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FERNANDO VIVAS | AG. A TARDE

EU VOU COBRAR PROMESSA É DÍVIDA

Apoio para escolas comunitárias

Vereadores eleitos

“Vamos cobrar a execução de um programa de educação para qualificação dos jovens e incentivos para as escolas comunitárias, independente dos recursos do governo federal, que exige muitos documentos e esbarra na burocracia, porque não temos a regularização fundiária, o que precisa ser feito logo também”

Hoje, todos os vereadores eleitos serão conhecidos, porque não há segundo turno para o cargo. Na capital, 827 concorrem às 41 vagas.

Alberto Santos, coordenador do Fórum de Entidades do Subúrbio ❚

SALVADOR, DOMINGO, 5/10/2008

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O sistema proporcional Vereadores são eleitos pelo sistema proporcional, que considera os votos dos partidos, coligações e individuais. Nem sempre vence o mais votado.

ELEIÇÕES 2008

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DEFINIÇÃO ❚ Pesquisa mais recente sobre eleitorado juvenil

revela que caráter do candidato é fator decisivo na escolha

Honestidade decide voto de 48% dos jovens MIRELA PORTUGAL | CADERNO DEZ! mportugal@grupoatarde.com.br

Seja fruto de uma desilusão com a classe política ou do aumento da consciência engajada, a honestidade ganhou importância central na hora de votar. Para 48% dos eleitores de 16 a 29 anos, o fator de maior peso na decisão de voto é o caráter do candidato. É o que mostra a pesquisa sobre o eleitorado juvenil organizada pelo Centro de Integração Empresa-Escola do Espírito Santo (CIEE-ES). Foram ouvidos 505 estudantes no período de 15 a 23 de setembro, a uma semana das eleições municipais. Segundo o instituto, as propostas de governo foram apresentadas como principal fator de decisão para 28,5 % dos eleitores, pouco à frente do histórico político limpo (15%). “O conceito de caráter que usamos quer dizer idoneidade, capacidade de manter conduta ética e promessas”, explica Jossyl Naber, superintendente do CIEE e coordenador da pesquisa. Ele aposta no refinamento dos critérios do eleitorado mais do que no pessimismo. “O jovem se preocupa com a cidade dele, sabe que ela depende dos legisladores”. A pesquisa também revelou que, para 44% dos jovens, o que mais influencia na hora da escolha é o debate entre os candidatos, seguido da imprensa (18,5%), horário político (14%) e pesquisas de intenção de voto (13%). A boca-de-urna fica por último (4%). Alexandre Carvalho Lima, 19, pensou seu voto com base no que chamou “integridade política”, mais do que nos compromissos de campanha. “As promessas são sempre repetidas. Hoje, se subverteu a vontade real de go-

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um circo, não democracia”.

5,4%

dos jovens eleitores, apenas, se pautam pela experiência do candidato.

39%

acreditam na melhoria do nível político com o voto facultativo. Fonte ❚ CIEE-ES

vernar, virou uma fonte de poder”. Para burlar isso, o estudante de letras buscou dados sobre os eleitoráveis na TV e na internet. “Li e vi muita coisa antes de decidir”. Para o cientista político e conselheiro da ONG Voto Consciente Humberto Dantas, os resultados são sinais de um panorama mais dasanimador que promissor. “É triste que a sociedade enxergue honestidade como diferencial. Num País com impunidade, isso vira nobreza”. A predileção pelos debates de TV também não seria um bom sinal, já que não há debates para vereadores nem em cidades pequenas. Outro fator é a transformação desse espaço em arena de acusações, aponta. “Os candidatos dizem o que querem, é

CRITÉRIOS – A acessibilidade da TV é o grande diferencial para sua popularidade entre os eleitores, defende a aluna de ciências sociais Ludimila Abreu, 18. “Ver os debates nos faz conhecer o candidato além das falas decoradas no horário político e da ajuda dos assessores”, contrapõe. Segundo Jorge Hilton, 28, do núcleo baiano da Rede Sou de Atitude, as campanhas anticorrupção também são um dos aspectos mais fortes da ação juvenil. A organização faz monitoramento de políticas públicas e mobilização social. “Dentro dos diferentes perfis de juventude que lidamos, esse é um assunto protagonista”. Mesmo com a abundância de propaganda em mídias variadas e no corpo-a-corpo, na última hora ainda há quem permaneça indeciso. A estudante de nutrição Maria Clara Rios, 21, não conseguiu decidir quem seria digno de representá-la durante o período de campanha. “Não me identifiquei pessoalmente, não vi ninguém que me fisgasse”. Ela admite, sem timidez, que esse ano o voto vai nascer na urna eletrônica. “Acho que, na hora, eu vou sentir o que realmente quero”, garante. VOTO VÁLIDO – Enquanto alguns confiam na inspiração de última hora, outros, há muito, preferiram exercer a prerrogativa de não votar. É o caso de Fabrício Moreira, 25, estudante do mestrado de ciências sociais e membro do Comitê Voto Nulo Salvador. “A eleição é colocada como mudança, mas é feita por quem já está no poder. Anular é um recado bem claro de que não queremos ser enrolados”.

Cyberdemocracia e transparência A internet e o ativismo político na rede também mostram sua força quando o assunto é consciência política. Segundo o pesquisador sobre democracia e internet Sivaldo Pereira, as informações online têm um impacto mais forte nos usuários dessa faixa etária. No que diz respeito a ser uma ferramenta democrática, suas contribuições são valiosas. “A internet cria mecanismos que podem melhorar o sistema. O Estado oferece hoje mais mecanismos de visibilidade, mais transparência, o que ajuda ao eleitor”. Para Artur Cavalcante, 22, aluno do terceiro semestre de biologia, tornou-se hábito visitar endereços como o Centro de Mídia Independente (www.midiaindependente.org) e o Transparência Brasil (www.transparencia.org. br) . “São lugares de informação

“A internet é essencial para uma sociedade que se pretenda moderna. E isso inclui a política e a democracia” Cláudio Abramo, diretor da Transparência Brasil ❚

confiável, desvinculada de interesses. O Transparência acompanha as ações de vereador por vereador. Formulei meu voto a partir de lá”. Artur se refere ao Projeto Excelências, que elaborou um relatório sobre as casas parlamentares do Brasil. Sobre a Câmara de Vereadores de Salvador, o quesito prestação de contas anda a desejar, segundo Cláudio Weber Abramo, diretor-executivo da ONG Transparência Brasil. “O site municipal é uma tragédia como instrumento democrático. É rudimentar, você não sabe o que está tramitando lá dentro”. Para ele, a internet está destinada a influenciar não apenas o eleitorado jovem, mas toda a política. “Ela é essencial para uma sociedade que se pretenda moderna, e isso inclui democracia”.

O VALOR DO VOTO

ARTIGO ❚

SE DEIXASSE DE SER OBRIGATÓRIO, VOCÊ CONTINUARIA A VOTAR? SIM, TENHO CONSCIÊNCIA DO VALOR DO VOTO

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22

Juventude e política pensadas assim, no plural GILBERTO DE PALMA

SIM, SOU CIDADÃO

4 NÃO, NÃO ACREDITO NO VALOR DO VOTO

1NÃO, ODEIO VOTAR 23 SIM, QUERO COLABORAR NO PROCESSO DEMOCRÁTICO DO PAÍS

VOCÊ ACOMPANHA AS ATIVIDADES DO SEU CANDIDATO?

63,5 SIM

36,5 NÃO

48 28,5 o %avaliam caráter na escolha dos candidatos

%

acham que as propostas dos candidatos são o que pesa mais na decisão

acham importante que o político tenha passado limpo

44

15

%

que % acham debate na TV é decisivo para o voto

FONTE Centro de Integração Empresa-Escola do Espírito Santo (CIEE-ES)

Por conta de complexa diversidade social, cultural e temporal, faz pouco sentido falar em juventude no singular, mas algum sentido, quando plural. Todas as juventudes, entretanto, antigas e contemporâneas guardam, via de regra, uma característica comum: reservas à classe política. O perigo de reservas aos políticos, no sentido de distanciamento ou des-reconhecimento, ser extensivo às instituições políticas, o que seria um desastre, depende de fatores como acesso à informação, escolaridade, inserção econômica e educação para a cidadania. Todos, de alguma maneira, qualificam uma sociedade em seu respectivo grau de democracia. Temos aí perversa lógica: quanto mais reservas e distanciamento, menos democracia. Quanto menos democrática uma sociedade, menos promoção à cidadania e maior a distância de suas juventudes da decisão. Eis um cenário conhecido: política como território demarcado, normativo, profissional e engravatado. Como sair desse círculo de enfado? Em que pesem o esforço e o patetismo de candidatos e marqueteiros em falar a “linguagem” dos jovens e conjugar imagens de liberdade e rebeldia, é ilusão achar que estes não percebem ou não saibam discernir, a seu modo pouco explícito, legitimidade ou falta dela, nos verdadeiros “comerciais” empreendidos para lhes tomar o voto. Mais que o voto, honrado ou surrupiado, em

fala povo

Você leu o programa de governo do seu candidato? 4 pessoas ouvidas dia 1º de outubro entre as 14h e as 15h30 na Avenida Tancredo Neves ❚

tempos de eleições ou nos intervalos eleitorais, o que importa é o vínculo real que as juventudes constroem com a dimensão política da vida. A inesperada surpresa ou constatação é que as juventudes reconhecem e praticam a política, apenas não acreditam “naquela” engravatada e profissional. Prova disso é a velocidade com que caducam os modelos de debates políticos pela TV. Prova disso é a receptividade das juventudes na apreensão de novas tecnologias de comunicação que eles mesmos produzem. E ainda, a inserção do “cultural” como expressão política para “noticiar” seu desapego, denunciar a injustiça e sugerir as mudanças, que em curso, ainda não podem ser vistas... Contudo, não se pode colocar todas as esperanças em protagonismo jovem e outros clichês, até porque, há jovens bastante ativos conferindo sangue novo à corpos decadentes como partidos e seitas religiosas, e doentios, como o crime e o frenético consumismo. À sociedade civil cabe entender e conviver com a aparente distância das juventudes, pois é no silêncio produtivo que se inventa o amanhã. Guimarães Rosa lembrava: “...quando nada acontece, há um milagre que ninguém vê”. Ou teremos que engolir Nelson Rodrigues quando perguntado que mensagem daria aos jovens: “Envelheçam”, disse o novelista. Gilberto de Palma | Empreendedor social e dirigente do Instituto Ágora em Defesa do Eleitor e da Democracia

FERNANDO AMORIM | AG. A TARDE

“Não. Me informo sobre as propostas através do que leio em revistas e jornais. Assisti também aos debates de TV”

“Não. Gostei do que vi durante o trabalho na prática do meu candidato. Vou dar crédito e mais espaço para seus projetos”

Carolina Costa, 19, universitária ❚

Suelen Reis, 24, advogada ❚

“Não. Não tive acesso nem tempo para procurar. É mais fácil lendo as propostas no jornal impresso” Edmundo Marcos, 19, universitário ❚

“Não. Me informei pela TV, porque é de fácil acesso. Usei também a internet e outras fontes para conhecer as propostas” Elaine Linhares, 19, universitária ❚

Política: voto juvenil  

acreditam na melhoria do nível políticocom o voto facultativo. 36,5 63,5 “Não. Me informei pela TV, porque é de fácil acesso. Usei também a...

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