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1 Festa da Exaltação da Santa Cruz Ordenação dos Diáconos Permanentes dia 14/09/2013 Celebramos no dia de hoje a festa da “Exaltação” da Santa Cruz, sinal que mundialmente identifica o cristianismo, da mesma forma que a meia lua identifica o islão ou a estrela de seis pontas formada por dois triângulos equiláteros significa o judaísmo.

A primeira leitura fala-nos da serpente de bronze que Moisés ergueu no deserto por ordem de Deus. Quando os israelitas eram mordidos pelas serpentes venenosas, se olhassem para aquela imagem ficavam curados. Jesus no evangelho compara a Sua crucifixão à serpente erguida por Moisés, como fonte de salvação. Ele quer que olhemos para a Sua cruz com fé e piedade, que saibamos ler esse livro ao alcance de todos. O crucifixo foi o livro dos santos, mesmo dos grandes teólogos. Um dia perguntaram a São Boaventura qual era o seu livro preferido e ele respondeu: – “o crucifixo”. “Cruz stat dum volvitur orbis, este o lema da Cartuxa, ordem religiosa contemplativa fundada por São Bruno no século XI. Traduzido em português: “A Cruz é estável, enquanto o mundo dá voltas”. As modas e as mudanças constantes são próprias do mundo, ao passo que as coisas da fé são inalteráveis, posto que Deus, o objeto da fé, é inalterável. Por esta razão, quando contemplamos a História humana vemos um desfile de impérios, com seus reis, caudilhos e líderes diversos, que sobem até alcançar grande poder temporal e logo baixam e desaparecem, como ondas que se quebram na praia. Sem dúvida a Igreja Católica, fundada por Jesus


2 Cristo, Deus Encarnado, permanece através das convulsões da História, e permanecerá até o fim dos tempos. Os seres humanos, à diferença de Deus e Seus anjos, vivemos dentro do tempo, e tudo o que ocorre no mundo o vemos desde uma perspectiva temporal, uma sucessão de causas e efeitos. A fé Católica deve ser um estorvo para os nossos contemporâneos, porque recorda que existe uma Lei por cima de a lei do Parlamento, uma Lei imutável, não submetida às maiorias flutuantes da política, nem às opiniões dominantes de cada época. E é por isso que muita gente que trabalha com afinco para erradicar a verdadeira fé das pessoas. No momento temos que dizer que está tendo bastante êxito. “A Cruz está de pé, enquanto o mundo dá voltas”. A Cruz é a rocha firme, o baluarte que não treme diante das coisas que passam. Ela é estável e firme! Ela está firme enquanto os acontecimentos humanos se desenrolam a seus pés, transformados pelo sangue redentor, pelo benefício de um amor eterno. A Cruz é também o grande sinal da esperança última: “Verão aparecer sobre as nuvens o sinal do Filho do Homem”. A Cruz atravessa as sombras da morte e abre novas esperanças. A Cruz é uma das grandes maravilhas de um amor sem limites e sem explicações, de um amor humano-divino de total doação.

Caros ordinandos, o discípulo é convidado a olhar para Cristo crucificado e comungar Seu projeto e fazer suas as mesmas atitudes.


3 A Cruz passa a ser a lógica dos seus discípulos. Nela, os discípulos, compreendem a vida como um dom; a tarefa de ser disponíveis, construtores da verdade e da liberdade. Na cruz, o discípulo, compreende que optou por dizer não ao egoísmo, ao pecado, ao mundo da mentira, a uma vida fácil e sem exigências de humanidade. Compreende que traz consigo as exigências da Cruz. Compreende e assume a vida pautada pela abertura a Deus e no compromisso com o seu projeto. Testemunha e faz-se cooperador da verdade. Tem audácia profética da denúncia do mundo da iniquidade e da desobediência a Deus. Torna-se discípulo pronto a dar testemunho de Jesus Cristo. Assume sem medo as consequências da perseguição, do sofrimento e da morte. Crê com firme esperança que essa Cruz é esperança de ressurreição e glória. A partir da Cruz o discípulo compreende como lhe é pedida uma atitude de acolhimento, de entrega e de compromisso com a Boa Nova da vida, da misericórdia e da entrega. O Beato João Paulo II, em sua primeira visita ao Brasil, esteve num leprosário, se não me falha a memória, em Belém. Procurou animar os leprosos: “A vossa doença é uma cruz, mas não uma cega fatalidade. O sofrimento pode converter-se num princípio de graça e salvação”. Na capela do leprosário havia uma rosa pintada cheia de espinhos que representava o sofrimento que cresce no amor. Havia também uma imagem de Cristo mutilado de braços e de pernas, diante do qual os leprosos rezam uma antiga oração: “Cristo não tem mãos porque tem as nossas, não tem pés porque tem os nossos, para guiar e conduzir os homens ao seu caminho”. Caros irmãos, ao serem revestidos do ministério diaconal, vocês estão se aproximando para mais perto dele, daquele que é crucificado nos tantos


4 crucificados

que

a

humanidade

engendrou.

No dia da Exaltação da Santa Cruz, passemos os seus rostos com os olhos do nosso coração. Sintamo-nos chamados a percorrer países inteiros, onde há tantos relatos de cruz por causa da fome, da guerra, da injustiça sem fim. Passam por nossos olhos as imagens das vítimas, os corpos mutilados pelas bombas, as mulheres grávidas violentamente, as crianças capturadas nas redes

comerciais

e

sociais.

Ouvimos a voz dos sem voz, o ruído dos pés de tantos emigrantes que deixam sua terra com dor, o eco apagado de tantos condenados à morte por causa do fome, da aids, das drogas, o fio de voz que sai dos cárceres, dos hospitais, de todos os marginalizados. Que nossas lágrimas, nossa solidariedade, nosso estilo de vida, reguem tantas sementes de amor e de esperança semeadas por Cristo Crucificado neste mundo de Deus. Encerrando esta homilia como que ouço alguém me perguntando, mas enfim o que o Diácono Permanente? Já respondi a esta pergunta na minha carta pastoral, nº 13. Sobre o Diaconato Permanente, Identidade e Ministério. Vejam o que dizia naquele documento: “O que distingue o diácono? O que lhe é próprio? Ter clareza a respeito é fundamental para estabelecermos didaticamente a essência do diaconato permanente. O diácono permanente: - Não é um leigo – que, na Igreja, não recebeu ordens sacras –, embora pareça ser; também não é um presbítero, com quem também se parece. - Não é um leigo transformado em “sacristão de primeira” ou em “padre de segunda”. Esclarecendo: não é um substituto do presbítero, não é um “minipadre” nem um sacristão com privilégios ou um leigo promovido. O


5 diácono não substitui ninguém: não é um quase-padre; muito menos, um fiel-leigo com poderes especiais. - A ordenação diaconal não é um prêmio por merecimentos adquiridos ou por benemerências reconhecidas. O seu serviço não é funcional, transitório, ocasional, ou quase um acessório dispensável. Os diáconos não vêm dispensar outros possíveis ministérios leigos; pelo contrário, vêm incentivar uma participação mais generosa e mais responsável de todos os fiéis. De fato, também as comunidades à espera de sacerdote, que receberão a preciosa colaboração de um diácono permanente, não devem criar “confusão quanto ao papel central do sacerdote e à dimensão sacramental na vida da Igreja”. É o que ensina o papa Bento XVI na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis (22 de fevereiro de 2007, n. 75). O diácono é sinal pessoal de Cristo Servo, que veio “não para ser servido, mas para servir”. É ministro ordenado da Igreja e, então, membro da hierarquia com o bispo e os presbíteros. Ao receber o sacramento da ordem, pela imposição das mãos, é ordenado para, especificamente, o ministério de serviço/diaconia. Queridos ordinandos, toda a nossa comunidade se alegra e participa da alegria que vocês vivem hoje conosco. Quis a Igreja reforçar com a graça da ordenação diaconal a vocês que de fato já exerciam funções diaconais, pelo que em tudo o que vocês fizerem, serão para nós imagem viva e sacramental de Cristo, que está entre nós como aquele que serve (Lc 22, 26-27). Preparando-me para a ordenação de vocês, ocorreu-me um pensamento, que agora retomo como referência para o seu ministério. É de um poeta indiano do século passado:


6 “Eu dormia e sonhava que a vida era alegria. Acordei e verifiquei que a vida era servir. Servi e descobri que servir era alegria!� (Tagore).


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