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CENTRAO __________ JAVIER FABREGAS

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テ好ESTAQUES __________


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ARTESANATO MUSICAL HIGH-TECH Não criam bibelôs para enfeitar a sala lá de casa, mas o resultado “caótico” do processo criativo pode assemelhar-se a uma feira de ciência. Importada de Nova Iorque, a ideia das festas Handmade Music chegou ao Porto para ficar. É a lei de Lavoisier adaptada: na música, “nada se perde, tudo se transforma”. por Ana Maria Henriques

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DR


Uma flauta transversal “ligada às máquinas” – que neste caso é um computador – através de fios coloridos e manejada por uma canadiana vestida de verde floral seria uma visão invulgar em qualquer sala de espectáculos da cidade do Porto, mas não na Casa da Música (CdM). A Digitópia - Plataforma para o Desenvolvimento de Comunidades de Criação Musical em Computador acolheu criadores de música que não se regem pelas tradicionais partituras, como Cléo PalacioQuintin, no Porto para participar na SMC 2009 – Sound and Music Computing Conference. A compositora – que viajou de Montreal – viveu na Holanda onde estudou e concebeu a ideia de “aumentar a potencialidade da flauta transversal convencional”, instrumento que tocava mas cujo resultado não a satisfazia “enquanto compositora e intérprete”. Influenciada pela música “electrónica acústica”, que “sempre ouviu”, Cléo decidiu alargar o conceito de um instrumento acústico de sopro através da criação de um interface que estabelece a ligação com o computador, graças à tecnologia midi. Se hoje a hyper-flute se destaca por materializar um conceito original, “há cerca de dez anos”, quando foi idealizada, a surpresa por um objecto tão inusitado “era enorme”. Na festa Handmade Music que ocupou o espaço da Digitópia (junto às bilheteiras da CdM), os aparelhos electrónicos que os criadores e performers manuseiam emitem sons que fogem às notas musicais. O computador de Graham, engenheiro norte-americano a viver em Barcelona, transforma-se num dos elementos da sua laptop orchestra enquanto os mais curiosos decidem experimentar o software e hardware que tomou de assalto a Digitópia. Brinquedos adaptados e toyboards que nos remetem para o imaginário musical infantil podem aqui ser transformados em instrumentos que, segundo Rui Penha, curador do espaço, produzem um “resultado sonoro um bocado caótico”. Apesar do “caos”, a apresentação individual de todos os participantes, com uma pequena introdução para cada aparelho ou instrumento, foi o ponto de partida para que público e criadores assumissem o mesmo

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espaço e interagissem sonoramente.

O AUTOR Peter Kirn, o autor das festas Handmade Music, descreve-as como uma fusão entre “performance, festa e feira de ciência” onde as pessoas se juntam para “descontrair e descobrir novos sons”. As noites transformam-se em “reuniões de criadores de novos instrumentos e de tecnologia musical”. A festa Handmade Music que aconteceu na Casa da Música foi, segundo Rui Penha, a “primeira fora de Nova Iorque”, em resposta ao desafio lançado por Peter Kirn para a internacionalização da iniciativa. Rui Penha adiantou que, “a partir de Novembro”, a Casa da Música vai acolher este tipo de festas “de dois em dois meses” e que, em Maio, “o convidado especial será o próprio autor do blogue CreateDigitalMusic.com, Peter Kirn” [na foto].

DR createdigitalmusic.com handmademusic.noisepages.com netnewmusic.ning.com/profile/Cleo PalacioQuintin idmil.org/projects/the_t-stick

Mas a noite na Casa da Música acabou por ser, sem dúvida, dos canadianos. Joseph Malloch, que também integrou a SMC 2009, foi, a par de Cléo e da hyper-flute, o criador mais original da festa Handmade Music. Cientista, Joseph dedica-se à investigação no laboratório de Input Devices and Music Interaction da McGill University, onde idealizou a criação apresentada na Digitópia. O que à partida parecia um simples e desinteressante stick, manuseado como se de um sabre se tratasse, revelou-se ser um interface com uma sensibilidade extrema ao toque humano. Esta espécie de tubo que “envolve um microfone gigante” capta todos os contactos, apertos, abanos e demais movimentos que se possam imaginar, “repercutindo-os em sons” que reflectem a intensidade e a localização do toque. Já foi utilizado em performances teatrais e de dança, conta Joseph, enquanto explica não ser a pessoa mais indicada para demonstrar todas as potencialidades do t-stick. “É defeito de cientista”, brinca: “Estou sempre a reparar em imperfeições e a pensar em formas de as corrigir”. O hardware está, nas palavras do canadiano, “ainda em desenvolvimento”, aberto a todos os interessados em experimentar. Enquanto Joseph procura mostrar aos mais curiosos da festa como produzir “sons sintéticos” no t-stick, aproveita para carregar no play do seu computador e deixar todos de boca aberta com vídeos de situações em que o instrumento foi utilizado, “algumas delas composições originais, se bem que muito do trabalho passa pela improvisação”, remata. No final da noite, em jeito de balanço, Rui Penha confessou-se “surpreendido e satisfeito” por ter conseguido reunir cerca de noventa pessoas na festa Handmade Music, principalmente pelo facto de esta ter atraído para a Digitópia “gente que, se calhar, de outra forma, iria olhar para o projecto como algo mais direccionado para amadores”. “Acho que tivemos aqui propostas que estão na crista da onda do que se faz no mundo nesta área”, conclui o também compositor.


IGUAL #03

MEMóRIAS DO VERãO

Colaboradores da IGUAL contam episódios marcantes de Verões passados.

Venham todos ao Circo Carbinaly Por Luís Lago Quando era pequeno, parte das férias de Verão era sempre passada em Aboim das Choças, uma pequena aldeia na terra de “Deixa que te Leve”. A minha família tem lá uma casa decrépita, onde todos os anos as minhas tias e os seus amigos passam uma temporada. Como esta casa não tem televisão nem computador, a única coisa que me restava fazer era ler pela centésima vez o mesmo Almanaque do Professor Pardal, fazer batota ao peixinho, ir ao Café São Pedro ou passar os dias todos no rio Vez. Certo Verão, algures nos finais do milénio passado ou no início deste, algo trouxe mais vida à aldeia: o Circo Carbinaly. O nome parece, obviamente, uma imitação de Cardinali, o grande clã circense português, encabeçado pelo mítico Victor Hugo. Eu prefiro vê-lo, ou antes, relembrá-lo, como uma espécie de Wacky Packages, ou seja, uma paródia grotesca do Cardinali. Se bem me lembro, este circo era composto por pouco mais de quatro artistas multifacetados. A rapariga dos bilhetes era também acrobata, o MC era domador e palhaço e por aí fora.A memória falha-me quanto aos números apresentados. Lembro-me no entanto, de ser prometido uma espectacular acrobacia em que o MC/domador/palhaço/daredevil iria caminhar sobre vidro. Esse número seria o grand finale da estadia do circo na aldeia, tendo lugar apenas na véspera do espectáculo partir para outras terras. Essa partida, no entanto, era sempre adiada, numa tentativa de convencer os “serranos” a comprar novo bilhete para assistir ao espectacular número. Provavelmente resultava, porque o Circo, que tinha anunciado ficar apenas três dias nas Choças, acabou por ficar lá uma semana. Mas o que mais me marcou foi o número de palhaços. Sendo este um circo pobre, não havia dinheiro para contratar o palhaço rico, tendo os espectadores que se contentar com Jony, o palhaço pobre e zangado com a vida. O drama deste palhaço revelava-se na quantidade de palavrões empregues e nas críticas acertadas ao Governo de António Guterres, vigente na altura. Infelizmente não me recordo de nenhuma tirada em específico, para vos poder deleitar. Foi a primeira vez que saí deprimido do “Melhor Espectáculo do Mundo”. Ver aqueles animais mal tratados e todo o material a cair aos pedaços retirou-me a inocência ao mostrar a vida tal e qual como ela é nos bastidores do circo. Apesar de tanta miséria, o Carbinaly ainda anda por aí. Antes de escrever este artigo, pesquisei o seu nome e encontrei vários blogues e fóruns a manchar o seu nome. Eu, no entanto, gostaria de rever este espectáculo. Fiquei sempre curioso de como seria o grand finale e gostaria de saber o que Jony pensa deste novo governo socialista. Se alguém souber a agenda deste circo, por favor, informe-me.

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agosto 2009 Mar dos Açores Por Daniel Sylvester Era um polvo. Majestoso no seu elemento, flutuava pelas rochas cobertas de musgo. Eu encontrava-me deitado sobre uma toalha. O porto da Caloura, pois era aí que eu me encontrava, consistia numa simples barra de rochedo virada para o mar; no fim, existiam umas pequenas escadas que levava a outro patamar, no qual havia uma piscina para os catraios e mais algumas escadas que levavam directamente ao mar. O verdadeiro porto, de onde saíam os barcos dos pescadores que muitas vezes não regressavam a casa, ficava mesmo ao lado. O porto da Caloura era o meu ponto de contacto mais fácil com o mar, a uns meros cinco minutos de casa. A própria Caloura era um lugar a puxar para o deserto, composto principalmente por quintas e casa de Verão para ricaços. Ficava tudo longe da verdadeira aldeia onde fazíamos compras e onde eu tinha as minhas aulas da primária, um lugar pitorescamente conhecido como Água de Pau. Mas não era só por questões práticas que eu preferia o meu porto às numerosas praias que abundavam pela ilha de S. Miguel. Nas praias era difícil encontrar lugar, com cada pedaço de areia ocupado por alguém a trabalhar o seu bronzeado. E a experiência de nadar a partir de uma praia é radicalmente diferente de nadar a partir de um porto. No meu sítio do costume, era preciso apenas descer alguns degraus para entrar no mar, no mar verdadeiro e inteiro – não existia o custoso caminho de ir nadando por aquele território em que os pés ainda tocam a areia. O salto directo da terra para o mar permitia também evitar os factores mais perigosos da natação de praia – aquele esforço de nadar contra a corrente quando já se está quase em terra firme, e as ondas gigantescas. O porto era mais seguro e, na minha cabeça de criança, mais autêntico – toda a gente sabia que quem ia à praia passava o seu tempo quase todo a tostar numa toalha, e que muita gente nem entrava na água. Algures mais tarde, não sei bem quando, descobri também que não gosto de areia. Mas estava a falar do polvo. Deitado ou sentado na dura rocha do porto, era possível observar de perto uma fauna marítima surpreendentemente diversa. Havia estrelas-do-mar, caranguejos, peixes de toda a espécie. E mesmo a própria rocha fornecia lugares para explorar o reino animal: havia pequenas poças de água salgada dentro das quais se encontravam minúsculos crustáceos e conchas marinhas. De notar que não era só eu que tinha uma relação estreita com as criaturas aquáticas. Um dos nossos poucos vizinhos era John, um britânico de meia-idade que trabalhava como instrutor de mergulho num hotel próximo. Ruivo, barbudo e munido do seu cachimbo, John era quase uma paródia de um inglês e, se apenas a sua barba tivesse sido negra e não ruiva, podê-lo-ia ter confundido com o Capitão Haddock. Como a maioria dos expatriados residentes nos Açores, John limitava os seus conhecimentos de português ao mais essencial possível e , certa vez, contou-nos em inglês que tinha adoptado uma moreia. Quem já viu estes seres deitados em gelo num supermercado sabe que não têm um aspecto propriamente querido e, de facto, entre os rapazes da aldeia a moreia era quase tão temida como o lendário cagarro (a ave indígena dos Açores, e a que supostamente um marujo tomou por açor, dando assim nome ao ilhéu; possui um grito que devia ser aproveitado pelos gabinetes de efeitos sonoros de Hollywood, e um amigo confidenciou-me numa certa noite que as aves “chupam o sangue dos humanos”) e a infame comadrinha (um pequeno mamífero, vagamente semelhante a uma doninha, que numa ocorrência trágica chacinou alguns gatinhos bebés que tínhamos no quintal). Não foi, portanto, grande surpresa quando ouvimos, algumas semanas depois, que o peixe tinha traído o seu amigo e mordido o John no braço. O mar era o meu elemento. O mar era uma diversão eterna e enorme. E ao mesmo tempo tinha o seu não sei quê de assustador – conhecia os dias em que toda a plataforma de baixo estava submergida pela água, as mudanças súbitas de humor das marés, os ocasionais casos de morte por afogamento. Mais do que isso, era um adepto forte da mitologia grega, e talvez terá sido a vida numa ilha que me atraiu tão fortemente para a saga de Ulisses. Por vezes, para me assustar a mim mesmo, imaginava os enormes e hediondos monstros marinhos que deviam residir algures no fundo do oceano, e a ilusão da sua existência dava uma pitada de perigo ao divertimento na água. E era assim que passava o Verão.


ATÉ À


À PRÓXIMA VEZ


Rita Luís

tens a vida para viver e tantos sonhos para sonhar

IGUAL #03 _ parte dois  

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