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Outono na cidade serrana de Petrópolis não poderia ser diferente: chuva constante e russo (névoa). Foi assim que, no dia 5 de abril, um sábado pela manhã, Frei Ludovico Garmus me recebeu para uma entrevista, que não diria exclusiva, mas muito especial. O professor, biblista e exegeta estava trabalhando e preparando um novo texto para a Revista Estudos Bíblicos, que edita e coordena pela Editora Vozes, há vinte e cinco anos. No final deste ano, Frei Ludovico vai comemorar a publicação da 100ª edição desta revista. Natural de Xaxim, em Santa Catarina, Frei Ludovico já dedicou 35 anos de sua vida ao magistério, como professor de Exegese e Hebraico no centenário Instituto Teológico Franciscano da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Nesse tempo, Frei Ludovico foi mestre de mais da metade dos seus confrades na Província. Como disse, sem esconder sua alegria, alguns até se tornaram bispos e provinciais. Mas também não deixou de revelar preocupação com o declínio das vocações religiosas na Igreja e na Ordem. O maior desafio de sua vida, contudo, foi a coordenação e tradução da Bíblia da Vozes. Foram anos e anos de dedicação neste projeto editorial. Para ele, a Bíblia não é somente o produto de seu trabalho: “Temos de ser os primeiros destinatários da Palavra de Deus”, observa. A história bíblica, contudo, não é exclusividade na lista de trabalhos e interesses deste professor. Hoje, através de uma visão ecológica bíblica, Frei Ludovico descobriu que pode ser uma voz em defesa do nosso ameaçado Planeta Terra. Confira! 1


Site Franciscanos – Frei, sabemos que o Sr. é um apaixonado pelos estudos bíblicos. Foi o grande articulador e tradutor da Bíblia das Vozes e ensina exegese desde que foi transferido para o ITF. Como nasceu esta paixão e dedicação pela Bíblia? Frei Ludovico – Para falar de como nasceu esta paixão é uma história meio longa. Um pouco dela escrevi num livro comemorativo dos 25 anos de sacerdócio da minha turma, coordenado por Frei Neylor (Tonin). Fiz uma memória do tempo de criança, do seminário até a formação em filosofia, teologia e pós-graduação na Europa. Agora, como nasceu a paixão pela Bíblia, acho que foi no seminário. Pela insistência de nossos formadores, nas aulas de formação religiosa, pela oportunidade e exigência que se fazia de uma leitura diária da palavra de Deus, com a tradução de Matheus Hoeppers do Novo Testamento. Acrescentaria a isso a formação humanística que tivemos em Agudos com o estudo de línguas bíblicas. Além do grego e do latim, tínhamos aulas de inglês, francês e alemão (3 anos cada). Então, aquilo deu um gosto pelas línguas. E para você estudar Bíblia em nível de pós-graduação, é preciso dominar essas línguas estrangeiras modernas. Site Franciscanos – Por ser tradutor da Bíblia, quantas línguas o Sr. lê e escreve? Frei Ludovico – Uma coisa é falar e outra é você entender. Falo português e italiano, porque convivi muito tempo, e falo um pouco de espanhol. Nas outras línguas eu me defendo... Mas, para quem estuda a sagrada escritura, exigem-se o francês, o inglês e o alemão, além do grego e hebraico, é claro. O conhecimento dessas é fundamental. O que interessa é ler texto no original. Isso é básico para nós. Sem isso, nem se estuda a Bíblia. Deveríamos ter em nossos seminários, sobretudo, seminários maiores, acompanhando o estudo da teologia, sempre o estudo de uma língua bíblica, seja o grego, seja o hebraico. Melhor seria ter um conhecimento básico dos dois idiomas. Site Franciscanos – Que aspecto diferencial o Sr. destaca na “Bíblia Vozes”, em relação às demais? Frei Ludovico – Olha, tenho escrito e falado várias vezes sobre a Bíblia das Vozes. Ela nasceu em primeiro lugar devido a uma necessidade. Por acaso, hoje, estava examinando algumas caixas de livro que temos na biblioteca e encontrei a primeira edição do Novo Testamento, feita pela Editora Vozes, em 1934, na tradução de Humberto Rodden. Acho que logo depois, em 30 ou 32, Frei João José Pedreira de Castro, fez uma outra tradução a partir do texto latino da Vulgata. O projeto dele era fazer quatro volumes, como foi a primeira edição da Bíblia, traduzida por Matos Soares em Portugal e editada pelas Paulinas pelo final da década de 1930. Ele traduziu e publicou apenas o quarto volume, o Novo Testamento. Em nossa Biblioteca temos vários exemplares desta edição, publicada pela Editora Vozes. Os três primeiros volumes, correspondendo ao Antigo Testamento, porém, nunca saíram porque veio a guerra. Além do mais, em 1943, o Papa Pio 12, na “Divino Afflante Spiritu”, permitiu que as traduções em vernáculo fossem feitas a partir dos textos originais. Então, abandonou-se a necessidade de traduzir via Vulgata. Com isso, o projeto de Frei João José de editar a Bíblia completa caiu por terra. Aí mais tarde, já na década de 50, apareceram mais duas edições do Novo Testamento, a do Pe. Lincoln Ramos e a de Frei Matheus Hoeppers. Biblista, formado no final da década de 40, na Alemanha, Frei Mateus se propôs a fazer uma boa tradução a partir do grego. O Novo Testamento foi publicado em 1956. Ele tinha um projeto também de 2


fazer a tradução da Bíblia inteira. Não se sabe por que o texto já todo traduzido, como cheguei a ver, não foi publicado. Nesse meio tempo, Frei João José traduziu a Bíblia inteira, valendo-se da tradução francesa da Bíblia de Maredsou. Mas, provavelmente em razão de alguns conflitos com o bispo e até com a Editora Vozes, o texto não foi publicado pela Editora Vozes. E sabe quem está publicando esta tradução até agora? A Ave Maria. É tradução de um frade. Quando voltei dos estudos, em 1973, o então diretor da Vozes, Frei Ludovico Gomes de Castro me pediu: “Temos um grande sonho: ter uma Bíblia editada pela Editora Vozes Você não quer assumir este compromisso?”. Eu fiquei assustado com a proposta e respondi assim: “Frei Ludovico, entendo o sonho da Editora, mas não me sinto ainda preparado para enfrentar a tarefa. Primeiro, gostaria de começar a lecionar”. Não excluí o projeto dele. Em 74, ele voltou à carga e aí aceitei. Foi o grande desafio da minha vida. Em 82, a Bíblia inteira saiu. Quer dizer, não só traduzi alguns livros, mas coordenei a tradução. Para o Novo Testamento nós aproveitamos a tradução do Matheus Hoeppers. Fizemos uma revisão literária e uma pequena atualização exegética. Do Antigo Testamento, cuja tradução ele tinha coordenado, aproveitamos apenas os livros deutero-canônicos, traduzidos do grego pelo Lincoln Ramos, mas revistos e atualizados com nova edição crítica pelo Pe. Ney Brasil Pereira, um catarinense. Além da coordenação, como já disse, fiz a atualização do Novo Testamento, correções de algumas notas e traduzi também sete livros: o Pentateuco, Juízes e Ezequiel. Foi um trabalho realmente intenso, mas graças a Deus a Bíblia Vozes está aí e já estamos imprimindo, com a mesma máquina de imprime a Folhinha do Sagrado, 200 mil exemplares. Até 2001, nossa Bíblia era impressa fora. Teve um tempo em que foi impressa em São Paulo, depois em Aparecida e agora está sendo aqui. Frei Ludovico – Mas não respondi o diferencial? A Bíblia das Vozes visa colocar nas mãos do povo uma Bíblia de tipo intermediário. Não é uma Bíblia simples, como foi, por exemplo, a edição da Ave Maria, nem uma Bíblia com pouquíssimos comentários, como é o texto da Bíblia publicada pela CNBB e não é uma Bíblia de estudos, como é a TEB, a Bíblia do Peregrino ou a Bíblia de Jerusalém. Sempre faço uma comparação: não é um fusquinha, mas é um Gol, daí para cima... (risos). Ela visa atingir um grupo maior de pessoas, tem bons subsídios, boas introduções, boas notas de rodapés, apêndices e, sobretudo, depois de 94, fizemos uma revisão atualizada, corrigindo coisas que deveriam ser corrigidas, do ponto de vista exegético e do ponto de vista lingüístico. Fizemos uma leitura de ponta a ponta, em voz alta. Com o Edgar Orth, um ex-frade que entendia grego e latim e era o responsável pela edição de Jung na editora, uma pessoa muito competente, fizemos uma revisão literária. É uma Bíblia que você pode ler em voz alta e é agradável de se ouvir. Não é uma coisa chutada. Gastamos mais de seis anos para fazer este trabalho de revisão e atualização. Uma das coisas típicas da Bíblia, agora, é que ela assume uma forma inclusiva de tradução. Dentro da atual corrente feminista, existe a tendência de fazer uma tradução só a partir das mulheres. Nós colocamos homem e mulher juntos. Por exemplo, quando aparece antropos no grego ou adam no hebraico, traduzimos por “ser humano”, “pessoa”, “alguém”, o que inclui tanto o homem como a mulher. Quando no grego aparece aner ou ish no hebraico, traduzimos por “homem”/masculino. Então, ao incluir a mulher nas traduções, a gente percebe que fica diferente. As outras traduções timidamente estão imitando a nossa. Para dizer a verdade, Vozes sempre abre caminho...

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Site Franciscanos – Qual o atual lugar e importância da Editora Vozes na área bíblica? Frei Ludovico – Na área bíblica tivemos iniciativas muito boas no passado. Fomos os primeiros a traduzir uma grande introdução (de Teodorico Ballarini) para o estudo da Bíblia, visando o estudo de graduação em Teologia; fomos os primeiros a traduzir dois bons dicionários, o Dicionário Enciclopédico da Bíblia e o Dicionário de Teologia Bíblica. Para dizer a verdade, hoje a Vozes parou. Existem dezenas, centenas de traduções, sobretudo da Paulus, ultimamente das Paulinas, da Loyola, um pouco da Ave Maria. Mas nós temos pouquíssimo espaço para área bíblica. Por outro lado, conseguimos, através do mesmo grupo que coordena o Conselho dos Estudos Bíblicos, publicar durante 20 anos o comentário bíblico. Mas ultimamente a Vozes também se retirou do Comentário Bíblico. No começo tínhamos o apoio da imprensa Metodista e da Editora Sinodal, mas depois acabamos ficando sozinhos. Foi ruim, porque quando você se retira de um mercado, fica mais difícil vender um produto extra que se publica na mesma área. O que publicamos e estamos conseguindo ainda a duras penas vender são duas revistas: Interpretação Bíblico Latino-americana e Estudos Bíblicos. Temos publicado cá e lá algumas coisas boas, por exemplo, o estudo sobre a Tora/Pentateuco; mas são coisas esporádicas. Não é foco da nossa produção. Site Franciscanos - Qual é o foco da produção? Frei Ludovico - O foco da produção Vozes está 50% na área religiosa e 50% na área de ciências humanas. Na área religiosa, no setor bíblico, temos a Bíblia, Estudos Bíblicos, a RIBLA, algumas poucas publicações na área bíblica e na área teológica. Na área religiosa prevalece a catequese, a espiritualidade e obras de auto-ajuda. Site Franciscanos – Quantos anos o Sr. tem de magistério? Trabalhou só como professor ou já teve outras funções? Frei Ludovico – Nós, digo eu e o Frei Antônio Moser, começamos em 1973. De modo que estamos completando 35 anos de magistério. Tive outras funções na formação, duas vezes como guardião. Fui o diretor do Instituto Teológico Franciscano durante nove anos (em dois períodos diferentes) e mestre de formação, por três anos. O aspecto acadêmico é o trabalho muito amplo e exigente. Não é apenas dar as aulas, e pronto! A gente tem de pesquisar, escrever, publicar. E também fazer os outros publicar! Site Franciscanos – O sr. gosta de trabalhar na formação? Frei Ludovico – Diria que nos primeiros 25 anos estava mais diretamente ligado à formação, por causa dessas funções (guardião, mestre de estudantes ou diretor dos estudos). Evidentemente, numa comunidade como o Sagrado, onde no passado moravam todos os estudantes, estava mais envolvido. Hoje, a situação é diferente: os professores moram numa fraternidade independente. Um ou outro professor está morando junto com os formandos. Site Franciscanos – Quem são os seus grandes mestres de exegese? Frei Ludovico – Quem mais me influenciou foi Frei Simão Voigt. Ele foi realmente o mestre. Até mesmo quando fui indicado para estudar na Europa, passei um ano aqui em Petrópolis, substituindo, imagine quem, – se é que eu poderia substituir -, o Dom Evaristo Arns, que se tornou bispo. Isso em 1966. Passei um ano de 1966 a 1967 assumindo as aulas de Patrística no lugar dele. Foi um teste para ver se podia ser professor ou não. Aí tive a chance de escolher 4


entre História da Igreja, Direito Canônico e Bíblia. Para a surpresa do próprio Frei Simão Voigt, aceitei Bíblia. Ele arregalou os olhos porque tinha outro candidato. Mas, como sempre gostei de línguas modernas e também de clássicas e gostar da Bíblia, escolhi estudar Exegese bíblica. Talvez não fui aquela sumidade que o Frei Simão esperava, mas é melhor ter um cachorro vivo do que um leão morto..... Site Franciscanos – Quem são os seus discípulos, na área da pesquisa e do ensino, afinal em 30 anos de magistério o Sr. formou quase todos os frades da Província? Frei Ludovico – O Francisco Orofino (professor e escritor) é um deles. Queria que ele estudasse Bíblia, consegui que ele estudasse, mas ele saiu da Ordem. Eu diria, nós temos – estou falando de professores como Frei Antônio Moser e o Frei Alberto Beckhauser – vários estudantes nossos que hoje são bispos e até provinciais. Isso é a coisa mais normal do mundo, porque estamos aqui há mais de 35 anos. Interessante foi quando pela primeira vez percebi numa reunião de frades que eu era o mais velho do grupo e via que a maioria dos presentes foram meus alunos. Isso é uma satisfação para a gente. Não posso andar pescando diretamente na pastoral, mas posso dar a vara e dizer, “agora você vai pescar”. Aliás, foi este o lema no meu santinho de ordenação: “Doravante serás pescador de homens”, lembrando o Evangelho do domingo em que fui ordenado, em julho de 1965. Quando fui indicado para os estudos, aceitei esta tarefa, sabendo que tinha de deixar a ação pastoral paroquial. Não posso montar dois cavalos ao mesmo tempo. Como não posso exigir que os que estão na pastoral sejam professores, também de quem é professor não se exigir que esteja diretamente na linha de frente da ação pastoral. Site Franciscanos – Na condição de formador, como o Sr. vê a queda no número de candidatos à vida religiosa nos últimos anos, mesmo que não seja uma questão restrita à Província? Frei Ludovico – Acho que para responder esta pergunta, não podemos esquecer a história do Brasil dos últimos 40 e 50 anos. Lembro-me de quando era criança e, depois, seminarista do primário e secundário, que o Brasil tinha cerca de 50 milhões de habitantes. E desta população, segundo as estatísticas do passado, 70%, ou mais, viviam no interior, – na roça, diríamos nós. Hoje, a situação está completamente invertida. De 80% até 85% da população vivem nas cidades. Podemos ver que houve um êxodo do campo para a cidade. E nem sempre a Província conseguiu marcar presença dentro deste êxodo. Em conseqüência dessa migração agora se fala tanto das situações de fratura social, nas quais a Província deve marcar presença. Ela existe também no campo, é verdade. Só que a maior parte da população vive hoje nas cidades médias e pequenas. Temos ainda paróquias mistas, compostas em parte por população rural e em parte por uma população urbana. Mesmo em tais paróquias mistas, esta última já tem uma nova mentalidade, diferente da roça. Mas a maior parte de nossa paróquia agora são urbanas. Nosso modo de trabalhar nestas paróquias está adequado ao mundo urbano? Estamos conseguindo acompanhar esta evolução? A Igreja está conseguindo acompanhar esta evolução? Por que tanta preocupação em Aparecida com uma nova evangelização? Como ser hoje, no ambiente urbano, discípulos e missionários de Cristo? Quer dizer, nós temos que recuperar nossa presença, estar junto desse povo que migrou de um ambiente para o outro. Com tudo o que está incluído nessa migração do campo para a cidade: pobreza, exclusão, falta de moradia, saúde, escola. Eu achei muito importante que nós, como Província, tenhamos assumido, por exemplo, a paróquia na favela da Rocinha, ou 5


que estejamos presentes na Baixada Fluminense, sem dúvida, situações de real fratura social. A ação do Sefras é, também, muito oportuna e importante nestes espaços urbanos. Essa seria uma das explicações da diminuição de vocações religiosas. Outro fator é que nas cidades de modo geral – menos, talvez, nas periferias pobres – o número de filhos por família diminuiu muito. No máximo são dois filhos, não é verdade? Se você for para o interior de Santa Catarina, em Xaxim, – onde estamos planejando fazer um tríduo vocacional por ocasião dos meus 50 anos de vida religiosa, como já fizemos uma semana vocacional ao completar 25 anos de sacerdócio – vai encontrar essas mesmas famílias com dois, raramente três filhos. E esses ainda nem vão ficar na roça porque estudam na cidade. O campo está se esvaziando. Então, temos de investir num tipo de pastoral de presença cada vez maior e melhor preparada nas cidades. Porque vocações existem. Por outro lado, como estão estruturadas hoje nossas famílias? Lembro-me por ocasião da Campanha da Fraternidade sobre a família, há uns doze atrás, se dizia que 17,5% das famílias têm apenas a figura da mãe, como a chefe da família. Hoje, este percentual já chega a 30%. Quer dizer, as famílias estão se desfazendo, seus valores estão sendo questionados. O tipo de proposta de realização humana e profissional que um jovem recebe, muitas vezes, nada tem a ver com a vocação ao sacerdócio ou à vida religiosa. Por isso, hoje é mais difícil fazer o trabalho vocacional, mas é possível. Site Franciscanos – Desde quando o Sr. é editor responsável pela Revista Estudos Bíblicos? E como nasceu a revista? Frei Ludovico – Esta revista vai completar agora 25 anos. Ela nasceu num período em que havia um questionamento no Pontificado de João Paulo II, que estaria recuando em relação às propostas do Concílio Vaticano II. Alertados por alguns biblistas e teólogos, como o José Comblin, surgiu um grupo formado por Carlos Mesters, Gilberto Gorgulho, dominicano de São Paulo, o Leonardo Boff, redator da Revista Eclesiástica Brasileira (REB); eu também fui convidado para fazer parte deste grupo, para estudar a Bíblia com a preocupação de dar uma resposta à Teologia, que era predominantemente a Teologia da Libertação. Portanto, fazer uma leitura da Bíblia a partir de uma realidade conflitiva do povo. Evidentemente, na prática já havia muito trabalho assim de base, sobretudo feito pelo Frei Carlos Mesters. Essa prática, porém, exigia um aprofundamento bíblico teórico, produzindo textos, etc. E o Frei Leonardo Boff, naquele tempo, tinha um apêndice da REB, dirigido por um exegeta, o professor Frei Raul Ruiz, da Província de Santa Cruz, publicado em fascículos com o título “A Mesa da Palavra”, ano A, B e C. Em cada número da REB, aparecia um fascículo. Terminada essa série, veio uma seguinte e aí publicamos em volumes por anos: A, B e C. Mas terminados os seis anos de experiência, aquelas páginas reservadas - 80 ou mais -, foram oferecidas pelo redator, Frei Leonardo, para o nosso grupo. Não dava para você chegar aí e dizer “vamos publicar uma nova revista”. Não é tão simples assim. Então, achou-se melhor pegar uma revista e colocar um apêndice. Não demorou mais de um ou dois anos e o apêndice se tornou uma revista independente. Foi um sucesso: Os dez primeiros números chegaram a ter reedições, chegando a mais de 5 mil exemplares. Depois do número 10 em diante, em razão de crises econômicas e de o estudante de Teologia não ter mais condições de comprar esse material, ela foi caindo e continua caindo. Outra razão da queda de tiragem é o fato que foram sendo criadas dezenas de revistas ligadas a institutos teológicos ou faculdades de teologia, das várias congregações e universidades. Hoje, a possibilidade de você ter acesso a informações na área da Teologia ou Bíblia é dez vezes maior do que quando se criou a revista Estudos Bíblicos. Hoje, sua tiragem é de menos de mil exemplares. Mas continua firme. O próximo 6


número será sobre metodologia bíblica e um dos primeiros fascículos foi também sobre o tema. Ou seja, é sempre uma preocupação: Como interpretar a Bíblia? Site Franciscanos - E quando sai o número 100 da Revista Estudos Bíblicos? Frei Ludovico – O número 100 sairá no final deste ano. Como são quatro fascículos publicados por ano, em 25 anos, chegamos a 100 números. Evidentemente, ela mudou um pouco de destinatários. No início, eram os agentes de pastoral e biblistas populares. Hoje em dia, temos materiais mais próximos das necessidades imediatas da ação pastoral bíblica, como os materiais publicados pelo Centro de Estudos Bíblicos (CEBI). Por isso, nossa revista Estudos Bíblicos está ganhando cada vez mais um status de revista voltada diretamente ao estudo dos textos bíblicos. Ela está mais orientada para quem se formou em teologia, quem tem conhecimentos maiores na área bíblica, para estudantes de graduação em Teologia e mesmo pós-graduação. Site Franciscanos – Qual sua opinião sobre o Evangelho de Judas? Frei Ludovico – Para dizer a verdade, não li o texto inteiro. Li aquelas primeiras indicações que apareceram na imprensa. Tenho o texto aqui, mas não tive a paciência de ler. O Evangelho de Judas, como outros apócrifos, são estudados hoje cada vez mais. Evidentemente representam um período da formação do cristianismo, formação até de várias igrejas e tendências, algumas delas que foram rejeitadas porque não representavam a fé da maioria. Baseando-se em tal literatura apócrifa, às vezes se faz a crítica ao cristianismo tradicional: “ah, poderia ser também isso; poderia ser aquela outra visão”. Neste evangelho, Judas é um confidente de Jesus. Pessoalmente, como exegeta, sem me interessar pelo evangelho de Judas, acho que ele era um entusiasta de Jesus, tão entusiasta que ficou decepcionado quando Jesus entrou em Jerusalém e não aconteceu aquela explosão do reino messiânico. E aí ele pensou: “Bom, vou dar uma ajudazinha!” Sabendo que os sumos-sacerdotes queriam a condenação de Jesus, apresentou-se para dizer “eu vou ajudar vocês!” Mas ele mesmo estava esperando que, na hora H, Jesus iria libertar-se e mostrar quem ele era. Na sua visão apocalíptica: iria explodir o reino, Jesus haveria de tomar conta do poder e seria a figura messiânica tão esperada. Só que isso não aconteceu. Daí veio o desespero dele. A explicação que o Evangelho de João dá, mais tarde, – que Judas roubava dinheiro e vendeu Jesus porque amava o dinheiro – é do final do primeiro século. Acho que não tem nada a ver com os fatos acontecidos realmente. O que torna assim mais evidente – penso eu e outros também – que Judas e outros discípulos, como Simão, o Zelote, e o próprio Pedro, que usou a espada, enfim, todos os discípulos tinham a esperança que Jesus iria ser rei em Jerusalém. Estavam disputando quem seria o primeiro, o segundo, não no reino dos céus, mas em Jerusalém. Então, se torna evidente que Judas tinha a sua visão e queria dar uma ajudazinha: “Vou jogar Jesus na fogueira e ele vai mostrar quem é”. E para a decepção, Jesus foi condenado à morte e ele, desesperado, enforcou-se. Então, você não precisa ler nenhum apócrifo para ter uma opinião dessas. E nós vamos ter surpresas: vamos encontrar Judas lá no céu! Site Franciscanos – Dos 112 livros catalogados como apócrifos, 52 têm relação com o Antigo Testamento e 60 com o Novo Testamento. Que função importante podem ter para os cristãos, em geral? Frei Ludovico - Tem tanta coisa escrita aí que não tenho opinião formada. O que acontece, sempre de novo, é que pessoas maldosas querem dizer: “Olha, a Igreja escondeu 7


este manuscrito!”, como também falaram que o Vaticano está escondendo manuscritos de Qumran. Qualquer pesquisador, cientista sério, sabe da dificuldade de interpretar um texto desses. Existem rolos em cobre dos escritos de Qumran. Como é que você vai abrir aquele rolo, todo enferrujado? Esses manuscritos foram encontrados como tantos e tantos outros no Egito. E tem leituras que correspondem a outras leituras da época, como é o caso do evangelho de Tomé e outros evangelhos gnósticos. Quer dizer, novidade mesmo não tem. Hoje, quem está falando do evangelho de Judas? Passou. É o sensacionalismo do momento. Em outras palavras: tudo que tem a ver com Jesus, a favor ou contra, ou tem a ver com a Igreja, ainda dá Ibope. Se você quiser escrever um livro para ter fama, é só mexer com a figura de Jesus ou da Igreja. Agora, estudar os evangelhos autênticos, canônicos, é outra coisa. Ninguém está negando que esse evangelho de Judas ou o de Madalena tenha algumas verdades um pouco esquecidas sobre a importância de figuras femininas na vida de Jesus. Pode até ter, e daí? Nós somos frutos de nosso tempo, assim como os evangelhos são do seu tempo. Que o estudo dos apócrifos possa esclarecer um pouco o tempo, não há dúvida. Tendências teológicas, visões, antropologias, isso sem dúvida nenhuma, mas não acho importante esse evangelho de Judas. Qual é, enfim, o “evangelho”, a “boa-nova” desse texto? Eu não tenho nem tempo para estudar a Bíblia, vou agora estudar os apócrifos? Alguns preferem falar de literatura extra-bíblica, porque o termo apócrifo, para os protestantes equivale aos nossos deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e 1-2Macabeus). Site Franciscanos – Como nasceu seu interesse pela visão ecológica bíblica, como podemos ver em diversos artigos sobre o assunto? Frei Ludovico – Surgiu de um convite. O redator da revista “Grande Sinal” me pediu um estudo, já que estávamos naquele clima da Eco 92, no Rio de Janeiro. Foi então que comecei a me interessar pelo assunto. Li vários livros dos quais já tinha conhecimento, muitos deles publicados pela própria Vozes, editora que sempre se interessou pelo assunto ecologia. E aí comecei a perceber que havia uma acusação contra a(s) Igreja(s): o cristianismo ocidental seria o responsável pelos maus-tratos para com a natureza, baseando-se numa interpretação do Gênesis, “... dominai e submetei todas as criaturas”. Este texto seria um ‘cheque em branco’ que Deus teria dado para o ser humano fazer o que quisesse com as outras criaturas e o ambiente todo. E aí a gente percebe que não é bem essa a verdade toda. Que nós temos muitas outras causas, uma delas é, digamos, a ciência, a tecnologia, o homo cientificus, que quer analisar, estudar, manipular – atitudes que, em si, nada tem a ver com o cristianismo. A evolução do ocidente levou a isso. Em outras palavras, também podemos dizer que a agressão ao meio ambiente começou com a simples presença humana. Há um livro do ecologista e teólogo norte-americano, Thomas Berry, com o título The Dream of the Earth (“O Sonho da Terra”), no qual o autor chega a dizer: vamos imaginar que vai haver um tribunal reunindo todas as criaturas da terra. E aí o acusado vai ser o ser humano. Todas as criaturas da terra chegarão a um acordo: vamos expulsar este intruso que está atrapalhando a vida de todos os demais seres vivos. Vamos expulsar do planeta Terra o ser humano. Em outras palavras, é aí que está a nossa responsabilidade. Nós fomos criados à imagem e semelhança do Criador. Ele nos deu uma competência, uma capacidade criadora. Somos inteligentes, somos homo faber, o homo sapiens; podemos manipular a criação, transformá-la, mas devemos ter a responsabilidades de nossas ações. Então, lembro o complemento de Gênesis 2: o ser humano foi colocado no jardim, plantado por Deus, para cuidar dele e para cultivá-lo. A simples presença do ser humano no planeta Terra, deu início à agricultura, à cultura de maneira geral, 8


à tecnologia dos instrumentos – e com isso também, à agressão ao meio ambiente. O homem precisa de minérios para fazer os seus instrumentos de trabalho etc. Precisa limpar o terreno e plantar; quer dizer agredir a terra, modifica o ambiente para fazer a agricultura. Então, temos que aprender a conviver com o ambiente todo e deixá-lo ser. Permitir que as criaturas todas vivam, sem eliminá-las. Hoje, estamos mais conscientes disso. Em resumo, o gosto pela ecologia nasceu de um convite e desde então “não larguei o osso”. Site Franciscanos – Dá para salvar o planeta ou estamos próximos de um apocalipse? Frei Ludovico – Dá sim. Porque somos seres inteligentes. Estamos percebendo que não podemos continuar assim. Temos tecnologia que nos pode ajudar? Sim. Mas o mais simples é deixar de agredir, deixar ser, o que já recuperaria muita coisa. Mas também podemos usar a tecnologia para dinamizar o próprio crescimento, promovendo a recuperação da natureza, começando a plantar de forma mais inteligente, cuidando melhor da qualidade da água, recuperando as matas ciliares, podemos reciclar os materiais usados etc. Temos “N” possibilidades de salvar o planeta, nossa Mãe Terra. E aí está o Sefras, que pode dar uma excelente contribuição. A propósito, há um autor famoso, chamado James Lovelock – a quem o Leonardo Boff sempre se refere –, que formulou uma teoria da Gaia, isto é, do Planeta Terra como organismo vivo. O termo vem do grego ghé, a terra, daí gaia. Trata-se de uma mitologia que liga a uma deusa o planeta Terra. Quem é esse James Lovelock? Ele é um cientista, um médico, convidado pela Nasa para estudar o clima dos planetas, a composição dos gases que formam sua atmosfera. Eles o convidaram para estudar os gases já identificados através dos satélites e sondas espaciais, presentes em outros planetas. A finalidade era comparar este estudo com os gases que formam a atmosfera de nosso planeta Terra, e detectar assim a possibilidade de alguma forma de vida nos planetas do sistema solar. Este estudo era importante também para uma possível missão tripulada a estes planetas. Mas, ao fazer estes estudos, Lovelock despertou para um estudo mais profundo do clima da Terra, percebendo que a Terra é um organismo vivo. Daí a teoria da Gaia. Como é que se pode estudar o que está lá, longe de nós, se não a partir de nós? Lovelock se tornou o corifeu principal dos ecologistas. O Partido Verde da Europa o adotou até como um ídolo do movimento ambiental. Mas ultimamente James Lovelock escreve um livro, intitulado “A Vingança de Gaia”, falando dos resultados dessa agressão ambiental e como a Gaia (nossa Mãe Terra) está respondendo negativamente, fato que estamos presenciando todos os dias. O que fazer para salvar o planeta? O que fazer para evitar o efeito estufa, a poluição dos gases, as calamidades de todo o tipo, o degelo das geleiras dos pólos etc. No livro, esse autor afirma que temos pouco tempo para salvar o planeta. Ele é meio alarmista, mas não é bobo. É um cientista de 80 anos, muito experiente e bem lúcido. Ele diz que temos no máximo dez anos para frear esta tragédia. Se não fizermos isso nos próximos dez anos – e já se passaram dois – o processo do degelo das geleiras e pólos pode se tornar incontrolável e irreversível. Ele faz uma comparação: se você compactar a quantidade de dióxido de carbono que se lança na atmosfera, durante um ano, equivaleria a uma montanha de 1.500 m de altura por 19 km de circunferência, isto é, um cone colossal. Isto tudo espalhado na atmosfera do Planeta Terra e fazendo uma camada estufa, não permite liberar o calor recebido do Irmão Sol, mas o retém como um cobertor. Com isso, a terra está febril. Se você joga muitos cobertores sobre uma pessoa que está com febre, chega um momento que ela morre sufocada. Não agüenta mais. É isso que está 9


acontecendo com o nosso planeta. Segundo Lovelock, precisamos urgentemente não só economizar energia, mas mudar de padrão de consumo, buscando novas fontes de energia. Se você consultar site Google Earth, verá nosso planeta todo iluminado de noite. Uma esplêndida luminosidade na parte escura do planeta, mas que revela o intenso consumo de energia elétrica. Nossa civilização vive e sobrevive graças à energia elétrica. Sem energia elétrica, você, Moacir, nem estaria gravando esta entrevista aqui. Sem energia a gente fica bobo diante de um computador. Sem energia elétrica, nós não podemos viver. E como é produzida a energia elétrica, pergunta Lovelock? Nós, no Brasil, somos exceção, porque temos mais de 70% da energia elétrica de origem hídrica. Na maioria dos países, porém, quase toda a energia elétrica é de origem fóssil. No Brasil, a quantidade de energia elétrica de origem nuclear é ainda pequena. Na maioria dos países é usado carvão mineral, petróleo ou gás para produzir energia elétrica, todos eles poluentes. Lovelock chega a afirmar que precisamos urgentemente multiplicar o número de centrais nucleares. Esta não é a opção ideal, mas é a mais confiável no momento e a que menos aumenta o efeito estufa, já em andamento. E aí o pessoal do Partido Verde se escandalizou. Lovelock responde: Se temos essa montanha de gases de dióxido de carbono, a cada ano, todo o lixo atômico que sai das usinas que produzem energia elétrica equivale a 16 metros cúbicos por ano. Será que nós, seres inteligentes, não temos tecnologia para armazenar por milhares e milhares de anos esse lixo? Deixando de lado esta discussão, a lição mais importante é que devemos economizar, poupar, desperdiçar menos, consumir menos. Neste ponto, o carisma franciscano da pobreza é atualíssimo. Fica a pergunta: Nós franciscanos entramos na onde do consumismo desenfreado, ou somos módicos, pobres no consumo dos bens da Mãe Terra? Frei Ludovico – O sr. elabora o Concurso Bíblico nas pagelas da Folhinha do Sagrado? Como é o retorno desta iniciativa? Frei Ludovico – Sim, sou eu que elaboro. E a Folhinha recebe muitas respostas. Tem respostas que são individuais e outras coletivas. Tem gente que não responde nada, mas utiliza o roteiro para seu estudo pessoal ou em grupo. Tenho tido respostas de dois extremos. Gente que me xinga, reclama por causa das perguntas provocadoras ou as perguntas são superficiais, e assim por diante. A finalidade das perguntas bíblicas é levar o católico, ainda não bem familiarizado com a Bíblia, sobretudo, com o Antigo Testamento, a ler o texto com mais atenção. De fato, a resposta está dentro do texto. Mas sempre que possível faço uma pergunta a propósito do texto, mas partindo da experiência pessoal, a fim de ligar a Bíblia com a vida da pessoa. Na maioria das cartas recebidas pela Vozes, as pessoas são muito gratas pela ajuda e orientação que recebem para a leitura e meditação da Palavra de Deus. Site Franciscanos – Como o Sr. vê a leitura popular da Bíblia? Há restrições? Frei Ludovico – A leitura popular da Bíblia que conheço não tem restrição nenhuma. Quando se fala em leitura popular, pensa-se numa leitura a partir da realidade, onde se faz uma ponte entre a experiência humana e o texto revelado. É nessa leitura que realmente acontece a palavra de Deus. O texto sozinho, sem o leitor que o interpreta ainda não é a palavra de Deus. A palavra de Deus é comunicação do divino com o humano, e essa acontece no encontro do leitor com a Bíblia. Palavra de Deus é, portanto o texto que eu aplico para a minha vida. Evidentemente, não posso entender leitura popular como uma leitura fundamentalista ou literal. Há católicos, que, às vezes, muito apressadamente, apenas acabaram de ler um texto e já vão dando o “critério”, isto é, a sua interpretação, sem uma verdadeira escuta da palavra, que acontece no silêncio e na oração. Vamos devagar, não 10


é? Vamos entrar primeiro dentro do texto e tentar entender o que ele que ele quer dizer. É claro, eu leio e entendo o texto bíblico a partir do que sou, a partir de minha experiência pessoal, dos problemas que vivo. Para mim, a leitura popular da Bíblia é coisa mais bonita que está acontecendo no Brasil e na América Latina. Site Franciscanos – E sobre o Projeto da CRB “Leitura Orante da Bíblia”? Veio para ficar ou foi uma iniciativa pontual? Frei Ludovico – Acho que a leitura orante da Bíblia veio para ficar, sim. Outra coisa é se nós, frades menores da Província Franciscana da Imaculada, entramos nessa leitura orante como um método de meditação, oração e contemplação. Indiretamente fazemos a leitura orante individual. Mas há uma metodologia já consagrada para a leitura da Bíblia, disponível para os religiosos em geral. Acho que ela veio para ficar e teria de ser recuperada, mesmo, para a leitura pessoal. Eu entendo que nós, frades, sobretudo sacerdotes, mas também os religiosos, temos de ser os primeiros destinatários da palavra de Deus. Como é que eu vou pregar para os outros, se não estou vivendo o que a Palavra me diz. Segundo a “Dei Verbum”: “Um bom pregador da palavra de Deus é aquele que vive internamente o que prega externamente”. E o povo percebe isso. O povo percebe quando você vive o que está falando ou você fala porque tem que falar. O povo não é bobo, não! – Sobre a Leitura Orante da Bíblia veja a “Coleção Tua Palavra é Vida”, série publicada pela CRB e pela Loyola. Site Franciscanos – Quais os recursos atuais da Internet que o Sr. considera importantes para a formação e estudo bíblicos? Frei Ludovico – Temos coisas maravilhosas nesta área. Outro dia, o responsável do “Fale conosco” do site do ITF, Frei Gustavo Medella, enviou-me uma pergunta recebida pelo site: “O que é a Pechita?”. Eu respondi que a Pechita é a tradução siríaca do Antigo Testamento, que também tem inclui o Novo. Citei dois livros da Vozes, onde havia uma explicação mais detalhada. Depois, por curiosidade, entrei na internet para conferir e vi dezenas de textos para consultas referentes à Pechita. Quer dizer, a internet é uma mina de informação; hoje em dia indispensável. Evidentemente que, pelo site da Província e do ITF, podemos marcar presença na internet ainda maior do que já estamos fazendo. É uma forma de comunicar idéias, diferente da simples publicação de livros ou artigos. Os livros nunca vão perder o seu valor. Mas, a informação de primeira mão, você encontra na internet, às vezes nem sempre bem correta, mas sempre disponível para a consulta. Site Franciscanos – O sr. gostaria de deixar uma mensagem neste final de entrevista? Frei Ludovico – Para concluir, diria o seguinte, relembrando a frase: “O bom pregador da palavra de Deus é externamente quem a vive internamente”. Quando o papa João Paulo 2º propôs que deveríamos chegar ao novo milênio com novo espírito, novo modo de evangelizar, qual foi a proposta da CRB e do CELAM? Primeiro vamos auto-evangelizar-nos; em conseqüência veio a proposta da leitura orante. Primeiro, devo me impregnar da palavra de Deus, de Jesus Cristo, viver a fé, para depois evangelizar. Acho que a proposta da CRB e CELAM continua vivíssima e sempre atual. Aparecida, no fundo, nos convoca para isso. Como podemos ser discípulos e missionários de Cristo se não conhece o Jesus dos evangelhos, o Jesus do Novo Testamento? Afinal de contas, nós frades nos comprometemos a “observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo...” 11


Frei Ludovico é natural de Alto Irani, Santa Catarina. Nasceu no dia 24 de agosto de 1939 e ingressou na Ordem dos Frades Menores no dia 19 de dezembro de 1958. Fez a profissão solene no dia 2 de fevereiro de 1963 e foi ordenado sacerdote no dia 4 de julho de 1965. Formação acadêmica 1967-1968: Mestrado em Teologia Pontifício Ateneu Antoniano de Roma, Itália. 1968 - 1971: Mestrado em Sagrada Escritura Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália. 1971 - 1972: Doutorado em Sagrada Teologia Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, Roma, Itália Publicações “O juízo divino na História. A História de Israel em Ez” 20,1-44 (Pars Dissertationis). Extrato de uma tese doutoral em Teologia Bíblica. Petrópolis: Ed. Vozes, 1975. “Bíblia Sagrada”. Tradução dos originais hebraico, aramaico e grego. Coordenação geral de L. Garmus, incluída a tradução de vários livros, revisão exegética geral, preparação de introduções, notas e apêndices. Petrópolis: Ed. Vozes 1982, 1550 p. “Bíblia Sagrada”. Publicação da nova edição, corrigida e revisada, sob a responsabilidade da revisão exegética e coordenação geral de Ludovico Garmus. Petrópolis: Ed. Vozes, 45a edição, 2001. Disciplinas que leciona no Instituto Teológico Franciscano Exegese III: Pentateuco Exegese IV: Livros históricos Exegese V: Livros proféticos Exegese VI: Livros sapienciais Hebraico bíblico I e II Editor responsável pela Revista Estudos Bíblicos, editada pela Vozes 12

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