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CADERNO DEZ!

SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 24/3/2009

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SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 24/3/2009

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CADERNO DEZ!

FERNANDO AMORIM | AG. A TARDE

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HAROLDO ABRANTES | AG. A TARDE

Diário de estudante A aula é chata e você não entende bem porque tem que aprender certos assuntos. A galera do fundão bagunça, bilhetinhos passam pra lá e pra cá, um colega xinga o outro, alguém desrespeita o professor. As cenas conhecidas de qualquer estudante estão no filme Entre os Muros da Escola, em cartaz na cidade. Palma de Ouro em Cannes, o longa-metragem de Laurent Carret mostra os desafios da educação francesa numa escola onde a maioria dos alunos é de imigrantes ou filhos de imigrantes. A base veio do livro homônimo de François Bégaudeau, que no filme interpreta a si mesmo. O Dez! levou quatro estudantes de escolas públicas e particulares do ensino médio para a estreia. No debate, eles mostraram como escolas tão diferentes se aproximam.

Após o debate, o Dez! foi às escolas de Júlia, Venilson, Wallace e Danilo para registrar o cotidiano deles

HAROLDO ABRANTES | AG. A TARDE

Mirela Portugal e Carla Bittencourt | dez@grupoatarde.com.br Da esq. para a dir.: Danilo, Júlia, Wallace e Venilson acharam que o filme extrapola a realidade francesa e dirige-se a escolas de todo o mundo DIVULGAÇÃO

ASSISTA TAMBÉM Zero de Conduta [França, 1933]. Diretor Jean Vigo mostra revolta de alunos de um internato contra professores severos [foto].

Sociedade dos Poetas Mortos [EUA, 1989] Num colégio conservador, professor de literatura mostra aos importância de pensar livremente. Direção: Peter Weir.

POR QUE ASSISTIR? 1 Disciplina Tudo começa com o respeito ao professor, propõe Júlia Leite, 16, aluna do Anchieta. "As pessoas perderam a essência da escola. Lá não é passatempo, mas um lugar que te prepara pro mundo". É uma questão de maturidade, para Danilo Almeida, 16, do Colégio São Lázaro. E isso vem do que é ensinado em casa. “Começa com o hábito de tratar bem os mais velhos, os colegas, o professor". Para Venilson Gonçalves, 19, do Colégio Estadual Almirante Barroso , regras devem ser seguidas e também questionadas e reformuladas, caso não sejam justas.

Pela forma sensível e crítica como o filme trata da educação

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Para descobrir o quanto da sua escola existe em outras

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Para entender que é muito importante questionar o mundo

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Para saber o que os professores pensam dentro e fora da sala

Respeito

Infraestrutura

Boas aulas

“Uma menina não estava a fim de assistir aula e resolveu fazer o professor repetir o assunto dizendo que não estava entendendo. Ele quis saber o que estava errado pois já tinha repetido a explicação várias vezes. ‘Eu pago seu salário, você vai repetir quantas vezes eu quiser’”. A história, contada por Júlia, é sinal de que algo está muito errado. Wallace Barros, 16, do Odorico Tavares contou que na 4ª série, um garoto xingou a professora e levou uma faca para a escola. Para ele, respeito é parceria entre escola e família na educação.

A ressalva de Wallace – “Não tenho nada a reclamar para uma escola pública” – mostra a falta de hábito a ter direitos respeitados. Venilson reclama da biblioteca, ainda não implantada, o que na escola de Danilo funciona bem em parceria com bibliotecas estaduais. Mas é a escola de Júlia, com sala de robótica e informática a que todos apontam como a “escola ideal”. Ela emenda “a minha, de graça”. Infra também é uma equipe com psicólogos além de professores, acha Venilson. ”É importante conhecer a história do aluno“.

“Esse negócio de abra o livro na página tal não dá”, avisa Walace. Aulas dinâmicas são critério entre a vontade de prestar atenção e de baixar a cabeça. ”Tem matérias que sempre dá pra fazer algo diferente, como história, redação“. Venilson conta que o medo de perder a aula de um professor que admira foi decisivo para que ele não mudasse de turno. ”Ele nos leva pro museu, discute músicas, empresta filmes. Ele me ensinou a criticar”. Júlia critica aulas pouco criativas. ”Como a educação virou um comércio, a prioridade é aprovar o aluno".

“Escola não é passatempo diário, é o que define o futuro” Júlia Leite, aluna do Anchieta

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Para pensar sobre as melhores formas de solucionar conflitos

Reconhecimento Por unanimidade: palavras de incentivo demoram mais a sair do que broncas. Entre advertências e suspensões, um “parabéns“ pelo bom desempenho ou comportamento poderia fazer toda a diferença. Não que a atitude do aluno não conte, diz Júlia. ”As coisas boas que você faz não são esquecidas, são levadas, sim em consideração“. O que muda é saber que a melhoria foi notada. ”A punição é muito mais escandalosa que a felicitação“, critica Walace.

Escritores da Liberdade [EUA, 2007]. Baseado numa historia real. Professora novata estimula alunos de uma escola violenta a escrever sobre suas vidas. Direção: Richard LaGravenese.

FERNANDO AMORIM | AG. A TARDE

FERNANDO AMORIM | AG. A TARDE

A escola deve se atualizar sempre Autoridade e hierarquia fazem, sim, parte da rotina da sala de aula. É o que acredita o professor e diretor do Colégio São Lázaro, Luiz Rocha. “Há o que chamo de cultura escolar, com acordos tácitos entre discentes e docentes”. O professor não pode, entretanto transformar a aula em um feudo em nome da disciplina. “O aprendizado é dinâmico”. Se o problema sair da classe e atingir o lado pessoal, o diretor à frente da escola há 22 anos aconselha afastamento do aluno. “Mas cada caso merece ser avaliado individualmente”. Para o diretor do Almirante Barroso, Paulo Péricles, o ensino também é prioridade. Numa escola sem biblioteca e com uma TV por sala de aula, ele aposta nas soluções temporárias. “A biblioteca virá no fim do ano”. ALÉM DA SALA – No Colégio Anchieta, disciplina é exercício de autonomia e liberdade, defende o diretor João Batista de Souza. O que pode parecer

rigidez, ele diz, é lição de responsabilidade. Para o diretor, a questão mais urgente da educação no Brasil “é a formação consciente e comprometida do cidadão”. Carlos França, diretor do Odorico Tavares, acha que a escola deve acompanhar as mudanças da sociedade. Ensinar o aluno a se ver como parte de um grupo pelo qual também é responsável. Nos momentos em que isso não acontece e o aluno falha, cabe à escola adotar medidas sócioeducativas. “Suspender, expulsar, não faz ninguém pensar sobre nada. Que tal colocar o aluno bagunceiro para ajudar na biblioteca, por exemplo? Isso e a presença dos pais funcionam muito melhor”. Carlos França reconhece que muitos problemas são reflexo da desvalorização do ensino, mas defende que basta sair do cotidiano batido para ver bons resultados. “Quando o professor deixa de cuspir giz e dá uma aula criativa, o aluno tem vontade de aprender”.


entre os muros da escola  

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