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SALVADOR TERÇA-FEIRA 10/11/2009

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SALVADOR TERÇA-FEIRA 10/11/2009

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COLE NA PAREDE PORTFÓLIO ONLINE DO ESTÚDIO QUE FAZ PÔSTERS PARA R.E.M, WILCO, SONIC YOUTH, BECK E IRON AND WINE À VENDA www.theheadsofstate.com

POP Fotos Lúcio Távora / Ag. A Tarde

Reprodução

Thiafo Teixeira / Ag. A TARDE

“CARTAZ É BIBLIOTECA, COLEÇÃO E DECORAÇÃO” Rex, designer e baterista do Retrofoguetes, e o sócio David Pádua, na Santo Design

MALEFACTOR HÁ 16 ANOS Para promover o show da banda de metal extremo em 1993, a folha de ofício ganhou um legítimo desenho de metaleiro feito a hidrocor e xerocado. Na mesma noite, tocaram Orgasm Crazy e Obliteration

Serigrafia e arte moderna anunciaram o festival Onde a Cabeça Quer Chegar, em 1994. No mesmo palco, baianos Úteros em Fúria e Nadegueto dividem espaço com os pernambucanos Mundo Livre S.A. e Lacertae

As bandas finadas tocaram juntas no Boa Viagem Point, na Ribeira. Abaixo, cartaz da Guizzzmo, projeto formado pelos músicos Vandex e Apú em 1999, após a saída da Úteros em Fúria

P Em alguns cartazes, mais que informação que chega ao público via imagem, há uma criação artística que também informa. Qual o marco dessa abertura no cartaz baiano? R Veio principalmente com o trabalho de Lenio Braga e de Jacques Kalbourian no final dos anos 60 e começo dos 70. Até então, o cartaz aparecia nos bondes, como se vê nas fotografias de Verger, e era comercial, com vinhetas inexpressivas. Lênio, ilustrador, e Jacques, fotógrafo, inauguraram aqui o cartaz moderno. As peças em sua maioria eram justamente para divulgar expressões artísticas, como teatro e festivais. P E qual o panorama da produção artística de cartaz hoje, com novas ferramentas de design e internet? R Nos anos 90 houve uma retomada do cartaz de arte na Bahia, uma geração que até hoje, como o que a gente vê todo dia, trata esse suporte com cuidado. Há por outro lado a questão da disseminação dos softwares nos computadores pessoais e um espaço grande para o amadorismo, e a pessoa pode fazer arte sem saber ou ignorar o cuidado estético. De qualquer modo, se formos pesar, o cartaz sempre foi um meio acessível.

FESTIVAL E ILUSTRAÇÃO

DOIS SAPOS E MEIO E DEAD BILLIES

RENATO DA SILVEIRA, DESIGNER E ANTROPÓLOGO

DESIGN Pôsteres que anunciam apresentações de artistas alternativos são parte da paisagem urbana e, muitas vezes, viram memória de um estilo ou cena musical

O flerte da música com a tinta e o traço nos cartazes de show MIRELA PORTUGAL

Na Nova York efervescente dos anos 60, Andy Warhol fazia suas telas misturando alta e baixa cultura com publicidade sob a bênção sonora dos ensaios do Velvet Underground, no lendário ateliê Factory. A fábrica de ideias foi apenas um dos episódios em que música e artes plásticas

mostraram ter o mesmo DNA. As duas artes se misturam com frequência, com uma interface ainda mais acessível aos habitantes da cidade: cartazes e pôsteres de bandas fazem arte sem moldura, dando uma dose de barulho à publicidade. O flerte da música com a tinta e o traço se espalha por Salvador e une colecionadores e artistas.

Às vezes, a nobreza é tanta que o pôster vira grife da música, como nas festas de DJ da cidade

Em alguns casos, a soma é tal que os lados se equalizam. Assim é com Edinho Sampaio, guitarrista da Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta e criador das capas e pôsteres dos CDsDesconcerto e Anacrônico, de Pitty, e o homônimo dos Ladrões. “Estar dentro do processo facilita, dá pra ir fundo nas ideias”, diz ele. A arte rocker é também coti-

diano de Rex, baterista dos Retrofoguetes e ex-Dead Billies. O artista gráfico conheceu Edinho na faculdade e criaram a Santo Design. Hoje, a agência tem Rex e o designer David Pádua na ativa e toca o material gráfico dos Retrofoguetes. “É legal, porque hoje a Santo tem a cara dos Retrofoguetes, que é um conceito que já rondava minha cabeça há um tempo”. No portfólio, peças do Cascadura, Zambotronic e do festival Goiânia Noise. Pádua define o cartaz como uma mídia democrática: “É um pedaço de papel colado no caminho, simples”.

Posterize “Pôster de show é um meio incrível, porque usa uma arte para divulgar outra arte”, define o publicitário Ricardo Seola, editor do site Posterize, que indexa car-

tazes do País inteiro. “O trabalho não termina no dia do show. Pôster é memorabília”. Quem olhar o arquivo da ilustradora Silvia Rodrigues verá, no traço delicado e feminino, uma história resumida do circuito alternativo da cidade. Desde seu primeiro pôster, em 2002, para a Brincando de Deus, já assinou peças para a Brinde, Do Amor, Nave, Los Hermanos e Eddie. E já cansou de ver gente levando cartaz para casa: “O legal é que pode se tornar um artigo decorativo, de colecionador”. No verso da folha, bandas e produtores já têm olhos mais cuidados para o suporte. “É como o clipe, que nasceu publicidade e virou espaço de criação audiovisual”, diz o compositor e band leaderRonei Jorge. Às vezes a nobreza é tanta que o pôster vira grife da música, co-

mo nas festas de DJ da cidade – Baile Esquema Novo, Nave e Top Top, por exemplo. “Já é uma coisa esperada, uma atração à parte da festa”, conta a DJ Lola B, residente da Top Top.

Reprodutível Os pôsteres do artista gráfico CDois ficam no Pelourinho, “no guetto ou onde houver espaço para o rap”, conta. Começou a criar para economizar na divulgação de sua banda de hip hop, Outravidda. Aprendeu a usar o Corel Draw e nele manipula as simulações de grafite e elementos urbanos. “A ideia é traduzir na imagem a vibração do som”. O psytrance da Soononmoon e seus pôsteres de elfas sedutoras ou nebulosas cósmicas são outro exemplo de sintonia perfeita entre som e imagem. “Fazemos um material exótico, que

remete à natureza e às raves”, diz o DJ Nazca, coordenador e um dos designers do coletivo. Porém, o barato pode ser a contramão do vocabulário musical, caso de Márcio Carvalho, cabeça por trás dos cartazes da banda de reggae Diamba. “Uso pouco cores africanas, símbolos do reggae. Acho que essa contradição instiga, chama atenção”, opina. Para Marcus Sampaio, designer do coletivo de DJs Pragatecno, o barato está no diálogo entre as artes. “Uma festa de eletrônica, um show de rock ou uma exposição de artes são momentos de celebração da liberdade por excelência e trazem consigo o germe da experimentação”. WWW.ATARDE.COM.BR

Veja galeria de fotos de cartazes

P A arte de rua ainda é vista como uma arte menor? R Cartaz é biblioteca, coleção e decoração, como qualquer outro objeto de valor criativo. Tive cartazes do século XIX em casa durante muito tempo, tão destacado era o valor estético. Há ainda muito forte o aspecto documental, histórico, que serve para acervo de mapotecas. E a depender, ainda vira um museu a céu aberto. Ainda vou em certos lugares e encontro cartazes feitos por mim pregados na parede. P O que faz um bom cartaz? R Ele tem que ser identificável, mesmo olhado de uma certa distância, não pode ser confuso, com informação demais. A melhor opção é uma mensagem mais telegráfica, ou ele acaba afogado na poluição visual da cidade e provoca rejeição. P O pôster é uma mídia underground? R O pôster tem uma amplitude grande, porque é aparentemente simples. Mas seu efeito é tão imediato que não passa despercebido das grandes campanhas, como se percebe facilmente nos cartazes de pontos de ônibus

No alto, detalhes de cartazes do Baile Esquema Novo e Maicols. Acima, pôster da última Nave, realizada sábado

Hidrocor, xerox e anarquia nos anos 80 Os pôsteres sempre fizeram parte da paisagem urbana, com maior ou menor ousadia. Mas nos anos 80 foram estrelas da era do faça-você-mesmo punk e invadiram a cidade num passo a passo compartilhado pelos fanzines: espalhe suas ideias o máximo que puder com papel, tinta e uma máquina de xerox. “Num mundo sem computadores, essa era a principal mídia. Não demorou a ser proibido”, conta o produtor Rogério Brito, colecionador de cartazes baianos dos anos 80 até hoje. Para burlar o decreto de silêncio, pregar um cartaz virava ação de guerrilha, conta o músico e escritor Ricardo Cury. “A gente colava à noite, chamava de

Terreno virtual A ocupação do território ganhou versão virtual, assim como o cartaz, que, além do papel, vai para o Facebook, twitter, orkut, fotolog e flickr da banda. A articulação da música na rede é um sinal da era do conteúdo colaborativo, avalia o especialista em redes sociais Murilo Bastos.

White Stripes / Divulgação

Black Drawing Chalks Estudio / Divulgação

WWW.MYSPACE.COM/DJ_NAZCA

TWITTER.COM/ALLMUSICPOSTERS

Arte na parede das ruas do mundo

Black Drawing Chalks nasceu do design

Galeria online de pôster para música

Criando com o sangue das veias

Não só cartazes ocupam paredes, pisos, tetos e placas das cidades. Outras manifestações se apropriam do espaço urbano e fazem parte da street art – além de grafite, papel e tinta, há os adesivos em vinil e colagens. Para reunir trabalhos de artistas de rua de todas as partes do mundo, o publicitário nova-iorquino Marc Schiller criou o site especializado Wooster Collective (www.woostercollective. com). Entre os links, veja o curta-metragem Paredes que hablan (Paredes que Falam), que traz trabalhos de artistas urbanos de São Paulo, Buenos Aires e Cidade do México.

Foi o design que trouxe à vida a novidade mais aclamada do indie, a banda goiana Black Drawing Chalks. Antes de tocar, os amigos Victor (guitarra e voz), Douglas (bateria) e Marco Bauer (ex-guitarrista) se reuniram para brincar com material gráfico e identidade visual na faculdade de Design. A banda ainda faz seu próprio material gráfico, além de trabalhos extras, como cartazes para o Matanza e para o festival Abril Pró Rock. É deles também o conceito psicodélico do clipe do single My Favorite Way. Veja trabalhos em flickr.com/photos/bicicleta semfreio

A ideia de criar o Posterize [www.posterize.com.br] veio para que o trabalho de quem faz cartazes não tenha prazo de validade, conta o publicitário e editor Ricardo Seola. O site de pôsteres de música é a biblioteca oficial de peças para shows e bandas nacionais, e uma janela para o trabalho de designers de todo o País. Muitos criadores e agências da Bahia estão lá, como Silvis e a Santo Design, e os pôsteres são organizados por autor, cidade e banda. Em 2010, o site e seu acervo vão para um livro, ainda em negociação com a editora. Mande um trabalho seu em “Enviar pôster.”

Em 2007, os meninos da banda Fall Out Boy fizeram do seu pôster um souvenir macabro: em cada cidade norte-americana que recebeu turnê do quarteto, foi feito um sorteio cujo prêmio foi um pôster pintado com o sangue de todos os integrantes. A grande ideia, disse o baixista Pete Wentz, foi motivar a doação de sangue entre os fãs. Wentz também afirmou que o grupo se inspirou no Kiss, quando, em 1977, o baixista Gene Simmons e o guitarrista Paul Stanley tiveram o próprio sangue colhido e misturado à tinta que coloriu os quadrinhos do Kiss, lançados pela Marvel.

Cartaz do festival Abril Pró Rock, feito por integrantes da banda

big-hand, porque a ferramenta de colagem era a mão mesmo. Outros eram os releases, ficavam nas lojas de disco e eram um perfil da banda, com as influências do som”. A equipe de artistas gráficos dos grupos atendia pelo nome de fã-clube. “A gente fazia junto, desenhava com hidrocor”, lembra.

Coleção de cartazes de música vira livro

“#pinkfloyd #music #poster - Pôster do Pink Floyd do The Wall em Berlim: http://url4.eu/eTEj” #bobmarley #rasta #poster - Pôster retrato de Bob Marley do single One Love : http://url4.eu/dvJ4” Funciona como nos tweets traduzidos acima: pôsteres de vários estilos musicais são lincados em média resolução e com tags para ajudar na busca

Cores do grupo White Stripes

A combinação do vermelho com preto, típico dos trabalhos gráficos da banda de rock americana White Stripes, também estampa os cartazes dos shows do duo formado por Jack White e Meg White

O site www.gigposters.com, criado em 2001, foi a primeira e é a mais completa ferramenta de pesquisa sobre a arte do pôster das bandas de rock. Qualquer criador pode postar seus contatos e trabalhos desde que tenha sido criado para um Gig (show de uma banda). Hoje o site conta com mais de 90 mil pôsteres de mais de 7 mil diferentes designers. O sucesso foi tanto que a editora Quirk Books lançou o livro Gig posters volume I, que conta com os 700 principais pôsteres presentes no site, de bandas como Radiohead, Wilco, The Shins e Arcade Fire. No Amazon, custa US$ 26,40.

O DJ Nazca é da formação original da Soononmoon Organismo Subliminar, coletivo hipermídia pioneiro em cultura eletrônica no Norte-Nordeste do Brasil. É um dos designers da identidade visual do grupo em cartazes e flyers, como abaixo

cartazes e musica 2  

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