réplica da caravela qu ileiras. Cabral às terras bras

Primeira igreja construída pelos por tugueses em Por to Seguro.

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ENSAIO

Migrações contemporâneas: questão humanitária ou de segurança? Matheus Felten Fröhlich*

A imagem de Alan Kurdi – o menino sírio encontrado morto em uma praia turca, vítima da cruel travessia entre o Oriente Médio e o continente europeu – gerou comoção em diversas esferas da comunidade internacional. Os debates acerca dos fluxos migratórios, tantos os anteriores à tragédia, quanto os ocorridos em consequência dela, questionam: “será a migração uma preocupação de segurança?”. Se sim, “quem é o responsável?”; “segurança de quem?”; “como podemos lidar com a situação?”. De uma maneira simples, a migração pode ser compreendida como o movimento de pessoas de um lugar para o outro. Como define a Organização Internacional para a Migração (OIM) (2011): “um movimento de uma pessoa ou um grupo de pessoas, quer através de uma fronteira internacional ou dentro de um Estado”. Portanto, “um movimento populacional, abrangendo qualquer movimento de pessoas, não importando as causas – incluindo refugiados, deslocados, migrantes econômicos e pessoas se movendo por outros propósitos”. Notoriamente, os movimentos migratórios impactaram a história, e, por algumas vezes, foram considerados como ameaça – mas em sua grande maioria como oportunidade. A migração é comumente associada à gama de perigos contra o Estado, cobrindo o plano socioeconômico e político como um todo. Migrantes, forçados ou não, são largamente vistos como uma ameaça à estabilidade pública e, acima de tudo, como um constrangimento à identidade da

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sociedade receptora, intimidando as tradições desta antes do fato migratório. Este cenário vai de encontro à ótica contemporânea da globalização, na qual os Direitos Humanos e políticas voltadas ao pluralismo cultural são perpetrados por inúmeras Organizações da Comunidade Internacional. Desta forma, a migração (percebida como ameaça por razões que perpassam uma variedade de fatores societais, econômicos e criminológicos) representa uma ameaça existencial para os países europeus e para a União Europeia e aparenta ser a força motriz por trás das políticas restritivas dos governos locais. De qualquer forma, segundo as leis internacionais, os Estados têm o direito assegurado de controlar o movimento em suas fronteiras. Pode-se dizer que eles utilizam este controle para garantir sua soberania – e, por consequência, dirimir qualquer dúvida entre a opinião pública de que a esta soberania está sendo minada. Logo, o que torna a migração percebida como ameaça, real ou não à segurança é seu caráter irregular, o que demanda um pouco mais de reflexão. Recorrendo novamente às definições da OIM: a migração irregular está à margem das normas regulatórias para o país recebedor. O status irregular gira em torno da entrada, permanência e trabalho sem autorização ou na falta de documentos necessários. Já para os países que enviam migrantes, a irregularidade se dá, basicamente, pela passagem das fronteiras sem documento legal de viagem. O número de migrantes ir-


regulares em continente europeu, incluindo os requerentes de asilo, chegou a estimativas de mais de um milhão de pessoas no ano de 2015 - a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. O dramático fluxo contemporâneo revive o debate entre segurança e migração. Salientam-se como fatores nos últimos anos que acresceram as consternações perante os movimentos migratórios internacionais as guerras na Líbia, Sudão, Síria e Iraque - que se tornaram fatos geradores de migração - e as ameaças de terrorismo. Tais percepções contrastam com os tecidos econômicos e sociais dos países receptores e enfatizam as diferenças entre os locais e “os outros” – que têm sido vítimas de atos odiosos. O filósofo esloveno, Slavoj Žižek (2015), enumera a crise europeia em cinco estágios, como os cinco estágios em uma doença terminal: Existe a negação “não é tão sério, vamos somente ignorar”. Existe a raiva: “refugiados são uma ameaça ao nosso modo de vida, fundamentalistas islâmicos se escondem dentre eles, devemos os conter a qualquer custo!”. Existe a barganha: “OK, vamos estabelecer cotas e dar suporte aos campos de refugiados em seus próprios países!”. Existe a depressão: “estamos perdidos, a Europa está se tornando no “Europa-stan”. Falta o da aceitação, que significa um plano consistente pan-europeu de como lidar com os refugiados”. Žižek (2015)

Tal reflexão nos faz voltar às indagações iniciais sobre como a crise migratória deve ser lidada. O termo nos estudos das relações internacionais aqui é o de securi-

tização, que ocorre quando atores (normalmente as elites), agindo em nome de um objeto em questão obtém sucesso em convencer uma parcela relevante da sociedade que medidas excepcionais devem ser tomadas, seja a ameaça iminente ou não. Estas práticas ficam evidentes, como no recente caso do fechamento de fronteiras dentro da União Europeia: devido ao fluxo intenso de migrantes sem registro, seções dos Acordos de Schengen (acordo de livre-trânsito de pessoas na União Europeia) foram ignoradas e novos muros foram levantados nas fronteiras. Os países que compartilham a costa mediterrânea – com ênfase na Itália, Grécia e a Turquia – sofrem com o maior fluxo de pessoas. De barco – os chamados “boat people”, ou por vias terrestres, requerentes de asilo almejam chegar aos países da Europa Ocidental e invariavelmente necessitam dos países costeiros para continuar a jornada. A “rota balcânica” é o trajeto mais comum, em que, transitando pelos países dos Bálcãs (Sérvia, Macedônia e Croácia), os refugiados se deparam com políticas de aceitação restritas e com a negação do seu direito de ir para onde sejam bem-vindos. Quando se apresentam, as medidas de securitização estão mais para a segurança do Estado, ao impor medidas restritivas em curto prazo, maiores gastos com vigilância e supressão de direitos – do que para a segurança humana per se. A priori, a segurança do Estado, na visão dos discursos da elite, deveria derramar-se perante à dos indivíduos, fazendo com que o debate se resuma a segurança

de fronteira e a maior opressão policial. Claramente, o trabalho da União Europeia se apresenta em arquitetar uma administração apropriada das fronteiras, concomitantemente à uma agenda para tratar as causas da migração irregular. A complicada tarefa de adequar o controle migratório com o controle de fronteira resolveria os problemas de segurança nacional enquanto otimizaria a segurança dos migrantes. A gravidade da situação no Mediterrâneo, assim como em outras regiões do planeta (tal como o Brasil), traz à tona o debate e demonstra o quão complexo é o nexo entre segurança e movimentos migratórios; mas o primeiro passo seria reconhecer que a retórica, tão calcada nos princípios universais dos Direitos Humanos, deve seguir em concordância com os mesmos. Referências: INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR MIGRATION; Key Migration Terms. Glossary on Migration, 2011. Disponível em: https://www.iom.int/key-migration-terms. Acesso em: 10 abr. 2016. WOHFELD, Monika. Is Migration a Security Issue? In: GRECH, Omar, WOHFELD, Monika (eds), Migration in the Mediterranean: Human Rights, Security and Development Perspectives. MEDAC: Malta, 2014. ŽIŽEK, Slavoj. We can’t address the EU Refugee Crisis Without Confronting Global Capitalism. In These Times, 9 set. 2015. Disponível em: http://inthesetimes.com/article/18385/slavoj-zizekeuropean-refugee-crisis-and-globalcapitalism. Acesso em: 19 abr. 2016. *Mestrando em Ciências Sociais pela Pontífica Universidade Católica do RS. Bacharel em Relações Internacionais pela Univates

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Bastidores da vida de modelo O que está por trás das capas de revista? É hora de você descobrir a rotina e a vida de quem vive a tão sonhada profissão de modelo. REPORTAGEM: DÓRIS KONRAD FOTOGRAFIAS: ARQUIVO PESSOAL

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ão 9 horas da manhã quando desço do ônibus na rodoviária de Porto Alegre. Foram 156 km percorridos em duas horas. Tentei não dormir na viagem para não estragar a maquiagem e o cabelo feitos às 4h da manhã, antes de sair de Santa Cruz do Sul. Estou usando roupas folgadas para não marcar o corpo. Na semana anterior cortei o carboidrato e intensifiquei a rotina de treinos. Nos dois dias que antecederam a viagem fiz apenas uma refeição por dia: alface, tomate, ovos e peixe. E no dia anterior reduzi ao máximo a ingestão de líquidos, tudo para chegar o melhor possível fisicamente. O objetivo? Um casting para uma campanha publicitária de abrangência nacional com cachê de 30 mil reais. Ainda na rodoviária, utilizo o banheiro para trocar de roupa e retocar a maquiagem. No look, um salto alto, calça jeans preta, e uma blusa preta, lisa, sem estam-

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pas. A maquiagem precisa ser o mais natural possível, caso você não queira ter que lavar o rosto na hora que for avaliada é melhor reparar bem nesse detalhe. Um corretivo, um pó compacto, rímel e um gloss na boca dão conta de maneira satisfatória ao esperado. O cabelo naturalmente liso está dividido ao meio, ondulado nas pontas. Tudo pronto, é hora de ir para a agência. No caminho entre uma pausa e outra durante a conversa com o taxista, olho pela janela e lembro-me dos primeiros concursos de beleza que participei, da minha primeira viagem para São Paulo, do meu primeiro grande trabalho, e do quanto, esses 12 anos modelando significam na minha vida e me permitiram conhecer pessoas e lugares. O senhor de sorriso simpático informa que chegamos e me deseja boa sorte. Diz que tenho nome de modelo. É, realmente cheguei. O cenário na agência é o seguinte: 106 mo-

delos com seus books e portfólios na mão, vestindo calça jeans preta e camisa preta ou branca, todas dividindo uma sala e as escadas do prédio esperando o casting. Algumas viajaram de avião do Paraná e de Santa Catarina para participar. Muitas eu já conheço de outras oportunidades. Preenchemos um cadastro para atualizar os dados, tiramos medidas e aguardamos. O cliente atrasa, e o casting inicia às 11h20min da manhã. Em uma sala separada na agência, uma a uma das meninas entra para ser avaliada. Além do cliente, representado pelo diretor da marca, um outro profissional da área de marketing acompanha a avaliação. Estão na sala também a diretora da agência, um fotógrafo e um booker. Ali, as 106 meninas terão entre 5 e 10 minutos para mostrar seus portfólios, suas belezas e serem avaliadas. A seleção é dividida em 3 fases: apresentação e book, avaliação de biquíni e teste de vídeo. Todas de caráter


eliminatório. É tudo ou nada. É possível ver no semblante de cada uma das meninas ao saírem da sala a alegria ao passarem para a fase seguinte ou a tristeza quando eliminadas. Para essa campanha concorrem meninas de 18 a 28 anos. Todas acima de 1m60cm. Loiras, morenas, ruivas, negras. Magras, magérrimas, mais definidas. E entre a espera e o nervosismo, a expectativa entre todas que aguardam é a mesma: que tudo dê certo e que daqui a 20 dias possam ver seu rosto estampado nos outdoors, nas capas de revistas, nos intervalos da novela das 21h. As horas vão passando, a agência coloca à disposição um lanche, água, chá, café. Já é possível perceber o cansaço no rosto de algumas meninas. Ali, está também a rotina de preparação de cada uma das meninas para esse dia e, não menos importante a hora em que acordaram para dar conta de chegar ali e estar impecável. A espera é extremamente exaustiva. São exatamente 19h e 35 min quando chega minha vez. Meus pés doem do sapato e estou com muita dor de cabeça e dor nas costas. Pego meu book e entro na sala, ali minhas dores somem. São os minutos que podem mudar minha vida e quero aproveitá-los da melhor forma. Silenciosamente os avaliadores olham minhas fotos, pedem que

faça algumas poses, expresse algumas sensações escolhidas por eles. Pedem que eu desfile, que vire de costas e finalmente, que coloque um biquíni. Ali, esboço meu primeiro sorriso, estou na fase seguinte. De biquíni, volto para a sala e sou fotografada. Um dos avaliadores se aproxima para tirar minhas medidas e brinca que tenho traços

Foram 8 horas em pé esperando em cima de um salto de 12cm até que chegasse minha vez para ser avaliada. 8 horas disfarçando cansaço, fome e dor com sorrisos e carões.

indígenas. Mais algumas trocas de olhares e, sim, vou para o teste de vídeo. Essa fase é a última. Gravamos o material em uma outra sala e depois ele é passado aos avaliadores. Coloco minha roupa e tenho 10 minutos para decorar uma fala de 6 linhas. Respiro fundo, e no 3,2,1 interpreto meu texto para a câmera que inclui cena de choro. Um “obrigada” é tudo que ilustra minha incerteza em saber

como fui, e o “espero nos vermos em breve”, a esperança de que isso realmente aconteça. É finalmente chegada a hora de voltar para casa. Foram 8 horas em pé esperando em cima de um salto de 12cm até que chegasse minha vez para ser avaliada. 8 horas disfarçando cansaço, fome e dor com sorrisos e carões. 106 meninas, 106 motivações diferentes. Para mim, 8 longas horas que ilustram aquele ditado: “quando se faz o que se gosta, não tem nada ruim”. Eu vou para casa, mas ainda restam outras 42 meninas aguardando para serem avaliadas. Seguramente daqui uns dias quando a campanha estiver no ar, você não verá nada disso que chamamos de bastidores. O relato acima é uma das primeiras etapas antes de uma modelo fechar um contrato em uma campanha publicitária. Depois de contratada e estar efetivamente trabalhando em uma agência reconhecida e seria, os modelos passam por uma rotina de preparação que vai da imagem pessoal, a forma física buscando adequar os traços fortes da modelo com as exigências do mercado. Vários profissionais são disponibilizados para esse acompanhamento. Quando a modelo está efetivamente adequada faz o book, o material fotográfico que será sua referência nas seleções. E a partir dali ela começa a participar de seleções para trabalhos, os chamados castings.

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Contudo, engana-se quem pensa que esse é um trabalho simples. O sonho de se tornar modelo, comum para a maioria das meninas esconde uma realidade cheia de desafios que vão além dos holofotes, luzes, fama e beleza que aparentemente definem a profissão. Atrás de cada capa de revista, do carão sensual no comercial, da foto

da modelo saindo do mar sorrindo, esconde-se uma rotina de preparação exaustiva e dificuldades, que vão desde deixar família e ir morar sozinha em outro estado ou país, passar dificuldades financeiras, esperar horas e horas em um casting, fotografar um dia todo interruptamente, perder peso e medidas em um curto espaço de tempo. Aqui,

GABRIELA Loira, olhos claros e um sorriso lindo que lembra uma princesa dos contos de fada. Essa é Gabriela. Natural de Sobradinho, município do interior do Rio Grande do Sul, Gabriela Hermes Tomilin iniciou sua carreira de modelo após participar de um concurso de beleza em 2008. Com 17 anos, sozinha, mudou-se para São Paulo, a maior capital do país em busca do seu sonho. Deixou para trás a família e precisou aprender desde cedo a cuidar de si, da alimentação e de administrar seu dinheiro. Hoje trabalhando já há oito anos como modelo, Gabriela já fez trabalhos para marcas como Avon, Kolosh e Nívea e teve a oportunidade de morar no México e no Chile, mas negou na época por medo da adaptação. Na rotina de Gabriela, cada dia é um dia. “A vida não é muito regrada como em um trabalho normal. As vezes tenho três castings num dia só, um em cada canto de SP, o que vira uma corrida contra o tempo”. Além de modelar, Gabriela estuda teatro duas vezes por semana e como os castings são de manhã e de tarde precisa dividir o tempo entre estudos e trabalho. Para manter o corpo em forma frequenta a academia 3 a 4 vezes por semana e procura sempre seguir a dieta. A modelo conta que o glamour que as pessoas veem nas fotos muitas vezes esconde de 8 até 12 horas fotografando. “Precisamos aguentar todas essas horas de bom humor, tendo que sair sempre linda

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sonhos se misturam com a realidade de quem vive dessa profissão e sabe que o glamour é simbólico. Três modelos, realidades de vida diferentes, agências diferentes, perfis diferentes. Gabriela, Monique e Henrique contam suas experiências e trazem um pouco de como é essa rotina e o que está por trás das capas de revista.

Foto: Arquivo pessoal

na foto. Como é um trabalho que não é certo, se tu não trabalha, não recebe, então também é preciso saber lidar com a falta de dinheiro. ” Para Gabriela, o glamour muitas vezes está associado as permutas que as modelos ganham. “Modelo ganha muita permuta em academia, salão de beleza, restaurantes badalados, o que dá essa impressão de glamour”.

Apesar das dificuldades e da saudade de casa, Gabriela é muito feliz na profissão. “Devo tudo a essa carreira. Me tornei uma pessoa melhor, valorizo mais minha família, ganho meu dinheiro, tenho a oportunidade de estudar com o que ganho como modelo, conheço muitas pessoas e lugares em virtude dos trabalhos.


MONIQUE

Ela já desfilou no São Paulo Fashion Week, o maior evento de moda do país, estrelou campanhas para Carolina Herera, Ferragamo e Porsche. Hoje passa uma temporada de um ano no México. A menina que cansou de ouvir que precisava emagrecer deixou para trás família, namorado, trabalho e estudo para seguir seu sonho e construir sua carreira no mundo da moda. Monique Camargo é natural de Santa Cruz do Sul. Morena, de olhos escuros foi descoberta por um scouter e lançada no mercado por uma agência de modelos ainda na adolescência. Em 2014 viajou para Shangai na China e para Singapura, onde ficou 3 e 2 meses, respectivamente. Antes de ir para o México — onde está agora, voltou para o Brasil e morou em São Paulo. “O México está sendo incrível, lugar lindo, pessoas amáveis, bastante trabalho. É bem parecido com o Brasil. Me sinto em casa”.

HENRIQUE

Ele já morou em Kuala Lampur, na Malásia. Hoje estuda e volta boa parte do dia para seus projetos pessoais. No currículo, desfiles no Donna Fashion, e campanhas para a Gang e Johnson e Johnson. Henrique Riccardi começou a carreira através da internet. O dono de uma agência de Porto Alegre viu seu perfil no Orkut em 2010 e o chamou para trabalhar. Na época, Henrique tinha 16 anos. A adaptação aos padrões exigidos pelo mercado foi um dos pontos mais difíceis no inicio da carreira: “É preciso estar sempre disposto a mudanças na sua rotina, e isso inclui alimentação, treinos, descanso e culturas”. Para Henrique, a carreira de modelo é relativamente curta e uma parcela mínima de modelos ganha relativamente bem. Como é uma profissão que lida com a estética e o visual você em hipótese alguma pode transpassar os seus problemas. “Há muita coisa por trás do glamour.

Foto: Arquivo pessoal

Na rotina de trabalho, dias cheios e dias sem nada para fazer. “Às vezes faço castings o dia todo e passo boas horas em cada um. De noite costumo ir na academia.” Para Monique a ideia de que a profissão é apenas glamour está associada aos convênios que as agências tem com alguns lugares bem frequentados. “ Geralmente são restaurantes muito bons com vinhos e comida cara, decoração incrível, pessoas bem vestidas. Saímos desses lugares classe AAA e voltamos para casa de metrô”. Na relação com o mercado, a modelo ressalta que embora não seja uma prática de todas as modelos, ainda é muito comum nos bastidores modelos saírem para jantar ou terem que algum tipo de

relação com o booker para conseguirem trabalho. “Muitas vezes os bons perdem um lugar importante porque outros aceitam vender seu corpo por trabalho e por status”.

Foto: Marcellus Cruz Você entra em uma rotina de treino, alimentação, castings e trabalhos que te desgasta muito. De certa forma a gente vive num mundo fake. É um mercado que alimenta muito o parecer, ao invés do ser.” No mercado da moda o caminho do sucesso esconde uma trajetória que exige muito mais do que medidas perfeitas, desenvoltura e beleza. É preciso persistência, determinação e muita, muita força de vontade. O apoio da família é fundamental, assim como trabalhar com profissionais sérios. A foto perfeita na capa de revista, esconde vidas. Esconde dores e medos. Esconde Gabrielas, Moniques e Henriques. A propósito, já se passaram alguns meses do casting, e da

campanha, aquela do início da reportagem, e é preciso dizer, não fui selecionada.

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Ultrapasse a linha Conversamos com a psicóloga e coach Fátima Gehlen e separamos algumas dicas para você ser um bom profissional. No mercado de trabalho não há espaço para medianos REPORTAGEM: JÉSSICA BAYER ARTE: MIRIAN FLESCH

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uase 10 milhões e meio dos brasileiros estão desempregados. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, divulgados no final de abril. Eles refletem a situação do trimestre móvel, que tem como base os meses de dezembro/2015, janeiro/2016 e fevereiro/2016, em que a taxa de desemprego foi estimada em 10,2%. O índice é o maior desde 2012. Milhões de brasileiros perderam o emprego entre o final de 2015 e o início de 2016. A maioria são profissionais de faixa etária média, ou seja, nem tão jovens, mas também nem tão velhos para desistirem de procurar outro trabalho, afinal, eles ainda precisam sustentar a esposa ou o marido, os filhos, pagar as contas e colocar comida na mesa. Então, já parou para pensar como você, que está prestes a sair da faculdade, vai poder disputar com esses profissionais experientes uma vaga no mercado de trabalho? Para a psicóloga e coach – profissional que exerce o coaching, uma ferramenta de desenvolvimento pessoal e profissional – Fátima Gehlen, o primordial para alguém que está atrás de emprego é o foco. FOCO NO QUE VOCÊ QUER

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PARA SUA CARREIRA E NO QUE VOCÊ QUER SER. Não basta estar procurando emprego e dizer por aí nas seleções e entrevistas que está disponível para qualquer situação. Tenha uma meta. Defina uma área na qual queira trabalhar. Por isso, para quem está à procura de um novo (ou primeiro) emprego, nós listamos algumas dicas fundamentais e importantíssimas que precisam ser seguidas por quem está atrás de uma ocupação. Veja só:

mas pode pegar os desprevenidos de surpresa e lhes pregar uma bela peça. Quando o assunto é currículo – ou melhor, um excelente currículo – toda atenção é pouca. O ideal é procurar ajuda de um profissional para elaborar o seu, mas a coach Fátima lembra que não é proibido baixar um pré-modelo na internet, desde que estejamos atentos a todas as informações que são necessárias para constar em um currículo (vamos falar mais sobre o assunto em seguida).

Dica 1: AUTOCONHECIMENTO É fundamental que o candidato (você!) saiba exatamente quem é, o que procura, o que gosta e o que quer. Nenhuma empresa está disposta a lhe contratar pra depois você pedir demissão porque não gostou das atividades que está exercendo no trabalho. Por isso, um processo de autoconhecimento é essencial para evitar a perda de tempo, tanto do candidato quanto da empresa. Tenha um objetivo e jamais (NUNCA MESMO!) preencha o campo da vaga pretendida com um ingênuo “qualquer área”.

Dica 3: SEJA VOLUNTÁRIO / FAÇA ESTÁGIO Esta dica vale mais para quem está em busca do primeiro emprego. Na dúvida sobre o que você realmente gosta e no que quer trabalhar, faça um voluntariado, faça um estágio. Se integre ao mercado de trabalho, conheça alguns dos desafios das profissões e do dia a dia em uma empresa. Conheça pessoas. Faça amizades. Faça contatos. Foi exatamente o que fez a acadêmica Daniela da Vara. Ela está no terceiro semestre do curso de Direito da Univates e encontrou no estágio uma oportunidade para ingressar no mercado de trabalho e colocar em prática alguns conceitos

Dica 2: CURRÍCULO A internet tem se tornado aliada das pessoas em muitas ocasiões,


estudados na academia. “O estágio nos ensina a resolver as problemáticas do dia a dia da profissão. Traz segurança na oratória, porque ao atender pessoas, testamos nosso vocabulário e deixamos a timidez de lado”, brinca a estudante. Dica 4: DISPOSIÇÃO O trabalho ideal e perfeito não vai cair do céu, não! Muitas vezes, você terá que abrir mão de algumas coisas, vai precisar trabalhar em dias e horários que não queria para conseguir alguma vaga. Isso faz parte do jogo. Por isso, não perca a vontade de trabalhar e não desista da vaga só porque terá que alterar sua rotina habitual para poder ficar no emprego. Dica 5: APROVEITE AS OPORTUNIDADES Por fim, nossa mais preciosa dica para quem ainda está estudando: não perca as oportunidades que a universidade dá, como bolsas, estágios e voluntariados. Afinal, como bem lembra a coach, “tem lugar no mercado de trabalho para os bons profissionais. Para os medianos, está realmente difícil encontrar um emprego”. Ainda mais na atual situação do mercado de trabalho brasileiro. Quem sabe muito bem disso é a publicitária Ketrin Bassani; recém formada, ela está atrás de um emprego. A jovem já trabalhou na área ainda enquanto estudante, mas agora, com o canudo na mão, está com dificuldades de encontrar outro trabalho. “Primeiro eu procurava algo específico para a minha área, mas como está bem difícil, hoje estou vendo outras oportunidades, em outros setores”, lembra decepcionada.

Ketrin concorda que o momento não é tão favorável para buscar um emprego, mas que paciência e persistência são qualidades indispensáveis em quem busca por uma oportunidade no mercado de trabalho. “Todos têm que ir à luta, pois o momento é de crise, mas dentro dessa crise algumas pessoas já aderiram à criatividade e ao avanço: começaram a colocar algo por conta, ser um empreendedor. O jeito é ter paciência, entregar currículos, mostrar o seu potencial e, é claro, agarrar

com unhas e dentes quando uma boa oportunidade aparecer”, orienta a estudante. Se você está atrás do primeiro emprego, não se assuste. Nós também conversamos com a coordenadora regional das agências Sine/ FGTAS, Seli Flesch, e ela nos conta que, das vagas que são abertas nas agências da região, cerca de 30% delas exigem experiência profissional. “Mais do que experiência, as empresas querem dedicação e vontade de trabalhar dos colaboradores”, lembra a coordenadora.

COMO ELABORAR UM EXCELENTE CURRÍCU

LO?

A coach ainda deu algumas dicas de como pode mos elaborar um bom currículo que chame a atenção no mercado de trabalho. Começamos por uma dica simples: um excelente currículo não tem mais que três páginas. Afinal, quem é o entrevistado que vai ter tempo de ler as oito páginas de currículo, sendo que ele tem mais 100 para analisar? Neste caso, MENOS PODE SER MAIS. A segunda dica se refere às informações que você precisa colocar no documento. Comece pelos dado s pessoais, coloque seu nome completo, endereço atual, e-mail bacana e um telefone ao qual vai atender. Fátima orienta que se você, por uma eventualidade, não atendeu a uma ligação e está atrás de emprego, retorne a chamada e jamais (por favor !) ligue a cobrar. Logo abaixo das informações pessoais, coloq ue o seu objetivo. Você precisa saber com o que quer traba lhar, o que faz o seu coração bater mais forte. Provavelmente, seu objetivo tem tudo a ver com a sua formação, o nosso próximo item do currículo. Coloque neste espaço a sua formação atual, graduação e pós-graduação, por exemplo. Não é necessário, se você colocar graduação, dizer em qual escola concluiu o ensin o médio. No próximo item, as formações complementare s, coloque os cursos que você fez e que são relevantes para a vaga que está concorrendo. Cursos com menos de 5 horas de duração e realizados há mais de cinco anos não devem ser colocados. O próximo item, experiências profissionais, vale colocar empregos de carteira assinada e até estágios. Se for uma experiência curta, de dois meses, mas que tenha relevância com o cargo, é possível colocar. Não coloque mais que cinco antigos empregos neste item.

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Painel traz novos olhares sobre revista-laboratório O que acontece quando alunos e ex-alunos se reúnem para dialogar sobre a Revista Exceção? Confira na reportagem REPORTAGEM: MAHARA DE BRITO FOTOGRAFIAS: PEDRO ANDRADE DA SILVA

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or que o nome Exceção? O que os alunos levam da produção para a vida profissional? Há limitação quanto aos temas abordados? É importante trabalhar diálogos multimídia? Afinal, qual o propósito da Revista Exceção? Seria uma oportunidade para pôr em prática a redação para revista? Essas e outras questões aqueceram a noite fria de 2 de junho no painel Exceção – A revista em pauta. O evento foi alusivo aos 10 anos da publicação laboratorial produzida pelos acadêmicos da disciplina de Jornalismo de Revista e ministrada pelo professor Demétrio de Azeredo Soster, do Curso de Comunicação Social da Unisc. O bate-papo, que aconteceu na sala 101 da universidade, foi mediado pelo professor e contou com os jornalistas e ex-alunos Poliana Pasa, Gelson Pereira e Letícia Mendes – que participaram da revista em 2006, 2007 e 2008,

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respectivamente, além do editor desta edição, Thiago Carlotto. O objetivo do painel foi apresentar diferentes olhares sobre a produção da publicação, trocar conhecimentos sobre o conteúdo, o aspecto visual e discutir as perspectivas para o jornalismo de revista. Os convidados também contaram detalhes dos bastidores, dos personagens, temas e assuntos que já estamparam as páginas da Exceção ao longo da sua primeira década. O debate começou com a dúvida do porquê do nome Exceção. Poliana, que fez parte da primeira equipe da revista, em 2006, falou que a escolha foi o primeiro desafio encontrado. A lógica, sobretudo, era fazer o que ninguém estava fazendo. “Foram várias sugestões, mas ninguém gostava de nada. Quando foi sugerido Exceção não foi diferente. O nome ficou de lado por algumas semanas até que, por total falta de criatividade, deixamos

Exceção”, lembra, acrescentando que hoje acredita que o nome se encaixa perfeitamente com o propósito da revista. Renovação. Este é o mote que norteia a Exceção há 10 anos. A publicação, assim como o nome sugere, busca diferentes temas, histórias que normalmente escapam aos olhos do leitor e de muitos repórteres. A ideia é fazer o que ninguém está fazendo. Experimentar diferentes formas de informar. Fugir do senso comum. Trazer um novo olhar. Olhar este que vai fazer com que o profissional se destaque no mercado de trabalho. Ou seja, a cada novo semestre as turmas têm o desafio de reinventar a revista, dar-lhe uma nova forma e preenchê-la com os mais variados temas. O dever dos alunos é o de transformá-la em uma nova Exceção, seja no que diz respeito à linguagem, seja na estruturação dos aspectos gráficos.


E foi exatamente isso que instigou Gelson - que participou da segunda edição, em 2007 - a fazer a reportagem Os saltadores de trem, que acabou sendo, na época, a escolhida para abertura da revista, ocupando nada menos do que cinco páginas da publicação. “Eu queria fazer uma reportagem sobre trem. Mas isso era muito vago. Inicialmente, fiz um resumo apenas contando a história do trem. O Demétrio, claro, viu e não gostou”, lembra. Na época, além das estradas de ferro e de estações completamente abandonadas, restaram histórias. Histórias como a do entrevistado de Gerson, que precisava saltar do trem em movimento, em Rio Pardo, já que o veículo não parava. “Foi neste momento que surgiu a minha matéria. Foi quando o Demétrio fez com que eu entendesse o que era, de fato, o tal do olhar diferente”, recorda Gelson. Embora Poliana, Gelson e Letícia tenham relatado diferentes visões sobre a produção, todos concordaram ao falar que a publicação laboratorial foi a primeira experiência prática que tiveram com o jornalismo de revista e o mais próximo que chegaram à redação. Não à toa, pois o dever da disciplina e, propriamente, da revista é fazer com que os alunos exerçam as funções de uma reda-

ção. Neste ambiente, eles ficam imersos na rotina de redação e são responsáveis pela realização de todas as etapas para a confecção da revista, em nível editorial, processual ou organizacional. “O que ficou da Exceção é a questão do olhar, que é algo que no mercado faz muita diferença. Ter este olhar diferente que a Exceção propõe é o que vai destacar o repórter no futuro”, destaca Letícia. Em sua fala, o professor Demé-

Ter este olhar diferente que a Exceção propõe é o que vai destacar o repórter no futuro.

trio destacou que todos os alunos que produziram a revista laboratorial tiveram dificuldades, mas que conseguiram elaborar histórias que chamaram a atenção. “No caso da Poliana, por exemplo, foi a criação da revista. O Gelson a diagramação e a Letícia a revisão do projeto. Então todos estão no mesmo barco, que é a condição da primeira vez, que, querendo ou não, é o que gera a angústia.”

Conforme Poliana, a Exceção foi um divisor de águas no curso, pois, até então, não havia produzido nada que mais de mil leitores lessem. “O legado que carrego até hoje é o de que nada precisa ser medido e que dá para fazer o que ninguém está fazendo. Mas isso não inclui somente o saber fazer mas, sim, a intenção de como fazer”, destaca a jornalista. Na época, Gelson foi o escolhido para ser diagramador, embora não tivesse bagagem para tal função. “Hoje sou muito grato à oportunidade que tive, pois foi o primeiro contato que tive com o design gráfico e hoje é a minha profissão.” Apresentada na plataforma impressa, a Exceção mantém canais que possibilitam o contato do leitor com a equipe. A revista se faz presente no meio online pelo blog, abastecido com conteúdos multimídia sobre o que os repórteres encontram na rua ao produzirem suas reportagens, discussões do âmbito acadêmico e muito mais; e pela página no Facebook, na qual são feitas ações de interação com o público. Recentemente, foi adotado o processo de audiodescrição. Com essa nova ferramenta, a Exceção passou a se apresentar não apenas em palavras escritas, mas também faladas. Aqueles que antes não podiam ler as histórias, agora podem ouví-las na web.

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Há dez anos na Exceção Luana Ciecelski*

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ano de 2006 estava começando e com ele as aulas do primeiro semestre. Num certo dia, numa sala de aula da Universidade de Santa Cruz, um professor que dava pela primeira vez a disciplina de Jornalismo Impresso III - depois convertida em Jornalismo de Revista - se reuniu com um grupo de alunos com sede de fazer o novo, o diferente, fazer algo que fosse uma exceção. E foi justamente isso que eles fizeram. Diante de uma disciplina que trazia como principal conteúdo o jornalismo feito nas revistas do país e do mundo, mais literário, escrito com mais calma e com uma análise mais profunda dos fatos. Eles se questionaram: por que não fazer um produto nosso, no qual se possa experimentar toda essa teoria e mostrar ao mundo o que temos em mente? Surgiu assim a Revista Exceção. Sua primeira edição. Com um design simples, nas cores preta e branca, seu conteúdo mostrava que os futuros repórteres tinham mesmo o que dizer

ao mundo. Ela trouxe histórias como a de homens que ocupavam cargos considerados mais femininos do que masculinos; a história de um engenheiro eletrônico que trouxe inovações para o Rio Grande do Sul; a história de um estudante de farmácia, professor de inglês e dançarino de boates; e também a de um vereador que buscava entrar para o livro mundial dos recordes pelo número de mandatos; entre outras histórias. Vamos relembrar?

Com suas matérias, os alunos registraram na revista o momento que viviam. O momento que a cidade e a região vivia. As mudanças e as novidades. Seus olhares sobre esses assuntos. Deixaram um exemplo que, de tão bom, foi seguido nos dez anos seguintes. E continuará sendo seguido pelos próximos dez, mesmo que se adaptando às tecnologias que surgem a cada dia.

Composição

A primeira edição teve como professor e editor Demétrio de Azeredo Soster; como ilustrador Felipe Eick Martins Vieira; como repórteres e revisores Carina Hörbe Weber, Cecília Chelli, Daniela Azeredo, Daniela de Mello, Eistor Hanzen, Ismael Stürmer, Mariane Selli e Poliana Pasa. O projeto gráfico e a diagramação foram de Mariane Selli e Poliana Pasa e a capa foi criada por Lázaro Paz Fanfa, da turma de Direção de Arte I do Professor Rudinei Kopp. *Acadêmica do Curso de Comunicação Social - habilitação Jornalismo na Universidade de Santa Cruz do Sul

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A Exceção pesquisou: o que os leitores pensam da revista Priscila Steffens*

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revista Exceção é uma das maiores experiências em jornalismo laboratorial do Curso de Comunicação da UNISC, premiada na instância Expocom do Intercom Sul 2013 pela edição de 2012/2. Há dez anos a revista instiga seus alunos a buscarem a excepcionalidade não apenas em suas reportagens, mas também em todos os aspectos do periódico. Cada página é pensada e produzida com o maior profissionalismo possível, afinal, da disciplina de Jornalismo de Revista o estudante sai o jornalista que ele será, e sua matéria diz muito sobre o caminho que ele irá seguir. Uma das ferramentas que ajudam a entender como a Exceção é vista por seus leitores e traçar seu perfil é a pesquisa. Em 2011 foi realizada a primeira pesquisa sobre a revista, produzida pelas alunas de Relações Públicas Bruna Kohl e Manuela Carvalho, e que foi importante para a compreensão dos públicos atingidos pela publicação. Cinco anos depois, a turma da disciplina de Jornalismo de Revista do primeiro semestre de 2016 realizou uma pesquisa quanti-qualitativa sobre a revista Exceção. Ela se estendeu durante todo o mês de abril, com leitores e não leitores da revista, de dentro e de fora do curso de Comunicação Social da UNISC.

Dentre os 21 entrevistados, 13 disseram que liam a revista, mesma porcentagem da pesquisa anterior - 60%. Dentre os leitores do periódico, nove eram estudantes do curso de Comunicação Social, cinco haviam completado o mesmo e um era de outro curso. Isso mostra que a maioria (60%) dos leitores continua sendo composta por alunos do curso. E talvez por esse motivo a sua divulgação ainda seja avaliada como boa (40%), e daí a necessidade de expandir a distribuição da Exceção para outros cursos, e por que não, outras universidades. Fora os números, uma das perguntas visava saber o que os entrevistados entendiam pela palavra exceção. Ser exceção é ser único, diferente, e ter algo que o distinga dos demais. Mas como a revista Exceção pode transmitir essas características para seus leitores? Segundo eles, uma revista atraente é aquela que possui bom conteúdo e bons textos, com assuntos relevantes e design interessante, assim como diagramação e fotos. Ou seja, não apenas as reportagens são importantes, mas o que vem com elas precisa ser inovador. Os alunos que leem a revista Exceção gostam dela pelo fato de poderem apreciar o material produzido pelos colegas e valorizar os assuntos relativos à região, com os quais consequentemente se

identificam. Para um dos leitores, inclusive, essa combinação proporciona narrativas mais profundas, dificilmente encontradas em outros veículos de massa regionais. Sobre o seu conceito, a revista representa uma inovação, muito pela propriedade de ser diferente a cada edição, sendo esse um dos pontos positivos destacados, assim como as pautas escolhidas pelos repórteres. Outro aspecto observado foi a diagramação, que é especial justamente por ser flexível; os leitores também preferem os textos de estilo literário, que se aproximam do lado mais sensível da matéria; eles também notam como a revista é pensada em todos os seus elementos e o cuidado que os alunos da disciplina têm em relação a isso. As recomendações feitas foram em relação à melhora da divulgação e da distribuição, para que então a revista pudesse chegar a outros públicos, assim como os textos de opinião deveriam ser mais frequentes. E você, o que acha da revista Exceção? Sugestões e comentários são sempre bem-vindos na nossa página do Facebook. Acesse facebook.com/excecaounisc, curta, comente e compartilhe! *Acadêmica do Curso de Comunicação Social - habilitação Relações Públicas da Universidade de Santa Cruz do Sul

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Demétrio de Azeredo Soster, professor da disciplina. Gosta da sala de aula, de pedalar, de cuidar da horta, de escrever.

Thiago Carlotto, editor. Leitor voraz, apreciador de filmes antigos e fã de Jazz.

Luana Ciecelski, subeditora e repórter. Nas horas vagas faz crochê. Se tudo der errado vai vender sua arte na praia.

Pedro de Andrade Silva, ilustrador. Um cara que joga bem Imagem & Ação.

Priscila Kellermann, chefe de reportagem e repórter. Em Cachoeira do Sul, é representante consular do Internacional.

Priscila Steffens, relações públicas. Ama tatuagens. Carrega na pele a sua personalidade.

Mahara de Brito, repórter e assessora de imprensa. Não gosta de falar em público, tem tripofobia e ama sua cachorrinha Porpeta.

Júlia Ipê, repórter e revisora. Amante da arte, há mais de dez anos faz da dança um estilo de vida.

Dóris Konrad, repórter e revisora. Quer um mundo melhor e um fim de tarde para correr.

Igor Müller, repórter e revisor. Gosta de quase tudo, mas ama mesmo a família e o trabalho.

Leandro Porto, repórter e revisor. Aprecia cheiro de mato, família, amigos e cachorros. Ah, e futebol.

Priscila Oliveira, repórter e revisora. Gremista e apaixonada pelo bom futebol, seja ele da capital ou do interior.

Daniel Heck, repórter e audiodescritor. Fascinado por esportes, adora praticar diferentes modalidades e contar essas histórias.

Daniela Cezar, repórter e audiodescritora. Durante as tardes é professora dos anos inicias do ensino fundamental.

Monica Passos, repórter e revisora. Adora estar com a família e os amigos e curte viajar e conhecer o Brasil.

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Mirian Flesch, diagramadora. Nas horas vagas curte caminhar e manter contato com a natureza.


Jéssica Bayer, repórter e audiodescritora. Viciada em séries, apaixonada pela Netflix.

Luana Silva, repórter e organizadora de eventos. Gosta de aproveitar os momentos com amigos e família. É catequista de crisma.

Marieli Rosa, repórter e organizadora de eventos. Além de ser acadêmica de jornalismo, é mãe de família.

Betina Nunes Sampaio, repórter. Nas horas vagas é decoradora de eventos (por enquanto, caseiros).

Débora da Silveira, repórter. Apaixonada por livros, filmes e séries. Uma pequena grande sonhadora.

Felipe Kroth, repórter. Está chateado porque lenhador aparece no ranking das piores profissões, logo atrás de repórter.

Jéssica Imhoff, repórter. Sonhou em ser soberana da Oktoberfest. Adora se maquiar, curtir a família e os gatinhos de estimação.

Pâmela Caporalli, repórter. Gosta de viajar, ler, sair com os amigos e ser mãe da Meg.

Régis de Oliveira Júnior, repórter. Apaixonado por viagens. Eterno turista e amante das histórias.

Tais de Moraes, repórter. É escoteira, gosta de doces, café e ouvir Green Day.

Veridiana Röhsler, repórter. Apaixonada pela informação jornalística transmitida à sociedade pelo rádio.

EX PE DI EN TE

A Exceção é a revista-laboratório do Curso de Comunicação Social da Universidade de Santa Cruz do Sul. Ela é desenvolvida pelos acadêmicos da disciplina de Jornalismo de Revista, ministrada pelo professor Demétrio de Azeredo Soster, em parceria com alunos de outras habilitações. Foto de capa: Priscila Oliveira. Tiragem: 500 exemplares Gráfica Grafocem - Impressos Gráficos Ltda Acompanhe a Revista Exceção www.facebook.com/RevistaExceção revistaexceção.blogspot.com Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) Av. Independência, 2293, Bairro Universitário, Santa Cruz do Sul/RS – Brasil CEP: 96815900 – Fone: (51) 3717 7300 Site: www.unisc.br

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Revista Exceção 2016  

Revista-laboratório do Curso de Comunicação Social da UNISC - Universidade de Santa Cruz do Sul. Volume 12

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