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POPCULT+WEB2.0

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DISTRIBUIÇÃO GRATUITA MARÇO 2010


FOTOGRAFIA DE CAPA POR

Aysia Stieb California,EUA


EDITORIAL Olá, já é 2010 e estamos de regresso. Houve alguns contratempos técnicos, alguns atrasos imprevistos e os meses de Janeiro e Fevereiro esfumaram-se. Não faz mal. Agora que voltamos, trouxemos connosco um dos melhores números da IGUAL. E começa logo pela cor de 2010 da Pantone, o turquesa. Para já, acompanha-nos em Março, mas quem sabe não ficará por cá ao longo destes próximos meses e números? Na capa está uma fotografia da Aysia Stieb e o Centrão é ocupado por um mini-portefólio da Zoe Hypatia, ambas descobertas no Flickr. Ainda nas fotografias, os separadores deste mês são fotografias minhas tiradas em Berlim, onde fui passar o Ano Novo com a Ana. Editorialmente, o destaque vai para a entrevista que fiz com o Pedro ao Matt Mondanile aka Ducktails (e mais uns quantos nomes) -, autor do meu álbum preferido de 2009 e de mais alguns finalistas da mesma lista. Inauguramos dois espaços novos: O Especialista, em que conversamos com um guru de um nicho particular e que este mês é do Daniel na área da BD; e As Minhas Coisas Preferidas, onde um colaborador ou não-colaborador da IGUAL escolhe uma pequena lista de items preferidos e que o Francisco inaugura com música. O Daniel foi ao Japão recentemente e isso tinha que dar em artigo, o Pedro Rios Recomenda regressa em formato Top 2009 e eu próprio, na qualidade de editor, escolho os meus tops de 2009 em várias áreas. Mais novidades: este mês, é a nossa amiga Sofia da revista Zero Nove quem toma as rédeas da paginação e o vídeo promocional é da autoria de outro amigo, o Ricardo Fortunato. Enfim, argumentos de peso para uma revista cheia de coisas boas. Tudo isto depois de virar a página!

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Miguel Carvalho


FICHA TÉCNICA Director Vitalício & Editor: Miguel Carvalho Top-Ajudante: Ana Maria Henriques Colaboradores: Daniel Sylvester, Pedro Rios, Francisco Dias, Zoe Hypatia

Capa: Aysia Stieb Conteúdo: todos os textos, fotografias e ilustrações são da autoria de Miguel Carvalho excepto se creditados

Paginação & Design: Sofia de Eça e Miguel Carvalho Contacto: migueldeazevedocarvalho@gmail.com Propriedade/Edição: Eufaçooquequero PRESS Tiragem: só para os amigos/online Periodicidade: errática (distribuição gratuita)

Site: http://issuu.com/miguelc

Disclaimer:

Esta revista é um trabalho académico. As imagens e fotografias que não são da autoria do Director Vitalício, além de estarem devidamente creditadas, estão aqui presentes sem qualquer fim lucrativo e são contempladas pelo uso justo, ou seja, de total boa fé no contexto académico/não-lucrativo inerente à IGUAL.


ÍNDICE

entrevista: Ducktails_26 o especialista: as minhas

Chris Sims_10

coisas preferidas_12

uma viagem por

Namco Namja Town_16

centrão: Zoe

Hypatia_18

Pedro Rios

recomenda (especial 2009)_29

editor’s pick (TOPs 2009)_30


Jason Adam Baker

A NEWSLETTER DO MIGUEL . TUMBLR . COM

ANEWSLETTERDOMIGUEL.TUMBLR.COM


COLABORADORES

Daniel Sylvester Nasceu em Hamburgo e cedo causou polémica ao dizer que era tão conhecido como os Beatles. Tem dois gatos e é frequentemente gozado no círculo de amigos pelas posições humanistas e razoáveis que teima em defender. Se fosse ele a mandar o Presidente do Mundo era Sonic, o ouriço radical.

Pedro Rios Vive na Vergada, onde se pavoneia ao volante do seu citadino azul. Quando veste de cabedal as pessoas tendem a dar-lhe razão. No Twitter, já são mais as pessoas que o seguem do que as seguidas. Já foi chefe de quase toda a redacção desta revista e até tocou em bandas. Gosta de listas.


Francisco Dias Nascido no Porto, passou a infância entre o Casão Militar e a montra da Brinca Brincalhão no C.C. Brasília. Nubca se refez do fecho da Roma Megastore na Baixa. Recorda com carinho o entusiasmo com que participou pela primeira vez numa rede social. O seu lema de vida é “tem pai que é cego”.

Sofia de Eça Tem caracóis loiros. É designer, mas gostava de ser DJ de pacotilha. Se pudesse escolher, a Fanny Ardant era a sua governanta e a Catherine Deneuve o seu animal de estimação. Responde pelo nome de afmboesa e é viciada em cinema Gosta de fazer colagens e de praguejar.

Zoe Hypatia http://www.flickr.com/photos/zoehypatiap


O ESPECIALISTA: Chris Sims por Daniel Sylvester

o desejo de tornar a banda desenhada séria e para adultos tem ido longe demais Todos os meses (ler: “sempre que possível”) a IGUAL consulta um perito de um dos cantos menos conhecidos do universo pop-cultural, a fim de obter esclarecimentos e elucidações. Este mês: Chris Sims, uma figura maior da comunidade online de banda desenhada, conhecido pelo seu projecto pessoal Chris’s Invincible Super-Blog bem como pela sua colaboração no ComicsAlliance e no Heavy.com, fala connosco acerca de Robert Kanigher, um dos guionistas de culto da “era prateada” da banda desenhada de super-heróis. “Há uma edição mesmo fixe” diz Sims no início da nossa conversa, referindo-se à clássica série soldados-vs-dinossauros “The War That Time Forgot”, “que tem um painel com um tipo a saltar

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com esquis e ao mesmo tempo está a disparar uma caçadeira contra um t-rex. It’s pretty awesome.” Rapazes e raparigas, sejam bem-vindos ao mundo de Robert Kanigherm, um dos muitos guionistas a trabalhar para a DC Comics durante a famosa silver age dos anos 60 (a era em que a editora revitalizou muitos dos seus heróis mais icónicos). O próprio Sims admite que já deve ter lido Kanigher antes de ter reparado no nome. “Ele fez tanta coisa para a DC que tenho certeza que devo ter lido algo dele quando era miúdo”, comenta. Entre os apreciadores de BD actuais, o nome de Kanigher vem associadoo as comics militares e ao clássico “Sgt.Rock”, no qual a escrita de Kanigher era auxiliada pelos desenhos de Joe Kubert. “O Kubert fazia capas incríveis, desenhava histórias incríveis”, nota Sims, “e os guiões de Kanigher eram escritos naquele estilo altamente de durão, hard boiled, que acho bastante agradável”. Mas para Sims, não é no trabalho militar que se encontram as melhores obras de Kanigher, mas sim na equipa de super-heróis Metal Men, um grupo de robôs construídos pelo cientista Will Magnus. “Os Metal Men têm personalidades distintas, o que é algo com que ele não tinha lidado antes. Há mais interacções entre as personagens”. Mas não é só

a caracterização que atrai Sims: “Metal Men é completamente estranho, completamente maluco e é um daqueles livros em que não consegues ler uma página sem acontecer algo completamente maluco, tanto a nível do que se pode chamar comic book insanity, por exemplo há a história ‘The Rain Of The Missile Men’ em que há uns robôs que também são mísseis a cair do céu; mas também a nível das interacções. O Will Magnus cria essa mulher perfeita (N.R.: Platinum, uma dos Metal Men) que está apaixonada por ele e depois passa o seu tempo a darlhe cortes, chegando ao cúmulo de ameaçar vendê-la para o museu das ciências, coisa que ele acaba por fazer! Mas eles devolvem-na porque ela não pára de chorar”. E se isto ainda não soa psicótico o suficiente, Sims avança com a sua história favorita dos Metal Men. “Por alguma razão mandam o Tin, outro membro do grupo, para o espaço e depois tentam reencontrá-lo e acabam por ir parar a um planeta maluco povoado por robôs. Há uma rainha robô com doze metros que se apaixona pelo Tin, sendo que ele tem para aí um metro e vinte. Os restantes Metal Men têm que o salvar de se tornar rei desse planeta de robôs, mas acabam por ser transformados numa pulseira e colocados numa daquelas máquinas para sacar brinquedos. E isso tudo acontece nas primeiras


DR


DR dez páginas, o resto do enredo só fica mais e mais maluco”. Mas Robert Kanigher não era nenhum beatnick drogado ou surrealista artístico: “ninguém é mais corporate que o Kanigher”, nota Sims, “era um daqueles tipos que estavam lá para ganhar dinheiro e isso dava-lhe uma certa disciplina”. Uma história que ilustra a produtividade do escritor: “houve uma vez em que um editor da DC estava a verificar a arte de capa de uma edição, e notou que estava alta demais, iria ser obscurecida pelo logótipo,

então escreveu “drop an edge” por cima. Mas houve um malentendido, acabaram por pensar que aquilo seria um balão para por na capa, então o resultado final veio com uma caixinha a dizer “in this issue: drop an edge!”. Ora, os tipos estavam a trabalhar para uma deadline, não havia tempo para mudar e acabaram por pedir ao Kanigher para escrever uma história chamada Drop an Edge. E ele fê-lo, no seu intervalo de almoço, pegou numa sandes e escreveu uma história!” As qualidades de Kanigher - “o seu

absurdismo, estas cenas selvagens e mesmo à banda desenhada, sem quaisquer filtros” - são algo que Sims teme faltar ao cenário da banda desenhada actual. O blogger lamenta ainda que a maioria das bandas desenhadas de super heróis actualmente são “maduras no sentido em que um rapaz de 15 anos tenta ser maduro. Ninguém adora mais o ‘The Dark Knight Returns’ que eu, mas o desejo de tornar a banda desenhada séria e para adultos tem ido longe demais”.


Berlim: Ă entrada da Neue Nationalgalerie.


As Minhas Coisas Preferidas AS CAPAS DO FRANCISCO por Francisco Dias

Suede “Sci-Fi Lullabies”

Este é um daqueles álbuns em que a capa falou mais alto que a gravação. A fotografia, da autoria de John Kippen, mostra a carcaça de um jacto inglês abandonada num campo militar de Otterburn, no Norte de Inglaterra, utilizado para treinamento dos caloiros da RAF. Motivado pela imagem, trouxe o disco para casa sem direito a uma prévia paragem no listening booth da Fnac (numa altura em que tínhamos de estar numa fila e pedir a um empregado para ouvir o CD). O conteúdo do disco não desiludiu. Este duplo CD inclui os lados B dos singles produzidos pela banda no seu pico de criatividade, entre 1992 e 1997, e conseguiu que um crítico do NME considerasse a primeira metade da colectânea superior ao contemporâneo “OK Computer” dos Radiohead, candidato a “melhor álbum de sempre”. A capa foi idealizada para o formato CD e nem existe edição em vinil. Resta-nos esperar os Suede apanhem a febre dos re-issues e das edições especiais e re-editem a sua discografia, para que o avião alvejado no countryside inglês seja admirado em todo o seu esplendor nuns merecidos 30x30 cm.

Depeche Mode “A Broken Frame” O primeiro álbum de Depeche Mode que comprei é, curiosamente, o mais detestado pela banda. É relativamente fácil de perceber porquê. Em 1982, os DM encontravam-se numa fase tumultuosa depois da saída do seu principal compositor, Vince Clarke, tendo a dura tarefa de escrever canções sido reencaminhada para Martin Gore. Fruto dessa época de mudança, será possível encontrar nas faixas do albúm alguns elementos algo deslocados comparativamente aos discos mais tardios da banda. Mas o grande apelo deste disco encontrava-se para mim em duas coisas: no single “See You”, com a sua bassline analógica icónica e um vídeo cheesy e noir em partes iguais, e na capa, uma espantosa fotografia de Brian Griffin (não, não é o cão do Family Guy): um campo de trigo ocupado apenas por uma ceifeira. Os efeitos aplicados na foto (prodigiosamente obtidos todos através da própria câmara) produziram uma imagem que facilmente seria uma pintura romântica do séc. XVIII. Numa época em que a iconografia russa, da qual Griffin era fã, se encontrava popular no circuito de música undergound, o resultado final da obra conferiu a imagem perfeita para o som sintetizado dos DM. Assim, aliando estas duas razões aos preços então praticados pela recém-chegada Fnac (mal sabia eu que estava a matar as minhas lojas favoritas) decidi trazer para casa o primeiro de (mesmo) muitos discos dos DM.

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Kraftwerk “Electric Caffe” Ainda que não seja o álbum mais emblemático dos Kraftwerk (é conhecido pelo facto de ter sido o último a ser lançado antes do hiato discográfico de 13 anos que se seguiu) tem na sua capa uma imagem exemplificativa do grande passo dado pela banda para se manter na crista da onda. Se nos anos 70 os Kraftwerk arranjaram robots para tocar nos seus concertos, nos 80 deuse o avanço para o digital com as versões virtuais do membros da banda, que podem ser vistas em acção no vídeo de “Music Non Stop”. Ainda que muito poligonais e primitivos quando comparados com os Avatares dos nossos dias, estes Kraftwerk foram obtidos através de um software exclusivo desenvolvido por Rebbeca Allen num processo demorado e dispendioso. O facto desta ser uma capa que documenta os primórdios da animação digital, bem como a clara parecênça dos Kraftwerk com personagens do Virtua Fighter, são mais que boas razões para ela figuar nesta lista.

Estamos em 1987 e para mim ver um robot japonês na capa, num artwork de fazer inveja ao das ultra fixes caixas de Transformers, tornava este álbum quase num brinquedo merecedor da minha atenção de criança pré-escolar. Como se tal não bastasse, o inlay imitava as intruções de um robot semelhante aos Shogun Warriors da Mattel. Anos mais tarde, ao apanhar este álbum num flea market, pude recordar a minha fixação no que na altura me parecia ser um disco com música para “meninos grandes que deviam andar nas drogas e ver filmes de terror”. O conteúdo não podia estar mais de acordo com a capa: riffs de guitarra e arpejos de sintetizador conjugados com letras futuristas em toada cyberpunk. Havia ainda espaço para incluir entre faixas publicidade a produtos da moda (alô i-D Magazine!). A imagem vísual forte e excessíva da banda não caiu bem perante muitos críticos, que condenaram o disco. Imune a críticas, o álbum tornou-se num clássico de culto como produto de uma geração obececada com os avanços tecnológicos. A banda tentou um comeback na altura do electroclash e visitou o Teatro Sá da Bandeira. Eu não fui, mas lembro-me de ver na televisão um tipo com bigode e chapéu de cowboy, bem diferente dos cyberpunks andrógenos com óculos de Terminator que estavam na capa do disco. Ainda bem que fiquei em casa. Sigue Sigue Sputink “Flaunt It”


Smiths “...Best” I e II Seja o leitor um entendido em música, ou um mero “sacador” de discografias completas e possivelmente reconhece que, tal como Iron Maiden, também os Smiths exibem um padrão característico e consistente nas capas dos seus álbuns, apresentando uma selecção eclética, mas esteticamente consistente de imagens saídas mundo do cinema e da arte. A capa de “Meat is Murder” até chegou a ser incluída numa colecção de camisetas na Pull&Bear (infelizmente, por uma mescla de desleixo e “não quero andar com roupa igual à dos outros manos”, não a comprei). A t-shirt foi mais tarde avistada no bargain bin da loja a ser vendida por cinco euros - os Smiths não são definitivamente uma banda popular entre os clientes da P&B. Apesar de muito apreciar essa capa, o facto de não possuir o disco facilita a minha decisão tendo a escolha recaído assim nos “...Best” I e II e no seu gimmick de completar a fotografia de um casal de bikers dos 60s. Quem sabe se no próximo S. Valentim a P&B não decide criar, a partir destas capas, duas t-shirts complementares para o casal apaixonado?

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! A R O B A COL


Berlim: uma sala com caixotes naHamburger Bahnhof.


Adventure! Comedy! Emotional! UMA VIAGEM POR NAMCO NAMJA TOWN texto e fotografias por Daniel Sylvester

Ao entrar no centro comercial Sunshine City (ou “Sunshine Shitty”, como os habitantes locais invariavelmente o pronunciam) dirijo-me na direcção da Namco Namja Town, o parque de diversões indoors criado pela empresa de vídeo-jogos que nos deu franchises como Pac-Man, Ridge Racer, Tekken e Katamari. As minhas expectativas iam no sentido de encontrar um pedaço do Japão maluco e hiperactivo que tanto nos é transmitido através de animes e programas como o saudoso “Takeshi’s Castle”. À saída, a experiência assemelhava-se mais às visitas que fiz a templos e jardins zen. Namja Town é uma construção surpreendentemente calma, mais interessada em jogos imersivos do que nas cores e ruídos que costumamos associar aos parques temáticos. Localizado ao pé de um infantário com muitas imagens do Doraemon (só Buda sabe o quão doloroso deve ser para os meninos locais irem todos os dias à creche quando têm um parque de diversões à porta), a fachada de Namja Town é decorada por vários cartazes de filmes vintage japoneses. O gatinho cavalheiro

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que serve de mascote ao parque, emoldurado por um símbolo que remete para o leão da MGM, promete “adventure!”, “comedy!”, “romance!”, “memory!”, “thrills!” e - como se houvesse dúvidas “emotional!”. À entrada, recebi um folhetim em inglês de uma simpática recepcionista com um chapéu que parecia saído de um jogo Katamari. É só mesmo semelhança: as propriedades de vídeo-jogos da Namco não vivem em Namja Town. Em vez disso, há um stock

de mascotes próprias, bem como colaborações pontuais com outras franchises - na altura em que lá estive anunciava-se, com muita pompa e circunstância, sessões de um filme de “One Piece”. Nem se pode dizer que o parque tenha fartura de arcades, sendo que as máquinas existentes se aproximam mais de uma corrente Wii-esca (tambores para bater e cenas assim). Mas a grande maioria das máquinas disponíveis são à moda antiga: é deitar a moeda, mostrar perícia e ganhar um brinde. É quase estonteante a monotonia de


passar por incontáveis máquinas desse tipo, mas para os japoneses não deve ser um problema. Uma nação que gasta tanto dinheiro em pachinko a cada dia claramente tem uma tolerância maior para este tipo de jogos. Quais JRPGs! Para além dessas máquinas, a maioria das atracções de

Namja Town não funciona para forasteiros. Há um ênfase surpreendente em contacto humano, interactividade e diálogo. Para além disso, a maioria dos jogos exige que os participantes saibam ler japonês. A actividade mais popular era uma espécie de jogo de detectives, anunciado pelo gatinho Namja vestido de Sherlock Holmes. Volta e meia, passava eu por pais e filhos munidos de estranhos equipamentos detectores que piscavam em certos lugares. Uma variante estilizada e hi-tech de rally paper, pelo que consegui perceber. A impossibilidade de participar em muitas actividades condicionou certamente a minha visita a Namja Town. Outro factor a ter em conta é que lá fui pela hora de almoço, que não é propriamente a altura em que há mais movimento. Mas

a impressão geral com que fiquei foi a de um lugar muito mais adulto do que estava à espera. Uma iniciativa marcada mais pela beleza das suas construções, do que pelos jogos que as povoam. As diferentes partes de Namja Town estão construídas com um sentido de completismo apurado

e, por vezes, as temáticas parecem dirigidas aos adultos quase mais que às crianças - é o caso da extensa parte “relaxante” que oferece massagens de todo o tipo, ou das reconstruções meticulosas de cenários como um velho teatro abandonado ou das ruas de uma Nova Iorque anos 70 e estilo “Taxi Driver”, com cartazes semirasgadaos de filmes grindhouse nas paredes. E como o fetish nipónico pela Itália é quase tão grande como o dos alemães (hmm, curioso, o que é que essas três nações terão em comum hein, Hein, HEIN?!), claro que não podia faltar a secção italiana, reminiscente dos fundos da versão Disney do “Corcunda de Notre Dame” e com um audio de alguém a contar histórias de encantar - em italiano, naturalmente. O ponto alto é um

pequeno cabinete com a estátua de um demónio. A ideia é as pessoas sentarem-se no seu colo e confessarem os seus pecados. Uma lembrança pertinente que, da mesma forma que os exploradores europeus andavam pelos sete cantos do mundo e regressavam com histórias de povos que veneravam demónios, a nossa religião católica também foi vista como “coisa do demo” por olhos orientais. Mas a secção mais entusiasmante para este ocidental fetichizador será sem dúvida a parte asssombrada, um lugar escuro com ruelas à moda da velha Edo e um insistente coro de gatinhos-fantasma. A minha visita pode soar a fracasso, uma vez que não participei em muito mais que algumas tristes tentativas de apanhar prémios nas máquinas. Mas a verdade é que o charme de Namco Namja Town, correndo o risco de soar pretensioso, é uma simples questão de ambiente. Gostei de passear pelos caminhos artificiais do parque como gostei de andar pelos bosques de Nikko ou pelos jardins de Kyoto. E se não experienciei o “romance!”, “thrills!” e “comedy!” prometidos pelo gatinho, não tem mal - Namja Town merece uma visita.

MEOW! =Ô.Ô=


Zoe Hypatia

http://www.flickr.com/photos/zoehypatiap

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Entrevista

DUCKTAILS

HOJE É MAIS UM DIA BOM por Miguel Carvalho e Pedro Rios Quantos clichés de Verão se conseguem enfiar num lead? Vamos tentar: praia, sol, calor, miúdas, palmeiras, refrescos exóticos. E Matthew Mondanile, o norte-americano de 23 anos que é Ducktails e mais umas quantas bandas que vale a pena ouvir. Artesão da pop em calções com guitarra a tiracolo e autor de alguns dos melhores álbuns de 2009, Matt ainda tem tempo para ser um tipo porreiro à procura de sair de casa dos pais. A IGUAL entrevistou-o por e-mail e, no fim do concerto dos Real Estate no Porto, foi apertar-lhe a mão. Ele promete que volta. Let’s rock the beach.

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IGUAL - Onde estás agora e o que fizeste ontem à noite? Matt Mondanile (MM) - Estou deitado na minha cama em New Jersey. Ontem fui jantar fora com o Dan Lopatin do Oneothrix Point Never. Depois fomos a um bar e bebemos cerveja. Levei-o a casa e fumámos uns cigarros. IGUAL - Ainda vives com os teus pais ou estás a gravar os teus improvisos na cave de outra pessoa? MM - Ainda vivo com os meus pais. É deprimente. Tenho 24, quase 25 anos. Preciso de sair

daqui. Alguém me ajude. IGUAL - Quem é que vem falar contigo depois de um concerto? MM - Os meus amigos, na maioria das vezes. IGUAL - Eras o tipo de puto que ia falar com as bandas? MM - Sempre gostei de tentar falar com as bandas, mas muitas vezes é difícil. Sou um tipo bastante tímido. IGUAL - Como descreverias o teu som enquanto Ducktails: Nostalgic Tropicalia, Lo-Fi Blog Rock, Bedroom Drone, Hypnagogic Pop?


MM - Detesto mesmo o facto da maneira calorosa como as pessoas palavra “blogue” aparecer como receberam o Ducktails? descrição de género. Não gosto quando as pessoas usam a palavra MM - É realmente surpreendente “blogue” como forma de descrever que tanta gente goste. Estou um som ou música. Quer dizer, estarrecido por ter tantos ouvintes actualmente tudo está a ser escrito com apenas dois álbuns editados. em blogues, mesmo, por isso mais vale deixar a palavra de fora. A IGUAL - Durante o último Verão minha música é pop. estive a trabalhar e ouvir Ducktails foi o mais próximo que estive de IGUAL - Já agora: o que é que ter férias. Foi como uma obsessão achas do termo cunhado pela escapista. Isto faz sentido para ti? Wire de “hypnagogic pop”? MM - Sim, acho que a minha MM - Acho realmente interessante música é de natureza escapista que isto tenha vindo a ser descrito porque sou eu na minha cave de alguma maneira porque é muito a brincar e a tentar fazer sons comum os putos nos EUA fazerem que me envolvam e que me música muito nostálgica porque transportem para um lugar a nostalgia é uma parte enorme diferente, algo extraterrestre. Por da cultura que consumimos hoje isso, por natureza, a música está a em dia. É uma grande parte de tentar chegar à saída para algum Ducktails, é debruçar-me na lugar diferente. memória e criar sons que se assemelhem a essa memória. Acho IGUAL - Quando é que o Ducktails que o Ariel Pink deveria ter sido começou? mais mencionado no artigo [de David Keenan na Wire, em que MM - Nasceu no Verão de 2007 é referido, pela primeira vez, o em Northampton, no estado de género “hypnagogic pop”] porque Massachussettes. Gravei uma ele é o rei, pelo menos para mim. cassete de 15 minutos num 4-pistas e ofereci-a a amigos num IGUAL - Os teus flyers são concerto. E continuei a partir daí. óptimos. Quem é que faz o trabalho gráfico para o Ducktails? IGUAL - Tiveste alguns projectos musicais anteriores? MM - Eu faço todo o artwork nos álbuns, ou pelo menos combino-o. MM - Na faculdade fiz parte de No primeiro álbum na Not Not um duo de free rock chamado Fun a capa é uma pintura do Jan Miami Heat. Fizémos uma tour Anderzen (Tomutonttu e membro pelos EUA. O outro membro era dos Kemialliset Ystävät). A capa do o Etienne Duguay, o baterista dos segundo álbum é uma foto que o Real Estate. Todd da Olde English Spelling Bee tinha pendurada numa parede do IGUAL - Enquanto Ducktails qual é apartamento dele. Eu gosto de ser o teu método criativo? responsável pelo design. Muitas das fotos nos álbuns são minhas. MM - Normalmente começo uma A foto da palmeira, as mulheres canção com um riff ou linha de na contra-capa do Landscapes são baixo ou a parte da guitarra por fotos da minha mãe. cima de uma drum machine e continuo a partir daí. No futuro IGUAL - Estás surpreendido pela gostaria de trabalhá-la mais para

que possa soar um pouco mais complexo e pensado. Nem tenho gravado de todo, ultimamente. 2009 está quase a acabar e eu estou num fosso criativo, sentado o dia todo e a ver episódios do Seinfeld, a sair demasiado com os amigos. IGUAL - Qual é a diferença entre o Ducktails dos concertos e das improvisações caseiras? MM - Completamente diferente. Os concertos têm muito que ver com loops e com a construção de sons diferentes. Uso um sampler e faço muitos espectáculos baseados na colagem. É divertido quando corre bem e embaraçoso quando corre mal. IGUAL - A tua discografia tem muitas cassetes. Parece um formato revitalizado. Porque o usas? MM - As cassetes são bonitas, soam bem e fazem parte da tecnologia ultrapassada, o que é fixe para mim. Muitos putos nos EUA e Europa têm editoras de cassetes e eu ainda leio a Tomentosa [Distribution, site que distribui lançamentos independentes em cassete, cdr e vinill] a toda a hora para encontrar novidades nos lançamentos em cassete. Isto é uma coisa que já me interessava antes de começar a gravar em cassete, mas é realmente uma comunidade incrível de pessoas da qual espero fazer parte para sempre. IGUAL - A cena lo-fi sempre esteve presente no rock, contudo parece ser a estética que prevalece em alguns círculos underground. Concordas? MM - O lo-fi é algo que soa orgânico, caseiro, punk, real. Todos estes aspectos éticos de


arte honesta estão associados ao lo-fi. É uma forma da tua música chegar aos ouvidos certos, uma maneira fácil e acessível de criar e produzir jams, mas, acima de tudo, é aconchegante e dá um efeito quente. IGUAL - Também cresci com compilações do estilo greatest hits dos Beach Boys. Qual é o teu álbum preferido dos irmãos Wilson? MM - Gosto imenso do Surf’s Up e do Friends. Esses são os meus álbuns preferidos deles. A música

“Anna the Healer”, em especial. IGUAL - Quais são os teus planos para 2010 a nível musical e pessoal? Para lá de sair de casa dos pais, claro. MM - O meu plano para 2010 é lançar outro álbum do Ducktails, ir em tour com os Real Estate e tentar fazer outra tour pela Europa como Ducktails. Possivelmente ir ao Japão, Coreia do Sul, talvez voltar à Nova Zelândia. O objectivo derradeiro é sair de casa dos meus pais.

Não gosto quando as pessoas usam a palavra blogue como forma de descrever um som ou música.

IGUAL - Os nossos leitores querem que lhes dês algumas sugestões musicais. E acabou. MM - O Ducktails recomenda: Tomutonttu do Jan Anderzen da Finlândia; os Fabulous Diamonds de Melbourne, Austrália; Oneothrix Point Never do Dan Lopatin de Boston; Buffle, um trio da Bélgica; Dolphins Into The Future, mais um belga, o Lieven Martens conduz cassetes induzidas pelos sonhos; Big Troubles de Ridgewood, New Jersey; e os Pumice da Nova Zelândia. Muito obrigado pelo teu tempo.


Pedro Rios RECOMENDA

Especial

TOP 2009 1. Animal Collective – Merriweather Post Pavilion Já passou mais de um ano desde que “Merriweather Post Pavillion” viu a luz do dia e, porra, o disco continua para lá de soberbo. Álbum fundamental na fundamental discografia dos Animal Collective, prossegue o passeio pela pop iniciado em “Sung Tongs”, mas desvia-se do rumo mais hiperactivo de “Strawberry Jam”, o seu antecessor. Com a mudança subtil de rota, os Animal Collective atingem uma música líquida, tecida nos interstícios da pop radiofónica, a house (“My Girls”, hino 2009 da actual geração indie, é uma homenagem a Frankie Knuckles), a estranheza versão comunal, como Brian Wilson e a Incredible String Band a ensinaram, mas transposta para um mundo digital. Esquecendo a sociologia da algibeira, é apenas o melhor conjunto de canções de 2009.

2. Sunn O))) - Monoliths & Dimensions 3. Emeralds – Emeralds 4. Blues Control – Local Flavor 5. Ben Frost – By The Throat 6. Richard Youngs - Beyond the Valley of Ultrahits 7. Ducktails - Ducktails 8. Major Lazer - Guns Don’t Kill People... Lazers Do 9. Morrissey - Years of Refusal 10. Dizzee Rascal - Tongue N’ Cheek 11. Richard Youngs - Under Stellar Stream 12. The XX – XX 13. Norberto Lobo - Pata Lenta 14. Sun Araw – Heavy Deeds 15. Ducktails – Landscapes 16. Sir Richard Bishop - The Freak of Araby 17. Tropa Macaca - Sensação do Princípio 18. Real Estate – Real Estate 19. Evangelista - Prince of Truth 20. Six Organs of Admittance – Luminous Night

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Editor’s Pick

TOPS 2009

Vai com um mês de atraso, mas vai. Não esquecer nunca que estas coisas das listas valem o que valem, por isso entendo que é escusado defender todas as minhas escolhas e hierarquizações. Este ano diminui as categorias para poder garantir a mim mesmo que estava confortável com as listas que compilava e respectivas sugestões dadas.

Musicalmente falando, 2009 tratou-me bem melhor do que 2008 e, por isso mesmo, escolhi 25 álbuns no lugar da habitual dezena.

Ducktails | Landscapes

FILMES

1 - Avatar

Disclaimer: não, não sou indefectível do James Cameron ou de aparato técnico, mas dificilmente o filme mais rentável de sempre não seria o filme do ano. Tem os melhores diálogos e planos? Longe disso. O enredo é intrincado e imprevisível? Nunca. A bandasonora e o desempenho dos actores destacamse? Nem por isso. Mas o primeiro filme de

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MÚSICA 01 Ducktails_Landscapes 02 Dâm-Funk_Toeachizown 03 Animal Collective_Merriweather Post Pavilion 04 Mark McGuire_Losing Sleep 05 Peaking Lights_Imaginary Falcon 06 Norberto Lobo_Pata Lenta 07 Emeralds_Emeralds 08 Ganglians_Monster Head Room 09 Odawas_The Blue Depths 10 Real Estate_Real Estate 11 Oneohtrix Point Never_Rifts 12 Dan Deacon_Bromst 13 Zu_Carboniferous 14 Mountains_Choral 15 Wavves_Wavvves 16 Lily Allen_It’s Not Me, It’s You 17 Nosaj Thing_Drift 18 Woods_Songs Of Shame 19 Girls_Album 20 Dan Auerbach_Keep It Hid 21 Black Dice_Repo 22 Kurt Vile_Childish Prodigy 23 Japandroids_Post-Nothing 24 Ty Segall_Lemons 25 Doom_Born Like This Cameron em 12 anos tem o condão de mudar as regras do jogo. Ou tentar, pelo menos. Caso a indústria não tenha salvação todos nos iremos rir do pedantismo digital de Avatar, mas se vier a ter sucesso nunca nada será como antes. Quantos filmes podem dizer o mesmo? 2 - The Hurt Locker O filme de Kathryn Bigelow é um assombro. Passou injustamente despercebido no circuito


comercial até às nomeações para os Óscares, mas recentemente teve direito a reposição em sala. Há muito que não via um filme tão sentado na ponta da cadeira. 3 - Inglourious Basterds Aborrece-me um pouco incluir um filme do Tarantino na lista, mas a verdade é que o devaneio western-revisionista do realizador norteamericano é demasiado bom para ser perdido. Promete discussões sobre linguagem gestual numeral à saída. 4 - Das weisse Band Uuh, intelectual! O novo filme de Michael Haneke, Palma de Ouro em Cannes e a concorrer ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, surpreende pelo ascetismo do preto-e-branco e pelo tratado sobre violência, maldade e vileza que mostra no ecrã. 5 - Ponyo Talvez não seja o melhor filme que Miyazaki já fez, mas foi o melhor filme de animação que vi este ano. Visualmente evoluído, comovente e divertido. Alguns filmes são para todos e são óptimos mesmo assim.

DR Um já está. Venham as sequelas e o Xmas Special

TV

DR

Hugo Gonçalves, uma anti-estrela na televisão por cabo

1- Portugal, Meu Amor (SIC R) Hugo Gonçalves pegou em nove ideias e foi filmar cada uma delas em outros tantos episódios deste objecto estranho na televisão portuguesa. Algures entre o documentário pessoal e a reportagem, o jornalista e escritor foi para as ruas pensar Portugal com os portugueses: dos bairros problemáticos a ser famoso. Num país com pouca memória colectiva este exercício de coragem na primeira pessoa só podia ser bem-vindo. 2- A Guerra (RTP1) E, por falar em memória colectiva, a série documental do também jornalista Joaquim Furtado continua irrepreensível. Agora também em DVD. 3- Mad Men (RTP2) Outro repetente. Totalmente irresistível, o ponto alto de qualquer sexta-feira televisiva que se preze. Só me divirto mais no sofá se for sem cuecas.


4- FM Radical (SIC R) Desde que o “N” em NTV queria dizer “Norte” que eu simpatizo com o Francisco Menezes. Depois de um programa falhado no late night da televisão pública, o humorista regressa com um programa só dele, mas no cabo. Apesar do hit-and-miss, sobressaem bons cromos. Segunda temporada à vista, espero. 5- Shin Chan (Animax) Não é uma novidade, mas não resisti a puxar para o topo o puto japonês mais ordinário da televisão. Sobretudo porque o Animax foi buscar Shin Chan à prateleira (e eu não podia estar mais contente), mas também porque o seu autor, Yoshito Usui, morreu em finais de 2009.

PESSOAS

1- Ana Todas as estações numa pessoa só.

2- Jorge Jesus Sim, futebol. Para um benfiquista o ano de 2009 foi meigo. Benfica a jogar bem e a marcar muito, lá em cima na classificação. Assim, sim. 3- James Cameron Pelas razões que já enunciei. Cinema + 2009 = JC 4- Biz Stone & Evan Williams Uma das invenções mais irritantes da web2.0.

A Ana na neve de Berlim Fundado há alguns anos, o Twitter, micro-rede social dos 140 caracteres e bláblá, explodiu em 2009 e de repente o Snoop Dogg ficava tão próximo como a miúda do 10.ºB com mamas grandes. 5- Martim Avillez Figueiredo É o director do i, o diário que nasceu na primeira metade do ano envolto em dúvidas e que, uns meses depois, vencia o prémio de jornal europeu do ano. Visualmente irrepreensível (online e no papel) e com a melhor secção desportiva de todos os diários generalistas, o i destaca-se ainda pela linguagem e pela concepção original da revista de fim-de-semana.

RAZÕES PARA VIVER EM 2010 Os melhores amigos do mundo! (e ver o Benfica campeão, caramba)

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IGUAL #05 - Março2010  

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