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Vi o Senhor! Caríssimos Irmãos, Aleluia! Cristo ressuscitou!

S

ão Boaventura, no capítulo 20 do seu Comentário ao Evangelho de São João, nos apresenta uma imagem da manhã da ressurreição. Figura chave desta narração é Maria Madalena, que é apresentada pelo santo como modelo, “seja na vigilância da busca seja no zelo do anúncio” (20,2). Madalena é uma buscadora vigilante, que chega ao túmulo nas primeiríssimas luzes da aurora, “quando ainda estava escuro” (Jo 20,1). Segundo Boaventura, é como se Jesus pronunciasse as palavras de Provérbio 8,17: “Aqueles que madrugam por mim hão de me encontrar”. Continua, pois, com o retrato de Maria Madalena, explicando que, depois do seu encontro com o Senhor ressuscitado, ela se tornou anunciadora zelosa, indo anunciar aos discípulos: “Vi o Senhor” e as coisas que ele lhe disse (Jo 20,18). Celebrando a grande festa da Páscoa, vos exorto, irmãos, a encontrar nesta dupla imagem de Maria Madalena, buscadora vigilante e anunciadora zelosa, um exemplo de como se pode testemunhar a vida no Senhor Jesus ressuscitado. Também nós somos chamados a sermos vigilantes na busca de Cristo em todos os âmbitos da nossa vida, nas situações cotidianas em que nos encontramos, nas múltiplas culturas que nos circundam por causa da globalização e no uso da internet e de outros meios de comunicação. Como Maria Madalena, somos chamados também nós a sermos dedicados em anunciar o que vimos e experimentamos na nossa vida, o Senhor Jesus ressuscitado, e em partilhar esta Boa Nova com todos aqueles que encontramos.

Busca vigilante Como Maria Madalena, somos convidados a sermos vigilantes na nossa busca. O nosso seráfico pai Francisco se revela como exemplo por excelência de

alguém que, bem vigilante, vai em busca do Senhor ressuscitado. Tomás de Celano nos diz que “a mais sublime vontade, o principal desejo e supremo propósito dele era observar em tudo e por tudo o santo Evangelho, seguir perfeitamente a doutrina e imitar e seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo com toda a vigilância, com todo o empenho, com todo o desejo da mente e com todo o fervor do coração.” (1Cel 30,84). Mas, onde vamos buscar o Cristo ressuscitado? O que implica esta busca vigilante? Se nos perguntarmos seriamente a nós mesmos, nos daremos conta de que não se pode em modo algum delimitar tal busca. Cerca de cinquenta anos atrás o Concílio Vaticano II nos desafiou a “perscrutar os sinais dos tempos” (GS 4), recordando-nos que em nossa busca do Cristo ressuscitado não é descartado nenhum lugar. Em muitas das nossas culturas a leitura dos sinais dos tempos nos impele a encontrar outras grandes tradições de fé ou de cultura, graças à mediação do diálogo interreligioso e intercultural. Em outros contextos, a busca poderia levar-nos a renovar o diálogo com a ciência em relação a questões importantes para hoje. Em outras situações ainda, a busca nos convidará a entrar em diálogo com os movimentos culturais novos e emergentes. Em todos os casos, a busca nos obrigará a ir além do que nos é confortável: nos levará às periferias existenciais, como aconteceu com São Francisco. Na recente Exortação apostólica Evangelii gaudium (= EG), Papa Francisco nos encoraja a “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20). Como as mulheres no sepulcro, continuamos a escutar as palavras do anjo: “Por que buscais entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui; ressuscitou” (Lc 24,5-6). A nossa busca desejosa e atenta do Cristo ressuscitado nos levará para novos e inesperados horizontes, desde que o nosso coração e a nossa mente estejam abertos a este desafio tão grande e ao mesmo tempo tão comprometedor.


Surge também uma segunda pergunta: como buscar o Cristo ressuscitado? Talvez a resposta mais simples seja: por meio da “escuta atenta”. O Capítulo geral extraordinário de 2006 propôs a todos os Frades a chamada metodologia de Emaús, descrita como encontro baseado por sua vez no encontro dos discípulos com o Cristo ressuscitado. Esta metodologia, nos recordou o Capítulo, consiste em “reunir-se; falar daquilo que nos aconteceu; partilhar o Evangelho, reler a Regra; orar e louvar a Deus “por todos os seus dons”; celebrar a comunhão fraterna; e voltar aos nossos irmãos das fraternidades, aos nossos irmãos e irmãs do mundo inteiro com a boa nova que transformou as nossas vidas” (Sfc 45). Portanto, é essencialmente um método de escuta: escuta dos irmãos na comunidade; escuta daqueles que servimos, especialmente dos pobres e dos marginalizados; sobretudo, escuta da voz de Deus que nos fala, de um Deus que sempre sai de Si mesmo para vir a encontrar-nos e convidar-nos a entrar na relação com Ele. Quando escutamos a voz de Deus, escolhemos de novo a via da conversão, uma conversão dos pensamentos, das atitudes e dos comportamentos. Então, a nossa vida será transformada graças à busca vigilante e à escuta atenta. Somente após ter encontrado o Senhor Jesus ressuscitado na escuta orante, tornamo-nos testemunhas e evangelizadores dedicados e audazes. Sabemos bem que o caminho será marcado por obstáculos, os quais procurarão impedir-nos de buscar o Cristo ressuscitado. Alguns desses obstáculos nascem dos nossos limites pessoais. O próprio São Francisco nos alertou para que nos acautelássemos “de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, detração e murmuração” (Rb 10,7). Outros são devidos ao nosso permanecer em lugares de sempre e confortáveis, enquanto buscamos respostas novas. Papa Francisco, mais uma vez, nos desafia: “A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: ‘fez-se sempre assim’” (EG 33). O apelo do Cristo ressuscitado é apelo à novidade, a abraçar uma visão radicalmente nova e diversa da nossa vida, da dignidade e bondade daqueles que nos circundam, os quais, como nos recorda São Francisco, são todos nossos irmãos e nossas irmãs, e da beleza e dignidade de todas as criaturas, com as quais somos chamados a render glória a Deus. As nossas Fraternidades devem olhar sempre para fora a fim de não serem grupos fechados sobre si mesmos. A nossa missão consiste em tornar conhecido de todos o Reino de Deus (cf. CA 37; Seguidores de Cristo para um mundo fraterno (Roma, 2004), p. 33), ou seja, a potência

do Cristo ressuscitado. E esta missão podemos realizá-la acima de tudo com o testemunho cotidiano de uma vida vivida na graça e no amor e, só depois, através do testemunho da nossa palavra.

Anúncio zeloso Aquele que inicia com a busca e a escuta termina no anúncio da realidade do Cristo ressuscitado. Como Maria Madalena tornamo-nos anunciadores ardorosos que proclamam: “Vimos o Senhor e nos disse essas coisas”. Ultimamente se fala muito de “nova evangelização”. Papa Francisco esclareceu ulteriormente esta noção ao falar de uma evangelização missionária e ao recordar a toda a Igreja que cada batizado é chamado por Deus a ser missionário, a dar testemunho da potência da ressurreição na sua vida. Para nós Frades, isto não é uma novidade. As Constituições Gerais definem a natureza englobante de uma tal evangelização: “Onde quer que estejam e o que quer que façam, dediquem-se os irmãos ao ministério da evangelização; tanto na comunhão fraterna, por uma vida de contemplação e penitência e pelos diversos trabalhos executados em favor da Fraternidade; como na sociedade humana, por atividades intelectuais e materiais e pelo exercício do ministério pastoral nas paróquias e outras instituições eclesiásticas; e, finalmente, anunciando o advento do Reino de Deus pelo testemunho da simples presença franciscana” (CCGG 84).


Os próprios âmbitos existenciais e culturais, que nos conduzem à busca do Cristo ressuscitado, muitas vezes necessitam da luz do Evangelho. As nossas culturas globalizadas e transmitidas pelo “YouTube”, como o ar que respiramos, penetram em nossa vida de modo tão totalizante que não conseguimos mais identificá-las. Simplesmente as consideramos como pressuposto. A cultura pode, de fato, conduzir-nos a Cristo, mas também pode impedir-nos de escutar o seu Evangelho. Se o Evangelho não é anunciado em modo sintonizado com a nossa cultura, não pode ser escutado. Ao mesmo tempo, porém, toda a tentativa de anunciar o Evangelho que não ousa desafiar a nossa cultura arrisca impedir aos nossos irmãos e irmãs a plena acolhida do Cristo. Como Frades devemos promover aqueles aspectos culturais que revelam a presença do Cristo ressuscitado no meio de nós e, além disso, devemos desafiar aqueles aspectos que escondem a Sua presença ou nos impedem de experimentar plenamente a Sua presença doadora de vida e de partilhá-la através do anúncio ardente. Como podemos realizar este anúncio com o devido cuidado? A resposta que São Francisco daria é aquela de anunciar com humildade, como portadores do Evangelho, conscientes dos nossos pecados e dos nossos limites. Papa Francisco sugeriu em maneira análoga que um coração missionário é consciente dos próprios limites e “nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez autodefensiva. Sabe que ele mesmo deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito, e, assim, não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada” (EG 45). É óbvio que tal anúncio deve iniciar com um discernimento orante. Tomás de Celano cita São Francisco que afirma: “O pregador deve haurir nas orações secretas aquilo que depois vai difundir em palavras sagradas; deve antes aquecer-se por dentro para não proferir palavras frias” (2Cel CXXII, 163). Entrando neste discernimento orante, escutamos o

anjo que dirige a nós as mesmas palavras ditas às mulheres junto ao túmulo: “Ele vos precede” (Mc 16,7). E assim se fecha o círculo. Encorajados para anunciar o Evangelho com zelo, descobrimos novamente a necessidade de permanecer vigilantes na nossa contínua busca. Caros Irmãos, ao mergulhar de novo no mistério pascal, espero que todos possamos dedicar-nos totalmente e sem reservas a perscrutar vigilantes os sinais dos tempos e buscar, como Maria Madalena, em todos os âmbitos da nossa vida e cultura o Cristo ressuscitado. Cumpramos este santo propósito como irmãos em fraternidade, em comunhão com todos os membros da Família Franciscana, com a Igreja e com toda a família humana. Buscamos o Senhor Jesus Ressuscitado não dentro de túmulos vazios mas nas realidades da nossa vida quotidiana. Esta busca nos leve, pois, a aprofundar a nossa amizade com o Senhor Jesus através da oração e da contemplação. Deixemos que esta nos empurre para fora das nossas casas confortáveis, da nossa rotina, dos nossos tradicionais modos de viver a nossa vocação cristã e franciscana. Sujemos as mãos e os pés, enquanto seguimos o Senhor Ressuscitado que se dirige às periferias existenciais, onde daremos testemunho da sua compaixão, da sua misericórdia e do seu amor, do qual já fizemos experiência nós mesmos! «Aleluia! O Senhor verdadeiramente ressuscitou!». Desejo a todos vós, Irmãos, uma Páscoa serena e repleta de bênçãos!

Roma, 5 de março de 2014 Quarta-feira das cinzas.

Fr. Michael Anthony Perry, OFM Ministro geral

Prot. 104603

www.ofm.org

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