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HAROLDO ABRANTES | AG. A TARDE ABMAEL SILVA | AG. A TARDE

Salvador, SÁBADO, 10 de maio de 2008

Leite de mães pretas

Duas vezes

ABMAEL SILVA | AG. A TARDE

mãe

No Brasil, existem cerca de 6 milhões de trabalhadores domésticos. Isso é duas vezes maior que o número total de pessoas que moram em Salvador ❚

As babás são, às vezes, como mães. Conheça a história de duas delas e saiba como vivem os seus filhos, enquanto elas cuidam de outras crianças

HAROLDO ABRANTES | AG. A TARDE HAROLDO ABRANTES | AG. A TARDE FERNANDO AMORIM | AG. A TARDE

Deste lado esquerdo, Lucimar e Júlia (no alto); ao lado, Luiza e a mãe beijam Júlia; Lucimar brinca com Felipe

Deste lado direito, Marcos e Matheus, com a mãe e a irmã; as crianças juntas, e Beatriz e Felipe, com a mãe

ANDRÉA LEMOS* alemos@grupoatarde.com.br

Quando Adelzita de Jesus acorda, o sol está nascendo. Ela sai da cama com cuidado para não acordar os filhos, que de noite se mudam para sua cama. São três: Siderlane Santos, 14, Marcos e Matheus Souza, 8. Adelzita se arruma e sai para trabalhar. No lugar onde mora, no Bairro da Paz, muitas mulheres também deixam suas casas e seus filhos no mesmo horário para cumprir as obrigações da vida de adulto. No Bairro da Paz, as moradias são da cor de tijolo. A menos de um quilômetro dali, existem casas bem coloridas e com jardins. É em uma assim que Adelzita passa o dia limpando, cozinhando e cuidando de Beatriz Cubilhas, 8, e Felipe Cubilhas, 6. Quando Del – como é chamada pelos meninos – chega lá, os dois estão dormindo. Há dias em que Beatriz e Felipe acordam e a primeira pessoa que vêem é a babá, porque seus pais

também saem cedo para o trabalho. Quando Adelzita foi trabalhar na casa de Beatriz, ela ainda nem existia. Isso faz 10 anos. Quem contou essa história para Beatriz foi sua mãe, Mirela Gedeon. Três meses depois da menina nascer, nasceram também os gêmeos Matheus e Marcos. Eles não sabem dizer desde quando se conhecem, mas brincam juntos há muito tempo. É como no ditado, se conhecem “desde que se entendem por gente”. Na época, Adelzita teve que deixar os filhos em Itagi (a 360 km de Salvador), com a avó, porque não conhecia ninguém que pudesse tomar conta deles em Salvador. A irmã mais velha, Siderlane – que hoje é quem cuida dos irmãos – tinha só seis anos. Lena, Matheus e Marcos viam a mãe uma vez por mês. Agora passam as noites e os domingos com ela. No sábado, eles vão para casa de Beatriz e Felipe. Ela contou que, quando estão juntos, brincam de fazer competição para ver quem acaba o almoço primeiro.

Em Salvador, há 138 mil e 240 pessoas fazendo trabalhos dentro de casa, segundo IBGE ❚ O rendimento (salário) mensal dos trabalhadores domésticos é de R$ 353,60, segundo pesquisa do IBGE realizada entre 1992 e 2004 ❚

Pai vira babá durante os fins de semana Amanhã, Lucimar Silva vai passar o Dia das Mães longe dos filhos, Luan Silva, 7, e Felipe Silva, 12. Longe, como nos outros sábados e domingos, quando nunca consegue vê-los. Os meninos vão passar o domingo escolhendo um CD para ela, enquanto Lucimar estará trabalhando como babá das irmãs Júlia, 7, e Luiza Mendes, 11. Há dois meses, ela sai todo sábado para trabalhar no apartamento das meninas, na Pituba, e só volta para casa, no Curuzu, na segunda-feira. A mais nova, Júlia, não fala, por causa de uma doença. Lucimar fica o tempo inteiro com ela. “Eu já sou grande, fico mais sozinha”, garante Luiza, que contou que adora dançar músicas bregas com Júlia e a babá, chamada de Lucilili. As meninas já gravaram algumas das músicas no celular de Lucimar, que mostrou

depois aos filhos. Eles acharam graça e tentaram disfarçar o ciúme. Felipe contou que sente falta da alegria da mãe. “A casa fica sem graça. Quando ela chega, tudo se ilumina”. Nos fins de semana, a ”babá“ dos meninos é o pai. Ele faz o que pode para cozinhar e divertir os filhos. Apesar da saudade que aperta para os meninos e para Lucimar, ela está procurando emprego para preencher o tempo de segunda a sexta. ”Eu sei que dói para eles, mas tenho que trabalhar. O dinheiro é importante para os dois também“. *Colaborou a estagiária de jornalismo Mirela Portugal OUTRAS FONTES: Entre a casa e a rua: a relação entre patrões e empregadas domésticas, da USP; Cecília Soares, mestre em história pela Universidade Federal da Bahia.

BRUNO AZIZ

No Brasil de mais de 300 anos atrás, quando o País era governado pelo rei de Portugal e existia a escravidão, algumas negras escravas trabalhavam dentro da casa dos senhores para tomar conta das crianças, cozinhar e fazer os trabalhos de limpeza. Quando um bebê nascia, uma escrava que tinha tido filho era chamada para dar de mamar para a criança. Essa mulher era chamada de ama-de-leite. Muitas vezes, era separada do seu filho e tinha que deixar de alimentá-lo com seu leite para amamentar o filho do seu senhor. A professora Cecília Soares conta que, naquela época – entre as pessoas que tinham terras e dinheiro –, existia o hábito de deixar a função de cuidar das crianças com os que trabalhavam dentro de casa. Hoje as amas-de-leite não existem mais , mas há muitas babás. Além de cuidar das crianças, elas têm que cozinhar e arrumar a casa, enquanto os pais que contratam esses serviços precisam trabalhar também. Em 1972, as trabalhadoras domésticas tiveram os direitos reconhecidos, mas essa ainda é uma profissão pouco valorizada. Para Cecília, é preciso haver mais respeito aos direitos do trabalho de babás. Para essas profissionais, é comum valerem mais as regras e vontades das famílias do que da lei.

atardinha babás  

No Brasil, existem cerca de 6 milhões de trabalhadores domésticos. Isso é duas vezes maior que o número total de pessoas que moram em Salvad...