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CRISTOescrito


1. Concepção

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2. Moisés – o chamado

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3. Moisés – a libertação

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4. A mediação da Lei que enaltece

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5. A mediação da Lei que condena

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6. Aarão – o mediador das culpas

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7. O Tabernáculo

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Acabamos de ler nas 7 notas de Gênesis que a prorrogação da entrada do povo da terra prometida tinha 3 objetivos, e que explanaremos agora nestas novas notas em Êxodo. A família inicial se multiplica abençoadamente, vista do ponto divino, e ameaçadoramente pela ótica egípcia. Tornaram-se um grande povo – com seu Deus único – dentro de outro bem comandado e – seus vários deuses. Haviam entrado sob permissão do Faraó de então, como homens livres que eram, e agora não podiam mais sair, passados 4 séculos de lenta subordinação. Homens livres passaram a ser escravos! E não é assim que muitos cristão se têm tornado hoje?! Começam livres, mas as provações da vida, as comodidades, as desculpas, os medos, a falta de fé, de compromisso, de esperança, tudo vai solapando paulatinamente as forças morais e espirituais, ao ponto de não reconhecerem a própria situação em que se encontram. Mas bendito seja Deus! sua inércia será motivo e razão para uma das mais poderosas e marcantes ações de Deus. Ele mesmo, através de um servo escolhido (sempre a incompreendida eleição!), trará este povo tão numeroso para fora, conduzindo-os por território estranho e deserto. E que ensejará novas tratativas e provi3


sões, não mais com um povo escravizado, mas liberto pelo seu Deus e de caminho para casa. Mas a maior das dádivas, bem além da libertação física, é o modelo de um tabernáculo que os aproximaria eternamente do Eterno, com uma ordem sacerdotal inédita que garantisse sua continuada pureza. Não bastava libertar; aprazia a Deus santificar e glorificar pelos instrumentos representados por toda a mobília dos átrios do Senhor. Mas a um santuário celestial contrastava uma Lei dada, não uma, mas duas vezes pelas mãos de Moisés. Poderíamos dizer que a graça os havia libertado do Egito, mas a lei os haverá preso pela rigidez intransigente da justiça. Neste sentido, um novo homem será levantado, Aarão – o pontífice mais elevado, apto não só a oferecer sacrifícios de louvor a Deus, mas reconciliar todo um povo que quebra insistentemente as leis de seu Deus. Estes dois homens guiarão o povo por um tremendo e inóspito deserto, ora apertado pelas justas exigências de Deus, representado por Moisés, ora folgado pelas ternas misericórdias de Deus, em Aarão.

Em nossa próxima nota, traçaremos um perfil sobre o chamado de Moisés, 'o homem mais manso que todos os que havia na terra' (Nm 12.3).

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Moisés, o menino ‘tirado das águas’, significa muito mais que o ato em si mesmo. Simbolicamente, já que será incumbido de ser o mediador da Lei de Deus (Gl 3.19-20), fala de um povo que será tirado das leis limitadas de um mundo que jaz no maligno, e elevado ao padrão moral e espiritual de seu Deus Justo e Santo. Para a figura da água basta a confirmação de Ap 17.15: “As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, e multidões, e nações, e línguas”. Esta figura se entremete em inúmeras porções da Escritura. Israel, tirado das águas, não pertencerá mais ao mundo que adora o ‘Deus desconhecido’ retratado bem mais à frente pelo apóstolo Paulo, mas será “a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (19.5). Moisés, criado ou malcriado no esplendor do Egito, terá de sair desta terra que cultua seu divino rio, para purificar-se em separação longa de 40 anos numa terra distante, Midiã. 5


Mas, no momento exato de sua chamada para libertar seu povo (cap. 3); diante de uma visão única de um espinheiro que queimava mas não consumia; diante da voz audível de seu Deus; diante da promessa de libertação que ele mesmo um dia desejou, neste momento ímpar de sua vida, titubeou, negou. Era como se dissesse nas entrelinhas: – Agora?! Quando eu tinha alguma força política aos 40 anos, eu tive de sair fugido. E agora que sou um simples pastor, rebaixado aos olhos de todos os homens, o Senhor me convoca depois de 40 anos?! Agora quem não quer sou eu! Não fazemos assim também em nossas vidas? Ora, o povo era de quem? O tempo era de quem? Quem prometera sua liberdade da escravidão cerca de 500 anos antes para Abraão? Esta é a marca da humanidade. Quando tem que esperar age, como quando Moisés mata em nome de Deus (2.14), e quando é convocado recusa, pois nosso tempo é mais precioso que o de Deus. Nossas prerrogativas têm mais urgência que as Dele. Ora deixemos Deus escolher o tempo, a ocasião, o modo, a duração, pois ninguém melhor do que Ele pode saber o que é melhor para seu Reino e seus filhos! Se é que queremos fazer Sua Vontade... Mas ele acaba indo. E para convencer o seu povo de que ele foi eleito para libertá-lo, está habilitado a fornecer 3 sinais: a serpente, a lepra e o sangue (cap. 4). 6


“A antiga serpente, que é o Diabo e Satanás” (Ap 20.2), todos conhecemos. O símbolo assinala mais que uma escravidão pelas mãos de Faraó, mas de algo que vai além. O Egito escraviza o corpo, Satanás escraviza a alma. A vara de Moisés, símbolo de autoridade governamental e medida de juízo, representativamente falando, insinua que o jugo começou como algo meramente humano, mas terminou na escravidão espiritual das almas. Pelas mãos de Moisés, o governo do diabo e seu filho Faraó tornariam às mãos de Deus, sinal de Moisés pegando a serpente pela cauda e retornando à simples vara. A lepra, em toda escritura, não fala simplesmente do pecado, mas do pecado que se alastra, corrói, contamina. A mão direita de Moisés tornada em lepra mostra que Israel, debaixo da autoridade egípcia, se corrompera, se contaminara com seus usos e costumes. Mas o Senhor mesmo purificará esta nação, através da mão inflexível da justiça de Moisés. No entanto, se estes dois símbolos ainda não os convencesse, havia o terceiro, e ninguém deve ter dúvidas de seu uso, embora a Escritura se cale a respeito. Todos conhecem ou deveriam conhecer o coração humano, este ‘pequeno inferno’, como disse alguém. A água transformada em sangue, ao meu ver, fala do que vínhamos propondo nas notas anteriores. O Egito, visto pelo patriarca Jacó como alívio de seus sofrimentos e de sua família, passa da esperança para a opressão, da vida na companhia de Deus à morte ao la7


do de Faraó. A cômoda e refrescante água buscada em fonte que não o Senhor, transforma-se em sangue das chicotadas de seus exatores. Não seria justo que Deus desse a beber deste sangue como recompensa aos instrumentos da injustiça?! Podemos antever Apocalipse distante deste evento cerca de 3.500 anos. “Visto como derramaram o sangue dos santos e dos profetas, também tu lhes deste o sangue a beber; porque disto são merecedores” (Ap 16.6). Um juízo terrível se abaterá sobre toda a nação que soube se aproveitar dos ‘serviços’ de um povo que deveria ser livre. E não estamos muitas vezes nós mesmos presos a estas condições – toda a escravidão proporcionada pelo mundo e o diabo, toda contaminação advinda do mundo e de nossas fraquezas morais e a distância que opera morte? Bendito seja Deus! É nesta hora mais sombria que o Senhor se levanta! Mas isto comentaremos a seguir analisando o segundo momento de Moisés, agora sob o gracioso peso da libertação!

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Parece que depois de Moisés se juntar a Arão ele se transforma. Titubeou diante de Deus, mas depois dos sinais magníficos, da empresa maravilhosa e comissionada, seu retorno à terra que tinha sido criado, misturar-se ao seu sofrido povo que agonizava, uma revolução reorganizara seus pensamentos, seus sentimentos – sua fé. Arão, figura de Jesus sacerdote e mediador, só lhe fez bem. E não é assim em nossas vidas?! Quanto não vacilamos até encontrarmos nosso Sumo Sacerdote! E depois, lavados e transformados pelo seu sacrifício na cruz, tudo fica no longínquo passado – “Eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17). Quarenta anos no Egito, no ‘primor’ da sociedade de então, de nada serviram a Moisés. Quarenta anos no deserto só ressecaram sua alma e espírito. Mas por um chamado pessoal, único e poderoso, renovou suas forças, e pouco a pouco desafiou não só um império, mas todas as hostes infernais. Mas o que realmente queremos enfatizar nesta nota são os 11 sinais-juízos pelas mãos de Moisés e o seu poder 9


de convencimento (cap. 8 a 10). A vara vivificada em serpente, as águas tornadas em sangue, a praga das rãs, a praga dos piolhos, a praga das moscas, a pestilência sobre os animais da casa de Faraó, o sofrimento pela sarna, a saraiva misturada a fogo, o flagelo dos gafanhotos e o pavor das trevas não foram suficientes para libertar Israel. É certo que Faraó chegou a titubear em certos momentos, mas era algo mais parecido com temor supersticioso que o entendimento pleno que aquele povo escravo tinha o único Deus Vivo e Verdadeiro, somado ao desplante de querer libertá-lo a qualquer custo. O último castigo então foi decisivo. A morte sentida em cada lar egípcio, pela morte de todo primogênito tanto de homens como de animais (pois estes apesar de não serem culpados intrinsecamente, estavam associados à natureza da escravidão e do pecado), resolveu a questão. “E haverá grande clamor em toda a terra do Egito, qual nunca houve semelhante e nunca haverá; mas contra todos os filhos de Israel nem ainda um cão moverá a sua língua, desde os homens até aos animais, para que saibais que o Senhor faz diferença entre os egípcios e os israelitas” (11.6-7). Mas também houve morte no arraial israelita, um tanto diferente, claro! – uma morte substitutiva. Somente quando houve derramamento de sangue de um inocente, houve perfeita libertação. O sangue da “Páscoa 10


do Senhor” derramado para cada família era o elemento libertador eficaz, único, precioso, extremo. Aqueles sofreram por seus próprios méritos, estes ficaram livres por mérito divino. Novamente o suor pelo sangue, a lei contra a graça, o homem versus Deus, a salvação por Outro ou a perdição por si mesmos. O mesmo sangue da Páscoa que trouxe plena libertação ao povo oprimido foi o que condenou cabalmente o opressor. Isto me lembra uma palavra já sob o Novo Testamento. “Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida” (2 Co 2.16). E não temos as mesmas escolhas hoje?! Podemos continuar em nossos pecados, afastados de Deus e rebeldes ao Seu chamado. Ou podemos aceitar o sacrifício Vivo enviado por Deus – “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4.16). Passaremos em seguida à terceira fase de Moisés, já no deserto, com o encargo da mediação da Lei.

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Sob qualquer perspectiva humana que possamos analisar, o envolvimento com Deus é sempre progressivo, pelo simples fato de que o homem está preso ao tempo, é seu cárcere.

O Eterno já havia prometido a Abraão e sua semente, como já vimos, uma terra em possessão eterna. Então Ele acrescenta nova diretriz ao povo pelo terceiro mês da saída de Israel: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha” (19.5).

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Este povo, embora saído por graça e sangue, deve ser elevado ao padrão moral e espiritual do seu Deus, como falamos antes. Assim, as primeiras tábuas da Lei são dadas (Êx 20 em diante) como artifício divino para prover pelo menos duas coisas: 1- ao mesmo tempo que dita regras para um convívio santo entre os próprios membros e entre seu Deus, 2- condena este povo que não pode andar dignamente pela simples observação da Lei. Comentaremos o primeiro ponto. O segundo fica para a próxima nota. Um povo saído de sua longa escravidão em terra estranha e contaminada tinha necessariamente de manter um relacionamento diferenciado com seu Deus. Não era um deus qualquer que não se importava com os caminhos de seu povo. Não era o deus desconhecido de nossos dias que pouco se importa com os destinos dos homens. Era um Deus único, vivo e diferenciado, que ainda ‘hoje’, sob novas circunstâncias, busca e forma uma ‘propriedade peculiar dentre todos os povos’. Quanto a eles, Deus fala por Moisés: “E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo” (19.6). Quanto a ‘um reino sacerdotal’ trataremos na 6ª Nota. Quero enfatizar a necessidade de ‘o povo santo’. 13


Só para diferenciar, o Egito era em certa medida um reino sacerdotal, mas estava longe de ser o povo santo. A Lei em si mesma, conforme Rm 7.12, “é santa, e o mandamento santo, justo e bom”. Era a expressão moral e espiritual mais elevada de Deus para aquele momento e para aquele povo. “E ser-me-eis homens santos” (22.31) – esta era a exigência inflexível digna daquele Deus santo que os libertara sob sangue. Ele podia exigir zelo da forma mais elevada – “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (20.7); quanto podia se preocupar com uma pobre moça virgem violada – “Se alguém enganar alguma virgem, que não for desposada, e se deitar com ela, certamente a dotará e tomará por sua mulher” (22.16). Do ponto de vista de Israel, Moisés só poderia concluir: “E o Senhor nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos, que temêssemos ao Senhor nosso Deus, para o nosso perpétuo bem, para nos guardar em vida, como no dia de hoje” (Dt 6.24).

Se o sangue da Páscoa falava em redenção, a Lei falava em santificação. A nova posição do povo exigia uma nova conduta dele, “pois o nome do Senhor é Zeloso; é um Deus zeloso” (34.14).

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Também para nós, sob a graça do Novo Testamento, Deus espera “coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação” (Hb 6.9). Não basta perdão, reconciliação, redenção. Ele deseja que sejamos ‘transformados pela renovação do entendimento, para que experimentemos qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus’ (Rm 12.2). A filiação cabe ao Pai. Nossa postura diante Dele cabe a nós. Mas Israel pecou no momento exato em que as primeiras tábuas da Lei eram escritas pelo dedo divino. O que comentaremos na nota seguinte, sob o aspecto negativo da Lei.

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Não havia melhor lugar para instaurar a Lei de Deus – o deserto. Pois no deserto não há eco, não há nada que favoreça seu cumprimento, pelo simples fato de que não há vida ali. Como bem atesta Paulo simbolicamente, “a lei é espiritual; mas ‘o povo era’ carnal, vendido sob o pecado” (Rm 7.14). “Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita” (Gl 3.19). Temos que recorrer ao Novo Testamento para elucidar a questão da fé versus a Lei. “Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados” (Rm 2.13). Mas como poderiam cumprir esta Lei se eram carnais, como vimos acima pela boca de Paulo, judeu por excelência? Isto torna “evidente que pela lei ninguém será justifica16


do diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (Gl 3.11). São recursos, instrumentos, ou mesmo competências antagônicas. Toda a Lei divina, espiritual e santa não pode ser cumprida pela carne ou pelo esforço de qualquer homem, por mais ‘distinto’ que seja. Paulo vai novamente trazer lições aos judeus de seu tempo e para os que hoje querem se justificar pela Lei. “E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê” (At 13.39). ‘Ele’ é o personagem divino retratado dois versos antes – “aquele a quem Deus ressuscitou”. “Cristo nos [judeus conforme o contexto] resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós” (Gl 3.13). Por esta razão a Lei é dada duas vezes – pois a primeira foi anulada pela grossa idolatria de Israel ao adorar um bezerro em festa promíscua, tendo como consequência a quebra das tábuas pelas mãos de Moisés (cap. 32). As segundas tábuas, então, falam da posteridade que viria para cumpri-la cabalmente, no mesmo sentido que fala Paulo aos Gálatas em relação à promessa. “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falan17


do de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo” (Gl 3.16). Cristo, como recebedor das promessas, cumpriu a totalidade da Lei para liberar o povo que deveria viver pela fé. “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar [revogar, anular], mas cumprir” (Mt 5.17). “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. “Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3.20). “Logo, tornou-se-me o bom em morte? De modo nenhum; mas o pecado, para que se mostrasse pecado, operou em mim a morte pelo bem; a fim de que pelo mandamento o pecado se fizesse excessivamente maligno” (Rm 7.13). Diante de uma Lei que não pode ser quebrantada por causa da justiça inflexível de Deus, só resta um recurso – um substituto!

A próxima nota falará dele – Aarão, o mediador das culpas.

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As traduções mais frequentes de seu nome – ‘o exaltado’, ‘o elevado’, ‘aquele que traz luz’ segundo o Dicionário de Strong – colocam em distinção única sua sagrada pessoa. Não que houvesse algo de sagrado intrinsecamente, mas seu ofício desempenhava uma atuação ímpar – oferta e perdão. Ele é figura da mais santa oferta e do mais gracioso perdão jamais concedido em qualquer tempo à humanidade – Jesus, O Nome sobre todo e qualquer nome. Tudo o que a Lei (pelas mãos de Moisés) não pôde aperfeiçoar, a misericórdia e a graça (pelas mãos de Arão) santificou e prometeu aperfeiçoar para sempre. “Também ungirás a Arão e seus filhos, e os santificarás para me administrarem o sacerdócio” (30.30). E como diz Hebreus a respeito destes sacerdotes tão humanos: “Porque todo o sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados; e possa compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados; pois também ele mesmo está rodeado de fraqueza” (Hb 5.1-2).

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Eis a contradição suprema: apesar de estar rodeado de fraqueza, oferece dons e sacrifícios a favor dos homens nas coisas concernentes ao próprio Deus. Não ilustra perfeitamente nossa própria condição neste tempo?! Ainda que pecadores resgatados em Cristo, com toda nossa fraqueza inerente, somos constituídos seus embaixadores, como bem demonstra Paulo:

“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados... De sorte que somos embaixadores da parte de Cristo, como se Deus por nós rogasse” (2 Co 5.19 e 20). Há um abismo intransponível a qualquer homem entre um verso e outro: antes – um pecador destituído de qualquer privilégio; agora – embaixadores de Cristo! Os extremos só puderam ser unidos porque Um se rebaixou para nos elevar. Diferentemente de Arão que tinha, “como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo”, Jesus apareceu “uma vez, oferecendo-se a si mesmo” (Hb 7.27).

Aqueles, por serem pecadores e mortais, ofereciam sacrifícios contínuos; este, por Sua perfeição e eternidade, ofereceu-Se a Si mesmo. Ousaria alguém dizer que não estamos em melhores condições do que eles, “porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Rm 6.15)?! 20


Se algum deles quebrasse qualquer porção da Lei, tinham a quem recorrer: os sacerdotes que os representavam diante de Deus. “Assim Arão levará os nomes dos filhos de Israel no peitoral do juízo [justiça advinda do tribunal] sobre o seu coração, quando entrar no santuário, para memória diante do Senhor continuamente” (28.29).

Somente os dons e sacrifícios da ordem sacerdotal Araônica impedia que Deus os destruísse ao quebrarem a Lei. “Se tu, Senhor, observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá? Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” (Sl 130.3-4). Certo é que seus pecados não eram removidos, apagados, esquecidos, perfeitamente pagos como hoje somos privilegiados através do sacrifício de Jesus. Mas suas ofertas indicavam que um dia tudo seria plenamente quitado pela única oferta viva que fosse digna de Deus. “Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os céus; que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifí21


cios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez, oferecendo -se a si mesmo. Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens fracos, mas a palavra do juramento, que veio depois da lei, constitui ao Filho, perfeito para sempre” (Hb 7.26-28). Ó querida e querido leitores, já se reconciliou com Deus pela fé no sacrifício perfeito de Cristo? E se já reconciliado, tem se portado como embaixador de Deus neste mundo de trevas? Não descanse enquanto não puder responder positivamente a estas perguntas, pois elas serão retomadas um dia pelo justo juiz. Para a santa atuação destes sacerdotes em favor de seu povo, Deus instruirá a construção de um tabernáculo, apto para apresentar homens pecadores a um Deus Santo que requer justiça. Este será nosso próximo assunto – o Tabernáculo.

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O deserto era o melhor lugar para a implantação de um tabernáculo que representasse Deus e Sua santa presença. Como já dissemos antes a respeito da Lei, neste lugar seco nada há que insinue algo de bom ou louvável no homem. É lugar de secura e morte, símbolos perfeitos para uma humanidade caída. Mas é lugar perfeito para o Senhor demonstrar sua misericórdia e graça. “Porque um tabernáculo estava preparado, o primeiro, em que havia o candeeiro, e a mesa, e os pães da proposição; ao que se chama o santuário. Mas depois do segundo véu estava o tabernáculo que se chama o santo dos santos, que tinha o incensário de ouro, e a arca da aliança, coberta de ouro toda em redor; em que estava um vaso de ouro, que continha o maná, e a vara de Arão, que tinha florescido, e as tábuas da aliança; e sobre a arca os querubins da glória, que faziam sombra no propiciatório; das quais coisas não falaremos agora particularmente (Hb 9.2-5). Se o leitor e leitora quiserem entrar mais minuciosamente no assunto, já que não podemos nos alongar aqui, pode ler o livro – O Tabernáculo em pormenores – pelo link https://issuu.com/ministerioescrito/docs/tabern__culo

Este era o único lugar apropriado para o exercício ministerial de Arão e seus filhos – homens separados 23


por Deus em um lugar preparado por Deus. E o mais espantoso: “E me farão um santuário, e habitarei no meio deles” (25.8). O que se conclui por exclusão, que Deus não habitava em meio a mais nenhum povo naquele período. Por causa de sacerdotes santificados, com vestes apropriadas, que ofereciam sacrifícios agradáveis a Deus, em um tabernáculo que representava o próprio céu, é que Deus podia habitar ali. Graciosa presença! E não é exatamente assim conosco, nestes tempos de fria formalidade?! “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pe 2.5). Também Deus não pode habitar em nenhum mortal que não esteja nestas condições específicas. Embora haja muito que se falar do Tabernáculo, pretendo apenas resvalar em 2 pontos. Comecemos pelo sacrifício contínuo. “Isto, pois, é o que oferecereis sobre o altar: dois cordeiros de um ano, cada dia, continuamente. Um cordeiro oferecerás pela manhã, e o outro cordeiro oferecerás à tarde... por cheiro suave; oferta queimada é ao Senhor. Este será o holocausto contínuo por vossas gerações, à porta da tenda da congregação, perante o Se24


nhor, onde vos encontrarei, para falar contigo ali” (29.38-42). Este sacrifício contínuo fala intimamente da oferta de Cristo, não aos homens, mas a Deus. É uma oferta de cheiro suave, diferente de outros sacrifícios que são para as culpas do homem. É Cristo ofertando-Se ao Pai. Não fala dos pecados do homem, mas da necessidade da justiça executada por um substituto – Cristo. Antes da salvação proposta ao homem, há uma vontade aceita da parte do Filho em agradar o Pai dentro do plano eterno. “Então disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb 10.9). “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38). Assim como na fórmula do ato criativo do mundo em cada dia de Gênesis, “e foi a tarde e a manhã...”, também a mesma fórmula é usada aqui para este holocausto, pela manhã e pela tarde. Significa que Deus estava plenamente disposto a perdoar primeiramente ao judeu, já que o tabernáculo era para aquele povo tirado do Egito. Mas que também os outros povos, em seu determinado tempo, também veriam estendida esta bem aventurança. Deus era propício, através do holocausto contínuo de animais inocentes, a perdoar qualquer judeu que ti25


vesse quebrado a lei dada por Moisés. Assim como – hoje – Deus está disposto e propício a perdoar qualquer pecador que se aproxime pela fé ao cordeiro divino. “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Co 5.19). Em apenas um ano, 730 cordeiros inocentes eram sacrificados, tudo para indicar que no momento oportuno de Deus para a humanidade, Um único sacrifício divino e eterno viria a cumprir plena “salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” (Rm 1.16). Mas passemos ao segundo ponto, e este fala da sombra sobre o propiciatório como lemos logo acima. A glória dos querubins sombreando o propiciatório de ouro mostra de forma precisa o que Hebreus mesmo lança luz. “... aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hb 2.9). Eis aqui o caráter propiciatório de Cristo em sua morte substitutiva que o rebaixava ante os próprios anjos. Mas se houve esta sombra sobre Jesus, ao se mostrar propício aos pecadores, Hebreus também esclarece. “Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos...” (Hb 2.9). 26


“Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas” (Ef 4.10). Um dia Ele se rebaixou até a morte para que nós pudéssemos, pela fé, ser elevados até a vida dele mesmo. E você que me lê agora, conhece este Jesus assentado à destra da Majestade que um dia Se assentou no vale da sombra da morte por você? Pois este conhecimento fará toda a diferença em sua existência, nesta e na próxima vida. Findamos assim as notas em Êxodo e partimos, pela graça de Deus, ao livro dos mais complexos sacrifícios e ofertas que eram sombra daquele que viria – Sete notas em Levítico.

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Sete notas em Êxodo  

É hora de libertar um povo!

Sete notas em Êxodo  

É hora de libertar um povo!

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