Issuu on Google+

Wagner Pedro Menezes

Pedra dos Milagres Caminhos da Graรงa

Editora A Partilha Ltda. 2009


“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” Carlos Drummond de Andrade

“Os universos infinitos estavam impregnados da grandeza de Deus. A mais remota estrela estava carregada com Sua glória. Os mundos - incontáveis como as areias do mar – cantavam seus louvores. A menos dourada flor silvestre, grudada na parede rochosa do lago, silenciosamente, por intermédio de sua cor, vida e vitalidade proclamava o Seu poder sobre os mais humildes e mais ínfimos, assim como os mais majestosos, e Sua vida invencível, Sua onipresença, Sua difusão por todo o meio ambiente. Seus altares não eram únicos apenas no Templo e nas sinagogas, como em cada naco de terra, na prateada casca das árvores, nas ruidosas frondes das palmeiras e na luz irisada das asas dos pássaros e insetos. Sua voz estava no trovão, a centelha de Seu olhar irado no relâmpago, o movimento de Suas vestes nos ventos. Sua respiração sacudia as árvores e dobrava o capim. Suas pegadas revelavam pedras e montanhas. Seus, eram a frígida obscuridade, os colchões de nuvens, o choro dos seres inocentes, a névoa em ascensão, as súbitas exalações das refrescantes flores, a fragrância de frescor do solo e da água. “Não há mais ninguém”. Nada existia além de Deus. Taylor Caldwell, em O Grande Amigo de Deus, pág 20,21


Índice Apresentação Introdução Primeira parte: os caminhos do altar O milagre da criação. O primeiro altar O segundo altar O altar-mor Tabernáculo: primeiro templo Origem da liturgia Simplificando A sinagoga de cafarnaum Do grão ao pão O dia do senhor Missão e omissão O altar dos judeus e cristãos Consagrar uma oferenda

7

7 9 13 15 18 20 23 26 30 33 36 39 42 44 46 50


A maior de todas as orações O milagre do altar A nossa oração Um gesto de paz Segunda parte: os caminhos do banquete Deus nos reune Deus nos fala Os temas dominicais Hora do confronto Um juramento diante de Deus Terceira parte: os caminhos do milagre Procissão das oferendas Oração eucaristica O primeiro diálogo à mesa O milagre acontece Agora ousamos pedir A procissão dos famintos A pedra que buscamos Deus nos envia Recapitulação final Um momento de paz Apêndice

8

53 57 61 71 75 77 82 86 91 94 97 99 101 103 106 116 119 122 125 127 133 135


Apresentação Acredito que os prefácios deveriam ser reservados apenas para livros vazios de sentido, para obras que não tivessem nada a dizer e carecessem, realmente, de um suporte ou de um acréscimo para revitalizá-los. Não é este o caso de Pedra dos Milagres. Coube a Wagner Pedro Menezes, que ocupa um dos postos de vanguarda entre os melhores escritores e missionários leigos do Brasil, nos premiar com esta obra extraordinária que nos fala ao coração sobre a importância da Santa Missa. Pedra dos Milagres constitui excelente subsídio para a Igreja, que vem insistindo para que o Santo Sacrifício da Missa tenha a solenidade que lhe cabe em todos os aspectos da liturgia. Mais consolador ainda é percebermos que a cada Missa o milagre da conversão se renova na partilha do pão. Na era apostólica, a celebração do Santo Sacrifício era apenas a repetição da fórmula sacramental da Consagração, contida no Evangelho. Com o andar dos tempos, acrescentaram-se algumas orações,

9


até a constituição do primeiro Cânon do Santo Sacrifício, atribuído a Santo Hipólito, no século III. No mais, tudo quanto se possa dizer aqui neste prefácio, sobre o livro desse excelente escritor, Wagner Pedro Menezes, é não só inútil como também supérfluo. O que importa é que, a partir da leitura deste livro, além dos sinos que repicam para convidá-lo à Missa, este subsídio, com certeza, fará com que você entenda melhor o significado de um amor sem limites que nos foi dado por Cristo Sacerdote, na partilha do seu Corpo e Sangue. Alcindo Garcia Jornalista e radialista

10


Introdução Escrevo para você, católico. Você que, num dia já distante, foi conduzido ao seio de uma comunidade e, representado por seus pais e padrinhos, recebeu sobre a cabeça aquele líquido santo, símbolo da purificação e da vida, que o introduziu definitivamente no seio do Povo de Deus. Você foi ungido, consagrado no altar. Queira ou não, você será católico para sempre. Seu batismo não tem retorno. A fé de seus pais e o juramento diante do altar estão acima de toda e qualquer objeção que um dia possa fazer. Você possui um selo de amor divino sobre sua vida. Não sei como foi sua caminhada desde então. Como está sendo agora. Se você perseverou ou não, se renegou a fé de seus pais ou a assumiu com galhardia e destemor. Isso não me importa agora. A pretensão dessas linhas é lhe apontar a Pedra dos Milagres e fazê-lo se aprofundar um pouco mais nos princípios de nossa fé. Mergulhar mais fundo na piscina do seu batismo e nos mistérios que a circundam, tendo por base um momento comunitário que

11


nos é peculiar, a Santa Missa, a Ceia do Senhor. Como tem sido sua frequência, sua participação? Você a entende em toda sua generosidade? Você sente necessidade dela em sua vida? Se sim, porque não valorizá-la um pouco mais, buscando maior intimidade entre os irmãos que se reúnem ao redor dessa mesa fraternal? Se não, o que lhe impede uma compreensão maior dos mistérios que celebramos e dos benefícios que recebemos da mesa do Senhor? Sou feliz por ser católico e essa felicidade só será completa quando você repetir essa frase comigo. A ceia eucarística é o manancial de graças e bênçãos de que necessitamos para perseverar na fidelidade à nossa Igreja. Perseverança foi a primeira grande virtude cristã, que bem observamos naquela narrativa dos Atos dos Apóstolos (2,42), quando nossos irmãos se reuniam para a fração do pão e as orações. Celebravam a Eucaristia. Perseverança é a virtude dos fortes. “Unidos de coração, frequentavam todos os dias o templo”. Perseverança é fidelidade. Um dos aspectos do cristianismo emergente era a partilha, a divisão harmoniosa do pão – símbolo eucarístico – e a convivência fraterna, que os levava a denominar a ceia em comum como ágape, momento de amor. Era isso que demonstravam em suas celebrações e culto ao Cristo ressuscitado, motivo único da alegria que caracterizava a fraternidade entre eles. Podemos até admitir que nossas missas tenham perdido um pouco desse aspecto original. Talvez pelo excessivo zelo litúrgico ou pelas atribulações da vida moderna que sintetizam nossas celebrações e as condicionam ao restrito tempo que lhe dedicamos. Missa de mais de hora, nem pensar! Falta-nos uma visão mais ampla do milagre que celebramos. É necessário reavaliar a razão dos nossos encontros dominicais. Ninguém vai a uma festa se perguntando se vai demorar ou não. Festa é festa. Quanto mais participada, quanto mais impregnada de amor e alegria entre seus participantes, mais bela e expressiva. Dela diremos: que pena, acabou! No entanto, dela levaremos as mais belas recordações, a alegria de sermos seus coadjuvantes, convidados privilegiados do Senhor da Festa. Eis a nossa missa, o banquete do Senhor! Somente quem participa com abertura de coração e clareza de espírito entende a razão desse banquete, a importância dele em nossa caminhada de fé. Não me estenderei em demasia nessa introdução, pois meu desejo é que você comece logo a descoberta do milagre. Antes, porém, uma observação: essas páginas introduzir-lhe-ão na casa do Senhor.

12


Deixe de lado seus apetrechos, suas idéias pré-concebidas, sua bolsa... Se possível, sinta-se em casa, afrouxe o cinto, tire os sapatos. Você está na casa do Pai. Entre no santuário com os pés descalços, pés no chão... do mistério que nos rodeia. Quem sabe assim, você possa melhor sentir a consistência, a solidez da ‘pedra dos milagres’! Wagner Pedro Menezes wagner@meac.com.br

13


Primeira Parte Os caminhos do altar


O Milagre da Criação A natureza era o altar de Deus, o grande milagre da vida. Pedras, rios, montanhas, planícies, mares e nuvens, pássaros e animais, tudo dava glórias ao Criador. Tudo emanava a perfeição e a generosidade da miraculosa origem que, do nada, se fez tudo. Deus brincava consigo mesmo fazendo surgir “o que era bom” aos seus olhos de amor sem fronteiras. Até que criou algo semelhante a si próprio, edificou o maior de seus altares, para se ver refletido numa imagem perfeita... Criou o Homem, o mais perfeito dos altares de sua Obra Criadora. Quando o homo sapiens deixou sua caverna, olhou o infinito à frente e se deparou com um problema: alimentar sua prole. Para tanto, precisava abater sua eventual caça. O alimento era abundante, mas necessitava de astúcia e coragem para consegui-lo. Certamente houve muitas tentativas e frustrações. Aos poucos, no entanto, foi adquirindo destreza com suas armas. A caça tornouse um ofício; uma questão de sobrevivência que fortaleceu o traba-

17


lho em equipe, o espírito de vida comunitária; a garra necessária para que todos pudessem se banquetear ao redor de uma mesa improvisada, talvez um bloco de pedra ainda bruto, onde depositavam o resultado de um dia de trabalho e dividiam, com cantos e danças, o providencial alimento. Satisfeitos em suas necessidades biológicas, voltavam à rotina dos afazeres triviais sem outras preocupações que não fossem a do bem estar e da proteção familiar, sob o abrigo de suas cavernas. O infinito à frente ainda possuía muitos mistérios que suas mentes, vazias de ambições, não podiam penetrar. Uma vida paradisíaca, sem muito com que se preocupar, pois tinham tudo de que necessitavam, tinham um “lar”, tinham o alimento. Mas o infinito continuava a atraí-los. A vida que lhes sorria, ao mesmo tempo fascinava. Seria apenas isso? Não poderiam avançar um pouco mais, penetrar mais fundo naquele universo, naquele céu que lhes dava abrigo? Olhando as estrelas, numa noite enluarada, um dia se questionaram: quem fez tudo isso? Donde surgiu tanta beleza, tanta harmonia, tanta luminosidade? Quem os colocara naquele paraíso e lhes dera a graça de uma vida tranquila , com tudo de bom ao seu alcance? Foram, certamente, as primeiras interrogações da humanidade em formação. Agradecidos por tudo, pela beleza de suas vidas, pela magnitude de seus territórios, pela singeleza de seus dias sem preocupações, quiseram então partilhar com o “desconhecido” o sentimento de gratidão que impregnava suas almas. Eram ainda livres de qualquer ambição, senão aquela de se manterem vivos. A mesa posta, o altar de pedras. Na partilha do alimento faltava alguém, o “desconhecido”, que lhes proporcionava tudo de bom para suas existências. Como lhe agradecer? Como alcançar seus domínios e convidá-lo a sentarse com eles a saborear as essências daquela mesa farta, a alegria daquela vida dadivosa? O “desconhecido”, com certeza, merecia uma mesa especial, um banquete mais primoroso. Ergueram assim, uma mesa nova. Juntaram as mais belas pedras, construindo o primeiro altar de oferendas e imolações para celebrarem o milagre da vida. A pedra dos milagres! Sobre ela depositaram os mais belos frutos, a mais saborosa caça, consagrando tudo Àquele que lhes dera tudo, o Deus da vida. Celebraram a primeira missa da História humana. Aos poucos, os seres humanos adquiriam hábitos e costumes

18


de prática comunitária. A necessidade de celebrar fatos, conquistas, vitórias ou episódios marcantes em suas jornadas pela sobrevivência motivava suas reuniões festivas ao redor de uma mesa posta. A inerente religiosidade humana, seu lado místico, volvia seus olhares para os céus. Um sentimento de gratidão e reconhecimento de uma força infinita, que governava seus destinos, comandava o gradativo progresso no domínio da natureza, na aquisição de novos conhecimentos, na evolução de seus poderes sobre as adversidades do dia-a-dia. Cada passo dado, cada nova descoberta, cada conquista, tudo enfim, era motivo de festa, de confraternização, de partilha entre todos. A liturgia dos primeiros tempos nasceu com parâmetros relacionados à vida. Daí a definição que nos chega hoje e que não aprofundamos com a devida compreensão: liturgia é vida. Todos os fatos, gestos e ações místicas de um ato litúrgico devem ter correlação com a vida, o dia-a-dia dos que dele participam. Ninguém celebra algo desconhecido. Ninguém participa de uma festa sem conhecer a razão desta. Ninguém reconhece um milagre em sua vida sem por primeiro reconhecer a força transformadora que governa sua existência, o poder de Deus à frente e acima de tudo, que perfaz suas conquistas diárias. Desta forma, a mesa festiva da celebração comunitária tornouse um altar de pedras. Ao redor deste e através de ritos aparentemente simbólicos, porém estritamente correlatos com os acontecimentos de sua história, o ser humano descobriu uma forma de melhor se aproximar da realidade divina, de exteriorizar com sua fé e veneração, os sentimentos de gratidão para com “Aquele que tudo pode, está em tudo”. Sua liturgia desenvolveu-se impregnada de gratidão, respeito e veneração a Deus. A insignificância de suas vidas era dignificada pelo simbólico gesto de elevar aos céus seus corações agraciados e agradecidos; ofertar em sacrifício um pouco do muito que recebiam, o alimento (caça e frutos), uma parcela de suas mesas fartas. E o faziam com respeito, oferecendo da melhor caça, do mais saboroso fruto da terra, depositando tudo sobre uma mesa elevada, altaneira, especial, que se sobressaía das demais, edificada sobre montes ou saliências do terreno, para uma maior proximidade com os céus. Daí o nome: altar (aquilo que se eleva ou eleva algo). Tão simbólico gesto tornou-se corriqueiro, natural, momento forte na vida comunitária. Os milagres se multiplicaram. Naquela pedra depositavam a fé e dela recolhiam forças para seus embates pela sobrevivência.

19


O Primeiro Altar Curiosamente, o primeiro relato bíblico sobre a história dos altares humanos não é um episódio positivo. Dois irmãos, Caim e Abel, foram seus construtores. Caim, lavrador que era, ofereceu os frutos de sua lida no campo. Abel, pastor e dono de muitas ovelhas, ofereceu em holocausto os “primogênitos de seu rebanho, bem como de sua gordura”, i.e., os animais mais gordos e sadios. Deus não se agradou com a oferta de Caim. A razão não está explícita na Bíblia, mas certamente Caim poderia oferecer algo mais, ou melhor. O fato é que a oferta de Abel, aos olhos de Deus, foi uma oblação perfeita e a de Caim não lhe agradou. Talvez o episódio seguinte justifique a predileção divina. Possuído por um sentimento doentio de inveja – o que não pode ocorrer diante das graças que Deus nos dispensa – Caim partiu para cima do irmão e o matou. Pior ainda, ocultou o cadáver de sua vítima e mentiu para Deus, fazendo-se de ingênuo diante de seu hediondo crime de sangue. Demonstrou, com isso, que sua oferta não era autêntica,

20


PEDRA DOS MILAGRES