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apresentação

O projeto As Linguagens Itinerantes da Fotografia é um ciclo de seminários internacionais que congrega pesquisadores da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos, cujas edições anteriores foram realizadas em Princeton (EUA) e Barcelona (Espanha). Prioriza investigações desenvolvidas a partir dos arquivos fotográficos latino-americanos e hispânicos, que têm sido tradicionalmente negligenciados nas versões dominantes da história da fotografia, e envolve pesquisadores do campo da comunicação, dos estudos de mídia, dos estudos literários e culturais, da história e da antropologia visuais. Responde ainda à crescente tendência nos estudos visuais de voltarem-se para histórias alternativas da fotografia. Embora as fotografias venham sendo apropriadas e intercambiadas, em diferentes contextos nacionais e internacionais, desde a segunda metade do século XIX, estes movimentos agora ocorrem em uma velocidade sem precedentes, graças especialmente às novas tecnologias. A intensidade e extensão desta propagação de imagens constituem uma das assinaturas da modernidade. No âmbito deste projeto, buscamos observar os modos pelos quais as fotografias, na sua itinerância, atravessam períodos históricos, fronteiras nacionais e diferentes mídias. A fotografia, como prática e como arquivo em permanente expansão, resiste a fixar-se em um simples local. À medida que viaja pelo mundo, redefine-se constantemente. Neste seminário, estaremos nos perguntado: como circulam as imagens para além das fronteiras culturais, sociais, étnicas e nacionais? Como a fotografia dialoga com outras mídias, como o cinema, a literatura, o teatro e arte? Como se relacionam fotografia e arquivo,no que toca à memória,à história,à justiça e à poética fotográficas?


presentation

The project “The Itinerant Languages of Photography� is an international seminar bringing together scholars from Latin America, Europe and the United States, which has previously taken place in Princeton (USA) and Barcelona (Spain). Priority is given to research projects drawing on Latin American and Hispanic photographic archives, which have been traditionally neglected in the dominant versions of the History of Photography. Researchers from various fields will be involved, such as Communication, Media Studies, Literature and Cultural Studies, History and Visual Anthropology. Furthermore, the project responds to the growing trend in the Visual Studies field towards alternative histories of photography. Although photographs have been appropriated and exchanged, in different national and international contexts, since the second half of the nineteenth century, such movements occur now at an unprecedented pace, mainly due to the new technologies. The intensity and extension of this dissemination of images constitute one of the signatures of modernity. In this project, we seek to observe and address the way photography, in its itinerancy, traverses historical periods, national borders and different media. Photography, as both a practice and an archive in permanent expansion, resists local fixation. As it travels around the world, it constantly redefines itself. During this seminar, we shall ask: how do images circulate beyond their cultural, social, ethnical and national boundaries? How does photography dialogue with other media, such as cinema, literature, theatre and art? How do photography and archive relate to one another, in regard to photographic memory, history, justice and poetics?


programação

26/10 campus ufrj praia vermelha Palestra de abertura – Sessão I Opening – Session I 15h às 17h Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) Helouise Costa Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo Imagens itinerantes: as múltiplas dimensões das viagens estereoscópicas ao redor do mundo Itinerant Images: the multiple dimensions of the stereoscopic voyage around the world Eduardo Cadava Língua Inglêsa, Literatura Comparada, Mídia e Modernidade /English and Media and Modernity Princeton, USA, Princeton University A photographopolis de Nadar Nadar’s Photographopolis


27/10 campus ufrj praia vermelha Sessão II Session II 09h às 10:45h Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) Ana Maria Mauad História / History, Universidade Federal Fluminense Itinerários da memória – práticas fotográficas e trajetórias profissionais Memory Journeys. Photographic Practices and Professional Trajectories Sérgio Burgi Curador / Photography Curator, Instituto Moreira Salles Olhar estrangeiro sobre o Brasil no acervo Instituto Moreira Salles Gazing at Brazil through the IMS’s Photographic Archive

[coffee-break]


Sessão III Session III 11:15h às 13h Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) Maria Gough História da Arte / Art History, Harvard University, USA Photo Plus Photo Plus Valeria Gonzalez Arte e Fotografia / Art and Photography, Universidade de Buenos Aires e Di Tella, Argentina Arqueologias do arquivo na fotografia contemporânea argentina: cinco casos. Archaeologies of the Archive in Argentine Contemporary Photography: Five Cases

[almoço/lunch]


Sessão IV Session IV 14:30h às 17h

Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH)

Consuelo Lins Audiovisual / Film Studies, Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro O documentário ensaístico contemporâneo e a apropriação de imagens de arquivo The Contemporary Documentary-Essays and the Appropriation of the Archival Image Gabriela Nouzeilles Estudos Espanhóis, Portugueses e Latino Americanos/ Spanish, Portugues and Latin American Studies, Princeton University A Extirpação da Fotografia Parte II The Tearing of Photography. Take II Tom Cohen Língua Inglesa e Estudos de Cinema/ English and Film Studies, University of Albany A viscosidade da imagem: homem, petróleo e a fotografia itinerante na era da mudança climática. Parte II The Viscosity of the Image: Man, Oil, and the Itinerant Photograph in an era of Climate Change. Part II


28/10 instituto moreira salles Sessão V Session V 10h às 12:45h Auditório de Cinema Itinerâncias da imagem na arte contemporânea brasileira Mesa redonda com as artistas Rosângela Rennó e Leila Danziger (Instituto de Artes/UERJ) e o professor, crítico e ensaísta Márcio Seligmann-Silva (Literatura/UNICAMP) Itinerancies of the Image in Brazilian Contemporary Art: Roundtable with the participation of Brazilian visual artists Rosângela Rennó and Leila Danziger – Instituto de Artes/UERJ, and teacher, art critic and writer Márcio SeligmannSilva – Literatura/UNICAMP

[almoço/lunch]


Sessão VI apenas para convidados

sem tradução simultânea

Session VI

for guests only no simultaneous translation

15h às 17h Sala de Aula (IMS) Pamela Lee História da Arte, Stanford, USA Art History, Stanford University Circulation Figures: o Laocoonte de Anthony McCall Circulation Figures: Anthony McCall’s Laocoön Tom Levin Língua Alemã e Mídia e Modernidade/ German and Media and Modernity, Princeton, USA/ IKKM, Bauhaus University,Weimar Datamoshing: A Caminho de uma Sintaxe Pós-foto-gramatical de Filme Datamoshing: Towards a post-photo-grammatic film syntax


Sessão VII Session VII 19h às 20:30h

Joel Smith Mauricio Lissovsky Eduardo Cadava Gabriela Nouzeilles Sérgio Burgi

Roundtable with:

Mesa redonda com:

Auditório de Cinema (IMS)

Joel Smith Mauricio Lissovsky Eduardo Cadava Gabriela Nouzeilles Sérgio Burgi


perfil/profiles Ana Maria Mauad (UFF, Brasil) Doutora em História Social (UFF), coordenadora e professora de teoria e metodologia da Graduação em História da UFF e também professora da Pós-Graduação em História da mesma Universidade, onde também é pesquisadora do Laboratório de História Oral e Imagem. Autora do livro “Poses e Flagrantes: ensaios sobre História e fotografias”. PhD in Social History (UFF), coordinator and professor of theory and methodology of Undergraduate History of UFF and professor of the Graduate Program in History at the same university, where she is also a researcher at the Laboratory of Oral History and Imaging. Author of the book Poses and act: essays on history and photos. Consuelo Lins (ECO-UFRJ, Brasil) Doutora em Cinema e Audiovisual (Sorbonne Nouvelle), cineasta e pesquisadora da área de Comunicação, com ênfase na produção audiovisual contemporânea. Autora de O documentário de Eduardo Coutinho e Filmar o real, sobre o documentário brasileiro contemporâneo. PhD in Cinema and Audiovisual (Sorbonne Nouvelle), filmmaker and researcher, working in the field of Communication, with emphasis on the contemporary audiovisual production. She is the author of Eduardo Coutinho’s documentary and Filming reality on the contemporary Brazilian documentary. Sergio Burgi (Instituto Moreira Salles, Brasil) Mestre em Conservação Fotográfica da School of Photographic Arts and Sciences, do Rochester Institute of Technology (EUA), membro do Grupo de Preservação Fotográfica do Comitê de Conservação do Conselho Internacional de Museus (ICOM) e coordenador da área de fotografia do Instituto Moreira Salles. Master in Conservation Photography at the School of Photographic Arts and Sciences, in Rochester Institute of Technology (USA), member of the Photographic Preservation Committee Conservation International Council of Museums (ICOM) and coordinator of the photograph of the Instituto Moreira Salles.


Eduardo Cadava (Universidade de Princeton, EUA) Doutor em Inglês e Literatura Comparada pela Universidade da Califónia (Irvine), professor de Estudos Culturais Europeus e pesquisador nas áreas de cultura e literatura norte-americanas, literatura comparada, mídia e tecnologia e teoria da tradução. Autor de Words of light: theses on the photography of history. PhD in English and Comparative Literature from the University of California (Irvine), professor of European Cultural Studies and a researcher in the areas of North-American Culture and Literature, Comparative Literature, Media and Technology and Theory of Translation. He is author of Words of light: theses on the photography of history. Gabriela Nouzeilles (Universidade de Princeton, EUA) Doutora em Línguas Romanas e Literatura (Universidade de Michigan), professora de Estudos Latino-Americanos e diretora do Departamento de Espanhol e Português, Especialista em cultura e literatura latino-americanas modernas, teoria crítica, literatura de viagem e mídia e modernidade,. Autora de Naturalism, nationalism, and medical politics of the body. PhD in Roman Languages and Literatures (University of Michigan),professor of LatinAmerican Studies and director of the Department of Spanish and Portuguese,she is an expert on modern Latin American culture and literature, critical theory, travel literature and media and modernity. She published Naturalism, nationalism and medical politics of the body. Helouise Costa (USP, Brasil) Graduação em Arquitetura (UFRJ, 1993), mestrado em Artes (ECA-USP, 1994) e doutorado em Arquitetura (USP, 1999). Livre-docente em “História, Teoria e Crítica de Arte em Museus” (USP), com tese sobre o processo de legitimação da fotografia pelo museu de arte. Docente e curadora do MAC USP e professora orientadora do PPG Interunidades em Estética e História da Arte (USP). É coordenadora da divisão de pesquisa em Arte, Teoria e Crítica do Museu. Co-autora do livro A fotografia moderna no Brasil e autora do livro Waldemar Cordeiro: a ruptura como metáfora. PhD in Architecture (USP), professor and curator of the MAC-USP and coordinator of the Division of Research in Art, Theory and Criticism of the Museum. Her concerns are focused on modern and contemporary photography, photojournalism, art theory and criticism, museology, history of architecture exhibitions and museums. She is the author, along with Renato Rodrigues, of The modern photography in Brazil.


Leila Danziger (UERJ, Brasil) Doutora em História Social da Cultura (PUC/Rio), artista e professora do Instituto de Artes da UERJ, onde é chefe do Departamento de Teoria e História da Arte. Atua sobre os temas: arte, história, memória e esquecimento; imagem e escritura; arte e mídia. Desenvolve hoje a pesquisa “Navios de imigrantes: ensaios visuais sobre a memória dos refugiados do nazi-facismo no Brasil”. PhD in Social History of Culture (PUC-Rio), artist and professor at the Art Institute of UERJ, where she is head of the Department of Theory and History of Art. She works on the themes: art, history, memory and oblivion, image and writing; art and media. She is currently developing the research “Ships of Immigrants: essays on the visual memory of refugees from Nazi-fascism in Brazil.” Márcio Seligmann-Silva (Universidade Estadual de Campinas, Brasil) Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada (Freie Universität Berlin), professor de Teoria Literária e pesquisador dos temas: romantismo alemão, teoria da tradução, testemunho, literatura e outras artes, teoria estrutura da estética do século XVIII ao XX e a obra de Walter Benjamin. Autor de Para uma crítica da compaixão. Ph.D. in Comparative Literature and Literary Theory (Freie Universität Berlin), professor of Literary Theory and researcher working on the themes: German Romanticism, translation theory, testimony, literature and other arts, aesthetic theory of the structure of the eighteenth to the twentieth century and the work of Walter Benjamin. Author of Para uma crítica da compaixão. Maria Gough (Universidade de Harvard, EUA) Doutora em História da Arte e da Arquitetura (Harvard), professora de arte moderna e especialista nas vanguardas russas e soviéticas de 1900 a 1945. Autora da obra The artist as producer: russian constructivism in revolution. Ph.D. in History of Art and Architecture (Harvard), professor of modern art and an expert on Russian and Soviet avant-garde from 1900 to 1945. She is the author of The Artist as Producer: Russian Constructivism in Revolution.


Pamela Lee (Universidade de Stanford, EUA) Doutora em Arte (Harvard), professora do Departamento de Arte e História da Arte e pesquisadora interessada na teoria e crítica do modernismo tardio, particularmente as décadas de 1960 e 1970. Autora de The Work of Gordon Matta-Clark, sua pesquisa atual chama-se “Forgetting the Artworld: globalization and contemporary art”. PhD in Art (Harvard), professor of the Department of Art and Art History and a researcher interested in theory and criticism of late modernism, particularly the 1960 and 1970. She is the author of The Work of Gordon Matta-Clark. Her current research is called “Forgetting the Artworld: globalization and contemporary art.” Rosângela Rennó (Brasil) Doutora em Artes (ECA-USP) e artista visual detentora de diversos prêmios nacionais e internacionais. Realizou exposições individuais no Brasil e no exterior, além de possuir obras em coleções nacionais e internacionais, como o Art Institute of Chicago, a Tate Modern, o Centro de Arte Contemporênea Inhotim CACI e o Guggenheim Museum de Nova Iorque. PhD in Arts (ECA-USP) and visual artist. As an artist, she has received several national and international awards, with solo exhibitions in Brazil and abroad. Her work figures in several collections, such as the Art Institute of Chicago, the Tate Modern, the Contemporary Art Center Inhotim CACI and the Guggenheim Museum in New York. Thomas Levin (Universidade de Princeton, EUA) Doutor em Filosofia e História da Arte (Yale), professor do Departamento de Alemão e editor do jornal acadêmico The Musical Quarterly. Desenvolve trabalho artístico no campo da mídia sonora e seus principais campos de pesquisa são teoria cultural e da mídia e teoria estética. Editou o livro CTRL [Space]. Rhetorics of Surveillance from Bentham too Big Brother. PhD in Philosophy and Art History (Yale), professor Department of German and editor of the scholarly journalThe Musical Quarterly. He develops artistic work in the field of media noise and his main fields of research are cultural theory, media theory and aesthetics. He edited the book CTRL [Space]. Rhetorics of Surveillance from Bentham to Big Brother.


Tom Cohen (Universidade de Albany, EUA) Doutor em Literatura Comparada (Yale) e professor de Estudo de Cultura, Literatura e Mídia. Seus trabalhos abrangem: teoria literária, cultura política, estudos de cinema, pensamento digital,biopolítica e,mais recentemente,as mudanças no pensamento do século XXI na era da mudança climática.Autor do livro Anti-Mimesis – from Plato to Hitchcock. PhD in Comparative Literature (Yale) and Professor for the Study of Culture, Literature and Media. His works comprehend the fields of: literary theory, political culture, film studies, digital thinking, biopolitics and, more recently, changes in the XXI century thinking in the era of climate change. He is the author of Anti-Mimesis – from Plato to Hitchcock. Valeria Gonzalez (Universidade de Buenos Aires, Argentina) Licenciada em História da Arte (UBA), professora de arte contemporânea e pesquisadora da fotografia. É membro integrante da Associación Argentina de Críticos de Arte e autora da obra El pez, la bicicleta y la maquina de escribir. Degree in Art History (UBA), an art teacher and researcher of contemporary photography. She is member of the Argentinian Art Critics Association and author of the work El pez, la bicicleta y la maquina de escribir. Joel Smith (Universidade de Princeton, EUA) Doutor em História da Arte (Princeton) e curador de Fotografia do Museu da Universidade. Organizou exposições sobre a linguagem da arte no século XX e o humor na fotografia. Atualmente pesquisa a história das fotografias sobre nada para uma exposição a se realizar em 2014. Suas publicações incluem Edward Steichen: the early years e Steinberg at The New Yorker. PhD in History of Art (Princeton) and photography curator for the university’s museum. He organized exhibitions on the language of art in the twentieth century, in photography and humor. He is currently researching the history of the photography on nothing, for an exhibition to be held in 2014. His publications include Edward Steichen: the early years e Steinberg at The New Yorker.


resumos/abstracts Imagens itinerantes: as múltiplas dimensões das viagens estereoscópicas ao redor do mundo Itinerant images: the multiple dimensions of stereoscopic travels around the world

Helouise Costa

Esta comunicação irá tratar da produção de vistas estereoscópicas pelas grandes empresas norte-americanas Underwood & Underwood e Keystone, entre as décadas de 1890 e 1930.Trata-se de um momento marcado pela produção em massa de vistas para distribuição mundial. Serão analisadas algumas das séries de viagens estereoscópicas como parte integrante de um sofisticado sistema de seriação, classificação e distribuição de imagens, visando diferentes públicos. Hoje a rede mundial de computadores disponibiliza uma enorme quantidade de vistas desse período, colocando novamente em circulação essas imagens num processo de incessantes ressignificações. This paper deals with the production of stereoscopic views by two large North-American companies, Underwood & Underwood and Keystone, between the 1890s and 1930s. It refers to a moment marked by mass production of views for worldwide distribution. Some series of stereoscopic travels will be analyzed as an integral part of a sophisticated system of serialization, classification, and distribution of images, aiming at different audiences.Today, through the internet, great quantities of views from this period are made available and put in circulation again in a process of endless re-significations.

A photographopolis de Nadar Nadar’s Photographopolis

Eduardo Cadava

Apresentadas em quatorze vinhetas, as memórias de Nadar chegam a nós como uma série de instantâneos-em-prosa, cada uma nos oferecendo uma alegoria de diferentes aspectos do mundo fotográfico, o que Nadar chama, em uma discussão sobre suas experiências aeronáuticas, de “photographopolis”. A “photographopolis” não apenas se refere a Paris como uma cidade que é inteiramente fotográfica – de acordo com Nadar, ela não é apenas fotografada, mas essencialmente fotográfica em sua natureza-, mas a um mundo que, ao tornar-se uma série de imagens, compõe-se cada vez mais de cópias, repetições, reproduções e simulacros que se proliferam.


O que me interessa a respeito das memórias no nosso contexto não é apenas a itinerância da câmera que se desloca das catacumbas de Paris às fotografias aéreas de Paris em transformação, do estúdio de retratos de Nadar às ruas de Paris, mas também a maneira como as memórias de Nadar se inscrevem, dentro de seu próprio movimento, uma constelação repleta de figuras fotográficas, como se a fotografia tivesse viajado para dentro de sua própria linguagem. De fato, o texto de Nadar dramatiza, dentro do movimento de sua linguagem, o que deseja passar para nós sobre a história da fotografia e sobre a fotografia em geral. É por este motivo que as fotografias aéreas de Nadar (e não somente elas) relembram os traços e especificidade de uma cultura e história particulares, mesmo enquanto marcam inevitavelmente o desaparecimento, a perda e a ruína destas mesmas cultura e história. Suas imagens, portanto, carregam a assinatura de uma ato de luto que é, talvez, mais que um simples testemunho que sobreviveu, uma vez que se mantém apaixonado por uma cidade a qual se pode dizer que morreu diversas vezes, mesmo que ainda esteja vivendo, ainda que, vivendo, em sua própria existência itinerante, ela permaneça assombrada por seu passado e suas mortes. Presented in fourteen vignettes, Nadar’s memoirs comes to us as a series of snapshots-inprose, each of which offers us an allegory of different features of the photographic world, what Nadar calls, in a discussion of his aeronautic experiences, the “photographopolis.” This photographopolis not only refers to Paris as a city that is entirely photographic—according to Nadar, it is not only photographed, but essentially photographic in nature—but to a world that, having become a series of images, is increasingly composed of proliferating copies, repetitions, reproductions, and simulacra. What interests me about the memoirs in our context is not only the itinerancy of a camera that moves from Paris’ catacombs to its aerial photographs of a Paris in transformation, from Nadar’s portrait studio to the streets of Paris, but also the way in which Nadar’s memoirs inscribes within its movement an entire constellation of photographic figures, as if photography has traveled into his language itself. Indeed, Nadar’s text enacts and performs, within the movement of its language, what it wants to convey to us about the history of photography and about photography in general. This is why Nadar’s aerial photographs (and not only these) recall the traces and specificity of a particular culture and history, even as they inevitably mark the disappearance, loss, and ruin of this same culture and history. His images therefore carry the signature of an act of mourning that is perhaps more than simply a surviving testimony, since it remains in love with a city that could be said to have died several times, even if it is still living, even if, in its living, in its own itinerant existence, it remains haunted by its past and its deaths.


Itinerários da memória – práticas fotográficas e trajetórias profissionais Memory’s itineraries – photographic practices and professional trajectories

Ana Maria Mauad

O estudo da trajetória profissional de fotógrafos que atuaram no Brasil desde os anos 1960, integra o projeto “O Olhar Engajado: prática fotográfica e os sentidos da história, Brasil 1960-1990”. Busca-se por meio da metodologia de História Oral, notadamente, a abordagem relativa as histórias de vida, traçar os itinerários da memória por meio dos quais no processo de rememoração se relacionam prática fotográfica e experiência histórica para conceituar o engajamento a uma causa como forma de autoria fotográfica. Destaca-se, para esta apresentação, as noções de mediação, inscrição e de atribuição, como elementos constitutivos de uma autoria engajada. Na perspectiva de plataforma de observação nos debruçamos sobre a trajetória da fotógrafa Claudia Andujar, entrevistada pela equipe do projeto em julho de 2011. The study of the professional trajectory of photographers who started working in Brazil in 1960s is part of the project called “The engaged look: photographic practice and the meanings of history, Brazil 1960-1990”.Through the methodology of Oral History, and in particular the approach concerning life stories, we trace the memory’s itineraries by means of which photographic practice and historical experience are related in the process of remembering in order to conceptualize the commitment to a cause as a form of photographic authorship. For this presentation, we point out the notions of mediation, inscription, and attribution as elements that constitute an engaged authorship. From an observational platform, we analyze the professional journey of photographer Claudia Andujar, who was interviewed by the project team in July 2011.

Olhar estrangeiro sobre o Brasil no acervo Instituto Moreira Salles The foreign view of Brazil in the collection of the Instituto Moreira Salles

Sérgio Burgi

Uma leitura da fotografia brasileira no século XX a partir do acervo do Instituto Moreira Salles e dos fotógrafos estrangeiros que atuaram no Brasil. A review of the Brazilian photography of the 20th Century from the perspective of the collection of the Instituto Moreira Salles and the foreign photographers who worked in Brazil.


Photo Plus

Maria Gough Este artigo considera as contribuições soviéticas iniciais ao desenvolvimento histórico da hibridação fotográfica ao revelar a trajetória do artista avant-garde radicado em Moscou, Gustav Klutsis, a partir de sua abordagem inicial ainda tímida sobre conceitos factográficos da fotografia como documento do início da década de 1920, até sua posterior conceitualização e promoção de dois novos intermeios na década de 1930: a “Foto-gigant”, uma forma de fotografia monumental em escala arquitetural, e o “Easel Poster”, uma espécie de fotomontagem pintada. This paper considers the early Soviet contribution to the historical development of photographic hybridity by unpacking the trajectory of the Moscow-based avant-garde artist Gustav Klutsis, from his initial embrace of yet diffidence about factographic conceptions of the photograph as document in the early 1920s, to his later conceptualization and promotion of two new intermediums in the 1930s: the “Foto-gigant,” a form of monumental photography on an architectural scale, and the “Easel Poster,” a kind of painted photomontage.

Arqueologias do arquivo na fotografia contemporânea argentina: cinco casos Archaeologies of the Archive in Argentine Contemporary Photography: Five Cases

Valeria González

Este artigo estuda cinco projetos de fotógrafos e artistas visuais argentinos. Embora tais projetos sejam baseados nas práticas fotográficas, eles não produzem novas imagens. Ao contrário, a fotografia surge nesses projetos como uma forma de itinerância, entendida como um deslocamento incorporado, uma colaboração intermediária e uma reapropriação de materiais de arquivo, apresentando redefinições radicias da ideia de arte moderna e de autoria. Para esses artistas, a fotografia não é apenas um aparato tecnológico específico. Ela funciona como uma máquina ética e estética que reflete a história revolucionária da fotografia. Esses artistas trabalham com os restos do passado não para preservar tradições ou fixar memórias, mas para despertar suas potencialidades ocultas em relação a dilemas políticos atuais. This paper studies five projects by Argentine photographers and visual artists. Even though such projects are based on photographic practices, they do not produce new images. Rather, photography appears in them as a form of itinerancy, understood as embodied displacement, intermedial collaboration, and reappropriation of archival materials, putting forward radical redefinitions of the idea of modern art and authorship. For these artists, photography is not just a specific technological apparatus. It functions as an ethical and aesthetic machine that echoes photography’s revolutionary history. They work with the remains of the past not in order to preserve traditions or fixed memories but in order to awaken their buried potentialities in relation to the present’s political dilemmas.


O documentário ensaístico contemporâneo e a apropriação de imagens de arquivo The contemporary documentary essay and the appropriation of archive images

Consuelo Lins

A retomada de imagens de arquivos – fotografias e imagens em movimento – é um procedimento cada vez mais recorrente na produção artística contemporânea, das artes visuais aos produtos midiáticos, especialmente no documentário. Nossa proposta é discutir diferentes modos de apropriação de materiais já existentes e seus efeitos estéticos e políticos, partindo do princípio que a imagem de arquivo é sempre algo indecifrável e sem sentido enquanto não for associada a outros elementos – outras imagens e temporalidades, outros textos e depoimentos. Recapturing archive images – photographs and moving images – is an increasingly common modus operandi in contemporary art production, from visual arts to media products, especially in documentaries. Our idea is to discuss different forms of appropriation of existing material and its aesthetics and political effects, considering that the archive image is always indecipherable and meaningless unless it is associated with other elements – other images and temporalities, other texts and testimonies.

A Extirpação da Fotografia. Parte II. The Tearing of Photography:Take II

Gabriela Nouzeilles

A fotografia recorta corpos e objetos, extirpando-os do presente e de seu contexto original, e inserindo-os dentro de circuitos infinitos de transmissão, re-significação e sentimento político. Este artigo traça as pós-vidas de uma fotografia particular de um homem sendo punido de acordo com uma forma chinesa de execução chamada Leng Tch’e, “a morte por milhares de cortes”, em 1905, quando a referida foto ingressa numa série de apropriações e re-escrituras, através de re-articulações intermediárias. Esta genealogia itinerante inicia-se com o fluxo transnacional de cartões-postais da era colonial francesa, prossegue com The Tears of Eros de George Bataille e textos experimentais de Julio Cortázar, Salvador Elizondo e Severo Sarduy, e termina com as traduções anti-coloniais do artista visual taiwanês, Chen Chieh-Jen. Cada articulação aponta para as associações intrínsecas entre fotografia, dispersão de arquivo e a morte violenta da representação. Retiradas de seu contexto original, a imagem de Leng Tch’e representa a lacuna invisível entre o olho partido em lágrimas e o corpo ferido do real. O resultado não é uma representação fotográfica de tortura, mas, sim, o desmoronamento da imagem diante da indiferenciação através da extirpação e do esfolamento.


Photography cuts bodies and things up, tearing them from the present, away from their original context, inserting them into endless circuits of transmission, re- signification, and political affect. This paper traces the afterlives of a particular photograph of a man being punished according to the Chinese form of execution called Leng Tch’e, the “death by a thousand cuts,” in 1905, when it enters a series of appropriations and rewritings, through intermedial re-articulation. This itinerant genealogy opens with the transnational flow of French colonial postcards, continues with Georges Bataille’s The Tears of Eros, and experimental texts by Julio Cortázar, Salvador Elizondo, and Severo Sarduy, and closes with the anti-colonial translations of the Taiwanese visual artist, Chen Chieh-Jen. Each articulation points to the intrinsic links among photography, archival dispersal, and the violent death of representation.Torn off from its original context, the Leng Tch’e picture stages the invisible gap between the split eye in tears and the wounded body of the real.The result is not a photographic representation of torture but rather the collapsing of the image into indifferentiation through tearing and flaying.

A viscosidade da imagem: homem, petróleo e a fotografia itinerante na era da mudança climática, Parte II The Viscosity of the Image: Man, Oil, and the Itinerant Photograph in an era of Climate Change, Part II

Tom Cohen

A era do cinema – ou da itinerância da imagem fotográfica – se sobrepõe à era do petróleo e dos hidrocarbonetos de modo a enquadrar e produzir a visibilidade? Há uma relação entre a representação do petróleo, a viscosidade da imagem e o que chamaremos de era da transformação climática que hoje emerge? Se a fotografia hoje é trazida de volta com um pouco de tristeza, um pouco como Deckard do filme Bladerunner cercado no piano por fotografias exteriores a qualquer alcance de memória, uma questão surge: não como nós mantemos o arquivo da fotografia, mas se continuamos capturados por noções de visibilidade. Se o cinema envolve transporte e máquinas de transporte que precisam de petróleo (e do artifício de “luz” dessas máquinas), existe um relação entre a forma e destino da imagem fotográfica e o que hoje chamamos de era “antropoceno” propriamente dita? Irei ao encontro dessas questões, e de outras, através de dois dossiês que colocarei em diálogo um com o outro: o primeiro seria o dossiê sobre a catástrofe de derramamento de petróleo no Golfo e suas representações nas fotografias disponibilizadas na plataforma web ou que circularam, e o segundo, o que o cinema pensa sobre o petróleo como um buraco negro dentro, e antes, da representação como a habitamos. O último dossiê acompanha, brevemente, como Alfred Hitchcok situa petróleo e fotografia a partir da perspectiva da lógica cinemática.


Does the era of cinema—or the itineracy of the photographic image—overlap with the era of oil and hydrocarbons in a way that frames and fashions visibility? Is there a link between the representation of oil, the viscosity of the image, and what we will call the era of climate change emerging today? If the photograph today is returned to a bit in mourning, a bit like Bladerunner’s Deckard surrounded at the piano by photographs from outside any memory span, a question arises: not how we maintain the archive of photography, but whether we remain captured by notions of visibility. If cinema implies transport, and machines of transport requiring oil (and the latter’s artifice of “light”), is there a relation between the form and destiny of the photographic image and what is today called the “anthropocene” era itself? I will pursue these questions, and others, through two dossiers I will put in dialog with one another: the first would be that of the Gulf oil catastrophe and its representations in web-platformed or circulated photographs, and the second, what cinema thinks about oil as a black hole within, and before, representation as we inhabit it. The latter follows, briefly, how Alfred Hitchcock situates oil and photography from the perspective of cinematic logics.

Circulation Figures: o Laocoonte de Anthony McCall Circulation Figures: Anthony McCall’s Laocoön

Pamela Lee

Este artigo é sobre o trabalho recém-concluído de Anthony McCall, “Circulation Figures”. McCall é conhecido por suas obras “Solid-Light”, projeções fílmicas que reproduzem eficazmente a experiência da câmera obscura com relação à mídia baseada no tempo. O trabalho “Circulation Figures” é uma novidade para McCall em diversos aspectos.Teve início em 1972 como um evento fotográfico e cinematográfico ao vivo que ocorria em um espaço previamente preparado. Em uma sala cheia de imagens de noticiário diário, pedia-se que os fotógrafos fotografassem os cineastas, enquanto os cineastas filmassem os fotógrafos. Em 1972, a intenção do trabalho era uma reflexão a respeito da circulação da mídia e a degradação da esfera pública. Esta obra foi concluída 40 anos mais tarde, com o filme original digitalizado, como uma instalação em um espaço previamente preparado. Eu gostaria de falar sobre estas relações intermediárias, não apenas como uma função da especificidade do meio, mas como uma questão da temporalidade distendida da obra. Daí, recorrer (talvez surpreendentemente) a Lessing, cujo Laocoonte adquire uma nova valência à luz das linguagens itinerantes da fotografia. My paper is about Anthony McCall’s recently completed piece “Circulation Figures.” McCall is best known for his “Solid-Light” pieces, filmic projections which effectively reproduce the experience of the camera obscura relative to time-based media. The work “Circulation Figures” is novel for McCall in several respects. It was begun in 1972 as a live photography and cinematography event in a prepared space. In a room littered with images from the daily news, photographers were asked to photograph the filmmakers, while filmmakers were asked to shoot the photographers.


In 1972, the work was intended as a reflection on the circulation of media and the degradation of the public sphere. It has now been completed 40 years later, with the original film stock digitized, as an installation in a prepared space. I’d like to talk about these intermedial relations not just as a function of medium-specificity, but as a question of the work’s distended temporality. Hence the (perhaps surprising) recourse to Lessing, whose Laocoön acquires a new valence when considered in light of the itinerant languages of photography.

Datamoshing: A Caminho de uma Sintaxe Pós-foto-gramatical de Filme Datamoshing: Towards a post-photo-grammatic film syntax

Thomas Levin Praticamente, todas as imagens com as quais nos deparamos hoje são imagens digitais de vídeo “comprimidas”, uma condição material pós-foto-química com a qual nos confrontamos mais extraordinariamente quando, por exemplo, o retorno do DVD encontra um erro de sampleamento e nós presenciamos um belo e estranho ghosting de uma imagem pela outra, uma pixelização trazida a primeiro plano, que é a condição da possibilidade da aparição “própria” de tal mídia digital (na mesma linha da série de JPEG de Thomas Ruff). O “erro” tecnológico foi recentemente batizado com uma expressão idiomática conhecida como datamoshing ou hacking de algoritmo de compressão vídeo digital. O que está em jogo no vocabulário de tais “erros de compressão” – evidente tanto nos domínios do vídeo avant-garde (por exemplo, no trabalho de Takeshi Murata) como na expressão mais popular do vídeo musical (por exemplo, o “Welcome to heartbreak” de Kanye West) – é uma renderização legível de “diferenciação” daquilo que chamo de “estética produtiva da imagem ausente”. Nada mais é do que uma nova forma de linguagem visual, uma sintaxe de imagem pós-foto-gramática cujos contornos começarei a traçar. Virtually all moving images we encounter today are “compressed” digital video images, a post-photo-chemical material condition we confront most strikingly when, for example, DVD playback encounters a sampling error and we witness the oddly beautiful ghosting of one image by another, a foregrounding of the pixelation which is the conditon of possibility of the “proper” apearance of such digital media (along the lines of Thomas Ruff ’s JPEG series).This technological “error” has recently become appropriated as an expressive idiom known as datamoshing or digital video compression algorithm hacking.What is at stake in the vocabulary of such “compression errors”—evident both in the domains of avant-garde video (for example in the work of Takeshi Murata) and in the more popular idiom of music video (for example Kanye West’s “Welcome to Heartbreak”)—is a rendering readable of “differencing,” of what I call the “preductive aesthetics of the absent image.” It is nothing less than a new visual language, a post-photo-grammatic image syntax whose contours I will begin to sketch.


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