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CADERNO DEZ!

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SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 15/1/2008

SALVADOR, TERÇA-FEIRA, 15/1/2008

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CAPA ❚ Em Cajazeiras, são 600 mil habitantes e nenhum cinema. Saiba como eles se divertem nas férias

Todo dia é bom de bola

A cidade dentro da cidade mportugal@grupoatarde.com.br

José, Luiz Carlos, Pablo, Cecília e Briand caminham nas margens da barragem do rio Joanes, que vira camping de verão

Verão, brisa e sol na Barragem de Ipitanga Para chegar na Barragem de Ipitanga é preciso descer uma trilha longa e estreita, que parece não acabar mais. Sem aviso, surge de uma curva a represa da Área de Proteção Ambiental Joanes/Ipitanga. O lago é ponto de encontro no verão, e vira uma grande extensão do quintal da vizinhança. ”Vem famílias inteiras, gente de Mussurunga, até de Itapuã desce pra cá“, conta a estudante Cecília Nascimento, 23. Se nadar por lá é perigoso? "A represa é um

pouco funda, mas é só não ir muito longe". Pelo chão, marcas de fogueiras dos acampamentos da noite, pegadas. Luiz Carlos Souza, 22, conta que todo final de semana tem moutain bike numa trilha. JOGANDO A REDE – Sempre que vai pescar na barragem, Frederico Marcos, 23, repete, concentrado, o longo ritual: primeiro, pega camarão com a rede ou jereré, que vira isca para filhotes de tucunaré e vão

parar na ponta do anzol para alimentar peixe grande. "Já tirei daqui traíra, robalo, camarão. Pesco porque me acalma, por diversão mesmo". Frederico já conquistou um discípulo, o vizinho Paulo Wellington, 23, novato no bairro. “Pescava muito em água salgada, mas agora fico mais aqui. A área é tranqüila, nem dá pra inventar história de pescador”, diz Paulo, que se contradiz jurando ter pego um robalo de dois quilos naquelas águas.

Janeiro, sol, dia azul. “Vamos descer pra Ipitanga?”, sugere José Nascimento, 22, aos amigos. Mas não é na praia perto do Flamengo onde eles vão aproveitar o dia. O destino é a “praia” particular dos moradores de Cajazeiras: com água doce, algas e muito mato em volta, a Barragem de Ipitanga é o programa dos finais de semana e dias de férias, para onde José vai desde os dez anos. “A barragem é nosso piscinão, é o que nos salva. Aqui não tem muito lugar pra gente ir, não”. O bairro de Cajazeiras nasceu como um conjunto habitacional, há 24 anos. Das fazendas que foram desapropriadas para o projeto [Jaguaripe de Cima, Fazenda Cajazeiras e Fazenda Boa União] veio o nome do bairro. Não demorou para que os prédios fossem cercados de construções informais. No maior bairro de Salvador vivem mais de 600 mil habitantes [mais gente até do que em Feira de Santana]. São 18.583 casas populares nas 11 Cajazeiras e quatro Fazendas Grandes, que se misturam também com Boca da Mata e Águas Claras. Outros números surpreendem mais: nenhum teatro, cinema, parque, shopping ou biblioteca pública. São 24 km até a Biblioteca dos Barris, a mais próxima. Para um cineminha, são 9 km até o Cine Ponto Alto, em São Rafael. "Morador daqui só tem duas opções: igreja ou bar", diz Pablo Santos, 23, que escolheu a cerveja com os amigos. SANTO DE CASA – Uma vez por semana, Pablo sai do seu apartamento no Bloco 111, Remanescente A, Fazenda

Grande 2, e se dirige a uma casa na Segunda Etapa C, Via Local J, número 3. Entre siglas, quadras, números e setores, ele chega na reunião da comissão de juventude de uma das associações do bairro. A discussão do dia é o planejamento de um festival cultural. Pablo e seus vizinhos têm que se virar para arrumar diversão sem ir muito longe. Ele mora no bairro há 18 anos, e viu o surgimento de festivais como o Cajazeiras Metal Fest, reduto dos roqueiros, e o Tsunami Fest, que reúne os fãs das batidas eletrônicas. "No fim, é a gente daqui mesmo quem faz o palco para que as bandas, grupos de teatro e capoeira possam se apresentar". Quando não tem evento na programação, a saída é jogar fliperama ou acessar o orkut numa das onipresentes lan houses. "Nosso único espaço cultural é uma arena geralmente vazia", resume Kilson Santana de Melo, coordenador da ONG Cajaverde. Ele se refere à Rótula da Feirinha, marco de Cajazeiras 10 e palco da maioria dos festivais, além de centro comercial. Para José Miguel dos Santos, diretor da Administração Regional de Cajazeiras [extensão da prefeitura], a falta de infra-estrutura do bairro é herança das administrações passadas. ”Foram 20 anos de negligência“, queixa-se. Quanto aos quase quatro anos que já se vão na atual gestão, ele assegura que até o fim de 2008 o bairro receberá 27 quadras e centros poliesportivos. ”Não fizemos as obras antes porque os recursos foram canalizados em reformas, iluminação, repavimentação. Agora vamos focar no lazer“.

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ONDE FICA

Simões Filho

Lauro de Freitas

Valéria

CAJAZEIRAS

Ribeira

Quadra da igreja abriga o baba do basquete

FOTOS HAROLDO ABRANTES | AG. A TARDE

MIRELA PORTUGAL

CADERNO DEZ!

Sábado, sete da manhã, e Diego Souza, Marcos Vinícius e Edimar Silva estão sentados na calçada em frente à Igreja de Santa Mônica, em Fazenda Grande 1. Cercados por meiões e chuteiras, os jogadores de 17 anos esperam quase duas horas para usar o campo da Associação de Moradores da Quadra C. "Como são poucos, os campinhos têm horários fixos, para todo mundo poder usar“, conta Diego. Seu colega de time, Edimar, também acha que vale a paciência. "É o que dá pra fazer despreocupado. Tem lugar na comunidade que a gente nem pode ir. Não dá pra meter uma prata, um celular, uma roupa bonita, que já levam". Na 13ª delegacia de Cajazeiras já foram registrados 50 roubos em 2008. Em 2007, foram 786. ”Mas o que preocupa mesmo são os homicídios, quase sempre ligados ao tráfico de drogas“, diz a delegada titular, Neusa dos Santos. Cada associação do bairro mantém suas quadras, na maioria das vezes sem ajuda da prefeitura. "Há campinhos que não possuem nem alambrado nem iluminação", conta o professor Ari Oliveira, que tem uma escolinha onde dá aulas gratuitas de futebol. Além do baba, sábado também é dia de basquete. A única quadra disponível foi cedida pela Igreja de Santa Mônica, em Cajazeiras 2. Uso liberado desde que os moradores entrem com pintura, reforma e material. Vinícius Barbosa, 14, explica como funciona o esquema. "Uma vez por ano temos o torneio do bairro, com times fixos. Mas nos outros dias a gente joga tudo misturado, em grupos pequenos, só mesmo pra bater bola e brincar. É o nosso baba", diz, pouco antes de entrar na quadra e quase dar um nó nos amigos com a bola na mão.

Pernambués Nova Brasília

Baía de Todos os Santos

Itapuã SALVADOR

Boca do Rio

Barra Amaralina

De virote O amigos sentados na praça de Fazenda Grande 2 compartilham as roupas pretas, acessórios de metal, cigarros, uma garrafa de vinho e o amor pelo Iron Maiden. Enquanto toca Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones num rádio do outro lado da praça – versão Engenheiros do Havaí – Sérgio Filho, o Rato, 25, explica a tradição dos encontros noturnos nas pracinhas do bairro. ”Tínhamos um centro poliesportivo até 2003, onde a galera rockeira ficava, mas fechou“. Cada um ocupa seu território sem rixas. Vem o povo do pagode, do rock, do reggae, do hip hop. Integrante da banda de gothic metal Natimorto, Alexsandro Ribeiro, 24, lembra que já teve problemas para tocar em Fazenda Grande. ”Durante um tempo, criamos o Clube do Rock de Cajazeiras, que produzia os shows. Paramos por falta de espaço.

Mas nossa maior platéia sempre foi da galera daqui“. Na praça da Fazenda Grande 3, a trilha sonora é o barulho das rodinhas de skate no concreto da pista, inaugurada em dezembro – única em todo o bairro. A novidade reúne todas as noites uma platéia de todas as idades, olhos fixos nas manobras. SOM NA MALA – Quando a programação da noite é ir aos barzinhos, cada dia tem a atração mais badalada. Sexta-feira o destino é a Peixaria, casa de show com um mini-palco e um galpão onde a platéia se aperta para dançar partido alto por R$ 2. Sábado é a vez da galeria de bares Albatroz, cuja maior atração fica com a disputa de som dos carros e as meninas suingando até o chão - trilha sonora é basicamente forró e pagode. Domingo é dia de passe livre, com reggae, pagode e seresta. Sem hora para voltar. ABMAEL SILVA | AG. A TARDE

Metaleiros demarcam sua mesa na pracinha da Fazenda Grande 2


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