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AMOS E MASMORRAS Parte 2 Lena Valenti

PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES Revisão Inicial: Raissa, Ludmila Serra e Lucilene Revisão Final: Lucilene e Mya


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2ª TORNEIO DRAGÕES E MASMORRAS DS (Dominação/Submissão) VOCÊ SE ATREVE A PARTICIPAR? Quando as masmorras se abrem, os dragões vão à caça.

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Imagem obtida dos reinos de Dragões e Masmorras — Mapa no qual o torneio Dragões e Masmorras D/s se baseará.

Mapa real das Ilhas Virgens Americanas. 3


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O JOGO COMEÇOU ARRISQUE-SE ENTREGUE-SE

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CAPÍTULO 1 No princípio, nos disseram que o amor deveria nascer entre o binômio homem-mulher. Hoje, o amor é coisa de homem-mulher, mulher-mulher e homem-homem. No princípio, nos disseram que o sexo único e verdadeiro é o suave e amável. O BDSM demonstra que também há outro tipo de sexo. Nem bom nem ruim. Diferente. Há dias atrás ela era apenas Cleo Connelly, tenente da polícia de Nova Orleans. Vivia feliz na rua Tchoupitoulas e só tinha um macho em sua vida: seu camaleão, Ringo. Nunca antes havia provado o BDSM, e o único açoite que sentiu em suas nádegas foi o da mão de seu pai quando fazia alguma travessura de criança. Mas há seis dias, recebeu a má noticia de que sua irmã, Leslie Connelly, tinha desaparecido numa missão, e o FBI bateu à sua porta para pedir sua ajuda, já que precisavam de alguém com o mesmo perfil de Leslie para introduzi-la no complicado e delicado caso que sua irmã participava. Confiavam que L continuava com vida; por isso desejavam resgatá-la. E precisavam da sua ajuda. Agora, na atualidade, era Cleo Connelly: agente infiltrada do FBI num torneio de dominação e submissão chamado Dragões e Masmorras DS, no qual interpretaria o papel de submissa e ajudaria a revelar a identidade dos criadores da droga popper e dos traficantes de mulheres que perseguiam há um ano e que utilizavam o torneio como fachada para seus delitos federais. Há alguns dias, seu coração estava inteiro e era livre. Nesse momento, tentava reunir os pedaços que Lion Romano, o agente encarregado da missão Amos e Masmorras em que se via imersa, e instrutor da sua dominação, havia partido, violando sua confiança, subestimando sua capacidade como agente e, também, menosprezando sua atitude como mulher para manter seu interesse. Cleo Connelly nunca havia se sentido tão devastada ou decepcionada como estava agora por e com Lion. Aquilo não ia ficar assim. E se Lion pretendeu lhe tirar do caso, fosse pelo motivo que fosse, ia encontrá-la de novo e inteira e, desta vez, ele teria tudo a perder. Ela viajava num voo da US Airways em direção a Washington D.C. Não gostava de voar. De jeito nenhum. De fato, fazia todas as viagens de carro, por mais longas que fossem… Mas o tempo estava acabando e estavam correndo contra o relógio para participar do torneio em que tudo se revelaria; assim que faria uma exceção e passearia pelas nuvens para se encontrar com seu novo parceiro em Washington: o agente do FBI, Nick Summers, seu submisso. O FBI havia utilizado o convite que Cleo recebeu na noite anterior por parte da Rainha das Aranhas. A Rainha, ou alguém que respondia por ela, ressaltou que os convites personalizados possuíam um código QR cifrado e oculto na parte de trás. Se o escaneassem, levaria diretamente à escolha de uma poltrona em um avião que sairia de Washington D.C. e os levariam diretamente às Ilhas Virgens dos Estados Unidos, mais concretamente à ilha de Saint Thomas, e ao aeroporto Cyril E. King. 5


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Colocaram em andamento todos os trâmites com o jogo, e Cleo Connelly ia se infiltrar no segundo torneio de Dragões e Masmorras DS, aliás, “dons e mistresses” como a rejeitada e surrada Lady Nala, a ex-submissa de Lion King, que agora retomava o papel de ama. O que levava na maleta? Dois corpetes que somavam mais de cinco mil dólares, junto com punhados de raiva e desejo de vingança. Meu Deus, ia ser a isca para a Rainha das Aranhas, estava convencida disso… E quando essa loira Rainha sádica das neves visse que começava o torneio separada de Lion, iria atrás dela e a provocaria. Não ia ser nada fácil. Cleo tentava devorar as lições de BDSM em seu iPad para, ao menos, ter uma oportunidade de se salvarem e não serem eliminados na primeira fase. Esperava que Nick lhe desse uma mão e a guiasse um pouco… Tinha praticado como submissa de Lion, mas não sabia como deveria se comportar como ama. Tinha a estante virtual da sua livraria eletrônica lotada de meias arrastão, salto altos de dez centímetros, açoites, chicotes… Seria suficiente fingir durante um dia que era uma dominadora até que o plano que tinha em mãos de desenvolvesse? Teria que sondar Nick antes; e esperava se dar bem com ele. —Posso te fazer uma pergunta? Cleo levantou o olhar da sua instrutiva leitura e olhou intrigada para sua vizinha de voo: uma mulher com cabelo castanho claro com cachos, olhos negros e enormes. Tinha os olhos pintados com Kajal e sombra de olhos escura, e seus lábios brilhavam com uma tonalidade terrosa. Deveria ter mais ou menos sua idade. Uns 27 ou 28 anos. —Pois não? —Não quero parecer indiscreta… Cleo desligou o iPad e limpou a garganta. Talvez a mulher houvesse se envergonhado ao ver o que estava lendo. Coisas como: “Às vezes, o submisso nem sempre desfruta, e isso acontece porque, dependendo dos castigos aplicados, pode se originar certos pensamentos fatalistas como o de querer abandonar a relação de submissão. Mas acalme-se e lembre-se que o homem, por memória histórica, sempre se achou superior à mulher, e para um macho, ser dominado sexualmente por uma fêmea, não é pouca coisa — já dizia uma ama muito popular. Por isso mesmo, temos que valorizar e, também saber premiar, sua dedicação e sua entrega para aquelas que sempre consideraram (equivocadamente, é claro) o sexo frágil. Os açoites no pênis, a colocação de pinças e a tortura das genitais, nunca deverão ser executadas para eliminar uma conduta inapropriada que desejemos erradicar. Deve haver uma linha que separe as práticas que se realizam para provocar prazer, dos castigos. Você deve deixar seu submisso saber que o dia que o castigue, será lembrado para sempre. O castigo pode ser fazê-lo dormir no chão, comportar-se com indiferença com ele (isso vai matá-lo) ou lhe negando o orgasmo, tudo isso, dependendo do erro que tenha cometido. Mas, se o submisso comete uma e outra vez o mesmo erro, deve se perguntar se o que você considera um castigo duro, não é, justamente, um motivo de prazer sublime para ele e se está se aproveitando muito disso. Às vezes, os submissos são um pouco farsantes, e perante isso, deve dar um bom castigo. Não se deixe enganar”. 6


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— Diga. — Cleo lhe deu um sorriso minimamente amável e educado. — Meu marido... — se calou enquanto ruborizava até a raiz do cabelo. — Meu marido gosta dessas coisas. Cleo fingiu não entender a pergunta, mas também ruborizou. Pareciam dois tomates falantes. Fantástico. Agora daria uma consulta de conduta sexual BDSM. Ou isso ou uma quitanda, já que ambas estavam vermelhas feito dois tomates. — O que quer dizer? A mulher arqueou as sobrancelhas e sorriu docemente. — Achei que você estava lendo sobre dominação e submissão. Só queria fazer uma pergunta. Não importa. — Entrelaçou os dedos e olhou para frente com educação, retirando-se da conversa como uma dama. Cleo observou seu perfil. Era uma mulher bonita e fina. Por que não podia lhe responder? Não faria mal algum falar sobre isso. — Pergunte. Mas já aviso que não sei muito. Sou uma principiante. A moça se virou para Cleo e voltou a sorrir agradecida. — Bom, eu também não —lhe disse como se fosse uma confidência. — Não sei muito... Você acha que um homem com essas inclinações pode aceitar sua mulher de novo? — Não entendo... — Sua mulher —prosseguiu.— A mesma que o denunciou por maus tratos numa sessão... íntima. — Estava falando como se fosse uma menina pequena. — … Um pouco diferente do habitual… a que estava acostumada. Vamos ver se estava entendendo. — Você quer dizer que... — lhe disse do mesmo modo—, denunciou o seu marido por que... — Puxou meu cabelo... E me açoitou nas nádegas... E... — E...? — Me amarrou na cama. — tossiu incômoda, olhando Cleo como se ela fosse a resposta para suas dúvidas. Cleo limpou a garganta. Não tinha nem ideia. — Ele avisou que ia acontecer isso essa noite? — Bom... Sim... Disse-me que essa noite iríamos experimentar algo diferente. Que eu me fantasiaria de donzela e ele de pirata... — Roleplay. — Como? — Isso é chamado de Roleplay. — Visualizou-se num palanque recebendo um diploma, com centenas de homens e mulheres mascarados, aplaudindo sua audácia. — Você se fantasia e interpreta um personagem. — Sim, agora eu sei o que é. — Explicou com olhos tristes. — A questão é que fiz isso, mas não imaginava o que viria a seguir. Ele me... — Te assustou. — Sim...— lamentou-se — não imaginava que ele tiraria minha roupa e fingiria ser um pirata que ia estuprar uma donzela. Eu... Ele —não sabia como explicar—… Ele arrancou minha roupa e 7


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me amarrou. Eu gritava de medo, mas ele pensou que era parte do meu papel. E depois me puxou pelo cabelo e me açoitou com a mão —sussurrou. — Com a mão aberta na bunda toda — esclareceu como se aquilo fosse um pecado capital. — Com força. Mas... “Será que não tinha pipoca no serviço de bordo?” Tinha uma imaginação muito viva. — Você disse para ele parar? — Sim. Ele parou quando viu que eu estava chorando. Tirou minhas amarras e começou a chorar comigo, arrependido, quando me viu tão descontrolada. Fiquei histérica. — Sacudiu a cabeça, como se quisesse apagar essa lembrança. —Ele me explicou que queria brincar de dominação e submissão comigo, e que eu também poderia fazer com ele... Tirou até um açoite de uma caixa e me ofereceu para que eu o açoitasse. Para que eu lhe batesse em suas partes... — sorriu com culpa e apoiou a cabeça no assento, como se estivesse cansada. — Eu o chamei de doente. — Cada uma de suas palavras era como se jogasse sal nas suas feridas. — A questão é que, nessa mesma noite, o denunciei, por mais que ele tenha me suplicado para não fazer isso, que me amava e jamais me machucaria de propósito; que se eu não gostasse desse tipo de jogo, não faria nunca mais, mas... — Você fez de todo o jeito. Denunciou seu marido. — Sim. E depois disso não o vi mais, até quatro semanas depois quando nos reunimos com nossos advogados para eu pedir o divórcio. — Sinto muito. — Era sempre triste saber que um casal se separava. — E eu — respondeu ela com o olhar perdido. — Então, quando o denunciei, vi claramente; mas depois de sair do julgamento...o tempo passou e pouco a pouco quis averiguar o que era aquilo que aconteceu naquele dia... Enganei-me ao ser impulsiva, mas estava com tanto medo, sabe? Há tantos casos horríveis na TV... E aí você pensa que pode ser isso, que a mesma coisa pode acontecer com você... Mostram-nos que o amor e o sexo só podem ser de um jeito... Mas não nos explicam que existem outros tipos de carícias e sexo que podem canalizar o mesmo amor, inclusive de um modo muito mais divertido. Ele só queria... brincar. E eu acredito que o acusei de uma coisa que não era. Cleo compreendia o medo daquela moça. Na noite anterior, ela mesma havia enfrentado um verdadeiro torturador. E teve que sofrer seus golpes e sua força, seu abuso e tortura, como só um homem mau e agressivo poderia mostrar sem compaixão e sem clemência. Mas Lion não era nada disso. Quando ele utilizava um açoite, era para brincar, esquentar e ajuda a conseguir um fim: um orgasmo demolidor. Quando Billy Bob usou o chicote, o fez para fazer dano, ferir, submeter e marcar. Teria sido morta se Lion não tivesse aparecido para salvá-la. As pessoas deveriam saber diferenciar entre um perfil e outro, sobretudo, as mulheres. — Falou pra ele? Falou para o seu ex-marido o que está me contando? — Ele não quer me ver. Não quer falar comigo faz seis meses. Ele tentou muitas vezes antes disso, mas eu continuava um pouco confusa e assustada. E depois da ordem de afastamento que impus... — Você pediu uma ordem de afastamento? — estava surpresa. Cada vez piora mais... — Deus, sim! Muito ruim, não é? Não sei o que aconteceu. Acho que estava perdida... Depois da ordem, foi uma noite na minha casa, entrou pela varanda e... Disse-me tudo o que 8


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pensava do meu comportamento... Rompeu todas as tentativas de contato comigo — entristeceuse. — Mudei-me para a casa dos meus pais, em Lousiania. E não voltei a saber dele até pouco tempo... Cleo não sabia se devia consolá-la ou não. — Você não entendeu o que ele lhe pediu aquela noite e cometeu um erro levada pelos preconceitos. — Claro que não entendi — murmurou mordendo nervosa o polegar. — Agora estou há mais de seis meses aprendendo esse tipo de jogos... Aprendendo a saber como atuar. Porque quero entender o que foi que o levou a querer isso... O que ele viu de divertido em nos fantasiarmos e jogar essa coisa de submissão. E, depois do que aprendi, sabe o que mais? “Não me diga. Você gostou”. — O que? —Eu gostei. Aprendi, inclusive, muitas coisas sobre mim mesma... Coisas que eu não sabia antes. E acho que posso recuperar meu marido e lhe pedir perdão. Ou ao menos tentar. — Você conseguiu localizá-lo? Sabe onde ele está? — Sim. E vou cometer uma loucura... Estou tão louca. Muito... Mas só me resta esta carta para que ele aceite me escutar ao menos uma vez. Apenas uma vez — repetiu para si mesma, com os olhos escuros cheios de esperança. — Depois de tudo o que lhe contei, você acha que ele poderá me perdoar? — voltou a perguntar, consciente de que era uma tarefa difícil. — Você é uma ama ou uma domme, verdade? Acha que ele pode me dar outra oportunidade? Cleo tentou lhe transmitir forças com um sorriso sincero. — Não. Não sou... Apenas me informo. Mas acho que se ele continua amando você e você o ama... Tudo é possível. — Sim. — Brincou com o anel dourado que estava em seu dedo anelar.— Sim... Não deixei de amá-lo. O amo com todo meu coração. Sinto saudades dele. Tudo. Tudo sobre ele, entende? E temos uma menina. Olha só. — Pegou sua bolsa de mão muito cara, a abriu para encontrar sua carteira e mostrou a foto de uma garotinha linda e muito loira com os olhos negros como ela. — Seu nome é Cindy. Tem apenas dois aninhos. — É uma menina muito linda. Parabéns! — Sim, é muito boazinha também. Sente muita falta do pai... Nicholas adora a pequena. A ama, sempre a tratou tão bem... Mas depois do que fiz, já faz tempo que não a vê... Acho que me odeia. — Seus lábios tremeram com a culpa. Cleo pôs uma mão sobre a da mulher. Sua tristeza havia tocado seu coração. Era uma história bastante sórdida, por mais que estivesse convencida de que o marido perdoaria a esposa, sabia que teria muita luta antes disso. — Não há nada impossível. Qual o seu nome? — Sophie — estendeu a mão, enquanto sorvia as lágrimas e sorria envergonhada. — Cleo, encantada. — Igualmente. Sinto muito, nunca falo isso... Não explico minha vida para o primeiro que cruza meu caminho. Mas vi você lendo isso e sou do tipo mal educada que, às vezes, se inclina 9


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para ler a revista da pessoa ao lado... E pensei que você sabia o que era pegar um homem pelos... — levantou a mão e colocou os dedos em posição côncava. — Princípios? — Sim — Sophie riu. Aproximou seu rosto ao dela e confessou: — Não tenho nem ideia, Sophie. Mas vou dar o melhor de mim para amarrá-los. — Os princípios, é claro. — Óbvio. — Piscou um olho. — Somos mulheres de princípios. — Senhores passageiros, pedimos que coloquem os cintos de segurança. O avião está a ponto de aterrissar no Aeroporto Nacional Ronald Reegan de Washington D. C. São quatro e quinze e o dia está ensolarado na capital. Esperamos que tenham tido um bom voo. Quando Cleo desceu do avião, depois de se despedir carinhosamente de Sophie e lhe desejar boa sorte com a reconquista do seu ex-marido, pegou sua mala, saiu do terminal e se dirigiu ao local de encontro com Nick Summers. Um senhor bem vestido tinha nas mãos um cartaz com o seu nome e o levantava acima da cabeça. Cleo aproximou-se dele. — Senhorita Connelly? —Sim, eu mesma. — Conduzirei a senhorita até a sala de conferência. O agente Summers estava esperando em uma sala de reunião privada que o FBI havia alugado no aeroporto. Estariam sozinhos e poderiam falar sobre o que eles precisavam, como colocar em dia suas preferências... e a forma de atuarem como um casal. O avião que os levaria para a ilha de Saint Thomas partia às seis da manhã do domingo e chegaria à ilha às cinco e meia da tarde. Quase 11 horas de voo e duas paradas no itinerário: Newark e San Juan, respectivamente. A sala estava vazia, exceto pelo homem grande e loiro com cabelo espetado e despenteado, que estava sentado na ponta da mesa de conferência. Uma camisa roxa escura agarrada ao peito ressaltava seus bíceps torneados. Seus olhos cor de âmbar avaliavam com bondade, e prontamente levantou-se com educação para recebê-la. Ele era alto. Cleo vestia uma saia preta curta, uma regata de alças largas que não se agarrava ao seu corpo, e sapatos com tiras pretas e de plataforma. Ela havia prendido o cabelo porque lhe dava calor, e, no alto, trazia seus grandes óculos de sol vermelhos. —Você se parece com sua irmã —Nick disse simpaticamente —Por mais que sejam... diferentes. — Sim. Ela é morena e tem olhos cinzas. Eu sou ruiva — apontou a cabeça enquanto se aproximava dele — e tenho olhos verdes. — colocou a bolsa no chão e lhe ofereceu a mão — Cleo Connelly. Prazer em conhecê-lo, Nick. — Igualmente. — Apertou sua mão com convicção e afastou a cadeira para que se sentasse. 10


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Cleo assentiu e o esperou fazer o mesmo, mas em vez disso, se dirigiu ao buffet preparado para eles. — Gostaria de um drinque, Cleo? —Uma Pepsi Light — olhou o que havia na mesa, com interesse — e... uma salada e um sanduíche. Nick assentiu e lhe serviu um prato e uma bebida. Cleo o observou intrigada. Ou era um cavalheiro, ou tinha ficado muito bom no papel de submisso. Nick sentou-se ao seu lado e a observou enquanto comia. — Lady Nala, hein? — Perguntou intrigado. — O par perfeito do Rei Leão. — Foi o que eu pensei. —Mas não eram. Não eram o casal perfeito. — Lion tinha se retirado do caso. — O que aconteceu? Cleo o olhou de soslaio. — Como? — O que aconteceu para Lion decidir se retirar do caso? Você era a chave para ele e para nós. Sua semelhança com Leslie é perturbadora, a preparou por dias... Explique-me o que aconteceu para que eu possa entender, por favor. Pelo que sei Lion não permitiu que ninguém mais te formasse. O sub-diretor Montgomery ia escolher outro amo pra você. Mas Lion foi intolerante com essa opção. Eu o conheço há muito tempo e esta atitude não é do seu feitio. — Não tenho certeza de saber a resposta. É... complicado. —Temos tempo até o avião partir — Fez um gesto com a boca. Indiferente. —Incompatibilidade de gênio? Acho que não nos entendíamos. — Ele é um amo difícil? Nick parecia se divertir com a situação, como se nada o preocupasse, ou pior, como se nada mais importasse. Estava em uma missão se passando por submisso e aproximava-se uma semana definitiva para resolver o caso, se no final houvesse uma ação da polícia, provavelmente, se colocariam em perigo... E esse homem, estranhamente relaxado, tinha uma atitude indiferente para com o seu papel e sua responsabilidade. — Não sei. Nunca tive um amo antes. — Vocês praticaram juntos? — Sim. — Você teve medo ou ficou assustada...? Cleo detectou algo em sua voz. Havia algo importante para ele na resposta a essa pergunta. Que estranho. — Eu fiquei chocada, mas nunca tive medo. Bem, acho que aprendi bem. O agente Romano fez um bom trabalho e esforçou-se em me tranquilizar. — Sentiu-se cômoda? Como é para você ser submetida? —Seu olhar âmbar brilhou com interesse. —Não deve ser muito diferente de ter uma ama. Lion..., digo o agente Romano, teve apenas esta semana para me instruir como submissa... é muito rigoroso, eu acho. 11


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Nick olhou através das janelas que davam para as pistas de pouso e decolagem do aeroporto. — Na verdade, há diferenças entre um amo e uma ama. — Diga —ordenou interessada — Preciso saber, quanto mais souber, melhor. —As mulheres, definitivamente — ressaltou, observando como decolava um avião de mais de mil toneladas—, são mais duras e cruéis do que os homens. —Discordo. — Não estou falando em linhas gerais. Mas a dominadora deve ser assim com o seu submisso. Os homens tendem a relaxar com uma mulher e acreditam que elas são incapazes de nos machucar. Vacilamos, de vez em quando, sabe? — virou para ela e sorriu. Cleo estudou sua expressão. Ele era um homem de feições clássicas, como as de uma escultura grega ou de um anjo torturado. Ela queria abraçá-lo e aliviá-lo de todos os seus demônios. Ele tinha, e tinha muitos. — Você sabe que o papel que irá desenvolver comigo é o contrário do que lhe foi ensinado compreender estes dias? Terá que mudar o chip completamente. — Eu li o que pude. Eu estou fazendo um maldito intensivo sobre dominação e submissão. Preparei-me para acompanhar Lion, mas não esperava esta reviravolta do destino. Farei o melhor que posso, Summers. Conto com sua ajuda e colaboração. — Você terá tem que ser cruel, Cleo. Cleo deu quatro garfadas na salada e mordeu o sanduíche com prazer. Sim, claro que sabia. Teria que se comportar como uma domme, e ela só tinha tentado dar ordens severas para Ringo, e o camaleão nunca prestou atenção. Essa era a sua capacidade de comando. Impressionante. — Sim. Vou tentar, mas eu não acho que tenha as atitudes Hitlerianas no meu DNA. Por essa razão gostaria de propor algo, Nick. Nick deu um sorriso torto e cruzou os braços. — As amas dão ordens, nunca sugerem. Estamos muito mal. Ela o olhou e deu um gole em sua bebida para engolir a comida que tinha na boca. — Já estamos no papel? — Estou no papel desde que entrei na missão, Agente Connelly. Cleo limpou a boca com o guardanapo e recostou-se contra a cadeira. — Posso ser uma dominatrix se me proponho, Nick. — A dominação — fez menção de querer inclinar-se sobre a mesa e conversar mais de perto, mas algo o chamou de volta, e ficou muito reto em sua cadeira — nasce aqui — apontou sua cabeça — Uma boa dominatrix, assim como um bom amo, não é bom porque te coloca de quatro, bate com um chicote ou mete a mão nas suas calças. Uma boa dominatrix põe as mãos no seu cérebro, te seduz, te excita, te deixa nervoso a partir daí. Diga-me uma coisa que chame minha atenção e que me coloque em alerta para obedecê-la, Cleo. Mostre-me do que é capaz. A agente entendeu a necessidade de Summers em querer testá-la. De tudo que havia lido anteriormente sobre a dominação feminina, tinha algumas coisas mais claras e gravadas do que outras. Deveria aproveitar isso. 12


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“Uma ama era altiva, mas não arrogante. Tudo é uma questão de atitude. Uma boa ama redireciona as situações a seu favor. A boa ama aplica castigos, não tortura. Não teme machucar o submisso porque ele busca esse tipo de estimulação. O tom de voz da ama é imperativo em todos os sentidos.” “Ok, Cleo. Vamos lá. Você pode fazer isso.” Cleo inclinou a cabeça para um lado, levantou-se e caminhou lentamente para ficar atrás das costas de Nick. Com sapatos de plataforma parecia maior do que realmente era... Isso lhe deu um pouco mais de confiança. Acariciou a cabeça de Nick e... zás! Enfiou os dedos nos cabelos até puxar seu pescoço para trás e sussurrar em seu ouvido. — Tudo bem, bebê. Não sei se você é meu tipo de submisso, sabe? Não sei se tenho um feeling com você. — Capturou o lóbulo da orelha entre os dentes e puxou com força enquanto dizia — Mas se continuar falando assim, vou te fazer usar um avental de empregadinha e vai limpar meus sapatos com a língua. —Está indo bem, Connelly. Surpreenda-me. Ela riu sem uma pitada de diversão. Com frieza, assegurando-lhe que não ia ficar bem se a irritasse. — Acha que eu não faria isso? “Uma boa ama sabe o que o submisso quer quando ele replica. Ele pergunta, sua ama responde. Ele pede, sua ama castiga.” Cleo correu as unhas em seu peito, arranhando forte o suficiente para que sentisse suas garras com unhas francesinhas através do tecido da camisa. — Quero que me agrade. E fará isso no torneio. — Capturou um mamilo, esticou e torceu com força: — Gosta disso, Nicki? — Não me chame de Nicki — grunhiu aceitando de bom grado tal tratamento. —Chamo você como quiser. Não o tocarei, sequer vou jogar com você. O que eu quero, o que realmente me deixaria feliz, é ver como você desfruta com as criaturas. Nick riu, apreciando o puxão de cabelo e a dor em seu mamilo. — O que disse? Não... — Silêncio. Nick imediatamente se calou. — Você quer me agradar? — voltou a sacudi-lo pelos cabelos. — Sim. — Sim, o que? — “Tome isso! Lion me ensinou isso.” — Sim, ama. — Agora pergunte o que quero que você faça. — O que quer que eu faça? — Quero que você dê o sangue para me ajudar a conseguir o primeiro baú na primeira fase. É muito importante que eu o consiga. Vais me agradar? Nick engoliu em seco e a olhou de soslaio. —Olhe para mim outra vez e terá a língua presa com pinças. 13


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O agente, pleno em seu papel, olhou para baixo. — Não me faça repetir duas vezes, você irá me agradar? — Sim, ama. Eu farei o meu melhor para ganharmos o cofre. — Vai ouvir a minha proposta? — Depende. — Aqui não existe “dependes”, bonitão, ou eu juro que deixarei seus ovos da cor das uvas negras. Agora vai escutar minha proposta? — deu um puxão mais forte que o anterior. — Sim, ama. Cleo o soltou e deu um passo atrás. Pouco a pouco a atmosfera imperativa desapareceu. Cleo cruzou os braços e, fingindo uma segurança que não tinha, tomou seu lugar na cadeira. — Essa é a atitude — Nick confirmou desconcertado. — Ah, sim? — O rosto de Cleo se iluminou com esperança, e de repente, começou a aplaudir a si mesma e a dar voltas na cadeira como uma colegial — Parabéns pra mim! Parabéns pra mim! Nick não sabia como atuar perante aquela reação. A agente Conelly tinha deixado de ser uma dominatrix e virou uma jovem groupie. — Incrível — murmurou intrigado. “E essa era a mulher de Nova Orleans que tinha conseguido enlouquecer o Rei Leão? Interessante”. — Conte-me seu plano.

Meia hora depois, Nick tentava assumir o papel que lhe conferia sua nova ama. O certo era que Cleo e Karen eram totalmente opostas. Karen tinha sido inexorável e intolerável com ele. Isso era exatamente o que Nick Summers procurava para purgar seus pecados. A missão Amos e Masmorras caiu como uma luva para poder exterminar seus demônios e extravasar o passado. Sem que a agente Robinson soubesse, estava fazendo uma terapia para ele. Mas Karen havia quebrado o braço e não podia acompanhá-lo no torneio. Agora teria que ser o parceiro da exsubmissa do agente Romano. Quem sabe o que realmente aconteceu entre eles... Lionel estava muito arisco quando conversaram essa manhã para acertarem as instruções sobre o lugar exato em que iriam deixar as malas com as munições nas Ilhas Virgens. Cleo Connelly era como um coelhinho em meio a um bosque de lobos. Tinha coragem. Mas não era uma dominadora. Poderia simular ser uma em alguma ocasião, como agora pouco, mas a dominadora nascia e se fazia. Ainda faltava muito para Cleo aprender. E o certo era que, para que ambos continuassem com a missão, o melhor era seguir passo a passo o plano traçado pela jovem: um muito original e estudado. Um que poderia ter sucesso apenas se conseguisse um dos cofres que seriam escondidos na segunda-feira. Nenhum dos dois poderia continuar se permanecessem juntos. Ela não poderia se passar como Ama. Ele poderia lhe ensinar açoitar e a executar algumas técnicas simples, mas não poderia seguir em frente quando chegassem as provas mais 14


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complicadas. Cleo não saberia atá-lo na cruz, tampouco imobilizá-lo, nem sabia como ele gostava de ser tocado. Seriam eliminados na primeira prova. E deveriam chegar à final fosse como fosse. Então, a proposta de sua companheira era a melhor opção. Com um novo respeito por ela, conferido por sua esperteza, decidiu instruí-la na sala privada. Com o básico pelo menos. O nível um da dominação. Indicou-lhe como deveria contrair o pênis com o anel estrangulador; explicou em que zonas do ventre e das nádegas deveria bater. — Você é uma Ama de classe Shelly — advertiu o agente loiro. — Karen tinha essa classe e você deverá interpretar essa classe. Isso quer dizer que na apresentação do torneio você deverá usar este tipo de roupa. — Abriu a mala dos acessórios de Karen. Um vestido de látex rosa vistoso muito ajustado, com um cinto largo de pele na cor azul e uma espécie de capa de seda brilhante na mesma cor. Acompanhavam a “fantasia” umas botas pretas de verniz que chegavam até a metade a coxa. — Já sabe. Você é carinhosa e controladora, e usará o chicote. Cleo estremeceu ao ouvir a palavra chicote. Tinha o corpo cheio de marcas porque um maldito abusador psicopata havia lhe açoitado várias vezes com o chicote sem nenhum escrúpulo. O som do chicote ao cortar o ar e golpear na pele a deixava doente. Mas como Ama teria que fingir açoitar, então açoitaria. No entanto, tentaria não ter que utilizar o maldito chicote porque com certeza machucaria sem querer. Para isso, precisaria usar bem as cartas. — Chegaremos a Saint Thomas por volta das cinco e meia — explicou Nick. — Nos dirigiremos ao hotel. A noite iremos como casal no jantar de apresentação do torneio. E, no dia seguinte, começamos a queimar nossos cartuchos. — Acha que poderemos obter algum tipo de informação no jantar? — A única informação que poderemos tirar será a relação entre os casais. As Criaturas estarão no jantar. A Rainha das Aranhas irá apresentar casal por casal... Deveremos observá-los e estudar seus pontos fracos. E saber com quem poderemos contar parar formarmos alianças. Aqui tem seu passaporte falsificado. Você é do Texas, Lady Nala. — Sim. Eu sei. — Tudo bem — murmurou.— Todas as pulseiras, inclusive a que nos enviaram para o torneio, terão um chip de detector via satélite. Lion tem em seu poder as falsificações que nos mandaram o pessoal da logística. Trocaremos umas pelas outras e poderemos sair dos complexos sem que ninguém nos controle. Nossa equipe implantada nos deixará uma mala com armas em uma das 40 ilhotas que completam as ilhas. É possível que no domingo a noite ou na segunda, alguém nos contate para nos fornecer materiais de áudio e espionagem. Começaremos a colocar microfones de áudio e câmeras via satélite em todos os cenários e locais que iremos. Devemos ter todas as áreas completamente vigiada e passar as imagens em tempo real para a equipe de controle audiovisual. — Perfeito. — Está nervosa, agente Connelly? — perguntou desconfiado. “Nervosa? Nervosa, eu? Por quê, hein? Por quê? Porque morro de vontade de ver a cara do leão quando vir sua ovelhinha?” , riu internamente. 15


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— Estou ansiosa. Minha irmã Leslie está ali. Lion, que me tirou da missão, está ali. A Rainha das Aranhas está ali. E quem quer sejam os Vilões, aparecerão na final... E estarão ali. Não estou nervosa — assegurou contemplando o mapa das Ilhas Virgens.— Estou histérica. Nick riu. — Acho que se você controlar seus nervos e suas ânsias tão bem como controla tudo o que há ao seu redor, tudo sairá bem. Claro. Mas a verdade era que ela não tinha poder para controlar o que está ao redor. Prova disso era que estava com um parceiro que não era Lion.

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CAPÍTULO 2 No BDSM, os casais são tão diferentes e tem necessidades tão díspares como pessoas existem no mundo. Saint Thomas Virgin Islands Jantar de abertura. Charlotte Amalie. A noite em Charlotte Amalie, a capital de Saint Thomas, era digna de um cartão postal. Todos os participantes do torneio foram buscados no aeroporto e levados ao hotel em que se celebraria o jantar de abertura. Tinham chegado por volta das seis da tarde. Só precisaram entrar na recepção e dar seu nome e o de seu par, entregaram-lhes as malas com os mapas da Ilha, dos resorts em que se hospedariam, os transportes particulares com os quais contariam e as localizações que visitariam, além dos horários de cada evento e os inícios de cada prova. O torneio tinha uma organização brilhante. Lion admirava o contraste das luzes portuárias da ilha, o mar azul e calmo, a noite estrelada e os pequenos barcos e iates atracados não muito perto da orla, balançados pela leve maré tropical, ladeados ao horizonte pela ilha de Hassel. O clima era quente, estava em pleno verão, por mais que houvesse umidade nas ilhas caribenhas, o sol e o calor regiam os dias. Havia vestido um jeans escuro fino e uma camisa branca de linho fresco e gola chinesa, que colocou graciosamente dentro da calça, uma parte sim e a outra não. Com o olhar fixo na lua cheia, apoiado no incrível mirante do hotel resort que a organização reservou para eles, pensava unicamente nela. Na bruxinha de cabelo vermelho e olhos de fada que havia abandonado para mantê-la a salvo do jogo e dele próprio. Cleo não merecia ter um companheiro como ele: um que era capaz de deixá-la amarrada numa árvore, à mercê de qualquer louco que pudesse feri-la. Apertou os dentes e esfregou a nuca. Cada vez que se lembrava disso, sua pele se arrepiada e um suor frio cobria sua testa e suas mãos. Os nervos. O estresse. O medo. O chicote nas mãos de Billy Bob e o corpo de Cleo cruelmente açoitado o perseguiriam a vida toda. Mas Lion necessitava focar apenas em sua missão. Deveria deixar as emoções de lado. Havia sido ingênuo e um puto ignorante em pensar que poderia ensinar Cleo e não ficar grudado nela como um viciado e não querer mais. Estúpido. Sua necessidade de dominar tinha nascido para ela, seu instinto protetor era dela. Seu amor necessitado... Essa era Cleo para ele. E depois de estar dentro dela, depois de introduzila nos gostos do prazer-dor, dos orgasmos estratosféricos, como poderia achar que a mulher não ia grudar debaixo de sua pele? 17


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A menina roubou seu coração para sempre. A adolescente esquentou seu corpo. A mulher, definitivamente, roçaria sua alma, e Lion não teria outra opção a não ser hesitar e fazer o que os Amos de coração fazem com suas mulheres escolhidas: cravar os joelhos e entregar sua vida por elas. Sorriu tristemente. A abandonara. Teve medo, medo pelo acontecido com Billy Bob, medo por não saber mantê-la ao seu lado, terror por pensar que, depois do acontecido, ela se aterrorizasse cada vem que ele se aproximasse para jogar e, sobretudo, tinha medo de expô-la no jogo e não poder protegê-la das mãos das criaturas. Dragões e Masmorras Ds não era um torneio simples. Havia muitas combinações para fazer com as cartas, objetos e personagens; combinações que poderiam salvá-los das garras dos Orcs, dos Macacos voadores, dos Homens lagarto e da Rainha das Aranhas. E muitas vezes essas combinações não eram suficientes. Lion era consciente de que Cleo era uma agente infiltrada, e sim, se tivesse que jogar com eles, jogaria. Mas ele não queria que fizesse isso. Compartilhá-la o destruiria. Não era esse tipo de Amo. E por todas essas razões a traiu, deixando-a sozinha em sua casa e afastada da missão. Cleo nunca mais voltaria a falar com ele. Não se aproximaria dele de novo. Tudo estava acabado. O coração doía. Com o rosto sombrio deu a volta para entrar novamente no hotel. Sharon esperava todos os participantes para fazer as apresentações pertinentes e deveriam se reunir no salão principal. Claudia, sua parceira, a própria ama “Switch”— poderia se passar por ama e submissa indistintamente — com a qual jogava de vez em quando, o esperava apoiada na parede. O olhar que Claudia lhe dirigia era muito diferente de como Cleo o olhava. Cleo o abria de cima a baixo e adentrava em sua alma. Já Claudia abria sua calça de cima a baixo e tocava seu pau. Tinha aceitado jogar com ele porque sabia que ambos eram um par forte e poderoso. A mulher topava de tudo; E como era Lion quem tinha lhe pedido e, sabendo como ambos eram conhecidos nos círculos de BDSM, aceitou a proposta porque tinham vontade de ganhar. Com Claudia poderia chegar até a final sem se importar com as consequências. Essa mulher jogava de verdade e não se importava com o fato de cair em mãos alheias. O sexo era sexo para ela. Nada mais. Com Cleo não teria chegado à final. Ele mesmo teria acabado com o jogo se sua garota caísse em um duelo onde tivesse que ficar nas mãos das Criaturas. Não, nem pensar. Com ela não teria conseguido. — Está pronto, senhor? A mulher vestia um short de látex negro e um top do mesmo estilo que deixava entrever seus seios. Seu cabelo era comprido na frente, até o queixo, mas atrás era bem curto. Tinha a pele morena graças aos raios UVA. Era atraente, tinha uma boca farta e ligeiramente entreaberta. Mas seus olhos estavam cheios de fórmulas matemáticas: Era uma grande calculadora. Por dois 18


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milhões de dólares seria capaz de fazer um gang bang com os mais de cinquenta Amos protagonistas que se reuniam na sala de jantar do hotel. Usava um colar grande de submissa, bastante grosso e segurava nas mãos a corrente que pendia dele. Quando Lion chegou até ela, Claudia sorriu educadamente e ofereceu a corrente. — Leve sua cachorra para a sala, senhor. Lion se concentrou no caso. Pensou em Clint morto, em Leslie presa em algum lugar dessas ilhas e, nos demais homens e mulheres que estivessem no torneio contra sua vontade e quais deles eram drogados até o pescoço para realizar as tarefas. Quem seriam? Onde estariam? Era um fodido profissional e seu coração não deveria se importar com nada nesta situação. Lion tomou ar e, pela primeira vez, sentiu que era completamente inadequado estar aqui com Claudia. Porque quando um Amo finalmente prova o mel da mulher destinada a estar com ele, apenas ela poderá satisfazê-lo. Quando entraram novamente no salão, Lion respirou o ambiente de dominação e submissão. Todos se olhavam com respeito, falavam entre si com educação e também com alegria por compartilharem um torneio deste tipo com pessoas com os mesmo gostos. A cor vermelha e preta predominava no ambiente. Havia pelo menos 70 casais de Amos e Amas com seus submissos e submissas. O tilintar dos colares dos escravos, as risadas e as gargalhadas de alguns deles eram ouvidos no ambiente. E caras conhecidas. Lion procurou Nick Summers e Karen Robinson entre a multidão, mas não os encontrou. Tinham que fingir não se conhecerem e atuarem separados, exceto quando a situação lhes permitisse encontrarem-se furtivamente. Avistou, e não sem surpresa, Brutus e Prince que estavam ali na qualidade de amos, e ambos lhe sorriram, surpreendidos que não houvesse levado a garota deliciosa da mansão La Laurie. — Era muito para você? — Prince, todo vestido de preto, com sua gola alta, colocou-se ao seu lado com o olhar cravado no cenário da passarela de apresentação. Dentro de pouco tempo sairia Sharon, como a mestre de cerimônia e daria as boas vindas a todos, apresentando e mostrando os pares um a um para a multidão. Lion o olhou de soslaio. — Veio foder? —Assim como você. Todos vêm aqui para foder — esclareceu Prince com amargura. — O que não entendo é que tenha deixado aquela deliciazinha em casa para trazer a Mistress Pain com você. — Levou até a boca a taça de champanhe francês servida pelos garçons. — Quero o prêmio, sim ou sim. — Olá, Prince — Claudia saudou ronronando. Lion fez uma careta. Prince a saudou em um gesto com o queixo. Prince não tinha nem ideia de que ele era um agente do FBI. Ninguém sabia. Lion se encarregou de construir uma lenda urbana ao seu redor, cheia de mistério e sombras escuras, e era um autêntico enigma para o resto. 19


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Obviamente, ao formar um par com Claudia, se converteriam automaticamente nos favoritos para ganharem o prêmio. — É uma pena que não entenda o por quê, Prince — explicou Lion.— Ninguém melhor que você para compreender tal atitude, mesmo que pelo visto, pra você tudo já nada importe. — Está me dando um sermão, Rei? — De modo algum, já fiz isso uma vez e não deu certo. — Tocou a sobrancelha direita onde havia uma cicatriz. Um músculo palpitou em sua mandíbula. Dor? Rancor? O que importa? Sua amizade estava quebrada. — Por outro lado — Prince deu de ombros —, é uma pena que não a tenha trazido. Teria me encantado em esperá-la em uma das minhas masmorras. Lion franziu o cenho e olhou ao redor, procurando uma coleira, um anel de O..., algo que revelasse a submissa de Prince. Mas não havia nada disso. Prince sorriu. “Merda”, Lion pensou. — Sim — Prince se afastou dele, piscou o olho e ergueu sua taça. — Sou uma das Criaturas. E me entristece muito não ver Lady Nala com você. Mas eu prometo a você, King, devolvo as punhaladas. Não as esqueço. Lion ficou olhando até que o amo das trevas desapareceu entre a multidão. Alegrou-se por não ter trazido Cleo. Prince queria se vingar por algo do passado. Desejava isso há anos. Entre eles havia uma relação cordial, porém, fria. Antes foram amigos, mas, o que aconteceu há três anos abalou a ambos. Prince acreditou que Lion havia seduzido sua mulher, o amor da sua vida, quando os encontrou numa situação comprometedora, em um dos locais que frequentavam como casal. Não foi assim. A realidade foi muito feia e sórdida. Mas Prince fugiu com o coração em pedaços e não quis ouvir nenhuma de suas explicações. Foi uma pena, porque Prince e sua mulher eram únicos como um binômio e amigos muito especiais para ele. Sharon, a Rainha das Aranhas, apareceu com um incrível vestido transparente de cor vermelha. Usava sutiã e calcinha na mesma tonalidade. O foco de luz a iluminou por completo, e todos os amos e submissos a aplaudiram e ovacionaram com força. Sharon era uma rainha em todos os sentidos. Trinta anos, assim como Leslie, muito bonita, porém mordaz e áspera como uma gata que não deseja ser tocada. Ela decidia quando e como. Seu cabelo loiro caía em ondas e cachos cheios de brilho e vida, uma vida que seus olhos caramelos não tinham. Levou o microfone aos lábios e gritou: — Bem-vindos ao segundo torneio de Dragões e Masmorras Ds! Bem-vindos ao reino de Töril! 20


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Todos aplaudiram, gritaram e aclamaram o torneio e sua anfitriã. — Foi um sucesso de participação e uma árdua tarefa escolher um a um os participantes. Mas reunimos o melhor, aos mais experientes e aos — fez uma pausa estudada e depois sorriu — sexys — ronronou. A multidão riu e a elogiaram. Sharon sabia como fazer o público participar e incluí-lo em sua festa particular. — As mesas dispostas aqui estão personalizadas com seus nomes. Como podem ver, temos uma enorme mesa presidencial — assinalou o camarote superior, repleto com todos os Amos e Amas criaturas, os quais observariam com interesse seus rivais —, que não pensa em perder um detalhe sequer do desfile. Mas, primeiro, chamarei os pares um a um para que subam no palco e se mostrem. Pronunciarei o EDGEPLAY de cada um, suas categorias como amos protagonistas e em que são especialistas. Mas antes de começar, deixem-me dizer algo que não estava incluso nas normas do torneio. Como sabem, todo o torneio será acompanhado pelos Vilões. Há câmeras dispostas nos cenários e Venger, Tiamat e Sombra Escura — nomeou os nomes dos vilões do jogo oficial — estudarão os comportamentos dos casais para, em qualquer momento do torneio, apresentar um prova que não poderá ser negada. Caso o façam, serão eliminados do concurso. — Sharon sorriu sabendo que havia pegado todos os presentes de surpresa e que, para alguns, saber daquilo despertava ainda mais o desejo de se superarem. — Os Vilões e as Criaturas esperam por vocês. Dito isto... que comece o show! O S&M de Rihanna explodiu nos alto-falantes. Os pares de amos e submissas começaram a desfilar conforme a Rainha das Aranhas ia chamando. Havia casais de todo tipo. Caracterizados por mulheres e homens que, como Sharon havia dito bem, eram sexys. O BDSM, como a vida, estava repleto de pessoas de todo tipo, mas levando em conta o estilo do torneio e a importância da estética nas performances, haviam escolhido pessoas em boa forma física. O palco e a passarela converteram-se em um desfile de casais. Alguns mais no papel que outros. Nem todos gostavam de se exibir desse modo. Havia amos mais sérios que outros e submissas mais descaradas que outras. Havia casais de lésbicas e gays. — Aqui temos Brutos e seu par, Miss Olívia. Brutus é um amo Bobby e finalmente pôde sequestrar a mulher de Popeye e instruí-la nas artes obscuras... E Olivia está encantada com isso, tanto que adora quando seu amo a mumifique, priva seus sentidos e a golpeie com caning (fusta) e paddling (açoites com pá)... Olívia adora cera, e não apenas para se depilar. E adora que que sentem em sua cara (facesiting). Portanto, atenção com eles! Lion sorriu com as atitudes de Sharon. Era uma mulher inteligente e sabia improvisar. Uma autêntica show-woman. O desfile continuou. Loiras e morenas, da raça negra ou asiática, dominadoras vestidas com látex e submissas seminuas, homens com máscaras completas e mulheres com colares e correntes... Todos sorridentes e mostrando máximo respeito com os demais. — Aqui temos a Ama Thelma com sua submissa, Louise Sophiestication. — Thelma era uma mulher alta e loira, com o cabelo liso recolhido num rabo de cavalo. Estava vestida toda de couro e preto, e olhava a todos por cima do ombro. 21


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Sophiestication era uma bela e elegante submissa de cabelo castanho preso em um coque, com uma máscara negra que cobria metade de seu rosto. — Sophiestication é um bom pedaço de mulher, não acham? Ama Thelma é da categoria Diana. Thelma e Louise, além de pularem de carro por penhascos, fazem autênticas acrobacias. Ama Thelma é versada em todo o tipo de spanking e está disposta a compartilhar sua amiga, Sophiestication, com outro homem ou mulher. Adoram os trios. As mesas começavam a ficar preenchidas com os casais que já haviam se apresentado. O público aplaudia interessado e ria com as piadas da Rainha. — Ora, ora... E o que temos aqui? — Sharon olhou para Lion por cima do ombro e sorriu. — Direto das profundidades da selva africana, entoando Hakuna Matata, temos o Rei Leão e sua belíssima submissa switch, Misstress Pain. Com certeza já devem tê-los visto alguma vez trabalhando juntos. Ambos são espetaculares, verdade? King Lion é um Amo Hank. Faz tudo com todas. É o rei e não existe um animal no reino que não se submeta a ele. King Lion manuseia todo tipo de instrumentos e adora o fisting e o roleplay. Será capaz de conduzir o “timão” da Miss Pain e lhe dar um bom “Pumba”? Lion sorriu com o foco de luz e puxou Claudia pela corrente. A atitude na hora de representar um papel era básica. A luz fez com que entrecerrasse os olhos, mas algo em sua visão periférica chamou sua atenção. Enquanto descia do palco para dar passagem ao próximo casal, entrecerrou os olhos com curiosidade, olhando fixamente àquilo que despertou seu interesse. Uma mecha vermelha tremulava entre os casais de amos e submissas, como uma chama que ardia em fogo lento. Lion e Claudia tomaram seus assentos à mesa. Ainda procurava a proprietária desse cabelo. Apenas Cleo tinha essa cor, e chamava sua atenção que outra mulher pudesse ter aquele cabelo. Não seria tão bonita como Cleo, disso estava seguro. — Ahh... Isto vai ser divertido — murmurou Sharon realmente interessada na próxima ficha. Por um momento ficou sem palavras, mas reagiu rapidamente e anunciou feliz. — Outra selvagem! Das profundezas da selva africana e, — pontuou olhando Lion com surpresa— desafiando o Rei Leão... Lion apoiou os cotovelos sobre a mesa e tomou sua taça de champanhe com um sorriso de interesse. Quem o desafiava? — Temos Lady Nala e seu submisso, Tigrão! O foco iluminou o palco. Os pares que ainda se apresentariam fizeram um corredor para a mulher e o homem que iam para o palco. O coração de Lion disparou quando, em câmera lenta, observou a uma mulher de botas negras até a coxa, um vestido preto extra curto e, Lion daria sua palavra de honra que o vestido caía como uma luva nesta mulher, e com uma exuberante cabeleira vermelha meio presa. Tinha os olhos pintados de preto, quase como se usasse uma máscara, com uma cor verde deslumbrante, como se fosse duas malditas estrelas em meio a tanta escuridão. Levava nas mãos uma correia com corrente e passeava com seu submisso, que andava em quatro patas adorando seu papel de animal. A taça de Lion caiu de suas mãos e seu corpo ficou tenso. 22


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Não podia ser. Não podia ser. Que caralho Cleo fazia aqui? E não só isso. Por que Nick era seu submisso?

Cleo ardia com a fúria e a raiva que sentia nesse momento. Em toda sua vida se irritou muitas vezes, mas nada que tivesse a ver com o ultraje e a ira que queimavam de dentro para fora desde que tinha visto Lion com aquela mulher. “Mistress Pain”, Senhorita Dor. Seu coração e garganta sim, que doíam. Tinha vontade de rugir como uma verdadeira leoa e arranhar os dois com suas garras. Havia se preparado para não reagir, para não sucumbir à sensação de vê-lo e saber que ele a abandonou. Antes de tudo, discrição e consciência. Mas não estava preparada para enfrentá-lo e, além de tudo, vê-lo como amo de outra mulher. Odiou Mistress Pain quase que imediatamente. E odiou Lion. Desejava o machucar de verdade. Obviamente não podia machucá-lo porque ela não era importante para ele. E todos sabem que só podemos machucar aquelas pessoas que realmente amamos. Por isso, não poderia magoálo tanto como ele fez com ela. Mas lhe daria uma lição. Para começar, demonstraria que estava capacitada para estar ali e que ele havia cometido uma infração e uma ofensa como agente ao trair sua confiança. E depois, se no dia seguinte conseguisse um dos cofres, lutaria com seus poderes de persuasão para ganhar as cartas que precisava. Deus, Lion estava com os olhos tão arregalados que iriam sair das órbitas. Aquela reação era impagável para ela. “Prepare-se, leão. Apenas uma pessoa reina sobre a selva. E é uma rainha”. — Lady Nala é uma Ama muito severa e rigorosa. Adora que seu belo submisso Tigrão beije seus pés e limpe seus sapatos. É especialista com o flogger, adora a feminilização, o dogplay como podem ver, e... a CBT! (Tortura dos genitais masculinos). Ora, ora... Lady Nala — Sharon a olhou de cima a baixo.— Gosta mesmo disso? Cleo lhe deu o olhar superior mais bem interpretado da história da oftalmologia. — Vai descobrir quando der fim aos ovos das suas crias, Rainha das Aranhas — respondeu sorrindo provocantemente. Sharon apertou seus olhos caramelo e ergueu o canto da boca. Ameaças não a amedrontavam. 23


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— É melhor que não caia na minha teia, leoa — murmurou entre dentes. — O que lhe disse na mansão La Laurie não era uma brincadeira. Cleo sorriu e deixou de olhá-la como se não estivesse mais interessada. Sharon cravou seus olhos marrons em suas costas graciosamente erguida, em seu cabelo vermelho e gritou: — Aves da selva, cuidem bem de seus ovos ou Lady Nala irá esmagá-los! — gritou dispensado o par. O destino quis que Lady Nala e Tigrão se sentassem na mesma mesa que King Lion e Mistress Pain, e Thelma e Louise. Nick puxou a cadeira para Cleo. Cleo sequer agradeceu. As dominadoras não faziam isso. Seus submissos eram para lhes servir. “Lembre-se! Você ordena, não pede por favor”. — Champanhe — ordenou sem olhar para Nick. Nick obedeceu ante o olhar atento de Lion. Claudia observou Cleo com interesse, e ao submisso com fome. Thelma continuava atenta ao palco, em que se apresentava o último par, enquanto Sophiestication permanecia com o olhar baixo em seu prato vazio. — Boa noite. — Cleo saudou toda a mesa, tomando o cuidado de não olhar nos olhos de Lion em nenhum momento. — Viemos apenas cumprimentá-los. A viagem foi longa, estamos cansados e com certeza não ficaremos para o jantar. Devemos recuperar as forças para amanhã — explicou com segurança. Lion parecia em guarda, como se tivesse vontade de pular por cima da mesa para estrangular ela e Nick. Nick sentou ao seu lado e revisou que não estivesse faltando nada para sua ama. Todos responderam seu cumprimento com amabilidade. — Os organizadores fizeram um grande trabalho, não é mesmo? — Verdade — Thelma respondeu colocando o guardanapo em suas coxas. — Tudo aqui é impressionante. Imaginar que estas ilhas estão ambientadas em Töril e que cada cenário está perfeitamente representado como o jogo de papéis... É muito impressionante. — Thelma acariciou o pescoço de Sophiestication e a puxou para dar um beijo no rosto. A jovem sorriu com doçura e assentiu. — Sua submissa não fala? — perguntou Mistress Pain com desdém. Sophiestication ergueu o olhar o suficiente para estudar o rosto de Claudia, mas fez isso de um modo que ninguém se deu conta. Ninguém, exceto outro submisso como ela que lhe jogava olhares de relance. — Quero que Louise cuide de sua voz e só a libere nos castigos. Então poderá gritar o quanto desejar. Cuidamos muito do silêncio e da paz mental entre nós duas. Cultivamos muito as palavras. Não é mesmo, lindeza? — perguntou a loira com infinita suavidade. Sophiestication inclinou a cabeça em afirmação. 24


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— Também estamos ansiosos para começar — assegurou Claudia sorridente e pondo uma mão sobre o joelho de Lion. As orelhas de Cleo ficaram em pé como as de um dobermann, e sua mente só podia pensar em dizer: “Vadiiiiiiiaaaa”. Lion continuava sem piscar. Olhava Cleo e Nick, que tinha a mesma posição submissa de Sophiestication. Não sabia como agir. Ela... Sua Cleo estava justo onde não deveria estar. E, além disso, com outro homem. — Sim, nós também. Não é mesmo, malandrinho? — Cleo segurou Nick pelo queixo e o virou para ela. Olhou de soslaio para Lion. “Oh, muito bem. Muito bem. Tenho toda a sua atenção. Olha só o que faço com o agente Summers”. — Sim, ama — respondeu o loiro assentindo como um bom menino. — Me dê um beijo. Lion apertou os punhos sobre a mesa. Nick sorriu com malícia e beijou Cleo querendo prolongar e aprofundar mais o contato. Cleo o afastou rápido, puxando seu cabelo como castigo. “Não exagere. Não exagere”. — Já basta. — E você diz que vem da selva? — Lion perguntou com desdém e indiferença. Analisou a pele de seus ombros em busca de alguma marca do chicote de Billy Bob. Mas Cleo havia coberto todas com maquiagem. Não tinha nenhuma à vista. — Não a vi na minha. Mistress Pain riu. Cleo apertou os dentes e seus olhos verdes o fuzilaram. — Sabe por quê, Simba? Porque o jardim mal podado da sua casa não é uma selva, e eu venho de uma selva maior que a sua — “Uma selva em que o respeito pelos demais animais é básico para continuar. Você não me respeitou”. — Veja só... — Thelma tampou a boca com a mão tentando conter uma gargalhada. Ao seu lado, Sophiestication olhou para Cleo com assombro. — Não deveria falar assim com King Lion, leoa — advertiu-lhe Claudia.— Não pode perder o respeito. — Não perdi — assegurou Cleo bebendo champanhe como se falar com ela a aborrecesse.— O respeito muito. É o rei da selva, não? — Sim — respondeu a Switch com orgulho. —Mas será o rei apenas da sua selva — Cleo piscou um olho e sorriu. — Ouça, Tigrão — Lion inclinou-se adiante para chamar a atenção de seu amigo. Ele também sabia jogar assim e além disso, devia reagir.— Pode ser que eu já o tenha visto por Nova York antes? Em algum lugar? Nick continuou calado. — Por acaso não responde? — Claudia se sentia insultada perante o comportamento dos demais. 25


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— Meu menino responde apenas se permito — Cleo respondeu orgulhando-se.— Seu amo não faz assim com você? Você fala demais. — Claro que sim — respondeu Lion com segundas intenções. — Quando ela tem o gag e a submeto — seus olhos azuis brilharam desafiantes. Mistress Pain sorriu como se dissesse “O que acha do meu amo, linda?”. Cleo engoliu o golpe da melhor maneira, por mais que as palavras tivessem doído como uma vara. — Fico feliz. Talvez amanhã nos mostre como faz — dando a entender que não iria encontrar o cofre e que teriam de duelar com outros participantes. Desviou o olhar para Nick.— Fale. Nick levantou a cabeça e olhou seu amigo de frente. Ambos se olharam em silêncio. Lion o recriminava pela falta de informação e Nick lhe assegurava que havia sido decisão de Montgomery. Que ele não tinha nada a ver com isso. — Sim. Ia a Nova York frequentemente com minha ama. — Mas acho que lembro da sua ama ser morena, mais alta e tinha mais peito que Lady Nala. Cleo mordeu o interior do lábio e desejou cravar um garfo entre as sobrancelhas de Lion. Lion sempre despertava seu lado mais sádico. — Sou feliz com o belo corpo da minha nova ama — Nick respondeu devolvendo o golpe pouco cavalheiresco de Lion. “Esse é meu garoto”, Cleo pensou. — Minha Ama anterior quebrou o braço. Mas Lady Nala me resgatou e agora estou à sua mercê. E adoro estar à sua mercê. — assegurou sorridente observando Cleo. “Certo. Então Karen se machucou e não pôde entrar no torneio. Fodida má sorte”, pensou Lion. Assim, para que Nick entrasse com alguém que estivesse a par do caso, Montgomery chamou Cleo. Foi assim a coisa toda? — Então são um par relativamente novo? — O olhar analítico de Claudia estudou a ambos. Poderia atacá-los com mais facilidade. — Isso mesmo. — Lion sorriu como o rei da Selva que era. Pondo Cleo em seu lugar de novata e Nick como o mais experiente. Cleo decidiu que já havia tido o suficiente. Já tinha enfrentado Lion. Tinha se comportado com educação, cumprimentado os convidados, já era hora de se retirar e esperar ansiosamente o dia de amanhã. — Se nos dão licença — murmurou Cleo levantando-se da mesa e puxando a corrente do pescoço de Nick.— Foi um prazer. Deixaremos que desfrutem o jantar. Vamos descansar, pois amanhã teremos que madrugar. — E a selva não tem piedade, Lady Nala — assegurou Lion olhando-a de relance enquanto ela e Nick se afastavam. Lion já não tinha fome. Nem queria estar na mesa com Claudia, Thelma e Louise. 26


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A única coisa que Lion gostaria, como homem e como amo, era encontrar o quarto em que Cleo e Nick se hospedavam e exigir uma fodida explicação. E a teria. E o que não iria permitir era que esses dois dormissem juntos sob nenhum pretexto. Lion podia ter feito isso com Cleo. Mas Cleo não faria isso com ninguém mais. Ela era sua.

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CAPÍTULO 3

A submissão é como uma meditação. Vendam seus olhos, sua mente está em silêncio, seu coração bate... A porta de sua rendição se abre.

— Como foi seu reencontro com Lion? — Nick perguntou enquanto observava Cleo tirar a maquiagem no banheiro da suíte. Vestia só uma calça branca de algodão que deslizava em seu quadril. — Saíam faíscas. Nunca tinha visto o agente Romano assim. Foi muito interessante. Tenso. Foi tenso. Cleo o estudava através do espelho enquanto esfregava o rosto com algodão e creme. Todos os participantes tinham suítes. Verdadeiramente, quem quer que fossem os patrocinadores desse evento, eram muito ricos e desfrutavam muito ver seus brinquedos rodeados de prazeres salomônicos1. Tinham uma varanda de madeira com cadeiras de balanço e palmeiras. O quarto era amplo e de luxo, nas cores branca e marrom. A cama era tão grande que dava duas da cama de Cleo. O banheiro tinha uma Jacuzzi, ducha e uma pequena sauna para relaxar. Televisão, equipamento de som, computadores... Tudo de última geração. Mas também eram de última geração o detector de áudio e as câmeras que Nick tinha em sua mala. Queriam se assegurar de que não havia nenhuma escuta ou espionagem dentro do quarto. Não encontraram nada. — E como foi tão tenso — Nick acrescentou despreocupado—, me leva a perguntar se, entre você e Lion, não aconteceu algo mais... Cleo acabou de limpar o rosto e deu de ombros. — Pode pensar o que quiser, Nick. Seja lá o que acha que aconteceu, hoje pôde ver que nenhum de nós dá importância. — Só espero que ele não tenha nada a ver com as marcas que advinho debaixo das suas coxas, Cleo. Cleo esticou a camisola branca enquanto passava ao seu lado e o repreendeu com o olhar como se fosse sua verdadeira ama. — Lion nunca faria algo assim — retrucou ela. —Fico feliz em saber. Do contrário, não me importaria em lhe dar uma lição. — A seguiu até a cama e sentou-se no colchão ao lado dela.— Odeio esse tipo de gente — murmurou passando a mão por seu cabelo loiro e espetado. — Eu também — Cleo concordou amavelmente. — Mas Lion não é um abusador. Ele me protegeu. — Sim — Nick relaxou — isso se parece mais com a imagem que tenho do agente Romano. — Clint e Lion eram muito amigos. Vocês são muito amigos? 1

Refere-se ao personagem Salomão o qual, segundo a bíblia, teve mais de 700 esposas e concubinas.

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Nick entristeceu-se ao ouvir o nome de seu simpático companheiro Clint. Os filhos da puta o levaram. Como? Por quê? — Somos. Pode ser que... Antigamente fôssemos mais. Mas as coisas mudaram e, bom, eu me afastei um pouco... — Por causa da missão? — perguntou compreensiva. — Sim — mexeu-se inquieto. — Não me sinto à vontade falando dele, Cleo — explicou nervoso. — Está bem. Não quero incomodar você. É melhor descansarmos e dormirmos um pouco, não acha? Amanhã será um dia longo. — Vou dormir na chaise longue. — Apontou o sofá que havia na pequena sala anexa. Cleo riu e negou com a cabeça. — Não, Nick. Nem pensar. Pode dormir aqui... Não me importo. — apontou o lado oposto da cama. — Sei que não vai tentar nada. — Bom. — O agente Summer arqueou as sobrancelhas loiras e seus olhos amarelos a provocaram. — Não sou tão submisso. Cleo revirou os olhos. — Colocaremos um travesseiro entre nós dois. — Isso não me protegerá de você, agente Conelly. — O quê? — perguntou incrédula. — Foi você que me passou a mão, fez nós de marinheiros nos testículos e me açoitou nas costas e no traseiro. A jovem abriu os olhos de par em par e soltou uma gargalhada. — Você estava me ensinando! Foi um contato meramente profissional, agente Summers. — Sim, claro — brincou ele.— Sou eu quem não pode confiar em você. Além do mais, por que está tão segura que não farei nada com você? — Porque nossa química é nula — respondeu simplesmente, apagando a luz do criadomudo.— E porque algo me diz que não sou seu tipo de mulher. E mais ainda, não sei por que, mas acho que já foi capturado. Nick relaxou os ombros e se esticou na cama ao lado de Cleo. Os dois cravaram o olhar no teto, absortos em seus próprios pensamentos, ocultos na tranquilidade das sombras da suíte, tentando conciliar o sono. Até que a voz de Nick perguntou: — Por que acha que não é meu tipo de mulher? E por que acha que já fui capturado? — Intuição feminina, acho. E acho que já foi capturado porque tem uma marca, não muito recente, de anel no seu dedo anular. — Sim, basicamente é por isso. Nick levou os dedos até a outra mão, cobrindo essa marca por seu passado. Um passado que jamais gostaria de esquecer, mas que a vida havia se encarregado de fazer desaparecer. — Você é casado, Nick? — Não. Não mais — respondeu seco. — Tirou a aliança há pouco tempo — ela observou. — Oh, ainda a uso, apenas não uso mais no meu dedo. Já não usava a aliança ali? Aonde, então? 29


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— Fez uma obturação com a aliança? Nick estremeceu com o riso. — Não, porra... — tocou na orelha.— Desmanchei e agora uso na orelha. Ah, então era isso. — É o piercing em forma de serpente — concluiu. Tinha uma serpente que rodeava a parte exterior de sua orelha, de cima a baixo. — Sim — admitiu. Cleo não perguntaria mais nada, pois notava que Nick era ciumento com essa parte de sua vida. Na sala do aeroporto havia se despido e mostrou o básico para fazer uma dominação em suas partes íntimas e saber como açoitar sem machucá-lo. Sem dúvida, só se despia neste aspecto. Não mostrava nada mais de seu interior. E Cleo parecia bem com isso. As pessoas, ou seja, ela, deveriam aprender a ser um pouco mais reservadas. Por não ser assim, por ser tão transparente e dizer a primeira coisa que sentia, tinha acabado desse jeito com Lion. — Sabe o que eu acho, Nick? — O quê? — Que seu tipo de mulher é totalmente o contrário de uma dominante. Tem algo em Nick Summers que é indomável — sussurrou em meio a um bocejo.— Não sei o que é. Mas está aí. — Deveria se especializar em perfis, Cleo. Cleo sorriu e lhe deu as costas para dormir como uma bola. O despertador do torneio os acordaria com a canção S&M da Rihanna, o hino de Dragões & Masmorras Ds. Toc toc toc. Levantaram-se e entreolhando-se, disseram juntos: — Lion. — Abre você — pediu Cleo.— Espera, vem aqui — sussurrou.— Me faz um favor. — Qual? Cleo passou as mãos pelo cabelo de Nick e o despenteeou completamente. E depois beliscou seus lábios com os dedos e os puxou com força. — Argh! O que está fazendo? — Shhh, bichano. — Como disse? — Ai, desculpa...— respondeu imediatamente com inocência.— É meu papel de dominadora. Nick se levantou a olhando como se estivesse louca. Cleo não se mexeu da cama e, com toda a maldade que havia nela, se arrumou o mais sexy que pôde em cima do colchão. Desarrumou os lençóis e jogou um travesseiro no chão. Depois passou as mãos pelo cabelo, ficando desarrumada como se tivessem acabado de dar um glorioso amasso. Lion entrou no quarto com uma frieza total e absoluta. Controlando tudo e analisando o que seus olhos viam. Por onde passou, os móveis, as luminárias e o chão se encheram de gelo. As almofadas sobre o tapete, a colcha enrugada e desfeita, os lábios inchados de Nick... 30


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Cleo estirada de um modo completamente preguiçoso e saciado. A olhou já no pé da cama. Colocou as mãos na cintura, fazendo um scanner visual da sua figura. — Agente Romano — saudou com um tom de voz muito impessoal. Lion endureceu os traços. — Pode-se saber o que faz aqui? — Aqui na ilha ou aqui na cama? Lion olhou para Nick. — Está me gozando? — perguntou o amo ao submisso. Cleo se levantou e revirou os olhos. — Bom, como pode ver, estou dentro do caso, Romano. — De um caso que eu a afastei porque não está em condições... — Não estou em condições de que? — ficou em pé sobre o colchão e o encarou. — Cleo? — Nick ia segurá-la. Nunca viu ninguém enfrentando Lion assim.— Você deveria descer da... — Estou em perfeitas condições para seguir com um missão que você me meteu, lembra? Preparou-me durante uma semana para entrar no torneio, mas logo deu pra trás e me traiu. — Agente Connelly, não ultrapasse a linha. — Não ultrapasse a linha? — repetiu incrédula.— Todos os que estão nesse caso já ultrapassaram as linhas do decoro e da moral. Todos. Despimos-nos na frente dos outros e já nos tocamos em todos os lugares proibidos. Então não venha me falar de decoro, Dom Anéis de Frequência Cardíaca. Faça-me o favor, agente Romano! Você é que está tirando uma comigo agora? — Cleo... — a sobrancelha partida ergueu-se impertinente. — Nem Cleo, nem nada! Voltei porque o senhor Montgomery me readmitiu no caso que você me tirou sem dar nenhuma explicação. E, graças a mim, Nick também pôde entrar infiltrado, porque sem Karen como Ama, ele teria ficado de fora! Lion tomou ar profundamente. Seu pior pesadelo e preocupação estava aí no modo Ama. Cleo não sabia ser dominadora. Ia ferrar tudo. —Como tinha o...? — emudeceu ao lembrar o momento em que Sharon deu o cartão à Cleo. — O convite pessoal da Rainha das Aranhas me permitiu. Lembra, Romano? Lembra da Mansão La Laurie faz um par de noites? Lion tragou a saliva e obrigou-se a tirar isso da mente nesse momento. Lembrava-se da mansão e do que veio depois. Sequer haviam se passado 48 horas disso. — Cleo tem um plano, Romano. Acho que deveria ouvi-la e tranquilar-se... Se funcionar... — Cleo não tem nenhum plano — ela respondeu sem deixar de olhar fixamente para Lion, como se fosse um animal caçando. — Tem um plano, Cleo? — Lion perguntou quase rindo dela. Queria escondê-lo? — Não. Não tenho nenhum plano, Romano — respondeu. —Conte-me! Sou seu superior. 31


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— Não há nada para contar. O único plano que devemos levar a cabo é encontrar os malditos cofres amanhã. E ponto. O agente Lion teve vontade de jogar as coisas pelos ares. — Cleo tinha o rosto limpo, a camiseta branca por cima das coxas, os mamilos marcando sob o tecido... Era como uma maldita Sininho e estava brigando com ele. Tinha vontade de abraçá-la e ocultá-la dos olhos de Nick. O que ele já tinha visto? — Vai conseguir levar a cabo o papel de Ama? — Lion estava confuso com aquela situação. Cleo e Nick não tinham que estar juntos. Merda. — Bom, visto a pouca ou nula confiança que tem em mim, não preciso que diga que não acredita nisso. Mas eu confio em mim e nas minhas possibilidades e, espero que minha irmã esteja em algum lugar desta ilha. Não penso em cometer nenhum erro. Sua vida está em jogo. — E a sua também, Connelly — assegurou Nick. — Eu sei, Summers. E a minha — assentiu com seriedade.— Todos estamos jogando alto. Quero somar, não dividir e causar problemas. Agora faço parte da sua equipe e você tem que me aceitar, por mais que custe. Tinha que aceitá-la? Por Deus... Cleo não sabia o que estava dizendo. Ele a aceitava. Mas temia por ela. Estava assustado de verdade por vê-la ali, no mesmo hotel que as Criaturas e qualquer outro amo com olhos, merda. Não entendia que assim ele não podia trabalhar? Deu um passo à frente, e ainda com as mãos na cintura, colou seu nariz com o dela. — De todas as loucuras, de todas as decisões arriscadas que possa ter tomado, esta é a pior. É um erro monumental que esteja aqui, Cleo. E, se fosse por mim, a mandava para Tchoupitoulas com a sua salamandra. Ela apertou os lábios até defini-los em uma pálida e fina linha. — Ringo é um camaleão, não uma salamandra — respondeu fracamente. —O que importa? Ringo não é uma salamandra e você não é uma Ama, nem está preparada para estar neste time. — Mas estou. E estou porque alguém acima de você decidiu assim — ergueu o queixo com teimosia. — E contra isso não pode fazer nada. Apenas acatar ordens. Pra você ver, há um momento em que todos nós nos submetemos, verdade? — Já chega, sim. —Fez um gesto de desaprovação. — Me ferrou bastante. Lion mordeu a língua e evitou continuar irritando-a. Cleo deveria saber que não o agradava tê-la ali, que não gostava do que iria fazer e que... não suportava que ela tivesse outro homem como companheiro. Sim, era isso. Jogou um saco plástico em cima da cama, aos pés desnudos de Cleo. — Amanhã, depois do torneio, temos que encontrar um modo de contatar a equipe camuflada — explicou com soberania. — Precisamos de armas e dispositivos de áudio que não tem em nossa bagagem. Quando sairmos do complexo hoteleiro colocaremos essas pulseiras para não sermos localizados. As usem sempre. Nossa esquipe está colocando câmeras espiãs por todas 32


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as ilhas para terem o controle absoluto de quais embarcações entram e saem da área. Amanhã começa a primeira prova, portanto, fiquem atentos. —Sim, senhor — Nick assentiu, incômodo com a tensão do ambiente. Lion abandonou a suíte sem dirigir qualquer olhar a mais para Cleo. Nick o acompanhou e saiu do quarto com ele. — O que foi isso, Lion? — perguntou acusadoramente. — O que foi isso o que? — Continuava caminhando em direção ao elevador. — Cleo está na equipe por decisão própria e vai nos ajudar. Não pode tratá-la assim. Quase nos fez um fodido favor. Eu estava fora, cara. — É uma irresponsável — grunhiu em voz baixa.— Não a conhece. Vai nos... Colocar em perigo. A todos. É um ímã para os... problemas. Merda. — cobriu o rosto e inclinou o pescoço para trás. — Que merda ela faz aqui? Eu a tirei da missão e agora a tonta vai se colocar em perigo... — Ela vai se sair bem, Lion É muito convincente. O moreno ergueu-se em toda sua altura e adotou uma atitude ameaçadora. O que quis dizer com isso de que era muito convincente? — Não toque nela, Nick. Nem pense... Nick levantou as mãos, defendendo sua inocência. —Wow, calma... Pelo contrário, amigo. Eu não a toco. Ela me toca. — Não. Também não gosto dessa resposta. —Mas é a que tem. Assuma e aguente isso, Lion, ou seu sangue irá ferver. — Você não entende... Nick franziu o cenho e o olhou de relance. Já sabia o que estava acontecendo. Finalmente entendera. — Então, é ela. — O quê? Do que está falando? — É ela. Trata-se dela... A mulher especial. — Ao ver que Lion fez uma careta e olhou para outro lado, continuou. — Há um ano, depois do problema que tive — seus olhos dourados se apagaram,— me disse que um amo entrega seu coração apenas uma vez. A uma mulher especial, a uma submissa que aceita a escuridão de seu coração e a necessidade de luz que sua alma tem. Disse-me que você oferecia prazer, mas que tinha deixado seu coração em Nova Orleans. É a irmã de Leslie, estou enganado? É Cleo. — Me deixe em paz. — Deu a volta e apertou o botão do elevador. —Ela sabe? Sabe que a trata tão mal por ser tão ruim em expressar suas... emoções? — Eu posso expressar minhas emoções — esclareceu enquanto as portas se fechavam.— Mas esse não é o momento. Antes que as portas se fechassem, Nick as deteve. — Bem, logo dirá quando for, amigo. No entanto, talvez estejamos no fundo do mar caribenho. Não viemos aqui de férias. Nick voltou para o quarto e, quando entrou na suíte, viu Cleo saindo do banheiro com os olhos vermelhos e inchados. Lion a tinha feito chorar. 33


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Na na na, Come on Na na na, Come on Na na na, Come on Na na na, Come on, come on, come on! Cleo e Nick se levantaram como balas. O torneio começava imediatamente. Aos tropeços e, tentando obter a melhor imagem deles mesmos, se arrumaram e vestiram seus adereços. O povo da ilha alucinaria quando vissem todos eles desfilarem e moverem-se em suas terras com essa aparência. Nick colocou o colar de submisso e sua roupa escura. Uma camiseta preta com alças e uma calça preta não muito grossa, com botas altas de tecido preto. Com seu cabelo loiro espetado e os olhos pintados com Kohl, parecia um cantor de rock gótico. Cleo vestiu um short preto bem curto e uma camiseta preta com alças e de redinha. Por baixo da camiseta usava um sutiã de látex preto. Calçou umas botas de verão com saltos bastantes altos recobertas de couro negro, com aberturas nos dedos e nos calcanhares. Deixou o cabelo vermelho solto e maquiou-se para esconder as olheiras da noite anterior. Não iria indicar Lion ao prêmio “O mais amado 2012.” Disso tinha certeza. — Preparada? — Nick perguntou enquanto lhe entregava seu chicote. Cleo o colocou na cintura como se fosse um cinturão. Assentiu e pegou a correia da coleira de Nick. — Nasci preparada. — brincou com um ar dramático. Já era evidente, de outros momentos, que não nasceu pronta para muitas coisas, mas Cleo era como um camaleão. Adaptaria-se. Camuflaria suas emoções. Todos se encontravam no salão do hotel. Haviam acabado de tomar café da manha e, uma incrível tela tipo de cinema apresentaria a rodada desse dia. Seria assim durante todo o torneio. Na hora do café da manhã, os participantes escutariam o que a tela dizia e, imediatamente, quando a ordem fosse dada, sairiam disparados para encontrar seus objetivos. Claudia se apoiava no ombro de Lion enquanto cravava seus olhos escuros no monitor. Cleo teve vontade de estender a língua, como seu camaleão, e sugar sua cabeça. Mas não faria isso. Nick e ela se concentrariam nas provas e em obedecer ao agente em comando. Lion, por sua vez, sentiu que alguém o observava e olhou Cleo por cima do ombro. Cleo centrou-se no telão enquanto apoiava o peso de seu corpo no torso de Nick, que a segurava pelos ombros, tomando certas liberdades que um escravo não deveria. A tela se iluminou e começou a tocar a épica canção de Audiomachine: Redemption. Emitiam imagens das Ilhas Virgens ao amanhecer e ao anoitecer. Depois, do interior da água saiam 34


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as letras Dragões e Masmorras Ds. Apareceu um homem caracterizado como o Amo do Calabouço da série de desenhos originais, mas com roupas de couro. Era um anão de olhos claros, cabelo branco e comprido e era calvo no crânio. As pessoas aplaudiram e o saudaram entre risos e piadas e se dispuseram a escutar o que o amo dizia. “Bem-vindos bárbaro, arqueiro, acrobata, mago bruxa e cavaleiro. Bem-vindos à dimensão paralela dos dragões e das masmorras, meu mundo e o de vocês durante estes quatro dias. Estão em Töril, o berço da vida. Como sabem, todas as criaturas nasceram nestas terras. Composta por três quartos de água e vários continentes e ilhas”. Na tela apareceu um mapa das Ilhas Virgens dos EUA vistas de um satélite e, sobre elas, a palavra Faerûn, uma das partes continentais de Töril. E a cada ilha mostravam os nomes próprios das Ilhas Moonshae, um território especial de Faerûn. O oceano atlântico converteu-se no Mar das Espadas. As ilhas de Saint Thomas, St, John e St. Croix converteram-se em Norland, Gwynneth e Alaron. E as ilhas vizinhas como Capella Islands, Lavango Cay, Savana Island, Water Island, etc..., adotaram os nomes de Mintarn, Snowdown, Moray, Oman, Korinn Isles, Whalebones, Ruathym… Havia metáforas em tudo isso. Os agentes infiltrados olhavam aturdidos a capacidade de inteligência do esquisitismo. Realmente, haviam conseguido quase sobrepor um mapa com o outro e encontrar todas as similitudes. “Cada casal participante dispõe de um jet ski e um quad MGM para deslocarem-se por todas as ilhas como quiserem e irem em busca dos objetivos diários. Quando acabar o dia de hoje, devem voltar para este mesmo castelo, na ilha de Alaron”. — Então Saint Thomas é Alaron... — Cleo sussurrou.— Escuta, Tigrão, você sabe sobrepor mapas? — Ao não receber resposta, Cleo olhou por cima do ombro. Nick tinha o olhar âmbar fixo na mulher com uma máscara de couro completa que cobria toda sua cabeça e só deixava a boca livre, mediante um zíper, e os olhos. Thelma, a ama loira o olhava por cima do ombro, sorrindo descaradamente. —Ei, Tigrão... Nick deixou de prestar atenção na dominadora e na escrava, concentrando-se em Cleo. —Sim, sei sobrepor mapas, ama. — Bom — Cleo respondeu mais tranquila. “Enquanto durar o torneio e os cenários, os vilões estarão observando-os. Há microfones e câmeras em quase todos os locais. Inclusive nos quads e nos Jet skis. Quem possui a chave para encontrar o baú de hoje é o senhor Johann Bassin. Boa sorte a todos os participantes. E lembremse: “Quando as masmorras se abrem, os dragões saem à caça”. A tela apagou de repente. Todos os participantes continuaram olhando-a em silêncio, como se esperassem algo mais. Um anjo cruzou a sala. Cleo observou Lion. Lion a olhou. Nick olhou seu superior. Lion assentiu com a cabeça. Claudia permanecia com o olhar na tela, em um estado de encefalograma plano. 35


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— E quem no inferno é esse Johann? — Brutus perguntou em voz alta. Cleo e Nick olharam-se, sorriram e correram dissimuladamente para a recepção do hotel. Lion puxou Claudia e os seguiu. Precisavam de uma lista telefônica.

Os quad MGM negros que conduziam pela estrada de Saint Thomas tinham o volante do lado direito. As Ilhas Virgens dos EUA eram o único território norte-americano onde se dirigia desse lado. Cleo agradecia o vento que açoitava desse jeito, porque o calor e a umidade eram insuportáveis. Fazia um sol de mil demônios. Ainda bem que havia aplicado protetor solar. Nick corria como um louco, iam na dianteira, seguidos de Lion, que sorria como um trapaceiro e buzinava com seu quad. Ambos os casais haviam levado as duas únicas listas telefônicas da recepção e deixaram os outros participantes para trás. Haviam saído do resort de Charlotte Amalie há dez minutos e agora corriam pela Frenchman Bay Road. O senhor Johann Bassin vivia em uma das ruas perpendiculares que desembocava na estrada. No número 31. Nick estacionou o quad quase derrapando diante da casa. Cleo e Nick saltaram do veículo e bateram na porta daquele sobrado branco. Na varanda, havia um enorme papagaio vermelho e azul, com o bico amarelo, que os olhava e cutucava as penas das asas, alternando entre controlar os visitantes e comer os piolhos. Um homem moreno, com a barba branca e o cabelo longo e grisalho abriu a porta. Fumava um cachimbo. Os olhou de cima a baixo. — O quê!!! — gritou. Cleo se afastou e franziu o cenho. —Johan Bassin? — O quê?! — gritou ainda mais, aproximando o ouvido dos lábios da jovem. — Senhor Bassin? — Afastou-se para que não desse de cara com o cachimbo. O homem, sem tirar o cachimbo da boca, introduziu o dedo mindinho do ouvido para ouvir melhor. —Surdo! Surdo como uma porta! — gritou o loiro. Lion chegou à varanda, segurando Claudia pela mão. — Somos do torneio! —Cleo levantou a voz.— Dragões e Masmorras Ds! — O quê?! — Johann ficou com cara de espanto. — Malandros e cachorras?! 36


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Cleo abriu os olhos como pratos e jogou o pescoço para trás. Pediria ajuda ao senhor. —É surdo? — observou Claudia. Cleo a olhou de soslaio. Como era esperta. —Gordo?! — O senhor Bassin saiu na varanda coxeando, ajudado por seu bastão, até chegar ao papagaio.— Eu não estou gordo! — gritou para Claudia. — O louro! O louro sabe! Eu estou surdo! Os quatro estudaram o louro como se tivesse cinco cabeças. Será que o louro tinha a resposta? Aproximaram-se sigilosamente e Lion o elogiou para entrar com o pé direito. —Lourinho...lourinho lindo... —Vadia! —gritou-lhe o louro colorido. Cutucando novamente suas penas. Cleo e Nick afogaram uma gargalhada. — Louro, filho da puta... —grunhiu Lion.— Cofre. Co-fre — soletrou movendo as mãos e fazendo a forma de uma caixa. — Gofre?!2 — Exclamou o velho Johann Bassin.— Eu gosto dos gofres! Claudia o olhou de cima abaixo, como se fosse uma desfeita. — Co-fre — Lion repetiu. O papagaio abriu as asas e as movimentou como se pudesse alçar voo a qualquer momento. — Great St. James! Bandeira vermelha Great St. James! Saint James! Great Saint James! Ótimo! — Corre, Tigrão! — Cleo puxou Nick pela coleira e passou ao lado de Lion. — Pra lá, Simba! Os quatro saíram apressadamente da varanda e montaram novamente nos quads. O cofre estava na pequena ilha de Great St. James, que no mundo de Faerûn não era outra senão Oman. Na estrada encontraram com vários casais que os xingavam conforme passavam. — Levaram as listas, desgraçados! — Vai ver só o que faço se a pegar na masmorra, Lady Nala! — Leão, arrancarei os pelos dos seus ovos! — Brutus gritou ao passar a seu lado. Cleo e Nick, em seus papéis, mostraram o dedo do meio para todos, enquanto corriam na direção contrária. — Somos melhores, idiotas! — Claudia gritava eufórica. Cleo a observava segurar no musculoso braço de Lion e beijá-lo no rosto. Beijá-lo! “É seu superior. Seu chefe. Não há nada entre vocês”, recordou fixando o olhar em frente. Ao chegarem novamente ao Charlotte Amalie, deixaram os quads estacionados no resort. Depois de dirigiram ao porto onde tinham os Jet skis atracados. Eram todos pretos e estavam personalizados com os nomes dos amos. O de Cleo e Nick se chamava Lady Nala. O de Lion e Claudia, King Lion.

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Em espanhol, Gofre significa biscoito, biscoito waffle. Foi um jogo de palavras feito pela autora.

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Os Jet skis eram modelos Sea-Doo GTX. Incrivelmente grandes, superequipados, velozes e confortáveis. — Ah, não! — Cleo exclamou ordenando a Nick que se colocasse atrás. — Este eu dirijo. Somos duas mulheres —sorriu provocando Lion.— Wow! — gritou encabeçando a corrida, seguida de perto por Lion. Seu rival no torneio. Seu antagonista. Seu superior. O homem que, sem machucá-la fisicamente, a machucou mais que uma chicotada mal dada.

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CAPÍTULO 4 “Chegamos a um mundo fantástico e cheio de seres estranhos. E o Amo do Calabouço deu poderes a todos nós”. Oman - Great Saint James

Território dos Macacos Voadores Dia 1 A ilha de Great Saint James era completamente virgem. Com espessa vegetação verde, praias de areias brancas e mares completamente transparentes. Haviam rodeado a ilhota com os Jet skies até vislumbrarem a bandeira vermelha que o papagaio de Johann falara. Um voluntário do torneio guardava a insígnia vermelha com as letras D&M estampadas em dourado. Encarregava-se de felicitar a todos que iam chegando e obtendo o cofre. Aos pés do voluntário, vestido apenas com um traje de banho negro, encontrava-se uma caixa da mesma cor com correntes de prata. E uma chave. Lion exigiu a chave e ele a entregou. Abriu o cofre. Em seu interior havia cinco caixinhas. — Escolha apenas uma —ordenou o rapaz com piercings na cara.— Quando tiverem revisado o que contém, sigam este caminho que os conduzirá ao bosque — assinalou as tochas que formavam uma trilha até desaparecerem entre as árvores e a vegetação.— O caminho levará à masmorra de Oman, ali os esperam o Oráculo, o Amo do Calabouço e as Criaturas. Boa sorte.

Cleo estava nervosa e rezava para conseguir a combinação que desejava. O sucesso do seu plano dependia disto. Abriu a caixa e encontrou uma carta que valia uma chave que a libertava do calabouço. Devia trocá-la com o Amo do Calabouço. E também mais quatro cartas e um objeto. Objeto: Figura protagonista. O Mago. Cartas quantidade: +50 Carta eliminação Carta Uni. Eram naipes muito bons. Tinha saído a principal, a que precisava para iniciar sua jogada, mas faltava uma ainda. Só uma e poderia devolvê-la dobrada para Lion. —São boas, lady Nala. Mas lhe falta a carta Switch. — Por qual? 39


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Estudou as cartas e objetos que possuíam. Só poderia desprender-se de uma e escolheu a carta Uni. A que invocava o Amo Uni e os liberava das criaturas. —Tem certeza? É uma boa carta, Ama. — Sim. Averigue se alguém tem a carta Switch. Thelma e Sophiestication tinham sido um dos cinco casais agraciados com a sorte de encontrar o cofre no primeiro dia. O casal lésbico sorriu ao ver que Lady Nala e Tigrão se aproximavam com uma carta na mão. —Não me diga. — A ama loira usava um coque bem alto e preso, os lábios pintados de vermelho e óculos pretos de aviador. Vestia um biquíni de látex com short bem apertado.— Quer trocar cartas, Lady Nala? —Isso mesmo, ama Thelma —respondeu com serenidade. —O que tem a oferecer? —Você tem a Switch? Thelma franziu o cenho e desviou um olhar intrigado para Nick. —Tigrão quer brincar de dominar? Nick permanecia com os olhos cravados na areia branca. —Meu pequeno não deseja controlar ninguém. Mas talvez precise mudar de ares... — Ah, veja só... — Thelma fez um biquinho.— Vai dispensá-lo tão cedo? A prova sequer começou! Problemas no quarto? “Não vou dispensá-lo. Mas se me uno a Lion, Nick ficará solto e cairá nas mãos das criaturas ou das crias da Rainha das Aranhas. Ele deseja estar lá, e pode ser que se depare com uma informação valiosa”. —Não está sendo muito obediente. Possivelmente o sol tropical está afetando-o — Cleo anunciou sorrindo desdenhosamente. — E isso porque vem da selva, bonito —murmurou Thelma avaliando negativamente. — Troco a carta Switch pela carta Uni — Cleo estudou a submissa de Thelma. Esta se mexeu e pareceu assentir com a cabeça. Cleo entrecerrou os olhos e, então, Thelma disse, muito segura de si mesma: — Vai se desfazer de seu submisso? — Sim. É possível. As criaturas farão cargo dele até o fim do torneio. —Então lhe ofereço outra coisa. — O quê? — Dou a carta Switch que tenho, em troca da Uni... —Claro. — E... — advertiu-lhe com o olhar que ainda não havia terminado,— de seu submisso Tigrão. — O quê? — perguntou sem compreender. Thelma e Louise não se importavam que outra pessoa se unisse a seus jogos. Queriam ter Nick? — Não precisa perguntar-lhe. É seu escravo, Lady Nala — assegurou Thelma oferecendo a carta switch. Cleo olhou a carta, e depois estudou o semblante de Nick. Ele permanecia com o rosto inclinado, mas viu como piscava dissimuladamente o olho esquerdo. Isso era um sim. Não é? 40


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— Saio perdendo — assegurou Cleo. — Não. De forma alguma. Deseja a carta switch acima de todas as coisas. Para alguma coisa — Thelma meditou.— Estou enganada? Cleo meditou, fingindo que realmente estava pensando. — Tudo bem. Cederei Tigrão quando estivermos em frente ao Oráculo. — Feito. — Feito. Trocaram as cartas e apertaram as mãos selando o trato. Tigrão e Sophiestication ergueram o olhar para medirem um ao outro. Seriam rivais? Cleo já tinha tudo em seu poder. Enquanto caminhavam pelo caminho que as tochas guiavam e passavam longe de Lion e Claudia, Cleo aproximou Nick puxando-o pela coleira e perguntou: —Está bem com esta decisão..., escravo? — Sim, ama — contestou dissimulando. Se estivessem sendo filmados, deveriam agir com naturalidade. — Seus desejos são ordens para mim. —E isso lhe permitiria continuar no torneio. Além disso, de todos os modos, cedo ou tarde, cairia nas mãos das Criaturas. Tudo continuava igual. — Mas essas duas mulheres... — Estarei bem —assegurou com um sorriso complacente.— Concentre-se em seu objetivo, ama. Dava-lhe culpa desprender-se de Nick. Ele fazia com que sentisse as coisas sob controle, que acreditasse que era ela que comandava. Mas Nick adotava um papel que não combinava com sua verdadeira natureza. E era algo que jurava de pés juntos. Sem dúvida, sua jogada provocaria uma reação sonora do torneio. Lady Nala reclamava o trono do torneio, o trono da selva, e fazia isso dando um golpe sobre a mesa, sem consideração. Para chamar a atenção dos Vilões que estavam vendo todas as provas retransmitidas através de câmeras de curto alcance, que havia notado na chegada à casa de Johann Bassin, e também na coleira de cachorro do jovem voluntário. Na fivela havia uma câmera pequena que passaria despercebida a qualquer um, mas não para eles. Os vigiavam? Melhor. — Lady Nala já está trocando cartas? Vai saber o que está planejando. — Lion insinuou adiantando o passo para chegar até ela. Cleo colocou a corrente da coleira de submisso de Nick ao redor de seu pulso e deu um leve puxão. — Eu só falo com meus escravos, King. BDSM em estado puro. Em meio à vegetação da ilha Great Saint James, havia uma esplanada verde e nítida onde construíram uma espécie de cenário com masmorras, potros, cruzes, macas, altares, correntes de prender... Todo um anfiteatro ao ar livre de dominação e submissão.

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A equipe de agentes infiltrados não podia imaginar desde quando estavam preparando o torneio e nem quanto investiram apenas nesse lugar. Supunha-se que cada dia faria uma viagem por todas as ilhas e que cada cenário seria em diferentes locais. Ali havia muito dinheiro, muitíssimo dinheiro depositado em algo de mero entretenimento. Ainda que, claramente, o prêmio a conquistar também era muito bem remunerado. Um prêmio de milhões de dólares que vinha das arcas e de doação de figuras muito, muito ricas e muito, muito voyeurs. Os casais que não haviam encontrado os cofres deveriam passar um a um ante o Oráculo. O Oráculo era um indivíduo que parecia ter saído do Pressing Catch, e que estava coberto com uma capa vermelha com capuz. Tinha seu rosto tatuado e um piercing que atravessava a divisória do nariz. Não mostrava o rosto, não era necessário para intimidar. Sua voz profunda falava por si só: declamava sobre castigos nas chamas do inferno. Cleo não sabia para onde olhar. Todas as suas fantasias mais perversas, todas suas fantasias mais profundas e, incluindo, as mais temidas e menos desejadas, todas estavam se concretizando naquele momento. O tempo corria para cada um dos casais e os objetivos estavam claros. Alguns conseguiam, outros não. Os que conseguiam, esperavam que finalizasse a jornada diária nas grades do anfiteatro enquanto se refrescavam depois do exercício sexual. Os que não, se dispunham a entrar com as Criaturas. E neste cenário, as criaturas eram os macacos voadores que, além de roubarem objetos, também submetiam. Sharon entrou em cena e todos emudeceram ao vê-la. Depois do respeitoso silêncio, a aplaudiram. Maldita seja. Era uma rainha de verdade e estava vestida de modo que mostrava muito e às vezes nada. Uma fita americana preta cobria o peito e rodeava suas costas, passava pela virilha e cobria a união entre suas nádegas e seu sexo. Essa tira se sustentava com outra que ia de um lado ao outro do quadril, como se fosse uma calcinha. Tinha algo no interior do pulso esquerdo. Era uma tatuagem. Um coração vermelho com uma fechadura em seu interior. Um cadeado em forma de coração. Cleo estudou como se comportava e percebeu algo. Assim como os Macacos davam prazer, e exigiam recebê-lo, Sharon apenas supervisionava e cuidava de que não fizessem mal a ninguém. Vigiava que os tratassem bem e que elas e eles estivessem sempre lubrificados. Se tinha que açoitar, açoitava e era distante, mas, depois, sabia como acalmar os submissos. Talvez por isso a adoravam. Sharon dava aos demais, surrava e era inflexível. Mas também entregava prazer. E, no entanto, ninguém a tocava. Ninguém dava prazer a ela. Que estranho... A quantidade de amos que havia nessas jaulas era incrível. Quantos tinham? Vinte? Vinte macacos voadores, alguns mascarados e outros não, mas todos totalmente eretos esperando que entrassem as macaquinhas desejosas em pagar as faltas cometidas nos duelos particulares. 42


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Gemidos, gritos, soluços, êxtase: “Mais! Obrigada, amo! Mais, dominadora! Goze!”. Zas! Plas! Um chicote por aí, um homem amordaçado mais adiante, uma dominadora preparada com um cinto-pênis para castigar ou não seu submisso... Deus. Cleo se esforçou para manter seu rosto impassível. Como se a cada dia, fosse normal que visse mulheres fazendo nós com os pênis dos homens, ou como utilizavam as velas e a cera para algo mais que iluminar sua casa quando a luz acabasse... Como se fosse em festas onde todo mundo pegava todo mundo, onde não era importante se beijasse um homem ou uma mulher. Essas pessoas viviam o sexo da sua maneira, com uma liberdade invejável e sem preconceitos de nenhum tipo, e isso os tornava valentes aos olhos de Cleo e mereciam todo o seu respeito. No entanto, por mais escandaloso e doloroso que parecesse tudo o que estava sendo posto em prática ali, eram técnicas muito estudadas e todos os amos sabiam o que faziam. Saudável. Seguro. Consensual. Esse era o lema do BDSM e tinha uma razão de ser nesse torneio. Cleo sempre recordaria os sons de prazer e dor. O cheiro do sexo. E das palavras cheias de carinho e admiração dos amos com seus submissos. Algumas haviam chegado a comovê-la de verdade. Havia casais baunilha que jamais na vida se falariam assim, que nunca poderiam desnudar-se desse modo e confiar cegamente na outra pessoa como eles faziam, por mais que quisessem. Cleo estava descobrindo muito amor entre muitos participantes do BDSM e isso a tranquilizava. Não tinha dor. E, se tinha, era para obter muito mais prazer depois. Então, viva a dor! Alguns pares se negavam a entrar na jaula e eram automaticamente eliminados do torneio. Os amos e amas eliminados acalmavam seus submissos e lhes diziam que não tinha problema, que era normal por causa da pressão, do estresse... Cleo revirou os olhos. “Claro que sim, mulher. É muito estressante que lhe toquem e você nem sequer possa aproveitar e prolongar essa sensação porque deve gozar quando mandam. O corpo não funciona assim, não é mesmo?”. Ou sim? No entanto, por mais que já tivessem sido eliminados, podiam assistir como público todos os cenários, e isso era um pequeno prêmio de consolação para os perdedores. Por isso as arquibancadas. Que espetáculo. As provas sucederam-se uma depois da outra e os pares sem cofre pagaram seus pecados. As Criaturas nas jaulas pediam mais e mais. Claro, aquele era seu papel. Haviam jogado com algumas mulheres, com o consentimento destas e seus pares, mas eram ansiosos e, como bons macacos, criaturas dos Vilões, deveriam seguir intimidando. Cleo tinha chegado a pensar que inclusive se tratavam de atores, como nestes parques de atrações em que você entra no túnel do terror e quase acredita que Freddie ou Jack Estripador te perseguem, porque se pareciam tanto e faziam isso tão bem... Com as criaturas era igual. Estiveram horas ali, até que tudo acabou. 43


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— Bom — murmurou o Oráculo com aquela voz robótica penetrante.— Os amos pagaram suas faltas com as Criaturas. Agora, que se aproximem os cinco primeiros amos que conseguiram seus cofres. O Amo do Calabouço de Oman os espera. O Amo do Calabouço de Oman era um indivíduo de cabelo curto em camadas. Moreno e de olhos dissimulados. Tinha uma complexão maciça, mas não estava precisamente definido. Vestia uma túnica negra curta e em sua masmorra, que estava no alto de uma plataforma central, havia requisitado a algumas submissas para seu próprio proveito. Submissas que haviam perdido os duelos e que, ao invés de serem entregues às Criaturas, decidiram, com um acordo tácito com seus amos, prestarem-se a uma performance com o Amo do Calabouço desse cenário. Cleo reservou-se para ser a última a falar com ele, pois queria dar um golpe de efeito. Todos os anos que cursou Arte Dramática no colégio deveriam servir de alguma coisa nestes minutos posta em cena. Toda a segurança que não sentia deveria refletir-se em seus olhos verdes. Era o momento. Depois que Lion e Claudia trocassem a carta da chave por uma chave real, que Lion prendeu no pescoço de seu par, chegou a vez de Cleo e Nick. — Entregue-me sua carta Chave e mostre seu cofre — exigiu o Amo. O jogo funcionava assim: se Cleo tivesse retirado todas as cartas do cofre, significava que guardaria todas e não utilizaria nenhuma. Se, ao contrário, restasse alguma carta em seu interior, estava dando um passo adiante para usá-las nesse mesmo momento. Cleo deu a carta Chave e colocou o cofre sobre a mesa. O Amo pegou a chave em seu pescoço. Em seguida, abriu a caixinha e encontrou apenas duas cartas. Sorriu e a olhou de frente. — Será a primeira a usar as cartas? — Girou os naipes e arqueou as sobrancelhas, divertido. Lion se remexeu inquieto. O que Cleo pretendia? — Vim jogar, Amo —respondeu com insolência e respeito. Apenas Cleo podia usar duas atitudes tão antagônicas como se estivesse guardando um segredo. —Bem. Sabe que se utilizar esta carta — mostrou a carta de eliminação de personagem — será irreversível para este participante? — Eu sei. — Ora, ora —desenhou uma linha côncava com seus lábios.— Uma garota sem escrúpulos. “Naah. Tenho muitos, mas desta vez vou engoli-los”. — Muito bem. Utilize-as agora mesmo e nos surpreenda. Cleo exalou, enfiou as mãos no cofre e pegou duas cartas. Virou-se e dirigiu-se aos amos que haviam passado essa etapa sem incidentes, como ela. A jovem agente infiltrada deteve-se diante de Lion e Claudia. Ele endureceu quando a viu tão resolvida. Cleo pegou a carta de eliminação e a colou no peito suado da Switch, com o desenho virado para todos. — Sinto muito, Mistress Pain. Mas você vai para casa. 44


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A multidão congregada nas arquibancadas, inclusive os Macacos, aplaudiram o atrevimento da ruiva. Lion não podia acreditar. Cleo acabava de tirar seu par e isso só queria dizer uma coisa: que pretendia ficar com ele. A determinação dessa mulher era chocante. Com um par, havia se colocado ante ele, que era o amo a se derrubar no torneio e acabava de dispensar seu par, o ferrando de maneiras inverossímeis que nem ela era capaz de compreender. Cleo não podia fazer isso, iria destruí-lo se continuassem juntos, e de quebra, ele a destruiria. Estava louca? Claudia, assombrada, olhou a carta e exclamou. — Nem pensar! — Irritadíssima, dirigiu-se ao Amo do Calabouço e exigiu uma explicação. — Conhece as normas, Mistress Pain. A garota te... — limpou a garganta— Eliminou justamente. As cartas estão aí para serem usadas. — Deu de ombros. — Mas ele pode trocar essa carta! King pode desafiá-la. Meu par não concordará e a desafiará. Era verdade. Ele podia desafiar Cleo publicamente em um duelo, e, se Cleo perdesse, iria para casa e de quebra ele ficaria tranquilo. O problema era que se Cleo perdesse, o que aconteceria com Nick? Precisava dele dentro do jogo, na missão com ele. Teve uma vontade incontrolável de baixar o maldito short da bruxa e açoitá-la diante de todos. Iria acabar com ele e com o um ano e meio de trabalho que carregava em suas costas. — Seu amo deseja desafiar Lady Nala? — perguntou a Claudia. — Oh, com certeza — Lion respondeu tirando sua vara. A multidão aplaudiu. Estavam todos excitados com o desafio de Lady Nala ao King Lion. O Amo do Calabouço levantou a mão para silenciar a todos. — Pegarei o baralho de duração e orgasmos — abriu como se fosse um leque e colocou diante de Lion.— Adiante. Lion pegou a escolhida e mostrou a todos. —Dez minutos. Um orgasmo — pronunciou. O Amo do Calabouço, emocionado pela intriga do desafio, voltou-se para Cleo e perguntou com voz reverente: — Aceita o duelo, Lady Nala? Cleo cruzou os braços e olhou Lion de cima a baixo como se fosse menos que um mosquito. —Aceito o duelo. As arquibancadas festejavam a provocação na atitude dos amos. Claudia sorriu triunfante e caminhou até ela rebolando provocativamente. — Prepare-se, cadela — grunhiu ao passar ao seu lado. O Amo do Calabouço sorriu, pois sabia o que viria a seguir. — Mas — Cleo anunciou ignorando a educação ordinária de Mistress Pain— serei eu quem decide as regras. Sei que por hierarquia, um Amo Hank como o importantíssimo King Lion tem supremacia sobre uma Ama Shelly como eu. 45


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— Claro que tenho, belezinha — assegurou-lhe com frieza.— E verá como cairá rápido. —Uuuuhhhhhh — grunhiu o público. — Muito bem, King! —um amo exclamou entre a multidão. — No entanto, esta carta — Cleo caminhou até ele e fez o mesmo que fez com Claudia. A pregou sobre seu coração, em sua pele suada, virada para os demais.—... a carta Switch, muda tudo. Permite-me inverter os papeis durante esta prova. Lion franziu o cenho e olhou o desenho, aturdido. Dois dragões que formavam um círculo, um de cada cor, invertidos em posição fetal como se fizessem um 69. A carta Switch mudava os papéis e o amo convertia-se em submisso. E vice-versa. O agente Romano temeu pela missão. Não confiava em Cleo. Ela deveria tratá-lo como uma ama trata seu submisso? Se Cleo Connelly não tinha más intenções nem atitude para isso. Era atrevida e descarada, mas... Duvidava que pudesse fazê-lo gozar em dez minutos mediante alguma técnica de dominação feminina. Não ia deixar jogar assim com ele. — Não faça isso —Lion murmurou. Cleo assentiu e sorriu triunfante. Em sua mente passavam muitas lembranças da semana passada, algumas muito boas e ternas, e outras nem tanto. Queria fazer Lion pagar por tudo, por não acreditar nela como agente. —Está louca! — Claudia exclamou incrédula.— Não pode submeter ao King. Não tem nenhuma fodida célula submissa em seu corpo. Vai perder. O público riu ante esse comentário, mas Cleo continuou na sua, sem baixar o olhar dos olhos de seu superior, ignorando a senhorita dores. —Você, venha aqui —ordenou a Nick estalando os dedos. Seu submisso veio imediatamente. Cleo desabotoou a coleira de cachorro e anunciou ao Amo do Calabouço:— É meu desejo libertar Tigrão. E quero que seja a Ama Thelma quem se encarregue dele. — Cleo ficou nas pontas dos pés e o beijou com doçura nos lábios.— Foi um excelente submisso, Tigre. Agora vá para que sua nova ama o surre —deu-lhe uma palmada no traseiro e o empurrou para que Thelma lhe abrisse os braços e o acolhesse, coisa que a loira fez de imediato. Lion arregalou os olhos. Haviam se escurecido pela raiva e a frustração que varriam seu corpo neste momento. E sentiu-se pior ainda quando Cleo o preparou para a performance colocando-lhe uma coleira de cachorro. “Filha da puta”. — Precisa de algum objeto, Lady Nala? — perguntou o Amo do Calabouço bastante solícito. —Sim —respondeu ela.— Me dê uma peruca vermelha. — analisou o cenário em busca do lugar perfeito que iria expor seu jogo vingativo pessoal. —Lady Nala... — Lion advertiu.— Pense no que vai fazer, porque logo voltará contra si. — Os cachorros não falam — puxou-o pela corrente e o guiou até a cadeira de castigo.— Senta. Lion não obedeceu. Os submissos como ele, sendo poderosos, muito mais altos e vaidosos, podiam irritar muito às amas. — Disse para você sentar — repetiu Cleo, empurrando-o ligeiramente no peito e fazendo-o tropeçar. 46


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—Vai perder igualmente, Nala — assegurou venenoso. — Gozando ou não, vou fazer que este torneio seja um inferno para você. Ouviu-me? Cleo estremeceu internamente. Um inferno para ela? O inferno era saber que não confiavam em sua coragem e que não apostavam nela, sobretudo depois de ter se entregado a ele do modo como fez na semana passada. O inferno era saber que conhecia o que sua irmã estava vivendo e, ainda assim, a tirarem do caso e não lhe permitirem ajudá-la. Havia muitos tipos de inferno e o emocional era o pior. Da sua bolsa de brinquedos tirou um gag com uma bola vermelha, umas algemas e um anel constritor de pênis. Rapidamente lhe colocou o gag, quase a força. — Ouviu, Nala? — Não, não te ouvi — sussurrou. Puxou os braços para trás e fechou as algemas em torno de seus pulsos largos. — Lady Nala. — O Amo do Calabouço lhe deu uma peruca com cabelo vermelho, comprido e cacheado. — No momento em que abrir seu zíper, o tempo começará a contar. Cleo assentiu e passou a peruca no rosto de Lion. — Sei o quanto você gosta dos jogos de feminilização... putinha. — ..ua ca..orra! — Lion exclamou com o gag entre os dentes. —Ui...não entendo. — Colocou-lhe a peruca. Sorriu. Até assim estava lindo. Ridículo, mas lindo. Cleo olhou ao Amo do Calabouço e assentiu com a cabeça enquanto abria o zíper de sua calça preta. Lion se remexeu querendo afastá-la. — Agora está indefesa — grunhiu Cleo baixando suas calças com força e tirando seu membro e testículos para fora da cueca escura. Cleo tinha visto alguns filmes pornô onde se realizavam orgias e bacanais. Todas as mulheres deveriam vê-los para aprender. Havia se perguntado se seria capaz de fazer algo assim diante de tanta gente. E, nesse momento, estava fazendo sem o menor rastro de vergonha. Que incrível era a capacidade humana de reação ante situações adversas. Uma mulher tinha que ser valente em momentos como esse. Apesar de estar nervosa, sabia que Lion iria dificultar, mas ela confiava em seus jogos e sua pouca prática. Sairia dessa. O agente Romano, por mais que soubesse que estava envergonhado pela Fem Dom, a dominação feminina que ela realizava, ia cair. Quando tomou seu pênis entre as mãos, ele endureceu. Lion não podia acreditar. Não importava que essa mulher lhe fizesse o que não gostava. Quem se importava se o ridicularizava? Mr. Ereto era livre, o maldito. Cleo mostrou a língua e, sem avisar, plas! Desapareceu em sua boca, inteiro. Lion jogou sua cabeleira ruiva para trás e fechou os olhos com um grunhido. Quando o teve bem duro, já que não demorou nem 20 segundos para ficar como um mastro, a jovem ousada pegou o anel constritor de couro ajustável e o colocou na base de seu pênis, com 47


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o cuidado de não pegar seu saco. O anel constritor era usado para aumentar a ereção e privar o homem do orgasmo. — Agora que lhe dei um anel, já está comprometida, gatinha — Cleo sussurrou acariciando-lhe os testículos e arqueando as sobrancelhas de modo decidido. —¡uand slg dki te vj a gntrea…! Lion não pôde cuspir mais nenhuma palavra porque Cleo começou a masturbá-lo com mãos, dentes, língua e garganta... Suas pernas tremiam e Cleo sequer teve cuidado ou amabilidade. Ele suava. Tinha o pescoço, as costas e o peito úmidos. E a mulher não parava! Como fazia isso com ele? Então essa era a vingança? Seria estúpida. Tudo o que ele havia feito para protegê-la, para não expô-la desse modo... Maldita seja, ainda via as marcas do chicote de Billy Bob por baixo do short, por mais que tivesse maquiado. Ele não queria que ela entrasse em seu mundo assim. Não assim. Mas Cleo estava metida até o pescoço. Já não podia sair dali até que desvendasse toda a trama. A boca de Cleo se afastou dele e imediatamente sentiu falta. Alguém deixou de gemer, até que se deu conta que era ele quem gemia. Cleo passou a mão nos lábios refinadamente e pegou o chicote para golpeá-lo com uma inverossímil delicadeza por quatro vezes no ventre. No ponto exato. Zas! Zas! Zas! Zas! Lion gemia e suportava as chicotadas amáveis com as mãos fechadas em punhos e o rosto vermelho de raiva e indignação. Cleo ia chegar muito longe. — Cinco minutos — o Amo do Calabouço avisou. Lion e Cleo olharam um ao outro. “Nem se atreva, bruxa”, pensou ele. “Olhe e verá, cachorro”, pensou ela. Cleo ficou de joelhos ante ele. Puxou sua cabeleira e a deixou toda sobre seu ombro esquerdo. — Quatro minutos — anunciou o Amo do Calabouço. —Vou fazer você chorar — Cleo jurou segurando a ereção com as mãos para ordenhá-lo e meter a cabeça vermelha na boca. Lion reclamou, o anel o apertava e seu pênis pulava duro entre os dedos da harpia. A língua o marcava como fogo, a boca sugava e as mãos não ficavam quietas. “Não posso acreditar. Onde? Como aprendeu a...? Por Deus!”. — Três minutos. Cleo não ia precisar de muito mais. Notava pela espessura de Lion. Estava a ponto. Mas sentia-se como uma deusa castigadora com esse homem completamente à sua mercê. 48


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O público os animava, estimulando-a como a um cavalo que corria a ponto de alcançar sua meta. Cleo desajustou o anel constritor. Sentou-se em cima dele enquanto o massageava com as mãos. — Para cima e para baixo, para cima para baixo. — mexeu provocadora entre as pernas . — Vem, leoa —zombou —goze. “Leoa?! Isto eu não vou perdoar nunca. Merda. Merda. Pare, Cleo. Não faz isso, não faz isso…”. Lion estirou o pescoço com as veias completamente inchadas a ponto de explodir, os olhos azuis úmidos pelo prazer e, então, gritou como um espartano, estilo Leônidas Primeiro no espetacular filme 300. Claudia abriu a boca estupefata. Não entendia. Lion não gozava nunca se o dominavam. Jamais. E odiava os truques das amas que tentavam feminizar aos homens. Mas Lady Nala havia feito isso tudo e, ainda faltando dois minutos para o tempo do desafio acabar, King já tinha sucumbido. Merda. A ruiva a eliminou. Sharon estava apoiada nas barras da masmorra dos Macacos. Arqueou uma sobrancelha loira e assentiu como se tivesse sido uma vitória justa. Cleo tinha o estômago manchado pela liberação de Lion. Olhou para baixo, olhando o que ela provocou. Depois, desviou os olhos para Lion e o que viu não a agradou em absoluto. Seus faróis azuis a encaravam Voltavam a estar juntos. Agora ele era dela. — Bravo! Sim, senhor! — aplaudia o Amo do Calabouço. Cleo levantou-se do colo de Lion e situou-se atrás dele para pegar a chave das algemas e abri-las. Lion levantou-se com pernas instáveis e jogou a peruca vermelha no chão. Havia perdido. Guardou seu pênis dentro da calça. Tenso e irritado como nunca, fechou o botão e deu a volta para encarar Cleo. Tinha o estômago um pouco avermelhado devido ao chicote de sua inesperada dominadora e sua virilha doía por culpa do anel constritor. — Então, Lady Nala agora é meu par —assumiu Lion com a voz rouca e falha. —Como irá jogar? —o Amo perguntou. — Ela será minha escrava. Eu sou o único amo real entre nós dois. Cleo sorriu como uma loba. Deveria continuar mantendo essa pose altiva, ao menos até que chegassem ao hotel. Entretanto, por dentro começava a ser consciente do que acabava de fazer ao agente encarregado da missão Amos e Masmorras. — Pois não pareceu! — Brutus gritou rachando de rir. O Amo do Calabouço assentiu. —Mantenha o cofre que ganhou com seu antigo par, King. Mas a chave desaparece porque está no pescoço de Mistress Pain e ela foi eliminada. 49


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Lion apertou os dentes e dirigiu um olhar ártico para Cleo, que deu de ombros e mostrou a que ela tinha pendurada no seu. — Muito bem. King e Nala unem suas forças — exclamou o Amo do Calabouço para a multidão. — Tigrão passa a ser propriedade de Thelma e parceiro de jogos de Sophiestication. E nossa querida Mistress Pain — Lamentou — vai para a casa prematuramente. Assim damos por encerrada a etapa de Dragões e Masmorras Ds em Oman! Claudia abandonou o anfiteatro mal humorada. A multidão foi se dispersando, jogando olhares furtivos para o par contrariado que acabava de se formar. Lady Nala e King Lion tinham um longo torneio pela frente. E ambos os felinos tinham as garras expostas.

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CAPÍTULO 5

“O respeito é básico numa relação de dominação/submissão. Nunca faça com um amo o que não gostaria que ele lhe faça como submissa”.

Enquanto os Jet skies corriam a toda velocidade de volta ao resort de Charlotte Amalie, Lion e Cleo cortavam o mar tropical mais rápido que ninguém. Era a primeira vez em seus 31 anos, que Lion perdia o controle sobre seus nervos. Sentia o sangue fluir a toda velocidade em suas veias e só queria xingar, gritar e dar uma lição na bruxa de cabelos vermelhos que estava sentada atrás dele. Para o seu bem, Cleo mantinha a boca fechada, em silêncio, como a boa menina que não tinha sido há minutos atrás. — Ora, ora... Lady Nala é uma exibicionista que gosta de chupar paus diante de todos! — exclamou ele violentamente. — Eu nunca teria dito! Cleo apertou os dentes e cravou-lhe as unhas nas coxas. — E você fica muito bonita com peruca, leoa. —Está pronta para o que virá em cima de você? Mistress Pain estava à altura. Você é uma fodida filhotinha de leão, não é suficiente para o rei. Queria chegar ao final e você me fodeu. Lion e Cleo vigiavam-se muito para manter suas personalidades do jogo, porque tudo estava sendo gravado, exceto nos quartos do hotel, o Vilões e os organizadores os observariam. E os dois agentes deveriam manter suas verdadeiras identidades intactas. —Se é tão como acha, King —retrucou entre dentes — fará com que cheguemos à final. Lion não pode controlar sua fúria e derrapou com o Jet ski sem avisar Cleo. A jovem caiu na água. — O que está fazendo?! —exclamou cuspindo água pela boca como se fosse uma fonte. Afastou os cabelos dos olhos e lhe deu um olhar incrédulo. Lion apoiou-se no guidão enquanto dava voltas ao seu redor. —Me assegurando de que esteja bem molhada, leoa. Vai precisar estar bastante para tudo o que vou lhe fazer. —Me deixe subir. Cleo olhava para baixo. Os mares do caribe estavam repletos de tubarões, enguias e águasvivas venenosas... não? Ou isso era só nos filmes? Lion sorriu. Lembrava-se do medo de Cleo das profundezas marinhas. Sempre temia que um tubarão a mordesse. Mas Cleo não era consciente de que o único animal que podia mordê-la era ele. — Ai! —Algo tinha roçado em sua perna esquerda.— King! Não estou brincando! Suba-me! — Não, não, não..., escrava. Como me chamo para você?

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Cleo assumiu o papel. Era para isso que tinha vindo. Não importava que Lion a tivesse machucado nos dias anteriores. Ela queria fazer parte do caso e só poderia fazê-lo se mantivesse distância dele. E dispensando esse tratamento de amo despeitado e submissa ressentida conseguiria. —Amo. — Muito bem, Lady Nala. Quer subir? —estendeu a mão e quando ela assentiu e ia segurála, a retirou malvadamente. — Como se diz? Cleo girou os olhos. — Me deixe subir, amo, por favor? Lion tomou pela mão e a içou de novo em cima do Jet ski. Sem dizer uma palavra, arrancou com o Jet ski e se dirigiu para o hotel. Cleo era consciente que estava nadando contra a correnteza. Lion sabia que deviam manter-se serenos para seguirem no caso. Como iam conseguir isso sem arrancarem os olhos um do outro?

Nem Cleo nem Lion se falaram em todo o trajeto até chegarem ao resort. Na recepção os avisaram que haviam dado baixa no quarto que ela e Nick compartilhavam, já que agora era submissa e deveria dividir o quarto com seu novo amo. —Já avisaram ao senhor Tigrão? — Cleo perguntou. — Sim — respondeu o recepcionista, com o sobrenome Brown. — Ele já levou seus pertences para a suíte de Miss Thelma e Miss Sophiestication e ele mesmo se encarregou de levar seus pertences à suíte de King Lion. — Muito obrigado — responderam juntos. Uma vez lá em cima, Lion inseriu o cartão de seu quarto na fechadura. A luz verde acendeu e a porta se abriu com um click. — Entra — Lion ordenou. Cleo entrou e analisou o alojamento. Era uma suíte como a dela, com uma vista espetacular e uma varanda privativa toda de madeira. Cleo observou duas taças de coquetel ao pés de umas espreguiçadeiras. Claudia e Lion haviam bebido enquanto permaneciam estirados um em cima do outro nas espreguiçadeiras, pensou amargamente. A cama estava feita e, incrivelmente, não havia nem rastro dos pertences de Mistress Pain. — Ah, o ventou a levou —murmurou sentindo-se vencedora. — Quem levou foi você—replicou ele perto de seu ouvido e segurando-lhe o braço. — Vamos tomar banho.

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—Perfeito, vai você primeiro, agente Romano. Eu irei em seguida — disse deixando sua bolsa de brinquedos e seu chicote sobre a cama. Não pensava em admitir que a ordem que havia dado a tinha deixado nervosa. Não ia dividir mais nada com Lion Romano a não ser que tivesse que fazê-lo estritamente como King Lion. Sua doma terminou no momento em que ele a abandonou e a tirou do caso. Lion desapareceu no banheiro e abriu a torneira do chuveiro. Colocou a música no último, a canção What Goes Around Comes Around de Justin Timberlake reverberou em toda a suíte. Cada um colhe o que planta, nunca houve melhor ditado. Lion a tinha ferido. Agora estava suportando toda sua aversão. Cleo não o viu chegar. Lion tapou sua boca e, pegando-a pela cintura, arrastou-a até o banheiro. Lá dentro, a água fervendo do chuveiro começava a embaçar as janelas e os espelhos. Ela abriu os olhos, assustada, e sacudiu a cabeça para liberar-se de sua mão, mas entrou no chuveiro com Lion, ambos vestidos. Ele levou o indicador até a boca ordenando que ficasse calada. — Vou lhe dizer uma vez só — grunhiu apertando seus lábios com os dedos e grunhindo em seu ouvido como se fosse um cão raivoso.— O que fez hoje foi um ato de indisciplina descomunal. Colocou o caso em risco, não sei como se atreveu. Não quero nem que me chame pelo meu sobrenome. Para você eu sou Amo, ouviu? A-M-O ou SENHOR. — Cleo o olhava com atenção através de seus olhos verdes e úmidos pela água salgada do mar e agora pela água do chuveiro. — Não confio em nada do que há nestas instalações. Nem sequer se tem outro tipo de dispositivos de áudio mais avançados e que meu detector não capta. Portanto, comigo preserve a cerimônia, entendido? Aqui e lá fora. Por isso Lion tinha colocado a música no último e ligado o chuveiro. Não queria que os ouvissem. — Vai jogar comigo, é o que você quis. Pois bem, prepare-se, porque o numerozinho de dominação que fez hoje é uma mera brincadeira de criança com o que pode lhe aguardar. Cleo o empurrou pelo peito e se libertou, gritando em voz baixa. — E por que acha que estou aqui?! Acha que penso que estou no conto de Branca de Neve e os Sete Anões? Sou muito consciente do que se faz neste lugar, mas posso fazê-lo. —Voltou a empurrá-lo. — Me tirou do caso acreditando que eu não aguentava isso. Abandonou-me. Depois de me usar por cinco dias. Cinco! Por quê?! — exigiu saber. — Não a vi preparada—contestou honestamente. —Preparada para abrir as pernas ou para fechá-las? Não é nada de outro mundo! As pessoas fazem isso constantemente. É algo que fiz antes de te conhecer, como todas as mulheres do planeta. O sexo não é nada novo para mim. — Este é. —Pressionou-a de novo contra a parede. — O que acha que acontecerá quando tiver que jogar com mais de um de uma vez? Acha que isso não vai acontecer, pirralha? — Não me insulte — o advertiu.— Farei o que for para chegar à final. Sou grandinha e, além disso, tenente da divisão policial de Nova Orleans. Não é o suficiente para você? —Ele ficou calado e baixou os olhos para o chão de madeira do box. Suas roupas estavam ensopadas.— Por quê fez 53


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isso, Lion? Porque me deixou assim do nada? Porque Billy Bob me atacou? Porque te deu tanto medo? Porque se sentiu culpado? Pois adivinha só?! Sou policial e me atacam várias vezes. Batem em mim, me jogam no chão e me apontam armas. E não me assusto. Não me assustarei aqui por ver pessoas ativas e sexuais dominando e submetendo. Pode ser que eu não esteja à sua altura, amo — cuspiu sem respeito algum — minha maneira de fazer amor não é essa. Mas o sexo é sexo e posso me acostumar. Serão só uns dias. — Não sabe o que diz. —Por que vê tudo tão negativo? É o que faz desde que tem 21 anos, Lion! É seu jeito de foder. Não é só você que faz isso: milhões de pessoas também fazem isso com instintos dominantes e submissos! Também posso fazer! Não tem importância! —Mas aqui não há perdão! Os Vilões já terão posto os olhos em você, com certeza os agrada... — Bom, esse é o plano! Para isso foi me buscar! — Não! —gritou batendo a parede à suas costas, sobre a cabeça de Cleo.— Fomos buscá-la para te prepararmos e porque parece com sua irmã. Mas não é Leslie e não está tão preparada como ela. Você se deixa levar pelas emoções e isso não é bom! Por isso não te aceitaram no FBI! Vai por tudo a perder! Cleo deixou cair a mandíbula e o olhou ofendida. — Vou por tudo a perder? Por quê? — ergueu o queixo com teimosia. — Acha que me apaixonei por você? Duvido, senhor. Com as coisas que me disso, sei que não estou à altura de suas expectativas —admitiu depreciativa.— Tenho emoções, mas não sou burra. Ambos se olharam, conscientes das coisas que haviam dito em sua noite de bebedeira. Palavras que nunca deveriam ter sido pronunciadas. — Seu jeito de ser não é bom para isto. —Ah claro, tenho que ser um robô como você? —sorriu incrédula. — É ruim ter emoções, senhor? —perguntou com voz fraca. — Minha irmã também tem sentimentos e emoções, sabia? —Eu...eu sei — Lion assegurou. —Então porque Leslie podia se meter em tudo isto e eu não? —Porque ela é diferente de você, pedaço de tola —murmurou olhando-a diretamente nos olhos. Cleo negou com a cabeça e engoliu a saliva. Leslie era melhor? Isso era tudo. Bom, já sabia o que Lion pensava dela, sabia desde que levantou no sábado e leu seu bilhete impessoal. Muito bem. —Senhor —Lion era seu chefe. Ponto final — estou preparada profissionalmente para qualquer coisa. Minha irmã está em algum lugar dessa ilha, estou desejando encontrá-la e averiguar onde estão as demais pessoas que traficam. E tenho tanta vontade quanto você de resolver toda esta merda. Vou chamá-lo de senhor, não o chamarei pelo seu nome, e, me guardarei de ser emocional. — Sua dominação não acabou. Precisa finalizá-la ou haverão coisas que vão doer demais se tiver que executá-las —assegurou com voz penetrante.— Está pronta para isso? 54


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—Sei que... Sei que tudo o que quiser fazer comigo será para me preparar para as provas. Não direi não a nada. Darei o meu melhor para que em momento algum possa insinuar que não estou à altura. — Isso é o que precisa fazer. —Lion afastou-se um pouco, dando-lhe espaço para respirar. — Está em cena, não se esqueça. Mais outro ato de indisciplina e juro que farei todo o possível para que nunca possa entrar no FBI. —Sim, senhor. Ainda que não seria a primeira vez que alguém emocional demais é admitido no Escritório Federal de Investigação — Cleo replicou sem olhá-lo nos olhos.— Se não, que perguntem a Billy Bob. Lion abriu as narinas e apertou os punhos em ambos os lados do quadril. Era ouvir esse nome e todos seus sentidos despertavam, estimulados pelo ódio. Cleo se abraçou enquanto o jorro de água a ensopava por completo, apertada contra a parede. As coisas haviam se esclarecido, assim como os corpos se esclareciam debaixo d’água. A música continuava tocando e eles sequer atreviam-se a se mover. O box ficou pequeno demais para a imensidão de suas diferenças. Lion acreditava que ela era uma incompetente e que colocaria a missão em risco. Ela sabia que estava mais que capacitada para levá-la adiante. Tinha muita coisa em jogo e muito o que provar. — Dispa-se. Vamos tomar banho. —Sim, senhor — contestou simplesmente. O que importava se a via sem nada? A nudez física pouco significava comparada com a nudez da alma. E já havia tirado essas capas três dias atrás. Não pensava voltar a fazê-lo.

Às três da tarde, logo depois de tomarem banho sem se tocarem, tinham saído do hotel dispostos a comer algo e a encontrarem-se com a equipe de base. Precisavam que lhes dissessem onde tinham guardado as armas e as provisões para, quando chegasse o momento, poderem ir por elas. Haviam colocado as pulseiras falsas de Dragões e Masmorras DS e, graças a isso, visto que tinham um localizador especial, um dos membros da equipe viriam em seu encontro. Cleo e Lion continuavam sem se falar. Por mais que tivessem compartilhado um estranho momento depois de saírem do banho, um desses que deixava Cleo aturdida e a confundia com respeito à verdadeira personalidade de Lion. Ele pediu que se deitasse na cama e aplicou um de seus unguentos especiais nas marcas do chicote de Billy Bob. Sem medo, acariciando-a e esfregando-a com suavidade, deixando que o

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calmante fosse absorvido pela pele. Depois de tanta tensão, ela agradeceu esse cuidado e esteve a ponto de adormecer. Lion, por sua vez, necessitava tocar Cleo, sem palavras, sem esse afastamento que havia entre ambos, provocado acima de tudo por ele, e alimentado pela rebeldia dela. Ainda assim não podia odiar Cleo. Era impossível. Aquela menina não entendia como era importante para ele e, por outro lado, por que deveria? Já que Lion nunca tinha lhe aberto o coração? Mas preferia que pensasse que ele a odiava e a rejeitava do que soubesse que dominava o selvagem coração do leão, era o mais puro desejo de ficar com seu par. Caminhando pelo porto como dois turistas, Cleo deteve-se no Beni Iguana’s. O desenho do cartaz era um réptil disfarçado de talharim, com um peixe na mão e uma faca na outra. Lembrou-a Ringo, que deixou aos cuidados de sua mãe, Darcy. Desejou e esperou que estivesse fazendo o melhor que sabia, ainda que odiasse a todo animal que não fosse mamífero e parisse como humano, como ela mesmo dizia. Lion leu o cartaz: “Beni Iguana’ s Sushi Bar Restaurante”. —Olha, um bicho como o Ringo. Cleo nem sequer o olhou, nem lhe respondeu com a frase de sempre: “Ringo é um camaleão.” — Eu gosto de sushi — sugeriu subindo os óculos por cima da cabeça e prendendo a franja com ele. Lion assentiu e indicou que ela entrasse primeiro. Por fora parecia um local típico de ilha: Todo branco com o marco das janelas de madeira de cor verde e várias mesinhas com guarda-sol para comer algo no terraço. Mas o interior não tinha nada a ver com sua humilde fachada. Tratava-se de um autêntico restaurante de sushi como os que podiam ser encontrados numa grande cidade. Tinha três aquários impressionantes que dividiam os ambientes. Um desses aquários era cilíndrico e estava cheio de corais típicos do Caribe, de diferentes cores e formas. Decidiram sentar em uma parede cujo preenchimento eram dois aquários retangulares iluminados com focos azuis e rosas. O mobiliário era todo branco e o sofá reclinado era de pele da mesma cor. Pediram um prato de mexilhões, que pelo visto gozavam de grande popularidade, uma bandeja de Futo Maki, com variedade de combinações de arroz, verduras, frutas, pescados e muitos molhos para acompanhar. Para beber pediram cerveja japonesa; a de Cleo com sabor de morango. — Cerveja com sabor de morango? — Lion perguntou tentando iniciar uma conversa. —Sim, senhor. —Hum. Já tinha provado alguma vez? Cleo tinha levado o telefone para a mesa e estava verificando seu correio de voz e sua caixa de entrada de e-mails. Sempre que abria o e-mail, tinha esperanças de que fosse Leslie que 56


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escrevesse. E cada que vez que via que não o fazia, uma bola de medo e pânico se alojava em seu estômago. — Não, senhor. —E se não gostar? —Por isso vou provar, senhor. — Deixou o iPhone na mesa e se concentrou em falar do caso e não de gostos pessoais sobre cerveja. — Me diga, quantas pessoas conhece no torneio e que tenham frequentado os mesmo locais que você? Lion apoiou o queixo em uma mão e fez que pensava na resposta. — Há alguns, sim. —Sharon, Brutus, Prince, Claudia...? —Thelma. —Cleo arqueou as sobrancelhas de modo interrogativo. — A vi um par de vezes no Luxury e no Sons of the Evil. —Ambos os clubes eram de BDSM.— Tem um casal de góticos também, os dois bem loiros e com muitos piercings por todo o corpo. Eles também são assíduos... —Ah, sim, os vi. Os vickings. Ele fez um fisting vaginal nela. —Sim. Se chamam Cam e Lex —sorriu.— Não te deu medo por presenciar algo assim? Ver como um homem metia a mão inteira na vagina de uma mulher e a masturbava com o punho? — Não, senhor —analisou o cardápio do restaurante.— A mulher parecia estar em êxtase. E não me surpreende. Essa parte de nossa anatomia é muito, muito flexível. Por ali saem os cabeções como o seu. —Como disse? —Nada. Tenho uma pergunta sobre Sharon. Posso fazê-la, senhor? Não se preocupe, não me importa se esteve ou não com ela. Não farei perguntas desse tipo. Lion dissimulou o impacto dessas palavras em seu amor próprio. O garçom serviu-lhes os pratos que pediram com uma apresentação impecável e ofereceu os talheres e pauzinhos japoneses para que escolhessem. Os dois escolheram os pauzinhos. —Sharon é uma ama, verdade? — Cleo perguntou tirando o papel que envolvia os pauzinhos. —Sim. —Mas é como você. Não tem submissos, nem submissas. Não possui ninguém, joga com todos. Lion deu um gole em sua cerveja. Não gostava do tom que Cleo adotava para falar sobre ele. Parecia que depreciava suas atitudes, que não as respeitava. —Sim. Basicamente. —E reparei que basicamente, não permite que ninguém a toque nem que lhe deem prazer. Todos procuram manter distância, ainda que obedeçam suas ordens e ela pode tocar todo mundo... Por quê? É como Deus? —Faz uns dias lhe disse que quando um amo entrega seu coração, o faz para sempre, ainda que não tenha essa pessoa com ele ou ela. Uma vez que o entrega, não o dá a ninguém mais, seja ou não correspondido. Sharon já não tem seu coração. E sequer creio que o possa recuperar, porque o homem que o possuía, o triturou — respondeu com o rosto sombrio. 57


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Caramba. Isso sim que o interessava. A mulher das neves, a deusa apocalíptica, tinha entregado seu coração... A quem? — De onde os conhece? —Pegou um marisco com os dedos e o levou a boca. —Me dê. —Pediu porque sabia o tanto que ela odiava dividir a comida. Cleo olhou o marisco e depois para ele. Sorriu docemente. —Claro, senhor. Toma —ofereceu-lhe, pondo outra mão embaixo para que não pingasse molho. Lion abriu a boca e esperou que ela o alimentasse como um filhote de avestruz, sabendo o tanto que isso a irritava. — É uma longa e sórdida história — explicou servindo os bolinhos de arroz para Cleo antes que para ele. — Quer um de cada? Cleo soprou. —Tem 28 bolinhos de arroz, senhor. Um de cada são quatro, me dê ao menos dois de cada. Estou faminta. Lion mordeu os lábios para não rir. — Me conte —Cleo pediu interessada.— Temos tempo. —Sharon vive em Nova York há três anos, mas sua família é de Nova Orleans. Conhecemosnos faz uns cinco anos, mais ou menos. — Caramba, todas as pérolas saem dali. —Sim. Basta olhar para você. —Touché, senhor — respondeu simplesmente. — Quando lhe deram o caso de Amos e Masmorras sabia que Sharon era a Rainha das Aranhas? —Sharon era conhecida no BDSM como uma das amas mais importantes do meio. Deixou muitos corações partidos e fez muitos homens importantes suspirarem. Mas foi uma casualidade que ela estivesse no papel como Rainha das Aranhas. O torneio não tem mais de dois anos de vida e muitas pessoas do mundo participam. Já a conheciam e Sharon simplesmente aceitou o papel. — Ignorante de tudo quanto acontece entre as cortinas dos Vilões... —Sim. — Então foi uma casualidade que você estivesse no mundo do BDSM e lhe dessem o caso... Estava escrito nas estrelas, senhor? — Vigie o tom, escrava, não me agrada. E tenho muita, muita vontade de lhe castigar. Não me esqueço. — Faça o que deve, senhor —replicou sem dar importância a suas ameaças. —Então, vocês dois eram bons amigos? —Sim. Muito amigos. — Continuam sendo? —Digamos que sempre lembraremos os bons amigos que fomos. Mas, agora, as coisas mudaram. Respeitamo-nos e tentamos fazer que a dor do passado não salpique. —Oh, e aposto que houve muita dor.

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Cleo engoliu uma bola de arroz inteira e fechou os olhos morta de prazer. Perderia-se no sabor do pepino e manga ao invés de desistir e lançar-se em perguntas do sexo que, com certeza, ele e Sharon tiveram. Sharon seguramente estaria destroçada porque Lion não ficou com ela. Lion a estudou e, irremediavelmente, como lhe ocorria toda vez que estavam juntos, ficou duro. Cleo usava um vestido estilo marinheiro justo e bonito, com saltos agulha que despertariam os desejos de qualquer fetichista. Cleo Connelly sabia manter o tipo altivo de Lady Nala, dentro e fora da masmorra. Tinha estilo, sim senhor. Mas com ele já não era ama, agora era sua submissa. —Sua curiosidade por Sharon acabou? Não quer me perguntar mais nada? — indagou esperando outra pergunta de cunho pessoal. —Não. O que quer que tenha feito com ela não me importa. —Deu um gole em sua cerveja de morango. — Puta merda, tem gosto de morango de verdade! Está muiiiiito boooa! — exclamou. —Me dê. —Claro, senhor! —Estava atuando. Não gostava de dividir as coisas com Lion. Agora ia manchar a boca da garrafa de baba, como se o visse... E faria de propósito. Ele a olhou de soslaio. Levou a cerveja à boca e enfiou a língua dentro do gargalo para lamber. Cleo manteve um sorriso impassível. —Gostosa, não é? —perguntou tirando a garrafa das mãos dele e levou a boca novamente. —Tem o seu gosto. Cleo deixou a garrafa na mesa com um sonoro golpe seco. Eram essas respostas que a incomodavam. Lion sorriu de um jeito indecifrável. —E o que fez para Prince? —prosseguiu com seu interrogatório. — Por que esse homem tão bonito está tão chateado com você? —Não queria parecer agressiva, mas estar na companhia de Lion Romano provocava essa reação nela. — É verdade que você se enfiou na cama de sua mulher? O rosto de Lion ficou de pedra, endurecido completamente e a olhou sem nenhum respeito. — Acha que fodo a tudo que se move, bebê? Sei que não tem uma boa opinião sobre mim. Mas lhe disse há três dias que não era esse tipo de filho da puta. E volto a repetir: Prince estava enganado a respeito de sua mulher e acreditou no que quis. Ele olhou, mas não viu a realidade. —Que interessante. —continuou ela — Quanto mistério. Estou me dando conta de que, afinal, seus amigos se afastaram de você, não é mesmo, senhor? — ácida. Muito ácida. — Se dava bem assim com a minha irmã também? Espero que não e que tenha cuidado melhor dela. — Não cuidei bem dela, Cleo. A levaram —grunhiu dolorido por suas palavras. — É isso que quer ouvir? As palavras se entalaram na garganta. —Não —calou-se abruptamente. —Quando encontrá-la, poderá perguntar você mesma. Mas sempre respeitei Leslie e a amei como a uma irmã. Entendeu? Quando entrou no caso expliquei, tanto a Clint quanto a ela, quem 59


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era e o que era. E eles aproveitaram-se disso para saber interpretar melhor seus papeis. Ajudei no que pude. Cleo assentiu com a cabeça e decidiu ficar calada e continuar comendo. —Tenho certeza que entre as aulas de Susi e seus conselhos — comentou mais suavemente —Leslie converteu-se em uma excelente submissa. Lion riu sem muita vontade. — Submissa? Sua irmã Leslie não entrou como submissa. Entrou como ama. Clint era seu submisso. Cleo deixou cair os pauzinhos no prato. Leslie uma ama? Isso se encaixava muito, muito mais. Sua irmã tinha um caráter muito rebelde. Preferia submeter a ser submetida, estava acostumada a mandar. Sim, essa era sua irmã, lembrou com orgulho. —Mas eu pensava que... —Leslie entrou no jogo como ama. A Rainha das Aranhas a convidou para o torneio devido seus dotes de dominação. Cleo passou os dedos nas sobrancelhas. —Estou um pouco confusa. —Não. Não está. Ela é a Connelly ama, e você a Connelly submissa. —Não é verdade. —Levantou a cabeça. — A diferença é que ela teve muito tempo para se preparar e teve o que escolher. E a mim, você me obrigou a ficar com você. — Não a obriguei. Você consentiu. — Eu consenti que me obrigasse, senhor. —Eu queria você fora daqui — levantou a voz. —Não há necessidade que me diga isso mais vezes — replicou com amargura. — Colares? Pulseiras? Anéis? Os dois levantaram a cabeça ao mesmo tempo para dizer não. Mas o homem que vendia artesanato era muito conhecido por Lion. Tratava-se de Jimmy, um agente do FBI. — Claro que sim. Deixe-me ver. —Lion estudou a maleta com joias. — Os vermelhos e pretos são os que mais combinam —disse o vendedor ambulante, com óculos de sol, cabelo e barba loira com um surfista. Cleo estudou a bijuteria como uma menina apaixonada. Estava na cara que esse era o contato da equipe da missão e ela sabia fingir como ninguém. —Pegarei este e este — Lion apontou os colares vermelho e pretos como ele tinha sugerido. E as pulseiras de couro que tinham caveiras e baús. —Também vendo celulares —assegurou arqueando as sobrancelhas. Na parte inferior da maleta havia um HTC preto de tela touch screen. Lion o pegou. — É muito bonito. Quero os colares, estas pulseiras, estes anéis e o telefone. Os casais ao redor olhavam espantados. Cleo sorriu e lhes disse em voz baixa, piscando um olho. — Hoje ele está ótimo. 60


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Quando chegaram no quarto do hotel, tinha um envelope azul no chão, na entrada do quarto. Haviam colocado por baixo da porta. Cleo agachou-se e o pegou nas mãos, abrindo com impaciência. —O que diz? — Lion perguntou. —Nos convidam para um jantar no castelo do pirata Barba Vermelha. Às nove e meia. Uma limusine virá nos buscar. — Perfeito — Lion assentiu deixando a bijuteria e o telefone na cama. —Poderíamos convidar Thelma para que Nick nos acompanhasse. —Sim. Perguntaremos em que quarto estão e ligaremos. Cleo deixou a nota na mesa de entrada e sentou-se na cama ao lado de Lion, analisando as pulseiras de couro com contas prateadas em forma de caveira e baús, e os colares com meias luas ocas por dentro e que chacoalhavam como se tivesse algo em seu interior. Pegou as duas pulseiras de couro e abriu os adornos em forma de baús, pois não estavam bem fixados na correia. Levantou-os e descobriu que cada um dos cofres continha pequenos microfones. Cleo sorriu. —Sabem tudo. Lion ergueu o olhar da tela do HTC e lhe mostrou o telefone. —É um mapa completo da ilha. Os pontos vermelhos são as câmeras que abrangem todas as áreas. Se tocar em cima de cada um desses pontos, uma gravação em tempo real se abre e poderá ver o que está acontecendo: Entrada e saída de barcos, movimentos estranhos nas ilhas... Tem até zoom. Mas precisam de teclas espiãs para poder gravar melhor os rostos de todos os participantes e usar o programa de reconhecimento facial. — O que há nas pulseiras de couro são micros espiãs —Cleo assinalou entregando as pulseiras negras.— Estas você pode usar, são mais de garoto —sugeriu com uma desculpa.— E o que tem nos colares de luas prateadas e pedras vermelhas devem ser olhos espiões com a câmera integrada. Cleo abriu as luas ocas e segurou o objeto diminuto entre os dedos. —Aqui estão. Minha nossa, são minúsculos, quase impossíveis de detectar. — São feitas para isso. Para que não sejam vistas. Ela estreitou os olhos e enrolou o colar ao redor do pulso, como se usasse várias pulseiras. —Esta noite, quando estivermos no jantar... — Lion seguiu checando o telefone. Na agenda só haviam dois telefones de contato. O de Jimmy, como equipe de apoio, e um outro, como reforço —devemos gravar tudo o que estiver ao nosso alcance. A base-móvel captará tudo, receberá a gravação das lentes e do áudio. Não sabemos quem vai no jantar esta noite e será bom que tenham todos controlados. — Muito bem. —O FBI tem uma lista dos nomes de todas as pessoas que chegaram na ilha entre ontem e antes de ontem. Com os olhos de falcão e o programa de reconhecimento facial, comprovarão suas verdadeiras identidades. E nos avisarão das anomalias que encontrarem. —Bom —assentiu com competência.— Então, se não há mais, senhor, vou me preparar para jantar. 61


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— Não vai ser um jantar comum — murmurou analisando-a de cima a baixo.— Prepare-se para qualquer coisa. Deve usar o colar de submissa, e... —Sim. Eu sei. Não penso em sair do papel. Não sofra, senhor. Mas Lion sofria. Sofria porque Cleo estava completamente exposta aos olhares de todos e era um doce apetitoso para respeitá-lo.

Castelo do Barba Negra. A vista da torre da homenagem era impressionante, podia- se ver todo o conglomerado de ilhas ao redor de Charlotte Amalie, além do pequeno hotel, três piscinas pequenas e o restaurante que rodeava a base do castelo. “Quanta beleza", pensava Cleo. Olhou por cima das mesas que estavam dispostas ao redor das piscinas, fechando aquela área para os clientes habituais, como se fosse um lugar privado. Um speaker uniformizado de pirata, que os guiou por uma pequena rota pela fortaleza, explicou que antigamente o castelo foi construído como um farol para proteger o porto, e que o chamaram de Skytsborg, e que era usado, basicamente, como uma espécie de torre de vigia que vigiava os navios inimigos. Edward Teach, o malvado Barba Negra, a partir de 1700 decidiu utilizar o Skytsborg para seus próprios fins de pirataria e, desde então o castelo adotou seu nome. Cleo e Lion dividiram a mesa com Thelma, Louise e Nick, mas, além deles, também havia um casal de loiros nórdicos cheios de piercings. Os vickings Cam e Lex. Vestiam preto, exceto ela que usava tons de roxo escuro. Nick usava uma camiseta vermelha e jeans desgastados azul claro. E, como acessório, a coleira de cachorro de Thelma. Louise ao seu lado, usava o leve vestido preto que marcava sua silhueta elegante, mas a máscara de cabeça inteira que cobria seu rosto e seu cabelo a assexuavam completamente. —Não está com calor, Louise? —Cleo queria que Thelma soubesse que, no verão, não era aconselhável matar as pessoas asfixiadas. Sophiestication se sobressaltou ante a pergunta. Foi um gesto leve, mas tanto Cleo como Nick perceberam. A mascarada negou com a cabeça rapidamente e continuou com a cabeça baixa. Sequer mostrava seus olhos. Isso sim que era submissão. Entregar seu corpo e sua pessoa ao prazer de outro. Cleo se sentiu mal por Louise, mas, por outro lado, era sua decisão jogar assim, de modo que não podia fazer nada.

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Além do mais, o que ela diria? Já que também usava uma coleira de cachorro no pescoço e Lion puxava a corrente de vez em quando só para irritá-la. Ah, sim: seu colar tinha um olho de falcão incrustado no fecho e servia para algo mais do que objeto de dominação. — Ficaram sabendo? — cochichou a ruiva heavy. —O que, Cam? —Thelma perguntou. — Dizem que os Vilões estão na torre da homenagem. Querem ver de perto os participantes e trouxeram presentinhos — sorriu, esticando seus lábios roxos de modo perverso. Cleo, Nick e Lion ficaram alertas. Lion olhou para cima dissimuladamente. — Ouvi que eles mesmo trazem submissos para que o pessoal se entretenha com eles — Thelma murmurou muito interessada. — Francamente, essa parte do torneio não me interessa — Cam disse colocando os cabelos moicanos na mesma direção.— Prefiro a ação. —E terá —Lion assegurou.— Os organizadores preparam jogos para os convidados. Cleo tragou saliva e tamborilou com o salto de seu sapato contra o chão. —Que tipo de jogos? — Cleo perguntou em tom malicioso a seu “amo”. —Jogaremos damas —Lion disse provocando risadas. Cleo estreitou os olhos e o olhou através de seus cílios grossos. — Ótimo, senhor. Vamos comendo as fichas um do outro. Lex riu e aplaudiu Cleo. —Se me respondesse assim, neném, agora mesmo lhe colocaria sobre meus joelhos e... —Mais uma palavra, Lex —Lion cortou rapidamente, sem rastro de humor. —, e você e eu teremos um problema. Lex sorriu e passou o braço por cima de Cam. — Não ousaria mijar em seu território. Cleo tentou não revirar os olhos ao escutar aquele comentário. Ela não estava no território de ninguém, estava ali porque queria. E Lion não podia controlála nem dominá-la jamais porque nunca voltaria a ser tão tonta para se entregar a ele de novo. Ponto final. —Sejam todos bem vindos a esta noite de piratas e barbudos —Sharon anunciou em frente ao deque da piscina principal. Ela vestia um espartilho deslumbrante e uma saia curta com babados. Os saltos era bem mais altos que os de Cleo. — Hoje temos visita — olhou para a torre.— Nossos vilões os estão vigiando! —exclamou sorridente e saudando as águias mascaradas que espreitavam para ver suas presas. — Um aplauso para eles! Cleo aplaudiu sem vontade e tampouco conseguiu ver alguém com claridade, mas esticava o pescoço para que a câmera gravasse tudo que pudesse. —Bem. Depois do jantar, faremos um jogo a pedido dos Vilões. — continuou a Rainha das Aranhas.— Um desafio para todos os casais! Lion não ouvia as palavras de Sharon. Tinha o olhar azul escuro fixo na torre. Tinha os vilões na mira, mas não podia fazer nada contra eles sem provas contundentes de que este grupo de pessoas da elite traficava pessoas. 63


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— Enquanto isso, um precioso harém de puro sangues dado pelos vilões está disposto a encantar os convidados! Ou — Levantou o braço e apontou o cenário iluminado por focos. — Podemos jantar e desfrutar dos espetáculos que nossos Amos do Calabouço oferecem com suas deliciosas submissas! Ao redor da piscina, começaram a desfilar mulheres e homens vestidos com arnês de pônei de corpo e cabeça, rabos de cavalo, com os peitos e torsos expostos, calcinhas e slips de couro negro, caminhando em quatro patas. Animal play. Pareciam desinibidos e felizes com o que faziam. Alguns gemiam, outros uivavam, meneavam o traseiro e moviam a cabeça do mesmo modo que os cavalos de verdade relinchavam. —Quem seriam eles? —Thelma perguntou muito interessada nas identidades das potrancas. Ao mesmo tempo, os garçons desfilaram acompanhados da música Never gonna say I’m sorry de Ace of Base. O espetáculo tinha começado. Cleo, Nick e Lion cerraram os dentes e esforçaram-se para manter o controle. Se os vilões haviam oferecido como um presente para os convidados, provavelmente muitos daqueles submissos, se não todos, não estavam lá por vontade própria. Ainda que não pudessem demonstrar algo naquele momento. Cleo obrigou-se a olhar a todos e a cada um dos cavalos que passeavam pela piscina e caminhavam ao redor das mesas. O olho de falcão tinha que gravá-los, mas duvidava que com aqueles malditos arneses que cobriam seus rostos, o programa de identificação facial pudesse averiguar quem eram. Estava desesperada, buscando os traços de Leslie entre eles. Estaria ali? Por Deus! Tinha vontade de se levantar da mesa e ir, submisso por submisso, para encontrar sua irmã mais velha. Lion colocou uma mão quente e calmante sobre a dela. Segurou e a beijou no interior da palma. —Tranquila — sussurou de um modo que apenas ela poderia ouvir — Calma, leoa... Está tudo bem... Cleo encontrou nos rasgados e enormes olhos de Lion um sossego para sua ansiedade. Sim. Precisava se acalmar e manter a serenidade. O primeiro passo já estava dado. Estavam no torneio. Os Vilões também haviam chegado na ilha. Trouxeram seus próprios submissos e agora o ofereciam como carne de segunda. Enquanto tentavam jantar, observaram os exercícios de dominação que os quatro Amos do Calabouço exerciam com suas submissas. Cleo estava entre a angústia e a fascinação. Em outro tempo, teria pensado que aqueles métodos de castigos sexuais eram praticados para torturar, que o objetivo era maltratar. Pinças para mamilos, pinças clitorianas, esporas pontiagudas que passavam de cima a baixo pela vagina, eletricidade... Deus, estava vendo tantas coisas que não podia assimilar tudo. Dias atrás teria virado o rosto e, seguramente, teria procurado um telefone para chamar a polícia e fazer uma denúncia. 64


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Agora só tinha que ver a umidade entre as pernas das mulheres e as ereções dos homens para perceber que gostavam daquilo. Ainda assim, sempre acreditou que as pessoas do BDSM estavam mal da cabeça. Mas ali havia pessoas muito competentes, com gostos sexuais excêntricos e dominantes, sim. Mas não havia psicopatias de nenhum tipo, não havia demências. Gostavam de dominar e submeterem-se. Ponto final. Do mesmo modo que as outras pessoas gostavam de fazer tatuagens ou percings, ou gostavam de praticar esportes de risco ou ainda, muitos outros que preferiam fazer sexo grupal ao invés de fazer com um só par... essas pessoas do BDSM, dominadores e submissos, gostavam daquilo. E Cleo estava descobrindo que não a desagradava. O que odiava e repugnava era o modo que outras pessoas, como essas que estavam na torre utilizavam para submeter. Queriam provar apenas o efeito da droga afrodisíaca? Queriam vendê-los como escravos sexuais? Que merda faziam com eles? Perguntava-se isso tudo enquanto Lion não soltava sua mão em nenhum momento e a acariciava hipnoticamente com o polegar no dorso se sua mão. Acima, abaixo, em círculos... De vez em quando a olhava de relance e sorria. E Cleo, estupidamente, caía o mundo a seus pés, porque estava decidida a pensar que Lion era um puto egoísta que só pensava nele e havia decidido há muito tempo que era uma incompetente. Mas se tentava acalmá-la e dar-lhe apoio moral como fazia nesse momento, ela perdia as forças para continuar o odiando. Porque era mulher. Mulher e apaixonada. — Precisa de algo, Lady Nala? —Lion perguntou aproximando-a demais de seu corpo. Ela negou com a cabeça. —Não comeu muito. —Observou com olhos brilhantes pegando o garfo e espetando um pedaço de carne de lagosta. — Abra a boca. —Comi a salada de carangueijo, senhor — respondeu ela. —Abra a boca — repetiu estreitando os olhos. Cleo obedeceu e ele a alimentou diante de todos, enquanto se olhavam de um modo quase sujo. Ela já sabia comer sozinha, mas Lion gostava de interpretar esse papel. O agente fixou o olhar no canto de seu lábio. —O quê? — perguntou ela. Lion tomou-a pela nuca e aproximando-a, passou a língua naquela área de seus lábios que tinha ficado olhando. E, depois, pressionou seus lábios ali, como se estivesse beijando. Cleo ficou imóvel e submissa. Submissa nunca melhor dito. Lion ia mostrar seu numerozinho e ela deveria manter o papel. —Assim que os MVP de hoje estão fazendo as pazes. Prince ficou de pé atrás de Cleo e os estudou com interesse. A camiseta de alças branca e a calça de couro fino lhe davam um aspecto típico de um anjo do inferno. Seus olhos negros olhavam perdoando a vida de todos. E puxava os arneses de duas mulheres que engatinhavam atrás dele. 65


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Cleo olhou um e depois outro e soube o que Lion tinha voltado a fazer: a beijava porque o outro amo ameaçador se dirigia a eles. E estava marcando território, como os cachorros. —Lady Nala —saudou-a com uma reverência.— No final, não me considerou e hoje lutou pelo King. Louvável — disse tomando um gole profundo de sua taça de vinho branco.— Mistress Pain não deve ter lidado bem com isso. — Tenho certeza que não —respondeu sabendo que estavam chamando a atenção do resto dos convidados.— Aproveitando a noite, Prince? —Aproveito. — olhou suas duas conquistas.— Mas pensei que Lion poderia aproveitar também. Tudo bem, Lady Nala? Cleo apertou os dentes e lambeu os lábios. Lion jogar com outra diante dela? Melhor não. O que os olhos não veem, o coração não sente. —Ops! Vejo ciúmes em seus olhos? — Prince sorriu. Cleo percebia o olhar penetrante de Lion sobre ela. Tinha que reagir. Como uma submissa responderia a isso? — Se meu senhor a aprecia, que faça o que der vontade. —contestou recatadamente sem olhar o agente Romano. — Na verdade —Lion tomou um dos arneses das duas submissas. — Escolheu a de cabelo castanho recolhido em um rabo de cavalo bem alto e esticado. — a fez levantar-se e sentar-se sobre seus joelhos. A mulher estava encantada e parecia sentir-se no limbo. — Lady Nala não tem poder para decidir o que devo ou não fazer. Verdade? Cleo não queria olhar. Por outro lado, estaria bem fazê-lo. Nick baixou o olhar para seu prato enquanto recebia as atenções de Thelma. —Olhe-me e responda, escrava. —Lion puxou a corrente de Cleo e a obrigou a lhe dar um olhar. Agora mesmo, estava no olho do furacão. Lion devia representar o papel de amo inflexível o melhor que pudesse. Não podia permitir que os Vilões, que viam tudo, soubessem que ele era, na verdade, o verdadeiro submetido da relação. Melhor esconder os pontos fracos. Além disso, precisava comprovar até que ponto Cleo era consciente do que estava fazendo. —Não, senhor —Cleo respondeu afetada. —Bem. Olhe. — lhe ordenou. Cleo piscou e cravou seus olhos verdes de fada nele. O Kajal, da mesma cor, a fazia parecer magnética, e a sombra mais escura dava profundidade ao seu olhar. Obrigou-se a fazer das tripas coração e observar como Lion jogava com outra mulher na sua frente. Lion aproximou o rosto da submissa ao seu, acariciando sua bochecha. Depois, roçou seus lábios com o polegar e os olhos vidrados do cavalo se fecharam de prazer. —Abra a boca — pediu. Cleo pulou. Essa ordem era a mesma que havia dado a ela um momento atrás. A submissa aceitou e, quando obedeceu, Lion enfiou o polegar em seu interior. Tinha a boca muito quente e úmida. Então desceu seus lábios sobre os dela e a beijou. Enfiou a língua em seu interior e degustou seu sabor. Sim, era exatamente o que ele já sabia. 66


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O popper era usado com inalador, e o sabor estranho e mentolado persistia no hálito e na língua da submissa. Continuou beijando-a enquanto a mulher se esfregava contra ele e lutava para rodear seu pescoço com as mãos. Quando verificou o sabor da droga, a afastou e fez com que se levantasse de seu colo. Prince sorriu ao ver o rosto de Cleo. Essa garota sentia algo pelo amo Lion. As emoções reais não podiam ser ocultadas, e ele, que tentava não expressar seus sentimentos, era um especialista nisso. Estava claro que King não era indiferente a Lady Nala. Sabia pelo modo que teve de mostrála aos demais na mansão La Laurie como se dissesse: “Estão vendo? Pois nem se aproximem.” Algo havia acontecido entre eles para que não tivessem chegado juntos ao torneio, mas, fosse o que fosse, estavam resolvendo durante a competição e, esse morde e assopra, essas provocações abertas, só queriam dizer que a chama estava acesa. Como a domariam? Dependeria deles. Sharon passou ao lado de Prince como se este não fosse digno nem de olhar seus sapatos. Prince sequer a olhou. A Rainha das Aranhas, que havia visto o beijo de Lion com a submissa, aproximou-se da mesa dos agentes infiltrados e ergueu o queixo de Cleo. Cleo piscou ainda irritada e confusa pelo que seu chefe havia feito. Seus olhos verdes brilhavam entorpecidos. Aquela foi a primeira vez que Sharon lhe deu um sorriso simpático e, até mesmo, carinhoso. —Sempre pode por as garras para fora, leoa — sussurrou com doçura. Era uma das poucas vezes que Cleo havia ficado sem palavras, sem saber como reagir. O que fazia? Jogava vinho em cima de Lion? O insultava e dizia tudo o que pensava dele diante de todos? Não. Não podia fazer isso. Apenas engolir seu orgulho como submissa e como mulher. Aceitar que se Lion quisesse continuar com o jogo e ficar com duas mulheres de uma vez para irritá-la e demonstrar que era o amo, então, faria isso. E ela teria que assumir a situação, por mais que o ferisse. Porque aceitou que Lion não a amava, e que ela faria o possível para continuar no caso: fingir e atuar como a melhor. Mas ela estava apaixonada de verdade por Lion e a dor subjazia debaixo de sua pele. E podia esconder isso, mas nunca enganar a si mesma. Lion apertou os dentes, mas obrigou-se a sorrir com frieza. — O que quer, Sharon? A loira dirigiu-lhe um olhar de desdém, como a maioria dos que dedicava a qualquer mortal. Estava irritada como ele. —Estou aqui pelo jogo —explicou.— Vou fazendo perguntas aos casais mais populares. E o fato é que você e Lady Nala estão na boca de todos e, visto o que acaba de fazer, insistem em estar. Assim, é a vez de vocês. —Que tipo... —Cleo limpou a garganta. — Que tipo de pergunta é? E quem inventou esse jogo? 67


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— Verás, bonita — Sharon contestou olhando para a torre.— Os Vilões querem diversão. Gostam disso — deu de ombros enquanto acariciava o cabelo vermelho que caia por seus ombros. — O torneio é deles, e se quiserem inventar uma nova regra esta noite, farão isso. —Como é o jogo? —Lion coçou o queixo. Sharon sorriu e arqueou uma sobrancelha loira. —Apenas uma pergunta para cada um. Respondam bem e não acontecerá nada. Respondam mal... e acontecerá o mesmo que com Brutus e Olivia. — Assinalou o cenário em que havia um amo enorme e musculoso, com um moicano de cor castanho e uma máscara negra que cobria suas maçãs do rosto e seus olhos ametistas bastante claros. Estavam tatuando o amo e a submissa.— Vão marcá-los como companheiros. Cleo fechou os olhos e suspirou. Merda.

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CAPÍTULO 6 “O amo e a submissa gravam-se um na pele do outro. Como uma tatuagem.”

Cleo segurava o interior do pulso esquerdo enquanto o elevador subia até o último andar do resort. Lion abriu a porta da suíte, entrou, e Cleo o seguiu, fechando-a com o pé, batendo com força. —Falhou de propósito — cuspiu incrédula. Desejava dizer isso desde que entraram na limusine. Mas por medo que tivesse microfones ali também, e para não montar um espetáculo diante de Nick e suas mulheres, ambos morderam a língua. — Você sabe os nomes das ilhas de Fâerun. Sabe todos! Falhou de propósito! Não acha suficiente me dizer que eu não deveria estar aqui, quer tornar minha vida impossível. —Mostrou o pulso tatuado com uma peça de quebracabeças e um coração vermelho. — Juro que quando chegar em Nova Orleans vou apagar isso, nem que eu tenha que esfregar a pele com um esfregão. Não quero isso! Lion não podia rebater as acusações, porque a verdade era que não soube que bicho o mordeu quando o Amo do Calabouço, Markus, perguntou o nome da ilha que adotava o nome de Water Island no torneio. A resposta correta era Norland, ele sabia. Mas, então, olhou para Cleo. Viu a culpa que ela tinha por tudo o que acontecia entre eles, pelo beijo que ele havia trocado com a submissa e pensou que era a oportunidade perfeita para marcar Cleo com algo seu. Deu uma resposta errada. Cleo estava minando seu cérebro. Estar perto dela era um tentação que sabia que iria afetálo, mas não imaginava o quanto até que a viu aparecer no desfile da noite anterior como Lady Nala. Isso o matou. Vê-la o matou assim fácil. O joguinho daquela manhã havia fodido seus planos e já não podia estar tranquilo na missão. Se ela estava ao seu lado, se dividia entre o amo, o agente e o protetor. Com Claudia teria sido tudo muito mais fácil: Sem emoções, nem vínculos, nem amor. As provas seriam só sexo e ponto. Fáceis de controlar. Mas com Cleo... Nunca. Por favor, se não podia lidar com o fato de rodeá-la com tanta testosterona... O que aconteceria se caíssem numa prova em que deveriam compartilhar-se. Lion tinha isso claro: Mandaria tudo à merda. Se isso chegasse a acontecer, encontraria um modo de eliminá-la. Não permitiria que ninguém tocasse Cleo. Não suportaria. Sim, morreria, por sua culpa e, além disso, estando com ele, Cleo teria que ver-se obrigada ao contato com outros homens. Mas na prova das perguntas dessa noite, seus genes XY possessivos e sua mente cavernícola, a do homem que na realidade morreria pelos ossos de sua mulher, desejava que amos dividissem algo único. Claudia não significava nada. A submissa muito menos. Ela sim. 69


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Cleo tinha acertado sua pergunta. Mas ele não. E a pequena fada tinha razão. Fez isso conscientemente. E agora ambos tinham uma tatuagem que era uma pequena peça de quebra-cabeças com um coração e uma encaixava na outra com perfeição. Isso era algo que ninguém poderia apagar. Depois de concluírem a missão, Cleo teria algo em seu corpo que pertencia apenas a ele e que complementava sua peça. Uma tatuagem especial e preciosa entre casais. —Não me lembrei. Fiquei com a mente em branco. —Não é verdade! Fez isso porque queria me irritar! Merda, Lion! É uma maldita tatuagem! Não é um desenho de caneta. Sabe o quanto doeu? Sabe o medo que tenho de agulhas? —Já tem uma tatuagem no interior da coxa. Não é para tanto — respondeu um pouco arrependido. Cleo levantou os braços para o céu e levou as mãos à cabeça. Saiu na sacada. Precisava tomar ar fresco. A tatuagem ainda ardia. Haviam tampado com um plástico e agora tinha gotinhas de sangue que embaçavam o desenho. No horizonte, os cruzeiros atracados entre as ilhas dotavam o mar noturno de vida e de luz. O som das ondas caribenhas morrendo na orla e sal subiam até a suíte. Mas nada conseguia acalmá-la. Maldita seja. Tinha uma tatuagem de companheiro com Lion. Incrível. Se dessem as mãos e entrelaçassem esquerda com direita, as peças se sobrepunham e se encaixavam de um modo que eles não poderiam conseguir se encaixar nunca, e muito menos com o oceano que os separava, cheio de diferenças e rejeições. O som de seu iPhone a tirou de seus pensamentos. —É sua mãe —Lion saiu na sacada e lhe aproximou o telefone. Cleo pegou o celular imediatamente. —Oi, mamãe. —Querida! Como está sua viagem, céu? Lion está se comportando bem? —Sim. Lion é... um cavalheiro —grunhiu entre dentes. —Lembre-se de ficar bem e aproveitar as praias caribenhas. Estão passando protetor? Cleo sorriu com ternura. Sua mãe... sempre igual. —Sim, mamãe. Protetor 100. — Não existe desses. — Ah. — Bom, escute: Seu pequeno filhote de dinossauro... além de ser incapaz de olhar reto quando brigam com ele, deu para mudar de cores. Está indisposto? Cleo riu e apoiou a testa na mão. —Mãezinha, Ringo é um camaleão E é normal que mude de cores. —Pois deveria ensiná-lo a não fazer isso. Hoje se misturou com a salada e quase que seu pai o comeu. 70


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—Mamãe, não pode soltá-lo! —exclamou com vontade de chorar de impotência. — Ringo não conhece sua casa e poderia se perder... —Não se preocupe, céu. Tenho tudo controlado. E não temos mais gatos nem cachorros que o comam. Aqui está a salvo. — Eu sei. — Falou com sua irmã? —Sim. Está tudo bem. —Já estava tão acostumada a mentir e fingir, que a mentira saiu naturalmente de seus lábios. — Só que não pode se comunicar tão abertamente como você acha. —Eu não acho nada. Sou sua mãe. —respondeu séria— Quero ouvir sua voz. Isso é tudo. Mas se não pode... —exalou rendida — espero que possa logo, porque ela vai me ouvir. —Me disse que estava com saudade. — Eu sei. Eu também. E de você também. Só está fora há três dias e já estou vendo fotos de quando eram meninas com vestidinhos... Tudo bem, Cleo? —Sim, mamãe — respondeu prestes a chorar.— Sim, tudo bem. É o sol me deixando cansada. —Nada de ficar cansada. Tem que aproveitar suas férias, querida. Faça que fique gravado na pele e se lembre para sempre, sim? Cleo olhou o quão ridícula e ao mesmo tempo terna era a tatuagem e assentiu sem um pingo de autocontrole. —Hum. Vão ficar gravadas como uma tatuagem, não duvide. —Ligarei em dois dias. Eu te amo, minha filha. — Também te amo, mãezinha. Cleo desligou o telefone e afundou o rosto entre seus braços apoiados na borda da sacada. Começou a chorar sem nenhum controle. Mas não era um choro escandaloso, ao contrário. Chorava em silêncio, como as meninas que não queriam que ninguém descobrisse sua fraqueza. Lion aproximou-se dela silenciosamente. Nada poderia destroçá-lo mais do que ver Cleo chorar, já tinha aprendido isso. Sua valente e desconsiderada menina se sentia vencida pela situação e ele era o culpado direto disso. Não tinha facilitado com ela. E o pior era que não sabia como melhorar, porque estariam sob tensão quase o dia todo, e ele a pressionaria uma e outra vez para que continuasse a seu lado, para que seguisse seu ritmo. Queria cuidar dela e também queria que ela desse o seu melhor. Mas estava tão assustado de tê-la ali com ele... Como se supunha que deveria agir quando a mulher que amava estaria tão exposta e vulnerável com ele? O que deveria fazer? Se fosse um amo diferente, que não se importasse de jogar em grupo... Mas era um amo muito apaixonado. —Sinto muito. —Mas, por que se desculpa? —A jovem virou-se e o encarou furiosa. — Se nem sequer sente alguma coisa! 71


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Lion se aproximou dela e a aprisionou contra a borda da sacada, caminhando e obrigando que ela retrocedesse, escutando tudo o que tivesse a dizer. Cleo tinha querido estar com ele, e sabia disso desde a noite do Hurricane, quando se disseram todas essas coisas... Bom, nenhuma delas foi uma declaração de amor, mas “sempre foi você” bem que poderia parecer com uma. Como ela se sentia agora? Ainda queria estar com ele? Ou tudo o que ele lhe fez esses dias, por fim, a fizeram ver a verdade? Tomara que sim. Porque se Cleo não o afastasse rápido, então já não se afastaria nunca. Ele não a deixaria. —Me fizeram uma tatuagem diante de todo o mundo! —expôs terrivelmente ofendida. — Quando fiz o camaleão estava cheia de Tranquimazin até as sobrancelhas. Não me dou bem com a dor, Lion, e sabe disso! Marcaram-nos! Será que não me entende?! —Secou suas lágrimas com veemência. —Você aguenta bem a dor, Cleo. Não soltou nenhuma lágrima... —Porque estão todas aqui agora! — Apontou os olhos. — Não tem nenhum sentido que tenhamos essa tatuagem! Você... Você me odeia! Eu te vejo e dá vontade de vomitar! O que vamos fazer?! E... por que gruda tanto em mim? Deixe-me... —disse incômoda. — Não! Deixe-me! Lion inclinou a cabeça para baixo, para que ela se desse conta da diferença de estatura entre eles. Não pretendia intimidá-la, Cleo não se deixava intimidar nunca, mas gostava de notar o quão bem ambos se encaixavam. Envolveu a corrente do colar de Cleo não mão e a esticou até ele, para que se aproximasse. —Tem vontade de vomitar quando me vê? Sério? —Sim! Odeio você! — segurou o pulso que puxava sua corrente. Devia manter distância ou perderia o seu respeito, e já restava muito pouco.— Me solta! — Me odeia de verdade? —Sim! — gritou a um centímentro de seu rosto. — Como você me odeia! — Eu não odeio você— sussurrou impotente debaixo da luz da lua. Seus olhos azuis resplandeciam e seus traços viris se delineavam com perfeição. — Como pode pensar nisso? Não poderei odiar você nunca, leoa. Vai me irritar, me deixará de muito mau humor mas... odiar você? —negou com a cabeça.— Impossível. Quando me irrito digo coisas espantosas, mas não penso isso de verdade. Seus olhos verdes estavam cheios de lágrimas. Seu cabelo, vermelho e meio preso, dançava mexido pelo vento noturno. —Mentira. Acha que estragarei o caso e isso você me disse várias vezes. — fungou pelo nariz. — Duvida do meu profissionalismo e não tem ideia do quanto isso me irrita e me assusta. Porque é Leslie que se supõe que está ali. E se por minha causa o caso fracassar... —sua voz quebrou.— Não! Nem pense em me abraçar agora! —Por quê? —Porque não! Não tem o direito de fazer isso! — Vem aqui. — A atraiu contra ele com um último puxão de sua corrente e aguentou suas investidas raivosas até que, vítima do cansaço, se derrubou contra ele.— Shhh... —Lion a abraçou, 72


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enterrando o nariz em seu cabelo de morango. — Por Deus, pare...não faça isso comigo. Não chore mais. — Odeio você! — repetiu tirando toda a dor que sentia. — Eu sei e sinto muito... —Te-tem que deixar de ser tão duro comigo —murmurou sobre seu peito.— Já sei que não sou sua amiga, que sua amiga era Leslie. Já sei que não sou ela e que não estou tão preparada. Sei que não sei mu-muito de BDSM, nem sou uma boa submissa, tampouco uma boa ama... Sei que não sou seu tipo e que não mantenho seu interesse. —Os soluços a impediam de dizer tudo de uma vez. — Mas...estou tentando! Tento ajudá-los, não vim estorvar, nem-nem irritar! Será que meu esforço não conta para você? Lion fechou os olhos, dolorido por escutar aquelas recriminações infundados por ele. Era um puto mesquinho! Mas Cleo o tinha desobedecido! Tinha entrado no torneio quando ele a excluiu para mantê-la a salvo! Tomou ar inspirando profundamente e decidiu que esse seria um bom momento para arrancar de si mesmo meia máscara para que Cleo visse e compreendesse que ele não estava assim por seu orgulho ferido como chefe. Ele estava assim porque temia por ela. —Não. Não conta nem seu esforço nem nada… Não me empurre, espera e me escute, maldita seja. —Apertou-a mais fortemente e lhe disse ao ouvido—: Para mim, quão único conta — lhe acariciou o cabelo, abraçando-a e embalando-a com cuidado. — é que você esteja a salvo, leoa. Morro quando te vejo entre jaulas, dragões e masmorras. Você tem que correr livre… Entende-me? —perguntou desesperado— Não deveria estar aqui. Não suporto vê-la aqui. Por isso te tirei do caso. Cleo ficou muito quieta. Levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos e comprovar que essas palavras cheias de preocupação não eram fingidas. Que eram de verdade. —Mas foi Montgomery quem me escolheu… —E fui eu quem te formou. E a ideia de que eu tenha te metido em um lugar como este — olhou a seu redor—, em algo que poderia te assustar, em um mundo no qual possam machucá-la e te destruir… Não sei aguentar. Não aguento isso. OH-Meu-Deus. Lion estava sacando sua arma mortífera de raios X. Parecia tão arrependido… —Mas o fez porque é um profissional —assegurou Cleo— E, depois disso, de me ensinar e me instruir, vai e me deixa de lado. E quando retorno para reclamar meu lugar no caso, rechaçame isso e… me disse coisas tão feias que certamente as pensa… —O que eu te disse não tem nenhum valor —murmurou sobre sua cabeça— As digo para isso. Porque estou tão arrebentado que preciso te magoar como você me faz. Mas… É o que sinto o que importa. —O que sente? —Vejamos, um momento. “A que se refere sentindo?”— Do que está falando? O que acontece? O que sente? Lion sorriu com tristeza e mordeu o lábio inferior com frustração. —Do que estou falando? Fico nervoso a seu lado, Cleo. Não posso manter a cabeça fria. Não se dá conta? 73


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—Não me chame de Cleo —lhe sugeriu em voz baixa destacando o ouvido e fazendo referência às possíveis câmaras ou micros que pudessem haver por aí. —Vê? Faz que perca os papeis. —Mas se eu não faço nada. — sussurrou absorta na tortura de seu rosto. O que estava acontecendo ali? Sentia esse momento mais íntimo que qualquer outro que tivessem compartilhado. —Sim que o faz. Faz-me isso e nem sequer sei te dizer o que é… É uma sensação… Cleo piscou e viu Lion de um modo mais humano e vulnerável. Viu-o como agente e homem, também como amo; mas, sobretudo, como homem. Não sabia se havia se tornado louca ou se o estava entendendo mal, mas… Lion estava dizendo que se preocupava com ela mais do que o fazia pelo resto dos companheiros? A isso se referia? —Esta é sua… sua surrealista maneira de me dizer que te faço sentir coisas? Assim me diz isso? —Pode ser. —Está jogando comigo? —Não! —exclamou ofendido. —Não o faça, por favor —rogou— Não aceitarei nada bem. —Neném… —sussurrou— Não jogo, não te engano. Sempre foi assim com você. —Sério? Por que? —perguntou assombrada, banhando-se de uma nova luz, mais limpa e vivificante— Por que te faço sentir essas coisas? —Porque sim. —encolheu os ombros. Não lhe ia dizer mais. Nem pensar. Com isso já teria suficiente para que por fim compreendesse que não lhe era indiferente. — Porque é assim. Não posso trocar como me sinto te tendo aqui. Sempre senti diferente com você. Leslie é minha amiga, mas você… você é diferente. Não me comporto igual com você que com ela. Com o Leslie me sentia relaxado; com você, só estou em guarda e à espreita. Só estou atento a você… E necessito, não, te ordeno que —tomou seu rosto entre as mãos e lhe acariciou o queixo insolente com os polegares—, que não me dê mais sustos dos que já me deu. Que me obedeça. Que não se coloque em perigo e que dê o máximo de si. Que o demos juntos, de acordo? —Que fique claro: então… Está admitindo que… — entrecerrou os olhos até que se converteram em duas finas linhas verdes— você gosta de mim um pouco? —Um pouco, sim —assumiu. Isso sim poderia reconhecer. Porque lhe dizia que só era uma ínfima parte quando em realidade era mais, muito mais do que as palavras podiam abranger. Mas com Cleo não podia ceder; não agora, em um momento tão delicado, ou poderia subir nas suas costas— Me sinto muito atraído por você. “Atração”, pensou Cleo. De verdade? A atração era boa, não? Mas nas palavras de Lion havia muito mais que atração; e como mulher que podia ler entre linhas sabia. O que era? Deveria descobri-lo. Não obstante, o comportamento de Lion, o receber seu calor nesse momento e sobretudo, que lhe falasse desse modo, ajudou-a a relaxar e a tirar toda a tensão de seu corpo. 74


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—Perdoa-me por tudo o que te disse? —perguntou aflito— Me perdoe, por favor. —Por tudo? —repetiu afligida deixando-se abraçar e o abraçando por sua vez. “Caramba, que terno”— Não sei… Há muito que perdoar. —Esfregou seu nariz contra a camiseta azul cinzenta do agente— Me diz que na cama te faço sonhar, joga-me de um caso importante para mim; insinua que sou uma incompetente e que levarei a todos ao fracasso; ridiculariza-me esta noite colocando a língua em uma submissa até a úvula e, depois, me tatua sem minha permissão. Não, senhor. Não penso em te perdoar. Lion grunhiu em desacordo e a agarrou pelo colar de cão, jogando sua cabeça para trás e olhando-a diretamente nos olhos. Fascinante. No olhar de Cleo não havia nem rastro de medo ou ofensa. Só curiosidade e surpresa. —Continuo sendo um amo, que está te pedindo perdão, mas um amo, ao fim e ao cabo. —Isso quer dizer que nenhuma ofensa era a sério, senhor? Está me ordenando que te perdoe? As coisas não são assim. Se quiser que o perdoe, ganhe isso. —Seus olhos o desafiavam abertamente. —Primeiro: estou todo o dia duro a seu lado, assim não, não me aborreça. E agradeça que essa noite o álcool me adormeceu, ou então, não teria podido caminhar em uma semana. — Desfrutou ao ver o rosto desconcertado da jovem— Segundo —lhe pôs dois dedos na boca e a fez calar—: não a joguei de um caso. Afastei você do maldito perigo, neném. Para mim é muito mais importante te ter longe e a salvo, que perto e em risco. Mas agora está aqui, e terá que assumir as consequências. Terceiro —se inclinou e lhe mordeu o queixo brandamente porque era incapaz de não fazê-lo. Desfrutou do leve e rouco gemido de Cleo—: não é uma incompetente; tem vinte e sete anos e é tenente. Não deveria ter acreditado em mim tão rápido. Mas sim que é uma imprudente por não ir embora e não se afastar de mim. E vai ter que pagar por isso. Quarto: talvez tenha beijado à submissa porque eu gosto de te provocar, mas não o fiz por isso. Queria averiguar se sua boca continha popper, se o tinha inalado. —De verdade? —Sim. E adivinha o que? —Tem popper —murmurou impactada. —Sim. E não só isso. Ao lhe colocar o dedo na boca e depois de umedecê-lo com sua saliva, sequei-o em um guardanapo. —levou a mão ao bolso traseiro de sua calça negra e lhe mostrou o pequeno guardanapo de papel dobrado— Aqui tenho o DNA da submissa e a substância do popper. Veremos se é o mesmo tipo de droga ou a misturaram de outro modo. —É muito competente, senhor —admitiu magoada, pondo a mão sobre a boca dele para que se calasse— Mas não o volte a fazer, não me fez bem. Sou eu sua submissa. Lion lhe mordeu os dedos e depois os beijou. —Não me repreenda. E quinto —se inclinou sobre seus lábios e sussurrou—: eu adoro que tenha essa tatuagem e que a una a mim. Deixa-me louco. —Fez de propósito, verdade? —Sim. —Sua atitude não denotava arrependimento nem aflição. Só fome. —E o que pensa fazer agora, campeão? 75


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—Quero te dar as boas vindas à minha selva, Lady Nala. Cleo não pôde resistir. “Olá, selva”, pensou. —Meu deus… —murmurou Cleo lançando-se para comer a boca de Lion. De verdade esse homem disse todas essas coisas? Não podia acreditar! O rei leão estava irreconhecível e ela se sentia como em uma nuvem, cheia de água e tormenta. Ardia e iam sair raios dela por todos os lados. Beijou-o e aprofundou o beijo, maravilhando-se de como gostosa era sua língua, das cócegas e do prazer que despertava em sua boca. Beijar Lion era tão reconfortante… —Alto, leoa. —Puxou a corrente de cão e lhe jogou a cabeça para trás. Beijou-a brandamente, afastando-se quando ela queria abranger mais do que permitia— Já não te dará medo nada do que queira te fazer? —Suas mãos vagavam por sua cintura e rodeavam suas nádegas por debaixo da saia, as acariciando e lhe dando bofetadas para logo as massagear com mais parcimônia— Não te assustará? —Não… Não, senhor. Nunca tive medo —respondeu vítima de um profundo estremecimento que nascia no interior de seu ventre— Com você não. Lion assentiu agradecido. Se pudesse, nesse momento lhe beijaria os pés. Mas Cleo precisava praticar para as provas vindouras; e embora quisesse transar duro, rápido e profundo, a sua maneira, precisava guiá-la no que restava de sua disciplina. —Bem. —Beijou-a de novo nos lábios, deixando que línguas e dentes jogassem entre eles; mas, enquanto a tinha envolta no feitiço de seu beijo, deu um jeito para tomar suas mãos e colocá-las detrás das costas. Não rompeu o contato de seus lábios em nenhum momento e aproveitou para prender seus pulsos com a mesma cadeia da correia. —A correia roça sua tatuagem? —Não. —Genial. Venha comigo, leoa — lhe deu um último beijo no nariz e puxando seu colar fez que o seguisse até o interior da suíte— Vou domá-la. Cleo tentou mover os braços, mas se deu conta de que se o fazia, o colar de cão jogava sua cabeça para trás. Ok. Uma boa imobilização. —Vou continuar com sua domesticação. Tudo bem para você? —sentou-se na cama e colocou Cleo entre suas pernas abertas— Perdemos o ritmo. Primeiro vou despi-la pouco a pouco. Levou as mãos à sua saia. Abriu o zíper lateral e deixou que caísse por seus quadris. Apoiou a mão inteira entre suas pernas, sobre sua calcinha, e suspirou. —Deus… eu adoro que esteja tão quente. —Acariciou-a levemente, enquanto ela olhava em todo momento como a despia. Tirou-lhe o lindo top negro com lantejoulas e, como não o podia tirar pela cabeça, o fez descer por seus quadris e o retirou pelas pernas. Depois, desabotoou o sutiã negro de taça, atraiu-a para si puxando a correia que unia pescoço e pulsos e isso fez que ela inclinasse o peito para frente. — Não posso acreditar nisso… —ronronou afundando o rosto entre seus seios— Usa os aros constritores. —Mmm… —Cleo assentiu, com as bochechas vermelhas da excitação e úmidas das lágrimas— Os coloquei porque não sabia o que ia acontecer esta noite no jantar; e pensei que se 76


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tinha que me despir, ou jogar algo, se viam que os usava, compreenderiam que estou tomando a sério o torneio. —O torneio começa a sério manhã, neném. —Colocou-a atravessada de barriga para baixo sobre suas pernas e desceu sua calcinha. —Hoje só foi o aquecimento. Conte até dez. Cleo negou com a cabeça, incrédula. Seu cabelo caía como um manto vermelho sobre o chão. Desejava aquilo, mas não entendia por que o fazia. —Vai me açoitar? —Deus, sim… O merece. —Passou sua mão por suas nádegas e depois empapou os dedos com sua umidade. —Posso perguntar por que, senhor? —Cinco por me desobedecer e pôr sua vida em perigo ao vir aqui. E cinco mais por me humilhar com o Fem Dom e pôr um anel no meu pau. São muito poucas comparadas com as que deveria receber. Foi tão fodidamente má. Desculpe-se. —Não tenho vontade. Lion se pôs a rir. —Presumo. Presumo que mereci isso… —É óbvio que sim —respondeu muito dignamente. —Mas, sabe o que, leoa? —O que? —Nunca gozo quando tentam me dominar. Não sou switch absolutamente. Mas você conseguiu que eu gozasse como um moleque com acne; assim que você merece que seja atencioso com você. Parece bem? —Sim, senhor. —Parecia-lhe genial. —Conte. —Um! Plas! Plas! Plas! —Dois! Três! Quatro! —exclamou afundando o rosto no joelho de Lion— Cinco! As palmadas eram secas e muito estimulantes. As fazia com os dedos fechados e a palma ligeiramente côncava. Picavam, ardiam. E, depois, quando Lion passava a mão para acalmar a pele, toda ela se esquentava e percebia a virilha palpitante e viva. —OH! Seis… —Olhe seu traseiro. Está ficando vermelho —o tom de reverência era quase insultante— Vamos pela sétima. —Sete! Oito! Gemia e se queixava, mas depois… Depois, a sensação da pele ao formigar, as carícias de King eram tão boas e tão reconfortantes… —Nove! —Wow. Esta tinha sido muito forte. —E… —Dez! Au! Senhor! Dez! Dez! —moveu o traseiro de um lado ao outro esperando que ele a consolasse. As duas últimas tinham sido mais dolorosas. 77


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E queimavam. Então, chegou o calmante em forma de boca úmida. Beijou suas nádegas com delicadeza e passou a língua pelas rodelas vermelhas. Cleo cravou as unhas nas palmas e rebolou sobre suas pernas, acalmando-se e convertendo-se em lava ardente em seus braços. Lion lhe abriu as nádegas com as mãos e a beijou ali. Justo ali! —Se-senhor! —Jogou o pescoço para trás, mas já estava perdida. O agente Romano estava se demorando para estimular aquela zona, para lambê-la e relaxar aquele buraco franzido no traseiro. —Tranquila. Tranquila? Essa sensação não podia se comparar a nada. Ali havia milhares de terminações nervosas, e notar sua língua que tentava… O que tentava? OH, não! Estava entrando! Cleo girou os olhos e esfregou sua bochecha contra a dura perna de Lion. Maldito Lion. As coisas desavergonhadas que fazia… e que bem! —Deus… —Você gosta, neném? —Estava-a beijando e lambendo por todos os lados, e adorava seu sabor— Sim que você gosta. Depois da disciplina inglesa, o spanking, todo o sangue foi parar em seus dois lugares privados —lhe explicou enquanto introduzia dois dedos em sua vagina e os sacudia muito para dentro dela— Estão muitíssimo mais sensíveis e se podem trabalhar muito melhor —introduziu um terceiro dedo abrindo-os e fechando-os todos para deixá-la mais elástica e tocar todos os nervos de suas paredes. Cleo tomou ar e estremeceu quando com os dedos dentro dela, Lion continuava lambendo e beijando seu rígido buraco traseiro. —Hmmm… —Hmmm? Isso você gosta, neném? Responde. —Zas! Uma bofetada com os dedos fechados em sua nádega esquerda. Cleo abriu os olhos e sentiu como se fechava em torno dele e como sua língua impedia que se relaxasse. A Virgem! —Sim, senhor… —O que se diz, preciosa? Cleo sorriu malignamente e murmurou algo por cima do ombro. Quando o amo fazia algo que gostava devia agradecê-lo. —Mmmmás? —Mmmmás? Zas! Zas! Duas mais intercaladas em cada lado de seus glúteos. Ela gritou e ao mesmo tempo riu. —O que se diz, descarada? —puxou a cadeia que unia suas mãos e seu pescoço, e isso fez que o tronco de Cleo se elevasse. Beijou-a na bochecha. —Obrigada, senhor. —Boa garota. —levantou-se com ela sobre as pernas, tomou-a nos braços e a colocou sobre o colchão, de joelhos— Se incline para baixo; isso. E apoie os ombros na cama. Estava de joelhos, por não poder apoiar as mãos já que as tinha imobilizadas às costas. Os ombros e o rosto, de lado, colados à colcha. 78


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Cleo queria ver como ele se despia, porque estava se despindo. O som da roupa ao roçar sua pele enquanto a tirava, o zíper da calça ao abrir-se e deslizar-se… ia entrar em combustão. Engoliu saliva e esperou o seguinte movimento de Lion. —Deveria ter matado a esse sacana do Billy Bob —sussurrou subindo à cama e acariciando as marcas das chicotadas com cuidado. —Já quase não se veem —respondeu ela emocionada por sua lamentação. —Eu sim as vejo; e me recorda quão imbecil fui. —Beijou-as uma a uma, como se pudesse apagar a lembrança com seus beijos. Mas não podia. Ninguém podia. —Não… Foi um engano. Não se torture. Não foi você quem me golpeou e me maltratou. Não foi você. —Deus, é que era tão completamente diferente… Com Lion estava indefesa, atada e nua; aberta fisicamente a ele para receber seu prazer, o prazer de ambos. Com Billy Bob esteve submetida, incapaz de defender-se sob a força de seu chicote e de seu ódio para as mulheres. Lion a amava e a venerava. Billy Bob a odiou e a maltratou violentamente. —Você me salvou dele. Lion continuava beijando-a, murmurando todo tipo de palavras incoerentes e ternas. Palavras de açúcar para os ouvidos de uma mulher. Como Lion podia lhe dizer tudo isso? Essa noite parecia que estava se libertando de anos de restrição emocional. E, mesmo assim, Cleo via as camadas que ficavam. De verdade sentia coisas por ela? Isso trocava o aspecto de Lion a seus olhos radicalmente. —Neném? —Sim? Ele se manteve em silêncio. Sem deixar de beijá-la, estendeu o braço e aproximou sua mochila de brinquedos eróticos para tirar um plug anal negro. Um dilatador para sua entrada traseira. Tinha uma forma alargada na parte baixa e mais fina na superior, e uma base que impedia que fosse absorvido por completo. —Os jogos se complicarão amanhã. —Beijou a parte inferior de suas costas— Cada vez serão mais intensos e, se não conseguir encontrar os cofres, teremos que nos submeter a um duelo. —Sei. —Não acabei sua domesticação e tenho que preparar sua outra entrada. Se nos exigirem uma prova de penetração anal, e é sua primeira vez, se sentirá mal. E não quero que sofra. — Acariciou suas costas e beijou seus pulsos encadeados. —Faça—moveu o traseiro elevado, de um lado ao outro— Por que esteve jogando com ele a não ser para isso? Lion assentiu feliz e mais relaxado. Que Cleo confiasse nele desse modo tão entregue o deixava louco e fazia que se apaixonasse mais por ela. —Está bem. —Levou uma mão a sua área da frente e começou a mover os dedos e a lhe acariciar o botão inchado de prazer. Com a outra mão, lubrificou o plug e o ânus com lubrificante. —Cheira a morango. —É lubrificante com sabor. — explicou Lion lubrificando o dilatador com cuidado— Doerá, mas tem que tentar relaxar e aceitá-lo. Quero que se acostume e que durma com ele. 79


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—Isso não deve ser muito bom. —São, seguro e consensual, leoa. —Sei. —Embora não entendia no que podia beneficiar ter algo no reto. —Os músculos internos também devem exercitar-se. Os romanos utilizavam muito o sexo anal para não sofrer constipações de nenhum tipo e manter essa área de seu corpo sã e em forma. —Que bom. Muito educativo, senhor Romano. Lion gargalhou. —Abre mais as pernas, preciosa. —Sim, senhor. Lion lhe abriu as nádegas com uma mão e se concentrou em introduzir, milímetro a milímetro, o dilatador. Cleo franziu o cenho e negou com a cabeça. Não acredito! Nem pensar! —Está bem. Eu cuido de você. Tem que relaxar esta área. —deu palmadas nas suas nádegas para que o sangue fosse a esse lugar e ela sentisse com mais força a penetração— O está fazendo bem. —Moveu os dedos que tinha em sua área dianteira e a estimulou acariciando-a a um ritmo cadente— Sim, assim… —Não, espera… me acaricie abaixo —pediu mordendo a colcha com os dentes. —Sim, senhora —brincou ele tomando o clitóris com os dedos. —Minha mãe… —Sim. Já está na metade. Fica a parte mais grossa. —Ah, não. —Ânus, muito bem — murmurou ele erguendo-se em cima dela e encostando seu torso às suas costas— Estou possuindo seu ânus. — Beijou seu ombro. Cleo não podia nem rir. Se o fazia o sentia justo ali. Não compreendia que prazer havia nisso. Era doloroso. Parecia que ia se partir a qualquer momento. —A primeira penetração dói. A bala vibratória que coloquei em você em Nova Orleans era muito menor. Isto é grande; tem a grossura de um pênis considerável. Tem que obrigar a que o anel de músculos que te rodeia se dilate e permita a invasão. É um músculo duro, mas uma vez que entra, como agora… —colocou nela todo o plug inteiro, até que só ficou a base tapando esse orifício. Cleo gritou e tentou fugir de seus braços e lhe rodeou a cintura para mantê-la em seu lugar — …, e se acostuma, deixa de doer. Já está. Não o vou tirar, neném. Aceita-o. —Não, não, não… —murmurou quase chorando— Vou explodir. —Shhh, olhe. —Lion lhe massageou o traseiro e o acariciou com doçura— São sensações. Irão embora, neném. —Passou-lhe a mão pelo ventre e, depois, acariciou o clitóris— Irão embora —repetiu retirando o cabelo vermelho da nuca para beijá-la ali— Ficamos assim um momento, ok? Cleo assentiu e sorveu pelo nariz. Lion bebeu suas lágrimas e a beijou nos lábios. —Me deixa como uma moto, Cleo —ele disse em voz muito baixa, só para que ela o ouvisse— Como uma maldida moto sem freios. Odeio que esteja comigo aqui mas, ao mesmo tempo, faz-me feliz te ter aqui —sorriu com tristeza— Sou um fodido egoísta. Se tivesse um par de 80


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ovos, agora mesmo estaria em um avião saindo das Ilhas Virgens. Certamente, você não quereria me ver nunca mais em sua vida. Mas prefiro isso, Cleo, a ter que suportar como outros babosos querem o que eu… O que é meu —grunhiu possessivo— Nem sequer suporto que outros vejam o que te faço, entende isso? Cleo tinha os olhos muito abertos, escutando cada uma das confissões de Lion. Não se atrevia nem a mover-se por tal de não romper esse enfeitiço turbador. Assentiu com a cabeça. —Não quero que me odeie por te fazer estas coisas nem por te envolver nisto. —Encostou sua testa em sua têmpora e a deixou um longo momento ali. — Isto está me deixando louco. Não deveria ter entrado em meu mundo assim. Eu esperava mostrar isso de outro modo… Quando Lion se deu conta do que havia dito, ficou muito quieto. Cleo não podia processar essas palavras. Que ele queria lhe mostrar seu mundo? Desde quando? E, como? Nunca fez nada para aproximar-se dela, nem ela a ele. Só bicavam um ao outro. —Não o entendo… — respondeu ela aturdida. —Shhhh… Nada que entender. Nada absolutamente. As coisas são assim. Mas se acabar me odiando… —Não te odeio. —Antes disse que sim. —Estava zangada. —Caía no enfeitiço calmante das mãos de Lion, em sua voz sussurrante e encantadora de serpentes. Era incrível como esse enorme homem podia ser tão doce e carinhoso, tão sincero e honesto. —Mas não te odeio, e… Se tiver que fazer estas coisas diante de mais gente, prefiro fazê-las com você. Não estou aqui porque quero. Estou aqui por Leslie… Mas que você esteja aqui comigo… Que seja você quem me toca assim… De algum modo… —Sim? —Faz tudo menos duro. — “Entende, tolo?”. O olhou de esguelha, com acanhamento. Também podia dizer que gostava dela, a seu modo. —Pois temos um problema, leoa —murmurou passando a língua ao longo de sua garganta— Porque eu estou duro todo o dia. Cleo sorriu e o olhou como se não tivesse solução. —É um enganador. Os olhos azuis de Lion sorriam como os de um menino, e sua sobrancelha partida se elevou como a de um homem pecador. Belo contraste. —Se for um enganador, me faça calar. —Lion se separou de suas costas e se deitou gloriosamente nu e ereto sobre os travesseiros. Abriu os braços e repetiu com um olhar faminto e esfomeado—: Venha aqui e me faça calar. Cleo o olhou ainda com o rosto colado à colcha. Levantou-se pouco a pouco, admirando sua escultural beleza de cima a baixo, seus músculos definidos sob sua pele lisa e morena. Era tão masculino. E não tinha nem um maldito cabelo no corpo, exceto em sua virilha. OH, e isso adorava. Caminhou com os joelhos até ficar a seu lado.

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—Como? —perguntou expondo seus seios e divina nudez. Tinha o cabelo desordenado e as bochechas manchadas de rímel e do Kajal. Com o colar de submissa e os lábios inchados de mordê-los apresentava uma imagem decadente e lasciva— Como te faço calar? —Como você quiser, preciosa. —Olhou seu sexo liso e passou a língua pelos lábios. Cleo não necessitou mais, só encher-se de coragem. —Me agarre —ordenou dúbia. —E o que quer que faça com você se te agarrar? —Me sente sobre seu rosto. E Lion a obedeceu como se tivessem trocado os papeis. Saboreou-a e a lambeu por todos os lados enquanto ela enlouquecia, movendo-se adiante e atrás, ao ritmo de sua língua. Lion tomou sua cadeia e a obrigou a jogar o pescoço para trás até que seu cabelo vermelho roçou seu peito e seu abdômen e nesse momento introduziu sua língua tão profundo quanto pôde. O cabelo de Cleo o fazia cócegas e ele gostava. Quando a teve totalmente preparada voltou a levantá-la e a sentou, desta vez, sobre sua ereção. A agarrou com uma mão e a manteve no lugar correto para penetrá-la pela frente. Cleo abriu os olhos quando sentiu a ponta úmida pinçar por ali. —Já não dói o plug? —as mãos tremiam quando lhe retirou o cabelo da cara. —Não… Lion? —assustou-se. Aquilo era como uma dupla penetração; ela o sentiria tal qual. —Sou o primeiro em lhe fazer isso de uma vez —grunhiu penetrando-a pouco a pouco — E quero todas suas primeiras vezes, Cleo —lhe disse em voz baixa ao ouvido. Queria-as todas. Pelas que se perdeu e pelas que ficavam. —Sim… —sussurrou rendida, afundando seu rosto entre o pescoço e o ombro dele— Sim, Lion. Ele a penetrou por completo e ela o mordeu no pescoço enquanto grasnava como um animal. —Isso. —Lion lhe deu uma bofetada na nádega e decidiu que era o momento de impor sua lei. A lei da selva. A fez arder. E a enlouqueceu. Ele ardeu e enlouqueceu com ela. Cleo era tão condenadamente estreita, e mais, nesse momento, ao ter a parte traseira ocupada. Penetrou-a profundamente, sem compaixão. Movendo os quadris e erguendo-se para ficar frente com frente, trocando os fôlegos. —Respira comigo —ordenou morto de desejo— Segue minha respiração. Cleo o fez; mas só podia agarrar ar e gemer, fechar os olhos para que essa tormenta perfeita não acabasse nunca. —Não feche os olhos, leoa —a puxou pelo cabelo, para sustentar-se em algo— eu adoro seus olhos. Quero ver a cara que põe ao me sentir em todo seu corpo, quando se desfaz. Cleo abriu os olhos verdes e claros, avermelhados pela impressão de ser possuída desse modo tão inclemente e autêntico, tão apaixonado. 82


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Lion a beijou e ela recebeu o beijo com prazer. Queria abraçá-lo, mas com o bondage que lhe tinha feito, imobilizada, não podia tocá-lo. Pelo contrário, tocavam-se. De algum modo se tocavam. Seu peito contra seu peitoral. Seu ventre contra seu estômago plano. Sua boca com sua boca. Sua língua com sua língua. Era tão perfeito… —Cleo —sussurrou sobre sua boca. E então gozaram. Primeiro ela e, ao cabo dos segundos, ele. Acabaram deitados na cama. Cleo em cima dele, ainda recebendo espasmos prazerosos de seu orgasmo. Suarentos e limpos ao mesmo tempo. —Amém —murmurou ele beijando sua cabeça e desatando a correia e as cadeias. Massageou-a e a arrulhou com ternura e carinho, tratando-a como se fosse o mais prezado de sua vida. E ela era. Cleo sempre tinha sido diferente. Única. — Acabou comigo. Ela rezou para que, quando acabasse aquela loucura, o torneio e o caso, Lion tivesse a coragem para reclamá-la e ficar com ela. Porque ela quereria ficar com ele para sempre. Soube quando, com quatro anos, deu-lhe seu tesouro mais precioso. Agora, sendo uma mulher feita e justa, dava-lhe sua posse mais importante: seu coração. Lion veria o que fazer com ele.

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CAPÍTULO 7 “Não há prazer que seja mau. O mau é não saber que prazeres escolher e quais evitar”.

Dia 2 Na na na. Come on! Na na na na na. Come on! Feels so good being bad There’s no way I’m turning back… Cleo abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi o olhar anil e sonolento de Lion, que a observava meio sorridente, com a cabeça apoiada no travesseiro. —Bom dia. Bom dia? Por Deus, doíam-lhe músculos que estava convencida de que não se utilizavam na vida. Ao menos, ela não sabia nem que os tinha. —Como dormiu? Encontra-se bem? —Mmm… — Se moveu para comprovar até que ponto estava cansada— Bom, a noite foi… movimentada —respondeu com as bochechas deliciosamente vermelhas. — Preciso tomar banho. —Partindo —Lion a levantou no ar, sem avisar. Meteram-se na ducha e, ao ritmo da Rihanna e a canção oficial do torneio, encharcaram-se e se lavaram. Enquanto Lion massageava todo seu corpo com sabão, abraçou-se a ela pelas costas e lhe amassou os seios. —O plano de hoje é este. —Abriu a água fria, porque a água quente e o Caribe não eram bons aliados. Apertou seus seios e colocou sua boca muito colada ao ouvido de Cleo. —Certo… —Antes de sair a procurar do cofre, tomaremos uma pequena separação para ir outra vez ao Iguana’s e deixar o guardanapo com o DNA da submissa. Enviei uma mensagem de texto para eles, assim esperam a entrega esta mesma manhã. Os cientistas da equipe móvel a analisarão e farão um estudo da tipificação de seu DNA. Esperemos que não seja gente invisível, como aconteceu com os dois corpos de submissos sem identificação. —Precisamos estar mais perto dos Vilões. Temos que fazer o possível para ver seus rostos. Acha que chegaram ontem ou que já estavam aqui? Talvez… —murmurou fechando os olhos e apoiando as mãos nos ladrilhos da parede. Lion estava acariciando seus mamilos, e estavam muito sensíveis por ter usado os aros constritores na noite anterior. — Talvez chegaram em grupo, em plano sectário.

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—Pode ser. Mas, depois do numerozinho de ontem, não duvide de que estão esperando mais espetáculos por sua parte, escrava — sussurrou malignamente. — É a mais sem vergonha de todas. Cleo não sabia se sorria ou não. Na noite anterior se disseram coisas que jamais pensou que ela e Lion se diriam. Aparentemente, gostavam um do outro. Ou se atraíam, como ele disse. E não podia negar que Lion se preocupava com ela de um modo muito protetor e também possessivo; e saber disso, longe de incomodá-la, adorava; porque o sentia terrivelmente correto. Seu amor de menina, seu vilão de adolescente e o homem do qual não queria saber nada quando já era adulta era um ladrão que roubou seu coração vinte e três anos atrás, e nunca o devolveu. “Sempre foi você”, recordou. “Não, Cleo, não. Você o quer, por razões inexplicáveis, sempre o quis. Mas você somente o atrai. Não comece”. Ao sair da ducha, embora Cleo não quisesse que ele o fizesse, Lion tirou cuidadosamente o plug anal e procedeu a lhe pôr creme lubrificante e calmante em suas partes íntimas para que estivesse bem hidratada. —Sério, eu sei fazer isto — falou Cleo ocultando o rosto atrás de seu cabelo. —Sei. —Quando Lion terminou lhe deu um beijinho no traseiro. — Mas eu gosto de fazer isso. E o que ela não gostava de fazer?, perguntou-se enquanto desciam para tomar o café da manhã. Esse homem era hiperativo sexualmente e um pouco pervertido. Depois de colocar neles os medidores de frequência cardíaca e levar o HTC de contato com a estação de apoio e os braceletes falsos, vestiram-se adequadamente e o mais meticulosamente possível para os jogos. Cleo vestiu um vestido negro curto muito fino com as botas de verão: e Lion, um jeans largo e furado e uma camiseta verde militar estreita. Tomaram a pequena bolsa que carregavam com alguns brinquedos, além dos objetos adquiridos na jornada anterior e as cartas que somavam entre ambos, que lhes serviriam em caso de não encontrar o cofre nesse dia e perdessem o duelo. Eram o casal a ser derrubado. De momento, só tinham uma chave; mas contavam em seu poder mais cartas que outros, e poderiam fazer mais combinações. Durante o café da manhã, Cleo observou como Lion se aproximava do bufê para falar com Nick, vestido com sua inconfundível indumentária negra e esse cabelo loiro de ponta aguda e muito despenteado. Estavam preenchendo as bandejas com bolos, sucos e pudim de aveia com fruta. É óbvio, Lion estaria informando-a das novidades, mediante seus próprios códigos, com respeito à equipe estação e o DNA da submissa. Sentaram-se os cinco juntos para tomar o café da manhã. Aparentemente, as atitudes que quando crianças tomavam, como por exemplo, a de sentar-se sempre na mesma mesa e com as mesmas pessoas, marcando lotes e território, eram hábitos que não se abandonavam de adultos. Eram os mesmos que no primeiro jantar; à exceção de que Mistress Pain já não estava. Cleo sorriu ante essa observação. “Não está porque eu a eliminei. Cadela”. Sophiestication e Nick não tinham muito boa relação. Notava-se na linguagem corporal de ambos, em sua atitude receosa e em seus olhares de soslaio. Era como se quisessem toda a atenção de Thelma para eles; e a ama loira parecia desfrutar com a competitividade. 85


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Enquanto tomavam o café da manhã, falaram do calor do Caribe, do sol… Ufff sim, como queimava. Das areias brancas e os mares transparentes e de quão bem disciplinadas estavam as submissas e submissos que ofereceram os Vilões aos comensais do castelo do Barba Negra na noite anterior. “E tão bem disciplinados. Estavam até as sobrancelhas de popper; assim se disciplina até a um elefante”. —E bem, Lady Nala? —perguntou Thelma mostrando muito interesse— Ontem foi incrivelmente concupiscente, hoje será também? —Pois verá, Lady Thelma. —Cleo copiou seu gesto e apoiou o queixo entre seus dedos entrelaçados— Em realidade, toda esta sala está cheia de concupiscência. É como a piada. Lion revirou os olhos e sorriu. Ele explicou essa piada quando ela tinha somente quatorze anos e não tinha nem ideia do que significava concupiscência. Mas Cleo tinha crescido e, agora, sabia que no cristianismo era como a propensão natural do ser humano a pecar, a ser mau. Antes, ela não o compreendeu, e Lion riu dizendo que era ainda uma criancinha e que por isso não podia sair com eles. —E como é essa piada? Eu adoro! Cleo bebeu o suco de repente e olhou Lion de soslaio. —O padre de uma igreja, dando seu sermão sobre os pecados da carne, dirige-se ao povo e diz: “Nesta cidade há muita concupiscência! Vamos ver, que se levantem todas as mulheres que sejam virgens!”. E todas as mulheres ficam sentadas, exceto uma. O padre a olha e diz: “Mas mulher… se você está casada e tem quatro filhos!”. E a mulher mostra a criança que segura nos braços e responde: “Homem, não quer que a menina com só dois meses se levante sozinha!”. Os ombros da mascarada Sophiestication começaram a tremer de risada. Nick emitiu um leve som e Thelma soltou uma gargalhada enquanto elevava seu café com gelo e brindava em seu nome. Lion introduziu sua enorme mão por debaixo do cabelo de Cleo e lhe acariciou a pele que subjazia debaixo do colar de submissa. —Já entendeu a piada, neném? —Sim, senhor. —Fez uma queda de olhos perserva— Ontem a noite acabei de entender. O agente sorriu abertamente, e isso fez que Nick levantasse a cabeça levemente e franzisse o cenho. “O que estava acontecendo ali? Cleo estava conseguindo domar ao leão?”. A épica música do Chronicles avisava que o Amo do Calabouço ia dar sua mensagem e sua missão da jornada. A tela da sala se iluminou e apareceu o mesmo homem anão caracterizado como no dia anterior. “Bom dia aos cavalheiros, magos, feiticeiros, bruxas, acrobatas e arqueiros que conseguiram sobreviver a esta primeira jornada de Dragões e Masmorras edição DS. A jornada de ontem deixou algumas baixas consideráveis e também algumas eliminações inesperadas. Ficam três jornadas para enfrentarem aos Vilões. E hoje, sem lugar a dúvidas, chega uma dura prova para todos. A chave para achar os cofres de hoje reside em sua perseverança”. “Depois dos duelos e das provas, devem se mobilizar em Gwynneth. 86


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Transportaremos suas bagagens ao hotel Westin St. John. Trocamos de ilha e de território. Vigiem suas costas: os Macacos voadores não descansam —seus lábios se estiraram em um sorriso cúmplice—; embora esteja seguro que muitas e muitos já o comprovaram ontem. Que continuem os jogos! Quando as masmorras se abrem, os dragões saem à caça!”. Lion entrelaçou os dedos com os de Cleo e disse: —Me siga. Saiamos daqui. Já. —Mas, a que se refere sobre…? —Vamos — puxou-a e a tirou da sala—, antes de que nos sigam. — Olhou a seu redor e se encontrou com a atenção do casal de alemães góticos e com a de Thelma— Vamos! Pegue o mapa das ilhas. Ao longe se escutou Brutus dizer: —Estou de saco cheio do Yoda. O casal de agentes saiu correndo do hotel. —Pegamos o quad? —perguntou Cleo abrindo o mapa plastificado — O que acontece? Assim não me molha! — respondeu ante o olhar incriminatório dele. —Não, vamos pegar a moto. Busque algo… Algo que tenha a ver com o que disse o maldito anão. Ao chegar ao porto de Charlotte Amalie, subiram à moto do Rei Leão. Obviamente, Lady Nala, como Ama Shelly, perdia a classe de ama ante Lion, que era Amo Hank e por isso deviam levar a moto dele. —Procura, escrava —grunhiu Lion. Cleo apoiou seu queixo no ombro e entendeu que a chamava assim porque, estando no torneio e com as câmeras que os seguiam, deviam manter as formalidades; mas tampouco achou engraçado , assim rodeou sua cintura com as mãos e aproveitou para lhe cravar as unhas no duro abdômen. Agradeceu por que não quebrou uma unha. —Sim, senhor —sussurrou ela em seu ouvido. Depois se retirou e começou a observar o mapa das Ilhas Virgens americanas— Nossa perseverança… Tudo está em nossa perseverança… —Há algo? —Mmm… Droga! Tenho! —Me ilumine, gracinha. —Lion se deteve na altura do Iguana’s e a olhou por cima do ombro. —Perseverance Bay. Está nesta ilha. Percorre a costa nesta direção e a encontraremos. —Perfeito. Vá comprar algo de beber para o caminho. Cleo olhou para o restaurante de sushi e assentiu. —Sim, senhor. —Ali os esperava o contato da equipe da estação. Lion introduziu dissimuladamente o papel, cuidadosamente envolto em plástico, dentro de sua mão. Cleo saltou da moto e correu até o restaurante. Ali encontrou Jimmy, sentado no terraço, tomando um daiquiri. Cleo passou por seu lado e deixou o papel sobre sua mesa. Encaminhou-se ao interior e pediu duas raspadinhas para levar. Ao sair com as bebidas, ele a olhou por cima do ombro e piscou um olho. 87


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Entrega realizada.

Perseverance Bay se encontrava na área de Bonne Esperance. Estava cheia de incríveis corais e era território de exploradores obstinados por aventura. Na borda havia banhistas empanando-se na areia; não obstante, a cem metros desta, jazia um pequeno iate Onecruiser todo negro com uma bandeira vermelha içada até o batente da haste, com um dragão dourado no meio. O escudo de Dragões e Masmorras DS. Quando Cleo e Lion o divisaram, deram gás à moto para chegar ali antes de alguém, pois tinham os perseguidores pisando em seus calcanhares. —Precisamos amarrar a moto! —pediu Lion gritando aos dois homens vestidos de negro da proa. Estes lhes lançaram uma corda, e Lion a atou ao guidão com economia de movimentos. Uma vez no iate, os dois homens os guiaram até um senhor que apreciava uma taça de brandy antigo, e fumava um charuto, como se fosse o rei do mundo. Tinha o rosto coberto com uma máscara veneziana branca, exceto a boca e o queixo. Ao sorrir, deixou entrever um dente de ouro e olhou Cleo com fome. Sobre a mesa repousava um relógio de areia. —Bem-vindos ao meu navio —os saudou— Os felicito por sua… perseverança. —Moveu a mão em círculos e assinalou a baía— Os mundanos não conhecem nossos jogos perversos, mas nós sim — falava com um tom calmo e educado, como se estivesse aborrecido da vida— A meu Rei adora jogar antes da caça. —Seu “Rei”? —Perguntou Lion. Sim que estavam muito metidos no papel. —Que decidirá se ao final perece nas masmorras ou é liberado — respondeu ofendido— Por isso, me diga, Amo Hank, possuidor do arco de fogo mágico… Atreveria-se a cantar para meu senhor Venger? Cleo prendeu o cabelo em um coque alto e se assegurou de que a câmera que tinha no colar de submissa enfocasse bem naquele inquietante e desagradável indivíduo. Venger era o vilão dos Vilões no jogo de Dragões e Masmorras e era a representação do mal. Utilizava a magia negra e desejava todos os objetos e poderes dos amos protagonistas. No entanto, Venger só podia temer a dois personagens: o autêntico Amo do Calabouço, e ao Tiamat, o dragão de cinco cabeças que desejava também o domínio das masmorras. —Cantar para Venger? —Lion e Cleo olharam um para o outro com cara de “Você canta? Eu não”. —Têm três minutos desde… — Tomou o relógio de areia e o virou — Já. —Pensa, escrava. —Faço isso, amo… Cantar para Venger. A canção tinha truque? Porque… se tratava de uma canção em que se referisse a Venger? Venger em francês queria dizer vingar… tinha algo a ver com isso? 88


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—É uma canção — respondeu Cleo massageando a têmpora. —Sim, mas… qual? Mmm… Se você me diz venger, deixo tudo… Cleo deixou cair a mão e piscou estupefata, o olhando fixamente. —Diz isso a sério? —Não. Faça o favor de pensar… Uma canção em que se refere a Venger… —Pois como não seja… —Dois minutos —assinalou o enviado de Venger. —Ah, já sei! —Cleo abriu os olhos verdes dando dois saltinhos— O tenho: Dragões e masmorras —cantou sem pretender cantar bem —, um mundo infernal se esconde entre as sombras… —As forças do mal… —Sim! Como continua?! —Estalou os dedos— Na na na na… fogo é mágico… vara insuperável… —E o escudo é algo muito sério… —Lion também sabia, vagamente. Pareciam dois palhaços. — Dragões e masmorras… —Tenho! É um mago cheio de perversidade, perigoso e fatal; temos que lutar contra sua maldade ou nos destruirá. Tanto ele quanto ela permaneceram quietos e em silêncio para ver qual era a resposta de “dente de ouro”. Teriam se saído bem? —Exato. —Toma! —Lion levantou Cleo do chão e a abraçou. —O cofre os espera em Norland. Procurem a bandeira do torneio, que, como bem reza a canção, é algo muito sério. —Sim! Desceram do iate e Lion recolheu a corda para atrair a moto. Desenredou-a e sorriu para Nick, que chegava nesse momento ao Perseverance Bay e conduzia a moto com Sophiestication e Thelma sentadas detrás.

Norland. Water Island

Norland não era outra que a ilha de Water Island. Diferente da de Great St. James, esta não era virgem. Esse bosque estava ocupado por alguns habitantes, embora não chegavam a uma centena. 89


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O mar, esverdeado e cristalino ao redor da ilha, arrastava águas-vivas coloridas. O sol e o calor esmagador eram melhor suportados quando Lion utilizava a velocidade da moto para salpicar-se com as ondas e encharcar-se. Deram uma volta à ilhota; mas não encontraram nenhuma bandeira com o escudo do torneio. Até que chegaram à baía do Elefante, uma paragem espetacular e paradisíaca pintalgada por algumas lanchas e barcos a motor particulares que desconheciam o torneio. Ou isso acreditavam eles. No cascalho branco e fino se encontrava o mesmo garoto do dia anterior, vestido de igual maneira, e com uma bandeira que, balançada pelo vento, revelava o dragão do jogo. Atracaram a moto na borda, e foram os primeiros a chegar até ele. O menino lhes abriu o já sabido baú; e Cleo tomou um dos cinco únicos cofres entre as mãos. O cofre continha o seguinte: Uma Chave Cartas objetos: pinças e lubrificantes. Carta Convite para a festa pirata Carta Pergunta ao Amo Eram muito bons naipes. E somados aos que já tinham, asseguravam a eles virtualmente o passe a final. —Podem passar à masmorra —disse o garoto— Sigam o caminho que os guia ao interior do oásis. As crias da Rainha das Aranhas e os Macacos os esperam. “Sharon e seus acólitos. Fantástico”, pensou Cleo desanimada.

Masmorra Norland Tela pontos: +150 Criaturas: Crias das rainhas das Aranhas e Macacos voadores. Desta vez, o cenário secreto e oculto à vista do mundo era como um castelo medieval, no qual penduravam jaulas com mulheres nuas. Os potros e as cadeiras de tortura se localizavam por aqui e por lá. Dos degraus, Cleo e Lion observaram todo o espetáculo oferecido pelos participantes. Sim, era certo que o nível e a competitividade do torneio subiram vários grau. Os amos protagonistas e seus submissos começavam a participar entre eles e se uniam para realizar cenas de sexo em grupo para salvar-se dos duelos. Isso os permitiria continuar no torneio e ter uma oportunidade mais para conseguir uma chave. Os amos tipo Hank e Shelly, como eram Lion e Cleo, originavam situações Gang Bang e bukkake mediante metaconsenso, e lideravam as ações. Na tela foram vendo os casais que caíam eliminados: aqueles que pronunciavam a palavra de segurança. 90


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As amas tipo Diana utilizavam o potro para castigar a seus submissos. Os Amos Hank repartiam açoites a torto e a direito. Os Amos Eric as colocavam nas cruzes, e os que tinham características dispostas jogavam de eletrocutar as partes mais sensíveis dos submissos. Deus… Era hipnótico. Algumas submissas se submetiam com a armadilha, um elemento punitivo da idade Média. Outras estavam sofrendo um caning, açoite com cano de bambu, e algumas mais sofriam um espancamento nas plantas dos pés. A masmorra se converteu na Sodoma e Gomorra, mas Cleo não podia afastar a vista desse tipo de submissão, exceto quando faziam todas essas coisas desagradáveis que não estava disposta a experimentar nunca. Então colocava cara de asco e de desgosto e retirava o olhar. E, depois, estava o impressionante cárcere em que passavam os casais que perdiam nos duelos e decidiam ser castigados pelas Criaturas, decorada com descomunais tecidos de aranha. As amigas de Sharon faziam ornamento de suas artes dominantes e tratavam os submissos de maneira irreverente e humilhante. Cleo pensou que se a tratassem assim, possivelmente utilizaria a língua dessa pessoa para limpar vidro. Mas os submissos não pensavam isso. Estavam excitados, eretos aos duzentos por cento e desfrutavam desse trato. Sharon permanecia sentada em uma espécie de trono negro adornado com figuras metálicas de aranhas douradas, como a rainha que era. Açoitava as nádegas de um submisso. Todos, homens e mulheres, passavam por ela; e os repreendia. Cleo não só sentia uma irremediável animadversão para ela, suas sensações também se dividiam entre a admiração e o respeito. Uma dominatrix sempre dava um pouquinho de medo. Mas Sharon tinha uma lenda sobre seus ombros; uma que falava de beleza, baixeza justificada e transgressão. Era bela e inacessível, de traços doces, mas olhar de aço, dura como o granito. Os Macacos faziam o seu show. Tomavam, usavam e iam para outro. Um bacanal. Isso era. Enquanto Cleo quase não piscava ao olhar as performances que aí se desenvolviam, Lion se perguntava o que rondaria por sua cabecinha ao presenciar todos aqueles atos desinibidos de entrega sexual. Curiosidade? Medo? Repulsa? Ele juraria que Cleo gostava de submeter-se, mas só ante ele. As submissas, as que aceitavam esse papel conscientemente e por própria vontade, tinham personalidades muito fortes e espetaculares; possivelmente, por isso necessitavam que alguém as estimulasse desse modo e lhes demonstrasse que podiam ser mais fortes que elas. Cleo era desse tipo de mulher. Incrível e submissa com ele, mas tampouco muito. Digamos que sua submissão era mais bem consensuada e que ela a controlava em todo momento. Sem dúvida, a jovem agente era mais do que ele tinha imaginado como casal e como companheira. Na noite anterior se entregou por completo. Ele a havia possuído como nunca o fez e isso marcava a alma de uma pessoa. Sabia porque ela marcou a sua. 91


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Depois de passar um par de horas vendo como os duelistas se salvavam e outros pereciam nas provas, o Oráculo introduziu o Amo do Calabouço. —Esse amo não é Markus? Que nos tatuou? —perguntou Cleo levantando-se com Lion, pendurando a chave ao pescoço e tomando o cofre. Estavam a ponto de ser chamados pelo amo. —Sim —Lion agarrou a correia e a puxou. —Cuidado, amo. Não me puxe tão forte ou tropeçarei. —Silêncio. Markus era um Amo do Calabouço. Lion não o tinha visto por nenhum local do ambiente BDSM, mas sabia que os amos desta classe adestravam as mulheres fora do torneio. Eram especialistas em disciplinas. Markus tinha um topete moicano castanho muito chamativo, com as pontas um pouco mais escuras. Seus olhos tinham uma cor estranha ametista, como se não fossem deste mundo. O nariz reto e o queixo muito marcado; maçãs do rosto altos e sobrancelhas bem retas, quase nada arqueadas. Tinha a pele morena pelo sol e exibia uma tatuagem tribal que lhe percorria todo o peito esquerdo, parte do braço, o ombro, e o pescoço até desaparecer debaixo da orelha esquerda. Atrás dele havia uma jaula com três mulheres, submissas dos amos que perderam em duelos e que ele requisitou para seu próprio prazer. Desta vez, Lion e Cleo foram os primeiros a se apresentar, orgulhosos e relaxados por levar muita vantagem ao resto. —King Lion e Lady Nala —os saudou Markus— Voltaram a ganhar um cofre, felicidades. E dispõem já de duas chaves. Isso os aproxima da terceira chave, que os levaria diretamente à final. Cleo ficou hipnotizada pela profunda voz desse homem. Por Deus, dava-lhe medo. —Assim é —assentiu Lion. —Me mostrem o cofre. —Escrava. —Lion puxou a cadeia de Cleo e esta lhe ofereceu o cofre com a carta de “pergunta ao amo”. Ele deveria lhes dar uma prova definitiva para encontrar o cofre do dia seguinte. Markus assentiu e se aproximou de Lion para lhe sussurrar uma mensagem ao ouvido que só ele pôde escutar. O agente afirmou com a cabeça e tomou nota da pista oferecida pelo amo. —Bem, guardem as demais cartas —observou Markus— Não utilizaram nenhuma mais. —Não. —Mantêm as cartas do dia anterior? —Sim. —Mostre-as para mim. Cleo colocou a mão em sua mochila. O torneio estava indo uma maravilha. Se encontrassem o cofre no dia seguinte, estariam definitivamente na final, e não precisariam continuar jogando até o evento oficial com os Vilões. Abriu a mochila e… Ups! Nem rastro dos objetos nem das cartas. 92


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Então, nas celas da Rainha e dos Macacos, dois homens gritaram vitoriosos entre aplausos e aclamações, mostrando a vara, o chicote e as cartas e objetos do casal do FBI. Os Macacos voadores os tinham tirado! Lion empalideceu. Aquilo era justamente o que não devia passar. Estar em inferioridade de condições com o Amo do Calabouço ou com as criaturas. E uma das vezes nas que não podia fazer nada para se defender era quando perdia os objetos ou os roubavam. —Meu deus… Mas quando nos tiraram isso? —perguntou Cleo nervosa. Ela também sabia o que isso significava e não gostava em nada. E mais, já sentia um nó no estômago muito pesado, frio e doloroso. —Provavelmente ao subir ao One Cruiser. Os dois caras que nos acompanharam até o “dente de ouro”—apertou os punhos e olhou para Cleo com preocupação— Não notou nenhum puxão? Nada? —O que? Não! Não notei nada… —Os Macacos voadores são especialistas em tirar objetos, já os avisaram disso antes de cada jornada —comentou Markus— Sabe o que isso significa? —olhou para Cleo com atenção. Lion agarrou Cleo pelo colar e a obrigou a olhá-lo nos olhos. —Lady Nala, sua aventura se acaba aqui — assegurou. Não ia permitir que Cleo se metesse nessa jaula com os Macacos e as Crias da Rainha das Aranhas. Nem pensar. Ia eliminá-la… mas, como? Não tinha cartas de eliminação. —Nem pensar —respondeu ela muito digna. —Posso me entregar como amo? —perguntou Lion como última instância— As Crias poderiam jogar comigo. —Não! —protestou Cleo sem fazer grandes dramalhões, mas sim comportando-se como uma falsa submissa ciumenta. Que, por certo, ciumenta era. Não deixaria Lion nas mãos das amas. Markus os estudava com muitíssimo interesse. —Poderia, King, se tivesse uma carta switch e trocasse de papel com ela. —respondeu o amo— Mas não tem nenhuma, temo. —Não. —E agora tampouco as pode trocar nem fazer valer porque já me mostrou o cofre com a carta escolhida a usar. Não têm outra saída que jogar… —evidenciou passando os dedos pelo moicano— Se rendem? Lion se fixou nas tatuagens que tinha nas mãos e nos antebraços e se surpreendeu ao ver o que significavam. —É óbvio que não. Não nos rendemos — grunhiu Cleo — Posso fazer isso. —Podia, claro que podia. Só tinha que imaginar que era Lion quem a tocava e suportar a dor e pronto… Não? —Nego-me. —Lion se mostrou inflexível. —Sabe o que? —Markus deteve a discussão de ambos— Eu posso oferecê-los outra alternativa. E Lion sabia qual era. O Amo do Calabouço poderia dialogar com as Criaturas para que lhe emprestassem a presa. Mas as criaturas pediriam algo em troca. 93


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—Posso ficar com sua submissa, se você estiver de acordo, e posso lhe dispensar um tratamento diferente ao que as Criaturas lhe dariam. Lion negou com a cabeça, mas Cleo assentiu concordando. Era uma profissional; e se tinha que fazer sacrifícios desse tipo, faria-os. Prometeu a si mesma que não ia decepcionar ninguém, e menos Leslie. Além disso, devia demonstrar a Lion sua capacidade como agente secreta. —Aceito. —Não pode aceitar se não haver consenso —assegurou Lion. —A submissa, que é quem recebe o trato, é a última em decidir —assinalou Markus— Se ela aceitar… —Ela é minha. —Lion deu um passo adiante e com sua atitude desenhou uma linha de limite ao Amo do Calabouço. —Em realidade, não são um casal que assinou algum contrato de participação; e é por todos sabido que Lady Nala eliminou Mistress Pain, que sim tinha um contrato com você. Agora mesmo, entre vocês não há nada assinado, e isso deixa todo o poder à senhorita. —Markus sorriu duramente para Cleo— Se ela aceitar estar comigo, negociarei com as Criaturas e a utilizarei para saciar meus… —sorriu como um lobo— apetites. Lion tomou Cleo pelo queixo e negou categoricamente com a cabeça. —Vou pronunciar o codeword. —Não é você quem deve fazê-lo, mas sim a submissa. —respondeu Markus— Ela sabe quanto pode suportar. E, se te incomodar como amo, deveria ter tido mais cuidado com seus objetos. —Não, King! —refutou ela com veemência, retirando o rosto de seus dedos de aço. Apoiou as mãos sobre a mesa que custodiava Markus e olhando-o nos olhos disse—: Aceito que cuide de de mim. Sou a única que decide isto. O amo levantou as duas sobrancelhas de uma vez e seus olhos ametistas cintilaram. —Perfeito. Não obstante, antes quero jogar uma olhada à mercadoria. Cleo apertou os dentes e engoliu a onda de frustração e impotência que a percorreu. Já sabia que o torneio suportava riscos, mas não ia permitir que Lion a superprotegesse desse modo. Era uma submissa: estava nesse papel e não iam chamar mais a atenção. —Bem —respondeu ela. Markus estendeu a mão e a puxou pela correia do colar. —Bem. —puxou levemente e fez que o seguisse—: Vamos à cadeira. Vou fazer uma revisão em você. Lion só queria esmagar o moicano desse amo e começar a dar murros. Não podia permitir isso. Não podia… Mas tinham cometido um deslize com os objetos; não tinham cartas switch nem tampouco cartas de eliminação para jogá-la do torneio; nem muito menos assinaram um contrato, porque Cleo se assegurou de não lhe dar nenhum valor depois de que se apresentasse no dia anterior e o desafiasse. Não foi uma união consensual; ao contrário, produziu-se quase por obrigação. O que devia fazer? Ia vomitar se esse cara tocasse Cleo diante de todos. Cleo se virou e sorrindo com uma frieza e uma indiferença espantosa, murmurou: 94


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—Se fizer algo que me foda, King Lion, farei da sua vida impossível. Quero chegar à final, não o esqueça. —Tinha que representar o papel de dois amos unidos pelas circunstâncias. As pessoas a conheciam como Lady Nala, e era sabido por todos que não se davam bem. Devia manter essa atitude. Lion interpretou: “Se tentar me eliminar ou fazer algo para que não passe por isso e me jogar do caso, juro que nunca o perdoarei isso”. O pior era que, embora fosse o amo no casal, não tinha poder real sobre as decisões de Cleo. Sem contrato, nem cláusulas, nem tampouco uma carta de edgeplay, eram um casal sem limites. Cleo estava nas mãos do amo, e se não pronunciasse a maldita palavra de segurança, ia fazer com ela o que lhe desse vontade. Eram somente companheiros de jogo, e ela decidia o que queria. Merda. Estava perdido. Markus falou com as Criaturas e liberou as três submissas que tinha nas jaulas para oferecêlas como tributo em troca de Cleo. Uma mulher por três. Os Macacos aceitaram sem problemas, embora Sharon não gostou da decisão. Depois disso, o amo a guiou caminhando pela areia e a levou até uma cadeira parecida com as de ginecologia, caracterizada com cores negras e almofadinhas vermelhas no repouso de pernas, no repouso de braços e no respaldo. —Sente-se. — ordenou Markus de maneira muito inquisitiva. —Sim, doutor —respondeu ela com sarcasmo.

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CAPÍTULO 8 “Submissa não é a que sofre mais, mas sim a que mais deseja”.

Dia 2 “E na teoria, só devo abrir minhas pernas assim diante da minha ginecologista”, pensou Cleo, apoiando ambas as pernas nos apoios de joelhos. Mas não estava em uma consulta médica; estava realizando uma fantasia-performance do Amo do Calabouço de Norland, Markus. Não queria olhar Lion, que continuava em pé, rígido e tenso como uma vara, à espreita, a ponto de saltar para rasgar a jugular do outro macho alfa. Mas Cleo o fazia. Olhava-o. Para ela era novo ver essa expressão em seu companheiro. Bom, na realidade lhe vinham de novo muitas coisas; mas dar-se conta de que suas decisões influíam emocionalmente em Lion significou um choque para ela. Nunca teria acreditado ter algum tipo de poder para mudar seu estado de espírito ou para chamar sua atenção; nem muito menos para atrai-lo. Mas se esse não era o rosto de um homem meio louco por saber que iam tocar algo que realmente lhe importava, então, o que era? Seus olhos azuis escuros refulgiam como um sinal de alarme; seu queixo estava pétreo e duro, como se mastigasse algo muito pesado; tão pesado como aguentar uma brincadeira de mau gosto. Aquele maravilhoso corpo masculino em guarda. Deus, e ela de pernas abertas em uma cadeira de ginecologista que os do BDSM chamavam cadeira de castigo, ou de tortura, e a utilizavam para fazer inclusive todo tipo de inspeções com instrumentos ginecológicos de verdade. Maravilhoso, verdade? Tinha vontade de gritar. Markus prendia seus braços com as correias de pele do apoio de braços. Por favor, ia imobilizá-la. Imobilizar de verdade. As pessoas olhavam em silêncio, acalmadas pelos movimentos serenos e controlados daquele amo tão rude e sexy. Parecia um maldito animal selvagem. —Esteve alguma vez em uma cadeira de castigo? —perguntou olhando-a nos olhos, com voz sussurrante. Cleo assentiu, orgulhosa de nunca ter estado. Se tinha que mentir o faria, e seria acreditável. Markus sorriu indulgente como se não acreditasse em sua resposta e imobilizou seus joelhos com as correias. Passou-lhe as mãos pelas panturrilhas e subiu pelo interior das coxas. Cleo tentou afastar-se de seu corpo, fazer uma viagem astral dessas que diziam que se podiam fazer… Não contavam que alguém podia abandonar conscientemente seu corpo se exercitava para isso? “Vá. Sai. Sai. Voa e já te avisarei…”, repetia a si mesma. Mas sua alma e sua consciência seguiam ali. As mãos de Markus queimavam, ardiam, e não pôde evitar olhá-las… 96


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Mãos tatuadas. Tinha uma caveira em cada dedo e um gato negro de olhos amarelos repousava estirado sobre o dorso de sua mão esquerda, com o corpo acomodado sobre o antebraço. E no dorso da outra mão se desenhava uma cruz cristã inversa. Cleo franziu o cenho. Tatuagens russas? Uma vez leu a linguagem própria que as tatuagens tinham dentro da máfia russa. As caveiras nos dedos eram as pessoas que assassinou; o gato significava que era um ladrão e o utilizavam como um amuleto de boa sorte, dando a entender que atuava sozinho. E a cruz queria dizer escravidão, subordinação e castigo. Enquanto pensava nessas coisas, não se deu conta de que Markus se ajoelhava entre suas pernas abertas e lhe subia a saia até colocá-la por cima dos quadris. Não notou seus dedos roçá-la entre as pernas; nem como seu rosto se aproximava de sua calcinha com zíper; nem tampouco como, depois de longos segundos, ele se detinha. Parou. Markus se interrompeu. Cleo, que estava olhando para outro lado, percebeu a tensão e a surpresa no corpo do homem e escutou algo que ele disse em voz muito baixa e que a deixou perplexa. —Imaginei. Drugogo khameleona. Cleo abriu os olhos impactada e olhou Markus de frente. Ela quase falava russo, sabia quatro idiomas, e embora o russo não o falava perfeitamente, sim que o entendia muito bem. Um nó se formou em sua garganta e não sabia como reagir. “Disse “outro camaleão”? Outro?”. Incrivelmente, Markus desatou suas correias e, como se ali não tivesse acontecido nada, ajudou-a a levantar-se da cadeira, como um perfeito cavalheiro. Cleo, insegura e ainda sob o choque de ter compreendido aquelas palavras, procurou Lion com o olhar. —Fico com Lady Nala durante o dia de hoje —decretou Markus —Necessito um mesa. Está de acordo? —Seus olhos violetas esperavam uma resposta afirmativa. Apertou-lhe os dedos da mão com cumplicidade. Cleo não sabia de onde vinha aquela conspiração, mas sim sabia que Markus podia saber algo sobre Leslie. “Outro camaleão”. Quantos camaleões podia haver nesse torneio? Quanta gente teria um camaleão tatuado em seu corpo? E, o mais importante de tudo: Markus não hesitou em reconhecer ao réptil corretamente e não chamá-lo dragão de komodo, salamandra, lagarto ou lagartixa. Lion passou a mão pelo cabelo de corte militar. O Amo do Calabouço podia levar a sua submissa no caso de que não queria fazer uso dela publicamente. De repente tinha acidez; ia se abrir uma úlcera do tamanho do buraco da camada de ozônio. Não ia perder Cleo de vista e esperava que ela tivesse o tino de negar-se ou de pronunciar de uma puta vez a palavra de segurança. Mas, para agravar mais sua amargura, Cleo levantou o olhar e cravou seus olhos verdes e impressionados nele para assegurar, em pleno papel de Lady Nala: —É óbvio. Estou de acordo — respondeu. 97


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—Não! —Lion cruzou em seu caminho e observou o sobressalto e a contrariedade de Cleo— Onde a levará? —exigiu saber. —Isso é algo que só concerne a sua submissa e a mim. Ela não se negou e isso me dá carta branca para fazer qualquer coisa… —Qualquer coisa não —assegurou Lion. Markus entrecerrou os olhos e sorriu com desdém. —Qualquer coisa —afirmou Markus— Enquanto ela não pronuncie a palavra de segurança, quer dizer que está disposta a estar comigo. Está? —perguntou para a jovem. Cleo engoliu saliva. Não queria aborrecer Lion nem o contrariar, mas a missão comportava esses riscos. Não sabia o que esse homem russo queria dela; mas estava convencida de que ele sim sabia quem era ela. —Sim. Estou —respondeu seca, deixando claro para Lion que não se metesse. Não poderiam falar, mas quando chegasse lhe explicaria tudo. —Se tiver sorte e tiver recebido uma carta Convite no cofre, pode esperá-la na festa que se celebrará esta noite na Prancha do Mar. Levarei-a lá; a não ser que esta deliciosa mulher —a analisou de cima a baixo com fome canina— deseje passar a noite comigo. Cleo teve vontade de revirar os olhos. Desejar não era a palavra que ela utilizaria, mas representava o papel de Lady Perversa, assim não sentiu nojo de sua proposta. —Agora, King, afaste-se. —ordenou Markus. —Posso te desafiar a um duelo de cavalheiros —assegurou, falando em um tom que só ele pudesse ouvir, jogando mão de seu último recurso. —King —Cleo pôs a mão no peito dele e o afastou um pouco—, sou irresistível, mas não sou sua propriedade. Sem contrato, não há posse nem normas a violar, recorda? — piscou um olho, passando o dedo indicador pelo queixo dele. Já imaginava o cérebro de Lion engrenando-se e dizendo: “Isso merece cinquenta açoites”. —O que você disser, escrava —respondeu Lion tomando a bolsa com as cartas entre suas mãos e lhe tirando as duas chaves que penduravam de seu pescoço— Mas é melhor aparecer na Prancha do Mar ou te juro que vou cortar seu traseiro. Lion sorriu com frieza, assentiu e os deixou passar. Que mosca teria picado Cleo? Estava louca? Como se atrevia a falar com ele assim diante de todos, a grande desavergonhada? E por que se comportava desse modo? Acaso sabia algo que ele não sabia? O público da fortaleza e as Criaturas vaiaram Markus, pois queriam ação. Mas Markus não lhes deu esse gosto. Tirou as três submissas que tinha na jaula e, para que se calassem, entregouas às Criaturas e, em troca, colocou Cleo na armação, como se fosse um passarinho inofensivo. Cleo se sentou na jaula e esperou pacientemente que Markus a tirasse dali e a levasse onde fosse; enquanto isso, suportava o olhar acusador e inquisitivo de Lion, que estava de tudo, menos de acordo com a situação.

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E, enquanto isso, os demais casais apresentavam seus cofres e suas cartas ao Amo do Calabouço. Cleo e Lion estavam tão concentrados em desafiar um ao outro, que nenhum dos dois deu atenção no seguinte movimento que trocaria o rumo do torneio. Tigrão acabava de eliminar Miss Louise Sophiestication do torneio, aproveitando a carta Eliminação que caiu para ele pela segunda vez consecutiva. Deste modo, o submisso se erigia como único brinquedo da Ama Thelma. Sophiestication não podia acreditar; mas aceitou humilhada aquele inesperado roteiro que tinha tomado sua participação no torneio. Sua aventura em Dragões e Masmorras DS acabou.

Saint John Lion cruzou a distância desde Water Islands a Saint John a uma velocidade vertiginosa. O Amo do Calabouço levou a sua companheira na missão. Obviamente, sabia que não ia fazer nada mau com ela, que estava relativamente a salvo; mas não queria pensar no que Cleo poderia experimentar em suas mãos. Esse tipo estava cheio de tatuagens da máfia russa. Ele também se deu conta… por que? Por que Cleo procedeu daquele modo? Deus, devia chegar rápido ao hotel e chamar a equipe estação de apoio. Por sorte, Cleo tinha uma câmera integrada no colar; assim que eles poderiam controlar em todo momento sua posição exata e sua situação. Estava suando de tão nervoso que estava. Ao chegar a Saint John, a ilha em que iam se hospedar, não pôde evitar dar-se conta das diferenças entre Saint Thomas, onde estiveram nos dois últimos dias, e onde iam descansar durante os próximos dois dias. Depois da etapa do torneio, todos os participantes deviam transferir-se a Westin St. John, em Bay Cruz. Saint John era uma ilha menor, paradisíaca, cheia de retiros naturais, paisagens virgens e águas limpas e cristalinas. Os resorts e os hotéis que povoavam a ilha se misturavam com a paisagem e não alteravam sua harmonia. A baía, repleta de pequenos iates particulares, apresentava uma visão memorável, única e bucólica. Deixou a moto aquática na borda da baía em que se achava o majestoso resort com vilas tropicais e correu até a recepção do hotel. Depois de dar seu nome como amo e mostrar seu bracelete, que passaram por um datafone, os recepcionistas confirmaram seus dados e, muito solícitos, deram-lhe a chave do quarto que devia ocupar com Lady Nala, mas que desfrutaria sozinho, no momento: a Marinha Suíte Master Bedroom do resort principal e com incrível vista à impressionante piscina e ao jardim botânico. 99


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Lion não se interessou nem pela decoração do quarto nem por nada que não fosse meter-se na ducha com hidromassagem, deixar correr a água ao máximo, pôr a música na potência máxima e chamar a equipe estação de apoio com seu HTC. —Jimmy —respondeu uma voz ao outro lado da linha. —Porra, levaram Cleo —disse Lion. —Vimos —afirmou sério— Temos conectada sua câmera mas não se vê nada, está completamente às escuras. Estamos tentando reconhecer o rosto do tipo com moicano. —Diz se chamar Markus —informou Lion esfregando o rosto com a mão, sentado sobre o vaso sanitário. —Não pode fazer nada com ela. Sabe, não? Esse tipo está dentro do torneio e todo mundo sabe que Cleo aceitou ir com ele. A devolverão e… —Ok, obrigado —o cortou Lion secamente. Mas isso não o tranquilizava— Tinha tatuagens da máfia russa. Olhe e veja se o encontra nos bancos de identificação dos cárceres soviéticos. Esse tipo esteve preso; senão, não teria essas tatuagens. —Estamos procurando. Assim que saiba algo lhe direi. Mandamos analisar os restos de saliva e popper que conseguiu na noite anterior. —E bem? —Modificaram a droga. Continua havendo cocaína, mas equilibraram as quantidades o suficiente para que não provoque choques anafiláticos. Estabilizaram-na. Se tinham criado uma droga química estável, não demoraria para vender-se pelos círculos de interesse. —Se houver uma rede de narcotráfico por trás, não demorarão para promovê-la e comercializá-la —explicou Jimmy. —E o DNA da garota? —Nada, cara. É gente nula. Não existe. Está fora do sistema. Não podemos identificá-la; além disso, ao andar com máscara não podemos reconhecê-la com o programa de identificação facial nem encontrar semelhanças. —Entendo —exalou descansando as costas na parede e fechando os olhos frustrado—Me ligue assim que averiguar um pouco sobre Markus. E me avise quando a câmera de Cleo estiver ativa. —Faremos isso. Lion desligou e apoiou os cotovelos em seus joelhos para sepultar o rosto entre suas mãos. —Merda, Cleo —grunhiu frustrado— Que porra fez?

Os amos tomavam muito a sério seu trabalho e seu papel e encenavam muito bem suas ações. Markus cobriu sua cabeça com uma bolsa de tecido negro, e Cleo não via nada. 100


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Sabia que a tinham levado de iate a algum lugar; e depois, ainda às escuras, tinham-na subido a um carro que se deslocou por um caminho ascendente até chegar ao lugar no qual agora se encontravam. Sob seus pés notava o cascalho arenoso. —Já chegamos. Sobe três degraus; isso mesmo —pediu Markus tomando-a com segurança pelo braço para ajudá-la. —Posso perguntar onde estamos, senhor? —Não. Os móveis não falam —murmurou direto— Estão presentes e só escutam. Assim se cale e não abra a boca mais. Cleo quis ler uma mensagem entre linhas. Markus a levou com a desculpa de que necessitava uma mesa. Havia jogos de dominação e submissão onde os submissos se emprestavam a fazer o papel de móvel; e estava acostumado a ser, geralmente uma mesa, em que servir comidas, apoiar pratos e bebidas ou, inclusive, exercer como repouso de pés. Se o fazia, não devia mover-se para que não caísse nada ao chão, ou poderia ganhar um castigo. —Vou vesti-la com um traje bem ajustado de corpo inteiro feito com rubber. O rubber era uma espécie de polímero artificial parecido a borracha negra e encerada que se utilizava especialmente nas roupas de tendência fetichista. Ela assentiu e permaneceu em silêncio. Aguentou que ele a despisse, que a banhasse e a ensaboasse. Tirou-lhe o colar de submissa e os braceletes onde guardava os micros, e passou as mãos com cuidado pelas marcas, cada vez menos vermelhas, do chicote violento de Billy Bob. —Esse seu amo … Não é um bom amo. “Essas marcas não foram feitas por um amo. As fizeram em mim um sádico abusador”, teve vontade de dizer, mas ele tinha ordenado que se calasse. Tratava-a de um modo tão impessoal que deixava sua pele arrepiada; como se em realidade fosse um objeto e não uma pessoa. Como se fosse um maldito móvel. Depois, colocou creme por todo seu corpo, um creme especial para utilizar aquela vestimenta rubber tipo macacão de corpo inteiro, e a vestiu como se fosse uma menina pequena que não soubesse fazê-lo. Cleo tinha medo. O coração ia sair do peito. Mas Markus não estava agindo de um modo muito ofensivo nem pervertido. Simplesmente fazia seu trabalho, metódico e competente, como se estivesse acostumado a fazer aquilo todos os dias. Certamente, se era um amo, estava. Mas que tipo de amo era? Que perfil seguia? Cleo sabia que não havia um só amo igual, mas sim que tinham alguns padrões de comportamentos mais marcados e parecidos. Nem sequer sabia que horas eram. Quanto tinha passado desde que a tiraram da jaula e a levaram? Markus a sentou em uma poltrona, penteou-a e desenredou seu cabelo para, depois, retirar toda a franja do rosto e lhe fazer um rabo de cavalo alto. —Vamos, está a ponto de chegar. Quem? Quem estava a ponto de chegar? 101


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Markus a levou do banheiro e a fez caminhar através de vários corredores. Continuava usando a faixa nos olhos e não via nada. Nessa casa havia ar condicionado, porque a temperatura era fresca e leve, nada a ver com a umidade exterior. —Fique aqui, de quatro. Ajudou-a a ajoelhar-se. —Não quero que se mova para nada. Não quero que fale. É uma mesa. As criadas disporão as coisas sobre você. Cleo apoiou as palmas suarentas das mãos no chão frio. Permaneceu em silêncio e se esticou quando, ao cabo de um momento, notou que começavam a apoiar copos e pratos em suas costas. Quem eram as criadas? Escutava seus passos ao redor dela. Usavam saltos; e as imaginou vestidas com arnês tipo gladiador, meio nuas, servindo taças aos amos. Seu estômago estava se revirando. A campainha da casa soou. —Já está aqui —murmurou em russo. Markus se aproximou dela e lhe disse—: Recorda, escrava. Os móveis estão presentes; nem se movem nem falam, só escutam. Aguenta a posição tanto o que puder; e não reaja ante o que possa te fazer porque, se cair uma só taça, tiro sua roupa e a açoito até desmaiar. Cleo estremeceu e engoliu saliva. Queria começar a chorar, mas ao mesmo tempo, sentia uma curiosidade inata ante o que se aproximava. Quem era Markus? Por que a trouxe para esse lugar? Saberia a qualquer momento. —Zdras-tvuy-tye, Belikhov —disse Markus em russo. Cleo soube que estava dando as boas vindas a um tal Belikhov. Os passos dos dois homens se aproximaram até onde ela estava exercendo seu papel de mesa, e escutou como tomavam assento ao redor dela. A conversação que teve lugar então foi toda em russo. —Bonita mesa —disse o tal Belikhov passando a mão pela nádega de Cleo. A jovem apertou os dentes, mas não ousou mover um só músculo. “Não me toque, filho da cadela”. —Obrigado; adquiri-a hoje mesmo —respondeu Markus— O que gostaria de tomar? —Conhaque com gelo, por favor. No momento, Cleo notou como uma das criadas depositava o gelo tilintante e enchia a taça vazia de suas costas. —Estas ilhas são muito úmidas —observou Belikhov. —Sim, são. Trouxe meu dinheiro? —perguntou Markus sem rodeios. O outro homem pôs-se a rir e deixou algo em cima do osso sacro de Cleo. —Aqui o tem. O peso desapareceu, sinal de que o amo pegou o envelope. —Não vai contar? —Confio neles. Eles confiam em meus serviços. 102


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—Adoram como as domesticam, é um dos melhores. Faz que aguentem, que durem… Os senhores da velha guarda desejam isso para seus misteres e sua noite do Walpurgis. E o melhor de você é que não se questiona para quê as domesticações. Os senhores da velha guarda? A Old Guard? A noite do Walpurgis? O que? O que era isso? —Sou um amo e eu gosto de disciplinar. Não me meto nos fins dos jogos dos Vilões e suas práticas particulares. —murmurou Markus. Houve um silêncio. Silêncio que Cleo aproveitou para tomar nota. Markus estava adotando um papel de homem sem alma? De mercenário? A Old Guard era a velha guarda do sadomasoquismo, formada, majoritariamente, por casais homossexuais. Eram amos que não acreditavam no BDSM como um jogo. Só o consideravam como uma maneira de castigar, de viver. Esses ativistas não acreditavam no edgeplay, nos limites de ação dos casais, e se inclinavam sempre pelas relações de metaconsenso onde só o dominante decidia quando deter as sessões de castigo. Eram muito radicais e duros em suas ações. No princípio dos anos noventa nasceu a New Guard, que abria a possibilidade de pôr limites entre casais, de aceitar àqueles amos e submissas que só jogavam, e se abriram à figura switch, que podia atuar como amo e submissa. A palavra de segurança tomou vital importância a partir de então. Cleo acabava de descobrir, graças ao Markus, que os Vilões eram membros da Old Guard. Saberia ele que estava entendendo tudo? Corroía-lhe a incerteza. Aparentemente, Markus fazia a dominação das submissas para que logo fossem entregues aos Vilões. —Na outra noite, no castelo de Barba Negra, minhas escravas se comportaram muito bem. —Isso disse o senhor Venger. De fato, já sabe que tem a Sombra espiã observando todo o torneio e nos informando de tudo o que acontece entre os bastidores. Sombra espiã era o subordinado do Venger. Sua mão direita. Na série de desenhos animados, Sombra espiã era o delator e o que avisava ao Venger de todos os movimentos dos protagonistas com antecipação. Assim que os Vilões tinham a um infiltrado? Quem era o Sombra? —De fato, agradaria-os ter a esta mesa durante a noite do Walpurgis. —A noite do Walpurgis é o acontecimento privado dos Vilões à margem do torneio — assegurou Markus— Se quiserem Lady Nala para então, terão que convencê-la. Hoje está aqui porque cometeram um engano; mas Lady Nala e seu amo chegarão à final. —Bem —assentiu Belikhov— Será suficiente para que eles a convidem. Mas, não poderia chegar em qualidade de uma de suas submissas? —Não. Não neste caso. Lady Nala já é um participante oficial, todos a conhecem. E… Seu amo é muito respeitado no ambiente. —Mmm… bom, tudo é possível. Agradaria-os ter uma como ela, com este cabelo vermelho tão rico e cheio de vida —amarrou seu rabo de cavalo e o puxou— Já conhece os gostos fetichistas desses amos… —Todos temos gostos fetichistas. —Suponho que sim. 103


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Cleo escutou como Belikhov dava voltas à taça de seu conhaque e os gelos se chocavam contra o cristal. —Faltam duas noites para o Walpurgis. Recolherei suas garotas amanhã ao anoitecer. Nossas contas estarão saldadas até então. “A noite do Walpurgis se celebrará depois de finalizar o torneio”, pensou Cleo. —Celebrarão seu evento nas ilhas? —perguntou Markus. —Sim. —Já fizeram o pagamento aos outros? —Sim. Esta noite receberão mais popper para as submissas na festa privada. Keon levará o pacote, recém saído do forno, ao restaurante. Virá em um quad MGM vermelho. —Keon? O inventor da mistura do popper? Que honra… —É. Bom, bom… Por pontos: A noite do Walpurgis seria um evento particular entre os Vilões e as submissas adestradas pelos amos como Markus. Keon era o criador do popper, e se diziam que logo tinha saído do forno, queria dizer que tinham uma pequena fábrica em que elaboravam a droga dentro das ilhas. Onde? —Posso jogar uma olhada à mercadoria? —perguntou Belikhov. —É óbvio, estão no porão. Uma hora depois, Cleo sentia agulhadas nas coxas, dor nas costas, suava profusamente e as palmas das mãos e os joelhos doíam; mas nada disso era tão importante como saber que tinha presenciado uma conversa essencial para a resolução do caso. Não deixava de pensar na “mercadoria” que Markus tinha abaixo no porão. Eram as mulheres que ele treinava? De onde eram? Consentiam ou não consentiam? Estavam desaparecidas em seus respectivos países ou não? Até onde estava metido o do moicano em todo aquele turvo negócio? E onde estava Leslie? “Que alguém me tire este maldito traje ou morrerei de um colapso”. A mesma porta pela qual desapareceram Markus e Belikhov se abriu de novo. Os dois homens seguiam falando com crescente respeito. Nunca diria que eram camaradas, mas sim que mediam as palavras entre eles. Sentiu uma mão na nádega, que a esfregava em círculos e se ouviu um sorriso rouco e repugnante. —Esta garota é muito bonita. Não há nenhuma com o cabelo assim. Os Vilões já expressaram seu desejo de tê-la. Faça o possível para consegui-la. “Porco, tire as mãos de mim”. —Se chegar à final, a terão. Mesmo assim, dá-me a sensação de que seu amo não a deixa jogar com ninguém. —Isso não é problema. Que deem consenso ou não o deem, nunca foi. São as normas da velha guarda. O que querem, tomam. —Sei. —Então, camarada. Vou indo. Foi um prazer fazer negócios com você. Bolshoe spasibo. —Pazhalsta. De nada. 104


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Cleo respirou mais tranquila quando Belikhov se foi. Mas, de repente, a lembrança do que estava fazendo ali a golpeou. Que se supunha que ia fazer agora Markus com ela? Onde estavam as garotas? Por que a trouxe ali? Duvidava de que só fosse por um instinto fetichista. Sentiu como o amo lhe retirava os copos e os pratos de cima de suas costas. Depois, a segurou pelos cotovelos e a ajudou a levantar-se. Estava descalça, e a guiou através do exterior da casa. As plantas de seus pés caminharam por cima de várias superfícies. Grama, cerâmica fria, parqué, madeira… Aparentemente, era uma casa imensa com vários ambientes. Escutou o som de uma porta automática ao abrir-se. E, depois, um silêncio brutal e horripilante. —Espere aqui —lhe ordenou. Ela ficou em pé, a sós. Perdida e desorientada durante uma eternidade. Estava oculto e cheirava a umidade. Ouviu-se o som de outra porta ao abrir-se e fechar-se, e então, aos passos de Markus se acrescentaram uns mais leves. Merda, havia outro homem com ele. Apertou os dentes para abortar o grito que ameaçava sair de sua garganta. Não podia falar; era um puto móvel e tinha que respeitar o papel. Mas, por que estava ali? O que pretendia Markus? De repente, sentiu umas mãos gentis no rosto, suaves e mornas que lhe desatavam a atadura negra de seus olhos. Cleo inalou profundamente. Cheirava a… As carinhosas mãos lhe devolveram a visão e, quando abriu os olhos, encontrou-se com umas feições muito parecidas com as suas, uma expressão mais serena de olhos cinzas, covinha no queixo e um cabelo comprido liso e negro azulado como o azeviche. Cleo piscou. A outra garota também o fez e sorriu dando uma quietude a sua alma que não sentia fazia dias. Não soube quem abraçou a quem primeiro; só entendeu que estava entre os braços de sua irmã mais velha. Leslie.

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CAPÍTULO 9 “Em uma sessão, o amo é um demônio e, também, um anjo”.

Cleo estava soluçando sobre o ombro de sua irmã, mais alta que ela. Leslie a balançava e lhe sussurrava que estava bem, que estava bem… Markus se limitou a apoiar-se na parede e estudar o carinho que se professavam as duas mulheres, que eram tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes. —Que demônios…? —sussurrou Leslie com voz um pouco mais grave que a de Cleo— O que faz aqui, pelo amor de Deus? —Afastou-a para vê-la bem e limpar suas lágrimas, analisando seu traje e fazendo um gesto de dor ao ver como estava vestida— Cleo… Não compreendo. O que faz aqui? —voltou a abraçá-la com força— Você não deve estar aqui… Deve ir. —Les-leslie? —perguntou Cleo em choque, olhando para Markus e a sua irmã alternativamente— O que… ? Está bem? —Beijou-a e voltou a inundar-se no calor de sua irmã, que sempre tinha cuidado dela e que, inclusive nesses momentos, seguia fazendo-o— O que está acontecendo? Quem é este? —olhou para Markus com desconfiança para o recriminar—: Mas, e você, como…? Como sabia que…? —As palavras se atropelavam umas com outras e não sabia como as ordenar— Sabe quem sou? Leslie segurou o rosto de Cleo e a concentrou nela. —Cleo, me escute. Eu faço as perguntas e você responde. E depois trocamos os papéis, ou então isto não vai funcionar. —Sabe o quão preocupada estive com você?! —Empurrou-a zangada com ela— Sabe?! Leslie assentiu compreendendo o desassossego de sua irmã. —Sei. Mas não posso ter contato com o exterior. —Podia ter feito e…! —Cleo, não. —colocou-lhe as mãos sobre os ombros— Me escute. Você é a que tem que responder que droga faz aqui! Que merda está fazendo assim vestida?! Vai responder a todas e cada uma de minhas perguntas. —Não vai me interrogar como se fosse uma refém, pedaço de cadela. Isto não funciona assim… ���Escuta a sua irmã —ordenou Markus, com voz impassível. —Você se cale, punk mafioso! —Assinalou-lhe com um dedo. Estava histérica; e sua veia histérica propulsava sua veia vulgar; e sua veia vulgar a fazia comportar-se como uma barraqueira— Tem ideia do que está fazendo? Sabe que entendo tudo? Falo russo! —Já sabe —respondeu Leslie— Por isso te convidou: para que escute a conversa com o Belikhov. Falei-lhe de minha irmã, Cleo Connelly, querida. —Seu rosto refletia um profundo orgulho por ela— Sabe que tem um camaleão exato ao meu tatuado no interior de sua coxa, só

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que no lado contrário. Sabe que é policial e que este ano quer fazer os testes para entrar no FBI. Como soube que era ela? —perguntou ao russo. Markus cruzou os braços e a olhou de cima a baixo. —Têm uma semelhança muito… perturbadora —respondeu sem mover um músculo de seu charmoso rosto — Assim que a vi, recordou-me Leslie. Mas, para me assegurar, quis te fazer uma verificação. Leslie sobressaltou-se e olhou ao amo russo por cima do ombro, perdoando sua vida. —Não toque a minha irmã, Markus. —Não o fiz; só me coloquei no papel —respondeu sério. Cleo franziu o cenho, desviando os olhos de um ao outro. Sentia-se como se tivesse tomado um psicotrópico que a fazia delirar. —Podemos ir a outro lugar a falar? —perguntou Cleo tremendo ainda pela emoção. Estava em um corredor revestido de cimento, com só uns poucos fluorescentes pendurados do teto, e vinham à sua mente brilhos de Saw. —Vamos à sala contigua, agente Connelly —disse Markus a Leslie. Ela assentiu e passou um braço por cima do ombro de Cleo, cobrindo-a e tranquilizando-a, como sempre tinha feito. —Markus me explicou que está no torneio como Lady Nala —disse Leslie enquanto servia umas raspadinhas de café da máquina dispensadora. A sala em que se encontravam parecia um pequeno spa. Toda recoberta de madeira, com sauna, jacuzzi e umas espreguiçadeiras para relaxar e desfrutar da música ambiental, repleta de sons tropicais e naturais próprios da selva. Sentaram-se ao redor de uma mesa de vime com dois pufs e duas poltronas para acomodarse. —Me conte tudo desde o começo, Cleo —pediu a morena—; e, depois, eu lhe contarei tudo isso a você. Cleo tomou o copo gelado entre suas trementes mãos e assentiu, explicando entre gole e gole tudo o que aconteceu. Demorou em narrar os acontecimentos; mas o fez sem deixar um só cabo solto. —Então, depois de todo meu treinamento, Lion decidiu me afastar do caso. E eu me neguei; aproveitei a baixa de Karen para entrar com o Nick como sua ama. Mas não tenho espírito dominante, você sabe, e não ia durar nada com esse papel. Assim pactuei com Nick uma mudança de casal para ficar com Lion e seguir juntos no torneio. Tive a sorte encontrar uma carta Eliminação e joguei Mistress Pain, que era o casal de Romano. E eu fiquei com ele. E agora, estamos juntos como casal de… jogos. Entretanto, hoje, os Macacos voadores nos roubaram as cartas e os objetos, e eu devia cair nas mãos das criaturas; mas o Pássaro Louco —assinalou Markus com o queixo— interveio e me reclamou. —O fiz porque, em seguida, vi quem era. Leslie não disse nada de que ia entrar no torneio… —É que eu nem sabia! —protestou Leslie olhando-o enervada—Não posso acreditar que Montgomery tenha aceitado pô-la em perigo deste modo. No que estavam pensando? 107


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—Sua irmã e você se parecem —observou Markus—; era questão de horas que os Vilões a notassem. Escolheram-na por seu perfil, porque sabem que é o que atrai aos Vilões. Pele pálida, olhos claros, cabelo comprido… —E por minha capacidade, não? —resmungou Cleo ofendida. —Óbvio —disse Leslie. Não queria incomodar a sua irmã, mas havia diferenças entre elas como, por exemplo, o tempo e a preparação do caso que tinham dedicado na hora de entrar— Mas eu tive três meses para me acostumar à ideia do que devia fazer. Ela somente teve cinco miseráveis dias —grunhiu Leslie passando as mãos pelo rosto— E Lion não se negou! Vou matá-lo! —Lion se ofereceu para me disciplinar —respondeu Cleo— E, bom, eu aceitei. Foi um convênio coletivo e consensual. Já temos duas chaves; falta-nos uma mais. Chegaremos à final e por fim saberemos quem são os Vilões, e os pegaremos com as mãos na massa. —Mas isso não lhes garantirá nada —murmurou Markus com soberba— Ou acaso acham que os Vilões vão agir dentro do torneio? Farão depois, não são tão estúpidos para expor-se publicamente. Saiu do controle faz quinze meses, em seu primeiro torneio; cometeram enganos e houve gente que morreu pelo uso das drogas afrodisíacas. Desta vez, o torneio durará muito menos dias; e o localizaram em umas ilhas fáceis de controlar e manipular. Não lhes escapará nada das mãos. Assim, se quer saber quem são, terá que arder com eles na noite do Walpurgis. Todas as submissas que eu preparei estão destinadas ao entretenimento de todos os participantes; mas depois são única e exclusivamente para o uso dos Vilões nessa data. —Mas quem são os Vilões? —Cleo estava frustrada e a cabeça doía. —Pelo que sabemos, ou acreditam intuir, são gente de muito poder econômico —assegurou Leslie—, com um comportamento elitista e sectário. A verdade é que não sabemos com exatidão o que fazem aos submissos que recrutam. Não sabemos se os vendem a outras pessoas e negociam com eles, se os prostituem ou se os prepararem para práticas bem mais sádicas. Por isso estou com Markus… Minha missão agora é conjunta; e vai mais à frente do torneio de Dragões e Masmorras edição DS. —Como? Como assim conjunta? —girou-se para encarar o russo— Você sabe quem são? — exalou— Quem é, Markus? —Entrelaçou os dedos das mãos e o olhou de frente— E o que está fazendo com minha irmã? —Acredito que isso é algo que deve responder você, printsessa —Dirigiu um olhar violeta e desafiante a Leslie. Leslie moveu a cabeça de modo afirmativo. —De acordo —seus olhos cinzas se entristeceram— Faz apenas duas semanas, Clint e eu estávamos em um local do BDSM de Nova York. Fomos à entrevista que se preparou através do fórum do jogo. Sabíamos que a Rainha das Aranhas ia assistir, e queríamos ver se fazia novos convites pessoais para o torneio. Eu já o tinha. Mas quanto mais gente conhecêssemos e mais controlados tivéssemos aos participantes, melhor nos daríamos com eles e mais fácil seria jogar no torneio e nos aliar no momento correto. Só era uma visita rotineira para nós. Mas, em realidade, tratou-se de uma armadilha. Os Vilões me queriam para eles, para fazer parte de seu particular harém submisso. Essa noite —recordou olhando à frente, com os olhos ligeiramente dilatados—, 108


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lembro que pedi um gim-tônica ao barman do clube. Íamos fazer uma pequena performance, jogar com mais casais esperando a chegada da Rainha das Aranhas. Mas nunca chegou. —Conforme me disseram —explicou Cleo muito atenta a suas palavras—, Sharon chegou muito antes da hora prevista; fez uma visita relâmpago e se foi. Leslie assentiu e esfregou o queixo. —Bom… A questão é que minha bebida tinha algo que me deixou fora de jogo. A última coisa que recordo foi que me meti no banheiro para me refrescar e molhar o rosto; e aí perdi os sentidos. Não… não recordo nada mais. A primeira imagem que me vem à mente é o rosto de Markus me falando em russo. —Você a sequestrou?! —Cleo se levantou do puf de vime e encarou Markus com os punhos apertados. —Não. Eu não o fiz —assegurou Markus, com toda a calma do mundo—Trazem as mulheres para mim para que as prepare e as domestique. Sua irmã foi uma delas. Cleo passou as mãos pelo rabo de cavalo e pediu a Leslie: —Me faça um favor. Desabotoe um pouco este traje. Estou me asfixiando. Leslie baixou o zíper até a metade das costas e Cleo exalou. —Drogaram-me, Cleo —continuou Leslie— Me tiraram do local e me entregaram a Markus para que me preparasse para os Vilões. Mas quando abri os olhos e escutei suas palavras em russo me dizendo que “lamentava minha situação e que me ajudaria para que ao final não me acontecesse nada”, eu lhe respondi também em seu idioma dizendo que “era ele quem tinha que cuidar de suas costas”. —Markus sorriu e olhou para o outro lado, feliz e cômodo com essa lembrança. — Ele ficou impactado ao ver que eu falava sua língua. —As duas falam, sabe? —disse petulante ao russo— Não nos pergunte por que — murmurou. —Já sabe, Cleo. Disse a ele que você e eu crescemos de um modo diferente ao de outras crianças. Nós gostávamos de outro tipo de coisas e líamos histórias de espionagem. Nosso ídolo é María L. Ricci, a agente especial da Contra-inteligência do FBI. —Sonhavam em ser espiãs —acrescentou Markus—, e brincar de se infiltrar na KGB, tal e como os espiões russos tinham feito em seu país —assentiu rindo delas— Por isso aprenderam russo. —E espanhol, e francês — respondeu Cleo deixando claras suas habilidades — E o que aconteceu quando replicou ao Markus, Les? —Observei suas tatuagens e lhe disse que não entendia o que fazia um ex-sentenciado russo como amo. Então, Markus compreendeu que eu não era uma submissa comum. Ele me perguntou, em código, se tinha lenda; testou-me. E eu, impressionada por aquela revelação, respondi-lhe imediatamente se ele era um ilegal. O SVR, antigo KGB, prepara seus espiões para que fossem “ilegais”, homens e mulheres que vão a outros países para viver como nativos, alguns nacionalizados. Para isso criava para eles um passado, como o que tinham criado aos agentes do FBI infiltrados em Amos e Masmorras. A esse passado chamavam “lenda”. —Markus é um agente do SVR, Cleo. 109


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Cleo abriu os olhos e jogou uma olhada ao enorme moicano com olhos ametistas, cheio de tatuagens, que lhe sorria com ares de suficiência. —Os dois se dão conta que fracassaram como espiões? — perguntou Cleo aproximando-se dele— Se supõe que suas identidades são secretas. —Me pegou de surpresa —explicou Markus—, e compreendi que, pelo bem das relações institucionais adquiridas recentemente entre a Rússia e Estados Unidos, não seria válido ter uma agente do FBI em minhas mãos e agir com ela como faço com as demais. —E o que faz um agente do SVR soviético em nosso caso de Amos e Masmorras? —O mesmo que vocês. Temos uma fonte de informação no FBI que nos falou do corpo achado de Irina Lewska em terras americanas e de sua relação direta com um caso de tráfico de mulheres. —Markus tirou de seu bolso um doce retangular marrom, tirou o plástico transparente e o levou a boca. Olhou para Cleo e o ofereceu— Korovka Roshen? São doces russos. —Não, obrigada. —Markus é um viciado nestes doces. —murmurou Leslie. O homem saboreou o doce e prosseguiu: —Na Rússia estamos muito sensibilizados com o tema do tráfico de mulheres. Sabemos que existe uma organização que explora e suborna às mulheres para participar de orgias, as vendendo a outros países. Até agora, conhecíamos que eram capturadas através de supostas agências de modelos, mas é possível que os cabeças desta organização, além de utilizar outras plataformas, também trafiquem com estas mulheres dentro do jogo americano de Dragões e Masmorras DS. Servem igual para um sujo ou mal lavado; e a questão é vender a mercadoria. Eu sou o agente infiltrado para averiguar se há ou não representação russa dentro dos Vilões e quem são. O dinheiro que obtêm da venda destas mulheres, seja para o uso que for, remete-se a Rússia e se lava utilizando diferentes investimentos. Meu trabalho é reconhecer os Vilões, me colocar em seu círculo. Deste modo poderia chegar até os líderes da organização de nosso país e desmantelá-la. —E o que fez para se colocar no torneio? —Criei uma identidade como amo e ganhei um espaço dentro do BDSM russo como dominante muito experiente em submissão. Entrei no fórum do jogo de Dragões e Masmorras DS e não demorei para receber convite para o torneio. Em pouco tempo, um número privado entrou em contato comigo, me oferecendo uma sorte de privilégios: desde dinheiro, a propriedades por domar às mulheres que me forneceram; com uma única condição: que não fizesse perguntas. Compraram-me esta casa em Peter Bay e, há um mês e meio, estou adestrando um grupo de quatorze submissas. Quinze com a chegada de Leslie. —E o que faz com elas? Como são estas mulheres? —São mulheres de pele e olhos claros. Todas de cabelo comprido. Respondem ao padrão que já conhecem. Ao ser um membro infiltrado devo proceder como se realmente fosse o tipo de amo que eles procuram. Forneço-lhes popper e observo como age a droga em seu organismo; como reagem a ela quando estão na domesticação. Obtiveram uma droga de desenho muito eficiente, e desta vez já não provoca ataques como os de quinze meses atrás. As desinibem e anula seu medo, e cria vício. Pedem mais, sempre mais. — sussurrou raivoso— Por alguma razão, 110


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a droga e a resistência à dor estão muito ligadas. E isso é o que estão procurando os Vilões. Querem a mulheres e homens que resistem para seus misteres. Cleo sentiu um calafrio. Mulheres e homens que aguentassem todo tipo de castigos e que o fizessem de um modo inconsciente. —Falou com alguma delas? —Não posso. É possível que entre estas submissas haja uma que não o seja e que seja enviada por parte dos Vilões para controlar os amos e suas artes disciplinadoras. Supõe-se que não devo conhecer quantas consentem e quantas não. Vigiam-me; e não quero cometer nenhum engano. Tenho que chegar até o final, não importa como; embora isso suponha seguir disciplinando as submissas que tenho sob minha responsabilidade. Cleo pensou que Markus não tinha estômago nem remorsos. Mas o mesmo diziam dos agentes de contra-inteligência do FBI. Se metiam-se em um papel deviam fazê-lo até as últimas consequências. Recordou ter lido que alguns membros da KGB, quando destinavam-se a uma missão em casais, casavam-se e tinham filhos entre eles para aumentar sua “lenda” e adotar melhor seu papel. Não importava se havia amor ou não. Só importava a missão. Leslie lhe disse em Washington que alguém podia chegar a perder-se como agente. E agora entendia por que. A jovem voltou a sentar no puf, cansada e aniquilada por receber tanta informação. —Quero que saia daqui —disse Cleo olhando a sua irmã com olhos de cordeiro degolado— Saia daqui, Les… Leslie se sentou atrás dela e a abraçou. —O SVR e o FBI estão trabalhando conjuntamente neste caso como algo excepcional —disse sua irmã ao seu ouvido para acalmá-la— Markus informou ao diretor da SVR; e este entrou em contato com a divisão do FBI: o diretor Spur. Já sabem que Markus e eu nos encontramos; e ambos estão coordenando a missão. —O subdiretor Montgomery sabia? —Sim, Cleo. Sabia. Mas não me disse que iam colocá-la nisto. E isso não o perdoarei jamais. —Sacana filho da puta… —grunhiu Cleo. O homem a visitou para lhe pedir que se infiltrasse e utilizou a cartada do desaparecimento de Leslie para que ela aceitasse. E, em realidade, Leslie estava a salvo com o maldito russo. Leslie sorriu e beijou o topo da sua irmã caçula. —Não posso abandonar o caso. Devo ficar com o Markus. Ambos sabemos que os Vilões me desejam; e estamos a ponto de culminar a investigação com a chegada da noite de Walpurgis. Será nosso modo de entrar. E, se chegar ao final, tanto você quanto Lion também poderão participar. Cleo ficou em silêncio e engoliu saliva custosamente. —Sabe o que aconteceu ao Clint? —perguntou. —Sim. Morreu —respondeu Leslie com os olhos fixos em Markus— Os contatos do russo afirmam que uma ama totalmente encapuzada, acompanhada por outro homem encapuzado, encarregaram-se dele assim que eu desapareci. O último que se soube foi que acharam Clint morto por asfixia. —Sua voz se quebrou. —Ah… sinto muito por ele e por você, Leslie. Você está bem? 111


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—Não, Cleo —reconheceu abatida— Clint era meu amigo e o melhor amigo de Lion. Não quero nem imaginar o muito que deve ter sofrido o agente Romano tomando a culpa de tudo só por ser o agente no comando. Mas ele não foi o culpado… São os riscos de estar em uma missão. Consciente, ou inconscientemente, arriscamos nossa vida cada dia, fingindo ser pessoas que não somos —murmurou afundando o nariz no cabelo vermelho de sua irmã. — Senti tantas saudades; pensei tanto em você… Cleo se virou e abraçou Leslie. Precisava chorar pelo medo vivido; pela angústia experimentada ao não saber onde estava sua irmã, se continuava viva ou não… Queria embeberse dela, de seu calor, de seu corpo, de seu amparo. Leslie sempre a tinha protegido; e Cleo também tinha a necessidade de fazê-lo. —Entendido. —secou as lágrimas que tinha derramado de novo— Entendido, Les. Por nossa parte, o FBI colocou câmeras por todas as Ilhas Virgens —explicou— Não conseguiram identificar ainda aos Vilões, nem sequer sabem onde se hospedam… São como fumaça. Desvanecem-se com rapidez. Estão utilizando o sistema de reconhecimento facial para averiguar suas identidades, mas sempre estão mascarados e isso impossibilita o êxito de correspondências com as base de dados. —E, mesmo assim, embora o sistema os reconheça, não lhes assegurará o êxito — respondeu Markus— Pensa que os que trabalham para os Vilões sabem muito bem como anular identidades das redes neurais. Não deixam cabos soltos. —Sabemos —assegurou Cleo— Já sei que, dias depois da aparição dos quatro cadáveres das submissas, acharam-se dois corpos de submissos que ainda continuam sem identificação. Nem mediante o DNA, nem mediante o reconhecimento facial… eliminaram todos seus históricos. São invisíveis. Acha que suas mortes podem estar relacionadas com a suposta ama que levou Clint na noite em que a sequestraram? Leslie, de modo interrogativo, olhou Markus por cima da cabeça de Cleo. —Não sabemos —respondeu Leslie—Os corpos dos dois homens achados tinham guiches na zona perianal. Clint não tinha nenhum. Poderia ser que sim, ou poderia ser que não se tratasse da mesma pessoa. Os três ficaram calados, olhando o chão. Markus passava o doce de um lado ao outro das bochechas. Cleo levantou a cabeça e olhou a sala, estudando todos os detalhes existentes e por existir: cafeteira, televisão, fio musical… —Para que serve este cômodo? —perguntou. —Para eu relaxar depois das domesticações —respondeu direto, sem baixar os olhos, sem ocultar nada de seu particular inferno a Cleo nem a Leslie. Assim tampouco era fácil para ele estar ali… —Ah… O que vai fazer comigo agora? —perguntou ao Markus. —Vou prepará-la para te devolver a seu amo esta mesma noite. Tenho uma performance grupal com minhas submissas. É óbvio que os Vilões observarão o espetáculo. Lady Nala poderá participar e eu assegurarei que é uma autêntica delícia diante de todos os presentes. Jogará um momento comigo. 112


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—Depende do que queira que faça… —o desafiou Cleo. Além disso, veria o que ia dizer… Não queria que Lion pensasse que ela se deixou submeter por ele nem que a tocou— Tenho um edgeplay e há coisas que não penso em fazer. Além disso, não quero que Lion… —se ruborizou e trocou de assunto rapidamente—Leslie também vai assistir? —A noite anterior não o fez. —Markus se separou da mesa em que estava reclinado e se plantou diante dela— Não quis expor a agente Leslie; mas temo que esta noite sim o fará. As submissas vão todas com o rosto coberto e perdem sua identidade por completo, ninguém sabe quem são. Só veem seus olhos e o nariz, para que possam respirar. Leslie virá comigo e será minha mascote pessoal, ninguém a poderá tocar. Além disso, os Vilões querem ver como se comporta. Enquanto isso, as demais submissas farão as delícias dos participantes. —E eu o que farei? Markus elevou o canto de seu lábio e sorriu como um demônio. —Deixará a todos com a boca aberta. Leslie acabou de vestir a sua irmã com uma vestimenta de mulher pirata. A festa privada que essa noite aconteceria na Prancha do Mar era uma festa temática de piratas; e todos deviam ir com a indumentária pertinente. Les colocou nela o incrível chapéu pirata negro com rendas e laços vermelhos. Seu vestido negro e vermelho era muito curto e mostrava a coxa inteira; era meio formal e tinha mangas longas e bufantes, de ombros descobertos, com renda também por debaixo da saia e duas tranças de seda vermelha que cruzavam verticalmente o espartilho de couro negro que elevava seus seios; usava meias de rede longas e umas botas de salto, negras, com plataforma. —Lady Nala… Está espetacular —assegurou Leslie. Cleo sorriu para sua irmã através do espelho, observando como lhe penteava o cabelo e arrumava os pequenos cachos que fez nela. Mas não era uma situação normal. Ambas eram conscientes da responsabilidade que tinham entre as mãos e de como deviam atuar. Oxalá estivessem em alguma das lojas de Nova Orleans, indo às compras como sempre tinham feito. Mas aquilo não era nada lúdico nem ocioso. Vidas estavam em jogo. —Les? —Sim? —respondeu olhando-a nos olhos verdes. —Sentiu-se suja em algum momento? Refiro-me… Me refiro a se introduzir neste tipo de mundo e fazer tudo o que faz por obrigação mais que por desejo. Leslie deu de ombros e continuou arrumando seu cabelo. —Não me sinto suja, Cleo. Tento aguentar e desfrutar do que faço. Diverti-me muito bem aprendendo. Ao princípio, é verdade que tudo me chocou em excesso. BDSM? Isso era como algo obsceno e pecaminoso para mim. —E para mim. —Mas logo, entende o que é… Sabe por que o faz… E, às vezes, inclusive em situações extremas, pode chegar a encontrar a si mesma e averiguar coisas sobre seus desejos, coisas que jamais teria adivinhado. Eu gosto de açoitar? Eu gosto de dominar? Talvez sim; não sei. Escolhi ser ama porque odeio estar nas mãos de outras pessoas, isso deixei claro. 113


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—Sempre foi muito autossuficiente e controladora. —Sim. E por isso escolhi entrar como dominante. Mas ao cair nas mãos do Markus… Me perguntei alguma vez: eu gostaria que me dominassem? Cleo piscou e abriu os olhos com surpresa. —Ele não te fez nada ainda, verdade? —Não. Faz que esteja presente em suas domesticações para que veja o que é e o que pede às submissas. Mas a mim —baixou o olhar—, não me toca. Sou uma agente do FBI, não uma de suas mulheres. —Ah… e… isso… você não gosta? —perguntou intrigada. —Não, não… Claro que me parece bem. —Não fez cara de que acha bem. —Estamos em uma missão, e não deve me importar outra coisa —protestou com insegurança. —Por Deus… —Cleo se assombrou— Você gosta do moicano? A… interessa? —É óbvio que não! —replicou obtusa. —Gosta do moicano, gosta do moicano —cantarolou baixinho. —Cale-se. A ruiva sorriu e viu em sua irmã a mesma atitude que ela tomava quando negava seus sentimentos por Lion. Seria verdade? Leslie sentia algo pelo russo? Estava vestida com o mesmo traje tipo macacão de corpo inteiro que Markus a vestiu anteriormente. Merda, tinha o cabelo liso e negro azulado muito brilhante e, os olhos prateados, levemente puxados pintados com o Kajal negro. O look de Trinity de Matrix. —O seu seria digno de uma história de livro romântico. Um agente da SVR, o antigo KGB, apaixona-se por uma agente do FBI… — abriu os olhos e piscou repetidas vezes— Oh, grande dramalhão. —Corta o papo, agente —murmurou desaprovando-a— Você, como se sente com o Lion? —Eu tampouco me sinto suja —comentou Cleo resolvida, observando como tinha os seios altos. Leslie estalou a língua e levantou uma sobrancelha negra, do mesmo modo que sua irmã caçula o fazia. —Eu tampouco me sentiria suja se o homem de quem sempre estive apaixonada me fizesse todo tipo de sacanagens inclementes. Cleo abriu a boca precipitadamente, disposta a negar com veemência tal afirmação. Mas, por que ia fazer isso se era verdade? —Sabia? —Soube desde o momento em que pegou o coelhinho que nunca se desapegava, e que nem sequer me deixava tocar, e o deu a ele, sem hesitar, para que deixasse de chorar pela morte de seu avô. A que sempre pareceu não saber o que lhe acontecia foi você… Pega. Que vergonha. —Sim —suspirou abatida—; a verdade é que foi todo um choque para mim ao descobrir. 114


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—Cleo —pôs suas mãos sobre seus ombros nus e deu um leve puxão em seu chapéu de corsária. —Tem que ter muito cuidado. —Já o faço! Não vou me encher de ilusões a respeito de nada. Isto é somente uma missão. —Não, não me refiro somente a você… Para que Lion tenha tomado a decisão de ser seu tutor no caso e realizar sua domesticação, quer dizer que leva muito a sério, embora não lhe pareça isso. Você tem que tomar cuidado, mas ele também. Não podem se machucar. Lion não é de pedra, tampouco. —Acha que ele… ? —Deus, Leslie acreditava que Lion estava apaixonado por ela? Bom, ele tinha reconhecido que se preocupava e que sentia coisas… Mas, isso queria dizer que a amava? Não… Não podia ser. Ou sim?— Não pode ser. Lion está acostumado a outras práticas, a outras mulheres; e eu não acredito ser o que ele necessita. —Só um amo sabe o que necessita seu coração. E tenho a sensação de que Lion sempre soube. É óbvio que estão aqui na qualidade de agentes, mas… Não deixam de ser um homem e uma mulher que fazem sexo; além disso, compartilham um passado comum. Onde está a linha entre jogo e realidade? Entre dever e necessidade? Isso, só vocês saberão. —E é seu coração de mulher submissa ou o de mulher ama o que fala? Leslie piscou um olho para ela através do espelho. —Isso, irmãzinha, só eu sei. —Harpia. —Certo. Está preparada? Sabe o que tem que fazer? —Sim. É óbvio que sim. —Lion estará te esperando. Assim que descer do cenário, deve se reunir com ele em algum lugar privado e lhe explicar tudo o que sabe, de acordo? Em realidade, todos sabemos mais ou menos o mesmo. Estamos pendentes da aparição dos Vilões mas, desta vez, eu atuarei com Markus. Não podemos pisar no terreno do outro. O SVR é uma agência diferente do FBI. Atuaremos como se não soubéssemos de nada. Recorda: seu caso é Amos e Masmorras. O meu tem a ver agora com a organização russa que comercializa com mulheres e homens e os vendem a outros países. Ambos os casos confluem em um mesmo lugar; isso é tudo. —De acordo. —Bem, neném. Está preparada? —beijou-a na bochecha e levantou o queixo dela. —Nasci pronta. —Então, à abordagem.

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CAPÍTULO 10 “Não importa quão grandes sejam as lágrimas de uma submissa; será amada e venerada por como as deixa cair”. Prancha do Mar Saint John O maldito tapa-olho picava e pressionava muito seu olho. A roupa de pirata era agradável, mas Lion não se sentia cômodo absolutamente. A Prancha do Mar era um restaurante muito espaçoso e requintado, localizava-se no interior da ilha. Tinham disposto várias mesas de costa a costa da enorme sala e todo cenário estava com decorações de pirata. As luzes azuis simulavam o interior do mar e tingiam as peles dos presentes dessa cor celeste. Os participantes, todos vestidos de piratas, bananeiros e donzelas, desfrutavam caracterizados tal e como estavam, com suas máscaras douradas, negras, vermelhas, brancas… e tapa-olhos de todas as formas e de todas as cores. Uma noite de máscaras piratas. Alguns inclusive brincavam com suas espadas falsas, fingindo que eram temerários corsários. Lion tinha passado uma tarde horrível: pensando em Cleo constantemente e temendo que Markus lhe fizesse coisas que ela não estava disposta a aceitar. O amo poderia dar-se conta do pouco familiarizada que estava sua companheira com o BDSM e poderia suspeitar sobre sua verdadeira identidade. No mínimo, não entenderia o que fazia uma mulher como Cleo em um torneio de praticantes avançados de dominação e submissão. Foi ao banheiro masculino do restaurante para molhar o rosto e secar o suor. E se Markus a machucou? E se a tinha submetido? Para cúmulo, não havia sinal audiovisual da câmera de seu colar de submissa, nem tampouco áudio dos micros. Era como se estivesse em paradeiro desconhecido e a terra a engoliu. Nick, com uma impecável camisa branca, um chapéu de corsário com elegantes plumas brancas e calças negras com botas, entrou no banheiro e se dirigiu para lavar as mãos, posicionando-se justo ao lado de Lion. —King. —Tigrão. —O calor é insuportável, verdade? —Sim, é. E ainda mais vestidos assim. Lion tinha o olhar azul cravado no espelho, olhando seu próprio reflexo, úmido e gotejante pela água. —Tudo bem? —perguntou Nick, através do espelho, fazendo referência à missão. 116


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—Sim. Falta pouco para a final, verdade? Não puderam falar ainda. Thelma tinha ocupado Nick; embora esperava que essa noite, de madrugada, pudessem ficar no hotel ou nos cantos para dialogar longo ou apressadamente sobre os avanços de Amos e Masmorras. Nick parecia cansado e preocupado por algo. Lion fazia tempo que não via seu amigo tão melancólico. A última vez que o viu assim foi um ano atrás, quando sofreu todo aquele rocambolesco incidente. Assunto que, por certo, nunca voltou a levantar com ele, pois compreendia que Nick continuava violentado pelas lembranças. —Posso te fazer uma pergunta indiscreta, Tigrão? —Me fará do mesmo jeito. —Bem visto. Por que eliminou Sophiestication? Por que essa necessidade de jogar em casal com Thelma? Tanto o incomodava a outra submissa? Os olhos ambarinos de Nick desafiaram ao agente Romano através do espelho. —O fato, feito está. Sou muito ciumento com minhas amas e necessito que me deem toda a atenção. Não deve haver distrações e eu gosto de monopolizar. Lion entrecerrou o olhar e, embora estava longe de dar essa resposta como boa, decidiu não o incomodar mais. “Não deve haver distrações”, curiosa resposta. —Sabe algo de Lady Nala? —perguntou o submisso loiro. —Só que Markus a trará de novo à Prancha do Mar. —Acha que jogou com ela? —Espero que não; ou me zangarei muito —ameaçou entre dentes. —É uma possibilidade. Prepare-se para qualquer coisa. —Como o que? Nick secou o rosto com uma toalha de papel do dispensador e se virou para sair do banheiro. —Sem contrato, sem edgeplay estabelecido como casal e submissa, sem nada de nada… — enumerava enquanto se dirigia à saída— Só a palavra de segurança podia salvar a Nala. Se não a pronunciou em nenhum momento, Markus pôde empurrá-la até lhe fazer o que ele quisesse. Esse amo tem uns apetites insaciáveis. Todo mundo aposta que Lady Nala caiu em suas redes. —Sabe algo dele que eu não sei? —perguntou interessado. Naquela tarde, a equipe da estação o informou sobre os dados pessoais de Markus: nacionalizado nos Estados Unidos, provinha de uma família de Moscou e se dedicava à Bolsa. Em seus momentos livres era amo; e também cobrava por isso. Treinava às submissas para as preparar em jogos coletivos. —Nada importante —confessou Nick— Mas sua reputação o precede. Além disso, isto é Dragões e Masmorras DS, ele se chama Markus e é um Amo do Calabouço —levantou a mão e se despediu dele—; se isso não o acovarda, então não sei o que o fará. Não precisa saber nada mais para compreender que é capaz de tudo. O esperamos em nossa mesa. Vão trazer a comida e tenho fome. Lion assentiu e acabou de secar o rosto. Atirou a toalha de papel ao lixo, seguiu Nick e acrescentou: —Ok… Mas eu também sou capaz de tudo —murmurou em voz baixa. 117


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Quando chegaram a sua mesa, Lion ficou estático ao encontrar-se com alguém com quem não esperava encontrar essa mesma noite. Mistress Pain o estava saudando coquetamente, vestida de donzela e olhando-o faminta. —Pain? —Lion se sentou a seu lado, incômodo com sua presença. Quando Cleo a eliminou não puderam se despedir e sua saída do torneio foi muito rápida e pouco cerimoniosa— O que faz aqui? Claudia deu de ombros e o segurou pelo braço, colando seus voluptuosos seios a seus bíceps. O vestido que usava, branco e vermelho, não era nada recatado; e os mamilos estavam a ponto de sair do espartilho. Seus olhos negros o devoravam. —Bom, sou uma importante mistress, King. Não recorda? —É óbvio que sim, mistress. —Talvez não possa jogar no torneio pelas manipulações dessa harpia de cabelo vermelho que tem como companheira; mas os organizadores querem que continue participando dos eventos extraoficiais do jogo. Sou uma atração para o torneio; mais ou menos como pode ser Sharon. Lion sorriu com frieza. Ninguém se comparava com a Sharon; e Claudia estava muito longe de alcançá-la, por muitas razões que ele não ia assinalar. Thelma revirou os olhos e Nick aproveitou para beber de sua taça de vinho tinto; todos pensavam igual. —E onde está ela? —perguntou Claudia passando a mão pela nuca morena dele, esfregando o cabelo espetado que nascia curto e com força. —Roubaram-lhes os objetos; e Markus, o Amo do Calabouço, reclamou-a para ele —explicou Thelma, que usava um disfarce de pirata e dois coques loiros no alto da cabeça. Ela preferia o estilo mais masculino, e sua máscara tinha lentejoulas brilhantes negras e brancas. —OH. —Claudia estudou a reação de Lion e arqueou uma sobrancelha escura e perfeitamente delineada— A afastou bem rápido de si, não é? — Apoiou a bochecha em seu ombro e se esfregou contra ele como uma gata no cio. —Em realidade, eu me neguei, mas Lady Nala não é nada dócil. —Baixou o olhar para admoestar Claudia. — E, embora o que fez contigo foi escandaloso, são as regras do jogo, Mistress Pain. É uma garota muito competitiva e uma boa jogadora —estava desculpando-a. Claudia levantou uma taça despreocupada e exclamou: —Então, por Lady Nala! E por Markus. —Olhou Lion de soslaio— Se acha que Lady Nala saiu intacta de sua estadia com ele, está muito equivocado, amigo. Markus se atira a tudo o que se move. Lion não brindou; diferente de Thelma e Nick, que sim o fizeram. O agente Romano estava cada vez mais convencido de que Nick tentava embebedar-se para esquecer e não pensar. Em outra mesa mais afastada, as Criaturas começavam a animar a festa.

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Prince, por sua parte, não deixou de olhar Lion. O amo, vestido todo de negro, com o cabelo recolhido para trás, levantou sua taça e sorriu como se soubesse o calvário que estava passando, desfrutando disso. Em outra, Sharon e seus acólitas aranhas, todas amas, bebiam e brindavam pelo que a noite lhes proporcionasse. Mais ao fundo da sala se montou uma espécie de passarela, certamente para algum espetáculo; e como a sala era muito grande, as mesas se dispuseram ao redor do gradil. E, mesmo assim, havia muito espaço para mover-se. Em um lugar como aquele, todo mundo queria devorar a todo mundo de algum modo. A competitividade se expunha em máxima potência; a honra e o orgulho eram uma enorme jogada que utiliza, mas se além disso, existiam velhas rixas, então o torneio se convertia em realidade em um maravilhoso, sexy, sensual e sádico campo de batalha. Lion encheu a taça de vinho e a bebeu toda de um gole. Porra, tinha uma grande habilidade para conquistar inimigos. Depois do jantar, as pessoas estavam muito mais animadas graças aos efeitos de uma boa comida a base de todo tipo de vegetais, frutos do mar na chapa e o rum cajun Spice, que não deixou de correr por todas as mesas. Lion observou a garrafa e leu a inscrição do rótulo. Era um rum que só tinha visto em Nova Orleans; mas, aparentemente, também o comercializavam nas Ilhas Virgens, certamente porque era a bebida dos piratas e as ilhas foram frequentadas e conquistadas por eles. Os garçons retiraram as mesas e pouco a pouco deixaram a sala vazia, à exceção do balcão de coquetel aberta e disponível para todos. Olhou seu relógio: já era doze da noite. Quando se supunha que iam trazer Cleo para ele? Deu outro gole ao rum e esperou que a bebida de Orleans apagasse as chamas de sua ansiedade. Então, a passarela se iluminou com os focos. A música trovejou através dos alto-falantes; e a festa, a verdadeira festa do ambiente, começou. Todos aclamaram e elevaram suas espadas. Naquele momento, apareceu Cleo, vestida a cavalo entre pirata e libertina, com seu chapéu negro de lacinhos e plumas vermelhas e seu vestido extra curto com cós negros. As botas de plataforma com salto a faziam parecer mais alta do que em realidade era. A jovem ficou quieta em meio da passarela, permitindo que o foco a iluminasse bem; embora mantivesse a cabeça inclinada e seus olhos verdes ocultos atrás de uma máscara negra, coberta pela aba do chapéu. A letra de Masquerade do BSB acompanhava sua performance. Lion abriu os olhos ao vê-la, petrificado, com a garrafa de rum a meio caminho de sua boca. Seus pés, envoltos nas botas tomaram vida própria e se aproximaram da passarela. Queria recolhê-la e tirá-la daí, assegurar-se de que estava bem, de que Markus não se aproveitou dela. This seems so hypnotic, smoke and mirrors, lights and magic — Isto parece tão hipnótico, fumaça e espelhos, luzes e magia. Paper faces in gold — Máscaras douradas. 119


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There’s soldiers boy, beauty Queens, everyone’s a mystery —Há soldados, formosas rainhas, todos são um mistério. It’s got me losing control — Me faz perder o controle. Cleo atraiu à multidão como traças à luz. A jovem tinha uma corda entre as mãos e empreendeu a marcha pela passarela, movendo os quadris ao ritmo balançante da música. À medida que caminhava, as submissas, que estavam atadas por seus colares à corda que ela segurava, foram aparecendo em cena, apoiadas sobre mãos e joelhos, com seus trajes de látex e suas cabeças todas cobertas com as máscaras, como se Cleo estivesse expondo-as em um torneio de beleza canina. Era ela quem as mostrava à multidão. E não se sentia excessivamente bem com isso, pois sabia no que estavam colocadas; que as drogavam para estar ali e que as domavam. Mas, por outra parte, conhecia que estavam sob a domesticação de um membro da SVR, e que ele não permitiria que lhes fizessem mal. Não obstante, Markus devia manter seu papel até o final; como ela, como Lion, como Leslie e Nick… Lion. Infiltrar-se supunha envolver-se, comprometer-se. Fingir que era quem não era. Embora, às vezes, nem as pessoas mesmo sabiam quem era em realidade. Onde estava Lion? Cleo levantou a aba do chapéu e procurou entre a multidão de piratas, para ver se encontrava o alto agente do FBI. Nesse momento, Markus se colou às suas costas e pôs as mãos na sua cintura, balançandose com ela ao mesmo ritmo, de um lado ao outro, movendo o quadril. It’ s a masquerade, a love parade — É um baile de máscaras, uma fachada do amor. So won’t you stay and dance with me? - Não fica dançando comigo? All through the night and day — Durante a noite e o dia. My masquerade, I need you, baby — Minha mascarada, preciso de você, querida. So stay with me tonight — Assim fica comigo esta noite. O corsário Markus, sem camisa, com seu topete moicano e um tapa olho em um de seus olhos ametista era, se não um pirata, um mafioso punk ardente e conquistador que fazia as delícias de todas as fêmeas com seu porte altivo e ao mesmo tempo malicioso. Os convidados aplaudiram e assobiaram, pedindo mais de seu particular espetáculo, desejando que cruzassem essa linha entre o decente e o que definitivamente se tornava perverso e sexual. Lion consumiu a garrafa de rum, imóvel e perturbado pelo espetáculo que estavam dando Cleo e Markus. Em realidade, não faziam nada, mas faziam tudo. Sua maneira de mover-se, de tocar-se, de sorrir e provocar… O modo que tinha Cleo de olhar, tão sensual. E, além disso, não soltou a correia das submissas; agora, todas caminhavam em círculo ao redor deles. Markus se esfregou contra suas nádegas e levantou as mãos de Cleo para que rodeasse seu pescoço e se pendurasse dele. Burning, I’m burning, can’t you see it in my eyes - Ardendo, estou ardendo. Não pode ver em meus olhos? Wanna play in this game of disguise — Quero participar deste jogo de disfarces. 120


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Claudia se colocou detrás de Lion e se elevou nas pontas dos pés para lhe murmurar ao ouvido: —E duvida de que não transaram? —pôs-se a rir— Olhe que cara tem ela. E como ele a olha. Estes dois fizeram uma comemoração às suas costas. Cheiram a sexo. De fato, disseram-me que viram Markus, em sua casa de Peter Bay, fodendo com uma mulher de cabelo vermelho em pleno alpendre. Lion apertou os dentes, tentando não fazer caso das palavras venenosas da Ama Switch. —Mente. —Por que teria que fazê-lo? —Porque está zangada com ela. —É verdade; eu não gostei do que me fez. Mas, vai deixar que riam de você, King? — continuou Claudia— O estão provocando. Todos já viram como perdeu a partida esta manhã; e agora está te envergonhando… E olhe o que tenho para te demonstrar que não minto. —Claudia mostrou o iPhone. Havia uma fotografia de uma garota de pernas abertas com o rosto levantado para o céu e o cabelo vermelho caindo pelas costas. Não podia identificar seu rosto mas, atrás dela, havia um cara com um moicano como o de Markus que tinha o rosto meio oculto atrás do pescoço da mulher e uma mão meio afundada entre suas pernas abertas e nuas. Um músculo descontrolado palpitou na mandíbula de Romano que olhou para Claudia com estupefação. —Disse que não mentia —repetiu ama. Cleo e Markus continuavam dançando e, então, o russo a virou e a prendeu entre seus braços para afundar o rosto entre seu pescoço e quase parte de seu decote. Lion não podia suportar isso. Cleo poderia interpretar um papel, mas Claudia tinha razão. Parecia mais descansada, mais segura de si mesmo, mais… tranquila. A que era devido? Seria verdade o rumor de Claudia? E essa foto? Markus tinha uma casa em Peter Bay? Que diabos tinham feito? A imagem era imprecisa, não se via completamente bem. O que tinha feito Markus com ela? Não se supunha que Cleo devia permanecer quieta como um móvel? Por que dançava com ele? Embora ter permanecido quieta em sua casa tampouco impediria o amo fodê-la se assim o quisesse. Merda, que sacanagem. Prince subiu ao palco, assim de repente. “Éramos poucos… Isso sim que não”, pensou Lion. Cleo ficou tensa quando sentiu outras mãos em seus quadris. Olhou por cima do ombro, para ver quem se uniu a dança, pensando que era Lion que tinha ido procurá-la, e se encontrou com o atraente rosto escuro de Prince. O homem se colou às suas costas e fizeram um sanduíche com ela ao mesmo tempo que lhe oferecia uma garrafa de rum cajun Spice. “Bom, bem. Bebamos um pouco”, pensou Cleo para não fugir atemorizada com esses dois homens cheios de testosterona. Lion apertou os punhos, roendo-se por dentro a cada volta e cada meneio que davam os três, colados perna com perna, quadril com quadril. 121


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—Que comece a festa! —exclamou Sharon sobre a mesa, movendo os quadris e elevando os braços por cima de sua cabeça, agitando o cabelo loiro e animando a todos os presentes a dançar e a olhá-la. Como não. A alguns não interessava a dança, só queriam desencadear às submissas e começar a jogar com elas e a praticar. A outros só gostavam de olhar Sharon. Mas a grande maioria começou a dançar sob sua ordem. Ocuparam a passarela e toda a sala, balançando uns com mais psicomotricidade que outros, mas movendo-se e dançando, ao fim e ao cabo. Cleo estava se divertindo: gostava de dançar e os dois homens o faziam muito bem, mas, em realidade, só queria dançar com um. Buscou-o entre gorros, chapéus, tapa-olhos e máscaras… Procurou o leão, ao Rei da selva. E, de repente, viu-o, com o cabelo arrepiado, mostrando as presas. E o acompanhava alguém que ela mesma tinha eliminado: Mistress Pain. Lion, consciente de que Cleo o olhava por cima do ombro de Markus, tomou Claudia pela mão e a aproximou de seu corpo para dançar com ela. Cleo não soube como encaixar o que via. Eliminou Claudia, ela a tinha eliminado da competição, que fazia ali se esfregando em Lion? Claudia não demorou nem dois segundos em rodear seu pescoço com os braços e lhe plantar um grande beijo em toda sua boca. Cleo abriu a boca, confusa e alterada por ver que Lion nem sequer se afastava, o cretino. Ela estava em meio de uma performance para o torneio, é que acaso não sabia? O que estava fazendo com a Claudia? Por que se deixava tocar por ela? Não é que tivesse que permiti-lo porque ele não estava obrigado a comportar-se nem a manter as aparências; pelo contrário, ela, sim. —Beba e dance, Nala. Não o olhe tanto —disse Prince com suavidade. Cleo assentiu, afetada, e bebeu a garrafa de rum de repente, sem deter-se e tudo isso movendo-se ao ritmo da música. Lion olhou Prince, lançando-lhe adagas azuis com os olhos. Prince se colou mais a ela; e Cleo soube que a esse jogo de desafios e estudo de campo podiam jogar todos. Não se tratava disso? De ultrapassar os limites? Mesmo assim, Lion prometeu a ela, e tinha assegurado, que era um amo que não compartilhava. Por que não subia ao cenário e a tirava dali, embora fosse arrastada? Por que não demonstrava que se importava com ela? Em vez de estar alegre por vê-la, comportava-se como se não se importasse nem um pouco. Lion bateu nas nádegas de Claudia e lhe colocou a língua na boca. Cleo não podia afastar o olhar dele. O agente estava provocando de algum modo; mas estava levando o jogo muito longe, porque enquanto beijava Claudia, olhava-a como que dizendo: “olhe, vê que bem estou?”.

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Cleo fechou os olhos para suportar a incrível amargura que a varreu de dentro para fora, como uma supernova. Apoiou a cabeça no peito de Prince, um pouco enjoada por beber toda a garrafa de rum quase de repente. Olhou Lion através da máscara enquanto Prince beijava sua bochecha e deslizava os lábios através de seu pescoço. Markus estudou Cleo e viu que se comportava de maneira mais desinibida. Os Vilões olhariam aquela festa televisionada, o local tinha câmeras. Cleo estava se comportando como devia: sem medos, chamando a atenção. Mas o fazia porque queria que seu amo fosse até ela; e o cara estava se refestelando com Mistress Pain e ignorava a sua verdadeira companheira. Isso não era bom para a missão. Ali havia muita tensão. Markus a beijou no canto do lábio enquanto Prince o fazia no ombro, movendo-a ao mesmo ritmo, balançando-a como ondas à deriva. A música se deslizou sob a pele de Cleo, ácida, cheia de palavras repletas de verdade. A sala transbordava de desejo, ao menos por sua parte. Com a vontade que tinha de retornar para Lion… E o homem não fazia outra coisa que comer os lábios de Claudia. Mas, por que? O que pretendia com isso? O queria; desejava ser ela a dançar com ele. Lion se movia em excesso, o condenado. Sharon sabia; Claudia, também. A que não tinha nem ideia de como dançava era ela. “É uma noite de máscaras, uma parada do amor. Não vai ficar para dançar comigo?”, cantarolava Cleo mentalmente com o olhar fixo em Lion. Naquele momento chegou Sharon e se uniu à dança de Claudia e Lion. “Perfeito, outro trio mais”, pensou a jovem, amargamente. Por que a loira se metia sempre no meio? Não podia ficar quietinha? Mas Sharon não olhava Lion enquanto o tocava e ficava nas pontas dos pés para lamber seu pescoço. Sharon, com seu vestido de donzela cor violeta e sua máscara negra, só tinha olhos para… Cleo elevou os olhos por cima do ombro e se encontrou com Prince, que olhava de igual modo para Sharon. “Mas o que está acontecendo aqui? Estamos usando uns aos outros?”, pensou confusa. Era como um duelo entre a Rainha das Aranhas e o Príncipe das trevas. Prince deslizou a mão, pouco a pouco, por seu estômago. Sharon fez o mesmo com o Lion, mas para baixo… Lion deixou de beijar Claudia e admirou Sharon por cima do ombro. —Sharon? —perguntou surpreso. Cleo e Prince, que olhavam os movimentos do outro trio, ficaram tensos ao mesmo tempo sobre a passarela. “Não se atreverá a…”, pensaram os dois de uma vez. A mão de Prince, que estava decidido a provocar uma briga, posou à altura de seio esquerdo de Cleo, que ficou tensa ao contato. Justo no mesmo momento, Sharon tocava toda a virilha de Lion. Todos sabiam o que estavam fazendo.

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Cleo pensou que ou se detinha, ou o que acontecesse essa noite não ia ter volta atrás. Ela não queria deitar-se com Prince, nem com Markus. Não queria estar com eles. Seu corpo era dele; e só Lion podia cuidar dela. Não ia sentir-se cômoda com ninguém mais. Lion permanecia quieto enquanto Claudia sorria a Sharon e ao mesmo tempo mordia levemente o pescoço de Lion; enquanto isso, a loira esfregava sua ereção entre seus dedos. As duas amas olharam Cleo com malícia. E a jovem não o suportou. Não estava acostumada a esses jogos; e não queria chegar mais longe. As pessoas eram livres de fazer o que quisessem; de deitar-se com quem lhe desse a vontade, de fazê-lo de uma vez com vinte pessoas diferentes se isso as agradava e se sentiam bem fazendo-o; mas duvidava de, se ela o fazia também, poder levantar-se satisfeita consigo mesma ao dia seguinte. Por essa mesma razão, afastou Markus, que pressionava sua virilha com sua coxa, e retirou as mãos de Prince de seu corpo. Com rosto desafiante e enojada pela situação, levantou o chapéu e saudou Lion com desprezo. “Que aprecie, imbecil. Eu me retiro”. Lion a saudou por sua vez, desinteressado. Pegou Claudia pela mão, tomando a de Sharon também, e perguntou à Rainha: —Vem? —Com você, King? Aonde? —perguntou surpreendida, mas também sem perder sua típica sedução. Lion não respondeu. Somente a olhou fixamente, imobilizando-a com seus olhos azuis consumidos pela raiva e o ciúmes. Tinha que explicar-lhe. Não. Não precisava de detalhes… A loira jogou uma olhada à passarela. Prince bebia rum e levantava a garrafa, saudando-a com gesto desinteressado. Sharon piscou e, sorrindo friamente, tomou a mão que Lion lhe oferecia, para sair da festa com ele e Mistress Pain. Cleo, desolada e um pouco aturdida pelo álcool, desceu da passarela com os olhos verdes cheios de lágrimas; pegou outra garrafa de rum do balcão e saiu a tropicões do local, escutando as últimas palavras da canção. Baile de máscaras. Baile de Máscaras. Lion saiu com duas mulheres… Com duas inimizades: Sharon e Claudia. E não era tão estúpida para não saber o que iam fazer os três juntos… E não tinha nada que ver com jogar Twister. Iam se tocar, iam se beijar… E ele o permitiria. Assim fortes eram as coisas que sentia Lion por ela. Quer dizer: uma merda. Cleo tirou o chapéu, com a garganta dolorida pelas lágrimas sem derramar, e cruzou o salão até chegar ao terraço. —Ar, ar… Preciso respirar. —O rum estava delicioso; tinha esse gosto picante e cajun que a transportava e a fazia viajar até Nova Orleans. Mas começava a ter uns efeitos muito estranhos em… sua pele e lábios formigavam, o baixo ventre ardia— Que estranho… —murmurou levando a mão à barriga. 124


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Saint John vivia alheio à festa de piratas do Prancha do Mar. Ao longe, os navios iam e vinham, e a música caribenha voava da praia até o balcão. Apoiou-se no corrimão de madeira e fez caso omisso dos casais que estavam fazendo-se carinhos nos cantos do caramanchão. Afastou sua máscara para colocá-la como um diadema que segurava seu cabelo vermelho, e sorveu suas lágrimas. —Estúpida. Imbecil — dizia a si mesma sem deixar de beber da garrafa — O que acreditava que ia acontecer? —sussurrou com o coração encolhido. Se tinha alguma dúvida do que sentia por Lion, essa mesma noite se apagou rapidamente. Estava apaixonada por ele: amava-o. E não tolerava a ideia de que outras mulheres pudessem o tocar. Se já ficava doente ao pensar nas mulheres que ele teve sob seus cuidados no passado… Vê-lo ao vivo, beijando a outras e desfrutando de seus toques descarados, tinha-a destroçado. E o grande porco o estava fazendo de propósito, como se a castigasse por algo. Por que? Por dançar com Markus? O que pensava que tinha feito com ele? Lion estaria atuando por despeito ou porque em realidade era assim frio e sem escrúpulos? Além disso, saiu com duas mulheres; e o fez diante de todos, deixando-a em ridículo. Quem ia acreditar que era tão boa em suas práticas se Lion a abandonava por outras? No interior do restaurante, Cleo era muito consciente de que Markus estava jogando com Leslie, e a tinha de barriga para baixo sobre seus joelhos. Ia fazer um bom spanking nela. —Disse que a machucaria. Já conhecia aquela voz educada e meio aristocrata. Era a do Prince. —Disse que não tem respeito por nada nem por ninguém —a recordou o belo amo. —É estranho que se deem tão mal tendo sido tão bons amigos antes —murmurou Cleo secando as lágrimas dissimuladamente— King tem uma má impressão de você também. —Sim. Ele nega tudo. E certamente hoje também negará que está fazendo um trio com Mistress Pain e Sha… A Rainha das Aranhas. E você acreditará nele? Cleo deu de ombros. No que ela ia acreditar? Não acreditava em nada, nem em ninguém. Pensava que podia confiar em Lion, em suas palavras, no que aconteceu na noite anterior… Mas não era assim. Passou os dedos pela tatuagem da peça de quebra-cabeça. Estava cicatrizando muito bem e já não tinha o plástico, mas requeria outra limpeza e mais creme cicatrizante. —O que Mistress Pain faz aqui? Eliminei-a. —Aparentemente, a organização e os Vilões pediram que ela participe dos jantares e dos eventos extraoficiais do torneio. Gostam dela. Claudia é uma atração para eles. —Claudia é uma harpia ególatra e fria; e não entendo como Lion pôde agarrá-la e sair com ela… —Lion gosta assim. —Prince se apoiou no corrimão até que se tocaram ombro com ombro— Por isso você não se dá nada bem com ele. Cleo sorriu com amargura. —Tampouco me dou bem com você. É um Amo Criatura. —Só é um papel. —Prince se girou para olhá-la nos olhos. Retirou-lhe uma mecha de cabelo vermelho e a acariciou com suavidade— Não sou tão mau. 125


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Cleo olhou sua mão, assombrada. Prince não estava brincando. A lua iluminava suas feições cinzeladas; seus olhos negros clamavam por um pouco de carinho e de amor correspondido. Sua imagem, tudo o que ele desprendia, era arrebatadora; e certamente que haveria milhares de mulheres dispostas a entregar-se a ele. Milhares de mulheres livres. Mas Cleo não podia lhe oferecer isso. E menos quando sabia que o príncipe o fazia por vingança: porque queria devolver o que quer que fosse que Lion fez com ele anos atrás. Nunca se prestaria a jogar assim sujo. Ela queria Lion. Observou a chave em forma de trisquel que o príncipe tinha tatuada no interior do pulso. E isso recordou a outra tatuagem, com uma simbologia parecida, que tinha visto no pulso da Rainha das Aranhas. Olhou Prince nos olhos; e depois estudou de novo a tatuagem. Aquelas eram marcas simbólicas de companheiros. Sharon tinha um cadeado em forma de coração e Prince tinha uma chave. Oh, espere. Seria possível que… ? Abriu os olhos e levou a mão aos lábios, estupefata. —É Sharon. Prince apertou os lábios e deu um passo atrás, afastando-se da conversa e das lembranças. Dispôs-se a deixá-la sozinha. —Boa noite, Lady Nala. —Não, espera. —Cleo o puxou pelo cotovelo e impediu que se fosse— Espera, Prince. É ela, verdade? —Do que fala? —replicou muito seco. —A mulher que o tem amargurado. A mulher que acha que o traiu. É Sharon. Prince riu sem vontade. —Não acredito. Sei que foi assim. —Abriu os braços exasperado— Com quem Sharon se foi esta noite? Cleo abriu e fechou a boca como um peixe. —Não tem argumentos para assinalar o contrário —acrescentou ele— E não é a primeira vez que fazem sexo. —King tem outra opinião a respeito desse dia. Diz que olhou, mas que não viu. Que seus olhos o fizeram acreditar em algo que não aconteceu. E que se equivocou. Deu um passo à frente e a encurralou contra o corrimão de madeira. —Sei. E King se atreverá a me dizer esta noite que meus olhos imaginaram tudo? Se atreverá a dizer isso a você? Não sei que tipo de relação têm; mas ele veio ao torneio com outra companheira, que não foi você. E depois que você a eliminou, esta noite Lion se foi com essa mesma mulher e com minha… E com a Rainha das Aranhas. Por que acha que fez isso? — perguntou-lhe com aversão. Não sabia. Não sabia por que Lion se comportou assim. Não tinha resposta para isso; exceto pensar que não se importava tanto com ela quanto ela se importava com ele. —Eu… Não sei. Prince suavizou sua expressão, inclinou-se para ela e falou com ternura. 126


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—É uma filhotinha de leoa apaixonada pelo Rei Leão. Mas o rei tem presas, autênticas e afiadas, e as suas são de leite. —erguendo-se de novo, tomou sua mão e a beijou sobre sua recém adquirida tatuagem— Boa noite, princesa. —Não sou uma filhotinha. —O que você disser, preciosa. Cleo lhe deu as costas. Não queria continuar falando com ele. Não queria continuar ali. Só queria ir a seu hotel, dormir e esperar que continuasse o torneio. Tinha que ser profissional e explicar a Lion sobre Markus e Leslie. Mas… E se fosse ao quarto de hotel e os encontrava na cama? Só de imaginar a cena lhe produziu acidez de estômago. Se isso acontecia, tinha que comportar-se com naturalidade. Lion não a queria, e ponto. Mas ela tinha muito a dizer; e era muito urgente. —Lady Nala? Cleo se virou e olhou Nick. Deus, tinha vontade de falar com ele; e, além disso, necessitava um quad que a aproximasse do hotel no qual agora se hospedavam. —Olá, Tigrão. —Como se encontra? —perguntou preocupado, bebendo de seu rum e se localizando a seu lado. Os dois contemplavam o horizonte paradisíaco noturno— Ouça, impressão minha ou este rum está… alterado? Não se encontra um pouco… desinibida? —Bom, me encontro um pouco enjoada, acredito… —Mas o ardor entre as pernas e a sensação de que qualquer toque a deixava em alerta estavam ali. —Markus fez algo com você? Transou com ele? Cleo revirou os olhos e negou com a cabeça. Nick sempre tão direto… —Não. —Isso não é o que disse Mistress Pain a Lion. Cleo franziu o cenho e girou o rosto para ele. —Como diz? —Vi como Claudia comia a orelha de King dizendo que a viram em Peter Bay com ele, com Markus, no alpendre de sua casa. —Isso é mentira! Eu não fiz nada disso! —E… —continuou arqueando suas duas sobrancelhas loiras—,mostrou-lhe uma foto onde se supõe que mostrava Markus e você em uma situação muito comprometedora. —Mas como pode ser?! —sussurrou Cleo entre dentes— Markus me teve todo o momento sob privação sensorial. Não via nada e tinha o rosto abafado. Passei por mesa, Tigrão… Só de mesa —Como dizia a ele que descobriu detalhes muito importantes para Amos e Masmorras?— De onde essa puta tirou essa montagem? É uma montagem, Tigrão — assegurou apertando a ponte do nariz— Minha... cabeça dói. Quero ir ao hotel. Leva-me, por favor? Nick procurou Thelma com o olhar. Estava muito entretida jogando com as submissas que Markus e Cleo trouxeram. Se fosse embora, não teria importância; sobretudo tendo em conta a natureza de sua recém estruturada relação. Tomou Cleo pela mão e a tirou da terraço e do restaurante. 127


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Cleo fechou os olhos e permitiu que o vento refrescasse seu rosto. Nick conduzia o quad veículo de dois lugares até o Westin Saint John enquanto ela olhava sua garrafa de rum cajun Spice com crescente curiosidade. Era incrível que esse rum de Nova Orleans chegasse até ali. O pior era ter sabor de quem pertencia sua destilaria. Pensar nisso fez que retornassem o frio e o medo, e o maldito nó no estômago. Mas estava bem. Ela estava bem. E os pais de Billy Bob, proprietários da destilaria Louisiana cajun Rum, que produzia essa bebida tão popular, não tinham a culpa de ter a um filho que era o próprio feto do diabo. Esforçando-se por eliminar o pensamento sobre Billy Bob, concentrou-se em Nick. Cleo não podia explicar ao Nick nada do que aconteceu com Markus, porque os quads dispunham de câmeras que televisionavam tudo para os Vilões; e na Prancha do Mar tampouco podiam falar disso pelo mesmo. Essa noite, os Vilões não compareceram; não obstante, viam tudo. —Por que Mistress Pain fez isso? —perguntou Cleo com a máscara em cima da cabeça, tirando-a com raiva. Enredou-se no cabelo— Além do fato de ser uma víbora, claro. —Porque sabia o que provocaria no King —respondeu— Somente basta ser um pouco observador e dar-se conta de que ele não a olha como às demais, Lady Nala. —Embora em realidade, falava com Cleo— Certamente, sabia que ia ofendê-lo e que provocaria uma reação nele. Como a que justamente provocou. —deu de ombros e girou para a direita— Queria vingarse. Sim: essa podia ser uma excelente razão. Uma que ela queria acreditar. —Ouça… —Cleo o olhou por debaixo de suas pestanas— E se pode saber por que expulsou Louise do torneio? Como eliminou a um membro de sua mesma equipe? —Três é multidão — respondeu Nick. Ela se calou e permaneceu com o olhar fixo na estrada. Sim, é óbvio que três era multidão: Lion, Sharon e Claudia, um espetáculo digno de ver; sem um pingo de coração, mas com muita paixão carnal. Eram como três anjos caídos do sexo. —Estava apaixonado por sua mulher, Nick? —perguntou sem atender às consequências de sua curiosidade. Por que lhe tinha perguntado isso? O loiro apertou o volante com os dedos e desenhou uma fina linha com seus lábios. Aquele não era lugar para falar disso, mas não pôde resistir a responder. —Ainda continuo apaixonado por ela. —Oh… E estando apaixonado por ela, no caso de que continuassem juntos, faria um trio com duas mulheres e nenhuma sendo ela? —Não. Jamais. Ela… Me era mais que suficiente. Esse homem foi profundamente tocado pelo amor e o rechaço que comporta o não ser amado com a mesma força. —Por que já não estão juntos? —Porque às vezes as coisas se rompem por outros motivos que não têm nada a ver com o amor. —Tudo tem a ver com o amor. 128


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—Pois não me serviu de nada amá-la com todo meu coração —respondeu com tristeza— Há coisas que se rompem inesperadamente; e, embora depois queira recompor os pedaços, já não volta a ser o mesmo. —Tentou? —Não me deixou. Cleo levantou o olhar para a noite estrelada e lamentou que esse agente bonito e melancólico tivesse que sofrer por um amor não correspondido. —Por que não te deixou? —Colocou uma ordem de afastamento —respondeu sem lhe dar nenhuma importância. Cleo piscou confusa. Onde tinha ouvido isso antes? Ah, sim. No avião de Nova Orleans a Washington. O que acontecia com as mulheres com as ordens de afastamento? Se não queriam ver seus ex-maridos, que se fossem a outro país! Começava a sentir-se enjoada. Notava o coração batendo superior que o normal e urgia se movimentar. Sair dali, saltar do quad… —Eu acredito que, se ainda há amor —murmurou com um sorriso de auto complacência—, tudo se pode solucionar. —É uma romântica. —Pode ser… E olhe como anda —murmurou soprando e rindo de si mesma. Sofria por amor. Por um homem que, antes de falar com ela, preferia tomar a vingança por sua própria mão. —Já quase estamos —anunciou Nick— Esta ilha é muito pequena. Cleo não tinha visto o complexo hoteleiro ainda. E ficou pasmada ante sua majestosidade. Embora não o desfrutou muito, porque a cena de antes azedou sua noite. A jovem mostrou o bracelete amarelo com os dados biométricos de identidade, e o recepcionista lhe indicou qual era seu quarto. Estava decidida a tirar essas duas mulheres da cama de Lion. Não era tão fria para permanecer impassível quando o homem que amava, que era um completo ceguinho e um idiota, fizesse-lhe isso diante de todos. Nem pensar.

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CAPÍTULO 11 As verdadeiras submissas, têm caráter e se zangam às vezes.

Great Cruz Bay Westin Saint John Lion sabia que havia coisas que ele não podia fazer. Como, por exemplo, fazer com que Claudia e Sharon largassem do seu pé e convidá-las a se retirar para suas próprias suítes. A jovem não tinha saído do seu quarto ainda, continuava sentada na cama, com a Rainha das Aranhas, a quem Lion nunca tinha visto tão irritada. Sharon parecia estar deslocada e sem lugar. Algo estranho para ela. Ainda que Lion soubesse perfeitamente por que ela estava assim, por mais que passasse o tempo ela nunca conseguiria enganá-lo. A verdade era que ele não se sentia nada bem. Tinha a cabeça um pouco perturbada e sentia um leve enjoo que só podia atribuir ao consumo de alguns tipos de drogas. O que o levou a refletir que, no jantar, os organizadores tinham incluído algum tipo de entorpecente nas bebidas ou na comida para que se desinibissem. Enfiou-se correndo no banheiro e coletou uma amostra de sua urina para entregar à equipe da estação base. Estava sentado no vaso, havia pego o celular de Claudia, sem que ela se desse conta, e analisava a imagem que essa pessoa misteriosa havia enviado à Mistress. Já sabia que não era Cleo, por que a jovem tinha uma tatuagem de camaleão no interior de suas coxas, e a garota da imagem estava com as pernas completamente abertas e não tinham nenhuma marca em sua pele branca. E mesmo que ele não gostasse nada da ceninha dela com Prince e Markus, tinha que reconhecer que acreditava na sua inocência, e sabia que ela agia assim pelas exigências do disfarce. O que se passava por Markus na foto se parecia mais com ele, mas as tatuagens, por mais que enganassem, não eram verdadeiras. Assim que não era Markus. Por que? Por que alguém se daria ao trabalho de preparar uma montagem só para desestabilizá-los? E por que havia usado Claudia? Acima de tudo, curiosamente, Claudia havia sido eliminada do torneio, e naquela mesma noite se encontrava Na Prancha do Mar, com todos os demais, assegurando que os organizadores queriam que seguisse nisso extraoficialmente. Lion anotou o número de telefone que enviou a mensagem em sua agenda. Averiguaria quem era o idiota que queria brincar com ele desse modo. Molhou o rosto com água e saiu do banheiro. Claudia levantou seu rosto e retirou a máscara negra. Movendo-se com passos estudados, levou suas mãos aos laços do corpete nos seios. — Mistress Pain, disse que não estou bem.— repetiu Lion apoiando-se na parede. — Faremos que se sinta muito melhor, não é verdade, Sharon? —Sharon parecia ter um debate consigo mesma, e depois de refletir a resposta, levantou-se sem piscar os olhos cor de caramelo. Também soltou sua máscara. 130


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Lion arqueou sua sobrancelha negra e negou com a cabeça. Sharon não queria dormir com ele. Depois de tanto tempo sem ter relações, sem deixar que ninguém a tocasse, não ia ser com ele. Eram mulheres muito lindas e diferentes, e estavam dispostas a ter uns amassos. Em outro tempo Lion teria feito; sexo era sexo, verdade? Mas depois de reivindicar Cleo, e sabendo a força de sua paixão por ela, nem Mistress Pain, nem a Rainha das Aranhas podiam rivalizar com a leoa de cabelos vermelhos e olhos verdes. —Vocês têm que ir.— pediu Lion educadamente, acompanhando-as até a saída — Sério, estou enjoado. —Não penso em ir.— respondeu Claudia colocando as mãos nos voluptuosos quadris, firmando os calcanhares no tapete. Sorriu como se fosse a Rainha de Sabá.— Eu vim aqui para comer, King, e quero que me alimente. Lion sorriu diante da visceralidade da mulher. Em outros tempos, se consideraria um escândalo que uma mulher falasse assim; mas Claudia estava acima de tudo, e ela sempre amou demais a si mesma. Não aceitava um “não” como resposta. —Vou embora.— respondeu Sharon alterada — Não sei o que faço aqui. Lion acenou com a cabeça, agradecendo pela sua colaboração. Ela continuava sendo sua amiga, e estando muito apaixonada, seguramente, a loira enxergaria mais além da sua rejeição e entenderia porque ele não queria estar com elas. Sharon o compreendia. — O que aconteceu com a Rainha das Aranhas? Está magoada, querida? — Claudia a olhou dissimuladamente. Sharon não encarava bem o menosprezo, assim que sorriu com indiferença e lhe disse: —Você não vai querer ver até que ponto é verdade o que tenho, Pain.— lhe assegurou com tom frio e rosto sombrio, colocando-se a um palmo da sua cara. —Na realidade não vai querer provar. Ou será que sim?— e se aproximou mais ameaçadoramente— Nunca joguei com você. Gostaria de ver até onde sou capaz de chegar, switch? — Claro que sim. —respondeu Claudia desejosa— Por que não começamos nós duas e esquentamos o leão para que saia de sua toca e ruja, em vez de se comportar como um gato apavorado. —Claudia passou seus dedos sobre os cílios da loira. —Prenda-me na sua teia de aranha, Rainha. Sharon arqueou suas sobrancelhas e fez um gesto de desdém com os lábios. —Não te desejo. Com essas palavras, deixando-a feito uma pedra, Sharon deu meia volta e abriu a porta da suíte. Mas encontrou com Cleo que estava a ponto de colocar o cartão chave na fechadura da sua suíte. O quarto que dividiria com Lion e que estava ocupado por duas mulheres. Sharon não sabia o que dizer quando viu nos olhos esmeraldas de Cleo a descrença e a dor que ela mesma experimentou há anos atrás. Mas então, eram olhos negros quem julgavam e censuravam, não os olhos verdes de Lady Nala. —Saia daqui.— ordenou a ruiva com a voz trêmula. —Já ia. Sharon passou pelo seu lado, sem tocá-la, e isso porque Cleo não se afastou do marco da porta. 131


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—Por fim —Cleo não ia se calar. Essa mulher quis machucá-la desde o princípio e ela tinha direito de retaliar. —, vou acreditar na versão de Prince. Sharon colocou novamente a máscara para cobrir seus olhos cor de caramelo, que não encaravam bem a acusação e estavam se enchendo de lágrimas. —Não fale sobre o que você não sabe. —ordenou sem olhar para trás, distanciando-se dali. —Não se enfie em camas alheias. —respondeu Cleo entrando sozinha no quarto, golpeando a porta com força. Nick foi à sua suíte porque não queria estar presente quando começasse a confusão, e isso a deixava em desvantagem com Claudia e Lion, que estavam muito separados um do outro. Ia deixálos estupefatos com seu descaramento. —Sharon se foi.— observou apoiando-se na parede de entrada — Querem que eu os sirva? Claudia arregalou os olhos pasma e começou a rir. Mas para Lion aquilo não tinha nenhuma graça. Cleo estava diante dele, com uma garrafa de rum na mão, vestida de mulher pirata, totalmente calma, da mesma forma que estaria uma gata selvagem escondida atrás do matagal, esperando o momento exato para atacar, disposta a comer sua presa. O olhou de frente, sem vacilar e demonstrar nenhum rastro de despeito ou dor, medindo-o de cima a baixo como se ele não valesse nada, ou menos que nada. Por Deus, o olhar de Cleo desarmava a qualquer um... E, depois, analisou o espartilho desfiado de Claudia de forma que os seios se pusessem completamente para fora da peça. —Quer fazer um trio? — perguntou Mistress Pain a Cleo. —Eu não quero. — Lion cruzou os braços. “Como não, Lion e sua singular prudência”, pensou Cleo. Cleo caminhou até a cama, deixou a garrafa de rum sobre a mesa e subiu sobre o colchão, coberto por um lençol marrom e branco, ficando de joelhos. Se Lion pensava que estando com ela ia dormir com outras, não a conhecia em absoluto. E se, além disso, o cretino pensava que ela tinha dormido com Markus, então, já não a conhecia e carregava uma imagem distorcida de quem ela era. Com raiva, jogou as macias almofadas no chão, para ter mais espaço na cama. Estava no meio de um caso, com um homem por quem, descobriu recentemente, estava apaixonada. E sim, caiu esplendorosamente nas suas garras, e não se envergonhava. Mas o caso era mais importante que tudo e não ia deixar que outras a preocupassem. Não tinha porque se sentir mal gratuitamente, a tensão do torneio era por si só suficientemente estressante para ela aguentar os flertes de Lion com seus casos antigos. Cleo, descaradamente, subiu a saia e lhes mostrou sua calcinha vermelha, que se ligavam as suas meias de arrastão, movendo os quadris de um lado para o outro. —Qual dos dois será o pirata valente que vai tirá-las de mim? —Te disse que não quero trios. — Lion se aproximou da cama de um jeito severo e direto. —Então você vai ter que ir embora, bonita. — afirmou Claudia com um sorriso de orelha a orelha. Cleo não piscou nenhuma vez enquanto olhava os olhos de Lion. Esse salivava, alimentado pela visão da ruiva. 132


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—Quer que eu…me vá, King? — Cleo precisava dissolver a dúvida. Desejava-a? Ou preferia estar com outra? —Saia, Nala. —ordenou Claudia. —Quem deve sair é você, Claudia. — Lion não prestou atenção a ama enquanto pronunciava essas palavras. Cleo engoliu em seco e pouco a pouco baixou sua saia até cobrir novamente sua calcinha. Caramba, Lion expulsou a Mistress Pain. —Por que eu? Eu estava aqui primeiro! —exclamou como uma criança de dez anos. Fosso o que fosse que havia visto em Claudia anos atrás, Lion já não via mais. Seguramente, porque a personalidade de Cleo apagava todo o resto e convertia as mulheres como Claudia em meros passatempos sem graça. —Te disse antes, não quero dormir com você. Sharon teve a boa educação de ir embora quando pedi, você deveria fazer o mesmo. Seja elegante e vá embora! A morena decidiu que se saísse, não ia deixar barato a ofensa de Lion, nem deixaria que a ruiva saísse vitoriosa. Se ela sairia da suíte, se encarregaria de que entre eles, também, não houvesse nada. —Não dissimule agora, King.— Claudia pegou sua bolsa e se dirigiu à porta da suíte. — Antes que ela chegasse você já tinha transado com nós duas. — deu uma olhada para Cleo e saiu do quarto. A respiração de Cleo se acelerou, ela apertou seus punhos para não lançá-los em Lion como uma gata e arranhar seu lindo rosto, que era, justamente, o que tinha vontade de fazer. Ele pôs suas mãos em suas coxas e a examinou com impaciência. —Você dormiu com elas? — perguntou Cleo, impassível ao seu escrutínio, mas agitada pela última frase da malvada Ama Switch. Lion franziu a testa e seus olhos a advertiram do perigo de seguir esse caminho. — Mudaria alguma coisa se isso fosse verdade? —Lion não… Agora não. —queria só uma resposta, ela tentaria acreditar nela. —Responde, por favor. —Por que eu deveria te obedecer? Você não acreditou em mim quando disse que o jogo acabou para nós. Preferiu continuar e se encontrar com um amo que não conhece se colocando em perigo e ajudá-lo como móvel de sua casa. Você não teve consideração com a minha preocupação. Pouco se importou que estivesse todo dia histérico por sua culpa, Lady Nala. Cleo levantou a mão para que se detivesse e fechou os olhos, buscando a paciência que não tinha. Não podiam falar ali, no hotel reservado pela organização. —Coloque um biquíni. Nós vamos à praia. —Lion entendia seu gesto e também leu sua mente. Deviam sair de lá. Cleo fuçou sua mala de viagem, que Lion tinha deixado no guarda-roupa esperando que ela chegasse, e escolheu um biquíni de triângulos negros sem se importar que ele a visse nua. Depois de tudo o que lhe importaria isso? O agente colocou uma calça de banho grande e larga, azul escuro, enquanto a olhava fixamente e não perdia um segundo de sua nudez. Sem se dirigirem uma palavra, ambos tomaram as toalhas e o mau humor e saíram da suíte. 133


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O hotel Villa ficava colado à praia. Ao sair pela recepção e pela entrada, caminharam para a área das redes e piscinas, através de pontes de madeira e cabanas de coquetel, chegaram à areia branca e lisa do Caribe. Ela necessitava molhar-se, necessitava nadar e ficar tão cansada a ponto que não querer dizer-lhe mais nada. Mas conhecendo-se, sabia que iam aumentar o tom de voz, que ele a provocaria a brigar, discutir... a pôr para fora toda raiva. E como sentia muita raiva. Cleo tirou em segundos os tênis e deixou cair a toalha de forma abrupta saindo como um vendaval para dar um mergulho. Lion fez o mesmo, mas antes que Cleo tocasse a água do mar com seus pés nus, agarrou-a com apenas um braço e a colocou sobre seus ombros. —Abaixe-me agora mesmo! Solte-me! —Não te escuto! Objetos não falam! — ele exclamou dando umas palmadas em seu traseiro, para depois jogá-la no mar. Cleo submergiu e emergiu como uma sereia vingativa. Como a água do mar do Caribe não cobria a orla até uns 50 metros depois, a água chegava até as suas coxas. O cabelo vermelho grudava em seu rosto e seus olhos felinos soltavam faíscas. Os dois de pé de frente um com o outro, como autênticos pistoleiros. Ela jogou o cabelo para trás, soltou um grunhido e se jogou em cima de Lion com braços e pernas, furiosa com ele. Lion não a viu se atracar com ele até que sentiu o ombro de Cleo em seu estômago e como o empurrava para trás com toda força que tinha, exageradamente forte para alguém tão pequena. Desequilibrou-se e ambos afundaram. Lion deu uma volta embaixo da água para levantar-se com ela em seus braços. As costas coladas ao seu tórax e os braços oprimindo sua cintura. —Solte-me! —Não! —Você é um…grhksjdhasdjal! — Lion a afundou na água. —Sou um que? — a levantou novamente para que tomasse ar. —Um porco de merd…rfsghdvsjhdgssdaaa! Lion começou a rir enquanto ela chutava e tentava acertá-lo na cara, mas não conseguia porque ele a imobilizava. —Que palavras bonitas, senhorita Nala. —Um mentiroso fodedlsksjddjsjdsfjjjddj! —O maldito tornava a afundá-la. —Lavaremos sua boquinha com água e sal. — murmurou enquanto a levantava da água. Cleo ficou muito quieta, tomando ar, com os olhos fechados. —Não brigue comigo, bravinha. Estava desejando que voltasse para te estrangular com minhas próprias mãos, bruxa. Você tem ideia do quão preocupado eu fiquei? — resmungou em seu ouvido sem permitir que seus lábios o tocassem. —Nunca mais faça isto! — Sim! Já vejo como você estava preocupado! Preocupado em fazer menáges! —Não! —Eu vi com meus próprios olhos! — ela protestava afetada— Esperava que você viesse me buscar na passarela e ao invés disso... Claudia te mostra uma foto no celular dela e você logo acredita! —Eu não acreditei, Cleo! — Caminhou com ela até que a água começou a cobri-los. Não havia barcos na proximidade, nem banhistas. Só estavam os dois, a lua imensa e as estrelas. 134


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—Sim, você o fez! — reafirmou com voz chorosa. — Por isso você foi dançar com ela e com Sharon e deixou que elas pusessem as mãos em você! E com certeza transou com elas! Lion se apertou contra seus seios, prendendo-a em seus braços. —Eu não acreditei na foto, Cleo. — reconheceu concisamente, mas com suavidade. — Escuta-me, por favor... Antes de qualquer coisa, tem que entender que não pode afastar-se de mim assim novamente. Você está me ouvindo? —Sou grandinha, Lion! E sou responsável e competente! — E para que serve isso? A responsabilidade e sua idade não são importantes diante da violência de um homem sádico, Cleo. Sou o agente responsável e te dei a ordem para que parasse o jogo. E me desobedeceu... outra vez. Você entende isso? — E agora o que? Voltará a me ameaçar dizendo que falará com Montgomery e Spur, dirá que eu não sou apta? Sabe de uma coisa? Tanto faz! Depois do que descobri, por mim, que morram! — O que? O que você descobriu? Existem limites para todo mundo, Cleo. —Eu conheço meus limites, senhor Romano. Confio neles, mas é você que tem que confiar em mim. Lion deixou sair o ar que estava preso em seus pulmões e afundou a ambos na água, aonde já flutuavam por completo e podiam nadar. —Morro de medo só de te imaginar em perigo, Cleo. Ela conteve suas ofensas e acabou com seu ataque, ficando lívida e imóvel entre seus braços. Aceitando suas palavras. —Não dormi com Markus. — reconheceu submetendo-se a sua preocupação. — Não o fiz... Isso é impossível. É impossível que eu o faça. —Não volte a me desobedecer, Cleo. Esse torneio é um jogo. Você está me escutando? — Afundou seu nariz em seus cabelos úmidos. — Passei o dia pensando no que esse amo russo te faria, todo tipo de coisas e que você não poderia resistir. Odeio pensar que outro a tocou. —Usaria a palavra de segurança. — E se ele não se importasse, sua boba? Ela tentou se libertar. —Não me chame de boba. —Você vai e aparece no baile, vestida assim, dançando e provocando as pessoas... Quem você acha que eu sou? Um moleque idiota? Por que não me respeita? — Não fiz por mal. Era a performance que Markus havia preparado. —Não gostei. — Fechou os olhos e apoiou o queixo em seu ombro. — E depois Prince ainda se juntou. Te disse o que havia entre eu e ele.. Por que você jogou com ele? —Eu não joguei com ele! E você começou a jogar com a Claudia. Por que ela estava com você? Eu pensei... também não gosto ... —Suas bochechas ficaram vermelhas. —Não gosto que você esteja com ela. Sei que Claudia jogou outras vezes com você, mas enquanto estivermos juntos no torneio não aguentarei que se insinue para outras. Tenho orgulho. E ainda por cima Sharon gosta de me provocar... E foi a vez dela usá-lo para isso! Lion sorriu e beijou seus ombros tentando se desculpar. 135


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— A foto não tinha nada a ver, mas não encaro bem que outro amo se aproxime de você. Prince tocou em seus seios. Ficaram em silêncio até que Cleo disse: —Aceite isso, Lion!—Bufou seca. —Estamos no Amos e Masmorras. Eu também não gosto de ver todas outras amas do torneio querendo transar com você. Ou você acha que sou indiferente a você? É como estar rodeado de hienas... — Cleo se obrigou a fazer a pergunta pertinente. —Você está com ciúmes? Por que te importo tanto assim? Lion negou com a cabeça e encolheu os ombros. —Não é ciúme. Sinto-me muito responsável por você. Preocupa-me tudo que você faz e... —Já te disse que não preciso de uma babá... —murmurou decepcionada. —Também te disse que gosto um pouco de você... — Confirmou com seus olhos azuis cheios de diversão e doçura. Cleo ficou surpresa. Não tinham saída. —Isso vai nos deixar loucos… —Pode ser que sim… Ficaram calados, nadando, entrelaçados no mar. —Não vou te perdoar, Cleo. — ele disse. —Nem eu a você. — Ela respondeu com os olhos fixos na lua. O agente Romano por fim sentia que podia respirar com ela ao seu lado, em contato com sua pele. Céus... Essa garota agora tinha se apoderado de sua alma e não iria devolvê-la. —Não gosto da Claudia. — enfatizou Cleo. —Nem de Sharon. —Nem Sharon.— confirmou ela. —Eu não gosto nem de Nick, isso por que ele é meu amigo. Não gosto que os homens te rodeiem. Fico nervoso... —Não me rodeiam. — respondeu Cleo sobressaltada com a sinceridade em sua voz. —Você não percebe, Cleo. Ainda não sabe o que provoca nos demais. Faz com que os homens queiram te levar para cama só de te olhar. —Isso não é verdade. — O pior é que você nem se dá conta disso. Pare de afirmar que Markus não te fez nada e... — A apertou contra ele. Sentia-se impotente diante dos desafios abertos de Cleo. Como conseguiria protegê-la se ela se afastava dele? — Deixa-me te dar o que merece pelo que aconteceu hoje ou não ficarei tranquilo... —Te disse, Markus não me tocou. E não acredito que deve me castigar por isso... Você merece uma surra. —Shhh— A calou com um beijo intenso que fez com que ambos vibrassem cobertos pela água do mar, que fluía entre eles livremente, igual às suas emoções. O castigo e a exploração eram só uma desculpa para fazer o que queria fazer de verdade: tocá-la e beijá-la. Cleo sabia que aquilo era um erro. “Não se faça de boba. Não volte a cair nisso. Lion sente algo por você, mas não te ama. Tenha cuidado.”, mas então ele mordeu seu lábio inferior e a 136


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obrigou a entrelaçar sua cintura com as pernas. Ficaram cara a cara, nariz com nariz e frente a frente. —Preciso de você. — Ele sussurrou apaixonadamente, com o rosto úmido pela água e os cílios molhados pelas gotas salgadas do mar. “Tudo bem, faça sexo com ele, mas não se deixe envolver mais. Proteja-se.” Nadaram juntos, emaranhados, até que chegaram a uma pequena baía, distante da praia e do mundo em geral. — Tenho muito para te contar. —assegurou Cleo entre um beijo e outro. — É sobre Markus. Lion se jogou sobre a areia úmida, mais escuras, da beira do mar. —Não pode esperar?—Perguntou arrancando a parte de cima do biquíni e se jogando sobre ela, cobrindo-a com seu enorme corpo. Colocou suas mãos por cima de sua cabeça e não deixou que nenhuma parte de seu corpo não entrasse em contato com o dele. Cleo deu a volta por cima e inverteu os papéis. Desta vez ela estava por cima e ele embaixo. Emaranhando seus dedos com os dele e sentou sobre seu quadril. —Não posso esperar. — disse a jovem. Inclinou-se sobre seus ouvidos e disse: — Escuta bem, Lion: Leslie está viva, está com o Amo do Calabouço. Não ousou mover-se durante os vintes minutos que Cleo usou para explicar seu ingresso em Peter Bay, toda a conversa com Markus e Belikhov em russo, a função de Markus no torneio e seu papel de infiltrado da SVR; a venda das escravas na Rússia e o fato de convergirem interesses do FBI e da SVR no mesmo cenário de Amos e Masmorras. Explicou-lhe o que aconteceu aquela noite com Leslie em Nova York: que a drogaram e que foi parar nas mãos dos russos. Contou que os Vilões eram formados por membros da Old Guard e que esperavam a noite de Walpurgis, que se celebraria ao final do torneio, ainda que fosse um evento privado, só para os Vilões. Só então, utilizariam todas as escravas e escravos, nesta noite, a serviço deles. Cleo explicou que os Vilões a queriam para esse acontecimento especial e, além disso, deixou claro que o diretor Spurs e o subdiretor Montgomery conheciam a localização de Leslie, mas havia designado Markus para a missão, já que era um interesse comum para ambos países. O agente permaneceu mudo e imóvel, desfrutando da segurança de Cleo perto dele, mas sobretudo, pela chuva de informações que a bela mulher lhe estava proporcionando, nomes como Belikhov, agências federais estrangeiras como a SVR envolvidas no meio, o criador da Popper como Keon, a Old Guard e a noite de Walpurgis como elementos chaves para o encerramento do torneio, uma agente secreta, um delator no torneio que informava todos os movimentos entre bastidores e Vilões. Leslie viva e, parcialmente, a salvo, como todos. Leslie viva. Deus, era a melhor notícia de todas. Como agente chefe não podia viver tranquilo sabendo que seu amigo Clint tinha morrido em missão. E segundo o que Markus disse a Leslie, uma mulher encapuzada, uma Ama, o tinha levado. Clint morreu por asfixia. A mulher misteriosa o teria matado? Quem era? —Deus, Cleo. — A abraçou com tanta força que Cleo se encontrou rendida e entregue em seus braços. Completamente à sua mercê. —Les está viva. Les está viva! — exclamou contente. —Sim. — Sorriu e o beijou nos ombros, no pescoço e nas bochechas. — Mas deixou de fazer parte do Amos e Masmorras. Agora trabalha com a SVR. 137


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—Isso não importa. Ela está aqui, no torneio…quer queira ou não, estamos no mesmo barco. Os Vilões nos levarão à consumação da missão pelas duas frentes. — A puxou pelo rosto e colocou seu rosto junto com o dela. —Você tem ideia do perigo que correu? Hoje você esteve com um cara que tem contato direto com os Vilões. O que faria se te sequestrassem, hein?— O medo endureceu sua feição. Tinha razão. Lion tinha um pouco de razão, mas ser uma agente infiltrada da lei implica correr riscos. Arriscava sua vida por uma causa. —É meu trabalho, Lion. — respondeu Cleo. — mas fiz algo mais. — sorriu com orgulho. —O que? —Quando Belikhov assegurou que Keon estaria no Prancha do Mar para fornecer o popper, fiz contato com a estação. Lion ficou petrificado ao ouvir isso, todo seu corpo endureceu. Cleo podia ter-lhe ligado, tinha um meio de comunicação, e ao invés de ligar para acalmá-lo, fez apenas o que teve vontade. Como sempre. —O que você fez? — perguntou sem vacilar. —Ontem memorizei o telefone de Jimmy do HTC e liguei para que seguissem o quad MGM vermelho no qual iam chegar os traficantes. Era o mesmo que Keon usaria para fazer o ato de presença... Tinha que tirar fotos da entrega dos pacotes para comprovar o tráfico de entorpecentes. Não interveriam, pois tudo devia seguir como estava, até que terminasse o torneio. Markus me recomendou que não dissesse nada porque precisava que tudo seguisse na absoluta normalidade para a missão. —Meu Deus, Cleo! —Lion cobriu seus olhos com o antebraço e sacudiu a cabeça. —É incrível! Você não pode me ocultar informação. Não pode fazer o que te dá na cabeça. —Lion, não faço o que me dá na cabeça, faço o que tenho que fazer. Nosso objetivo é descobrir onde se realiza a noite do Walpurgis, porque é igual a um segredo de estado. Não faltará nenhum dos Vilões a esse evento e podemos pegá-los com a mão na massa. Ele ficou a olhando estupefato. Cleo o havia surpreendido, mas sua audácia podia ter acarretado também muitos problemas. E, ainda por cima, o que mais o incomodava era que não pensasse nele em nenhum momento, nem como chefe, nem como companheiro. —Não vai me cumprimentar, senhor? — perguntou travessa. —Assim que ao invés de me ligar, já que sou seu chefe e quem coordena toda a operação com a equipe da estação, escolheu ligar diretamente para Jimmy. — Seu tom não tinha nada de aprovação. Cleo piscou os olhos verdes e olhou-o de soslaio. —Sim. —Sim, Cleo? Em vez de entrar em contato comigo depois para dizer que estava bem e me tranquilizar um pouco, você prepara sua performance com Markus e Leslie... Para que dizer algo? Por que ele não aguenta umas horas a mais preocupado comigo? Não era isso que pensava, Cleo? Ela ficou ereta para olhá-lo bem desde cima. Os olhos azuis de Lion a ameaçavam como uma tormenta. Os seios brancos de Cleo o contemplavam de frente e Lion tinha uma bela vista estando por baixo. Mas nem mesmo essa bela visão ia desviar sua atenção do que viria a seguir. 138


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—Não…eu... eu não pensei assim em momento nenhum. Pensei em avançar no caso... E agilizar tudo. Não está de acordo com minha atitude, senhor? —Não estou. — confessou Lion. — Parabéns pelo seu trabalho, mas não pela sua ousadia. Não por assumir tantos riscos e por não se importar nem um pouco com o mal que me fez sentir quando vi um dos meus agentes me desobedecer no torneio e se pôr a disposição de outro amo que até então não sabia até que ponto estava envolvido com os Vilões. Magoa-me, Cleo. —Foi melhor assim! — exclamou ela. — Pelo menos fiz algo proveitoso, ao contrário de você, que ficou dançando e olhando fotos de celular... Ah! — Lion deu uma volta e colocou sua boca entre suas pernas. Cleo era muito flexível e ele amava isso. —Não duvide do meu serviço, agente. — Gemeu Lion abaixando a calcinha do biquíni. — Quem você pensa que é para falar comigo assim? Aplicou-lhe uma rodada de trinta palmadas em sua bunda, cada uma mais dura e sensual que a anterior, mas sem chegar à violência. Cleo cerrou os dentes e as suportou. Não podia livrase de Lion e mover-se não adiantaria nada, assim que, se discipliná-la o liberaria de parte de sua angústia, que segundo ele, ela tinha provocado, o aceitaria. Odiava vê-lo com raiva dela ou o desgosto que por algum motivo ela tinha provocado. Não era essa sua intenção, mas o ímpeto do amo Lion a deixou surpreendida. A jovem sentia o tremor entre suas pernas. Nem havia acariciado seu traseiro uma única vez e a pele já ardia e clamava por atenções mais suaves. Então Lion a ergueu, nua como estava, e a afastou dele, com a bunda vermelha como pimenta. Cleo dirigiu seu olhar para Lion, que continuou sentado na areia, estudando minuciosamente sua reação ao receber as palmadas e não ser acariciada em seguida. — Por que… por que você fez isso…?— perguntou furiosa e também excitada. Atrás do despeito, atrás de cada palmada, havia o desejo de continuar e encontrar a liberação. —Por que? —Se levantou de um salto com uma ereção tão grande como se tivesse um troféu dentro seu calção de banho. — Por que, Cleo? Por que não me leva a sério! Era a mim que devia ter ligado! Não a Jimmy! —Mas eu não o fiz! E o que? —E o que? Não percebe, verdade? Não me respeita como seu chefe, desobedece minhas ordens diretas e se coloca em perigo sem necessidade. Sei que está acostumada a tomar muitas decisões no seu trabalho, mas aqui não somos seus fantoches. Eu não sou seu fantoche, você tem que seguir a merda do protocolo! —Porque? O resultado foi o mesmo. —Ah, não, querida. — Lion deu um sorriso forçado. — o resultado, definitivamente, não foi o mesmo. Quer que eu te mostre? Que eu demonstre a diferença entre seguir as regras e não segui-las? Cleo cerrou os dentes com um estalo. —Sim! Não entendo Lion! Você deveria estar orgulhoso de mim e não ficar desse jeito. Mostre o que teria acontecido se eu te ligasse em vez de fazer as coisas como fiz. Eu gostaria de ver! — O desafiou valentemente. Lion agarrou seus punhos e a arrastou até a água, até que a cobriu na altura da cintura. 139


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—Você quer saber de verdade? Por que para um amo, e para mim como Lion Romano, existe uma diferença entre tratar bem e tratar mal. E se você escolher o mal, eu também posso fazer o mesmo. Posso agir da mesma forma e não levar em consideração suas necessidades. Se aproximou das rochas solitárias que separavam a baía do resto da praia e a obrigou a apoiar as palmas das mãos na pedra negra. —Segure forte, querida. Vai subir a maré. Lion abaixou o calção de banho e encostou-se nas suas costas, dando-lhe o calor corpóreo que não transmitia com suas palavras. Cleo também gostava daquele Lion. O que desejava levar seus sentimentos em todas suas entranhas e esquecia por completo que ela era Cleo Connelly e que a conhecia desde criança. Agora, a via como uma mulher que o deixava louco e que aceitaria ser castigada. Mordeu os lábios inferiores quando a tocou entre as pernas e acariciou a umidade que haviam provocado as palmadas. —Tem medo? — perguntou com a voz rouca, brincando entre suas pernas. —Você não me assusta. —Não percebe? Você é uma inconsequente. — Introduziu três dedos de uma vez até o fundo. Cleo ficou nas pontas dos pés e jogou a cabeça para trás tomando ar por causa da pressão que sentia. Com a outra mão, Lion esfregou seu clitóris ao mesmo ritmo que enfiava e tirava os dedos, um ritmo pausado e certeiro. Tocavam o que tinham que tocar, roçavam o que tinham que roçar. Lion comprovou que cada vez ela dilatava mais e se umedecia mais, até que decidiu enfiar quatro dedos e com o polegar que ficava livre roçava seu ânus. —Lion... — sussurrou ela, cravando os dedos na pedra para dar-lhe forças para suportar. Já estava no limite. —Por favor... faça com que goze. —Eu juro que você vai ver a diferença. —lhe assegurou excitado. —Te disse que os castigos não têm como recompensa os orgasmos. Se me irrito, me irrito de verdade, Cleo. Esteve mais de meia hora penetrando-lhe com os dedos e acariciando-a entre as pernas. E, quando Cleo estava a ponto de gozar, ele parava de propósito... —Não! Não, Lion! Por favor…— suplicava molhada de suor e de água do mar. —Por favor... —Não vou aliviar para você! Você não teve nenhuma consideração comigo e já estou farto— girava os dedos e abria-os em seu interior e penetrava sua outra entrada com o grosso polegar. — Se quisesse, agora mesmo, Lady Nala, poderia meter o quinto dedo e fazer isso com todas minhas mãos no seu interior. Com os punhos. Você quer isso? É muito impressionante. Você quer? Cleo abriu a boca e tomou ar. Queria tudo que ele fizesse para liberá-la. Queria gozar. Necessitava. Lion metia as mãos e não dava trégua. Não a deixava descansar: empurrava, estimulava e quando ela estava a ponto de... voltava ao início. —Faça, Lion. Faça o que você falou. —Muito feio, Lady Nala. Você não pode me dar ordens. Nem pense em fazer isso. — Apático, tirou os quatro dedos de seu interior e manteve o polegar na sua entrada traseira. —Não…— protestava Cleo, cansada. Que deixasse de torturá-la, pelo amor de Deus. 140


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— Vou fazer por trás. Vai ser minha por aqui. Só minha. —Afastou o dedo, que movia dilatando seu traseiro fechadinho, e substituiu pela grossa cabeça do seu membro. —Não…—Ficou com olhos arregalados. — Espere, isso não vai caber... —Shhh… Claro que vai. —Lion se apertou contra ela de forma que nem a água podia passar entre seus corpos. Empurrou com lentidão, mas sem economizar força e separou suas nádegas para ver como entrava nesse lugar secreto e franzido. — Relaxa. —Não…Não consigo…—choramingou apoiando seu rosto na rocha. —Sim, você consegue, meu bem. — A acariciava na frente para fazer a invasão mais prazerosa. —Só incomoda no início. Ah, que gostoso! — a cabeça tinha entrado completamente. O anel do duro músculo o havia engolido. Cleo gritou e apertou as nádegas. —Não, não… Assim não. — Lion entrelaçou seu ventre com o braço livre e com a outra mão lhe deu calor entre suas pernas, brincando com o clitóris inchado e com a entrada cremosa que seus dedos tinham deixado para trás. — Tem que relaxar o músculo traseiro... Assim, bebê. Muito bem. Ontem a noite nós fizemos. Já exercitamos esse lugar. — O plug era menor!— protestou com um gemido. —O seu pênis é muito grande! —Vai entrar, Cleo. Olha…—Aproximou seu quadril e sentiu como, pouco a pouco, toda sua ereção desaparecia até estar completamente imersa dentro dela. — Até o final, Cleo. Ela estava toda arrepiada, os joelhos se sacudiam de um lado para outro e os cabelos ruivos ocultavam seu rosto dos olhares de Lion. Lion a mantinha entrelaçada a ele e beliscou seus seios, girando os bicos com força entre seus dedos. Ela sentia o impulso em sua vagina assim como sentia atrás, como se tudo estivesse conectado. O amo começou a mover-se de dentro para fora, remexendo os quadris, introduzindo até o fundo, para manter Cleo a ponto de liberar-se nesse precipício que a faria voar para muito longe. Mas não permitia que ela alcançasse e ela chorava pela impotência e pelo prazer que sentia. Lion a tocava por todos os lados. Sua presença animal marcava cada pedaço de sua alma como se fosse de sua propriedade. E era. Ele não sabia até que ponto ela era. E, ainda que seu castigo a estimulasse e desse muitíssimo prazer, compreendeu que havia diferença entre feri-lo de verdade e apenas chateá-lo. Cleo não tinha o chateado com sua atitude, tinha ferido. Percebia isso nos seus poderosos golpes, nos seus rápidos gemidos que soavam como queixas e reprovações. Compreendia isso nas suas mãos que a acariciavam somente para castigar, não para acalmar. E, também, pelas poucas palavras que dirigia a ela enquanto faziam; nem sequer a olhava nos olhos. Cleo não se considerava falante durante o sexo, na verdade, preferia agir, mas Lion sempre havia explicado tudo, e no fundo, sempre foi doce e atento com ela. Agora não era assim. Sabia que ele estava dando-lhe prazer, mas eram apenas dois corpos fazendo sexo. Ela queria mais. Sempre queria mais. —Quero gozar, Lion. Estou quase lá há mais de uma hora... —E isso estava começando a incomodá-la. A água do mar e o tamanho do seu membro podem ser uma má combinação. 141


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— O que você quer não me importa. Assim como tudo que eu queria e te pedia não te importava também. — O som da água a salpicar entre eles era enlouquecedor. A penetrou com mais força e tomou seu clitóris entre os dedos. — Essa noite você não tem saída, querida. —Não…—soluçou Cleo.— Claro que me importo com o que você quer. —Não. Não é verdade.— Lion levantou sua perna direita, dobrou os joelhos e abriu mais Cleo para poder possuí-la melhor. Nessa posição, sentia suas investidas até o estômago e acreditou de verdade que ele a partiria ao meio. Sustentava-se graças à rocha, por que houve um momento em que nem seu pé esquerdo tocava a areia. —Oh, meu Deus…— Se apoiou completamente no tórax de Lion e deixou que ele fizesse com ela o que quisesse. Duas investidas mais e ela gozaria. Sentir essa zona de seu corpo tremer por um iminente orgasmo era algo incrível. O ser humano tinha uma educação sexual patética, e Lion a estava ensinando a ignorar o que havia sido toda sua vida. — Não se detenha...Por favor, por favor... Não pare, Lion... Lion já não aguentava mais. Não ia gozar também, ainda que como amo pudesse fazê-lo, porque Cleo bem que merecia. Mas não podia. Não a deixaria assim depois de estar tanto tempo possuindo-a. Antes que ela e ele chegassem ao orgasmo juntos, saiu de dentro dela e apertou sua base com força para não ejacular. Cleo caiu enfraquecida sobre a rocha, apoiada com as mãos, os seios e as bochechas sobre pedra, respirando agitadamente. Descontrolada e irritada porque, depois de tudo, Lion cumpriu sua promessa. O olhou por cima dos ombros e viu que ele permanecia recortado através da noite, com seu esplêndido corpo inchado e marcado pelo esforço, e sua ereção entre as duas mãos, e mesmo assim não conseguia cobri-la completamente. Ela não sabia se merecia o castigo ou não. De certa forma, sabia que sim. Mas saber disso não a fez sentir-se melhor. Desejava o toque de Lion, que a acariciasse e a fizesse voar como havia feito cada vez que começavam a se tocar. Nunca, jamais, a deixou neste estado: abandonada, sozinha, dolorida e vazia. Cleo deixou-se cair na água e afundou-se por completo. Quando subiu novamente, tinha todo seu cabelo púrpura jogado para trás, como uma cortina que cobria suas costas. Os olhos verdes não expressavam nada mais que um leve desconcerto e muita frustração. Nem ódio, nem raiva, nem simpatia, nem carinho, nem desdém. Nada. —Essa é a diferença, Cleo. Isto é um castigo de verdade: castigo sexual de um amo descontente com sua companheira. Dor-prazer sem orgasmo. Você o mereceu. —Então… Procurarei não te chatear na próxima vez, senhor. — sussurrou sem reverência alguma. Como ele não respondeu, engoliu em seco e encolheu os ombros. Sem dizer mais nada, passando ao seu lado com o corpo fraco, chegou até a beira e colocou seu biquíni novamente para voltar ao mar. Lion continuou completamente enlaçado, com as mãos ao seu redor. —Agora você se sente melhor? — perguntou olhando-o de lado e virando a cabeça a nenhum lugar e para fugir dele. 142


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Lion afundou no mar sua miséria pessoal e gritou debaixo da água. Gritou de impotência e também pela raiva contida. Cleo tinha feito um ótimo trabalho, ele reconhecia, mas havia se arriscado demais. E para Lion, ela era muita mais importante que o fodido caso. Ali residia a razão da sua confusão. O mar transformou em sal suas feridas. Sal para as feridas de ambos. Iniciando uma potente braçada, seguiu Cleo. Voltariam ao hotel e conversariam com Nick sobre o sucedido.

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CAPÍTULO 12 “Das lágrimas ao beijo existe um calafrio”

Love is great, love is fine (oh oh oh oh oh) Out the box, outta line (oh oh oh oh oh) The affliction of the feeling leaves me wanting more (Oh oh oh oh oh) S& M – Rihanna Lion já estava acordado há mais de uma hora quando começou a tocar a canção do despertador do torneio. Não havia dormido nada durante toda a noite. Cleo e ele não se falaram depois do encontro na baía e ela fazia de tudo para evitá-lo. Quando chegaram, entrou no chuveiro para tirar a água do mar, secou-se e foi dormir com o cabelo molhado. —Seca o cabelo antes de dormir ou vai pegar um resfriado. — ele aconselhou. — Volte a me dirigir a palavra ou a me dar uma ordem e enfiarei sua língua pelo rabo. Incorrigível. Era incorrigível. Como podia lhe falar assim depois do que ele tinha feito com ela na baía? Fácil: porque Cleo não temia a ele. E Lion se sentia feliz e eufórico por isso. Havia relações entre amos e submissas que limitavam a espontaneidade e a liberdade da submissa, que se auto proibiam muitas coisas para não desagradar ao amo e não deixá-lo irritado. Cleo não era dessas, porque também Lion não era desses amos. Gostava das ordens e da dominação na cama. Fora dela era um amigo, um companheiro, alguém em quem apoiar-se e com quem podia brincar. Ou, pelo menos, pretendia isso. Mas, entre quatro paredes, era o rei e o soberano e Cleo sua escrava. A frustração de não gozar era difícil de suportar, mas sabia que para sua jovem companheira, era mais difícil ter sido censurada por seus atos do que ser deixada fervilhando de desejo. Mas não podia estar tão dependente dela. Devia seguir com a sua missão. Como Deus ajuda a quem cedo madruga, Lion aproveitou seu tempo. Saiu do hotel e marcou para encontrar-se com Jimmy na paia do resort. Antes, tinha ligado para ele do banheiro e pediu que revisasse todos os telefones que havia no celular de Claudia. Lion ficou muitíssimo surpreso que Mistress Pain tivesse chamadas ocultas tão recentes. Esperava que a estação base pudesse investigar as ligações e averiguar de onde vinham. Além disso, repetiam-se dois números de celular e Jimmy podia rastreá-los também. Mas, sobretudo, queria descobrir o suposto infiltrado que havia inventado o esquema de Cleo com Markus. O que pretendia com isso? E por quê? Foi dar um mergulho e deixou o telefone de Claudia sobre sua toalha junto com o pequeno potinho, onde tinha coletado a urina da noite anterior, para que Jimmy, que se fazia passar por repositor de redes, o pegasse, o abrisse e ao analisasse. Havia amanhecido muito nublado e o tempo ameaçava uma dessas tormentas tropicais que, às vezes, caía sobre as Ilhas Virgens. Lion agradeceu, por que o sol dos últimos dias tinha sido 144


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esmagador. Depois de meia hora, quando voltou de sua seção de natação marinha, já tinha novamente o celular de Claudia sobre a toalha. Depois disso regressou ao Villa Resort e deixou o Samsung de Mistress Pain na recepção. Certamente Claudia perceberia nesta mesma manhã que ele não estava na sua bolsa e a primeira coisa que faria era perguntar na recepção se alguém o tinha encontrando. Em seguida, Lion pediu que levassem o café da manhã na suíte. Já haviam trazido e ele preparou tudo para que almoçassem juntos no amplo terraço privativo que tinham em sua suíte. Cause I may be bad, but I’m perfectly good at it/ Porque eu posso ser má, mas eu sou muito boa nisso. Sex in the air, I don’t care, I love the smell of it/ Sexo no ar, eu não me importo, eu amo o cheiro disso. Stick and stones may break my bones/ Paus e pedras podem quebrar meus ossos. But chains and whips excite me/ Mas correntes e chicotes me excitam. Admirou o doce rosto de Cleo enquanto dormia. Aquela mulher era na realidade, uma mistura de bruxa e fada. Seu cabelo vermelho descansava como um manto de seda sobre a almofada e seus lábios rosados e macios faziam doces movimentos inconscientes. Havia dormido com outra almofada entre as pernas, abraçando-a, para receber um pouco do calor que ele tinha tirado há algumas horas. Ela também não tinha conseguido dormir muito. Escutou-a gemer e esfregar-se contra o colchão. E suava… suava como se aquela suíte fosse o próprio inferno. —Precisa de água, Cleo? — perguntou-lhe solícito, retirando os cabelos úmidos de seu rosto. —Preciso que me deixe em paz. — ela tinha respondido. Como amo não tinha problemas em lidar com seu mal humor. Um amo tem que castigar quando a submissa não se comporta bem e o desafia. Mesmo assim, não gostava da ideia de castigar Cleo, por que ele sempre queria chegar até o final com ela, adorava fazer amor com ela e que ambos chegassem ao ápice do prazer. E, nessa noite, nenhum dos dois havia chegado. E, seus testículos, igualmente, doíam. Ainda sim, que Cleo não o mantivesse informado o encolerizou muito, por que não compreendia como ele podia pensar tanto nela e, em troca, ela fazer tão pouco dele. Analisou as imagens via satélite que emitia o HTC, vindas do sinal das pequenas câmeras que a equipe base havia colocado por todas as Ilhas Virgens. Como transmitiam tudo em tempo real, podia observar que embarcações entravam e saiam dos portos… Por agora, não havia nenhum tipo de movimento estranho. Chegavam cruzeiros, iates particulares e, obviamente, as balsas das ilhas. Mas os rapazes já vigiavam tudo que desembarcava até então e não dispararam nenhum alarme. Olhando pelo canto do olho viu que Cleo se levantava da cama, o olhava e sem dar bom dia saiu direto para o banheiro. Lion sorriu com os olhos fixos no telefone e esperou que saísse para falar com ela. Continuava com raiva e descontente. Frustrada. Não sabia o que havia feito para Lion, mas ainda sentia suas mãos através de seu corpo e ele… ele, no seu interior. Continuava ali, movendose sem clemência, marcando-a com um ferro incandescente. Aquele rum tinha algo… a bebida devia ter algum tipo de entorpecente ou droga afrodisíaca, porque a hipersensibilidade de sua 145


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pele não era normal. Escovou os dentes, penteou e colocou pela primeira vez o corpete de borboleta-monarca que Lion tinha comprado na boutique em New Orleans. Para combinar com a leve e fresca peça, colocou um short negro e aquelas botas que mantinham seus pés descobertos e frescos todo dia, ainda que cobrisse seus tornozelos e parte de sua panturrilha. Um pouco de rímel, protetor para o sol que não fazia por lá, brilho labial, sombra, lápis de olho e... voilá. Cleo Connelly tinha se convertido novamente em Lady Nala, disposta a fazer frente no mundo dos dominadores e submissos, e ao amo mais sem vergonha e cruel de todos. Saiu do banheiro e pegou a mochila que, no dia anterior, tinha deixado aberta aos malditos Macacos voadores. Desta vez a fechou bem com as cartas que conseguiu na última jornada e procurou as duas chaves que já tinham. Uma mais e teriam a final assegurada. —Se procura as chaves, estou com elas. — anunciou Lion do terraço. — Venha aqui, Lady Nala, e toma o café da manhã comigo. Ele segurou o ar em seus pulmões ao vê-la com o corpete que comprou em House of Lounge. Era tão linda e elegante como uma borboleta de verdade. Os homens iam enlouquecer ao vê-la, tal e como ele caía aos seus pés, absolutamente submetido por sua beleza. Cleo o olhou friamente e se dirigiu ao terraço sem dar muita atenção ao abundante café da manhã que pediu. —Por que está comendo aqui? Lion tossiu para poder falar novamente. —Por que ontem utilizamos a carta do Amo do Calabouço e nos deu uma pista sobre onde estava a caixa sem passar por provas ou nada desse tipo. Não precisamos descer para escutar ao anão de cabelo branco e olhos azuis. —E você já sabe onde está? —Sim, acredito que sim. Sairemos daqui a uns vinte minutos, que é quando o amo aparece na tevê e dá as instruções da jornada. —Tudo bem, senhor. —Sente-se comigo e coma algo. Pedi de tudo, Buffet completo… Olha. —destampou uma pequena caçarola com crepes quentes. Sinalizou o pão com omeletes, as frutas tropicais e os potes de geleia. — Tudo está com uma cara boa. —Não tenho fome. — Era verdade. Não tinha fome. Continuava sentindo-se estranha, extremamente excitada e de mal humor. — Só tenho sede. Lion tampou a caçarola de novo e levantou-se do sofá de vime, preocupado com ela. Tomou seu rosto para estudá-lo com atenção. —Quanto rum você bebeu ontem? —perguntou observando suas pupilas. —Uma garrafa e meia de Cajun Spice. —respondeu lambendo os lábios. —Acredito que colocaram alguma coisa nas bebidas, uma espécie de popper líquido. — ele assegurou. —Já imaginava… —Não bebi tanto quanto você. — Um músculo palpitou no seu queixo e o arrependimento se fez visível nele. Ela, com afrodisíaco na noite anterior, e ele, sem satisfazer suas necessidades. Enorme castigo tinha sofrido a pobre. — Como você está agora? 146


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—O que você acha? Sinto-me estranha…— esfregou os braço, afastando-se dele e sentando à mesa. — Não dormi nada bem. Morri de calor. — Devia ter imaginado que era por causa da substância… — lamentou passando a mão no queixo. —Sim, certamente foi só por isso. — murmurou em voz baixa. “Não foi por tudo que me fez na baía para depois me deixar sem nada, verdade? “ Lion sentou-se a seu lado e, sem pedir permissão, a pegou pela cintura e a colocou em suas pernas. Cleo nem sequer ia protestar. Por que fazê-lo? Não podia com Lion. —Vou desajustar seu corpete. Tem que comer um pouco e beber muita água — explicou tirando os colchetes superiores. — Para que passe o efeito. Não... Não pensei que tivesse bebido tanto... — Lion roçou seus braços e massageou sua nuca e seu colo fazendo pressão, acariciandoa. — Por que não me disse que estava tão mal? —Não me toque, senhor. —levantou do seu colo e sentou-se na poltrona do lado contrário. Encheu um copo vazio de suco de laranja natural e pegou um croissant para untá-lo com manteiga e geleia. Por que agora ele prestaria atenção nela? Depois do castigo noturno, não queria mimos de nenhum tipo. Confundia-a e se realmente a tinha castigado, devia manter o castigo e não mudar de ideia no dia seguinte. — Por que não te disse que estava assim? Por que me castigou por portar-me mal — respondeu sarcástica — e o que adiantaria dizer que necessitava que me tocasse? Eu supliquei na baía, e o fez, mas não como eu queria, assim que, para não aguentar outra vez o mesmo tormento, decidi calar-me e sofrer em silêncio. —Mas não é como se isso fosse uma fodida hemorroida para sofrer em silêncio— respondeu exasperado. — Você tem drogas no sangue. — acusou com dureza. —Já não me importa. Não quero falar mais. —Está brava comigo. —certificou Lion. — Entende por que está assim? —Sim. Meu mal se chama impotência. — Mordeu o croissant, sem olhá-lo sequer uma vez nos olhos. — Bom, eu não chamaria assim, exatamente. Você entende por que me deixou bravo? Entende por que te castiguei? Cleo estava se acovardando e não entendia isso. Por que acontecia isso? Queria fazer-se de forte e indiferente, e estava conseguindo justo o oposto. Merda, tinha os olhos cheios de lágrimas e começavam a cair por suas bochechas. —Não... gatinha... — Lion se ajoelhou no chão, entre suas pernas, mas Cleo não permitiu que ele a tocasse, as recolhendo sobre a poltrona. Um amo adorava as lágrimas de sua submissa quando deslizavam nas práticas e nos castigos, sobretudo, depois de alcançar orgasmos múltiplos, mas não neste momento. Cleo chorava porque se sentia mal e quebrada, ainda que a droga tivesse muito a ver com seu estado emocional opaco e depressivo. Eram muitas as sensações que se viviam durante uma seção, mas, depois, com o passar do tempo, se recuperavam. Ela viveu uma seção das grandes na noite passada, sem necessidade de pinças, nem chicotadas, nem eletrochoque. Só ele, no seu interior, aumentando a agonia e a tocando por todos os lados. A pior tortura não era a que incluía a dor-prazer, a pior tortura era a que te obrigava a sentir tanto prazer que te produzisse dor. 147


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Cleo afastou seu rosto choroso e observou a incrível e romântica paisagem que oferecia aquele terraço. Não podia falar com ele, nem sequer podia olhá-lo. A irritação e a impotência batalhavam em seu interior como dois pugilistas. Como fazer calar seu corpo? Como ignorá-lo quando se sentia tão vivo? Fácil: dividindo-se e chorando como estava fazendo nesse momento. Como pedir a Lion que deixasse de estar bravo com ela e, ao mesmo tempo, ter vontade de discutir e gritar com ele? Como exigir que reconhecesse seu trabalho e o elogiasse, em vez de recriminá-la por sua inconsequência? Como pedir que a quisesse e amasse, sem se expor por isso, quando via que o amor que Lion podia sentir por ela não tinha nada a ver com o que ela sentia por ele? Não se dava conta de que a estava colocando de cabeça para baixo? Sim. Estava de acordo. Era muito e imprevisível, mas seus atos traziam resultados. Resultados que, até agora, nem Nick, nem Lion tinham conseguido. —Não tenho nada para dizer a você. — assegurou Cleo. — Já sei que, faça o que fizer, tudo vai te parecer errado. Se não passar antes pelo seu crivo então, não vale. Você funciona assim. Ontem me surrou e fez tudo o que me fez só por que não te avisei antes dos demais. —Não é verdade. Não foi por isso, merda! Você é muito injusta comigo. É a ultima pessoa que devia me acusar disso porque, precisamente, faz e desfaz aos teus caprichos, e eu não sou nem a metade do duro que deveria ser com alguém como você. —Sim — murmurou tomando o suco e fazendo bico — mas sempre me dá o que mereço, não é verdade, senhor? Lion a encurralou colocando uma mão a cada lado da poltrona. Olhou-a fixamente, exigindo que ela prestasse atenção. —Olhe para mim, maldita seja! — rugiu ofendido, com a veia da testa inchada. — Olhe-me! Cleo girou o rosto para ele, como se sua voz a chateasse. —Sabe o esforço que estou fazendo para controlar-me com você? Sabe? —Eu não pedi que se controle, senhor. —Acha que eu não sei como se sente? —Não — ela negou categórica. — Não sabe como me sinto. —Sim, eu sei sim. Porque estou igualmente frustrado com você. Acha que não quero desnudá-la e fazer amor com você? Acha que fiquei satisfeito na baía? Castiguei você, sim. E me castiguei quando não deveria fazê-lo, mas queria compartilhar a dor com você. Devia poder te castigar sem problemas e não me importar se chora ou não, porque sim é minha submissa, devo discipliná-la e fazê-la ver o que faz de mal! E em troca, me importo! Importo com tudo sobre você, maldita seja! O que você acha que isso quer dizer? —Não sei. — encolhei os ombros. — Já não sei como atuar com você. —Não... —sussurrou assustado. —Não quero que atue. Quero que seja como é, mas só te peço que colabore comigo. Que leve em consideração que não sou só seu amo. Sou... Eu sou mais do que acredita, e mais do que te demonstro. —reafirmou. —E você é para mim muito mais do que imagina. Maldita seja — sacudiu a cabeça. Não podia desnudar-se no meio do caso, não podia expressar a grandeza de seus sentimentos por ela, — eu... —Você o que? O que imagino, Lion? — desta vez o olhou nos olhos, esperando uma resposta honesta. — O que sou para você? Não tenho ideia, não imagino nada. Não sei se sou uma 148


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amiga, uma companheira ou uma submissa... diz que sente coisas e me confunde. Mas isso também não é grande coisa porque sinto coisas por meus pais, meus amigos, minha irmã e meu camaleão. —Nunca menti para você. Jamais disse a alguém coisas como as que disse para você. Se digo que sinto coisas, as sinto de verdade. —Claro, até que acorde no dia seguinte e diga que não lembra. — Fazia referência da noite de bebedeira em New Orleans. Lion endureceu a mandíbula. — Quer me forçar de verdade? Pressionar-me? Faça-o e verá que autêntico Dragão da Masmorra eu sou. Você... —Tentou falar-lhe com doçura e compreensão. — é muito especial — seus olhos penetraram nos dela e ficaram cravados. — Extremamente especial para mim. Odiava as adivinhações. Por que Lion não admitia a verdade? Por que não reconhecia que a amava, mas não era suficiente para entregar-lhe esse coração de amo? Custava-lhe muito abrir-se e isso só queria dizer uma coisa, que não sentia a suficiente para fazê-lo, não? —Que tipo de pessoa especial sou para você? — perguntou insegura e intrigada. —Muito especial para que outro amo a leve diante do meu nariz, por que você decide que assim deve ser e ignorar minhas ordens. Excessivamente especial para que eu fique todo o dia ao ponto de um ataque de nervos por não saber se estava passando mal ou se estavam te fazendo algo que você não queria que fizesse. Definitivamente, é mais especial do que eu esperava. Muito mais. Não posso com isso— restabeleceu nervoso— não posso me concentrar com você —O que? — Cleo pegou as pernas com os braços e apoiou o queixo nos seus joelhos, tentando proteger-se do que Lion queria dizer-lhe e não dizia. — Que não é um bom momento? Um bom momento para que? — perguntou perdida. — Eu não vim para ser uma distração. Vim para o mesmo que você, King. —Você veio para me atormentar, bruxinha. —Afundou as mãos nos seus cabelos vermelho fogo e aproximou o rosto ao dela. Ambos sabiam que não podiam falar com total liberdade nas instalações do hotel, e a não ser que encontrassem um lugar retirado e recôndito como o da baía, não podiam seguir com aquela conversa sem expor mais do que a conta. —Faça o favor de portar-se bem, Nala. E deixa de fazer-me sofrer. Cleo piscou, aturdida. Não queria fazê-lo sofrer. Só queria o ajudar e mostrar tanto para ele como para si mesma que além de uma submissa, e de uma companheira de jogo, era também uma agente de verdadeira vocação. Uma policial apaixonada até as entranhas pelo agente responsável de Amos e Masmorras. —O que... O que você quer de mim, Lion? — perguntou com uma voz muito baixa e cansada, colocando suas mãos trêmulas nos lábios dele. Não queria seguir tendo ilusões pensando que Lion podia ter sentimentos por ela. O comportamento dele, às vezes, a desequilibrava e fazia pensar que podia ser possível... mas precisava ter certeza. “Tudo, quero tudo, Cleo. Quero você por completo, entregue e confiante em mim.” —Preciso de espaço e acima de tudo que confie em mim. Não posso te dizer mais, Lady Nala. Agora não. 149


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—Agora não. — assombrada e confusa, passou os dedos pelo seu queixo. — É por que existe um momento certo e adequado para dizer as coisas importantes? — Desiludiu-se de uma vez. — Há um momento para ser honesto e sincero? —Há, acredite em mim, mas tem que ser fora daqui. Quando todo esse jogo terminar. Então saberá a verdade. Por enquanto, por favor — suplicou —, permaneça ao meu lado e não me desobedeça mais. Cleo olhou de frente para Lion e deixou cair a mão até apoia-la nas pernas. —Não quer dizer o que sente por mim. —assumiu desabando os ombros. —Não entenderia o que sinto por você, mesmo que te explicasse agora. —Não, só você não entende o que sente. Somente você— restituiu levantando-se e deixando Lion de joelhos diante dela. — É muito simples, se trata de ser honesto e sincero todo o tempo, não quando você acredita ser conveniente. Ou me ama ou não, é fácil assim, senhor. Ou a ama ou não? Por deus… Cleo não tinha a mínima ideia do que passava na sua mente e em seu coração quando pensava nela, pouco tinha a ver com querer ou gostar. Nem sequer com amar. Era outra palavra mais comprometedora, que deixava as outras no chinelo. —Não me dê lições, Lady Nala. Você foi a primeira a jogar e mentir, inventando um relacionamento que não existia. Isso é ser honesta? —Levantou-se até ficar a altura de Cleo, que mesmo com saltos não era alta o suficiente para alcançar um homem como Lion. —Diga, isso é ser honesta? Cleo indignou-se e reconheceu que Lion tinha razão. Ela o enganou, e essa mentira já tinha custado caro, pois foi o motivo de muitas brigas entre eles. Mas Cleo já não fugia, já não corria assustada por seus sentimentos. Os últimos dias a mudaram e a estavam ensinando quem ela era em realidade. Havia chegado o seu momento. —Quer honestidade, senhor? —Sim, para variar. — replicou Lion. —Eu menti a respeito de Magnus. Nunca tivemos nada, te disse isso porque tinha vergonha de admitir que minha vida sentimental e sexual era muito tediosa e você me intimidava... E eu... Eu não queria que pensasse que eu era uma fracassada e que por mais que tivesse minhas aventuras — murmurou em voz baixa— só... —piscou e secou a lagrima rebelde que caía a altura de seus olhos, — só havia um homem com quem realmente tinha vontade de estar. Sempre foi você, estúpido... —Não, não, espera... — deu um passo para trás, assombrado. —Não. Agora vai me escutar, porque eu não tenho medo de reconhecer o que sinto. — pegou-o pela camisa e o aproximou dela. —Sinto muito, não vou me calar, eu te amo Lion. Não sei quando comecei a amar, mas nunca deixei de te amar, mesmo quando me tratava mal. Você percebe, no final, tenho alma de masoquista — sorriu com tristeza ao ver que Lion empalideceu diante das suas palavras. — E tem mais, agora, que eu deveria agarrar minha mala e fugir de você e da sua dominação, não o faço. Por que você pode me dominar quando quiser, por que nunca terei medo. Por que amo tudo em você, Lion. Tudo. Lion abriu a boca para dizer algo, mas não conseguiu pensar em nada. Cleo acabava de pronunciar as palavras que há um momento atrás ele tinha pensando. Aquela fada, disfarçada de 150


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borboleta, acabava de transpassar seu coração com sua inesperada declaração. Nem sequer era consciente do que lhe estava provocando. — E sim, me irrita que Sharon o cerque. — “Isso mesmo, se jogue gatinha, fique à vontade.” — E me incomoda que Claudia o toque. Sei que não se sente da mesma forma a respeito da noite anterior. Você me via dançando com dois homens e considerava que estava te deixando mal visto, que o desafiava, que expunha a dominação do King Lion— fez um gesto com as mãos. — Mas, quando te vi, não me senti igual. Não imagina o quanto doeu pensar que tinha dormido com elas, que fazia com elas o que fazia comigo... Palmadas, beijos, chicotadas, para mim é tudo igual... Quero que faça comigo, só comigo! — sacudiu levemente a camisa negra furada de alças— É... isso é muito confuso... —apoiou a face em seu peito. —Tudo aconteceu muito rápido, mas, no momento em que apareceu na minha vida, soube que ia deixar uma marca e que não queria perder seus passos. —Cleo fechou os olhos e engoliu a saliva. — Agora, diga, senhor... — Levantou a mão e pegou o seu queixo. Seus olhos verdes brilhavam com determinação, mas estava morta de medo. — Esse é o momento que escolhi para dizer a você o que sinto. Tem diante de você uma borboleta-monarca que está sobre efeito de um afrodisíaco e que está te entregando seu coração numa bandeja— assegurou assustada— Te dou, Lion. Você quer? Sente o mesmo por mim? A resposta se fez rogar durante um interminável momento, mas a rejeição chegou de forma escura quando Lion deixou cair a cabeça e negou. Cleo escutou o som de seu coração rompendo em pedaços, como um cristal estilhaçando-se, voando pelos ares pelo impacto de uma pedra. Saber que ele não sentia o mesmo doía em demasia. Mas tinha se arriscado e havia perdido. Era uma das regras do jogo, da vida e do amor. Deixou cair sua mão entre eles e mordeu o lábio inferior para não fazer mais gemidos vergonhosos. —Não sinto o mesmo por você. — confessou Lion— Pode ser que um dia eu te explique, mas não se parece com o que você me disse. Mas sinto mais, sinto mais do que eu ou você acredita. —Tudo bem. —assentiu entristecida e quebrada. — Tudo bem, Lion. Não tem problema... —Não, você não entende. —Sim, sim eu entendo. — retomou encolhendo os ombros e obrigando-se a sorrir. — Ou existe amor ou não existe. Ou existe atração ou não existe. Ou existe química ou não existe. É simples assim. Sente algo... —repetiu rindo dele — eu também sinto coisas! Sinto coisas por culpa desse maldito afrodisíaco... — “Conserte. As drogas têm a culpa.” — As drogas tem a culpa, não sei o que aconteceu comigo. — riu nervosa — Não... Não me dê atenção. Tudo bem? Para Lion lhe custava absurdamente não ir ao encontro dela, abraçá-la e dizer tudo que sentia. Mas seus sentimentos eram inexplicáveis, eram muito mais fortes que os dela. Não queria assustá-la, não queria que ela o visse como um louco. Era suficiente para ela saber que era um amo dominante, para ter que aceitar o que provocou Cleo em sua vida quando a viu aparecer. Não podia entender e necessitava estar seguro de tudo que isso compreendia. O alarme de seu telefone tocou, era a hora em que aparecia o Amo do Calabouço e falava sobre as normas dessa jornada. —Não se afaste de mim, por favor. — pediu Lion olhando-a fixamente. — Deixa-me encontrar a maneira de explicar o que sinto, mas não agora, não aqui. Aqui não, suplico. 151


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Cleo negou com a cabeça e levantou a mão para que calasse. —Perdeu a sua vez, cowboy. —sorriu, ainda que o gesto não chegasse aos seus olhos esmeraldas. — Basta. Já é suficiente. Sigamos como até agora: jogamos juntos para chegar até o final do torneio, sim? — inclinou a cabeça a um lado, querendo aparentar uma normalidade que seu espírito devastado não sentia. — Estarei bem. Além disso, quando o que quer que tenham colocado no rum desaparecer do meu organismo, nem sequer recordarei de nada do que te disse. —Não é verdade. — Eu acredito que sim. — olhou-o de relance. — Passa para muita gente, sabe? Para você passou. —Isso não está acabado aqui. — Eu acredito que sim, amigo. — assegurou indo pegar a bolsa das cartas. —Vamos? — Devia manter-se inteira e conservar seu orgulho ferido, mas nada podia tirar a dor de estômago que sentia nem a pressão em seu peito. Ambos ficaram escutando o alarme do telefone que continuava tocando, para não olharem em seus rostos e reconhecerem, que ao menos, um dos dois tinha ficado nu diante do outro e havia sido rejeitado.

Annaberg /Antigua Território dos orcs e da Rainha das Aranhas O que tinha dito Markus a Lion, no dia anterior, quando utilizaram a carta “pergunte ao Amo do Cababouço”, era que o cofre residia nos doces restos de Annaberg. Lion tinha buscado informações sobre algo relacionado com Annaberg e doces restos nas Ilhas Virgens, e havia achado a chave. Tomaram o quad até chegar às ruínas da plantação de açúcar— àquele lugar chamavam de “doces restos” — de Annaberg, em Antigua. Annaberg significava “a montanha de Anna”. O caminho até aquele lugar onde se encontrava o cofre era sinuoso e cheio de belezas tropicais. As ruínas seguiam de pé e os moinhos de vento evocavam recordações do que uma vez tinham sido. Annaberg foi uma plantação grande na que trabalhavam escravos, homens, mulheres e crianças, inclusive quando estavam doentes. Um lugar de escravidão, de trabalhos extremos, que enriquecia a ilha graças a sua produção de cana de açúcar. Cleo e Lion caminharam pela imensa plantação até achar o edifício que, sem teto nem portas, mantinha-se como em outros tempos tinha sido a fábrica de açúcar. No que se supunha que era a entrada, a bandeira negra do torneio com o dragão vermelho balançava movida pelo vento. A seus pés, o mesmo garoto que protegia os cofres jornada após jornada estava sentando em sua caixa, entediado, olhando a ponta dos dedos dos pés. —Vamos. — Lion estendeu a mão e lançou para a de Cleo.

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Não tinham falado quase nada durante o trajeto. O efeito do rum tinha passado em Cléo depois de beber e encher o estômago com comida, mas não queria dialogar muito. O jovem dos piercings se surpreendeu ao vê-los chegar tão rápido e num salto desceu do cofre. — Chegaram adiantados. — comunicou-lhes. Cleo e Lion assentiram e abriram o cofre sem meias palavras. Cleo escolheu o que mais gostava e, ao abri-lo, encontrou a sua terceira e definitiva chave, que os classificavam para a final da noite seguinte, além da carta criatura dos Orcs, cinquenta pontos mais na soma de personagens e uma carta Oráculo. —Conseguimos. — disse Cleo pendurando a chave e sorrindo para Lion. Lion a abraçou e a levantou do chão, mas ela não correspondeu. Deixou que a segurasse, mas, entretanto, não colocou seus braços ao redor de seu pescoço nem o beijou, que era o que Lion desejava. Não estavam bem. Lion a observou com orgulho, ainda que soubesse que tinham uma conversa pendente. Cleo podia acreditar que ele não sentia nada por ela, mas necessitava fazê-la acreditar nisso enquanto estivessem metidos nessa sórdida missão. Depois, ele reclamaria tudo o que ela tivesse para dar. — Têm que ir às ruínas de Rum. O amo, os Orcs e a Rainha das Aranhas os esperam ali. Sigam as bandeiras do torneio. — Sinalizou as insígnias cravadas na grama verde que desenhava um caminho que desaparecia atrás de um novo vestígio. — Malditos sejam! O que essa gente tem a ver com o Rum? — perguntou Cleo. —Não sei — murmurou Lion com o rosto sombrio. — mas o Caribe e o rum estão intimamente unidos. Nas plantações de açúcar grandes como essa, utilizavam os restos da cana de açúcar e aproveitavam a destilação do suco e do melaço para deixá-lo numa cisterna de fermentação. Depois de fervê-lo e utilizar o vapor que saia dele, elaboravam o rum. —Obrigada pela informação, senhor! — fez um olhar de surpresa. — De nada, escrava. Fecharam as visitas desde ontem. — observou Lion olhando os arredores. — Os Vilões tiveram que pagar muito por isso... Toda a área está reservada para o torneio. Entraram no que restava da antiga destilaria de rum. E, novamente, ficaram surpresos pelo que haviam construído ali dentro. Dragões e Masmorras DS não economizavam nos gastos. O bom, o melhor e mais espetacular deixavam para seus participantes.

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CAPÍTULO 13 “Na submissão e na dominação, como na vida, sempre há penalidades”.

Annaberg/Gwynneth-Cita do Umbra Território dos Orcs e da Rainha das Aranhas Tela soma dos personagens: 90 pontos Tinham construído jaulas de pássaros flutuantes, que ficavam sobre suas cabeças, unidas pelas escadas metálicas, através das quais caminhavam os Orcs, os filhotes de aranhas e a Rainha, de um lado ao outro, comprovando que estava tudo em ordem. Riam e gritavam excitados pela nova jornada de dominação e submissão. Cleo olhava para cima e abria a boca maravilhada, mas se dirigisse seu olhar para baixo, seu assombro seria o mesmo. Potros, cruzes, correntes penduradas nas jaulas para que pudessem alçar os submissos, cadeiras de tortura, camas redondas e mesas de sujeição... Todos os amos batiam nas escadas metálicas que levavam as jaulas quando viram entrar a dupla, que se estabeleceu como favorita para ganhar a competição. Esse foi o modo de recebê-los, mas também de alertá-los que iriam atrás deles quando tivessem a chance. Davam medo e, ao mesmo tempo, não podiam se afastar deles. Vestiam couro e látex negro. As mulheres tinham rabos de cavalo altos e os homens os cabelos soltos, sem máscaras, sem nada que escondesse suas faces... Ali não tinham que esconder-se de nada. O mais espetacular eram os arneses de gladiadores com os quais todos estavam caracterizados: rodeavam o tórax, os quadris e a cintura com tiras de couro negro, mas não cobriam os peitos, nem elas, nem eles. Sharon era a única que se cobria e Cleo não entendia porquê. Talvez por que a Rainha das Aranhas não se mostrasse para qualquer um... A loira agarrou as barras de uma das jaulas e colou o rosto entre elas para estudar como faria um falcão. Ambas se olharam uma a outra, só que Cleo não viu desta vez o crescente desdém que havia entre elas dias atrás. Sharon só olhou-a e depois observou Lion, sem fome. Estava estudando-os, avaliando-os como casal. Em outra jaula, batendo o cabo do seu flogger contra as barras, estava Prince como Orc castigador. E não deixava de sorrir com amabilidade, como se tentasse tranquilizá-la. Para Cleo, era muito pior ver esse gesto condescendente naquele amo, que os sorrisos nunca chegavam a seus olhos, por isso não podia se comover. O corpo elegante e marcado de Prince fazia-o dono da jaula, que pretendia segurá-la. Deixou cair o pescoço para trás e rugiu como um animal. Lion e Cleo se sentaram entre os degraus. Quando chegassem os vinte casais de amos protagonistas que restavam, começaria o espetáculo. E o espetáculo foi sublime. Chovia. As duplas que tinham chaves em seu poder queriam continuar jogando e ainda que perdessem os duelos, entregavam-se às Criaturas com total abandono, sem utilizar em nenhum momento a palavra de segurança. Ainda restava um dia a mais

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de torneio e se conseguissem outro cofre podiam classificar-se para a final. E chegar final de Dragões e Masmorras DS era algo muito valioso. As performances que ofereciam eram escandalosas. Uma mulher para quatro homens. Quatro mulheres para um. Surras, chicotadas, pinças... Um dos Orcs trepou com duas submissas e pôs em ambas um monte de pinças da sua roupa unidas por um cordel. Quando tinha todas bem colocadas, perguntou: —Preparadas? Elas assentiram, nervosas e excitadas. E o amo fez, Zás! Puxou os cordéis de uma vez e as pinças saiam disparadas das carnes das submissas, assim, de supetão. Cleo jurou que enquanto gritavam estavam gozando de prazer. Como era possível? Não... Ela não ia se enganar. Não acreditava poder chegar ao orgasmo se fizessem isso com ela. Isso era muito doloroso, mas aí radicava a tolerância a dor de cada submisso, e ela aguentava umas coisas, mas não outras. Um casal de amo e submissa estavam pendurados nas correntes de cabeça para baixo. Os filhotes das aranhas os surravam e, enquanto isso, eles se beijavam e gemiam. Ele tinha uma vela vermelha presa no ânus e toda a pele das costas com gotas de cera já secas. E logo havia um Amo Presto, que tinha um objeto de eletricidade, jogando com sua submissa, passando um magicclik sobre seu corpo, que era igual a um acendedor que ligavam e proporcionava descargas elétricas. Os gritos, os prantos, os gemidos... Tudo mesclado numa orgia de sexo e dor. BDSM autêntico. Durante esses dias, Cleo tinha lido superficialmente alguns romances eróticos de BDSM que foram recomendados por Marisa. Seu IPad tinha pegado fogo desde então. Sim, eram bons. Eram entretidos e faziam que alguém desejasse esse tipo de experiência, mas não representavam o que eram na realidade esses jogos sexuais, nem as relações entre casais. Alguns livros falavam de simples jogos eróticos e, além disso, acrescentavam perfis de homens milionários que tratavam como rainhas às suas submissas, ainda que depois lhes davam algumas palmadas. Era normal que causasse furor e que as pessoas quisessem praticar o BDSM acreditando que era a autêntica dominação e submissão. Mas não havia nada mais distante da realidade. A dominação e submissão ia muito além disso. Ela estava num autêntico torneio, com casais autênticos, amos e submissos e o que faziam ali era tudo menos uma novela romântica. Mesmo assim faziam tudo aquilo por que confiavam uns nos outros às cegas. E isso não era um tipo de amor? Entregar-se, dar-se daquela maneira... Uau, era estremecedor. Cleo olhou para Lion de soslaio. Lion encaixava no papel de amo, sem sombra de dúvidas. Desprendia poder, segurança e inflexão por todos os poros, ainda que fora da intimidade pudesse ser um grande companheiro. Um homem desejável na cama e fora dela. E esse homem a tinha rejeitado. Tinha sido assim, duro. Sentia coisas, mas não o que ela sentia por ele. Se isso não era uma rejeição, então o que era? E ele ainda acreditava que tinham uma conversa pendente. Ela não acreditava. “Me ama? Não, não me ama.” Se depois disso confiava que restava algo para dizer, 155


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então o grau de estupidez, que o amo barra agente barra destruidor de corações havia alcançado nesse torneio ascendia a Máster do Universo. Observou seu rosto recortado pela luz do sol. O penteado estilo militar, a fenda de seu queixo, sua sobrancelha partida, aqueles olhos azuis claros de dia e muito escuros de noite... Sua concentração e sua aprovação diante do que estava vendo. E como estava moreno... Lion era um pecado, e ela tinha sido uma tonta pecadora por reconhecer que estava apaixonada por ele. Mas se havia algo que não podia amordaçar, nem algemar, nem atar, esse era seu coração. E, pelo menos, ninguém podia dizer que não tinha sido valente ao oferecê-lo para Lion numa bandeja. Ainda que o tivesse partido. Chegou o momento em que as cinco duplas que encontraram o cofre deviam fazer ato de presença diante do Amo do Calabouço. Cleo e Lion, que ficaram para o final, não queriam utilizar nenhuma carta mais por que pensavam em dá-las para Nick e Thelma, que ainda tinham que encontrar uma chave para chegar à final do torneio. O Amo do Calabouço da zona de Gwynneth, um armário de pele escura, rastafári e olhos cinzas se chamava Snake, cumprimentou Lion e Cleo, Brutus e Olivia, Cam e Lex, três das cinco duplas que já tinham classificado para a final contra os Vilões. Lion tinha dito que Snake era um amo de Chicago e que entre suas especialidades estava o uso da cera e os eletrodos com pinças. Cleo guardou essa informação no compartimento “coisas que quero esquecer imediatamente” e apresentou o cofre vazio. Snake sorriu. Tinha os dois dentes superiores da frente um pouco separados e isso fez com que Cleo, inconscientemente passasse a língua pelos seus. —O que farão com as cartas que já não podem utilizar? Amanhã não tem porque jogar no torneio... Já estão classificados. As outras duas duplas não quiseram ceder nada e devolveram seus objetos ao Oráculo. Mas Cleo, por ter sido dupla de Nick, decidiu corroborar com ele, e dar tudo que tinha arrecadado nos três dias de torneio. —Decidimos ceder as cartas à Ama Thelma e a Tigrão. — explicou Lion. —Então, que se aproximem os escolhidos. Thelma, que estava vermelha pelo esforço realizado nos duelos com Nick e tinha seu colar de dominatrix inclinado, arrastava pelo colar de submisso o agente infiltrado, fazendo todo tipo de mimos e carícias depois de receber os castigos das mãos dos filhotes da Rainha das Aranhas. A loira se acercou ao Amo do Calabouço e olhou com agradecimento ao casal de leões. —Nós os agradecemos. — reconheceu Thelma. Cleo e Lion assentiram e sorriram para Nick. A enorme tela de cinema na qual, até agora, só se refletia a pontuação necessária para a soma dos personagens e das melhores performances do torneio, se apagou e acendeu novamente para mostrar a imagem de um grupo de pessoas sentadas em tronos dourados, com máscaras brancas venezianas e túnicas negras. Atrás delas havia um impressionante dragão dourado que devia medir uns dez metros de altura. A câmera focou em um homem que estava excelentemente caracterizado de Venger, o mal, malíssimo de Dragões e Masmorras. Este, no seu papel, olhou fixamente a tela desenhando um sorriso diabólico com seus lábios negros e seus caninos, que Cleo desejou que fossem artificiais. Uma sombra 156


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realçava seus olhos completamente escuros, sem nada das córneas ao redor. Só se via um rosto branco e pálido, por que cobria sua cabeça e seu corpo com uma espécie de traje vermelho de homem sapo. Pelas costas nasciam duas asas de morcego completamente abertas. Tinha incrustado na altura da têmpora esquerda um único chifre vermelho. Uma voz em off deu uma mensagem aos participantes: “Queridos amos e amas: Na ceia de abertura do torneio, a Rainha das Aranhas disse que nós, os Vilões, íamos propor uma prova coletiva a todas as duplas participantes e não sabiam nem como, nem quando apareceríamos.” Cleo e Lion olhavam a tela com muita atenção. Entre os Vilões estavam homens e mulheres, pelas formas que cobriam as túnicas. E havia umas cinquenta pessoas. Seriam todos membros da Old Guard? Seriam as pessoas que financiavam o torneio? Parecia que estavam numa espécie de gruta ou cova. “Esse momento chegou. Queremos que todos os participantes e os que foram eliminados e que estão nos degraus do torneio se unam por grupos de amos protagonistas e joguem com as criaturas. Queremos grupos de amo Hank, Eric, Bobby, Shelly, Presto e Diana, com seus submissos e submissas.” Cleo não queria jogar com as criaturas. Lion não permitia que ela jogasse com ninguém. Tinham um grande problema. “Aos casais que já tem sua entrada para a final, vamos propor um desafio. Não tem que jogar com os demais nem o farão aqui, no castelo dos Orcs.” Venger não abria a boca em nenhum momento, mas ria diante de cada palavra que a voz em off pronunciava. “A dupla formada por Brutus e Olivia irá à fabrica de açúcar. Ali lhes espera um grupo de Orcs e um grupo de filhotes. A outra dupla, formada por Cam e Lex, se dirigirá ao moinho. E Lady Nala e King Lion deverão ir para a masmorra. Surpreendam-nos e demonstrem que são dignos de enfrentar-nos.” Lion franziu a testa. Estavam obrigados a obedecer às ordens dos Vilões, o deixava puto de raiva que agora que já estavam classificados, tivesse que jogar uma última vez sobre suas regras. Puxou a corrente de cachorro de Cleo e aproximou-se do seu corpo. —Não gosto disso. — murmurou. Cleo encolheu os ombros. Ela também não gostava, mas desta vez não podia dizer não, ou colocariam os dois para fora. E estavam a vinte quatros horas de enfrentar cara a cara os Vilões e obter as informações que pudessem deles. Não iam jogar todo trabalho terra abaixo agora. Também não permitiria que os receios de Lion destruíssem todos os esforços realizados, durante quase um ano e meio, por Leslie, Clint, Karen e Nick. —Temos que cruzar a linha de chegada, amo. Não nos resta outra opção. E lembre-se que, por não termos entrado como casal não temos edgeplay. —Sempre resta uma opção. A palavra de segurança, Lady Nala. —King Lion — respondeu enervada — a essa altura sabe que não penso em voltar atrás. Não temos nada a perder. — Piscou com um olho e sorriu. —Joguemos. Não tenho medo. Joguemos.

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Mas Lion, sim, tinha muito a perder, ainda que Cleo não entendesse, já que não havia sido claro com ela. Tinha que jogar e aceitar a categoria que os Vilões tinham preparado para eles. Jogariam.

Dungeon Annaberg/ Masmorra Uma cela surpreendente chamada masmorra ficava na parte sul dos terrenos de Annaberg, construída no interior da montanha. Estava bastante distante das outras áreas de ação. As barras tinham oxidado com o passar do tempo, ainda existiam marcas e permaneciam alguns grilhões utilizados pelos escravos de antigamente. Todo tipo de plantas trepadeiras, desde híbridas de chá a algumas rosas, cobriam a pedra da entrada em forma de arco, ocultando aquele lugar escuro e restrito aos olhos críticos do mundo. Como plantas tão bonitas nasciam em um lugar que restringiam o crescimento das pessoas? Possivelmente, porque o melhor das pessoas devia emergir na adversidade. Séculos atrás, mulheres, homens e crianças tinham sido escravizados contra sua vontade, presos em masmorras como aquela. Em verdade, eles o faziam voluntariamente, igual ao resto dos praticantes de BDSM, por que sabiam que, se os acorrentassem, era para obter prazer. Os tempos mudaram e as pessoas evoluíam de modo incompreensível, pensou Cleo quando abriu a cela. Um Orc e um filhote da Rainha esperavam por Cleo e Lion atrás de uma mesa de ferro, com amarras nas extremidades. Para o casal de agentes o pior foi encontrar com o Orc mais alto, elegante e atlético de todos. O frio príncipe das trevas: Prince. Lion deu um passo para trás e todo seu corpo se esfriou ao comprovar que seu ex-amigo estava disposto a se vingar de algo que ele não havia feito. Ia se desforrar com Cleo. Ia jogar com eles, o desgraçado, e isso não ia permitir. Cleo não tinha porque passar por isso. O destroçaria saber que Prince tinha tocado em Cleo daquela maneira. Lion não compartilhava. Não compartilhava e ponto. —Que merda é essa? — perguntou Lion tenso, enfrentando Prince — Não faça isso, cara. O moreno de cabelos longos, parecendo um fodido espartano, começou a rir. — O que você pensa, King? Os Vilões deram a ordem e somos suas criaturas. Isto é um jogo e tem que obedecê-los. Um Amo Orc, ou seja, eu, e um Ama filhote da Rainha das Aranhas se reunirá nas masmorras com King e Nala. Essas são as diretrizes e aqui estou. —encolheu os ombros e olhou para Cleo — Olá, linda! Veio para desfrutar? —Não vai tocar nela! — gritou Lion com uma voz letal. —Então comunicarei aos Vilões que os expulsem do torneio. —Não! — exclamou Cleo. — Faremos o que tivermos que fazer, Prince. — assegurou Cleo, fingindo uma tranquilidade que não sentia. Estava aterrada. 158


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— Sabe o que vamos fazer, bonita? — perguntou Prince aproximando-se dela. — Vai estar tão cheia que não vai conseguir se mover. Hoje nos cabe um exercício DP. Enquanto eu te pego por trás, Sara — indicou a ama que estava com eles — te açoitará e te dará pequenos choques elétricos com o magicclik. Eu tenho que conseguir que os dois gozem em quinze minutos. Cleo abriu os olhos e engoliu a saliva. Dupla penetração. Choques elétricos? Isso era tortura chinesa... Não queria sentir a outro homem no seu interior, para ela bastava Lion. Só ele. E, ainda que ele não a amasse, estava muito apaixonada para aceitar que outro tocasse sua pele enquanto compartilhava seu corpo com o leão. Lion pegou Cleo pelos ombros e a virou para ele. Não queria continuar escutando Prince. —Lady Nala— apertou os dentes. Com suas palavras faria acreditar que desejava a resposta final da companheira, mas com seus olhos desolados e seu tormento demonstrava que queria deter o jogo ali. — Você está segura que quer continuar comigo? Quer que Prince jogue conosco? Eu não quero que o faça, por isso te suplico, Nala — disse com uma voz suplicante, com um gesto petrificado — que diga que não. Pronuncie o codeword e acabe com isso já. Imploro... Prince começou a rir a gargalhadas. —Fala sério, cara? Um amo implorando a sua submissa? É um patético. —Cala a boca seu cego filho de uma mãe! Sua estupidez vai ferrar tudo! — Lion encarou Prince, queria golpeá-lo. Os dois eram igualmente altos e quase roçavam nariz com nariz, mas Cleo se interpôs entre eles. —Parem! — pediu Cleo. —Te desafiarei, Prince! Vou propor um maldito duelo de cavalheiros com você! —Atreva-se, imbecil! —Respondeu o outro atrevido. —Vou fazer, King. — assegurou Cleo olhando-o de frente. Essa declaração fez que Lion se detivesse a seco. —Não fala sério. Cleo assentiu com as pupilas um pouco dilatadas pela tensão que acumulava e, sobretudo, por medo de fazer algo que, em outro tempo, tinha achado pervertido e obsceno. Mas faria e ponto final. —Sim, King. Já fiz isso outras vezes, sabe? Não sou uma novata. — murmurou para fazer ver tanto a Prince, a quem não podia enganar, como à filhote da rainha morena com um coque bem alto e olhos de avelã, a quem sim podia mentir, que não tinha medo de nada e que era Lady Nala, a mesma que tinha posto um anel constritor em Lion na primeira jornada e o tinha açoitado. Uma dupla penetração era só sexo. Nada mais. Com exceção de que o fazia tendo ao amor de sua vida entre suas pernas e, ao seu pior inimigo, atrás. Com um gesto cheio de caráter se dirigiu a Prince e disse: —Adiante. Os olhos de Lion ficaram em chamas de raiva e impotência. Cleo ia acabar com ele. — E era verdade o que me disse, o que me disse esta manhã no terraço? — perguntou incrédulo e decepcionado. —Sim, era. — refutou Cleo arrependida. —Adiante, Sara. — ordenou Prince tenso. 159


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A filhote morena se aproximou de Lion e colocou-lhe uma máscara de cabeça inteira. Uma que o proibia de ver e ouvir. Só podia respirar e falar no caso de alguém abrir o zíper da boca. Lion agradeceu pela máscara porque não queria ver nada daquilo, nem ouvir nenhum ruído desagradável. O que os olhos não veem o coração não sente. Ainda que tivesse muito claro que ia sentir coisas... Ia sentir demais e a fada ia queimá-lo. — E em mim? — Cleo perguntou a Prince. O olhar escuro do príncipe a espreitou com compaixão e também simpatia e disse: —Ponha as mãos nas costas, Nala. — ordenou sem inflexões. —Sim. —Sim, o que? —Sim, Prince. Não vou te chamar de senhor. Não te pertenço e nunca vou pertencer. — pronunciou Cleo com gosto e raiva. Prince queria machucar Lion e seguramente o fazia dessa forma. Com o senso de responsabilidade que tinha o agente Romano, saber que ela tinha que se submeter desse modo quando nunca na sua vida tinha feito um trio, estaria se remoendo por dentro. —Isso é um não definitivo à minha proposta? — arqueou a sobrancelha negra. —É. — declarou Cleo. Prince ajustou as correias vermelhas de pele nos pulsos e depois uniu a corrente que pendurava seu colar à junta das algemas. Estava imobilizada. Enquanto a tal Sara ajudava a estirar-se na mesa metálica ao privado sensorialmente Lion Romano, Prince pegou um pote vermelho de lubrificante que estava sobre o chão. —Vire-se. Cleo o fez e justo quando Prince levou suas grandes mãos para desabrochar o short negro da jovem, a porta da masmorra se abriu e apareceu a última mulher que esperava ver nesse maldito jogo macabro e desafiante. Sharon, a Rainha das Aranhas. A loira que tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e extremo, entrou na cela e sorriu à sua cria para depois olhar para Prince com todo o desdém do mundo. —Se vá, Orc. — ordenou-o. Prince deu um sobressalto, mas não afastou as mãos de cima de Cleo. —Não vou a nenhum lugar, Rainha. Este é meu cenário e é o que pediram os Vilões. — beijou a lateral do pescoço de Cleo e esta se afastou. Sharon olhou fixamente os afetados olhos verdes da jovem e depois ao corpo tenso e petrificado que Sara estava acorrentando na mesa. —O jogo mudou. Sou a Rainha e os Vilões me deixam participar em todos os jogos. Como sou sua superior, fará o que eu disser. — respondeu Sharon sem olhares. Cleo abriu os olhos e negou com a cabeça. Se ainda por cima tinha que deixar que a outra louca a açoitasse e açoitasse Lion, ou pior, que jogasse sexualmente com ele, ia se transtornar. Isso sim não suportaria. —Não vai tocar na Lady Nala.— assegurou Sharon— Eu te proíbo. —Por que? —Por que eu disse. 160


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—Alguém tem que jogar com ela. — murmurou com os dentes apertados— As normas dos Vilões... —Eu o farei, não você. Cleo abriu os olhos desmesuradamente. Como ela ia jogar? O que queria dizer com isso? Sara tossiu entusiasmada com a situação. Prince apertou os punhos e deu um passo para trás. Seus olhos negros a transpassaram e um frio destruidor arrasou a masmorra. — Desta vez não pode foder com King, cachorra. — espetou-a, cuspindo veneno com sua língua. Cleo viu como a mulher estremeceu diante daquelas duras palavras, mas seu gesto permaneceu impávido. Sharon sorriu de volta com tudo. —Pode ficar se quiser. — murmurou Sharon enquanto pegava Cleo pela mão e a afastava de Prince. —Acredito que ficarei. Sharon se posicionou atrás de Cleo para assegurar a sujeição da correia que ia do colar até os punhos. Puxou com força e isso fez com que a cabeça de Cleo caísse para trás. A loira se inclinou para falar-lhe ao ouvido em voz muito baixa. —Isto, não o faço por você, borboleta. —murmurou— O faço por Lion. — Lion não precisa da sua ajuda, muito menos eu. —É uma estúpida, criança? —perguntou assombrada. —O que disse? —Obedeça-me e cale-se. Tudo sairá bem. Cleo apertou os dentes para estudá-la melhor por debaixo de seus grandes cílios. Por acaso pensava que lhe fazia um favor? Sharon não só o fazia por Lion, fazia por si mesma. Prince se tornou mau, já não respeitava a ninguém e ela não ia permitir que fizesse mal a Lion gratuitamente. Só um cego não se dava conta do quão apaixonado estava esse amo por aquela mulher com espartilho bordado. Se Cleo jogasse com Prince e Lion tivesse que engolir esse desgosto, não superaria nunca. Igual a ela que não havia superado a reação de Prince quando os encontrou em uma situação comprometedora tempos atrás. Mas isso já passou, e ainda que as feridas permanecessem abertas e não sarassem, Sharon se via na obrigação moral de não ferir aos casais que estavam vinculados emocionalmente. Cleo e Lion estavam de um modo penoso. A jovem ruiva era especial para esse homem. E Lion era especial para a Rainha porque tinha sido seu amigo e seu escudo naquela horrível noite: a noite que transformou sua vida para sempre. — Se pretende nos ajudar deveria deixar que fôssemos daqui. —respondeu Cleo. —Ah, não— Sharon prendeu seu cabelo vermelho com o elástico negro que tinha nos pulsos e quando o fez puxou o rabo para mostrar a jovem quem é que mandava. — Cuidado com o que me fala. Agora mesmo está nas minhas mãos e a das minhas crias. E os Vilões estão vendo. — sussurrou muito mais baixo para que ela prestasse atenção — Não torne as coisas difíceis. Esta é a prova que você escolheu. Quer que Prince destroce Lion definitivamente? Ou prefere que seja eu a jogar com você? 161


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Cleo não sabia como interpretar a atitude daquela altiva mulher. De verdade queria ajudar? Olhou para Prince, que tentava escutar a conversa que ambas mulheres tinham. —Não quero destroçar Lion. —Boa garota. — assentiu mais relaxada — Eu me ocupo de você. Está com um corpete maravilhoso. —Sharon deslizou o short de Cleo pelas pernas e a acariciou com suavidade enquanto tirava a peça pelo tornozelos. — Vou te deixar no ponto, o que você acha? Cleo assentiu. Agradeceu que não a expusesse mais do que já fazia e aquilo era uma delicadeza da ama. “Estou tremendo?” Sim, estava tremendo. —Bonitas botas e bonitas pernas. — admirou como mulher, acariciando-lhe as coxas. — E, definitivamente, bonita calcinha. — sorriu ao ver a calcinha negra de látex com zíper na frente e atrás. — Tem medo de mim, Nala? Uma switch versada como você? — perguntou com tom irônico. —Não, não tenho medo. —Eu acho que tem. — juntou seu rosto com o dela— Olha... — cobriu sua própria boca com a mão para ocultar suas palavras dos Vilões e lhe disse ao pé o ouvido— É a primeira vez que faz isso? — Não. Sharon semicerrou os olhos cor de caramelo. Não acreditava e ambas sabiam disso. —Não vou te machucar. Mas Cleo não respondeu. Estava concentrada em Lion. Sara tinha tirado sua roupa e só deixou a cueca negra. Seus braços e suas pernas estavam estendidos, sujeitos em correias marrons. Respirava agitadamente e suava. Parecia que sofria muitíssimo. Cleo queria acalmá-lo e dizer que estava bem, que ia ficar bem. Quando acabasse essa jornada e se reunissem no hotel, pediria que a abraçassem e que se acalmassem mutuamente e tudo estaria resolvido. Verdade? —Te ajudo a subir na mesa. Sharon a sustentou com força enquanto Cleo ficava de joelhos sobre a fria superfície. Só o calor da pele de Lion podia tirar seu desequilíbrio. Entretanto, ele também tremia, mas de raiva. Do lado de fora, a tormenta tropical irrompeu com força e através da janela de cela a cortina de água se iluminava acompanhada por raios e relâmpagos. O cheiro de umidade ecoava através das grades. —Fique montada sobre ele. — ordenou Sharon. Ela obedeceu passando uma perna por seu abdômen e cravando os joelhos de cada lado de seu masculino quadril. Não podia apoiar-se com as mãos por que as tinha atadas às costas. Prince se inclinou na parede de pedra e observou o modo de proceder e de ordenar de Sharon. Doce e, ao mesmo tempo, convincente. Seda ou aço. Sharon tomou Cleo pelos quadris e obrigou a posicionar-se quase sobre os joelhos de Lion. —Sara, descubra o King. —Não... —Cleo engoliu saliva e mordeu a língua. Não podia dizer “não o toque ou arrancarei seus olhos”, que era justo o que queria fazer. —Shhh... —ordenou Sharon com o rabo de cavalo de Cleo na mão. 162


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Cleo assentiu e piscou enquanto olhava como os dedos da cria de aranha deslizavam a cueca para baixo e descobriam o pênis semi duro e os testículos de Lion. Estava excitado, não podia negar. —Ajuda que se endureça mais. —Sharon guiou a cabeça de Cleo até o pênis de Lion e a obrigou a lamber e excitá-lo. Cleo fechou os olhos e obedeceu. Sempre havia considerado que tinha uma grande habilidade para abstrair-se das situações que não gostava. Aquilo não a desagradava, essa era a verdade: fazer algo proibido e sensual como aquilo dava uma pitada de excitação. Mas estava sendo observada por Sharon e Prince, que eram uma espécie de eminências naqueles lares e pela outra cria, que sorria feliz de presenciar suas habilidades de felação. Em contrapartida, o único que a incomodava era que vissem Lion nu. Não importava que a vissem, mas o que Cleo queria era que não tocassem nele ou que desfrutassem de seu corpo como ela fazia. Estava descobrindo que era muito ciumenta, mas não podia evitar sentir-se assim. Para ela Lion a pertencia. Concentrou-se nele e esqueceu aos demais, ou pelo menos tentou isso, porque enquanto trabalhava em Lion, Sharon a acariciava pelas costas com uma mão e depois a fazia inclinar-se e descer para... Abaixar o zíper detrás da calcinha! “Muito bem, Cleo. Você pensa que é Lion. Não, mas Lion está abaixo... Não importa, mente perversa! Tem outro Lion igual atrás de você.”, repetia-se. Entretanto, as mãos de Sharon não eram como as de Lion. Eram mais suaves e pacientes e a acariciavam de outra maneira. Além disso, Sharon cheirava bem... Como um pêssego. Era agradável. De repente, sentiu que lhe soltou o rabo de cavalo e acariciava seu traseiro com ambas as mãos. Seguindo sua forma. Cleo ficou tensa, incomodada, por não poder afastar-se. Não podia voltar atrás. O zíper de trás deslizou com lentidão. —Relaxe, Lady Nala. — sussurrou Sharon com um tom calmante — Vai apreciar. Só pense no que está... experimentando. — Levou uma mão a sua parte da frente e também abaixou o feixe com cuidado. Depois, com movimentos hipnóticos, a obrigou a erguer-se e a colocar-se sobre a ereção de Lion. —Como está aí embaixo? —perguntou-lhe quando a tocou com os dedos. — Precisamos de ajuda? — Sara ofereceu o pote de lubrificantes que Prince havia deixado no chão e Sharon untou os dedos com ele. Sem muita cerimônia, mas com um excelente cuidado, lubrificou o pênis de Lion com o escorregadio creme e depois untou Cleo na frente e atrás. Ela gemeu e sacudiu a cabeça. Estava ficando excitada. Aquilo era um torneio, uma competição e tinha aceitado jogar com todas as consequências. Bem, essas eram as consequências. O efeito de ter aceitado o que faziam era que o corpo relaxava bem devagar e aceitava o contato e as carícias. Cleo não ia ficar tensa, não queria que doesse. —Aposto que está pensando que não importa que eu seja mulher, verdade? — perguntou Sharon — O corpo reage igual aos estímulos. “Agora é telepata?”, pensou Cleo envergonhada. —Muito bem. — disse Sharon colando seu torso nas costas de Cleo. A tomou pela cintura e instigou que baixasse pouco a pouco para empalar-se em Lion. — Assim, Lion é muito grande. 163


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—Não olhe. — espetou Cleo sem querer. Sara soltou uma exclamação afogada. Sharon arqueou a sobrancelha loira e a açoitou na nádega direita. Cleo apertou os dentes, raivosa. —Volte a me dar uma ordem, Nala e pedirei a Prince que ocupe sua boca. — Sharon empurrou os ombros, pouco a pouco, para que sentisse a penetração com mais potência. Cleo gemeu com força. Notou cada centímetro de Lion puxando-a, queimando-a e alargando-a. Oh, que bom. Era muito grosso, mas o necessitava. O necessitava neste momento. Desejava o calor de seu corpo e não queria sentir-se só. —Agora vou te encher por trás, leoa. —Zás! Deu-lhe uma cacetada na outra nádega. Pôs o cinturão negro com um pênis e ajustou o consolador fálico da cor rosa na parte frontal de sua calcinha. Passou lubrificante pelo tamanho e grossura do seu membro falso. Cleo a olhou por cima do ombro e seus olhos verdes soltavam faíscas, mas Sharon sorria divertida e provocadora. —Seguramente nunca viu um pênis rosa... —murmurou Sharon rindo dela. Ajudou-a a colocar seus seios sobre os peitos de Lion e levou os dedos sobre sua parte traseira. Cleo afundou o rosto no pescoço do agente. Começava a sentir coisas. Lion a enchia pela frente e os dedos daquela mulher a tocavam por trás... Ai, Senhor. Ai, Senhor... —O tempo começa agora. — decretou Sara girando o relógio de areia que calculava os quinze minutos. E o que veio nos quinze minutos seguintes fui uma espécie de catarse. Sara utilizava o acendedor elétrico e eletrocutava seu corpo com ele, os braços, a parte interna de suas coxas, os peitos, o bumbum nu... Depois passava o flogger e os açoites sem perdão. Lion movia o quadril para cima e para baixo e penetrava Cleo com força, ainda que sua cabeça fosse de um lado para outro, como se negasse aquela situação... Cleo levantou o rosto para olhá-lo e sem pedir permissão a ninguém agarrou o zíper da máscara de Lion com os dentes e abriu para liberar a contrição de seus lábios. —King... —sussurrou sobre ele. —Te matarei, Prince! Matarei você! — gritava descontrolado, com a voz completamente desgarrada e chorosa. Prince, que estava de braços cruzados na parede, olhou para o outro lado com gesto sério. Cleo o beijou para que se calasse e acariciou sua língua com a dele. —Por Deus, King... Não é o Prince— murmurava improdutivamente. Lion não escutava. — Não é ele... Acalme-se. — o beijou de novo para que deixasse de gritar. Sharon fazia seu trabalho, introduzindo-se nela com movimentos rítmicos, acariciando seus quadris com as mãos e agitada pelos gritos de Lion. Cleo se sentia completamente cheia. Lion a tocava num ponto tão profundo dentro dela que ficava louca e fazia que se movesse num vai e vem muito mais rápido e intenso. —Cinco minutos. — grunhiu Prince. Zás! Zás! Açoites. E, depois, queimações leves de eletricidade. A dor durava tão pouco que não sabia se era dor. E, em seguida, toda a energia transladava em golpes para seu sexo. Parecia que iam explodir e voar os dois pelos ares. —Vamos, Nala. Você está no ponto. Goze e ele gozará. — Apressou-a Sharon, controlando o relógio de areia. Com decisão, levou a mão na sua parte da frente e colocou os dedos em seu clitóris, para movê-los fazendo círculos com suavidade. 164


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—Não, não... —Sim, Nala. Claro que sim. Deixe-se ir. Agora! —Oh, Deus! — Cleo fechou os olhos, mordeu o queixo de Lion e começou a gozar com o consolador de Sharon e o pênis de King no seu interior, fazendo estragos. —Deeuuussssss! —rugiu Lion furioso, jogando a cabeça para trás e esticando todos os músculos do tórax. Tentava mover braços e pernas. Gozou com Cleo. —Filho da putaaaaa! Prince! Filho da putaaaaaa! Enganou-se com Sharon e agora se enganou comigo! Pergunta a Dom o que se passou! Pergunte a ela! Vamos ver se ela se atreve a dizer a você! Sharon deteve os quadris e retirou a mão do sexo de Cleo. Piscou incrédula. O que tinha dito Lion? Como se atrevia a dizer algo a Prince e a levantar esse assunto enterrado, novamente? A ama deu um passo para trás, impactada por esse última frase e saiu do ânus da garota. Já tinha feito seu trabalho. Tinha conseguido que Prince não tocasse em Cleo, com isso, havia acalmado o leão interior de Lion. Agora devia sair dali correndo. Porque se encarasse Prince, então, o que aconteceria? Odiava como a olhava, como a julgava, como a rebaixava a menos que merda. E doía e era tão injusto tudo... Com o rosto pálido por completo, guardou o consolador e se dispôs a sair dali, mas Prince a agarrou pelo antebraço com força e a deteve antes que desaparecesse da sua vista. —O que diz King? — exigiu saber o amo. Sharon fixou seu olhar cor de caramelo nos dedos que, como autênticas algemas, rodeavam sua pele e queimavam com somente roçá-la, como outrora. Como sempre tinha sido entre eles. Não a havia tocado desde então. Nunca mais o fez desde aquele dia. E, naquela cela, naquela masmorra, era a primeira vez que voltava a sentir seu contato. —Não disse nada. — assegurou Sharon. —Maldita seja. — Os olhos de Prince obscureceram e a desafiaram a responder. — A que se refere sobre Dominic? Sharon sorriu com tristeza e inclinou a cabeça para o lado. —Não te importou quando tudo aconteceu. Não me escutou então e fez sua própria sorte...Também não te interessa agora. —encolheu os ombros. —Desate-os e deixe que se vão. — ordenou olhando para Sara. A mulher começou a obedecer às ordens, ainda que quisesse comprar pipocas, para escutar aquela briga. Sharon afastou o braço de supetão e saiu da cela, deixando-o com a intriga e uma estranha sensação de desassossego que fazia tempos não experimentava. Por isso a seguiu. Lion queria controlar sua respiração, mas não podia. Entre a névoa da indignação, atinou que alguém estava lhe tirando as correias dos pés. As mãos de Cleo que ainda palpitavam ao seu redor tiraram a máscara de pele. Cleo o olhou assombrada e seus olhos verdes se encheram de lágrimas. — Lion... Você... você chorou? Está chorando? Não chore, por favor... — suplicou beijando as bochechas e tratando-o com doçura. —Desça. — a ordem foi clara e concisa.

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Cleo piscou confusa e pouco a pouco, se afastou para tirá-lo de seu interior. Queria limpá-lo, mas Lion não permitiu. Assim que o agente esteve livre, subiu a cueca e afastou Cleo quase a jogando da mesa e correu atrás de Prince. Enxergou-o a uns cinquenta metros. Parecia que estava discutindo com Sharon. Cleo o chamava de longe, com urgência, mas ele não podia fazer-lhe caso agora. Via tudo vermelho. Tocaram o que mais amava no mundo. O que tinham feito para machucá-lo, mas também a machucou. Cleo não tinha porque viver com essa experiência se ela não tinha escolhido. E Prince tinha sido o terceiro do trio: o puto amo vingativo e estúpido que perdeu a mulher que amava. E a tinha perdido por ser um idiota. Sharon queria o melhor para ele, não queria provocar-lhe problemas e não se defendeu, muito boba. Chegou a três metros deles, perto o suficiente para ouvir como Sharon o pedia que não a tocasse, mas Prince já não pôde dizer mais nada porque sentiu o ombro de Lion nos seus rins e depois o duro impacto do chão na maçã de seu rosto. —O que está fazendo! — gritou Sharon assustada — Pare! Lion apoiou Prince pelo peito para dar-lhe um soco em toda a cara. —Pare, King! —pedia Sharon, espantada pela agressividade e violência de Lion. —Não a ela! A ela não! — gritava Lion, com os olhos cheios de lágrimas sem deixar de socar Prince. —Não tinha direito de tocá-la! Sharon levantou as mãos para o rosto. Tinha que pedir ajuda ou Lion mataria Prince com golpes. Mas, então, Prince deu-lhe uma joelhada no estômago e Lion ficou dobrado no chão, sem respiração. O outro amo subiu em cima dele e aproveitou para socá-lo. —Você começou! Você começou! Me traiu! Era meu amigo! —Eu não te traí! — exclamou Lion e voltou a recuperar a posição e a colocar-se em cima de Prince. —Comeu a minha mulher! —gritou com o rosto compungido — Riram de mim! —Nenhum de nós dois fizemos isso! —Lion! Por favor— suplicou Sharon entrelaçando os dedos e rezando para que não dissesse nada. — Por favor... Cale-se! —O que tem para calar? — gritou Prince — Que para você não é suficiente um! Sharon apertou os dentes e negou com a cabeça. —Não insista, Prince. —pediu-lhe a mulher sobressaltada. — Então, o que? —Sharon nunca dormiu comigo. Nunca dormiu com ninguém. —King! — gritou Sharon com toda sua força. Lion a olhou com desgosto, dividido entre a decepção e a impotência. —Por que continua o protegendo? — o agente não compreendia porque Sharon não esclarecia todo aquele assunto. — Não o merece. Não te merece... Por que não se defende? —Basta, por favor. — O lindo rosto afligido da dominante suplicava que aquilo fosse só um sonho. Porque podia despertar e seguir com seus jogos desinteressados e sem emoção. 166


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— Diz para ele a fodida verdade! Faz com que se ajoelhe e lamba suas botas, caralho! Faça algo! — a compeliu Lion soltando Prince com desgosto, como se o simples fato de tocá-lo lhe desse nojo. — O que...? — Prince não entendia nada. Levantou-se sobre os joelhos e olhou de um e para o outro confuso. Sharon limpou as lágrimas e olhou surpresa. Fazia tempo que não chorava e não acreditava que ainda tivesse forças para isso. Prince quebrou seu coração, o exterminou. As coisas já não doíam como antes, exceto a velha ferida. A que sua alma carregava, a alma que compartilhou com o amor de sua vida até que decidiu menosprezá-la. Até que decidiu não acreditar nela e a partiu em duas. —Não vale a pena. Já deixei de lutar. — Sussurrou a ama, dando meia volta. —Não pode abandonar assim! — protestou Lion. —Pois o fiz. Tem que deixar de brigar. E Lion... —O que? —Não foi Prince que fez o trio com você e sua companheira. Fui eu. — O olhou por cima dos ombros, com uma expressão de desculpa, mas também de confidência. Ela tinha visto o verdadeiro sentimento de Lion por Cleo e não ia permitir que Prince quebrasse seu coração. Entendia o sentimento de possessividade por uma pessoa e não querer compartilhá-la, porque tinha sentido o mesmo por seu ex-companheiro. — Seu coração de amo segue inteiro e salvo. — sorriu com um leve toque de honra. Afastou-se no caminho de areia no qual tinha surgido aquele duelo de cavalheiros inesperados. — Agora só precisa que a reclame, por que essa garota não tem nem ideia do que sente por ela. E não é justo. Nem com você, nem com Nala. Lion se levantou do chão, estupefato, mas também agradecido. Que tivesse sido Sharon, mudava as coisas radicalmente para ele. Não tinha sido outro homem no corpo de Cleo, mas sim um brinquedo controlado por uma dominatrix. Definitivamente não era o mesmo, mas o choque, a angústia e a pressão sofrida, seguiam aí. A tensão de saber que estava no interior da mulher que amava, ao mesmo tempo que outro também desfrutava dela, na mesma vez, o tinha feito chorar de raiva como um puto adolescente. Não perdoava a nenhum dos dois. Não por agora. Prince levantou-se com lentidão, limpando a areia do corpo e o sangue do lábio partido. Recolheu os cabelos grandes e negros num rabo de cavalo baixo e, com a cabeça cabisbaixa, foi por onde tinha ido Sharon. —Deixe-a em paz, Prince! — pediu Lion com um tom que não aceitava réplica. — A quem? —As duas. Deixe a minha mulher e deixe tranquila a sua. Já fez o suficiente contra ela. Prince apertou os punhos e tencionou os ombros. “Suficiente?”, pensou o amo das trevas. Suficiente, ele? Se ele havia ferrado por todos lados! E agora parecia que ele que se enganou. Não... Não podia ser. O que estava acontecendo nesse torneio? Quando os dois amos se foram, Lion secou o dorso da mão no lábio superior, que também sangrava. Prince batia forte. Deu a volta para ir buscar Cleo e tirá-la dali. Mas Cleo estava atrás dele, com a mão sobre os lábios e os olhos cheios de lágrimas. 167


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Impactada pelo que tinha escutado ali. Completamente vestida, como se num momento antes não estivesse fazendo um trio sobre a mesa de dominação. Lion levantou o queixo. O que teria escutado? —Lion... o que queria dizer com...? —Nem uma palavra mais. Não quero ouvir nenhuma palavra mais. Vamos. — Lion se aproximou dela como um vendaval, entrelaçou seus dedos com os seus maiores e se dispôs a sair da ilha. Para ele, a jornada já tinha acabado.

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CAPÍTULO 14

Ser mulher e estar no DS é como ser a rainha do baile de formatura quando se é jovem.

A suíte do Westin Saint John não era tão cálida se Lion não estava ali com ela. Foi só chegar, ele tinha se metido no chuveiro. Cleo pensou que ele a convidaria para entrar com ele, mas o agente queria privacidade. Depois foi a vez dela e Lion aproveitou para sair. Assim, sem mais nem menos. Durante o trajeto, Lion tinha permanecido completamente em silêncio, com o rosto pálido e impassível. Choroso. Ela também não sabia o que dizer. O trio queimou ambos com chamas, como uma maldita campina seca onde não pudessem salvar nem uma fibra de grama diante do fogo abrasador. Deixou aos dois sem palavras. Sobressaltos demais: pensar que era Prince quem a possuía e depois saber que era Sharon que o fizera; escutar os gemidos de Lion, lastimosos e perceber a tensão em seu corpo debaixo dela. Tensão por fazer justamente o que não queria fazer; a briga entre os três amos e as declarações... Tudo junto tinha sido explosivo demais. O torneio estava acabado para eles. Estava reduzindo-os a um estado de nervos contínuo e de emoções cruéis. O melhor? Já estavam classificados e amanhã preparariam o equipamento para seguirem os movimentos dos Vilões durante a final. Descobririam quem eram, com a colaboração de Markus e Leslie, desvendariam o complô das submissas e o tráfico de mulheres. A equipe base já devia ter localizado Keon, o cabeça que facilitava o popper. Assim que, mais ou menos, já tinha ligado os fios soltos e a resolução do caso começava a tomar forma. Mas os sentimentos de Lion e Cleo foram prejudicados, expostos e pisoteados. Por isso Lion não queria olhar nos olhos dela desde que chegaram ao hotel. Por esse motivo, tinha se banhado e saído, por que não suportava estar no mesmo quarto que ela. E a verdade era que ela não sabia como falar com ele depois do sucedido na masmorra e do que aconteceu com Prince e Sharon. Como devia falar? O que devia perguntar? Sharon tinha dito a verdade? O que Lion sentia por ela na realidade? Por que naquela manhã ficou claro que Lion não sentia nada por ela, não o amor cego que ela professava. Mas a Rainha das Aranhas tinha jogado na cara dele justamente o contrário, pelo menos o tom que declarava tudo dava a entender que o agente Romano podia sim ter sentimentos por ela. Algo mais... Não sabia o que... mas algo. E depois tinha a resposta convincente e inflexível que deu ao príncipe das trevas: “Deixa a minha mulher. E deixa tranquila de uma vez a sua.” Deus... Falava dela como sua mulher? Cleo afundou o rosto entre seus joelhos. Estava no terraço, submersa na jacuzzi de madeira. Queria sentir-se limpa por fora e por dentro. E queria lutar por Lion. Necessitava que ele falasse e a fizesse entender tudo o que ela não compreendia, sobre ele, sobre ela, sobre os dois. Um homem não chorava se não estivesse envolvido seu amor próprio e seu próprio coração no meio. E Lion estava chorando como uma criança pequena. O fez durante o trio e inclusive

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depois. Aquilo queria dizer alguma coisa. Estava disposta a encurralá-lo de uma vez por todas. Faria isso quando voltasse de onde fosse que estivesse.

Precisava concentrar-se. Necessitava falar com alguém que não estivesse emocionalmente envolvido com ele. No maldito torneio estava envolvido com Cleo, com Sharon e Prince, com Leslie e Nick, e também com a morte de seu melhor amigo, Clint. Não suportava mais. Cleo queria destruí-lo, não encontrava outra razão para compreender a valentia e a impetuosidade dessa mulher na hora de desafiá-lo e de fazer o que ele proibia. E ainda assim, ainda que o ferisse, ainda que provocasse uma úlcera estomacal, admirava-a por isso. Cleo seria Cleo, para sempre. Nunca deixaria que alguém a pisoteasse. E ele precisava de alguém assim do seu lado. Quando a meteram no caso não sabia como Cleo ia encarar sua superioridade e suas ordens. Lion sabia como podia chegar a ser inflexível e duro, mas ele sabia que Cleo via a diferença. Na cama sabia ser submissa e, ao mesmo tempo, provocadora. Fora dela não aceitava nenhuma ordem, a condenada. Sinal de que não estendia sua submissão nesse âmbito e isso o agradava. Por que estava apaixonado por Cleo, com seu lado bom e seu lado não tão bom assim. Amava-a pelo que era, por como brigava e pelo pouco que escondia seus sentimentos, ao contrário dele. Aquela manhã disse que o amava, assim, sem mais. E Lion tinha sido o homem mais feliz e mais assustado do mundo ao escutar isso. Ele que tentou controlar suas emoções e o louco batimento de seu coração, ele que acreditava ter tudo sobre controle. Ele foi derrotado em duas palavras: “Te amo”. Por que importaria então se estavam no torneio ou não? O que importaria se era um bom momento para isso ou não? A única coisa que tinha que deixar claro para Cleo era que, se o amava, tinha que respeitar suas decisões. Ela saberia que o feria, e ele exigiria em troco que dissesse o que a feria, por que não pensava em machucá-la, por que não queria que essa maldita mulher passasse alguma vez pelo maldito tormento que ele tinha vivido naquela masmorra de plantação de açúcar. Annaberg seria lembrado para sempre como seu inferno particular. Estava em Bay Cruz. Olhou ao seu redor, vigiando que ninguém visse o que ia fazer e adentrou num dos dois furgões de surfistas amarelos Volkswagen onde estava toda a equipe da estação de trabalho, disfarçados e caracterizados como surfistas. Quando ele entrou fizeram silêncio. A estação base observava tudo o que gravava a câmera de Cleo, assim que transmitia a expressão de seu rosto e haviam presenciado o que viveu na masmorra. Agradeceu que os três agentes não levantassem os olhos dos computadores, com exceção de Jimmy, que se dirigiu a ele e deu-lhe a mão. 170


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—Agente Romano. — Jimmy o olhou de frente, com seu rastafári loiro e sua barba mal feita. —O que temos? —preferia ir direto ao assunto. —Seguimos os rastros de Keon e temos tudo sobre controle. Ontem de noite, depois que fez a entrega no Prancha do Mar, deixou o quad no complexo residencial de Calabash Boom. Temos um par de agentes seguindo seus movimentos e controlando-os. Está num edifício de dois andares com quatro vizinhos. —Não é sua residência. — afirmou Lion. Um narcotraficante que desenvolvia drogas ganhava milhões de dólares mensalmente, como ia viver num lugar assim... —Não, óbvio que não. É seu laboratório e os vizinhos trabalham para ele. —Bom, amanhã fará a última entrega. — Lion deu uma olhada nos monitores. Cada um deles refletia imagens da ilha, portos e cabos. —Ninguém sabe onde se celebrará o final do torneio, mas podemos adiantar seus movimentos se vemos onde e a quem Keon deixa seu último pacote. —Sim, senhor. —O que mais? Analisaram minha amostra? O que tinham colocado na minha bebida? —É uma mistura líquida de cristal e Popper. Aumenta muito a libido e muda a percepção dos consumidores, lhes dá a impressão de falsa paixão e explora o desejo sexual. Talvez tenham servido nos cubos de gelo ou colocaram diretamente no rum. É indispensável servir essa droga em bom estado, por isso tem que ser consumido poucas horas depois de sua elaboração. —Falsa paixão? — perguntou Lion. Se a droga fazia tudo isso, talvez Cleo não tivesse dito que o amava de verdade... Porra! Estava ficando louco! —Sim. É uma loucura senhor. — tocou na tez. — Pode fazer acreditar que está loucamente apaixonado, inclusive, por um puto elefante e provoca que queira ter relações sexuais insanamente. Ideal para que as submissas se mostrem apaixonadas por seus amos. —Obrigado pelo exemplo gráfico! — Sua voz estava cheia de sarcasmo. —De nada, senhor. Separamos o popper do cristal e percebemos que o primeiro contêm umas pequenas modificações. Incluíram uma droga supressora de dor. É uma molécula chamada URB937 que inibe a anandamida. —Interessante. Gostam que aguentem. —Sim, senhor. —O que encontrou no telefone de Claudia? Jimmy deu um meio sorriso e ofereceu a cadeira livre junto ao seu computador. —Coisas muito interessantes. —Me explique. — Lion sentou-se. Seria todo ouvidos. Jimmy passou as mãos nervosamente sobre os rastafáris. —Bom. Copiamos sua memória e agora temos toda a informação daqueles que tentavam entrar em contato com ela. Rastreamos o telefone do qual saiu àquela fotomontagem com um programa espião GPS. A pessoa que enviou a foto está aqui em Westin Saint John, mas não temos a localização exata. —Ou seja, o fotógrafo pode ser um participante do torneio. — Um traidor? E se era o próprio espião? E por que iam fazer isso com eles? Suspeitavam de algo? 171


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—Sim, sem dúvidas. Queriam provocá-lo. —Não existe nenhuma forma de que eu possa seguir a posição desse telefone? Se encontrasse seu portador, o interrogaria e o deixaria fora do fogo cruzado. —Não seria muito arriscado? Se era ou não, não importava. Situações desesperadas pediam medidas desesperadas. —Quero saber por que motivo fez essa foto e que me digam quem deu a ordem para fazê-lo. —Sim, senhor. Talvez Mitch possa fazê-lo. O que diz, Mitch? Mitch era um dos caras que se encarregavam da informática e da nanotecnologia da missão. Estava sentado no final do furgão, concentrado num pequeno chip. Usava óculos e o cabelo muito negro e encaracolado e vestia bermudas com camisa havaiana. —Mitch? — repetiu Jimmy. —Sim, com certeza. — respondeu sem levantar os olhos do chip. —Tem seu HTC aqui, senhor? Lion o tirou do bolso traseiro de sua calça e o entregou. —Aqui está. —Me dê uma hora e eu o entregarei. Lion olhou seu relógio. Sim. Podia dar uma hora. —Cleo e eu não assistiremos esta noite ao jantar do torneio. — Explicou. — Será na praia e temos... coisas a resolver para amanhã. — Coisas como deixar claro o que havia entre eles antes de chegar à etapa final. — mas se aparecermos, será só para encontrar o fodido infiltrado. —Entendo, senhor. Tem mais uma coisa. Pediu que registrasse todas as chamadas feitas e saídas do celular de Claudia. É óbvio que tem contatos em todas as partes, desde Washington e Chicago, até Nova York... —É uma Ama Switch muito popular. Conheço-a desde muito tempo, mas já não confio em ninguém. —Seu telefone tem muito poucos números gravados. Um celular circunstancial. Mesmo assim, durante esses dias recebeu várias chamadas de um número oculto. Estamos custando para descobri-lo e talvez porque é um número fixo. Utilizam um programa especial que dá cobertura para que possamos fazer chamadas de volta ou indicar a localização via satélite. Assim que estamos esperando que voltem a ligar, ou bem, que localizemos o local exato de onde emitem as chamadas. Entretanto, até agora, pelo perímetro que sinaliza o rastreador, a chamada vem do estado de Louisiana, mas ainda não sabemos o ponto exato. Louisiana? O que teria Claudia a ver com Louisiana? Que estranho. —Em algumas horas teremos e conheceremos exatamente sua localização. —De acordo, Jimmy. Algo mais? —Por agora, nada mais senhor. —Bom. —Lion levantou com decisão. Suas suspeitas começavam a concretizar-se deixando uma autêntica prova. Tinha que pisar em ovos. —Amanhã será o grande dia. Os Vilões não farão nada no torneio, isso está claro. Seguramente, jogarão na final com os amos protagonistas finalistas e farão seu papel. Mas a festa privada vem depois. Levarão as submissas que prepararam para a noite de Walpurgis e desfrutarão de sua própria festa. E, por fim, descobriremos o que 172


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fazem com elas e quem são os envolvidos. — esfregou sua nuca com insistência. —Seja como for, devemos segui-los. Fiquem atentos aos movimentos seguintes de Keon. Se utilizam novamente a droga melhorada, poderiam fazer a entrega horas antes da noite privada de Walpurgis, assim saberemos qual é o lugar do encontro dos Vilões. Sabemos que a organização nos leva amanhã a Ilha de Saint Croix. Essa é a última jornada do torneio e lá nos hospedaremos. Analisem bem a área e controlem qualquer movimento estranho. Deem uma olhada nas balsas e repassem cada uma das identidades dos turistas. —Estaremos muito alertas, senhor. Faremos isso. —Eu sei, Jimmy. —Lion lhe deu a mão e pegou uma cerveja da geladeira do furgão. —Estão fazendo um bom trabalho, garotos. — Cumprimento-os e saiu do Volkswagen. —Volto daqui a pouco para pegar o HTC. Caminharia e tentaria relaxar e pensar, porque tinha muito que resolver. Com ele mesmo e com sua mulher. As horas decisivas se aproximavam. Leslie entraria na noite de Walpurgis como membro do SVR na qualidade de submissa e Cleo e Lion também o fariam, como membros do FBI. A pergunta era: Como?

Seus olhos verdes liam o convite pessoal para assistir a uma reunião particular com os Vilões essa mesma noite. Um dia antes da final. Dentro do casaco estava a carta da organização, com o selo de Dragões e Masmorras DS, a insígnia dos Vilões e a frase: “Os vilões requerem sua presença depois do jantar da organização. Pedimos discrição.” Uma limusine a esperaria na recepção do resort às nove e a levaria ao local. Cleo não podia acreditar. Tinha-a justo ali, a entrada ao alcance de suas mãos. Poder entrar ou não entrar. Só, sem Lion. Sem o agente encarregado. Outra vez. Lion não chegou ainda, mas ela já estava se trocando. O jantar se celebraria na praia do hotel. Um jantar exclusivo para os membros do torneio. Tudo estava decorado com tochas. A lua se assomava entre nuvens e já não chovia. O torneio tinha organizado uma festa luau, inspirada no Havaí. Usava um lindo vestido de saia rodada e negra com um espartilho. Pôs sandálias de tiras presas nos tornozelos e baixas para caminhar na areia, o cabelo solto e desgrenhado dava-lhe um ar de mulher fatal e a maquiagem ocultava seu medo e vergonha. Acompanhava-a seu inseparável colar de submissa. Acariciou a peça de quebra-cabeça tatuado no interior de seu pulso. Não sabia nada dele, não ligou para dizer se ia chegar ou não. Pareciam um casal, mas não eram. Tinha utilizado aquele tempo de solidão para fazer uma introspecção sobre os passos errôneos realizados durante o torneio. Tinha o aval de Montgomery para estar ali. Podia ser que tivesse entrado de um modo muito fortuito e agressivo demais e que Lion não a quisesse ali. Mas tinha ganhado o direito de participar. Talvez suas atitudes combatentes e suas ações inconsequentes não fossem completamente acertadas, mas sim deram frutos. Recebeu informações e isso era importante. Por que tinha que se negar a jogar no torneio 173


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se como agente infiltrada era o que tinha que fazer? Por que devia ficar atrás nas provas se estava decidida a não dar o braço a torcer? Queria chegar à final, por ela mesma e por todos os submissos e submissas que os Vilões tinham em seu poder de forma ilegal. Mas seus desejos batiam de frente com os de Lion. Se fosse por ele, nunca a teriam aceitado na missão, mas bem que tinha se aproveitado dela durante a semana de dominação. Por quê? Por que se o desagradava tanto tê-la ali, havia aceitado jogar com ela, a discipliná-la? Amava-a ou não amava? Tudo parecia indicar que não, até que presenciou a briga com Prince e Sharon. Desde então, já não sabia no que acreditar, tinha um nó de angústia e insegurança no peito, que não sabia como desfazer. Só Lion podia desatá-lo ou atá-lo com mais força. Com isso em mente, abandonou a suíte e desceu para praia, porque a festa tinha começado. Quando chegou ao luau encontrou Brutus, Olivia, Lex e Cam, que conversavam animadamente entre si, bebendo num coco natural com uns guarda-chuvinhas amarelos. Olharam-na e levantaram a bebida para cumprimentá-la, animando-a a beber com eles. Cleo estava só, Lion não a acompanhava, assim que o melhor seria compartilhar essa folga com os demais participantes. Foi ao balcão livre e pediu o mesmo que eles estavam tomando. Quando se virou com o coco natural congelado, colidiu com Sharon, que estava com um vestido parecido com o dela, mas em tons púrpuras. A loira a olhou diretamente nos olhos, oscilando levemente seus olhos cor de caramelo. Cleo se surpreendeu ao não experimentar nem ódio, nem raiva pela impressionante loira. Nem sequer ciúmes ou inveja. Outro tipo de energia dançava sobre elas. Sharon foi suave na masmorra, não deixou de fazer nada que fazia com seus submissos, mas Cleo notou que tentava ser delicada e compreensiva ao tocá-la e estava agradecida. Sobretudo porque depois de presenciar a discussão que prosseguiu ao trio, entendeu que Sharon não fez nada para magoar Lion. Por que a Rainha das Aranhas sabia algo sobre Lion que ela não sabia. —Como você está, Lady Nala? — perguntou Sharon, com tom indulgente. —Bem, obrigada! Uma noite maravilhosa. —fingia sem se importar se a outra mulher percebia que estava atuando. Sharon deu um gole em sua bebida de groselha. Cheirava muito bem. —Divertiu-se comigo? —Sua preocupação e seu interesse eram autênticos. As sobrancelhas vermelhas de Cleo se elevaram e aproveitou o gole da bebida de coco congelada. —Tudo o que alguém pode se divertir quando é obrigado a jogar. — respondeu como uma especialista em dominação e submissão. Como se toda a vida tivesse feito trios, ainda que Sharon soubesse que não. — Mas parece que está preocupada de verdade, não será que está se apaixonando por mim? A Rainha das Aranhas se inclinou para ela. —Eu já não posso me apaixonar, gatinha. Só gosto de dar prazer, não me importo se o dou ao sexo masculino ou feminino. Sou uma dominante muito aberta. — Os brincos de brilhantes vermelhos que usava reluziam debaixo da luz das tochas. —E saiba que não me alegra ter te submetido. Disse a você o que aconteceria se caísse nas minhas mãos. — sorriu insolente. 174


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Por acaso essa mulher não cansava de interpretar o papel de víbora? Ou na verdade é assim despreocupada e fria? —A mim não foi alguém que eu não teria permitido. — espetou com voz clara e segura — Pode me submeter, Rainha. — replicou Cleo com o mesmo tom que ela, copiando suas palavras. — Você me deu prazer, isso na minha terra se chama servir. Não me submeteu. Sharon ficou sem palavras. Sorriu, concordando com a sua resposta, como se houvesse gostado da resposta e acalmasse uma parte de sua consciência. Olhou ao seu redor. — E King? Por que não está com você? —Não sei. — Encolheu os ombros, de repente já não fazia sentido fingir ou mentir para Sharon. Ficaram caladas, uma do lado da outra, olhando como as pessoas dançavam, brindavam e comiam do Buffet livre. Todos pareciam felizes por estarem ali. Nick, entre almofadas como um marajá, abria a boca taciturno, enquanto Thelma o alimentava, sentada sobre suas coxas, oferecendo camarões com um molho rosa. O submisso levantou o rosto para ela, implorando que Cleo o tirasse dali e Cleo não pode evitar morder os lábios para não rir. Desviou a vista para o perfil de Sharon. Era alta, esbelta e elegante. O cabelo loiro soltava lampejos mais claros e dourados, segundo iluminavam-na as luzes e as tochas. Rodeava-a uma essência guerreira e defensiva, mas atrás dessa armadura, Cleo podia divisar a dor em seu coração. —Prince também não veio. — murmurou Cleo. —Melhor que não venham essa noite. — tocou os lábios e a sobrancelha, fazendo referência as marcas que ambos exibiam no rosto. — Ninguém sabe o que aconteceu, a área da briga estava livre das câmeras. A organização não aceita alterações desse tipo a não ser que seja um duelo de cavalheiro oficial, em um ringue, como os que houveram durante o torneio. —Entendo. —Sabe que Lion tem a marca na sobrancelha por culpa do Prince? Não é a primeira vez que brigam. Não. Não sabia. E receber essa informação a inquietou. Quando lhe diriam o que aconteceu entre Sharon e Prince? Ardia de vontade que o dissessem. —Como aconteceu? —Faz mais de um ano. Encontraram-se em um local onde eu também estava. Prince se embebedou e se excedeu. Lion quis ajudá-lo a sair do local, mas Prince se alterou e lhe deu um soco... Tinha um anel no dedo e cortou a sobrancelha de Lion. —Bom... Lion não tinha me dito nada. Antes eram bons amigos, verdade? —Antes todos éramos muitas coisas que agora não somos mais. Não tem porque pensar nisso.— respondeu sem cerimônias. —Acima de tudo o passado dói, verdade Rainha? —Você não sabe nada de mim ou do meu passado. —Sei do seu presente e o pouco que pude ver é que tem sonhos, como qualquer mulher apaixonada e não correspondida. E juraria que Prince tem muito a ver com seu desdém. 175


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—Não passe do limite, linda. Eu e você não somos amigas. —Nisso te dou razão. — Cleo levantou a taça com um gesto rebelde e temerário. — Minhas amigas não comem meu cú. Sharon começou a rir um pouco mais relaxada. Ambas beberam suas bebidas tropicais novamente. — O que queria dizer com aquilo que disse para Lion esta manhã enquanto brigava com Prince? — perguntou Cleo. Qualquer informação seria bem recebida. Sharon compreendeu no mesmo instante sobre o que se referia a jovem desbocada. — Quis dizer exatamente o que disse. O que aconteceu, Lady Nala? — Olhou-a por cima de sua bebida avermelhada. — Não sabe como baixar a guarda do Rei Leão? Cleo teve vontade de soltar uma gargalhada. Era especialista em tirar Lion do sério, essa mulher não tinha nem ideia. —O que não sei é como fazer um animal falar. — respondeu. Sharon a olhou com impaciência. — Faço como em um jogo da organização DS. Nem os objetos, nem os animais falam verdade? Mas isso não nos impede de jogar com eles. O que tem que fazer é que entrem no seu jogo e que aceitem que têm que te obedecer. Obrigue o Leão a falar e dome o homem. Cleo tinha invertido a frase. Teria dito: obrigue o homem a falar e dome o leão, mas Sharon queria dar a entender o que queria dar a entender: o homem era mais selvagem que o animal. —Obrigada. —soltou Cleo de uma vez. O tom foi tão sincero que Sharon notou. —Por que me agradece switch? — perguntou incomodada, desejando retirar essas palavras da boca de Cleo. —Por atuar na masmorra. —Não o fiz... —Já sei que não fez por mim. — cortou Cleo levantando a mão livre. — Mas se fez por Lion, também fez por mim e eu te agradeço. A loira deixou escapar um ruidinho incrédulo de seus lábios. —Não foi só por Lion. Foi pela minha própria saúde mental. — respondeu sombria. — Existem coisas que não posso permitir e pelas quais não passo... —recompôs-se rapidamente, afastando seus demônios. — nem como ama, — pontuou piscando o olho — nem como mulher. Todas temos nosso leões, verdade? — deu um passo se afastando dela e mandou um beijo pelo ar. —Um prazer falar com você, leoa. Parabéns por chegar à final. —Obrigada. — respondeu Cleo sem querer falar isso, observando como a esplêndida dominatrix se afastava na multidão. Estava conhecendo indivíduos inquietantes e diferentes de intensas personalidades. Prince, Sharon, Markus e o próprio Nick... Que enrolada história haveria por trás dele? Seguramente não tão emocionante como a que havia entre ela e Lion. Ninguém sabia que eram agentes federais e ninguém podia suspeitar nunca, ou tudo acabaria muito mal para eles.

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Procurou no meio da multidão para ver se achava Claudia, mas, desta vez, a ama switch não estava no jantar. Deixou o coco sobre o balcão e afastou um par de Criaturas que desejavam dança com ela, mas ela não tinha vontade de dançar, não tinha nenhuma performance para fazer. Despediu-se de Nick e desejou que seu amigo loiro se livrasse logo de Thelma, por que o agente submisso tinha olheiras e parecia muito cansado. Depois de deixar a areia da praia particular de Westin se dirigiu à área das piscinas, passou rápido pelo quiosque de madeira e as palhas da ponte da piscina maior. Esperava, com todo coração, que Lion não tivesse voltado a jogar e a tivesse deixado só e fora da missão. Isso não poderia superar jamais. Então escutou um gemido e um golpe duro e seco. Cleo olhou para trás e concentrou seus olhos verdes no quiosque. O som tinha vindo dali. Cleo se aproximou pouco a pouco, na ponta dos pés e aproximou sua cabeça do interior. Ficou consternada. O agente Romano estava sentado sobre as costas de um homem moreno, sem camisa, com calças abaixadas até os joelhos e bunda a mostra. Tinha tatuagens de garras pelas costas. Lion torcia seu braço e o deixou inconsciente com um golpe na cabeça. —Lion? — perguntou Cleo atônita — Mas o que é isso? Lion levantou seus olhos azuis escuros, levantou os braços e a puxou para dentro da cabana, passando-a por cima do balcão. —O que faz aqui? — perguntou Lion. —Eu? Quem é esse homem? E o que faz você aqui? Lion deu uma olhada na sua roupa e deu um olhar interrogativo. Essa pergunta ele devia fazer, mas falariam disso mais tarde. —Trabalhando. — levantou-se suado, passando o antebraço pelo rosto e respirando com dificuldade. — Este cara fez a foto. —Como? A foto que supostamente recebeu de Claudia? —Sim, merda, Cleo — disse esgotado. —Quanto mais perto chego da verdade, menos gosto. Cleo engoliu saliva e se aproximou do homem imóvel. —Quem é? —Se chama Derek. Faz parte das criaturas, um switch. — o carregou pelos ombros e o enfiou, preso pelos pés e pelas mãos e amordaçado, debaixo do balcão do bar. Cleo se agachou com ele. —Onde... Onde você esteve, Lion? — necessitava mais respostas. Tinha um homem inconsciente no quiosque. — Como o encontrou? Se o deixarmos aqui, nos denunciará quando acordar... —Não, não o fará. — respondeu Lion. —Como você está certo disso? —Por isso. — Tirou um frasquinho com uma pequena agulha. — Versed líquido. Provoca amnésia. Cleo ficou horrorizada. —Isso é legal? —Para nós sim. — disse Lion. Cleo tapou o rosto com ambas as mãos, negando repetidamente. 177


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—Derek é o cara que fez a foto da sua montagem, Cleo. —Como você sabe disso? Como tem tanta certeza? —Por que a noite que levei Claudia e Sharon era com a intenção de aproveitar alguma distração e ficar com o telefone dela. Queria saber quem tinha enviado a montagem e, a parte, precisava investigar um pouco Claudia, por que haviam coisas sobre ela que não encaixavam. Hoje... — sentou-se ao seu lado— necessitava clarear minhas ideias. Fui à estação base e recolhi a informação que pegaram do celular. Colocaram um programa no HTC para localizar o local do telefone que estávamos seguindo via GPS. Estava no hotel. O segui e o encontrei. Estava saindo da festa. — O que te disse, Lion? O que você averiguou? Lion inspirou e levantou-se pouco a pouco. —Vamos sair daqui. — a pegou pela mão e ajudou a pular o balcão do bar. —Aonde vamos? —Para a suíte. —Lá não podemos falar... —Podemos sim. — ele assegurou — Jimmy e Mitch me entregaram um anulador de áudio. Interfere nos semicondutores dos gravadores das câmeras e de qualquer computador que exista no quarto. É como um IPod nano. —Jimmy e Mitch? Foi ver a equipe da estação? Por que não me deixou ir com você? — deteve-se secamente, dando-lhe um olhar acusador. — Por que me mantém à margem dos seus movimentos? Trabalhamos juntos e não me informa de nada que faz! — protestou furiosamente. Lion a agarrou e jogou dentro do elevador. Ali encurralou-a contra a parede e jogou seu corpo contra o dela. —E isso não te lembra de alguém? Verdade que se irrita que a deixem de fora, Lady Nala? Cleo revirou os olhos com compreensão. Sim. Ela tinha feito o mesmo. Lambeu os lábios, consciente do peso do seu corpo, do cheiro limpo de sua pele o do bem que ficava naquela polo verde escura justa. —Não custava nada me dizer. —sussurrou. Deus... a irritava. Irritava por dentro e, ao mesmo tempo, amava-o. —Sim, isso mesmo pensei quando cheguei e não vi nem a merda de um bilhete que me dissesse onde estava. Alem disso, esta conversa é como um déjà vu. Não a tivemos ontem? E antes de ontem? Ah não, claro— revirou os olhos — então era você que o fazia e eu que recriminava e te exigia que, como seu superior, devia me informar e não fazer nada da sua cabeça, como de verdade, fez desde que começou o torneio. Cleo abaixou os olhos e cravou-os nas pontas dos seus dedos do pé com unhas francesas, como os dedos de suas mãos. Lion a levou pelo corredor até chegar à suíte. Abriu a porta e pegou o anulador de seu bolso. Era como um IPod. Nisso Lion tinha razão. Deixou sobre a mesa e ligou. —Vai me contar tudo que descobriu sobre Claudia? — perguntou apoiando-se na porta fechada. — mas não precisa dizer que é uma cachorra sociopata, porque isso eu já sei. Por que começou a suspeitar dela? 178


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Lion se virou e a olhou com atenção. Os separavam uns dois metros de distância, mas o espaço entre eles ardia. — Se vestiu assim para mim? Por que tenho a sensação de que não foi por isso? —Não responda com mais perguntas. —Claudia tinha jogado comigo outras vezes. Eu tinha ido atrás dela para conseguir informações sobre as análises de sangue dos participantes e averiguar para onde enviavam. Mas nunca consegui essa informação por que me disse que não dispunha dela. Cleo apertou os dentes e olhou para o outro lado. Certo, Lion tinha um passado e disso já sabia, mas não gostava. —Vocês fizeram sexo? —Sim, sexo BDSM. —Como o que faz comigo. —Está tentando iniciar um briga, Cleo? — perguntou sussurrando. Cleo negou com a cabeça. —Perdão, senhor. Continue, não vou te interromper mais. Lion suspirou e deixou a cabeça cair para trás. —Claudia é um Ama Switch muito popular. Isso você já sabe. Minha intenção ao entrar com ela era a de chegar à final com total segurança. No domingo, quando chegamos às Ilhas Virgens, caiu algo de sua mochila que me pareceu bastante estranho. — entrou no banheiro. Tirou a polo pela cabeça e se dispôs a lavar as mãos com sabão. — Um pequeno pacote de piercings de aço, ideais para a área do períneo. Num estremo tinham um M e no outro um P. —As iniciais de Mistress Pain. —completou atenta, apoiando-se na porta do banheiro e olhando-o através do espelho. “Ai que delicia que é esse moreno.” —Exato, senhorita Connelly. São piercings de propriedade entre amos e submisso. Qual era a necessidade de Claudia de trazer uma bolsa com esses apetrechos se ia ser minha escrava? Quando pensava em usá-los e para que? — Os corpos sem identificação dos submissos achados no sul dos Estados Unidos tinham furos entre os testículos e o ânus. Sinal de que tinham usado piercings. Estava pensando na Claudia? —perguntou assombrada — De verdade? Lion encolheu os ombros. Abaixou a cabeça e molhou o rosto. —Para começar, me surpreendeu que tivesse me aceitado de novo, para desfrutar das atividades do torneio, quando você a eliminou na mesma segunda. E, depois, ontem a noite disse algo surpreendente, me mostrou a fotografia que tinham enviado para me desestabilizar e me deixar ciumento e disse claramente que era em Peter Bay. —Como sabia? Por que sabia que era Peter Bay? Markus disse que a localização de sua casa era secreta e que só os Vilões sabiam, porque foram eles que a forneceram. — A isso me refiro. Claudia sabia e possivelmente deixou escapulir. Por isso queria contatar quem enviou a foto e saber quem tinha dado a ordem que o fizesse. E sabe o que me disse? Que sua ama o pediu. E quem é sua ama? —Quem? 179


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—A mesmíssima espiã, conhecida secretamente por seus submissos como... Mistress Pain. E tinha abaixado as calças do submisso para comprovar se tinha o piercing peniano. — se justificou — Não sou gay, não fiz nada com ele. —Não duvido. —respondeu divertida. — A questão é que esse cara tinha piercing de propriedade, com um M e um P nos seus extremos. —Meu Deus... — Cleo cobriu a boca com a mão. Claudia era a espiã e fazia parte dos Vilões. Incrível. Sabia que não gostava dessa mulher, mas não imaginava que estava envolvida com os Vilões. — Claudia é a espiã? —Claudia conhece a todos os participantes do torneio e sabe seus pontos fracos. A espiã é uma delatora. Os Vilões necessitavam de sua informação para fazer as provas deste dia, para os desafios grupais. Claudia sabia que você era meu ponto fraco e você não ajudou quando se atreveu a tirá-la do torneio nas primeiras trocas. E então decidiu foder-me com a foto e com o trio. Por isso os Vilões plantaram a prova. Tudo se encaixa. —Então, se Mistress Pain é a espiã... Ela sabe quem são os Vilões. Trabalha com eles. —Obviamente. Devemos segui-la e ficar atentos a seus movimentos. Ela nos levará diretamente até eles. Por agora, tenho uma cópia de seu telefone e receberei no meu HTC as chamadas recebidas pela Claudia, assim que ela fizer alguma a partir de agora. —Ela fez mais alguma ? —Não, até o momento não. —Estranho. —Sim, é verdade. — confirmou Lion— Além disso, a equipe da estação descobriu que as chamadas do número oculto que recebia ultimamente durante esses dias vem de Louisiana. Isso é mais estranho ainda. Cleo teve vontade de gritar e bater na parede. Claudia tinha enganado a todo mundo. Dormiu com Lion enganando-o desde o princípio. —Você acha que Claudia percebeu que seu interesse pela análise de sangue dos participantes era muito óbvia? Acha que Claudia suspeitava de você em algum momento? —Duvido, Cleo. Se Claudia decidiu jogar comigo assim, não é por que suspeitava de mim, é porque... Por que está apaixonada por mim, Cleo. — respondeu sem papas na língua. Cleo se afastou da porta do banheiro, sorrindo sem nenhuma vontade. —Você dormiu com ela sabendo que te amava? — Era uma acusação mais que uma pergunta. — Uh, que cruel, senhor Romano. —Interpreto um papel. — Lion seguiu com a atitude combatente e jogou a toalha que tinha nas mãos ao chão. — Não fale como se fosse um porco ou como se fosse uma má pessoa. Este é meu trabalho, estou infiltrado e comprometido até os ossos. Se tenho que dormir com alguém o faço. Cleo abraçou a si mesma, se afastando da proximidade de Lion e de seu comportamento visceral. —Como fez comigo? Tinha que dormir comigo? Fez isso, verdade? — Aquilo já era um assunto pessoal, mas precisava expô-lo. 180


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—Não continue. —Tinha que foder comigo? — continuou com voz monótona. — O fez. —Não faça isso, não avalie o que você e eu temos assim. — suplicou afetado por suas palavras. —Tenho muito para te dizer. —Avalio como o que é. Como o que você me demonstrou. Hoje te disse que te amo e você me disse que não. O que tem mais para dizer? Nos conhecemos faz anos e a vida fez com que você e eu estivéssemos envolvidos num caso com estas características. Mas já é a segunda vez que te digo Lion, que digo que te amo e que sempre foi você... E você sempre foge. —Cleo, você está a ponto de cruzar uma linha muito tênue. — jurou imóvel e tenso. — Uma que mudará tudo entre nós. Não faça isso. A jovem lembrou das palavras de Sharon “Obrigue o leão a falar e dome o homem.” Como provocar um animal que fosse capaz de falar? Mediante a estimulação dos seus instintos. —Sabe? Isso é algo que entendi hoje. —Cleo devia seguir com seu papel e fazer Lion acreditar que ela controlava a situação. Que nada do que ele dizia a afetava. — Você mudou tudo entre nós. Podia deixar-me tranquila, podia vir outro amo e disciplinar-me, mas não, foi você. E isso mudou tudo. Para mim significou algo diferente do que para você e fui estúpida. Mas estou farta disso. Olha a festa aí embaixo, Lion. —Saiu pelo terraço privativo e foi até a extremidade. Tinha uma altura de dez andares. O vento balançava as palmeiras, o mar estava um pouco bravo e a noite se escondia com largas nuvens. Talvez chovesse novamente. — Quero descer e fazer o papel que vim fazer, o mesmo que você decidiu proibir-me uma e outra vez. — Virou-se, apoiando-se na varanda e o olhou diretamente nos olhos. — Quero descer, me divertir e flertar com alguém que possa ter informações diretas dos Vilões. Se você é capaz de vender seu corpo por isso, eu também posso fazê-lo. Lion piscou atônito. Seus olhos brilhavam de raiva e tristeza. Deixava-a ir? —O faço, Lion? Sou muito capaz de transar, subir numa mesa e ficar nua. — “Ui, Miss Pérfida, relaxa.” — Chamaria a atenção de quem quisesse. Um trio? Um quarteto? Mmm... Com o que me depararei esta noite, agente Romano? Gostaria de se juntar como fez hoje? Não, verdade? Não vai ser o que Cleo pensa sobre o que isso quer dizer, algo que não é... — pensou em voz alta. Engoliu a saliva e piscou os olhos para segurar as lágrimas. Cleo esperou que Lion tivesse alguma reação, mas o homem continuou mudo, observando-a respirando precipitadamente. “Lion, faça algo, por favor. Detenha-me. Demonstre que se importa de verdade, rezou em silêncio, com o coração nas mãos. Cleo passou ao seu lado ao entrar no terraço e se dirigiu para a porta de saída. Lion a estava decepcionando. Tinha os olhos cheios de lágrimas quando tentou abrir a porta. Conseguiu, mas imediatamente uns dedos de ferro rodeavam seu braço e a puxaram para colocá-la de novo no quarto. Lion fechou a porta com força e empurrou Cleo contra ela até encurralá-la com seu corpo. As mãos estavam cada uma de um lado do seu rosto choroso. —Deixe-me ir! — gritou Cleo impotente, chorando desconsolada. —Quer ir para longe de mim? —Sim! — gritou com todas as suas forças. 181


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—Então vai, mas vai assim. — Abaixou o vestido de uma vez rasgando-o pela metade, fazendo faíscas e convertendo-o numa massa de tecido escuro aos seus pés. Usava uma calcinha negra transparente com uns lacinhos rosas de seda na sua costura. — Vai, saia! — a pedia sem se afastar dela em nenhum momento. — Quer fazer um trio? —Sim! — se levantou na ponta dos pés para gritar na sua cara. —Quer que eu chame o Prince? — apertava tanto os dentes que eles iam pular por todos os lados. — Ficou com vontade de provar o pênis dele? Cleo mordeu a língua e apertou a mandíbula com força e olhou irritada. Zás! Deu uma bofetada que virou o lindo rosto de Lion para o lado direito. —Acaba de me bater? — balbuciou sem paciência. —Você... Você não me merece! — suas palavras cheias de ódio, transpassaram a couraça de Lion. Cleo não secou as lágrimas que deslizavam por suas bochechas rosadas e úmidas. — É um covarde, Lion. Um rei covarde, um leão sem garras. Um animal que marca território diante dos demais, mas incapaz de falar diretamente com quem realmente se importa. Odeio o que me fez acreditar. Não quero covardes na minha vida. Nem pense em me tocar! Nunca mais, me escutou? Agora abre a porta e deixa que eu me vá. Lion negou com a cabeça. Tremia e, ao mesmo tempo, lutava para se acalmar. —Que não, Lion? Afaste-se de mim e deixe que eu parta agora mesmo. — ordenou com tom certeiro. Lion voltou a negar com a cabeça. Observou os seios nus de Cleo, seu colar de submissa, a calcinha e as pernas torneadas e nuas. Olhou na sua cara e os joelhos cederam diante do que ia dizer. Jamais poderia voltar atrás. —Não, Cleo... — murmurou deixando-se cair de joelhos no chão, afundando o rosto no ventre da jovem, acariciando-a com as mãos e rodeando sua cintura num abraço duro. Já não podia mais. — Não posso mais... —O que? —Não! — respondeu rude. —Por que não? Não deveria se importar com o que faço! —Claro que me importo! — A jogou no chão, com cuidado para não machucá-la e se colocou em cima dela. — Me solta, Lion! Deixe-me ir! — Você quer me destruir! Não entende nada! — Jogou suas mãos por cima da cabeça e a imobilizou sobre o carpete bege, aproveitando-se de sua força e seu peso. — Acha que não me importa pensar que outros possam te tocar? Sabe o que me fez hoje? —Não! Não sei! Sei que se irrita se eu não te obedeço, agente Romano! Mas disso não passa! —Tem ideia do mal que fiquei ontem por sua culpa? — gemeu. Seus olhos azuis se fecharam, como se algo doesse profundamente. — Eu... Não posso respirar quando você se afasta de mim. Não posso... —Lion afundou sua cabeça entre o pescoço e o ombro de Cleo tremendo como um menino pequeno. —Está me matando, Cleo. 182


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Cleo fixou os olhos no teto e na janela da claraboia. Lá fora as primeiras gotas da tormenta noturna começavam a repicar nos vidros. Pareciam lágrimas, como as que ela estava deixando cair. Parariam a festa? Parariam Lion? Não podia mover os braços, não deixava que o tocasse. Só podia escutar e esperar que o leão falasse. —Lion? — perguntou com uma voz fraca. —Fale-me com clareza, suplico. Está me fazendo sofrer... —Eu morro por você, Cleo. Eu... morro. Não suporto a ideia de ter te enfiado nisso. Não suporto que outros te vejam nua ou que outros pretendam algo que só pode ser para mim. Eu quero que você seja só para mim. — A beijou no pescoço com uma adoração deliciosa. —Te amo, Cleo. Me dói que não pense em mim, que não tenha consideração comigo. Me fez passar tão mal... Cleo engoliu a saliva audivelmente e inclinou o rosto para o de Lion. Lion a amava? —Te amo. E quero enviá-la para muito longe daqui... Protegê-la e afastá-la de todo este mundo escuro no qual se viu submersa. Por minha culpa... —Não! Lion eu... Sou uma mulher adulta e tomo minhas decisões. Quis me meter nisso com você e não me arrependo. Não desgosto desse mundo. —Sou um amo! Olha onde estamos... Olha o que estou fazendo com você! Não me odeia? —Odiar? Não! Como posso te odiar, Lion? — perguntou angustiada. — Como odiar quando se ama tanto assim? —Cleo... — seu nome era uma súplica em seus lábios. — Odeio te dizer isto aqui, mas já não aguento mais, e você está me pressionando demais, bruxa. — colocou seu quadril entre as pernas abertas dela e empurrou para dentro — Você brincou comigo e com minha saúde mental... Hoje de manhã, na masmorra, me tirou anos de vida... —Olhe para mim, Lion... Por favor... —Não! — Lion abaixou a calcinha, rasgando-a e desabotoou a calça até tirar sua ereção da constrição da cueca. — Quero transar agora. Necessito estar dentro de você... Assim. —Quer transar? —Agora! —Então, olhe para mim! —Não quero. A olho a cada segundo, a cada minuto, a cada hora que passa... E penso que sou um egoísta por alegrar-me que esteja comigo, de que posso desfrutar de você... — Com as mãos amarrando os punhos dela afundou dois dedos da outra mão no interior de Cleo. Ela abriu os olhos e sacudiu a cabeça. —Espere, linda... — Acariciou-a, massageou-a. Esperou que ela se umedecesse e começou a estimulá-la. — Mas logo quero te afastar, meter você numa mala e te enviar de volta para Nova Orleans. Para seu bicho vesgo e sua delegacia. Ao menos, ali estaria mais segura e melhor. Estou louco? —Não, Lion... — chorou ela, cativada pela sinceridade de sua voz. — Me deixa ficar com você. Deixe-me chegar à final...

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—Shhh... — Curvou os dedos no seu interior e aproveitou para meter outro mais e dilatá-la. Desfrutou do som de dor-prazer dela e, desta vez, sim a olhou no rosto. — Se ficar, fica com todas as consequências. Fica comigo agora e depois. Ambos os olhares colidiram: o de Cleo impressionado e o dele decidido e desgarrado. Depois? Se referia a depois da missão? —Essa boca... Esses olhos... — murmurou ele antes de deixar cair a cabeça e beijá-la com todas as forças. Cleo começou a mover os quadris para cima e para baixo seguindo a intrusão dos dedos. As línguas se encontraram num duelo: se acariciavam, se empurravam uma à outra. Os lábios se mordiam, sugavam e mordiam para logo começar de novo. —Quero te tocar. Deixa-me te tocar... Oh, por Deus, Lion... — Esse homem disse que queria estar com ela fora do torneio. Incrível. —Não. — negou estritamente. —Você me fez te dizer coisas que não queria dizer. Agora vou te controlar. Cleo sentiu que se excitava ainda mais ao ouvir aquelas palavras de Lion. Ordem ou ameaça? Caramba, como era sexy! Definitivamente adorava que jogasse com ela desse modo. Sentiu que deslizou sua língua pela pele exposta que deixava o colar na sua garganta, os ombros e sua clavícula... Lambeu a parte interna de seus seios e depois começou a torturar seus seios. —Sente como você me deixa duro? Eu te deixo dura, Cleo? — a olhou por cima de um seio, enquanto estendia a língua e batia no seio úmido. — Seria justo, porque você me deixa duríssimo cada vez que está perto de mim e te cheiro... Seu cheiro me nocauteia, cheira a fruta. Cleo levantou os quadris, transportada a um mundo de sensações e erotismo. Suas palavras, sua voz, sua declaração... “Morro por você.” E ela ia morrer por ele se continuasse tocando-a assim. Então notou que Lion tirou os dedos de seu interior e a tomou nos braços, de súbito, para colocá-la sobre a cama, de cara com a parede. Cleo pensou que estivesse tonta, mas não. Só tinha mudado de localização e estava vazia entre as pernas. —Lion? — Olhou-o por cima dos ombros. — Vem? —perguntou insegura. Ele sorriu com ternura, tirou a calça bruscamente e subiu na cama atrás dela. Aproximou a sacola de brinquedos e tirou as algemas para imobilizá-la às suas costas. —Não vai fazer trios, Cleo. Nunca mais — rugiu no ouvido dela. Deu-lhe um açoite sonoro nas nádegas e outro entre as pernas. Cleo mordeu o lábio e emitiu um lamento erótico inconfundível. — Isto é meu. —deixou a mão sobre seu sexo e introduziu três dedos, pouco a pouco, até os nós. — Lion... — fechou os olhos e apoiou a cabeça no largo ombro de seu companheiro. Era seu companheiro? Seu companheiro de verdade? —Teria matado Prince, bruxinha. — mordeu seus ombros e logo lambeu. — O teria matado. Pensava que tinha sido ele que a possuiu... Destroçou-me. Fiquei louco ao sentir que outro se movia dentro de você. Existem amos e homens que podem gostar disso. Eu não. —Nem a mim. —Não volte a fazer isso nunca mais. Me magoou muitíssimo, Cleo. 184


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—Não. — chorou Cleo. — Perdoe-me, Lion. Eu sinto muito... Não sabia que se sentia assim. Não entendia..., me fazia acreditar em outra coisa. Não falava comigo e... — E como acha que eu me sentia? — a pegou pelo cabelo e virou seu rosto para ele para dar um beijo castigador. — Como acha, hein? —Agora eu sei. — tinha os olhos inchados e a maquiagem borrada. — Antes não sabia de nada. Agora eu sei. Você se importa. Me ama. —Sim. — murmurou. — Me importo e te amo, gatinha. Bom... Se comportará melhor a partir de agora? Levará em conta meus sentimentos? — E você os meus? — replicou ela. —Não. — negou Lion, dando-lhe um beijo nos lábios. Levou sua ereção a sua entrada e afastou os dedos e empalou sem contemplação. Cleo ficou sem respiração, mas Lion lhe dava oxigênio mediante suas intrusões e suas doces palavras. Colocou a mão sobre seu ventre, onde golpeava a cabeça de seu pênis. Na altura do umbigo. — Aqui... Cleo. É aqui onde mais gosto de estar. Tão dentro que acredito que a parto em duas. Não terei em conta seus sentimentos porque não ouvi você me dizê-los ainda. — Me parte em duas. Isso é como sinto... — Cleo sorriu. Tinha Lion de joelhos atrás dela, perfurando-a entre as pernas, acariciando-lhe o clitóris com uma mão e amassando seu seio com a outra. — Já me declarei para você duas vezes. São suficientes. — O provocou. —Não importa. — puxou seus seios com força e aproveitou para impulsionar sua ereção mais para o interior do seu corpo. — O quero agora. Quero que me diga agora. —Te amo, Lion. Sempre foi você. A missão, o torneio... só fez com que abrisse os olhos e percebesse que comparava todos com você e nenhum era suficientemente bom para mim. Por que não tinham seu olhar, nem seu caráter... Nem nada do que eu gostasse. Não eram você. —Deus, Cleo... — Lion se sentou sobre seus calcanhares e fez que se sentasse sobre ele. — Assim, linda... Assim... Seus corpos suavam e roçavam, acariciavam-se, dizendo-se todas essas coisas que eram difíceis de colocar em palavras. Cleo e Lion tinham se unido por uma situação difícil e comprometedora, mas as dificuldades quando alguém devia crescer e aprender com seus medos, travas, seus complexos... Nessa suíte do Westin Saint John, duas pessoas estavam se entregando sem complexos nem restrições. Lion empurrou com força enquanto martirizava o botão de prazer de Cleo. Ela subia e baixava sobre ele, gritando em êxtase. Às vezes, quando estava a ponto de chegar ao orgasmo, Lion a deixava de tocar e ela ficava louca. Ela sempre disse que era do país clitoriano, mas Lion a estava ensinado a gozar desde dentro. E ela o faria com prazer. —Não tem ninguém mais. Diga, Cleo. —Só... só você, Lion. — deixou cair a cabeça para trás, mas ele não permitiu. Pegou-a pela garganta e a colocou de novo em seu torso. — Só você, senhor. — Deixa-me ver seu rosto quando está assim, no limbo do prazer. Não há nada mais bonito nem mais erótico que seu rosto. Como morde os lábios, como seus cílios esvoaçam, o modo como abre a boca para tomar ar... —Oh, Deus...Lion.. —Sim. — ronronou a ponto de gozar. — Chega já? Goze comigo. 185


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—Já te disse que isto não é assim... — As mulheres não gozavam por uma estúpida ordem. O motor tinha que estar bem quente para arrancar, mas então golpeou um ponto profundo e estreito dentro dela e sentiu como se inchava e deixava sua semente no seu interior. Deus abençoe as pílulas anticonceptivas. —Oh, sim... Sim! — de um modo fulminante, Lion lhe provocou um orgasmo devastador e nem sequer sabia de onde vinha. Por dentro? Por fora? Dos seios? O que importava? Encontrou-se gritando, caindo para frente e mordendo a almofada enquanto Lion investia poderosamente, enchendo-a com seu grande pênis, cobrindo-a com seu enorme corpo. Os dois experimentaram uma pequena morte, mas já diziam que a morte não era o final, sim o princípio de algo. Lion e Cleo acabaram de pôr a primeira pedra para iniciar algo entre eles. O que? Ainda não sabiam.

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CAPÍTULO 15

“Sempre igual: atam-lhe as mãos à costas e, então começam a picar seus olhos e o nariz”.

—Não vou permitir que a toquem. Não entraremos na final. Já decidi. Controlaremos os Vilões do outro lado e faremos a ação policial no momento adequado. Cleo estava estirada sobre ele. Acariciava seu peito e desfrutava das carícias das mãos de Lion sobre suas costas e suas nádegas nuas. Fizeram amor duas vezes mais; e estavam cansados. Cleo tinha a pele das nádegas vermelhas e Lion exibia arranhões nas costas e no peito. Depois da atividade sexual, o agente Romano tinha aproveitado para lhe explicar tudo o que se descobriu até agora. —Não pode fazer isso. Não podemos fazer isso. —Quero que pronuncie a palavra de segurança, Cleo. Que no momento no qual não possa mais, diga-a. Não quero que essa gente jogue com você. —Já veremos. Amanhã devemos deixar o hotel e ir a Saint Croix, em Norland. É ali onde se celebra a última jornada e a posterior final — sussurrou Cleo sobre seu peito— Estamos tão perto… Sabe o que? —O que? —Hoje recebi um convite direto para me encontrar com os Vilões. —Hoje? Quando? —seu assombro se refletiu em sua voz. —Antes de descer à festa. Saí do closet e encontrei o envelope no chão. Uma limusine deveria me buscar e me levaria até eles. —E… não o fez? Não posso acreditar —sorriu disso— você ficou aqui? Por que? Sempre faz o que te dá vontade. —Não fiz porque não queria aborrecê-lo. —Levantou o rosto de seu peito e acariciou seu queixo com o indicador— Porque o vi muito atrevido; não me deu boa impressão. Além disso, queriam que fosse sozinha. —Bem. —Lion massageou sua nuca e beijou o topo de sua cabeça e a testa— Nada tem boa aparência, Cleo. Estamos vendo as orelhas ao lobo, e eu não gosto. —Abraçou-a com força e agarrando-a pelas axilas, levantou-a por cima dele como se fosse uma criança — Amanhã chega o final. Nós não teremos que participar da jornada, mas devemos investigar os arredores das ilhas e recolher as armas deixadas pela estação de apoio para nós. Deixaram-nas em Buck Island, ao lado do Saint Croix. Assim não devemos nos movimentar muito. —Sim. —O cabelo vermelho de Cleo caía em cascata e ocultava a ambos do mundo. —Quase o conseguimos —a deixou cair pouco a pouco sobre seu corpo e cobriu a ambos com o lençol. —Quase —sorriu, deixando que Lion a cobrisse de cuidados.

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—Bom trabalho, agente Connelly. O FBI estará muito orgulhoso de ter a uma agente tão valiosa em suas filas. —Obrigada, senhor. Mas ainda não faço parte do FBI. —E, depois de tudo, talvez não quisesse fazer parte dele. Mas isso guardava para ela. Com esse pensamento, e os balsâmicos beijos de Lion sobre suas pálpebras e suas bochechas, Cleo dormiu. Faltavam quatro horas para o amanhecer e precisavam descansar antes de confrontar a final de Dragões e Masmorras DS.

O quarto estava em silêncio, não se passaram nem duas horas depois que dormiram quando Lion abriu os olhos e encontrou com Cleo amordaçada, olhando-o fixamente, tão surpreendida quanto ele. O agente tentou falar, angustiado, mas tinha fita na boca e tampouco podia emitir nenhum som. Não podiam mover-se. Injetaram neles uma espécie de paralisante ou alguma droga parecida. Umas mãos duras e exigentes levantaram os dois e os colocaram de joelhos frente a frente. —Cubram seus olhos e prendam suas mãos às costas. Lion e Cleo piscaram incrédulos ante o que lhes estava acontecendo. Isso não entrava em seus planos. A voz era a de uma mulher soberba; e eles conheciam essa mulher com ares de grandeza. —Os Vilões os esperam. —Claudia se afastou do canto menos iluminado da suíte e apareceu vestida toda de látex, com um chicote na mão e uma taser na outra— A puta rechaçou o convite —grunhiu dando uma chicotada dolorosa em Cleo nas coxas nuas—, e isso os deixou muito nervosos. Agora querem aos dois. —Desta vez, a chicotada golpeou as costas de Lion. Cleo gritou para que Claudia parasse, mas a ama não tinha nenhuma intenção de lhe fazer caso. Dois armários encapuzados, vestidos de negro, ladeavam a dominante. —Temo —disse Claudia passando os dedos pelo chicote e depois saboreando-o com a língua—, que os descobriram, meninos. A selva era muito grande para vocês. Cleo e Lion olharam um ao outro. Por que? Quem os descobriu? Tinham as base de dados privados completamente modificados, ninguém conhecia sua verdadeira identidade. Como tinham revelado suas identidades? —Levarei-os frente a Tiamat. Eles decidirão o que fazer com vocês. Com essas palavras, Claudia saiu do quarto com ares de grandeza. Os dois homens armário carregaram os corpos de Cleo e Lion, cobrindo-os com bolsas protetoras de bagagem. Ninguém saberia que, em realidade, acabavam de sequestrar dois agentes do FBI. 188


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Uma vez no porto, subiram-nos a uma lancha e os atiraram de jeito rude ao chão. Os dois golpearam a cabeça ao fazê-lo. Lion sentia que o coração ia sair pela boca. Acabavam de levá-los do hotel e desconheciam aonde os levaram. Estavam em sérios problemas. Meia hora depois, os dois gigantes voltavam a carregá-los; e depois de caminhar com eles durante o que pareceram ser horas pelo que se parecia com um terreno arenoso, os introduziram em uma espécie de gruta. Lion escutava os sons das estalactites gotejando sobre o chão úmido e encharcado. E também os passos dos valentões e o som dos saltos de Claudia ecoando. Sabia que Cleo tinha um localizador no colar de submissa e, também, uma câmera. Mas aquilo estava muito escuro. Gravaria boas imagens? A equipe estação não deveria demorar para chegar e socorrê-los. Os tiraram das bolsas e deixaram aos dois no chão, recolocando-os de joelhos. Depois, descobriram-lhes os olhos. Ambos piscaram; o primeiro que fizeram foi buscar um ao outro. Cleo franziu o cenho: Lion tinha um novo golpe na maçã do rosto. —Tiamat e Venger não demorarão para chegar —assegurou Claudia puxando o cabelo de Cleo. Esta se queixou e apertou os olhos com força. —Você, pequena vadia, eliminou-me na primeira troca. Vai pagar por isso. —Claudia lhe colocou um arnês de pônei. Cleo odiava esses objetos porque os faziam parecer animais. “Sim; já imagino como vou pagar”, pensou Cleo. Lion lutava para libertar-se da mordaça e desatar as cordas de suas mãos, mas era impossível. Enquanto isso, os dois guarda-costas o vestiam unicamente com um slip de couro negro com um zíper na parte anal. —Não teria imaginado isso de você, King. Que se conformasse com alguém como ela. — Claudia se dirigiu a Lion e o puxou pelo queixo com força, deixando a marca dos dedos nele. Seus olhos negros jogavam faíscas— E o que não sabia era que ocultavam suas verdadeiras identidades. Por sorte, há alguém aqui que os conhece e abriu a caixa de Pandora — Claudia prestou atenção— Acredito que ouço o motor de sua lancha. Já estão a chegar. Cleo e Lion olharam um ao outro, incrédulos ante as palavras de Mistress Pain. Estava claro que Sombra espião zombou de todos. Mas, quem os conhecia? Quem sabia que eram agentes federais? —Estou convencida de que nunca na vida vai esquecer esta surpresa—assegurou Claudia. Através da entrada da gruta, aproximaram-se seis pessoas, vestidas com túnicas negras e capuzes amplos. Usavam umas máscaras douradas; duas delas sorriam e as outras quatro tinham um rictos triste. Uma delas era uma mulher, mais baixa que o resto. E esta e outro homem, muito alto, ajudavam a caminhar ao mais corpulento e alto de todos, cuja máscara sorria. Esse indivíduo coxeava um pouco e tinha os punhos apertados, como se sentisse muita raiva ou muita dor. 189


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Cleo engoliu em seco e Lion tentou caminhar de joelhos até onde ela estava; mas um dos gorilas o atirou ao chão ao lhe dar um chute pelas costas. —Aqui os apresento Tiamat —disse Claudia acariciando seu chicote acima e abaixo— Como sabem, é um dragão de cinco cabeças. Vejamos, quantas pessoas há aqui? Um, dois, três, quatro, cinco, e o que vem de mais, seis —contou assinalando com o dedo. Exalou como se estivesse cansada e levantou Cleo pelo cabelo. “Puta! Não me toque! Lion, Por Deus…”, desviou o olhar para o moreno, que tentava levantar-se. O homem mascarado deu um passo à frente, assegurando-se de que o maior de todos se mantinha em pé. —Tire o esparadrapo dela, Mistress Pain —pediu educadamente. Tinha um marcado sotaque sulino. Claudia o arrancou sem cerimônias. Cleo lambeu os lábios e moveu os músculos faciais. Tinha ardido. —Certamente esteja um pouco aturdida, verdade, Cleo Connelly? Cleo sobressaltou-se e olhou Lion de soslaio. —Sim, jovenzinha. Conheço-a perfeitamente. —Quem é? —perguntou sem medo. —Quem sou? —Plas! A bofetada que o Vilão lhe deu virou sua cabeça da esquerda à direita. Cleo passou a língua pelo lábio inferior e notou o corte sangrento que deixou. Não sabia quem eram, mas eram membros da Old Guard com toda segurança. —Conheço você. Conheço seu pai, um herói de Nova Orleans. E conheço o Lion, também. E conheço os pais de Lion. Conheço todos! —emitiu uma gargalhada vazia. Merda. Se os conhecia… Eram de Nova Orleans. Lion prestou atenção e observou friamente a cabeça do Tiamat. —Nunca a vi neste mundinho, Cleo. Sim, tinha visto sua irmã… Leslie. Mas a você, não. —O que… ? Quem… é? —A pergunta é, quem é você? Por que, sendo policial de Nova Orleans, está neste torneio como uma jovem de pais adotivos texanos e diz que trabalha em uma galeria de arte? Pegamos você, Cleo. Assim não se envergonhe e responde a minha pergunta. Mas Cleo não respondeu. O mascarado se aproximou dela e acariciou seu cabelo vermelho. —Não me importa o que fazem aqui, nem você nem sua irmã. Nem sequer o que faz Lion aqui. Mas te direi algo: faz seis meses colocou meu filho no cárcere. Isso sim que me importa. Por isso não vou deixar que passe daqui. Cleo piscou nocauteada. Como? O único que meteu no cárcere nesse tempo tinha sido Billy Bob… Não podia ser. Então, não sabiam que eram agentes federais… eles suspeitariam? —Acha que Leslie foi escolhida ao azar? —continuou uma das cabeças do Tiamat— Nem pensar, bonita. Você colocou a meu filho entre as grades; por isso, quando Leslie começou a se destacar no jogo e, duas semanas antes do torneio, enviaram-nos fotos sobre ela, a reconhecemos. Tivemos que afastá-la do submisso que levava com ela. 190


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Lion sobressaltou-se. Clint? Eles mataram Clint? —Assim pedimos ajuda a Mistress Pain para que fizesse as honras. —Essa noite estava com o Lion em outro local —recordou Claudia—; mas quando recebi a chamada do Tiamat dizendo que tinham Leslie e que, entretanto, seu submisso ficava solto e suspeitava algo, não pude dizer que não —sorriu friamente— Eu adorei jogar com esse homem… Lion se moveu de um lado ao outro, gritando, com as veias do pescoço inchadas. Se pudesse, arrancaria a perna dela a dentadas. Claudia acabava de reconhecer que tinha matado Clint. —Matou a um submisso? —perguntou Cleo, pálida. Claudia cruzou de braços, levantou o queixo e assentiu orgulhosa. —E onde está minha irmã? —perguntou Cleo, fingindo que não sabia a resposta. Não podiam suspeitar de Leslie; eles tinham que seguir seu plano. —Agora, um amo a está submetendo para que se entregue a nós — respondeu o mascarado— Quisemos nos vingar, Connelly, pelo que fez a meu pequeno, e por isso sua irmã está aqui: por sua culpa. Então, não só era por seu perfil. Havia uma surpreendente rixa pessoal iniciada pelo encarceramento do abusador Billy Bob. Leslie e Cleo estavam no ponto de mira dos Vilões inclusive antes de começar o torneio. —Minha irmã não está aqui por mim. Está aqui porque seu filho é um filho de puta abusado… Plas! Plas! Duas bofetadas seguidas e dolorosas. Os nódulos golpearam em suas maçãs do rosto e Cleo apertou os dentes. —Nós íamos nos conformar com Leslie! Mas isto… —observou aos dois — É mais do que esperávamos. Sabe por que soubemos quem era você, cadela? Nem sequer imaginamos que estava metida nisto até que Claudia nos alertou. Cleo negou com a cabeça. —Mistress Pain nos chamou imediatamente dizendo que uma garota a tinha eliminado na primeira prova e que não podia continuar no torneio. Disse-nos que se chamava Lady Nala. Pedimos que nos enviasse imagens delas. E quando vimos que era você, a irmã de Leslie, não podíamos acreditar nisso. Deus está do nosso lado! —elogiou elevando os braços. “Não utilizará o nome de Deus em vão”, pensou Cleo. —Não estamos a par de todos os participantes —explicou o líder do Tiamat—: só dos submissos que nos fornecem para nossas… práticas. O torneio é somente um disfarce e os amos protagonistas e o torneio em si não nos importa. Mas te descobrir aqui foi uma agradável surpresa. Porque a quem realmente gostaríamos de destroçar é a você. Lion, que estava de joelhos no chão, compreendeu que as chamadas que recebia Claudia do celular de Louisiana, eram deles. Claudia estava em contato com os pais de Billy Bob. E não só isso; agora entendia por que Billy Bob esteve no baile da mansão La Laurie: porque ele fazia parte do mundo BDSM da Old Guard, como seus pais. Incrível. —Sério? Não percebi que Dragões e Masmorras DS só é um disfarce para a Old Guard mais radical —respondeu Cleo ironicamente. 191


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—Surpreende-me, Cleo —confessou— É uma descarada. Na noite anterior, Claudia os quis separar com a fotografia do telefone, pensou que sem que Lion te protegesse, poderíamos te agarrar e te preparar para nosso jogo. Mas saiu mal. Inclusive esta manhã, com o do trio, esperávamos uma divisão absoluta entre vocês; mas, então, essa meto-me-em-tudo da Rainha das Aranhas decidiu jogar com vocês. —Vós não jogam —replicou Cleo em voz alta— Não sei o que fazem… —mentiu— Claudia reconheceu ter matado Clint. Sequestraram a minha irmã! Irão ao cárcere. Prometo —espetou furiosa. —Silêncio. As afrontas se pagam. —Xavier fechou o punho em seu cabelo e lhe deu um violento puxão— Tenho algo preparado para as irmãs Connelly. Você e sua irmã pagarão pelo que fez a meu Billy. “Pensa o que quiser, porco, mas Leslie não é somente uma submissa. É uma agente do FBI e está acompanhada de um membro da SVR. Vão se ferrar”. Se entre os membros do Tiamat se encontrava o pai de Billy Bob, Cleo podia entender muitas coisas que não se encaixaram no torneio. Por exemplo, as bebidas de rum fornecidas nas duas últimas noites, que as confeccionava a destilaria de Nova Orleans da qual os pais do Billy Bob eram proprietários. Era uma família muito rica e poderosa, inclusive mais que a de Lion, e tinha amizades em círculos políticos. Inclusive, alguma vez, tinha colaborado nas campanhas publicitárias dos partidos republicanos. Mas nunca imaginou que a família D’ Arthenay, que vinha de linhagem francesa, estivesse envolvida em um torneio de BDSM; e não só isso, que além disso, era um dos membros que faziam parte dos Vilões. Sempre pensou neles com lástima, porque lhes tinha saído um filho doente e agressivo, que maltratava às mulheres… Agora, podia compreender por que Billy Bob tinha essas tendências violentas. Possivelmente, o teria aprendido de seus pais. Leslie dissera que os Vilões eram todos gente de muito dinheiro e muitíssimo peso na sociedade, pessoas que, curiosamente, eram viciadas no sadomasoquismo antigo que deu origem ao Old Guard. Por que? Não sabia, isso tinham que averiguar. Talvez não havia um por quê. Talvez houvesse gente assim; e ponto. —É Xavier D’Arthenay —anunciou Cleo em voz alta—, e a mulher deve ser Margaret D’ Arthenay, sua esposa. Não precisam usar as máscaras. O aroma de podre me chega daqui. —Puta. —Outra bofetada mais. Cleo tomou ar para acalmar-se. O cabelo vermelho desordenado lhe cobria o rosto; e os olhou através das mechas, com os olhos verdes e claros como faróis. —Cometeu um delito ao fornecer garrafas inteiras de seu rum com cristal e popper — espetou— Não fazem exportações a não ser que vocês tragam seu produto aqui. E é o que fizeram… Como agente da lei que sou, devo lhes comunicar isso. Como praticante do BDSM, direi que eu não gosto que me droguem. Além disso, são cúmplices diretos de homicídio. Se quiserem, leio seus direitos. Precisarão. —Cleo precisava ganhar tempo. Ao menos, para atrasar sua tortura. Xavier olhou a sua mulher e esta deu de ombros. Ambos se puseram a rir. —Está de brincadeira? —perguntou a mulher— Sabe o que vamos fazer com você? Margaret se aproximou do homem coxo e claudicante que tinha a máscara posta. 192


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—Vamos nos encarregar de que Billy Bob os deixe como vocês os deixaram. Não é, Lion? — perguntou Xavier inclinando-se para Lion —O que acha? Chorará quando vir como dá seu castigo a Cleo? Vai querer igual logo? E, depois, Billy te arrebentará por dentro e por fora, não é, machão? —Deu-lhe uma bofetada no rosto. — Que pena, o herdeiro da cadeia algodoeira mais importante dos Estados Unidos achado morto e esquartejado em uma gruta das Ilhas Virgens — proclamou imaginando uma manchete de jornal. Lion se remexeu como um touro e tentou investir com um grito. “Não a toquem ou os matarei um a um”, disse a si mesmo. Cleo não queria olhar ao homem que tinha ante ela, mas era inevitável não fazê-lo. A mulher lhe tirou a máscara com cuidado e apareceu o impressionante e desfigurado rosto de Billy Bob. Cleo se pôs-se a chorar pela impotência e a raiva. É que alguma vez ia se libertar dele? —Cleo, céu —sussurrou a mulher— Darei o pêsames a sua mãe por ter perdido a suas duas filhas, tão bonitas, em tão pouco tempo. Isto, depois do que fizeram com meu filho, não podia acabar de outra maneira. Compreende-nos? —Compreendo que sei muito sobre vocês. E compreendo que seu filho, que deveria estar hospitalizado para logo entrar na prisão estatal, está aqui, livre. Pagou muito para libertá-lo? Margaret pareceu encolher os ombros. —O dinheiro nunca foi um problema. E nosso filho merece nossos cuidados. Ele não sabe canalizar suas tendências. Mas nós o ensinaremos. —São uns sádicos. Criaram um monstro! Embora vocês também o sejam. A suave risada de Margaret arrepiou a pele de Cleo. —Não somos monstros, querida. Fazemos o que fazemos porque podemos. E decidimos que acabou seu tempo. “Iriam matá-los?”. Mas Cleo não a ouvia. Só via o Billy Bob abater-se sobre ela. O homem tinha as bochechas inflamadas e uma cicatriz que cruzava sua testa. Os dois olhos estavam coagulados, inchados e vermelhos, e lhe faltavam quase todos os dentes. Billy Bob cara de anjo, converteu-se no Billy Bob, a aberração. Lion tinha sido seu cirurgião; não havia dúvida. —Você e Lion ficarão aqui com Billy e Mistress Pain —explicou Margaret com voz de tutora — Deixarei que eles tomem a revanche que desejam e, depois, se ainda continuarem em pé, deveremos buscá-los para os levar à nossa noite do Walpurgis. —Deu duas palmadas como uma menina pequena e pôs-se a rir— Vocês adorarão. Claudia? —Sim, Maitress Margaret? —A viagem foi muito dura para o Billy. Estamos injetando nele isto para a dor. —Mostroulhe uma pequena nécessaire negra no qual havia várias seringas— Ele quis estar aqui e não perder o espetáculo; sobretudo ao saber que tínhamos Cleo. Mas o voo lhe trouxe consequências. Dê-lhe isto se ver que desfalece, de acordo? —Entregou um frasco de morfina — Fará que não sinta a dor e ficará atento. —Sim, maitress —Claudia inclinou a cabeça em sinal de respeito. —Desfrute de seu submisso, Sombra. Entendi que você sempre gostou desse amo. Agora é seu. Dê a ele seu castigo. 193


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—Farei isso —assegurou a ama, dedicando um olhar venenoso a Lion— As traições não devem passar desapercebidas. —O potro e a cruz estão no interior da gruta —disse Xavier— Também há cadeias nas paredes da rocha. As utilizem e, depois, recolham tudo como sempre. Esperamos por vocês em Ruathym às doze da noite para iniciar nosso Walpurgis. Quando chegarem, deem o sinal e acendam a fogueira e as tochas. Quando virmos o fogo aceso, apareceremos. “Ruathym? Que parte das ilhas pertence Ruathym?”, perguntou-se Lion, lutando por desfazer-se das cordas e rogando para que não fizessem mal a Cleo. Estava imerso no desespero. O jogo, as dificuldades do torneio e o medo de que Cleo fosse submetida não tinham nada a ver com o que sentia agora. Sua vida pendia por um fio; porque, se machucassem Cleo, o machucavam. Tinha que encontrar o modo de sair dali. Lá fora já tinha amanhecido. A claridade do dia iluminava a espetacular gruta em que se encontravam. Em qual das Ilhas Virgens os tinham confinado? A última jornada de Dragões e Masmorras DS começaria em nada. O que faria Nick quando visse que não estavam em seu quarto? E a estação de apoio? Já deveriam saber o que estava acontecendo. —Ali estaremos —respondeu Claudia às ordens de Xavier. Margaret se aproximou de seu filho, que não deixava de olhar para Cleo, e lhe disse: —Querido, mamãe e papai o esperamos na ilha. Devolva cada golpe, meu amor. —Acaricioulhe a bochecha enquanto se lamentava de seu aspecto. Depois dessas instruções, os membros do Tiamat deixaram a Sombra espião e Billy Bob com Cleo e Lion em uma gruta desconhecida. Os dois guarda-costas levantaram Lion pelos ombros e o mantiveram em pé para levá-lo arrastado ao interior da gruta. Billy Bob empurrou Cleo para que caminhasse diante dele. O efeito do paralisante tinha durado muito pouco. Lion olhou para Cleo por cima do ombro. Esta franziu a fronte, assustada. Ele desviou os olhos às suas costas. Ela estudou suas mãos amarradas e se deu conta de que Lion tinha uma pedra negra afiada entre os dedos, e estava cortando a corda que o atava sem que outros percebessem. Quando a pegou? Era do chão da caverna… Teriam uma possibilidade antes de começarem a ser castigados? Tomara que sim; porque Cleo tremia tão somente pensando no chicote de Billy Bob, ou coisas piores, roçando sua pele. Meia hora depois, achavam-se no interior daquela caverna natural. O potro, a cruz e as cadeias, encontravam-se meio iluminadas pela claridade que entrava da gruta, e o que lhes dava um aspecto mais desafiante e sombrio do que em realidade tinham. Como um homem que tinha recebido soberana surra e que ficou inconsciente podia estar frente a ela seis dias depois de tamanha surra? Isso sim, estava presente, mas com um aspecto deplorável e disforme, inclusive baboso. A boca torcida não parecia fechar-se bem, e os fluidos emanavam dela. As cicatrizes e os pontos dos fios ressaltavam, vermelhas, e um pouco infectadas. 194


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Os olhos inflamados e com derrames choravam. Estava convencida de que Billy não via bem, mas como os animais carniceiros, seguia o aroma do medo e encontravam a suas vítimas graças a isso. E Cleo tinha medo. Os dois guarda-costas a colocaram na cruz e ataram as correias de suas mãos, estendendo seus braços por completo. Tiraram-lhe o colar de submissa e o atiraram ao chão, para substitui-lo por um com emplastros interiores. —Lança descargas elétricas —disse um dos guarda-costas, vestido com roupas negras. Pareciam-se muitíssimo, mas um era loiro e o outro moreno. Seriam irmãos?— Como as correias dos cães que, ao ladrar, recebem um pequeno spray amargo na boca, sabe? Pois isto é igual, mas com a eletricidade. A Lion o colocaram diante dela, de joelhos, para que visse todo o espetáculo. De repente, Claudia se agachou ante ele e lhe tirou o esparadrapo com força. Depois, beijouo nos lábios, mas o agente Romano afastou o rosto. —Assim Mistress Pain é a Sombra espiã? —perguntou Lion com desdém — Você foi a delatora dos Vilões. Eles conheciam todos os segredos dos competidores graças a você. E aposto que você escolhia os submissos e submissas que decidia levar para eles, verdade? Sem seu consentimento! —grunhiu zangado. Claudia admirou as feições de Lion. Era tão bonito, e estava tão mal aproveitado… —O que é o que o incomoda, coração? Não o incomoda que eu faça parte dos Vilões: o aborrece não ter se dado conta. —Sim, isso sem dúvida. Mas não vai sair impune, Claudia. —Claro. —Claudia tirou uma bolsinha de sua calça de látex negro e lhe mostrou o pacote de guiches. As pontas de seu curto cabelo negro acariciaram seu queixo e depois, colocou um de seus guiches entre os dentes para sorrir para ele e mostrá-lo sem subterfúgios— A primeira coisa que irei fazer com você é colocar o guiche entre o ânus e os ovos. Sempre quis te fazer isso, mas sabia que não ia me deixar. Porque é um amo e não aceita que ninguém o domine, certo? Mas agora está sob minha bota; e fará o que eu disser. —Matou a meu melhor amigo, puta —sussurrou entre dentes— Acaso acha que vou perdoá-la por isso? —Terá que fazê-lo, querido. —tirou o guiche dos dentes e brincou com ele entre seus dedos— Ou não poderá ir ao céu com contas pendentes. —Por que o fez?! Por que faz isto? Claudia piscou, como se aquela pergunta estivesse fora do lugar ou sua resposta em realidade fosse mais óbvia do que ele acreditava. —Porque posso, King. Porque posso. —Porque pode? Que tipo de resposta é essa, cadela? —Bom —Claudia se levantou—, é a única resposta válida, a única verdadeira. A sensação de ter o poder de decidir quem vive e quem morre, quem sofre mais e quem menos. —Elevou a bota e deu um chute no rosto de Lion— Vê? Tenho você em minhas mãos, e o que me detém de te matar ou não fazê-lo, de te fazer rogar para que eu pare, ou de te fazer suplicar para que acabe 195


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com você? Nada. Nada me impede isso, Lion. E, como posso, faço. É como ser um deus na Terra. Nós, os Vilões, somos como deuses. —Não, Claudia —cuspiu o sangue de sua boca— Não são deuses. Estão doentes e são uns assassinos. Isso é o que são. —Pense o que quiser. E aprecie a sessão que Billy vai dar em Cleo. Esta caverna vai se tingir do sangue de vocês dois —ordenou aos guarda-costas— Vão cobrir a entrada e vigiem que não entre ninguém de surpresa. Os dois homens se afastaram. Pareciam dois anjos motoqueiros do inferno. Cleo apertou os punhos ao ver que o enorme vilão deformado tomava entre as mãos um flogger de nove caudas com pontas agudas e pregos nos extremos. —Não o faça, por favor! —gritou Lion pedindo misericórdia—Faça em mim! Eu te fiz isso! — gritou ao Billy— Não a toques… A ela não. Zas! A primeira chicotada o golpeou pelas costas. E tinha sido Claudia quem a deu, com um flogger exatamente igual ao de Billy. Lion caiu para frente, transtornado e dolorido pelos extremos cortantes das pontas agudas. Iam fazer um açougue. —Lion! —gritou Cleo puxando as correias. Assim que gritou, o colar de submissa lhe deu uma descarga elétrica, o que fez que apertasse os dentes com tanta força que mordeu a língua. Mas a eletricidade atenuou a dor da primeira chicotada de Billy. Não notou os pregos arranhando as costelas e o quadril esquerdo e, embora sabia que a feriu, o fato de que não doeu a tranquilizou. A carne despertaria logo. Mas, até então, quando seu corpo reagisse, talvez ela já estivesse morta. E o agradeceria… Lion tirou toda sua coragem assim que viu que Billy Bob dava a segunda chicotada em Cleo. A corda que mantinha atada a suas mãos cedeu sob a lâmina da pedra negra que agarrou desde que os introduziram nas profundidades daquele buraco, e embora sentiu que Claudia gritava assombrada e o açoitava para que se detivera, não se importou. Para ele somente contava Cleo e o que sofria às mãos desse despojo humano. A corda cedeu, e livre, lançou-se contra as costas de Billy, que caiu para frente, lançando o flogger pelos ares. Lion unicamente dispunha de seus punhos e sua fúria violenta. Billy tentou virar-se, mas Lion era especialista em luta livre e não o permitiu. Cleo chorava. Para Lion só valia que sua leoa estava rugindo entre lágrimas de dor. Ia vingála; porque machucaram a mulher que amava e que possuía seu coração, e desta vez, não ia ter clemência com Billy. —Meninos, ajudem! —clamou Claudia aos dois guarda-costas que se foram fazia um momento. Lion se sentou sobre as costas de Billy, agarrou sua cabeça inclinando-a para trás com as duas mãos e, com um giro seco para a direita, quebrou-lhe o pescoço. Claudia lhe deu outra chicotada nas costas, mas mal a sentiu. O corpo quebrado de Billy Bob se desabou sem vida para frente. Por que o matou? O matou porque sabia fazê-lo? 196


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Porque podia? Porque esse feto de Satã merecia? As razões já não importavam; para ele somente contava que nunca, jamais, poderia voltar a pôr suas perversas e manchadas mãos sobre sua Cleo. —Por-ra… —exclamou Claudia indo até Lion com uma taser—O matou…! —Lion, cuidado! —exclamou Cleo claudicante e débil pela dor, sofrendo uma nova descarga no pescoço. Lion se agachou e deu uma rasteira em Claudia, que, como uma fera, avançava sobre ele disposta a eletrocutá-lo. Lançou-a pelos ares como faria The Rock em seus tempos de Pressing Catch e esta caiu de costas sobre o chão duro e úmido, ficando sem respiração e dando um duro golpe na cabeça. Lion a olhou de sua posição. Vestido somente com o slip e o arnês… Um metro e noventa de puro músculo e raiva animal. Claudia lutava por devolver o ar a seus pulmões. Tinha os olhos negros muito abertos e estava assustada porque acreditava que ia morrer. Não era mais que uma mulher com presunções de divindade que vivia em uma realidade que só estava em sua cabeça. Ninguém era Deus. Entretanto, todos podiam ser demônios. As pessoas tinham malícia ou não a tinham. E isso era o que diferenciava uns dos outros. Claudia tinha malícia em seu sangue, igual aos Vilões; e a diferença entre eles e o resto do mundo era que os Vilões preferiam utilizá-la. Por que? Porque podiam. —Lion… —chorou Cleo— Desça-me… O coração de Lion quebrou ao escutar o pranto e a tristeza de Cleo nesse momento. Obedeceu-a imediatamente. Liberou-a das correias, ajudando-a a manter-se em pé. Cleo elevou as mãos para seu colar, e Lion o tirou rapidamente. —Me tire… me tire isto… —Já está, neném. Já está… Fora esta merda. —Atirou o colar muito longe da vista de Cleo. Segurou-a pelo rosto e juntou sua testa à dela— Como está, vida? Temos que sair daqui correndo, antes que cheguem os dois orangotangos. Não temos muito tempo. Pode caminhar? Ela não cessava de chorar. Olhou o cadáver de Billy com desprezo e, depois, afastou-se um pouco de Lion para dirigir-se com lentidão até o corpo de Claudia, que continuava lutando por recuperar o oxigênio. —Tinha uma taser… —murmurou Cleo procurando o aparelho pelo chão, até que o divisou. —Cleo, vamos … —Lion olhou a entrada pela qual viriam os dois vigilantes encapuzados. —Não. Espera. —Com mãos trementes, agarrou o aparelho elétrico e observou Claudia, que a olhava assustada e insegura, arrastando-se pelo chão para afastar-se dela— Venha aqui —Cleo se agachou e, dolorida como estava, agarrou o tornozelo da Claudia e a arrastou até ela— Vai ver como se sente. —Localizou-o entre as pernas da dominatrix sádica e acrescentou—: Quer saber por que faço isto, cadela? Porque posso. —Trrrrrrr! Eletrocutou-a até que desmaiou e ficou inconsciente.

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O instinto animal de Cleo, a lei da selva, varria seu corpo e sua mente, e clamava vingança. Pedia fazer mal como queriam fazer a eles. Olho por olho. Por isso não podia ser uma agente do FBI. Porque já não tinha compaixão pelos outros. Lion entrelaçou os dedos com sua mão livre e a puxou gentilmente. —Saiamos daqui, Tormenta. Cleo nem sequer sorriu. Secou as lágrimas de consternação, terror e raiva, e seguiu os passos de Lion. O interior da gruta estava escuro, mas a claridade que chegava de fora ajudava a encontrar caminho pelo qual poderiam caminhar. Lion rogou a Cleo por cima do ombro, que fizesse o menor ruído possível. Mas ela era muito consciente de que tentavam escapar e não ia cometer o engano de chamar a atenção. Ouviram os passos apressados dos dois orangotangos, que teriam ouvido o eco de socorro de Claudia. Corriam e diziam comentários entre eles. Lion obrigou Cleo a esconder-se detrás de uma rocha. Agarrou a taser das mãos de sua companheira e levou o indicador aos lábios para que guardasse silêncio. Ela assentiu. O primeiro orangotango passou ao lado deles; e o segundo que o seguia, que possuía um walkie, converteu-se na primeira presa do leão. O agente saiu de seu esconderijo, rodeou seu pescoço com um de seus braços e pôs a taser debaixo do seu ouvido. O tipo, ao sentir a descarga, atirou o walkie ao chão e isso fez que o primeiro se virasse e tirasse uma pistola de seu cinturão. Disparou duas vezes e as duas balas impactaram no corpo de seu companheiro que Lion utilizava como escudo. Caiu para trás pelo impacto do metal na carne; e tanto ele como o agente do FBI colidiram no chão. O moreno, possuidor da pistola, aproximou-se de Lion, que tinha ficado completamente exposto. Apontou-o no peito. —Não! —gritou Cleo saindo de seu esconderijo. O homem levantou o olhar para a garota, sorriu e apertou o gatilho. Boom! Cleo fechou os olhos. Não queria olhar. Não queria acreditar que tudo tivesse acabado assim. O homem seguia apontando para Lion, que estava imóvel, com os braços estirados para frente, cobrindo-se. Boom! Outro disparo. Cleo não sabia de onde vinham os tiros, mas não impactavam em Lion. Faziam-no no peito e no estômago do homem vestido de negro. Um passo atrás. Dois. Três. E seu corpo cheio de músculos e anabolizantes caiu desabado. A poucos metros de Lion, apareceram Mitch e Jimmy, carregados com lanternas e pistolas, avançando como um perfeito esquadrão de polícia, um pé diante do outro. Com o antebraço servindo de suporte, cobrindo metade do rosto. —Lion?! —gritou Jimmy— Está bem? 198


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Cleo saiu de seu esconderijo e correu para socorrer Lion, que se levantava inclinando-se. Ele abraçou Cleo e apoiou o queixo sobre sua cabeça, tranquilizando-a. —Lion… me diga que está bem. —Sim, porra… —Respirou mais tranquilo. Tinha visto a vida passar em décimos de segundo; e se tinha dado conta do muito que faltava por fazer e dizer. Não podia morrer ainda. Não quando ficava tanto pelo que lutar— Sim… E você, neném? —Um pouco dolorida… Mas estou bem, acredito. —Sim? —Levantou-lhe o queixo e secou suas lágrimas com os polegares— Sim? Me deixe ver… —analisou os cortes de seus joelhos e os arranhões e as incisões dos pregos dos floggers— Sei. Sei que dói… —E você? —perguntou ela, passando as mãos por seu peito açoitado e talhado— Você está bem? —Sim, também… Mitch e Jimmy varriam o lugar e avisavam às unidades de apoio sobre o que aconteceu. Necessitariam reforços para limpar a caverna. —O colar gravou tudo —assegurou Jimmy—Nos deu a posição exata de onde estavam e viemos buscá-los. Nick ligou minutos depois de seu sequestro dizendo que não os encontravam em seu quarto. Cleo se sentou em uma rocha, ainda tremente, e Lion se agachou frente a ela. —Obrigado, meninos. Salvaram nossas vidas. — disse Lion. —Tudo isto cheira mal, senhor —pronunciou Jimmy— Temos a Sombra espiã inconsciente e a dois cadáveres. Um deles, o filho de dois membros do Tiamat, os quais são proprietários da destilaria mais importante da Louisiana. O que gravamos é ouro. Já quase os temos. —Mas não é suficiente. Eles esperam que Claudia e Billy compareçam a Ruathym. Combinaram às doze da noite ali. —Ruathym é Savana Island, senhor —assinalou Mitch aproximando-se para ver o estado de Cleo— Como está, agente Connelly? —Estou bem —respondeu fracamente— Só um pouco ultrapassada por tudo, mas passará. —Pode ficar, Cleo —sugeriu Lion, pondo ambas as mãos sobre as coxas dela— Já fez muito, agente Connelly. —Nem pensar. Você tampouco está em condições. Está como eu… —O olhou de cima a baixo. Os dois pareciam umas raposas, mas continuariam; porque eram cabeças duras e porque era sua missão— Margaret deixou uma bolsa de injeções contra a dor para seu filho Billy. Poderíamos as utilizar agora. Lion sorriu e negou com a cabeça. Cleo não ia se render; e mais agora que pensava que o sequestro de sua irmã era culpa dela. —Cleo. —O que? —perguntou seca. —Nada disto —retirou a franja vermelha que lhe cobria os olhos preocupados — é sua culpa. Você foi a chave para que resolvêssemos o caso. 199


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—Não o resolvemos. Não resolveremos até que não desmascaremos Venger e a todos os Vilões e para quem trabalham. Não é somente eles, há mais —expôs desesperada— Eu não sabia que Billy Bob tinha algo a ver com isto… Não me ocorreu… —É normal, neném. Ninguém sabia. Mas está fazendo um trabalho impecável. E tem que seguir adiante, agente Connelly. Continua comigo? Cleo piscou confusa. Deixava-a continuar? Ou, melhor: pedia-lhe que continuasse com ele? —Não vai me obrigar a abandonar? Lion sorriu com sinceridade e negou com a cabeça. —Não. É minha companheira. Acabemos juntos com isto. Lion lhe ofereceu a mão com a palma para cima. Era uma palma curtida, de homem adulto, forte; uma em que poderia apoiar-se e uma que a protegia sempre. Cleo tomou decidida e Lion a ajudou a levantar-se. —Mitch, por favor —disse seguro de sua decisão—Me traga essas injeções e nos dê um bom chute. Encarreguem-se do que aconteceu aqui. Mas não levantem suspeitas, porque isso poderia fazer que os Vilões se deem conta de que continuamos vivos. Acreditam que ainda estamos em suas mãos. Cleo e eu ainda temos tempo suficiente para chegar à ilha e lhes fazer uma surpresa. —Sim, senhor —respondeu. —Jimmy —o olhar azul escuro de Lion brilhou com decisão. —Sim? —Me passe ao subdiretor Montgomery.

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CAPÍTULO 16 “Se não ganhou minha alma, não tem direito de me submeter”.

Savana Island/Ruathym Território dos Vilões. 23:30h Cleo e Lion se encontravam ocultos entre a vegetação da pequena ilha localizada ao sudeste de Saint Thomas. No torneio de Dragões e Masmorras DS, essa ilha se nomeava com o nome de Ruathym. Era uma ilha virgem, sem civilização. Um bosque verde e frondoso no meio do oceano, cujo ponto mais alto se encontrava a vinte e cinco metros sobre o nível do mar. O vento soprava com força, resquício ainda da tormenta tropical do dia anterior. Cleo usava um macacão ajustado e fino de neoprene de corpo inteiro e uma pistola semiautomática nas costas. Lion vestia-se igual. Tinham chegado com motos aquáticas, pelo lado contrário a que acessava o iate negro, pois não queriam que ninguém os visse chegar. Savana Island era muito cheia para fazer ou construir nada em seu interior; não obstante, dispunha de uma pequena prainha em uma de suas baías, onde bem poderia celebrar uma festa para umas duzentas pessoas. No centro da praia havia um montão de madeiras amontoadas, preparadas para realizar uma cremação ou uma fogueira. “Quando chegarem, acendam a fogueira e as tochas”, havia dito Xavier. Os Vilões queriam sua particular noite do Walpurgis; e a teriam. A noite do Walpurgis era conhecida como a noite das bruxas. A tradição tinha raízes pagãs celtas e, tendo em conta que o trisquel era o símbolo do BDSM, ambos os agentes compreenderam que tudo estivesse ligado. A equipe de apoio recolheu os corpos e ocultaram Claudia e o outro indivíduo até a resolução do caso. Jimmy passava as gravações de voz e de vídeo por um filtro e deixava o material preparado para enviar diretamente ao escritório central federal de Washington. Nick completou sua tarefa, e chegou à final com Thelma. Montgomery entrou em contato com o subdirector da SVR que, por sua vez, comunicou a Markus a necessidade de encontrar-se com o agente no comando do FBI. E, agora, o casal de leões esperava pacientemente a chegada do agente russo. Tinha sua posição e não demoraria para chegar. Através do HTC, Lion podia controlar os movimentos anônimos do iate anônimo. —Mitch —ordenou Lion através de seu comunicador, carregando sua pistola— Controle esse navio e aproxime as câmeras satélite. Fotografe tudo o que mostre o nariz. Vamos ver quem viaja nesse trambolho.

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Cleo esquadrinhava a zona ao redor da praia com binóculos de visão noturna. Não tinha chegado ninguém ainda. —Temos tudo controlado? —a voz de Markus os alterou. O moicano, que carregava um GPS móvel que marcava a localização dos do FBI, se agachou ao lado deles. Cleo e Lion deram um salto e apontaram ao mesmo tempo as duas pistolas para ele. —Quer que façamos sua cabeça voar? —queixou-se Cleo. —Não, obrigado. Escolho viver. Agente Romano. —Ofereceu a mão a Lion. —Agente Lébedev —respondeu Lion ofendido por sua falta de informação até então. Markus sorriu por sua rebeldia e também ao ver descoberto seu sobrenome. —Também faço meu trabalho —murmurou Lion, olhando pelos binóculos, com um par de acendedores na mão. —Belikhov está nesse iate —afirmou o russo tomando os binóculos das mãos de Cleo— E sua irmã também —sussurrou preocupado—Reuniram a todos os escravos e submissos ali. E a ideia é trazer todos para esta ilha. Cleo apertou a mandíbula e negou com a cabeça. —Não quero que aconteça nada a Les… Está sozinha ali. —Não se preocupe; há um par de submissos infiltrados da SVR. A protegerão. Mistress Pain fazia a domesticação deles —explicou consternado—Tomei uma grande surpresa ao saber que ela era Sombra espiã. —Você e todos —assegurou Lion com desgosto. —Os submissos e as submissas estão preparados para que Pain e outros amos e amas os recebam em Savana Island. O que terá que fazer agora? —Temos que acender as tochas. —Cleo se levantou cambaleando. A injeção tinha detido a dor, mas não o choque. Ainda continuava trêmula— Disseram a Claudia que, quando chegassem, acendessem o fogo. Os três saíram de seu esconderijo e, com grande rapidez, procederam a acender a fogueira e as tochas ao redor, para voltar a esconder-se segundos depois. O sinal de fogo era o disparo de saída. O aroma da madeira ao queimar despertou a ansiedade de Cleo. Por fim veria quem eram os membros da Old Guard para os que trabalhavam os Vilões. Em realidade, já os pegaram. Essa era a realidade. Mas precisavam entender o que faziam ali com eles e por que. Os indivíduos da embarcação se considerariam, muitos, como os reis do mundo. Mas ter dinheiro dava a alguém o poder de jogar com as pessoas? Quando esteve tudo aceso, o iate, um Baron de 2005 todo negro e avaliado em mais de quatro milhões de dólares, ligou o motor e as luzes e navegou até a ilha. —Às suas posições —ordenou Lion—Esperaremos que todos desembarquem. —Tenho a oito homens armados em todo o penhasco —explicou Markus. —Nós temos uma pequena frota marinha dirigindo-se a Saint Thomas —replicou o do FBI. —Bem. Sorte —disse Markus correndo para ocultar-se e cobrindo seu rosto com uma máscara de cabeça inteira de tecido negro. 202


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—Lébedev. —Lion seguia olhando à frente. —Sim, Romano? —Cuide da minha agente. Espero que Leslie não corra perigo ou terá problemas comigo. Markus inclinou a cabeça a um lado e se afastou deles enquanto respondia: —Leslie nunca esteve mais segura. Cleo abriu a boca assombrada pela familiaridade com a que falavam de sua irmã. Sinal de que os laços pessoais e emocionais também faziam o seu. Quando Markus desapareceu entre a vegetação e as árvores, Cleo ficou olhando o perfil de Lion. —Preparada para o filme, leoa? —perguntou Lion baixando os binóculos e estudando o rosto de Cleo com olhos felinos. —Sim. —Fez um grande trabalho —assegurou com respeito e veneração. Cleo era, e seria, mais do que ele tinha sonhado; e se sentia como um sacana afortunado por tê-la com ele, e por saber que ela o aceitava tal e como era. —Obrigada, senhor. —As feridas doem, preciosa? —Não as noto —explicou movendo as pernas e os braços. Não as notava; mas isso não queria dizer que não seguissem ali. Lion a observou de cima a baixo, aproximou-se dela e lhe deu um beijo nos lábios. Como se acabassem de selar um pacto. —Quando tudo isto acabar —limpou a garganta e voltou a olhar à frente—, assegurarei-me de que suas feridas cicatrizem bem. Cleo não soube como interpretar essas palavras, porque o iate atracou a quarenta metros da borda e os Vilões, convidados e submissos, começaram a descer pela rampa. Levantaram suas túnicas negras e caminharam pela água até chegar a terra firme. Era a própria imagem cinematográfica de um avanço de piratas fantasmagóricos. Todos mascarados com máscaras grotescas. Atrás deles, desfilavam homens e mulheres encadeados em fila indiana: submissos e submissas. Vestiam somente com um slip, com as cabeças cobertas com máscaras, e carregavam caixas sobre suas cabeças, que iam deixando em ordem aos pés dos Vilões. Estes as abriam uma a uma e tiravam todo tipo de instrumentos de tortura. Não tortura BDSM, mas sim tortura das antigas. Das que utilizava a antiga Inquisição contra as bruxas e os feiticeiros: roldanas, toucas, potros, peras anais, esmaga-cabeças, colares de pontas, roda… Até peças de brincadeiras como sacos para a cabeça e máscaras infames. Três escravos carregavam uma antiga cadeira de tortura com pontas agudas, como as que O Papa Inocencio IV aceitou para que os tribunais da Inquisição a utilizassem e arrancassem as confissões dos acusados. Já havia um círculo de uns cinquenta homens e mulheres mascarados adorando tais objetos e, alguns, afiando as pontas metálicas de seus floggers. No interior do círculo se foram localizando, 203


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ajoelhados, todas as submissas e submissos vestidos só com arnês de pônei, slips de couro e arnês de gladiador. Os cinco membros do Tiamat se colocaram no meio do círculo, muito perto da fogueira. —Pedimos a presença do Venger —exigiu um dos cinco, que não era nem Xavier nem Margaret— e da Sombra espiã. O círculo se abriu e, através desse corte, apareceu Venger. O autêntico Venger, perfeitamente caracterizado, tal e como se viu na tela do dia anterior, igualmente vestido. Com seu macacão de corpo inteiro vermelho e negro, seu chifre sobre a cabeça e as asas de morcego que nasciam nas costas. Carregava algo nas mãos, coberto com um tecido negro, e puxava a cadeia do colar de um submisso. Cleo sorriu, orgulhosa de saber que todas essas imagens se estavam gravando de várias perspectivas da ilha. Orgulhosa de saber que já não poderiam jogar esse ato sádico. A expressão feliz da jovem desapareceu de sua expressão quando as tochas iluminaram o rosto do submisso; e tanto ela como Lion se deram conta de que era Nick a quem Venger arrastava. —Aqui têm o casal ganhador da segunda edição de Dragões e Masmorras DS! —exclamou olhando a multidão com olhos sádicos— O convidamos para que vivam de primeira mão nossa noite do Walpurgis. —Às suas posições e se preparem —sussurrou Lion muito tenso mediante o microcomunicador— O que faz Nick ali? Cleo não podia afastar o olhar desse indivíduo. Era muito alto, mais que outros; e a maquiagem branca e os lábios negros lhe davam um aspecto horripilante. —Tivemos umas pequenas diferenças… — deu de ombros —, mas, ao final, acredito que chegaremos a um acordo —olhou a seu redor— Onde está Sombra espiã? —Mistress Pain? —perguntou Margaret com tom preocupado. O silêncio só se viu alterado pelas ondas do mar e o crepitar da lenha das fogueiras. Lion não compreendia nada, o que tinha acontecido para que Nick caísse nas mãos do Venger desse modo? Venger observou ao redor e pôs-se a rir. —Estará sodomizando a algum submisso. Já sabem o que gosta… Os membros do Walpurgis puseram-se a rir. Os submissos permaneciam com a cabeça encurvada. “Leslie é uma delas?”, pensava Cleo. —Hoje limparemos nossas almas. E para isso ofereceremos ao deus do fogo, Beltane, estes sacrifícios —assinalou aos escravos— Mas, antes, purgaremos seus pecados com um bom castigo! —exclamou puxando Nick pelo cabelo—. Não devem chorar, não devem temer —murmurou Venger beijando Nick nos lábios— É uma honra para vocês servir a Old Guard. Por fim os tratarão como merecem; por fim se entregarão ao verdadeiro significado da submissão —disse acariciando o queixo dele — Submeter-se —assegurou atirando o que tinha na outra mão ao centro do círculo—, é entregar a vida por outros. 204


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A bílis de Cleo subiu pela garganta. Era uma cabeça loira? Uma cabeça loira de mulher? Era Thelma! Cleo e Lion abriram os olhos quando se deram conta do que iam fazer. Os Vilões agarraram os escravos e começaram a açoitá-los com aqueles floggers cheios de cristais e metais cortantes. —Adiante! —gritou Lion estupefato. Cleo e Lion saíram disparados de seu esconderijo, impressionados pela visceralidade e a crueldade com a que as pessoas podiam tratar as outras. Aconteceu tudo muito rápido. Alguém começou a disparar do iate. Cleo e Lion correram para proteger-se das balas, imersos em um fogo cruzado muito perigoso. Os Vilões deixaram seus floggers e seus instrumentos de tortura e fugiram da praia e da fogueira, retornando por onde tinham vindo, decididos a subir de novo ao iate. Duas lanchas da guarda costeira, lideradas por Mitch e Jimmy, rodearam a praia; e o iate foi cercado por três lanchas mais, enviadas da segurança da costa naval das Ilhas Virgens. A equipe de Markus saiu do bosque e reduziu os Vilões que tentavam fugir. Lion correu atrás do Venger, que se metia na frondosidade selvagem da ilha. Cleo correu para ajudar Nick, pois o via muito ferido gravemente. E quando esteve a ponto de chegar a ele, Xavier o alcançou antes e agarrou uma ponta cortante de um flogger para dirigi-la à garganta de Nick. —Solte-o, Xavier! —gritou Cleo apontando para ele fixamente com sua semiautomática. Xavier já não tinha posta a máscara. Era um homem atrativo, tão bonito como tinha sido seu filho. —Onde está Billy? —gritou nervoso—O que faz viva? —Seu filho passou desta para melhor, Xavier. Agora poderá descansar. Tanta maldade não é boa… —Não! —gritou Margaret se deixando cair de joelhos e arrancando a máscara com raiva e desespero— Nãããooo! —chorava colocando mãos à cabeça— Meu filhoooo! Xavier não sabia como reagir; assim tocou a pele da garganta de Nick com a ponto de metal. —Não se mova, Xavier! —advertiu-o— Ou atirarei… —Como escapou? —perguntou pálido. —Suponho que quando alguém não quer estar realmente submetido a outra pessoa, sempre encontra o modo de escapar —respondeu sem perder de vista Margaret, que tinha uma vara de pontas agudas na mão— Deixe isso, Margaret —a ameaçou— Seu jogo acabou. Os descobrimos. Olhem a seu redor… acabou. —Nãããooo! Margaret se elevou e correu para Cleo com a vara de pontas agudas na mão. Ao mesmo tempo, Xavier cravou a ponta metálica no pescoço de Nick. Cleo disparou. A bala se incrustou no crânio de Xavier, entre as sobrancelhas, e caiu fulminado. A agente tentou esquivar a porrada da vara de Margaret, mas a acertou de raspão no ombro. 205


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—A mãe que te pariu! —gritou Cleo se queixando, inclinando-se a um lado e dando um joelhada no estômago da besta selvagem que possuiu o corpo dessa mulher. Margaret ficou dobrada pela metade, agarrando o ventre, embolada. Cleo apontou à cabeça. “Os impulsos dos seres humanos não são racionais quando nos tocam aquilo que devemos proteger. Posso entender a ira”, tinha respondido em sua entrevista pessoal. Sim, podia entender a ira. Podia entender a raiva e a impotência de saber que havia pessoas como Margaret, Xavier, Claudia, Billy, Venger, Belikhov…, que jogavam com as pessoas e as machucavam porque… Porque podiam. Tinham tanto poder e estavam tão por cima de todos que a vida os aborrecia. E o único que realmente os excitava era o poder de dar ou tirar o fôlego de outros. Ser deuses. Ela tinha sofrido o sadismo de outros em sua própria pele. E sabia que Leslie, Nick, Lion… Todas essas pessoas às que queria, também tinham sofrido nas mãos deles. Em sua mão, tinha o poder de decidir se a doente mental da Margaret devia continuar respirando. Por que? Que bem fazia? E, entretanto, em vez de matá-la, pegou o cabo da arma e golpeou com ela a nuca da assassina. Margaret ficou inconsciente. Cleo baixou sua semiautomática e pôs a trava. Que orgulhoso estaria Stewart dela; e que feliz faria ao padre que lhe fez a catequese. Ao final, ante a possibilidade de tomar a vingança por sua mão, decidia outorgar vida. Deveriam-na beatificar. Compreendeu que matar Margaret não acabaria com a maldade nem a raiva. Ela não era a origem. Para uma mulher da aristocracia de Orleans seria muito pior que todo mundo entendesse quem era ela. Que tipo de sádica e sociopata tinham convidado a eventos e festas estatais. Isso seria pior para ela que lhe dar uma morte fácil; que por outra parte, era o que realmente desejava. Apodreceria-se no cárcere. E esperaria que jogassem com ela nas duchas e nas celas. Certamente que gostaria. Tinha umas inclinações um tanto… turvas. Cleo elevou a cabeça e, orgulhosa de sua reação, correu a socorrer Nick. A seu redor, ninguém fazia caso de nada. Uns fugiam e os outros perseguiam; os agentes disparavam paralisantes, e os corpos dos Vilões se viam cair um a um no mar, como enormes moscas afetadas por um inseticida invisível. Nick perdia muito sangue pelo pescoço. Cleo tapou a ferida e apoiou sua cabeça loira sobre seus joelhos. —Cleo… —disse Nick tremendo. —Estou aqui, Tigrão —lhe acariciou o rosto— Não vai morrer, mas tem uma ferida muito feia no pescoço. Senhor… E acredito que tem o braço quebrado —murmurou divisando a fratura que se sobressaía de seu antebraço. —Não importa. Sophie… Louise… —Sophie? —Cleo franziu o cenho— Sophiestication? —perguntou sem compreender. —Sim… Tire-a do navio. —Mas se a eliminou! O que faz ali? —A pegaram — Nick engoliu saliva e se queixou— Não saiu da ilha. Os Vilões a queriam. Iam vendê-la… tem que tirá-la dali… Por favor… Dentro do iate há submissas que serão expostas para 206


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serem vendidas a proponentes milionários. Iam leiloá-la… E contestei. Venger me pediu que me calasse. Eu voltei a me negar… —Fechou os olhos desmaiando de dor— Desafiou-me a um duelo de cavalheiros, e lutei com ele. Mas o filho da puta tinha objetos e eu não… Ganhou; e decidiu que Thelma devia pagar por minha intromissão, porque, ao ser seu submisso, não soube me adestrar para obedecer ordens. E… —Nick desviou o olhar à cabeça da loira ama. —… Porra… Cleo abriu os olhos surpreendida. —Não olhe, Nick. —Tinha que deixar de ver aquela cabeça decapitada— Não é sua culpa… Nick chorava desconsolado. —Nick… —Cleo encostou seu testa à dele— Por que protegeu Sophiestication? Era somente uma competidora… —Não —negou com a cabeça— Não é uma competidora. É Sophie. Minha ex-mulher. Cleo abriu a boca e demorou vários segundos em reagir. O tetris cerebral da agente começou a funcionar. —Nick… —Seria possível que tudo tivesse relação?— Sua mulher colocou uma ordem de afastamento, verdade? E se chama Sophie. —Sim. —Divorciaram-se porque… — “Vejamos como digo isso”— ela se assustou quando você tomou um papel mais dominante de que estava acostumada na cama? Nick gemeu de dor e as pálpebras se fecharam. Assentiu com patente debilidade. —Tem uma menina pequena que não te deixou ver… —Como você sabe … isso? —inquiriu incrédulo—Lion te contou? —Não. Lion não me contou nada sobre vocês. Cleo olhou ao céu e negou com a cabeça. Sophie a tinha acompanhado no voo de ida desde Nova Orleans a Washington; e estava decidida a recuperar seu marido, a recuperar Nick metendose em Dragões e Masmorras DS com ele. Nick a descobriu ao compartilhar trio com ela e Thelma, e por isso a eliminou. Eliminou Miss Sophiestication do torneio porque se tratava de sua ex-mulher. —Tire-a dali —repetiu Nick com uma ordem alta e clara— Agora. —Sim, Nick. —Olhou ao iate, que já estava sendo abordado pelos agentes do FBI e da SVR. Renderam aos atiradores— Já o estão fazendo. Tiraremos todos de lá. O que aconteceu com o Prince, Sharon e outros? —A última jornada foi contra os Homens lagarto… Nós não jogamos contra eles porque conseguimos a chave… Porra… Nunca tinha visto tantos casais pronunciando o codeword. Esses homens e mulheres davam medo de verdade. E, depois, aos finalistas, imediatamente, prepararam-nos para o duelo com os Vilões. —Quais foram os casais finalistas? —Brutus e Olivia, Cam e Lex, Thelma e eu… Todo mundo se surpreendeu ao não vê-los. Sharon e Prince não ficaram muito convencidos de sua exclusão, e fizeram… Fizeram todo tipo de perguntas que os Vilões cortaram pela raiz. À Rainha , as criaturas não ficaram satisfeitas com sua atitude, mas ao final se presenciaram como juizes no desenlace. E quando acabou o torneio todos se foram ao hotel para celebrar o fim do campeonato. 207


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Cleo olhou para o horizonte. A ilha de Saint Croix, que era onde se jogava a final, estaria acordada e atenta ante todos os movimentos de helicópteros, lanchas e sirenes, que estavam tendo lugar na Savana Island. —Houve prêmio de consolação para outros? —Deram de presente uma viagem a Louisiana, a Nova Orleans. E receberam um cheque de dez mil dólares cada um… —Nick sorriu e tossiu. A ferida do pescoço sangrou com mais força— Mas… —Tudo bem, Nick. Não fale mais —ordenou, preocupada com ele. Ao longe se escutaram dois disparos e Cleo, estremecida, olhou para o interior do bosque. O que aconteceu? Em quem atiraram? Lion? —Lion! —gritou com todas suas forças.

Lion corria pela selva, chocando-se nos matagais e com as raízes que cresciam escondidas no solo. Tinha Venger ao alcance da mão; o tipo corria como uma gazela, mas a gazela não podia com o rei da selva. Lançou-se e o agarrou na altura dos joelhos; e os dois caíram ao chão. A grama e a areia úmidas amorteceram o golpe. Venger lhe atirou um chute no rosto; e depois Lion voltou a agarrá-lo pelo tornozelo para que não fugisse. Subiu sobre ele, como um bonito trepador, e lhe pôs as mãos às costas, o imobilizando. —Olá, doente filho da cadela —grunhiu tirando umas algemas, que penduravam da parte traseira do macacão— Vai ver quantos paus e porretes há no cárcere. Verá quanto você gosta… Na prisão há amos do calabouço de verdade. —Sairei. Sairei dela —murmurou sem preocupação, lutando com o agente— Você não sabe quem sou… —Sim. Sim que sei… É Venger, o vilão de Dragões e Masmorras — sussurrou em seu ouvido— Mas esse papel só existe em sua mente. Em realidade, é um covarde. —Não é verdade. Existo na mente de todos. Eu sou o mal —pôs-se a rir de forma histérica. —É anormal. Tem razão. Andando —Lion o levantou do chão rapidamente, e o empurrou para que caminhasse diante dele. Quem seria esse tipo para que toda aquela gente o seguisse? Não demorariam para descobri-lo. Lion e Venger caminhavam juntos, percorrendo o trajeto de volta que tinham tomado na perseguição. 208


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Conseguiram. Lion sorriu. Conseguiram. Tinham os putos Vilões. Talvez não a todos os que eram, mas eram todos os que estavam ali; disso estava seguro. E Cleo… Sua Cleo esteve sublime. Deus… já estava imaginando como celebrariam a finalização do caso. Venger tropeçou e ficou agachado no chão, quase de joelhos. —Levante-se. Vamos —ordenou Lion, indo até ele para ajudá-lo a levantar-se. E, então, algo aconteceu. Algo que Lion não compreendeu até que notou a dor muita profunda nele. Venger se virou com rapidez e tinha investido com a cabeça em seu estômago, de maneira que o chifre que tinha na têmpora esquerda, atravessasse o lado direito de suas costelas. Lion abriu os olhos azuis e exalou quando Venger se levantou e extraiu o chifre. Agora o exibia ensanguentado sobre sua cabeça. Consternado, mas não o suficiente para não ver o seguinte movimento de Venger, Lion levantou sua pistola e disparou em seus dois joelhos. Venger gritou de dor, chocando-se contra a raiz de uma árvore. Lion levou a mão à ferida das costelas. Certamente que assim devia sentir a chifrada de um touro. O safado o transpassou com esse ridículo chifre que carregava na cabeça. Lutando por respirar, e pensando no muito que riria Cleo dele se soubesse como caiu, fechou os olhos, e esperou que o frio o cobrisse e chegasse a escuridão.

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CAPÍTULO 17 “Às vezes, nas cadeias da submissão, há a verdadeira liberdade”.

Três dias depois Hospital George Washington Cleo estava sentada em frente ao subdiretor do FBI, Elias Montgomery. Repassavam juntos o relatório que Cleo tinha redigido. Estava acostumada a fazê-los ela mesma em Nova Orleans e não se importou de redigi-lo para o FBI. DATA: 2012-07-26 FONTE: SVR/FBI CLASSIFICAÇÃO: CONFIDENCIAL C ON F I D E N T I A L Washington 000328 SIPDIS: AMOS E MASMORRAS LK POR CLEO CONNELLY KL POR LION ROMANO MP POR LESLIE CONNELLY E.O. 32561: DECL: /23/2012 ETIQUETAS: Tráfico de mulheres, sodomização, prostituição, escravidão, tráfico de drogas SUJEITO: TFH04: Aberto e fechado: o caso de Amos e Masmorras REF: Washington 939 Classificado por: FBI Elias Montgomery Nele, Cleo resumia os doze meses de formação dos agentes Nick Summers, Leslie Connelly, Lion Romano, Karen Robinson e Clint Myers no mundo da dominação e da submissão para resolver e investigar os homicídios de Irina, Katia, Marru e Roxana e, por outro lado, pelo consumo de uma variação nunca vista de popper e cristal. Falou do descobrimento do fórum do jogo Dragões e Masmorras DS e a chegada do segundo torneio que se celebrava esse mesmo ano. Explicava como assumiram seus papéis e investigaram todas as Criaturas até averiguar que eram os Vilões os que moviam todos os pauzinhos. Depois disso, e há poucos dias que começasse o torneio, Leslie desapareceu; e, tristemente, achou-se o cadáver de Clint, morto por asfixia. No relatório se detalhavam os quatro dias de jornada do torneio, assim como o descobrimento da variação do popper com cristal, com Keon como químico, que melhorava a anterior fórmula e não provocava choques anafiláticos. O contato direto com Markus Lébedev, agente secreto russo, e a aparição de Leslie Connelly deram origem à colaboração conjunta entre o FBI e o SVR, em qualidade de amo e submissa. Markus reconheceu Cleo em uma prova do torneio e a levou a Peter Bay, onde tinha muitas outras submissas levadas por Belikhov: um mediador russo entre Vilões e compradores, para que lhes 210


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fizesse a domesticação. Assim entenderam o que faziam com as mulheres e homens que sequestravam e adestravam para serem os escravos, cachorrinhos e submissos de autênticos sádicos multimilionários. Alguns viveriam e seriam vendidos ao melhor proponente; outros morreriam em Walpurgis. Revelou a trama do rum e de como Lion suspeitou corretamente de Mistress Pain, uma ama menina rica da Upper East Side de Nova York, apaixonada pelo agente Romano, e responsável pela morte de Clint Myers; e tal e como depois atestou, dos outros dois submissos sem identificar que se encontraram com guiches no períneo. Sombra espiã, como era conhecida Claudia entre os Vilões, sequestrou Cleo Connelly e Lion Romano, levando-os até Tiamat, formado por cinco cabeças pensantes com muito poder, entre os quais se destacavam os D’Arthenay. Os D’Arthenay eram um conhecido casal de multimilionários de Nova Orleans, cujo filho foi preso por Cleo Connelly, quer dizer, ela mesma. O fato de que os D’Arthenay as reconhecessem, a ela e a Leslie, como filhas de sua própria cidade e responsáveis pela infelicidade de seu filho, propiciou a aceleração do caso. Os D’Arthenay queriam uma vingança pessoal; e esperavam acabar com elas. Mas não conseguiram. Lion e Cleo escaparam da gruta em que estavam a ponto de ser cruelmente executados mas, em sua saída, Billy Bob morreu. Depois disso, abortou-se a noite do Walpurgis graças a uma excelente ação policial conjunta entre as equipes das Ilhas Virgens, o FBI e a SVR. Venger era Yuri Vasíliev, herdeiro de uma dinastia siderúrgica única na Rússia. Seu pai, Aldo Vasíliev, era um dos dez homens mais ricos do país. O SVR estava investigando a relação de Vasíliev com o negócio da prostituição e o tráfico de escravas em sua terra. Tiamat estava formado pelos D’Arthenay, um banqueiro americano que tinha triplicado seu patrimônio comprando créditos baratos, chamado Leonard Necho, e os gêmeos Taylor, os proprietários de uma cadeia de hotéis fundada por seu pai, Jonathan Taylor. Todos estes personagens eram descendentes da Old Guard ou de simpatizantes deles. Tinham inclinações sádicas e uma alta propensão a experimentar prazer ao controlar a dor, o sofrimento e a morte alheia. Não pretendiam nada com isso, não procuravam nada com isso. O procedimento era o seguinte: pediam homens e mulheres, tratavam com Belikhov, e Belikhov os fornecia mediante seus contatos. A alguns os captavam através do fórum Dragões e Masmorras DS, como aconteceu com Irina, mas a maioria era fornecido por sua própria rede de tráfico. Os Vilões os dirigiam aos amos que tinham contratados para sua domesticação e sua disciplina. Os amos e amas trabalhavam com eles durante um máximo de dois meses, com o objetivo de os ajudar a suportar a dor, quanto mais dor pudessem, muito melhor. Procuravam resistência; pessoas que não pudessem sucumbir facilmente ante um castigo; e por isso os adestravam com ajuda das drogas popper e Cristal. Depois da domesticação, devolviam-nos aos Vilões. E, tal e como tinham feito essa noite, mostravam-nos e os vendiam a um montão de milionários em linha que os compravam via webcam e paypal. E aqueles que ninguém queria, os levavam a fogueira e os castigavam para sacrificá-los e entregá-los como oferenda ao deus Beltane. 211


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Por que faziam isso? Havia cinquenta pessoas encarceradas a ponto de serem submetidas a julgamento. Cinquenta homens e mulheres que teriam desfrutado de uma noite em que torturariam, mutilariam e acabariam fazendo uma cremação de todos esses submissos que se entregaram a eles, confiantes e drogados até as sobrancelhas. E o que responderiam nesses julgamento cinquenta imputados? Quão mesmo tinham respondido nas interrogações. —Por que o sadismo? Por que matar? —Porque a vida não contribui nada novo. Porque não há maior entretenimento nem maior poder que saber que tem entre suas mãos a última fibra de oxigênio de uma pessoa. Esse é o prazer que encontramos. Achar na confiança e a fragilidade de outros todo seu poder. Esse era o lema do mau trato: abusar da fragilidade e da confiança de outros, de saber que se atreviam a ficar em suas mãos, atados, submetidos…, esperando aquilo que os faria voar, para encontrar-se com a outra face da moeda: Um abusador que golpearia, cortaria, violaria e submeteria cada parte de sua alma. E essa era a diferença entre os Vilões e o que Cleo tinha visto em Sharon, Prince, Brutus, Olivia, Lex, Cam, Nick, Louise Sophiestication (Sophie), Thelma, Markus, Leslie e todos os participantes que deviam jogar sadiamente ao torneio de Dragões e masmorras DS; autênticos amos e submissas que o viam como um jogo, como uma prática sexual, sã, segura e consensual. Os autênticos amos e amas alimentavam e reforçavam essa confiança, demonstrando que a dor só era uma sala de espera do prazer; e nunca era dor extrema. A dominação e a submissão de Dragões e Masmorras DS não tinha tendências sádicas. Os sádicos com sociopatas, como todos os multimilionários aborrecidos de sua realidade que formavam os Vilões, destruíam e se centravam na dor e na submissão autêntica até o extremo de arrebatar a vida. Saber que esse tipo de gente existia, e que não estava tão longe dela como se pensava, assustou-a. Mas devia seguir adiante. Continuava viva, não? —Agente Connelly, seu relatório é maravilhoso. —Felicitou-a o subdiretor. —Obrigada, senhor —respondeu com o olhar fixo na sala de espera do hospital. —Será uma honra oficializar seu contrato com o FBI. Já é uma dos nossos e, além disso, com matrícula —lhe deu a mão com afabilidade. Já era uma deles. Já era uma agente dupla do FBI. Cleo estudou a mão que brindava o subdiretor e pensou que, certamente, não seria uma mão que ficaria no fogo por ela. A única mão que fez isso foi a de Lion. E o resultado tinha em frente de seus narizes: Lion acabou gravemente ferido; e embora já estava fora de perigo, Cleo nunca esqueceria as horas que esteve com ele no helicóptero, tapando a ferida, esperando que o sangue não encharcasse seus pulmões. Um rosto tão lindo como o de Lion, com essa incrível e terna covinha no queixo e aquelas feições tão perfeitas, nunca devia tornar-se azulado como ficou naquelas horas de agonia.

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Deus, estava tão apaixonada. Tão louca de amor por ele. Tão ansiosa e viciada em suas palavras, em seu toque, em seus sorrisos e suas brincadeiras… Lion despertou fazia vinte e quatro horas; e as duas vezes que tinha entrado para vê-lo, teve a má sorte de encontrá-lo dormindo. Parecia que o fazia de propósito. Porque não queria voltar a passar pelo mesmo; porque não poderia viver assim com ele, com essa angústia, com esse medo arrasador. Cleo tomou a mão que Montgomery lhe oferecia e disse: —Rejeito o trabalho, senhor. —Como? —Montgomery arqueou as sobrancelhas. —Decidi que… não quero isto. —Está sob os efeitos do choque, senhorita Connelly. É compreensível … — Tranquilizou-a amavelmente— Não penso aceitar sua negativa, até que não passem, no mínimo, duas semanas. Cleo piscou e franziu o cenho. —Senhor, acredito que deixo bastante claro… —Certamente que agora o tem. Mas possui esse fator X, Cleo, que faz que consiga tudo o que se propõe. E nosso escritório precisa de pessoas como você. Como sua irmã. —Senhor… —Não, Cleo. —utilizou seu nome—Não aceito. Dou tempo para que pense. Pense com calma. Volta para casa, relaxe. Tome umas merecidas férias. Em quinze dias voltarei a ligar para você. —De momento meu não é não —elevou a voz para que sua posição ficasse clara. —Sei. —Montgomery sorriu, guardou o relatório na mala, que utilizaria para fazer todas as interrogações pertinentes, e elevou a mão para despedir-se— Até logo, Connelly. —Adeus. Cleo ficou sozinha de novo. O aroma de hospital a deprimia muito. Visitaria Lion outra vez. Sabia que estava esgotado e que tinha recebido Spurs e Montgomery; mas ela morria de vontade de vê-lo. De que abrisse seus olhos e a olhasse. Levantou-se extenuada. O choque emocional sempre a deixava arrasada. Suas feriadas ainda ardiam. A algumas tinham dado até pontos, porque os cortes resultaram muito sérios. Chegou ao elevador e tocou o botão do quinto andar. Quando as portas iam fechar-se, uma mulher de lindo cabelo castanho comprido, vestida com minissaia negra, blusa branca, blazer e saltos, entrou no elevador. Cleo abriu os olhos e ela sorriu timidamente. —Sophie —a saudou Cleo. Não voltou a vê-la desde que Nick a eliminou. —Olá, Cleo. —Eu… —Não sabia o que lhe dizer. Sophie tinha arriscado tudo por Nick; até o ponto de meter-se em um torneio no qual acreditava que seu marido participava de boa vontade e jogar 213


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como submissa de uma dominante um tanto peculiar. Thelma tinha morrido… Se lamentou—. Deus; nem sequer sei o que te dizer… —Não diga nada —respondeu com uma voz calmante e suave. Seus óculos grandes e de armação negra cobriam parte de um hematoma que tinha na bochecha— Não precisa que diga nada. As palavras, nestes casos tão óbvios, sobram. —Sim. —Cleo retorceu as mãos e prendeu uma mecha de cabelo vermelho detrás de sua orelha. Caramba, ao lado da elegância de Sophie, e vendo como estavam vestidas, sentia-se como uma andrajosa. Cleo usava uma calça jeans furada e baixa na cintura, umas sandálias de dedos amarelas e uma camiseta branca de alças. Tinha band-aid e ataduras por todos os lados. Pelo contrário, e por sorte, Sophie não tinha feito quase nada, embora certamente que o verdadeiro corte o levaria por dentro. O medo e a sensação de descontrole não se apagariam jamais— Vai ver… ? —Nicholas? Sim —respondeu pigarreando— Isso se me deixar, claro. As duas vezes que o visitei me expulsou do quarto. —murmurou envergonhada. —Que idiota —opinou Cleo— Foi um ato muito valente de sua parte fazer isso por ele, Sophie —reconheceu— Não sabia que era Miss Louise Sophiestication. Deus… nunca teria imaginado. A morena deu de ombros. —Estava sempre mascarada. Era normal que não me reconhecesse. —Mas você a mim, sim. —Oh, Deus —suspirou— Sim. E quando vi que se fazia de ama de Nicholas não podia acreditar nisso. Não entendia o que fazia Nick ali, de submisso… Me deixou desorientada. Cleo sorriu com compreensiva. Tinha vontades de dar um abraço naquela mulher valente. —Não sou capaz de imaginar o medo que passou quando se deu conta de que eu o coloquei à venda… Sophie apertou os dentes e olhou para outro lado. —Retiveram-me na ilha. Pensei que… Pensei que iam me matar… — Exalou, como se não tivesse forças para continuar— Não sabia o que estava acontecendo… Me drogaram, drogaram a todas… —Mas isso já passou. —Cleo pôs uma mão sobre o ombro dela, sabendo que aquela mulher nenhuma vez ia esquecer a experiência traumática vivida— Sabe? Nick deixou de jogar de dominante na missão, depois de você. —Bom, não me admira… o traumatizei —jurou arrependida. —Foi tão ousada… A admirei muito quando Nick me disse quem era você. Como se atreveu a se colocar ali, em um torneio assim? —Eu somente queria recuperar meu marido… As situações desesperadas requerem medidas desesperadas. Não dizem isso? —Sim. —Também foi uma grande estupidez tudo o que lhe fiz quando me assustou. E… Isso não vai me perdoar. —Com o tempo… 214


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—Com o tempo? —repetiu ela olhando-a de soslaio— Passei sete anos casada com ele. Tivemos uma menina maravilhosa… E, agora, já não sei nem com quem me casei. Nicholas é um agente do FBI, não um agente comercial… Me sequestraram no maldito torneio do BDSM e quase o mataram… Vi como… Vi como Venger matava Thelma. —Os olhos se encheram de lágrimas— E eu não tinha nem ideia —protestou levantando um pouco a voz— Nem ideia de nada, de… — sussurrou mordendo o lábio inferior. Cleo compreendia o desassossego da mulher. Mas, às vezes, ser agente duplo comportava mentir e ocultar a identidade até aos que mais se amava. Às vezes, ser agente duplo era arriscar a vida daquele modo. As duas desceram no quinto andar. —Bom, vou tentar de novo —assegurou a bela mulher secando os olhos umedecidos. —Sorte. —Desejou-lhe Cleo parando em frente da porta de Lion — Entre em contato comigo quando precisar, Sophie. Nick… Nicholas tem meu telefone. —Obrigada —respondeu Sophie com cara de enfrentar ao diabo— Não descarto isso. — Seguiu caminhando até parar na porta de Nick. Bateu com os nódulos e abriu a porta. Cleo rezou para que Nick desse uma oportunidade àquela garota que tanto se arriscou por ele. Tinham algo para arrumar e muito a reconstruir. Mas, se se amavam, deviam conseguir. Cleo olhou o número do quarto de Lion. 513. Olhou pelo vidro da porta e por fim viu que ele falava com Mitch e Jimmy, ou tentava. Vê-lo acordado encheu de luz seu coração. Seus olhos de leão se encontraram com os dela através do vidro. Cleo levantou a mão e o saudou, com um sorriso de orelha a orelha. —Olá —disse através do vidro, como uma menina pequena e feliz. Esperaria que os dois agentes se fossem. E, então, ela entraria e, se permitissem, deitaria-se com ele na mesma maca e o abraçaria. E choraria. Choraria de felicidade por vê-lo bem e a salvo.

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CAPÍTULO 18 “Ao final, o submisso é quem submete ao amo, com sua entrega e sua aceitação”.

New Orleans Tchoupitoulas Street Cinco dias depois Ringo se apoiava em seu dedo indicador, abraçando-se a ele como se fosse seu salva-vidas. —Ei, Ringo… À frente! Olhe à frente! —insistia Cleo, sentada na cadeira de balanço do alpendre da frente. Lion não quis vê-la. Cinco dias atrás, Cleo esperou pacientemente que Jimmy e Mitch se fossem do quarto do leão. E, quando o fizeram, ambos lhe comunicaram: —Lion diz que quer descansar, Cleo. Não quer mais visitas. Aquelas palavras foram como uma jarra de água fria para ela. Mas tentou compreendê-lo… Sua ferida tinha sido complicada e o chifre poderia ter atravessado órgãos vitais importantes… Desculpa. Voltou a ir no dia seguinte. E de novo aconteceu o mesmo. Lion recebia a todos, exceto a ela. Saber disso a rasgou por dentro, porque não entendia o que fez de errado ou o que acontecia. É que não tinha vontade de falar com ela? Não queria abraçá-la? Porque Deus sabia que inclusive que seus dedos picavam com a vontade que tinha de tocá-lo. Onde ficavam as palavras da noite anterior do sequestro? Onde? O vento as levou, estava claro. “Nunca confie nas palavras que um cara te diz enquanto a fode”, dizia-lhe Marisa. E quanta razão tinha. Assim, depois de estar dois dias mais na sala de espera, decidiu que se cansou de esperar. Decidiu e partiu de Washington. Foi a Nova Orleans, para sua casa, onde acontecesse o que acontecesse tudo continuava igual; onde inclusive tinha vontade de ver a senhora Macyntire e o seu cão fodedor. Esse era seu lar. Que a fazia sentir-se segura. Embora agora o ambiente estava um pouco agitado pela notícia do fechamento da destilaria de rum e a prisão dos D’Arthenay. Por isso, nessa mesma noite, as famílias mais enriquecidas da cidade tinham decidido organizar uma festa no parque Louis Armstrong. A irmandade entre cidadãos era básica para uma boa coexistência. E o mais importante: uma boa festa sempre cobria as manchas. Nunca a feriram tanto. Aquelas duas semanas com Lion a tinham marcado a fogo, jogada pelos ares e depois descido à terra com um golpe seco e destrutivo. Como uma maldita montanha russa. 216


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Acima e abaixo. O céu e o inferno. Prazer e dor. —Ouça C — Leslie saiu ao alpendre com a jarra de chá gelado na mão e dois copos na outra—, deveríamos nos preparar para… Cleo levantou o olhar, com o Ringo na mão, e Leslie correu a seu lado, deixando a jarra na mesa. —Está chorando outra vez, querida —murmurou Leslie cobrindo-a entre seus braços. —Ah, sim? —Fantástico, chorava e não se dava conta. —Sim, tola —murmurou Leslie sobre sua cabeça, balançando-se no balanço triplo. Menos mal que sua irmã tinha vindo passar uns dias com ela. Uma necessitava da outra, fazer-se companhia e falar. Falar de tudo. O FBI lhe deu uma permissão para que recuperasse forças e retomasse a missão do SVR com Markus; e Leslie tinha tomado a decisão de passar esses dias com sua irmãzinha. —Não entendo o que aconteceu… —sussurrou Cleo sobre o ombro de sua irmã mais velha, colocando Ringo em seu peito. A moréia lhe acariciou o cabelo e beijou sua testa. —Eu tampouco, C. Mas cedo ou tarde o averiguaremos. Lion não é muito extrovertido… —Disse-me que me amava, que morreria se me fizessem algo… — soluçou descontrolada, fungando— Eu disse que o amava… —Os sentimentos são muito pouco controláveis —murmurou Leslie com o olhar perdido— Nem todos se sentem cômodos com eles. Acredito que você é a única no mundo que aprecia expressando suas emoções. —Não aprecio —replicou Cleo—, mas se não as digo explodo, compreende? Leslie sorriu e tomou Ringo entre suas mãos. —Tem que ficar com Pato —pediu Leslie. Pato era seu camaleão, que estava compartilhando terrário e dias com o Ringo— Quando partir quero que você cuide até eu voltar. Não confio em mamãe. —Claro… —limpou as lágrimas em sua camiseta— Papai esteve a ponto de comer Ringo pensando que era alface. —Por isso — riu Leslie. Leslie recebeu um whatsapp em seu iPhone. Olhou-o e voltou a desligar. —Quem te escreve tanto? —perguntou Cleo sorvendo as lágrimas. —Markus. —Leslie preencheu os dois copos de chá e ofereceu um a sua irmã. Depois passou um braço pelos ombros dela e bebeu, reclinada sobre o respaldo do balanço. —O que quer? —Me ver. Cleo meio se ergueu e sorriu ainda chorosa. —O de moicano quer vê-la? O dos olhos ametistas?

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—Sim. Bom, não é nada estranho. Foi meu companheiro; e possivelmente tenhamos que trabalhar juntos para resolver o caso da venda de escravas. Amos e Masmorras acabou, mas a teia é grande. Cleo estudou a pose fria de Leslie. Seus olhos verdes a analisavam como se fosse um inseto estranho. —Por que te escreve? —inquiriu. Leslie se remexeu, incômoda. —É pior que a Inquisição. —Sim. Conte. —Bom… Lembra-se da noite no Prancha do Mar? —Como esquecê-la… —Nunca explicaria a Leslie o modo como Lion a atormentou na baía. —Bem. Eu não devia lhe fazer nada… Simplesmente tinha que permanecer sentada a seus pés, como sua cachorrinha. Ele me açoitaria e preparava. Nossa relação não passava de profissional, com um respeito mútuo absoluto. Mas não sei o que me aconteceu… —murmurou ainda confusa— Me deu raiva algo… Talvez o fato de que tocasse a todas exceto a mim. —Você gosta dele. —Sim. —Então essa reação se chama ataque de ciúmes. —Não sei… Sim? —deu um gole em seu chá. —Sim, Leslie —revirou os olhos em branco. —A questão é que desci seu zíper e comecei a fazer sexo oral nele ali, diante de todos. Os Vilões desfrutariam do espetáculo… —Você desfrutaria do espetáculo… —acrescentou Cleo. —E ele passaria muito bem. —Finalizou Leslie— Não pensei que fosse nada mau dar um pouco de realidade a meu papel. Por Deus, fiz coisas realmente escandalosas como dominante. — Parecia que ela mesma estava se autoconvencendo. E quando me refiro a escandalosas, refiro-me a escandalosas do tipo não-posso-crer-que-fiz-isso. —Um dia me contará isso, verdade? —Não, que é menor de idade. Cleo soltou uma gargalhada. O pior era que sua irmã falava a sério. Tinha vinte sete anos e Leslie trinta. E era menor de idade? —A questão é que o que fiz —continuou Leslie arrependida— não caiu bem para ele. —Como não caiu bem para ele? Se gozou, é impossível que não gostou. —Disse que se sentiu violado! —exclamou incrédula— Pode acreditar isso? OH, isso sim, não caiu bem para ele —levou a mão ao peito. Cleo arqueou as sobrancelhas vermelhas. —E disse isso completamente sério? —Markus não sorri muito. —Está zombando de você, Leslie — respondeu Cleo— E agora o que te diz no whatsapp? Leslie lhe mostrou a tela do iPhone. E Cleo leu: 218


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Do Amo Markus: Estou em Nova Orleans. Quero vê-la. —O que acha que quer dizer? —perguntou Leslie. Jogou o cabelo azeviche para trás, e seus olhos cinzas lançaram brilhos cheios de curiosidade. Cleo abriu a boca assombrada pela pouca vida que teve sua irmã. De verdade estava lhe perguntando o que insinuava Markus? Se estava muito claro! —E você é minha irmã mais velha? —perguntou horrorizada. —O que faz em Nova Orleans? Não deveríamos nos ver até dentro de quatro ou cinco dias. O que faz aqui? —Acredito que o deixa bastante claro. Quer vê-la, tola. Leslie bateu seus cílios. —Quer sexo —esclareceu Cleo. Outra mensagem de whatsapp. De Amo Markus: Envie-me uma localização, maldita seja. Quero vê-la agora. Nem sequer me disse que partia. Essa não é maneira de tratar o seu amo. —Não se despediu? —perguntou Cleo intrigada. —Não. —Leslie acabou o copo de chá e encheu outro— Está acostumado a ser o centro do mundo. Pensei que não lhe importaria que eu não dissesse que partiria uns dias para descansar. Além disso: foi o FBI quem me deu isso, não o SVR —sorriu com malícia. —Por que me dá a sensação de que sabe perfeitamente o que está fazendo? —Não pode lhe importar o que eu faça, não acha? —Pois eu acredito que sim que o incomodou. Ouça, vejamos… Leslie, concentre-se. — Estalou os dedos na frente dela— Você e o do moicano transaram? —Não. —Tentatam? —Não. O mais perto que estive dele foi quando fiz sexo oral nele. Bom, e ele, depois disso, começou a me dar açoites, outra vez, nas nádegas até que ficou à vontade. Cleo se pôs a rir. —Deu uma reprimenda por desobedecê-lo. Sabe o que acredito? Que está excitada desde então. —Disse-me que não gostou! —protestou indignada— O grande cretino se atreveu a me dizer que… —grunhiu entre dentes. —Mente! Está mentindo! Outro whatsapp. De Amo Markus: Agente Connelly: a localização. Já. Temos muito do que falar. Tenho muito pelo que te castigar. 219


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P.S: Devo uma violação a você. Cleo e Leslie abriram os olhos como pratos. Leslie se levantou com o telefone nas mãos e Cleo a reteve a seu lado. —Ai, porra —sussurrou. —Responda a ele —a animou Cleo morta da risada— Vou procurar bolinhos. Leslie se sentou de novo no balanço, com o olhar cinza fixo na tela do celular. Mordeu o lábio e pôs-se a rir. Da submissa Leslie: Se me violar, espero que me faça isso bem. Aqui tem a localização. Esta noite estaremos no parque Louis Armstrong. De Amo Markus: Perfeito. Prepare-se. Leslie sorriu e balançou a cabeça. Os homens eram tão fáceis… Até que quebravam o coração de alguém, como fizeram com sua irmãzinha. Por isso ela ia guardá-lo com segurança. Jogaria com o Markus. Por que não? —Leslie! Leslie! Venha! Corre! —gritava Cleo da entrada de sua casa. A morena esteve a seu lado muito rápido. —O que? O que acontece? —perguntou com o camaleão colado a sua camiseta. Cleo tinha os olhos verdes, abertos até mais não poder, fixos em um envelope que um carteiro acabara de trazer. —O que tem aí? O que é isso? —É um cheque. Do Nick. —Do Nicky? —tomou o envelope entre as mãos e leu em voz alta o pequeno cartão que anexava. Para Lady Nala: Querida ama. Como sabe, Thelma e eu ganhamos o torneio de Dragões e Masmorras DS. Cobrei o prêmio, e isso ninguém pode tirar de mim. Como acredito que nós merecemos isso por tudo o que sacrificamos nesta missão, decidi dividi-lo em quatro partes. Quinhentos mil dólares por cabeça. Para você, Lion, Leslie e eu. Aprecia-os como melhor te convenha. Tigrão Cleo fechou o envelope e o encostou em seu coração machucado. O dinheiro não dava felicidade, mas sim um bom sopro de alegria. As duas irmãs se abraçaram, dando saltos na entrada. O estado nunca as remuneraria pelo que tinham feito. Dragões e masmorras DS, sim.

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Parque Louis Armstrong Cleo queria guerra. Vestiu o lindo espartilho de camaleão, umas calças cigarretes de lycra hiperajustadas de cor negra e uns sapatos descobertos com um bom salto para pisar em egos masculinos. Se Lion acabou com ela de maneira tão cruel e se atreveu a negar o que tinham, ela se dedicaria a superar esse golpe divertindo-se o melhor que pudesse… Mas, a quem pretendia enganar? Estava arrasada e queria fazer o harakiri! Leslie se vestia de violeta, com um traje de verão e uns sapatos de tiras com plataforma. Prendeu o cabelo negro em um alto rabo de cavalo. Percebeu em seguida a mudança de ânimo de Cleo e a mimou com seu carinho. —Ouça, camaleão, nada de lágrimas aqui, não é… Olhe, as pessoas estão se divertindo bem. As pessoas dançavam no parque ao ritmo de To be with you. Os próprios Westlife foram convidados a cantar ao vivo naquela festa patriótica de orgulho orleanino. Diziam que o parque Louis Armstrong, antes chamado o Congo Square, tinha sido o berço do jazz. Encontrava-se no final da rua Nova Orleans e, antigamente, era um lugar de encontro no qual os escravos africanos se reuniam para cantar e dançar com tambores e banjos. De suas melodias e seu ritmo emergiu o jazz como agora o conhecemos. Mas aquela noite, o emblemático parque se converteu em uma autêntica discoteca ao ar livre. Cleo e Leslie beliscavam o temperado frango à coca cola, únicos de Nova Orleans. Bebiam sua cerveja de morango e se lançavam nos empanados. Viva as gorduras nos estados depressivos! —Às irmãs Connelly —exclamou Magnus introduzindo a cabeça entre elas. Cleo o olhou e sorriu. Magnus estava acompanhado de Tim, que olhava embevecido para Leslie. O capitão agarrou o nariz de Cleo e lhe pediu uma dança. —Tenente Cleo —fez uma reverência— Retornou de suas férias e ainda continua festejando… O que acha de me acompanhar nesta canção? Leslie deu um gole em sua cerveja e elevou a mão para saudar sua mãe e a seu pai, que se aproximavam delas correndo. —Olhe C: papai e mamãe vêm nos apertar —disse entre dentes. A simpática Darcy vinha com sua consogra Anna agarrada pelo braço. Enquanto Charles e Michael passeavam atrás delas, admirando o grupo de jovens que cantavam com vozes tão harmônicas. —Estes são gays? —perguntavam-se um ao outro. Darcy e Anna abraçaram as duas irmãs. 221


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—Aqui está minha maravilhosa filha mais velha que foi capaz de passar quase duas semanas sem me ligar nem me dizer nada. Leslie sorriu com educação e devolveu o abraço de Darcy. —Sinto muito mamãe, estive muito ocupada. —Piscou um olho para Anna e esta pôs-se a rir. —Isso sim: insistem em me deixar seus insetos verdes e míopes para que cuide deles. Quando cuidarei de meus próprios netos? Quero bípedes. Cleo e Leslie olharam uma à outra com cara de pôquer. —Olhou para você, L. —Não —respondeu Leslie—, olhou para você, C. De fato tem sua atenção periférica centrada em você. Só em você. Darcy beliscou a bochecha de Leslie e, depois, dedicou toda sua atenção a sua filha ruiva. Colocou as mãos na cintura. —Minha filha, parece um mapa, querida —a repreendeu. —Processei o hotel por ter umas escadas em tão mal estado — mentiu Cleo. Como ainda tinha cortes e pontos, teve que pôr a desculpa de que as escadas de uma das cabanas onde se hospedavam se partiu enquanto ela subia para seu quarto. Agora inclusive se converteria em roteirista. —Vai dançar com este rapaz? —perguntou Darcy deixando a bolsa com Anna. —Bom, pois sim ia fazer isso, mas… —Ah, pois perdeu sua vez —respondeu sua mãe levando Magnus e pendurando-se em seus largos ombros. Cleo e Leslie puseram-se a rir. Mas então, Anna, a mãe de Lion, ex-consogra dela, aproximou-se das duas irmãs com sua doçura e sua deliciosa educação e lhes disse: —Não se importará que depois dela eu vá? Acredito que terei de desfrutar da boa saúde de Nova Orleans. Que era como dizer: como tenho a meu marido que tem uma única abdominal e não está tão escuro como o moreno de olhos esverdeados, aproveitemos o produto jovem e crioulo e apalpemos que não é pecado! Magnus teria sido um companheiro ideal para ela, pensou Cleo enquanto o observava dançar e sorrir para sua mãe. Os dois trabalhariam juntos, sem muitos sustos. Sua mãe estaria eternamente apaixonada por ele… por que ela não podia estar também? De fato, eles dois se daxam muito bem. Magnus era simpático e divertido; e nada dominante. Não como Lion. Magnus cedia; e ao Lion cobrava. Magnus nunca a tinha ferido. Lion a ferira profundamente. Sim: tudo teria sido mais simples com o Magnus. Mas o amor verdadeiro não era simples. O amor de verdade era uma flecha de ponta dupla que uma vez te alcança, é quase impossível de arrancar; e se o faz, os danos colaterais são mais graves e sangrentos. Nunca tinha acreditado nos contos de fadas. E agora menos. 222


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As duas irmãs se viraram para observar a multidão. Naquela manhã, o Bairro Francês despertou com impactantes primeiras páginas nos jornais. Falavam de Billy Bob e sua trágica morte; e do negócio do rum e as tendências sádicas dos D’Arthenay. Mas, em realidade, ninguém conheceria até que ponto todo aquele assunto do sadismo e os Vilões era turvo, cheio de sombras, sem luz. Teriam sequelas? Sim. A pior de todas, além de ter perdido Clint, e da morte de Thelma, era saber que tinha perdido seu coração. No parque Louis Armstrong havia uma figura exata de bronze do grande músico de jazz, e uma escultura dedicada à lembrança dos escravos crioulos. Rodeava-o um jardim espaçoso e um pequeno lago bordeado por uma pequena ponte pela qual se podia caminhar. E foi ali, nessa ponte, onde Leslie pousou seu olhar prateado e não voltou a afastar. —Meu deus —murmurou Cleo— Moicano às doze. —Vi-o —assegurou Leslie— Assim que me encontrou… —sorriu e se virou, ignorando-o. Markus balançou a cabeça e pôs-se a rir. —Aonde vai, Les? —Vou brincar de gato e rato —respondeu beijando a bochecha de sua irmã— Ficará bem? —Sim. —mentiu. Mas quando sua mãe e sua ex-sogra deixassem de tocar Magnus, talvez ela pudesse dançar com ele e esquecer— Vai dormir em casa? —Claro —franziu o cenho. —Não vem. Já estou vendo. —Ouça, por quem me toma? —Sei… Quem é o gato e quem é o rato? —Bom, eu sou a gata —piscou um olho— Boa noite, ratona. —afastou-se de sua irmã ao ver que Markus caminhava para ela. Cleo não sabia o que pensar. Leslie parecia muito cômoda jogando com Markus. Era estranho vê-la assim: tão atrevida e segura de si mesma. Bom, ela sempre tinha sido assim. Mas a novidade era ver essa atitude com um homem. Um que gostava, aparentemente. Markus passou pelo lado de Cleo. —Camaleoa —a saudou com o olhar ametista fixo no vestido violeta que desaparecia entre as pessoas. —Markus. Quando os dois desapareceram de sua visão, virou-se para dirigir-se à ponte e desfrutar da festa dali, enquanto jogava os pedacinhos de empanados aos patos do lago. Os Westlife desceram do palco, e foi a vez de uma garota chamada Tatu Young, parecia asiática. Cantava Bloody Valentine. Primeiro soaram as teclas de um piano. E depois começou o ritmo pegajoso. Cleo fechou os olhos e se deixou levar pela melodia. Os seres humanos como ela eram tão musicais que suas emoções se modificavam com o som das notas corretas. Com as palavras sussurradas, cantadas… 223


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Cleo começou a mover os quadris levemente; mas umas mãos duras e exigentes detiveram seu vaivém. Abriu os olhos e não se atreveu a olhar atrás dela. Cheirava a ele. Ao leão que esmigalhou sua alma ao reijeitá-la daquele modo no hospital. —Me disseram que não quer voltar para o FBI. Silêncio. —Cleo? —E o que importa a você o que quero fazer? —Leoa… —murmurou Lion encostando seu corpo às suas costas— Ainda tenho coisas a te dizer; coisas que para alguém como eu não são fáceis de admitir. —O que faz aqui? Já está bem? —perguntou afastando-se dele. —Não. Não estou bem —respondeu com humildade. —Se estiver convalescente, deveria estar no hospital, onde ninguém possa vê-lo. Ah, não. A única que não podia vê-lo era eu. Lion fechou os olhos e afundou o nariz em seu cabelo. —Quero me desculpar. Não se afaste. —Você me afastou —replicou apertando os dedos das mãos e cravando as unhas nas palmas. —Não. Não é verdade. —Sim. Passei quatro dias desejando vê-lo. E você não me deixou entrar nem uma vez. Não queria falar comigo… depois de tudo o que passamos juntos… Me tratou mal. Não tem nem uma maldita ideia de como me tratar. —Cleo… —sussurrou acariciando sua nuca com seu nariz— me deixe te dizer o que me falta por dizer; e depois pode decidir o que fazer comigo. Se quiser, pode me atirar ao lago para que os patos comam meus olhos. Cleo bufou irritada. —O carismático e simpático Lion retornou, não é… me diga o que quiser. Já decidi sobre você. —Bem, se importa se falo dançando com você? —Agora quer dançar comigo? —Por favor. —Esta canção é perfeita para nós —confessou sarcástica— Por que não? Lion a virou e a envolveu entre seus braços. Deus, estar ali era perfeito. Encaixavam tão bem… Ele começou a se mover, sincronizados à perfeição. Vestia uma camiseta de manga curta azul escuro, como seus olhos. Estava muito moreno pelo sol que tomou nas ilhas. Uma calça jeans claro e seus tênis casuais brancos de tecido, da marca Adidas, com as faixas em azul, completavam seu traje. E cheirava a colônia de homem… Lion se movia que dava prazer. Era tão sexy dançando… Mas, o que não era sexy nesse amo, pelo amor de Deus? Quando ele nasceu, carregou todo o pecado terrestre para ele. —Cheira tão bem… 224


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—Não, Lion. Basta —suplicou. Voltaria a seduzi-la; e não podia ser—Me diga o que quer. O que faz aqui? Ele tomou ar pelo nariz e o tirou pela boca. —Vim porque na noite que disse que te amava, deixei coisas incompletas, sem falar. E é justo que as saiba. E porque há uma explicação de como a tratei no hospital. —Passou a mão pelas costas de Cleo. —Não me importa. —Não diga isso… Eu… Menti para você. Ela ficou tensa entre seus braços. —Não a amo —disse Lion. Cleo fez uma careta e lutou para afastar-se dele; mas Lion não permitia. —Me deixe em paz! —Pararia de machucá-la alguma vez? —Não vá… O que sinto por você é mais que querer, é mais que amor. Cleo… — suas palavras se precipitaram como a água de um rio desbocado—, meu coração de homem e de amo te pertence desde que tenho oito fodidos anos. Acredito que as almas afins se reconhecem assim que se veem; e que um amo de coração escolhe a quem deseja proteger e provocar. Eu te escolhi naquele dia, faz vinte e três anos. My Valentine running rings around me… Hanging by thread but were loosening, loosening… Os olhos de Cleo se encheram de lágrimas de incompreensão. —Do que… Do que fala? —Quando acreditava que te afastava ou que a tratava mal, era por meu medo e minha ânsia de superproteger o que quero e me importa —explicou Lion emocionado— Sempre fui assim. E com você mais ainda. Não queria que a machucassem; não queria que fizesse o mesmo que Leslie e eu porque você foi quatro anos mais nova e não era tão fácil para você. Depois cresceu, e me deixou tão nervoso… Nunca me dava atenção, sempre me respondia e me desafiava. Eu não sabia como nomear ao que sentia por você… Meus amigos começavam a sair com garotas de sua idade e eu estava obcecado com uma criança de doze anos e aspecto de fada. —A cada palavra, Lion procurava despir pouco a pouco seu coração. Mas tendo-a, tão colada a seu corpo, perdia o controle— Foi por você que me tornei amo. Era em você em quem pensava cada vez que uma submissa requeria meus serviços, ou cada vez que alguém queria jogar comigo. Eu… Eu somente pensava em você, Cleo. Meu desejo de me entregar a alguém, meu desejo de que você se entregasse para mim… Desejava vê-la, desejava saber de você. Mas não me atrevia a te perguntar; porque não queria saber se já tinha encontrado outra pessoa. Sabia por sua irmã os casos que tinha. Mas eu confiava em meu foro interno em que você e eu nos pertencíamos, e que eu te reclamaria assim que acabasse a missão de Amos e Masmorras. Assim que encontrasse a coragem de exigir tudo o que necessito de você. Tive isso claro quando nos vimos no Smithsonian. Precisava te beijar, te provar um pouco… Me deixou como uma moto —sorriu melancólico. —Por isso me beijou? —sussurrou— Eu pensei que só queria me incomodar. —Queria me acalmar. Queria te provar, por isso te beijei. Pensei: um pouco de gasolina ruiva para me manter sereno um tempo mais —a abraçou com possessividade— Esse dia jurei que seria 225


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minha, que estava cansado de te desejar e não ir até você. E, então, Leslie desapareceu, e o FBI decidiu contar com você. Aquela foi minha oportunidade, e não pensava desperdiçá-la. Por isso pedi para ser seu instrutor. Era meu mundo, um mundo que eu desejava que você conhecesse comigo. Meu mundo, minhas regras. E queria comprovar quão apaixonada e obediente podia ser. —E o que pareci, Lion? —perguntou arisca, ainda reticente a olhá-lo. Lion sorriu e apoiou a bochecha em sua cabeça. —Que como me pareceu, leoa? Levou meu coração para sempre. Cleo emitiu um gemido e afundou o rosto no musculoso peito do agente Romano. Começou a chorar. —Quando era pequena eu lhe ofereci isso, sabe? Meu coração, digo… Um menino de oito anos que não sabia que tinha coração de amo decidiu que só seria capaz de amar a uma mulher. E era você. Mas agora —sua voz se quebrou —, agora me sinto indefeso com você, Cleo. E eu não gosto. Eu quero cuidar de você, protegê-la… No hospital estava tão fraco. Não queria que me visse assim. Não suportava que me visse assim. —O feriram, Lion —o defendeu ante si mesmo— Não é invencível. Ninguém é. —Não me importa. Sou um homem muito protetor com o que considero meu. Eu não te considero de minha propriedade, eu te considero uma extensão de minha alma, Cleo. Deu-me vergonha ser tão pouca coisa para você… Estar prostrado… —Você não é pouca coisa! Está louco?! —empurrou-o enraivecida— Sabe o que chorei estes dias pensando que já não me queria?! Me… Me tornei louca! —Não importava montar um espetáculo em plena festa. Lion deu um passo atrás a cada empurrão de Cleo. Mas a jovem tinha razão. Ele mesmo se repreendeu por seu comportamento. Tinha sido um estúpido. —Só queria que soubesse que eu não gosto de parecer fraco nem diante de você nem ante ninguém. Mas aceitei que a seu lado sempre parecerei fraco — lambeu os lábios, nervoso. —Pois sabe o que?! Eu não gosto que me magoem e joguem comigo dessa maneira, me ouviu?! —voltou a empurrá-lo, com os olhos verdes cheios de lágrimas— Porque agora não acredito em nada do que me diz! A sobrancelha partida de Lion se elevou. Essas palavras reativaram o caráter dominante de Lion. —Não acreditaria que a amo com loucura, Cleo? —perguntou rodeando-a com os braços, imobilizando-a contra ele— Não acredita que a amo como homem e como amo, mas, sobretudo, como servidor? Acredite nisso, maldição. Tenho escrito na pele, como você. Levo-a na pele, Cleo — assegurou apaixonado— Você e eu encaixamos como duas peças de quebra-cabeças. Cleo desviou os olhos à tatuagem do pescoço e se deu conta de que havia um novo kanji japonês. Outra letra. —Retocou a tatuagem? —perguntou em dúvida, esperançosa e meio desconfiada. —Completei-o. —Antes dizia: “amo”. O que diz agora? Lion levantou o queixo de Cleo e rogou que o olhasse. 226


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—Me olhe. Não esquive o olhar de mim, querida —quando ela o fez, disse-lhe —: Diz: “Amo de Cleo”. Se o tempo pudesse parar, estava convencida de que os dois escolheram esse justo momento. Essa declaração livre de máscaras e mentiras, cheia de honestidade. A dominação e a submissão era honestidade. —Sim? —perguntou ela fazendo biquinho— De verdade? —Sim, leoa. —Não quero continuar jogando… —soluçou. —Eu nunca joguei com você. Tudo foi de verdade. Amo você, e nem sequer te amo —sorriu sem querer buscar uma explicação—; mas não conheço outra palavra que possa descrever o que sinto, nem que se aproxime da grandeza de meus sentimentos. Amo você com todo meu coração e com tudo o que sou. Quero que fique comigo e que me permita estar ao seu lado sempre. —Lion a elevou e fez que rodeasse sua cintura com suas pernas. Cleo roçou algo macio e suave com seus tornozelos. —Sua ferida… —protestou Cleo. —Está bem. —O que traz aí detrás? Lion levou a mão às suas costas e quando a tirou lhe mostrou o coelho que lhe ofereceu vinte e três anos atrás. It’ such a dirty meses… Imperfect at its best… But it’s my love my, love my, Bloody Valentine Cleo não podia acreditar. Piscou para limpar seus olhos úmidos e pegou a pelúcia entre seus trementes dedos. Lion observou atento sua reação, sem deixar de movê-la, dançando ainda ao ritmo da canção. O coelho tinha algo pendurando no pescoço. Um colar com duas alianças. Duas peças de quebra-cabeças douradas com um coração de diamante em um extremo. Como a tatuagem de ambos. —Cleo. —Lion se deteve e juntou sua testa à dela, trocando o fôlego— Cometo enganos. Sei que cometerei muitíssimos mais; mas também sei pedir perdão. Estou apaixonado por você desde que era um menino, mas não me atrevi a lhe dizer isso até que me tornei um homem. Aceite-me e me ame. Dou tudo o que sou, tudo o que tenho, o bom e o mau, para que cuide de mim e me molde. Entrego-me por completo, neném —murmurou tremente—Você me submete. Cleo o abraçou com todas as suas forças, e o beijou nos lábios com ferocidade e voracidade. Mesclando a paixão e a ternura. A dor e a alegria. A liberação e a submissão. —Amo você, Lion Romano —sussurrou acariciando sua bochecha áspera— Te amo desde que o vi chorar na escada de sua casa. Amo-o por não me atirar o coelho à cara. E o amei e desejei sempre. —Sabe o que sou, Cleo —disse com lágrimas enormes em seus olhos azuis— Não vou mudar. Eu gosto do que faço. 227


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—Não quero que mude, amor —murmurou beijando suas lágrimas. As lágrimas em Lion não eram um símbolo de sua fraqueja, mas sim de sua fortaleza e sua maturidade— Nunca me senti tão viva nem tão segura, como estando presa a você, sob seus castigos e suas carícias. Prenda-me na masmorra de seu coração e não me deixe sair nunca. E nunca, nunca, permita que eu escape. —Voltou a beijá-lo nos lábios e repetiu—: Você me submete. —Porra, não… —sorriu iluminando seu masculino rosto— Nunca deixarei que escape, leoa. Você é a mulher com alma de dragão que eu estava esperando. —Nunca deixarei que se vá, leão. Entrei em sua masmorra e reclamei seu coração de amo. Amos e Masmorras tinha sido como uma espécie de São Valentin sangrento no qual o amor, a raiva, o sadismo, a dominação e a submissão tinham marcado a todos os seus participantes. Mas só nas caçadas mais selvagens afloravam os verdadeiros sentimentos daquelas pessoas com a honestidade suficiente para admitir que um arisco e soberano homem leão se apaixonou cegamente pela incrível mulher camaleão que tinha entre seus braços. O amor não era coisa de tamanhos nem de pelagens. Nem de gêneros nem de espécies. O amor era um jogo de fantasias e realidades. De lágrimas de dor e prazer. De dar e receber. O amor, o autêntico, era deixar-se guiar pela pessoa amada com os olhos enfaixados e as mãos atadas, e ter a capacidade de entregar as rédeas sem medo de se equivocar. Não havia maior ato de submissão que render-se ao verdadeiro amor. E cedo ou tarde todos nos submetemos. Não acham? E o leão caiu submetido pelo camaleão.

FIM

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