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#2 Ano letivo 2013/2014

Pr0jet0 Individual de Leitura Literatura P0rtuguesa – 11º an0 Miguel R0drigues, nº 28, 11ºD FICHAS DE LEITURA l TRABALHO CRIATIVO l TEXTO DE APRECIAÇÃO CRÍTICA l PLANOS DE EXPOSIÇÃO ORAL l PESQUISAS l BIOGRAFIAS Escola Secundária de Pinheiro e Rosa


ÍNDICE página(s) Editorial…………………………………………………………………………………..….….2 1º Período……………………………..………………………………………………..………3 Mia Couto Comentário relativo ao livro............................................................4 Biografia………………………………………………………………………5 Ficha de leitura…………………………………………………………6/7 Plano de exposiçao oral.....................................................................8 2º Período.........................................................................................................................9 José Saramago Biografia.................................................................................................10 Ficha de leitura............................................................................12/13 Plano de exposição oral...................................................................14 Fernando Pessoa Biografia..........................................................................................16-35 Ficha de Leitura...........................................................................36-38 Plano de exposição oral...................................................................39 Sophia de Mello Breyner Andresen Biografia.........................................................................................40/41 Ficha de leitura............................................................................42/43 Plano de exposição oral...................................................................44 3º Período.......................................................................................................................45 Miguel Sousa Tavares Biografia.........................................................................................46/47 Episódio histórico: a crise e a queda da monarquia....48-50 Ficha de leitura............................................................................52-54 Plano de exposição oral...................................................................55 A Fechar..........................................................................................................................56


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*LĂŞ mais livros


EDITORIAL POR MIGUEL ÂNGELO AFONSO RODRIGUES

Neste Portefólio Digital, inserido no Projeto Individual de Leitura (PIL), irei apresentar todos os trabalhos e pesquisas realizadas no âmbito do mesmo. Fichas de leitura, biografias, textos de apreciação escrita… tudo isto será parte integrante deste trabalho que decorrerá durante todo o ano letivo. Sendo este o segundo ano em que farei parte da turma de Literatura Portuguesa, eu acho que tudo será mais fácil (ou não). No ano passado, o Portefólio constituiu num problema de organização e de desrespeito às datas de entrega. Este ano espero que as coisas mudem, mas, agora, posso dizer que isso não aconteceu. Cá estou eu, sentado numa cadeira na véspera de entrega deste mesmo Portefólio, tentando dar o melhor para o conseguir entregar a tempo e horas, já que as fichas de leitura não o foram. Este trabalho é algo que terá de ser trabalhado ao longo do ano e não só na ‘hora H’, como está a acontecer. A questão é que nós pensamos que temos tempo. Mas teremos mesmo? A resposta é sim. Nós temos imenso tempo, mas a verdade é que o desperdiçamos. ‘Hoje não me apetece!’, ‘Não tenho inspiração!’, ‘Ver a mosca voar é tão interessante… o portefólio que espere!’. Tudo são boas desculpas. Tudo serve como desculpa para não fazer nada. É problema meu, eu sei, mas eu acho que sou assim; gosto de trabalhar sobre pressão. Parece que tenho gosto em ficar stressado. Mas porque é que tem que ser assim? Se calhar se fosse mais organizado tudo seria diferente e tudo correria bem. Talvez, se calhar. Este ano, como se passou no anterior, eu espero chegar ao fim do terceiro período, olhar para este portefólio e pensar “Boa, conseguiste! Com muitas coisas que podiam ser melhoradas mas conseguiste!”.

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Setembro•Outubro•Novembro•Dezembro


MIA COUTO

Venenos de Deus, Remédios do Diabo “Venenos de Deus, Remédios do Diabo é uma divertida sátira, como se subentende já a partir do trocadilho, implícito no título. Possui, no entanto, uma faceta dramática trágica, associada à fragilidade da situação social de que gozam as personagens femininas do romance, como é frequente nas ‘estórias’ de Mia Couto.(…) Para fazer face a este domínio despótico, há quem recorra à construção de uma complexa teia de mentiras e enganos, com vista à sobrevivência, uma missão quase impossível em meio hostil.”

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MIA COUTO O AUTOR De nome António Emílio Leite Costa, Mia Couto nasceu a 5 de julho de 1955, na Beira. Adotou o nome porque tinha uma paixão por gatos e porque o seu irmão não sabia pronunciar o nome dele. Com catorze anos teve os seus primeiros poemas publicadas num jornal. Já na atual Maputo, iniciou os estudos universitários em medicina, abandonando no 3º ano esta área, dedicou-se ao jornalismo após o 25 de abril. Depois de exercer cargos relacionados com a guerra da libertação, Mia trabalhou como diretor da revista Tempo e este relacionado com o Jornal de Notícias.

Em 1983 publicou o seu primeiro poesia, Raiz de Orvalho, o qual inclui contra a propaganda marxista militar. continuou os seus estudos universitários da biologia, na qual acaba por se formar.

livro de poemas Depois, na área

É considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, sendo também o mais traduzido noutras línguas. Em quase todas as suas obras, Mia tenta recriar a Língua Portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando expressões dos vários cantos do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Terra Sonâmbula, o seu primeiro romance, foi premiado em 1992 com o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, sendo também considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Já em 2013, recebe o Prémio Camões pelas mãos do presidente da República português Cavaco Silva e da presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

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FICHA DE LEITURA

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•Apreciação do processo de leitura. No início da leitura do livro, a leitura foi bastante entusiasmante, talvez pelo título sugestivo da obra. Acontece que, já perto do Capítulo 5, a leitura começou a ser mais entediante, já quase sem propósito algum. Talvez seja isto aconteça pelo jogo de mentiras que é representado no livro. O ‘’disse e não disse’’, ‘’fez e não fez’’ é um pouco confuso para o leitor, até que este chega a um ponto e perde o interesse pela leitura, pois fica um pouco que farto de tanta contradição. Tirando esse aspeto, eu gostei do livro, embora que o processo de leitura tenha sido moroso. •Apreciação da obra e justificação. Eu acho que o livro, como já referi, joga muito com verdades (ou mentiras) distintas, o que cansa o leitor. Isto acontece porque com tantas realidades eu, por exemplo, punha o livro de parte, pois é quase como se chegássemos à conclusão que estamos a ler uma coisa que, na realidade, não é verdade e vamos ter de ler mais e mais mentiras até chegar à verdade ‘nua e crua’. Fora isso, o livro apresenta um vocabulário simples e de leitura fácil, mesmo sendo uma obra escrita por um autor lusófono. •Apresentação do episódio mais marcante e justificação. Um dos episódios que eu mais gostei foi o Capítulo 1, portanto, a parte inicial do livro. Nesta parte as personagens principais dão-se a conhecer: D. Munda, uma mulher de casa, Bartolomeu, que é o seu esposo e está acamado e, por fim, Sidónio Rosa, que é um jovem médico que partiu de Portugal para Moçambique para exercer a sua profissão. A relação do casal também foi uma das coisas que ‘mais me saltou à vista’, pois existe um certo amor-ódio entre ambos, embora se note que o sentimento que os une se sobrepõe a tudo e todos. O pedido de Bartolomeu ao médico também é algo que me surpreende: o primeiro pede a Sidónio que o ajude a morrer através de um remédio. Isto é algo que eu acho que deve ser salientado; a vontade que um homem tem de morrer por não aguentar o sofrimento. Talvez ache este pormenor especial porque eueue

sempre achei alguém que quer morrer alguém corajoso, embora talvez não o seja. É algo que é difícil de explicar, porque talvez esteja a fugir dos problemas, mas, neste caso, eu acho que Bartolomeu se referia a uma espécie de eutanásia, onde não existiam máquinas para desligar mas sim um veneno a tomar. •Indicação e opinião sobre o tema principal da obra. Eu acho que o tema do livro, embora não tenha a certeza, é a mentira e a ilusão que esta provoca em nós mesmos. Verificase este facto por todo o livro pois Sidónio Rosa acaba por acreditar em tudo o que lhe dizem e, depois de tantas verdades, acaba por ficar confuso e acaba por não saber no que acreditar. Nos dias de hoje eu acho que acontece exatamente o mesmo. Algumas pessoas vivem na ilusão da mentira, se calhar até porque preferem assim, mas existem outras que não se apercebem e levam a sua vida normalmente, embora ela seja baseada em mentiras. A nossa sociedade prefere a primeira opção (viver na mentira, o que é preferível). Mas, a pergunta que se impõe é: como podemos levar uma vida baseada em ilusões? Não se consegue. E eu acho que é sobre isso que o livro fala. A lição que a obra nos dá é que, tal como Sidónio quando sobe a verdadeira verdade, temos de seguir a vida e temos só se deixarmos a ilusão e a mentira para trás é que conseguiremos tomar um rumo. •Motivação para a leitura do livro. Eu acho que as pessoas deveriam ler este livro. Embora eu não tenha gostado muito, eu acho que o livro é sempre um livro e todos eles devem ser lidos. Como razões à incentivação da leitura desta obra, eu posso dizer que através da leitura do livro conhecemos um pouco a realidade que se vive em África, o vocabulário e a construção de frases é simples, o que torna fácil a leitura e, por fim, através da leitura deste livro eu acho que podemos refletir mais aprofundadamente sobre como levar a nossa vida (através da mentira ou através da verdade?).

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PLANO DE EXPOSIÇÃO ORAL

Introdução:  Apresentação da obra lida.

Desenvolvimento:  Apresentação da biografia do autor:  nasceu a 5 de julho de 1995;  o seu nome real é António Emílio Leite Costa;  trabalhou vários anos na imprensa;  publicou o primeiro livro em 1983;  tenta recriar a Língua Portuguesa;  recebe o Prémio Camões em 2013;  Apresentação do livro:  Costa, personagens; António Emílio Leite com pseudónimo de Mia Couto  ação;  leitura de excertos e frases marcantes do livro. Conclusão  Reprodução de entrevista do autor;  Comentário pessoal e incentivo à leitura da obra.

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Janeiro•Fevereiro•Março


JOSÉ SARAMAGO

O AUTOR Filho e neto de camponeses sem terra, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de novembro de 1922, se bem que o registo oficial mencione, como data de nascimento, o dia 18. Os seus pais emigraram para Lisboa quando ele não perfizera ainda dois anos de idade. A maior parte da sua vida decorreu, portanto, na capital. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que, por dificuldades económicas, não pôde prosseguir. Exerceu diversas profissões: serrador mecânico, desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista, crítico... Publicou o seu primeiro livro, um romance (Terra do Pecado) em 1947, tendo estado depois largo tempo sem publicar, até 1966.. Pertenceu à primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, desde 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores. A partir de 1976 passou a viver apenas do seu trabalho literário. Casou com Pilar del Río em 1988 e em fevereiro de 1993 decidiu repartir o seu tempo entre a sua residência habitual (ilha de Lanzarote, Espanha) com Lisboa. Em 1998 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura. José Saramago faleceu a 18 de junho de 2010.

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*Eu penso que nós somos cegos. Pessoas cegas que conseguem ver, mas que não vêem.


FICHA DE LEITURA

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•Apreciação do processo de leitura. A leitura deste livro foi bastante rápida. Talvez pelo meu interesse acerca dos assuntos que trata - religião e história - facilitando, assim, a leitura da obra e a sua compreensão. Claro que José Saramago, como toda a gente sabe, tem uma escrita um pouco mais complexa e mais, digamos, 'confusa'. Neste livro, pelo menos comigo, não verifiquei nada disso. O processo de leitura foi mais fácil do que pensei e, posteriormente, gostei mais da leitura do livro do que julgara que iria acontecer. •Apreciação da obra e justificação. Pessoalmente, eu acho que este foi um dos livros mais fáceis que já li. Talvez o meu entusiasmo pelo mesmo se tenha refletido nessa rapidez. Esta obra do género dramático engloba em si vários aspetos que, para mim, foram um incentivo à leitura. Talvez a única crítica que tenha a fazer ao livro será o nome das personagens intervenientes. Claro que, para ser considerada uma história mais real, o autor teria de usar nomes da época e do local onde tudo se desenrola, mas, em contrapartida, também terá de vislumbrar que nomes difíceis de apanhar à primeira tornará a leitura um pouco confusa. A obra acontece, então, no decorrer da Reforma Protestante, na Alemanha. Um país totalmente cristão vê a chegada de luteranos a querer difundir a sua fé. A verdade é que grande parte da população acaba por aderir a estas ideias inovadoras, o que espanta a Igreja Cristã presente naquele território. A história gira, assim, em torno da chegada de novas ideias religiosas e, de certa forma, políticas. •Apresentação do episódio mais marcante e justificação. O aspecto que eu mais destaco nesta obra será, como não poderia deixar de ser, um aspecto histórico: a Reforma Protestante. É então em torno deste momento que tudo acontece. Com a criação de religiões que vão contra os princípios-base instaurados por hj

si. Isto provoca, assim, várias guerras e conflitos armados entre países e entre a população. Vive-se, portanto, num período onde existe a 'caça ao herege', retratada muito bem na obra. Para além disso, é de salientar as ideias distintas existentes na época e muito bem caracterizadas na obra. •Indicação e opinião sobre o tema principal da obra. O principal tema da obra será, mais uma vez, a religião. Este livro, tal como já acontecera com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, trata de assuntos relativos à fé católica, embora neste já possamos verificar a existência da religião luterana como adição. Com a existência e a oposição de duas religiões, o pensamento que vamos ter é que o autor irá mostrar argumentos a favor e contra adotar uma ou outra fé. Tal não acontece. Saramago, com a veia de ateu que tem, acaba, como de costume, por rebaixar maioritariamente a religião cristã. É como se ele tivesse escrito o livro para se sentir melhor e para tornar a sua crença mais forte, pelo menos na sua cabeça. É quase como se o livro fosse uma espécie de "muralha" em que o autor se refugia para se sentir melhor consigo e com a sua crença (não crença, talvez). •Motivação para a leitura do livro. Pessoalmente, eu gostei bastante do livro. Acho é que isso depende de pessoa para pessoa. Por exemplo, para mim, os aspetos fortes e a destacar para a leitura do livro foram tratar-se de um acontecimento histórico, falar sobre religião e, de certa forma, mostrar críticas à fé cristã. É certo que muitas pessoas não terão gosto nenhum por estas três razões que me levaram à leitura do livro e é por isso que eu acho que a leitura deste livro é mais subjetiva e relativa.

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PLANO DE EXPOSIÇÃO ORAL

Introdução: 

Apresentação do nome do livro (In Nomine Dei);

Apresentação de uma breve biografia do autor (José Saramago):  nasceu em 1922;  profissões: jornalista, serralheiro, desenhador, tradutor...;  primeiro livro - Terra do Pecado;  recebeu o prémio nobel em 1998;  residiu em Lanzarote (Espanha) até 2010, ano da sua morte.

Desenvolvimento: 

Desenvolver o assunto com vista a chegar a um breve resumo do livro através da frase "Escrevo para desassossegar os meus leitores", do próprio autor do livro;

Breve apresentação do conteúdo do livro:  espaço (Münster, Alemanha);  tempo ( século XVI, no tempo das Reformas Religiosas);  ação (cidade cristã onde o protestantismo acabara de chegar e, posteriormente, é implantado);

Leitura do excerto ("Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus - In Nomine Dei - para virem a alcançar, na mesma eternidade, o mesmo Paraíso");

Referir que o excerto é uma espécie de resumo do livro, pois mostra a posição protestante e a vertente católica (embora o autor defenda mais o primeiro ponto de vista).

Conclusão: 

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Comentário pessoal relativo à obra.


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*A vida é um livro e aqueles que não viajam lêem só uma página


O AUTOR

Estamos em 1905. Fernando Pessoa tem 17 anos. Viaja sozinho a bordo do Herzog, o vapor alemão que o afastará para sempre de África e do sonho de poder estudar numa universidade inglesa. Aluno brilhante, o jovem Pessoa não conseguira ganhar a bolsa para estudar em Inglaterra, apesar de ter tido a melhor nota de candidatura. Para continuar os estudos vê-se forçado a deixar a família e regressar a Portugal. Trinta anos foi quanto este empregado de escritório precisou para fundar uma obra que é, praticamente, uma cosmologia, falo de uma viagem cósmica. Fernando Pessoa parte das estreitas ruas da baixa para o universo e conquista-o. Foi o fundador de uma Língua Portuguesa moderna, juntamente com Cesário Verde, o qual ele admirava. Trabalhou como ninguém o ritmo das palavras e das frases. Trouxe para a literatura a sonoridade do dia a dia. Soube descrever a tragédia da existência: a incerteza da vida e da morte, os sonhos, as ambições, as desilusões, as contradições, as falhas dos nossos diversos egos. Apaixonamonos por Fernando Pessoa pelo modo que ele transforma a vida e o quotidiano, o seu pensamento e a sua viagem intelectual numa experiência universal que todos partilhamos Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Este é o início do poema Tabacaria, um dos grandes poemas da história da humanidade o qual é da autoria de Álvaro de Campos, o famoso heterónimo. Porque Pessoa foi o escritor dos heterónimos, dos jkjkjkjkjkjkjk

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pseudónimos, dos nomes, das múltiplas personagens e em nome delas escreveu uma obra sem par. Pessoa inventou muitas pessoas. Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

A capacidade e a necessidade de inventar personagens remonta à infância. Com apenas 6 anos de idade faz nascer a primeira de todas elas: Chevalier de Pas, em francês, língua que ele falava com a mãe. Chevalier de Pas, talvez cavaleiro de coisa nenhuma. Dr. Pancrácio, jornalista de A Palavra e de O Palrador, poeta, contista e charadista (é preciso dizer que tanto A Palavra como O Palrador foram dois jornais inteiramente escritos e fundados, evidentemente, por Fernando Pessoa na adolescência, por volta dos 14 anos de idade); Dr. Gaudêncio Nabos, diretor de O Palrador (terceira série); Adolf Moscow; José Rasteiro; Dr. Caloiro; Professor Trochee, autor de um ensaio humorístico de conselhos aos jovens poetas; Charles Robert Anon, poeta, filósofo e contista (este “Anon” vem de “Anonymous”); Alexander Search, poeta e contista; Charles James Search, tradutor e ensaísta (irmão de Alexander); Jean Seu de Mélouret, poeta e ensaísta em francês; Ibís, animal e personagem da infância que acompanha Pessoa até ao fim da vida; Raphael Baldaya; Vicente Guedes; António Gomes, «licenciado em philosophia pela Universidade dos Inúteis»; Miguel Otto; António Mora; Barão de Teive, prosador, autor de Educação do Stoico; uma mulher, Maria José, escreve e assina A Carta da Corcunda para o Serralheiro; Frederico Reis, ensaísta, irmão (ou primo?) de Ricardo Reis; Tomas Crosse, inglês e pendor épico-ocultista divulgador da cultura portuguesa Hoje em dia, Fernando Pessoa é conhecido, amado e até venerado como um dos nomes maiores da literatura, um dos maiores escritores do mundo. Mas afinal, como é que um modesto, pacato e discreto empregado de escritório se transforma num génio?


FERNANDO PESSOA

"TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO MUNDO"

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"I KNOW NOT WHAT TOMORROW WILL BRING" 18


No dia 13 de junho de 1888, Lisboa está em festa, é dia de Santo António, o santo padroeiro da cidade. Mas numa casa, num quarto andar, em frente ao Teatro São Carlos, havia outros motivos para festejar, Maria Madalena Pinheiro Nogueira estava em trabalho de parto. E às 15 horas e vinte minutos nasce Fernando António Nogueira Pessoa. Pura ironia do destino, Fernando toma o nome do seu santo: Fernando António, o santo padroeiro da cidade que será a sua única casa, ou, como diria Bernardo Soares, “o seu lar”. Ó sino da minha aldeia, Dolente na tarde calma, Cada tua badalada Soa dentro de minh'alma. E é tão lento o teu soar, Tão como triste da vida, Que já a primeira pancada Tem o som de repetida. Por mais que me tanjas perto, Quando passo sempre errante, És para mim como um sonho, Soas-me na alma distante. A cada pancada tua, Vibrante no céu aberto, Sinto mais longe o passado, Sinto a saudade mais perto.

O pai de Fernando Pessoa, de ascendência algarvia, era um funcionário público do Ministério da Justiça. Joaquim de Araújo Seabra Pessoa escrevia crítica musical no Diário de Notícias e era presença assídua do São Carlos, mesmo em frente de casa. A mãe, açoriana da Ilha Terceira, era também uma mulher bastante culta. Maria Madalena dominava as línguas inglesa e francesa, tocava piano e escrevia versos. E foi ela quem, muito cedo, ensinou o poeta a ler e a escrever. A infância de Fernando Pessoa é abalada por acontecimentos trágicos. Um mês depois de ter feito cinco anos, o pai morre vítima de tuberculose. Seis meses depois morre o irmão Jorge, com apenas um ano de idade. Maria Madalena vê-se obrigada a vender parte do património e a mudar-se com a família para um andar mais pequeno. Para Fernando Pessoa esta será a primeira de

vítima de tuberculose. Seis meses depois morre o irmão Jorge, com apenas um ano de idade. Maria Madalena vê-se obrigada a vender parte do património e a mudar-se com a família para um andar mais pequeno. Para Fernando Pessoa esta será a primeira de muitas mudanças de casa em casa.

O jovem passa a viver, com a mãe e a avó Dionísia, que sofre de perturbações mentais. Durante toda a vida, o escritor teve medo de herdar a loucura desta avó. Os meus pensamentos são, em alguns momentos, de tal natureza que me sinto a enlouquecer. O que a sua profundidade significa não sei, nem tenho coragem para saber. Fico louco só de pensar neles. (notas autobiográficas, nov. 1907- pg. 77. ed. A. Alvim)

Fernando Pessoa não irá viver nesta casa por muito tempo. Um acontecimento muda radicalmente a vida da criança. Um ano após a morte do marido, Maria Madalena enamorasse de João Miguel Rosa, oficial da marinha, que meses depois viaja para Moçambique onde ficara a trabalhar. O receio da eventual partida da mãe deve ter levado o Fernando, com apenas sete anos, a tentar comover a mãe com o seu talento. É o primeiro verso conhecido escrito por Fernando Pessoa. À minha querida mamã: Eis-me aqui em Portugal nas terras onde eu nasci. Por muito que goste delas, ainda gosto mais de ti.

A criança compara o amor à mãe com o amor à Pátria, a uma nação, um país. Uma devoção que nele durará uma vida. Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quiz que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou creou-te portuguez. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

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E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou creou-te portuguez. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Em 1896, Maria Madalena embarca rumo a Durban, na altura uma colónia britânica do Natal, hoje África do Sul onde o Comandante João Miguel Rosa, com quem casa por procuração, é cônsul de Portugal. Com Maria Madalena viaja o seu único filho, Fernando. Pessoa vai viver com a mãe, o padrasto e os irmãos que sucessivamente irão nascer. Ao todo serão cinco, dos quais sobreviverão apenas três. Imaginemos Fernando Pessoa numa colónia em África, com um modelo pioneiro de sociedade e um modo de vida muito diferente do de Lisboa. Imagine-se a capacidade de adaptação a uma nova língua, a uma nova vida social e familiar. Apesar do ambiente feliz, de participar em brincadeiras com os irmãos, não consta que tivesse feito grandes amizades com os colegas da escola e de certo detesta as atividades desportivas. Prefere ficar a ler, a escrever e a sonhar. É um jovem concentrado nos estudos e na descoberta da Literatura Inglesa: Shakespeare, Byron, Keats, Dickens,Carlyle, Milton... O seu mundo são os livros. Fernando Pessoa escrevia muito, escrevia sempre. É nesta época que surgem os primeiros heterónimos, Charles Robert Anon e Alexander Search com quem chega a corresponder-se por carta, sempre em inglês e que deixou quase 200 poemas e vários textos em prosa. Para Alexander Search, Pessoa chega a fazer cartões de apresentação. Concluída a instrução primária num colégio de freiras irlandesas, destaca-se na Durban High School como um dos melhores alunos: faz quatro anos letivos em pouco mais de dois anos. Entretanto, frequenta uma escola comercial onde certamente aprende aquela que virá a ser a sua única profissão. No exame de admissão à Universidade do Cabo, de entre quase 900 candidatos, ganha o prémio Rainha

alunos: faz quatro anos letivos em pouco mais de dois anos. Entretanto, frequenta uma escola comercial onde certamente aprende aquela que virá a ser a sua única profissão. No exame de admissão à Universidade do Cabo, de entre quase 900 candidatos, ganha o prémio Rainha Vitória para o melhor ensaio em inglês. Fernando Pessoa tem apenas 15 anos. Esta universidade apenas fazia exames e passava certificados. Não tinha cursos. Por isso, Pessoa candidata-se a uma bolsa para frequentar uma universidade em Inglaterra, Cambridge ou Oxford. Apesar de alcançar a nota mais alta, não lhe é concedida a bolsa. As regras impunham que os candidatos tivessem frequentado uma escola da província do Natal nos 4 anos anteriores. E Pessoa não cumpria esta exigência porque interrompera os estudos na Durban High School. Apesar de viver na colónia inglesa do Natal, Pessoa tinha interrompido os estudos na Durban High School para regressar a Lisboa com a família durante um ano. Depois do regresso a Durban, Pessoa ingressa na Comercial School. Por esta razão, Pessoa não foi para Inglaterra. Mas é irresistível pensarmos o que teria acontecido se tivesse ido, se tivesse ido para Cambridge ou para Oxford. Provavelmente Pessoa seria hoje um dos fundadores do modernismo inglês ou Anglo-Saxónico. Estivera em Portugal, com os pais, durante um ano em visita à família. Foi este simples facto que nos trouxe o jovem Fernando Pessoa de volta. Fernando Pessoa desembarca em Lisboa para nunca mais sair de Portugal e raramente da sua cidade. É nesse momento que se torna definitivamente português e faz de Lisboa a sua casa. Durante os primeiros tempos em Lisboa, mora em casa de tias e frequenta o Curso Superior de Letras, mas desiste passados dois anos, sem qualquer aproveitamento. O ensino não era estimulante para um Fernando Pessoa habituado a desafios maiores e a uma aprendizagem mais rigorosa e menos provinciana. Tenta compensar a desilusão com a leitura de filósofos gregos e alemães, de psicologia, teologia, história, literatura francesa. Uma das 21 suas características é o interesse por vários


para um Fernando Pessoa habituado a desafios maiores e a uma aprendizagem mais rigorosa e menos provinciana. Tenta compensar a desilusão com a leitura de filósofos gregos e alemães, de psicologia, teologia, história, literatura francesa. Uma das suas características é o interesse por vários assuntos. Faz diários de leituras onde regista as obras lidas. E escreve, claro. Mas estes primeiros anos em Lisboa, são ainda de escrita em inglês e francês, raramente em português. (Como é natural dado ter passado a sua adolescência a reflectir, raciocinar e criar em inglês, durante anos a sua matriz.)

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Falhada a universidade, o jovem Pessoa tinha de encontrar meios de subsistência. A tipografia Íbis, que abriu com algum dinheiro herdado da avó Dionísia, é um fracasso. A


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tinha de encontrar meios de subsistência. A tipografia Íbis, que abriu com algum dinheiro herdado da avó Dionísia, é um fracasso. A empresa não chegou a durar um ano. Os negócios não são o forte de Fernando Pessoa. Ideias não faltavam, mas a sua prioridade era a escrita, a obra, o tornar-se um escritor reconhecido, o maior escritor. Começa, então, a trabalhar como correspondente estrangeiro, empregado de escritório, a redigir e traduzir cartas comerciais em inglês e francês. Essa é a sua profissão. Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exata a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Muitas vezes, demasiadas, talvez, deve Fernando Pessoa ter percorrido estas ruas da Baixa lisboeta. Funcionavam aqui as mais de 20 empresas onde trabalhou ao longo da vida, quase sempre em regime livre. Escolhia os trabalhos que não lhe ocupassem os dias inteiros, nem toda a semana. Não queria obrigação de horários. O importante era o trabalho como escritor. Numa dessas empresas, (a Moitinho de Almeida,) o patrão chegou a permitir que pudesse utilizar o escritório durante a noite para escrever. Pessoa gostava de escrever de pé, durante a noite. Era a rotina diária de Pessoa: trabalhar como empregado comercial durante alguns dias da semana e, à noite, escrever sem parar, como se de uma urgência se tratasse, uma questão de vida ou morte, uma questão de sobrevivência. Porque sem escrever, Pessoa não poderia, não saberia viver. Compulsivo, escrevia nos escritórios, cafés, em casa. A sua necessidade de escrever era imperiosa. A construção da obra, idealizada, o objetivo único. Cada pedaço de papel era aproveitado à exaustão. Papel de carta, bilhetes de espetáculo, convites, panfletos, guias de remessa e papéis comerciais/timbrados das empresas onde trabalhou. Tudo aproveitado para criar a complexa rede dos muitos egos, da infinita galáxia pessoana.

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exaustão. Papel de carta, bilhetes de espetáculo, convites, panfletos, guias de remessa e papéis comerciais/timbrados das empresas onde trabalhou. Tudo aproveitado para criar a complexa rede dos muitos egos, da infinita galáxia pessoana. Deixa mais de 25 mil folhas manuscritas e dactilografadas, guardadas dentro da célebre arca que carregava consigo sempre que deixava uma casa ou um quarto alugado. E não foram poucas as vezes que mudou de casa - um nómada urbano, em constante viagem na sua cidade. Viveu em mais de 20 casas e quartos alugados, sozinho ou com familiares. Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. Assim, como sou, tenham paciência! Vão para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos? Não me peguem no braço! Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. Já disse que sou sozinho! Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia! Fernando Pessoa cultivava o isolamento para escrever, queria estar só, mas não vivia, de facto, sozinho. É um solitário acompanhado. Mantinha relações estreitas com a família, tias e irmãos. Tinha amigos, vários amigos com quem trocava intensa correspondência, com quem se encontrava quase todos os dias nas tertúlias dos cafés. Desses cafés, o Martinho da Arcada e a Brasileira do Chiado são sobreviventes únicos. Os escritórios e os cafés, a baixa e o Chiado, o circuito diário de Fernando Pessoa. Um mundo de que gostava e precisava para viver. Pessoa, o homem de Lisboa.


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Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Sentir tudo excessivamente, Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas

A estreia literária acontece, em 1912, com a publicação de dois ensaios sobre a nova poesia portuguesa, na revista Águia, dirigida pelo escritor Teixeira de Pascoaes. No primeiro artigo, Pessoa anuncia a chegada de um grande poeta. Estará a abrir caminho para si mesmo?

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Uma névoa de sentimentos de tristeza Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas Como a primeira janela onde a madrugada bate, E me envolve como uma recordação duma outra pessoa Que fosse misteriosamente minha.

Fernando Pessoa afirma-se como o escritor da modernidade. Paulismo, interseccionismo, sensacionismo são correntes literárias que inventa. Caso único na literatura mundial, é o escritor dos muitos eus, distintos de si. Dá vida A grande aventura nas revistas é a a outros poetas e escreve-lhes as vidas e as edição da Orpheu, que lança o movimento obras. Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e modernista português. É aqui que publica Reis, os heterónimos mais alguns mais importantes. No Ricardo alguns dos dosseus seuspoemas poemas Ricardo Reis, os importantes, são, juntamente com o seu autor, primeiro número colaboram Almada mais importantes. No heterónimos mais poetas maiores da língua Negreiros, Sá Carneiro, entre outros Fernando Pessoa, os importantes, primeiro Mário de número são, portuguesa. amigos que conheceu nas tertúlias. Fernando colaboram Almada juntamente com o seu Fê-los surgir a todos em 1914, um ano Pessoa publica a peça Negreiros, Mário de OSáMarinheiro e lança o autor, Fernando Pessoa, de intensa atividade literária. Tinha apenas 26 heterónimo Álvaro de Campos que assina os Carneiro, entre outros os poetas maiores da para cada um escreveu uma biografia e poemas Opiário. A revista causa anos. EDOS "É O ESCRITOR amigos Ode que Triunfal conheceue nas língua portuguesa. atribuiu estilos de escrita diversos. enorme escândalo. Os jornais e meios tertúlias. Fernando Ricardo Reis, é o poeta MUITOS EUS, DISTINTOS Fê-los neoclássico, surgir a literários insurgem-se os jovens Pessoa publica a peça Ocontra influenciado por Horácio. Nasceu em de todos em 1914,Junho um ano artistas. Marinheiro e lança o DE SI" decidiu atividade exilar-se «tradutor», exatadea de «correspondente 1887. Médico, monárquico, de intensa heterónimoa mais Álvaro no Brasil após a instauração da República. literária. Tinha apenas 26 estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e Campos que assina os anos. E para cada um escritor constitui profissão, poemasnãoOde Triunfal e mas vocação. escreveu uma biografia e Opiário. A revista causa Muitas vezes, demasiadas, talvez, deve atribuiu estilos de escrita enorme escândalo. Os Fernando Pessoaliterários ter percorrido estas ruas da diversos. jornais e meios Baixa lisboeta. contra Funcionavam aqui as mais de os insurgem-se contra os jovens artistas. Ricardo Reis, é o Ricardo poeta neoclássico, Reis, é o 20 empresas onde trabalhou ao longo da vida, jovens artistas. influenciado por Horácio. Nasceu em Junho de poeta neoclássico, quase sempre em número, regime livre. Escolhia os No segundo publicado 3 meses 1887. Médico, monárquico, decidiu exilar-se influenciado por Horácio. trabalhos queJunho, lhe ocupassem os édias a não trabalhar depois,então, em Fernando Pessoa já no Brasil após a instauração da República. Nasceu em Junho de inteiros, nem a semana. como correspondente director, ao ladotoda do grande amigo Não Márioqueria de Sá 1887.nada Médico, obrigação de horários. O importante eraRita o estrangeiro, empregado Para ser grande, sê inteiro: Carneiro. Colaboram António Ferro, Santa decidiu trabalho como escritor. Numa dessaso Teu exagera ou exclui.monárquico, de escritório, a redigir eÁlvaro Pintor. E, de novo, surge de Campos, exilar-se no Brasil após a empresas, (a naval, Moitinho de os Almeida,) traduzir cartas comerciais engenheiro com poemaso patrão Chuva Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. instauração da República. chegou ae Ode que em inglês epermitir francês. Essa pudesse utilizar o Oblíqua Marítima. Assim em cada lago a lua toda escritório durante a noite para escrever. é a sua profissão. poeta neoclássico, Brilha, porque alta vive Ah, todogostava o cais é uma saudade dedepedra! Pessoa de escrever pé, durante a influenciado por Horácio. E quando o navio larga do cais noite. Profissão: A designação Nasceu engenheiro em Junhonaval de E se reparaprópria de repente que se abriu um espaço Álvaro de Campos, mais será 1887. Médico, Entre oEra caisae rotina o navio,diária de Pessoa: trabalhar algarvio, homossexual, é o futurista. Nasceu «tradutor», a mais exata a monárquico, decidiu Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, como empregado comercial durante alguns em 1890. Viajou pelo Oriente, viveu em de «correspondente exilar-se no Brasil após a dias da semana e, à noite, escrever sem parar, Uma névoa de sentimentos Inglaterra e voltouinstauração a Portugal. É o único estrangeiro em casasde tristeza da República. como se de uma urgência se tratasse, uma comerciais». O ser poeta e heterónimo que evolui em várias célebre arcacorrentes que questão ouminhas morte, uma questão Que brilhadeaovida sol das angústias relvadas de escritor não constitui literárias, o especialista do pathos da dor carregava consigoe sempre sobrevivência. Porque sem escrever, Pessoa profissão, mas vocação. Como a primeira janela onde a madrugada bate, que deixava uma casa ou sentimental. não poderia, não saberia viver. um quarto alugado. E não E me envolve recordação outra Muitascomo uma vezes, Compulsivo, escrevia nosduma escritórios, ou com familiares. foram poucas as vezes pessoa demasiadas, cafés, em casa.talvez, A sua deve necessidade de escrever que mudou de casa - um


em 1890. Viajou pelo Oriente, viveu em Inglaterra e voltou a Portugal. É o único heterónimo que evolui em várias correntes literárias, o especialista do pathos e da dor sentimental. Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de Dizer aos meus amigos aí de Londres, Que, embora não o sintas, tu escondes A grande dor da minha morte.

Alberto Caeiro, considerado o mestre de todos eles, é o poeta clássico, o cantor da Natureza. Homem do campo, é o poeta simples. Nasceu em 1889 e nunca saiu de Portugal. Ele é o homem da dourada mediania de que falava Virgílio. E é também o Fernando Pessoa cansado de pensar. Olá, guardador de rebanhos, Aí à beira da estrada, Que te diz o vento que passa? Que é vento, e que passa, E que já passou antes, E que passará depois. E a ti o que te diz? Muita cousa mais do que isso. Fala-me de muitas outras cousas. De memórias e de saudades E de cousas que nunca foram. Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, E a mentira está em ti.

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Nunca ouviste passar o vento. O vento só fala do vento. O que lhe ouviste foi mentira, E a mentira está em ti.

Este mundo só se completa com Bernardo Soares, o ajudante de guarda livros, em Lisboa. Considerado apenas um semi heterónimo, devido às semelhanças íntimas com o próprio autor. O Livro do Desassossego será editado, apenas, em 1982, mais de 47 anos após a morte do escritor. Fernando Pessoa deixa mais de quinhentos textos para a obra, espalhados por escritos em papéis e cadernos vários. Amar-me é ter pena de mim. Um dia, lá para o fim do futuro, alguém escreverá sobre mim um poema, e talvez só então eu comece a reinar no meu Reino.

Aplaudido pelos amigos, pela geração modernista, mas não reconhecido pelo público, Fernando Pessoa continua a ser o anónimo empregado de escritório de quem muito poucos, inclusive os amigos conhecem a vida íntima. Apesar de um certo bom humor, virado para si mesmo, é um homem de temperamento instável. Confronta-se com crises depressivas periódicas que afetam a sua criatividade, a maneira de conviver com o mundo. Virá a sentir fundo a perda do grande amigo Mário de Sá Carneiro, que se suicidou em Paris. Ressente-se, por diversas ocasiões, da partida de alguns familiares. Na prática, não suporta sentir-se sozinho, por imposição. (Prefere escolher quando quer estar só.) Continua a ter uma vida social regular, em cafés e reuniões com amigos. Fuma e bebe, bastante, como o próprio confessa. Quando um dos patrões o acusa de beber como uma esponja, Pessoa graceja: Bebo como um armazém de esponjas com um anexo ao lado. Concentrado na escrita, parece ter sacrificado a vida pessoal em nome da criação da obra. A única relação amorosa conhecida foi com Ofélia Queiroz. Tinha 31 anos quando a conheceu num escritório em que ambos trabalhavam. Ela tinha apenas 19 anos. O primeiro período de namoro foi breve, apenas oito meses. Fernando Pessoa rompe com Ofélia após uma das muitas crises de tristeza.

a conheceu num escritório em que ambos trabalhavam. Ela tinha apenas 19 anos. O primeiro período de namoro foi breve, apenas oito meses. Fernando Pessoa rompe com Ofélia após uma das muitas crises de tristeza. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam. Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha. Fernando 29, Novembro 1920

Passados nove anos, retomam o namoro. Tudo recomeça a pretexto da célebre fotografia que surpreende o poeta a beber. Fernando Pessoa exibe o seu sentido de humor ao enviar a foto a Ofélia com a frase: “em flagrante delitro”. Incapaz de amar Ofélia e de imaginar-se sequer casado, termina o namoro passados quatro meses. Nem a família e os amigos chegaram a saber. Da relação platónica ficam para a história as conhecidas cartas de amor definidas por Álvaro de Campos, como ridículas, num poema escrito nove dias antes da sua morte. Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.

A sexualidade preocupava o escritor. Através da escrita mediúnica e automática, durante a qual tentava contactar com alegados espíritos, pressentimos que procurava resposta para a sua incapacidade de se relacionar sexualmente com mulheres. Mas não parece que fizesse muitos esforços para concretizar uma aproximação física ao outro sexo. A questão da sexualidade do escritor é ambígua. Não29


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pressentimos que procurava resposta para a sua incapacidade de se relacionar sexualmente com mulheres. Mas não parece que fizesse muitos esforços para concretizar uma aproximação física ao outro sexo. A questão da sexualidade do escritor é ambígua. Não sabemos se Fernando Pessoa falhou na sua vida amorosa ou se quis não vivê-la de forma intencional. Talvez reprimisse a sexualidade que tinha e que o deve ter atormentado. É certo que escreveu poemas de juventude carregados de erotismo homossexual, mas também nos deixou outros onde o objeto de paixão eram as mulheres. Nos negócios, as tentativas várias de ter êxito falharam sempre. Com 29 anos abre, juntamente com dois sócios, um escritório de comissões, mas a empresa não conseguiu sobreviver. Tenta ser intermediário em várias áreas: na compra e venda de terrenos mineiros em Portugal, na comercialização de tabaco... regista a patente de um anuário comercial que nunca conseguirá viabilizar, pensa até em estabelecer-se como astrólogo. É o homem de muitas ideias e projetos. Chega a escrever para publicidade. É sua a célebre frase Primeiro estranha-se e depois entranha-se destinada a servir como slogan de lançamento da Coca-Cola em Portugal. Nem o slogan nem a coca-cola entraram em Portugal. Em 1921 funda a Olisipo, para a qual projetara planos ambiciosos: promoção da cultura e negócios portugueses no estrangeiro. Mas a empresa acaba por funcionar, sobretudo, como editora. É com ela que Fernando Pessoa edita alguns dos seus poemas ingleses e obras de amigos, algumas das quais causam escândalo e são apreendidas. Durante a maior parte da vida, ganha acima da média, no entanto a falta de dinheiro e as dívidas são uma constante. Pede empréstimos a amigos e familiares, solicita dinheiro adiantado nas empresas onde trabalha. Mas é seguro que nunca esteve perto da miséria. Pelo contrário, faz refeições em restaurantes e comprava livros, muitos livros, a maior parte encomendados do estrangeiro. E gosta de vestir de maneira elegante. É cliente das melhores lojas de roupa de Lisboa, dos melhores alfaiates, onde acumula contas.

da miséria. Pelo contrário, faz refeições em restaurantes e comprava livros, muitos livros, a maior parte encomendados do estrangeiro. E gosta de vestir de maneira elegante. É cliente das melhores lojas de roupa de Lisboa, dos melhores alfaiates, onde acumula contas. Pensase que chegou a vender livros da sua biblioteca para pagar algumas dívidas. Olhe lá, a este propósito e se o pedido o incomodar tenha-o como não feito. Podia emprestar-me vinte mil reis? Eu não sei quando lhos poderei devolver, e de mais a mais, já lhe devo aqueles cinco que v. uma vez me emprestou na Avenida. Mas se lhe peço isto, meu caro, é que estou absolutamente a bout de resources. Literalmente naufragado, meu caro Amigo.

1920 marca o final das andanças de casa em casa. Tem 32 anos quando a mãe regressa a Portugal com os seus três meios irmãos. O padrasto de Fernando Pessoa morrera e Maria Madalena, debilitada na sequência de um acidente vascular cerebral, volta para morar com o filho. É no primeiro andar deste edifício que Pessoa irá morar nos últimos 15 anos da sua vida. O seu último quarto foi um sítio onde muito leu e escreveu. Dos objetos pessoais não resta muita coisa. O mais importante: a sua biblioteca pessoal. Um considerável conjunto de livros de várias temáticas que atestam a diversidade de interesses do escritor: economia, literatura, política, direito... É curioso encontrar várias obras dedicadas a temas à astrologia, ao ocultismo, ao misticismo, à magia, ao espiritismo. O esoterismo fascinava-o. Sabe-se que estudava algumas das organizações secretas como a maçonaria e os rosa cruz. No final da vida, considerava-se um cristão agnóstico fiel à tradição secreta do cristianismo, como escreve na sua nota biográfica. A astrologia é uma atividade que pratica durante toda a vida. Faz incontáveis previsões astrológicas e horóscopos detalhados para si, para os seus heterónimos, familiares, amigos e para figuras históricas que admira. A paixão de Fernando Pessoa pelas ciências ocultas torna-o protagonista de um31


detalhados para si, para os seus heterónimos, familiares, amigos e para figuras históricas que admira. A paixão de Fernando Pessoa pelas ciências ocultas torna-o protagonista de um caso insólito. Pessoa tinha escrito a Aleister Crowley, famoso mago inglês, especialista em magia negra, denunciando um erro no seu horóscopo pessoal. Curioso para conhecer a personalidade portuguesa tão entendida em astrologia, Crowley viaja até Lisboa com a namorada alemã. Em 1930, o poeta recebe a visita do conhecido esotérico que, consta, era também perito em charlatanice. Nada disso preocupou Pessoa que acaba cúmplice de uma encenação do suicídio de Crowley na Boca do Inferno, nos arredores de Lisboa. O nome e as características dramáticas do local escolhido não poderiam ser mais sugestivos: Boca do Inferno. Até hoje não se sabe o que aconteceu realmente. Apenas que Augusto Ferreira Gomes, jornalista, amigo pessoal de Pessoa, encontra na Boca do Inferno uma nota de despedida de Crowley e uma cigarreira. O facto é que o suposto suicídio de Aleister foi notícias nos jornais e Pessoa chegou a prestar testemunho, falso, porque, como se veio a saber mais tarde, tudo não passou de uma encenação da qual participaram também o poeta e o seu amigo jornalista. Crowley nunca se suicidou tendo, de imediato, saído de Portugal. Fernando Pessoa deve ter-se divertido. E aproveitou o episódio para traçar o plano de escrita de um livro policial no qual um detetive inglês vinha a Portugal investigar o suicídio de Crowley. À semelhança de muitos outros projetos que tinha, desistiu de escrever o livro. Fernando Pessoa, o quase desconhecido, é descoberto pelos Presencistas que o consideram, na época, o maior escritor português vivo. José Régio escreve um ensaio crítico sobre a sua obra, E João Gaspar Simões publicará anos mais tarde a sua primeira biografia. O escritor colabora de forma quase constante com a Presença, a revista onde surgem alguns dos seus poemas mais importantes. É na revista Athena, de que ele próprio é fundador, que surgem em público, pela 32 primeira vez, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.

constante com a Presença, a revista onde surgem alguns dos seus poemas mais importantes. É na revista Athena, de que ele próprio é fundador, que surgem em público, pela primeira vez, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Fernando Pessoa só conseguirá publicar um livro em português, um ano antes da sua morte. Mensagem é editado para concorrer ao prémio Antero de Quental do Secretariado de Propaganda Nacional, chefiado por António Ferro, antigo colaborador da revista Orpheu. O livro alcança o prémio da segunda categoria. É nesta obra que Fernando Pessoa exacerba todo o patriotismo. Exalta a grandeza de Portugal, naquilo a que chamou de nacionalismo místico. Poema épico, Mensagem remete para o Quinto Império que Pessoa sonhava para Portugal. No seu ideal, o país iria dominar o mundo através da língua portuguesa, da cultura. Fernando Pessoa talvez ambicionasse ser o grande poeta português, aquele que levaria com a sua obra Portugal a impor-se ao mundo. Pessoa enfrenta-se com Camões com o qual entretém uma relação de rivalidade. Nos anos finais da vida, Fernando Pessoa é já um homem diferente não apenas na aparência, mas também no pensamento. São os tempos em que, eventualmente, se confronta com a dura realidade de não conseguir editar em livro, de não ter reconhecimento público como escritor. Cria o seu último heterónimo o Barão de Teive a quem traça um triste final: o suicídio devido à incapacidade de terminar as suas obras e de concretizar o amor. E é a época das grandes desilusões políticas. Ao longo da vida, o escritor evidenciou posições que se alteraram consoante o rumo dos acontecimentos. Foi monárquico, republicano, defensor da ditadura militar como um período de transição, como justifica no seu famoso Interregno. Na verdade, Pessoa acreditava nas opções que pareciam prometer o final do longo período de instabilidade que se prolongava desde os últimos anos da monarquia. No início, como muitos portugueses, depositou grandes esperanças


"PENSAR É ESTAR DOENTE DOS OLHOS" 33


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transição, como justifica no seu famoso Interregno. Na verdade, Pessoa acreditava nas opções que pareciam prometer o final do longo período de instabilidade que se prolongava desde os últimos anos da monarquia. No início, como muitos portugueses, depositou grandes esperanças em Oliveira Salazar, depressa concluiu que o ditador só iria deixar o país ainda mais atrasado, menos desenvolvido e mais provinciano.

Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira É boa a cigarreira, Ele é que já não serve.

António de Oliveira Salazar Três nomes em sequência regular... António é António Oliveira é uma árvore. Salazar é só apelido. Até aí está tudo bem. O que não faz sentido É o sentido que isso tudo tem.

Lá longe, em casa, há a prece: "Que volte cedo, e bem!" (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe.

No último ano, Fernando Pessoa é um homem desiludido. A morte da mãe deixara-o mais sozinho. A irmã, com quem vivia, tinha-se mudado para Évora e daí para São João do Estoril, perto de Lisboa. O escritor visita a família frequentes vezes, como o fez durante toda a vida. Naquele que se acredita ser o seu último poema em português diz: Dai-me mais vinho porque a vida não é nada. É internado no Hospital São Luís dos Franceses depois de ter sido encontrado em casa com fortes dores abdominais e febre. No dia seguinte, escreve as últimas palavras, em inglês, a língua que lhe deu a versatilidade de raciocício, o conhecimento, a capacidade de inventar um novo ritmo para as palavras na poesia. Morre, sozinho, no dia 30 de Novembro, de 1935, com 47 anos. É enterrado no cemitério dos Prazeres e, cem anos após o seu nascimento, para o Mosteiro dos Jerónimos onde jaz entre os maiores da história de Portugal. Tão jovem! Que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe». Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira É boa a cigarreira,

De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo.

Fernando Pessoa fez mais por Portugal do que qualquer político, militar ou cientista. Ele foi um navegador e um descobridor. Deunos o nosso português moderno. Levou o país e a nossa língua além fronteiras, deu-nos prestígio, ofereceu-nos um lugar entre os melhores do Mundo. E tudo isto com o génio e o talento da sua escrita. Uma vida inteira, breve, dedicada exclusivamente à sua obra. Era essa a sua razão de viver e queria fazê-lo por Portugal porque sentia orgulho patriótico e sonhava com um país maior. O seu sonho pode ter ficado por cumprir, mas o anónimo empregado de escritório concretizou uma obra imensa que ainda hoje permanece desconhecida. Dos mais de 25 mil papéis guardados na sua arca falta ainda publicar muito dos textos em prosa. Traduzido em mais de 37 países, admirado por milhões de leitores, conseguiu projectar a língua portuguesa no mundo, torná-la universal. Foi capaz de levar mais longe aquilo que temos de mais valioso: a nossa cultura. Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

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FICHA DE LEITURA

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•Apreciação do processo de leitura. Quando se gosta daquilo que se lê, não se dá pelo tempo passar. Quando comecei a leitura destas obras de Fernando Pessoa, pensei que não iria conseguir ler tudo, pois são dois livros bastante extensos, quer de páginas quer de informação. Depois de ler um poema, eu paro, leio outra vez e tento perceber a sua mensagem - sempre foi assim que o fiz. Gosto de perceber tudo até à última palavra, ou, pelo menos, fazer uma interpretação mais pessoal. A verdade é que pensei que nunca mais iria cabar de ler as obras, o que acabou por não acontecer. A leitura foi uma das mais breves e rápidas que já fiz. Não por ter lido o livro à pressa, coisa que não aconteceu, mas sim pela leitura dos poemas,os quais nos 'embalam' logo desde o ínicio. É como se a partir do terceiro poema já 'levássemos um empurrão' que nos permite interpretar e ler os restantes com gosto e com uma frequência (ou ritmo) que, de certeza, o autor pensou. •Apreciação da obra e justificação. Eu acho que todos nós gostamos de poesia. A poesia é um modo literário que cativa muito as pessoas, talvez pela sonoridade ao lê-la. O texto lírico é algo pequeno e que diz muito sobre o assunto a que o poema se refere, o que faz com que este seja mais fácil de ler e mais fácil de interpretar. Digamos que, ao ler poemas, o ser humano consegue vislumbrar um mundo por detrás das palavras, é como se a poesia fosse um modo de vida, é como se o autor que o escreveu lhe tivesse posto sentimentos, desabafos, pensamentos, e que, se formos ver bem, é mesmo isso que o poema nos apresenta. Todos os poemas escondem algo detrás das letras, todos eles podem ser interpretados de variadas maneiras, o que confere a este género literário esta particularidade tão especial. Isto é algo que cativa o leitor: tentar decifrar o que o poeta nos pretende transmitir em ideias abstratas ou não. •Apresentação de um dos poemas e justificação. Os poemas que escolhi intitulam-se de "Estou cansado, é claro" e "Se te queres matar". O primeiro poema enquadra-se na fase decadentista da escrita de Álvaro de CamposO 'eu' lírico está cansado - mas cansado de quê? Em muitos dos poemas que li nesta colectânea

fase decadentista da escrita de Álvaro de Campos. O 'eu' lírico está cansado - mas cansado de quê? Em muitos dos poemas que li nesta colectânea (pelo menos quatro) nota-se que o sujeito poético destaca a ideia de cansaço. Neste poema em particular, parece que existe cansaço em levar uma vida que não é a desejada, a qual é repleta de desejos, mas nenhum destes é cumprido. Existe uma infelicidade por não se obter o que se deseja. É como se a vida não tivesse qualquer sentido sem o pretendido. Mas existe algo. Existe uma réstia de esperança. O sujeito poético parece estar contente (ou alegrado) com a ideia de o cansaço ser simplesmente isso. Cansaço. A partir de uma leitura muito pessoal, eu concluo que quando não alcançamos os nossos objetivos de vida tudo vai a baixo. Temos preguiça e cansaço de viver. É como se, simplesmente, não valesse a pena estar cá (e aqui passamos da 1ª para a 3ª fase - a fase pessimista - da escrita de Álvaro de Campos, o qual é bem exemplificada no segundo poema). Eu acho que estes dois poemas (e este último em particular) representam a parte mais pessoal e sentida de Fernando Pessoa. Demonstram o seu olhar relativamente à sua existência. É por isso que Álvaro de Campos é o heterónimo que mais gosto: tem uma visão mais pessoal, mais sentimental, mais humana. É Pessoa na sua totalidade. •Motivação para a leitura do livro Este livro, tal como todos os outros livros de poesia, valem a pena ler: são livros que nos levam a pensar nos nossos atos e nos fazem pensar na vida de uma outra forma, ou, pura e simplesmente, nos fazem compreender coisas que nós achamos incompreensíveis. Claro que nem todos os poemas falam sobre sentimentos e esse tipo de coisas, também há aqueles de que falam de situações do quotidiano, de experiências de vida, ou simplesmente fazem uma descrição de algo. Embora possamos pensar que estes poemas não são nada de especial, que são só letras impressas no papel, estes versos dizem muito acerca da vivência do poeta e das suas experiências. Digamos que nalguns poemas existe um traço de texto autobiográfico, o que nos leva a conhecer melhor o autor e a sua experiência de vida.

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nalguns poemas existe um traço de texto autobiográfico, o que nos leva a conhecer melhor o autor e a sua experiência de vida. Claro que nem todos gostamos de ler, mas eu acho que a leitura de um poema é sempre algo diferente da leitura de outros modos literários, é algo mais natural, mais melodioso, é algo que nos cativa todos a ler um livro de poesia, e este não é exceção.

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PLANO DE EXPOSIÇÃO ORAL

Introdução: 

Apresentação da obra lida (Colectânea de Poemas de Fernando Pessoa e dos seus 'eus').

Desenvolvimento: 

Apresentação da biografia do autor:  nasceu em Lisboa, a 13 de junho de 1888;  ida para Durban;  regresso a Lisboa;  Escrita;  Heterónimos;  A Mensagem;  Orpheu;  morre a 30 de novembro de 1935;

Leitura do poema "Estou cansado, é claro" e análise do mesmo (tendo em conta as fases de escrita de Álvaro de Campos);

Leitura de excerto do poema "Se te queres matar por que não te queres matar?" e fazer relação entre este e o anteriormente lido.

Conclusão: 

Comentário pessoal relativo aos poemas e à Literatura Pessoana.

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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

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A AUTORA Sophia de Mello Breyner nasce a 6 de novembro 1919 no Porto, onde passa a infância. Entre 1936 e 1939 estuda Filologia Clássica na Universidade de Lisboa. Publica os primeirosClássica na Universidade de Lisboa. Publica os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia.

primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Passa a viver em Lisboa. Tem cinco filhos. Participa ativamente na oposição ao Estado Novo e é eleita, depois do 25 de Abril, deputada à Assembleia Constituinte. Autora de catorze livros de poesia, publicados entre 1944 e 1997, escreve também contos, histórias para crianças, artigos, ensaios e teatro. Traduz Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante e, para o francês, alguns poetas portugueses. Recebeu entre outros, o Prémio Camões 1999, o Prémio Poesia Max Jacob 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia IberoAmericana. Foi a primeira vez que um português venceu este prestigiado galardão, que, para além do valor pecuniário de 42 070 euros, significa ainda a edição de uma antologia bilingue (português-castelhano), o que levará a autora a um vastíssimo público que cobre os países latino-americanos. Com uma linguagem poética quase transparente e íntima, ao mesmo tempo ancorada nos antigos mitos clássicos, Sophia evoca nos seus versos os objetos, as coisas, os seres, os tempos, os mares, os dias. A sua obra, várias vezes premiada está traduzida em várias línguas. Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu a 2 de julho de 2004, em Lisboa.

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FICHA DE LEITURA

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•Apreciação do processo de leitura. O livro lê-se muito facilmente, sendo as histórias fáceis de compreender e de assimilar. É composto por cinco contos - "História da Gata Borralheira", "O Silêncio", "A Casa do Mar", "Saga" e "Vila d'Arcos", sendo o livro bastante pequeno no que toca ao número de páginas. Sendo assim, para além da sua facilidade de compreensão, outro aspecto que se destaca é a sua brevidade, a qual, por ser pequena, não é sinónimo de desinteressante, muito pelo contrário. É um livro cheio de contos que nos prende (mesmo) desde a primeira página até à última. •Apreciação da obra e justificação. Os contos, como todos sabemos, são algo agradável e rápido de se ler, sendo, portanto, um ponto a favor da leitura deste género literário. Talvez isso também dependa de quem os escreve, mas aqueles assinados por Sophia, como estes que li, são algo quase mágico que consegue levar o leitor para o espaço onde tudo se desenrola. Tudo isto, pelo menos no meu ponto de vista pessoal, acaba por facilitar ao recetor da mensagem a leitura da obra, pois, desta forma, tudo acaba por ser mais fluído e natural. •Apresentação do episódio mais marcante e justificação. O conto que mais me marcou foi “A Casa do Mar”, onde narrador faz a descrição detalhada de uma casa de praia na qual, segundo aquilo que dá a entender, ele se refugia para se esconder de algo ou de alguém, sendo a casa uma espécie de fortaleza. Existe a descrição dos quartos, da sala, do escritório onde o narrador passa grande parte do seu tempo a escrever e a reflectir, do jardim, do alpendre… Tudo isto é descrito sempre com a essência do mar – o mar está sempre presente no relatar da história, transmitindo sensações como o cheiro da maresia e o leve barulho das ondas a enrolar na areia. Por fim, percebemos que o narrador gosta de se encontrar junto da praia para pensar e reflectir, sendo este o seu porto de abrigo para se refugiar do mundo exterior, pois o mar é companhia, o mar é a paz à qual se recorre para podermos estar bem connosco próprios e com os outros.

porto de abrigo para se refugiar do mundo exterior, pois o mar é companhia, o mar é a paz à qual se recorre para podermos estar bem connosco próprios e com os outros. •Motivação para a leitura do livro. Pessoalmente, eu acho este livro quase de leitura obrigatória para todos nós. Não pelo que nos ensina ou pelo escola literária que representa, mas sim pelo seu conteúdo e pelos sentimentos e ideias que transmite a quem o lê. Sendo uma obra bastante curta, o que também joga a favor da ideia de leitura obrigatória, tudo é mais rápido e mais fácil de compreender, se bem que, em certos casos, tal não acontece. Desta forma, é certo que recomendaria a leitura desta (magnifica) obra que, para quem gosta do mar, será algo que dará gosto ler.

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PLANO DE EXPOSIÇÃO ORAL

Introdução: 

Apresentação de uma breve biografia do autor (Sophia de Mello Breyner Andresen):  nasceu a 6 de novembro de 1919;  descendência dinamarquesa;  foi a primeira mulher a receber o Prémio Camões;  faleceu a 2 de julho de 2004.

Desenvolvimento: 

Apresentação do conto:  Apresentação do conto "A Casa do Mar";  Apresentação do conto "Silêncio".

Conclusão: 

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Comentário pessoal relativo ao sentimento de tristeza e de melancolia perante o mundo, retratado no último conto.


Abril•Maio•Junho


Miguel Sousa Tavares

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O AUTOR Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto, filho da poetisa Sophia de Mello Breyner e de Francisco de Sousa Tavares. Depois de se ter licenciado em Direito, exerceu advocacia durante doze anos, mas abdicou definitivamente desta profissão para se dedicar exclusivamente ao jornalismo. O jornalista também se destacou na imprensa portuguesa como cronista e escreveu ininterruptamente para o jornal Público, desde que este foi lançado em 1990 até ao início de 2002 Tem vários livros publicados, quase todos de crónicas: Sahara, a República da Areia (o primeiro livro, lançado em 1985), Um Nómada no Oásis, O Segredo do Rio, Sul, Não te Deixarei Morrer David Crockett, Anos Perdidos. Miguel Sousa Tavares estreou-se no romance com a obra Equador, que, editado pela primeira vez em 2003, vendeu mais de 250 mil exemplares, tendo sido reeditado no mesmo ano. O sucesso desta obra foi tão grande que, posteriormente, acabaria por ser lançada a nível internacional (Brasil, Holanda, Alemanha, República Checa, Espanha e América Latina). Em Outubro de 2007 publica Rio das Flores, com uma primeira tiragem de 100 mil exemplares. Para além da sua intensa actividade como jornalista, em 1998 foi um dos nomes que integrou a direcção do movimento Portugal Único que se batia contra a regionalização e apelava ao voto no "Não" num referendo agendado para esse ano.

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Episódio Histórico: A Crise e a Queda da Monarquia O CLIMA DE CRISE Nos finais do século XIX, Portugal debatia-se com inúmeros problemas. Politicamente, a monarquia apresentava-se fraca e instável, os governos sucediam-se e não respondiam aos problemas do País. Perante o ultimato britânico de 1890, foram acusados pelos republicanos de fraqueza e de cedência aos interesses da Inglaterra. Em termos sociais, o País apresentavase divido: enquanto uma minoria de altos funcionários, banqueiros, grandes comerciantes e latifundiários governava, a pequena e média burguesia começava a apoiar o Partido Republicano Português (PRP). Este partido político representava o desagrado das classes médias (membros das profissões liberais, pequenos comerciantes, médias e baixas patentes do Exército da Marinha), que viam frustrados os seus ideais de progresso e igualdade. Os operários, concentrados em Lisboa e no Porto, recorriam com frequência à greve e tendiam a apoiar ideais socialistas. Nas últimas décadas do século XIX verificaram-se, em Portugal, cerca de sessenta greves. Entretanto, a economia do País progredia muito lentamente, a dívida pública crescia e, por conseguinte, a moeda desvaloriza e a inflação aumentava. A balança comercial era deficitária, pois Portugal tinha falta de cereais e de produtos industriais. Também a agricultura continuava estagnada, a mecanização era lentamente adotada e a produtividade era baixa. Na indústria, grande parte do capital investido era estrangeiro. Predominavam os setores tradicionais (têxtil, conservas, cortiças e alimentação), emergindo a indústria cimenteira e a indústria de adubos. A produção industrial destinava-se essencialmente ao mercado interno.

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IDEAIS SOCIALISTAS REPUBLICANOS

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Em 1890, durante a crise do ultimato inglês, as condições externas desfavoráveis conjugaram-se, originando uma crise financeira: não podendo recorrer a empréstimos externos, o Estado fica fragilizado e quase na bancarrota. Neste contexto, o socialismo e o republicanismo encontraram terreno par se propagar. Desde a fundação das primeiras associações republicanas em 1870 que estes ideais não pararam de ganhar adeptos. Também no final do século XIX o Partido Operário Português cresceu. No entanto, perdeu terreno para os republicanos, mais próximos da realidade portuguesa. Grande parte dos intelectuais apoiou esta vontade de mudança, contribuindo para a sua legitimação.

O AVANÇO REPUBLICANO A 1ª tentativa de revolução republicana deu-se a 31 de Janeiro de 1891. Nessa altura, setores republicanos portuenses apoiaram uma revolta na guarnição militar no Porto que, embora não tenha sido bem-sucedida, deu sinal à monarquia de que estava em perigo. Perante a ineficácia dos partidos monárquicos, patente nas disputas parlamentares que impediam a tomada de decisões, D. Carlos, em 1907, convidou João Franco a formar governo sem recurso a eleições, sob regime de ditadura. Contudo a agitação política aumentou e, a 1 de Fevereiro de 1908, o rei e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados – regicídio - em pleno Terreiro do Paço, quando regressavam de Vila Viçosa. D. Manuel II tornou-se, assim, o novo rei de Portugal, mas por pouco tempo. João Franco foi demitido, sendo substituído por um


«(...) Vi um homem de barba preta , com um grande "gabão". Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina. Eu estava tão longe de pensar n'um horror d'estes que me disse para mim mesmo, sabendo o estado exaltação em que isto tudo estava "que má brincadeira" O homem sahiu do passeio e veio se pôr atraz da carruagem e começou a fazer fogo. Quando vi o tal homem das barbas que tinha uma cara de meter medo, apontar sobre a carruagem percebi bem, infelizmente o que era. Meu Deus que horror. O que então se passou só Deus minha mãe e eu sabemos;(...)» Relato do regicídio por D. Manuel II

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A REVOLUÇÃO O Partido Republicano deu luz verde para a revolução a 25 de Setembro de 1910, ficando Cândido dos Reis como comandantechefe. Em 4 de Outubro de 1910 teve início a revolução. Nas primeiras horas de 5 de Outubro juntaram-se na Rotunda (Praça do Marquês de Pombal), em Lisboa, os apoiantes da República, liderados por Machado Santos, comissário da Marinha, membros do Exército de baixa patente e civis das classes médias. O Palácio das Necessidades foi bombardeado e os monárquicos cederam à pressão republicana. O rei apressou-se a fugir para Mafra e daí para a Ericeira, de onde embarcou para o exílio para a Inglaterra. A República foi proclamada da Câmara Municipal de Lisboa, aguardando-se a sua aceitação nacional e internacional. O PRP formou um governo provisório, sob a Presidência de Teófilo Braga. A composição do Governo foi desde logo polémica e suscitou inúmeras crísticas. Os ovos governantes tomaram medidas avulsas, sem um programa coerente e definido. A saída de cena de quase todos os políticos monárquicos e a falta de políticos qualificados e experientes entre os republicanos adiaram a tomada de decisãoes e dificultaram a estabilização do novo regime político.

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*Um livro ĂŠ a prova de que os humanos sĂŁo capazes de trabalhar magia


FICHA DE LEITURA

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•Apreciação do processo de leitura. Como acontece com todos os livros de grande dimensão, só se existir gosto e tempo é que alguém o consegue ler por inteiro. O timing pode não ter sido o perfeito, pois este tipo de obras deve ser lido quando existe bastante tempo livre - quando não existe nada mais a fazer -, pois só desta forma é que o leitor conseguirá tirar partido por inteiro da obra. O que aconteceu comigo foi que o processo da leitura se tornou um pouco demorado (se calhar até demais), mas, por fim, consegui ter tudo assente na minha cabeça quando conclui o mesmo. Um aspeto que me deu mais entusiasmo pela leitura foi o caráter histórico da obra. O desenrolar da ação e a ligação que o autor faz ao que está a acontecer com os acontecimentos da História foram aspetos que fizeram suscitar em mim o entusiasmo de ler sempre mais um pouco. Outro fator serão, também, as diferenças culturais apresentadas no decorrer da obra (desde a indiana à portuguesa, da inglesa à são-tomense...), o que, pelo menos no meu ponto de vista, enriquece e dá mais ''sabor'' à obra. •Apreciação da obra e justificação. Em termos de conteúdo, achei que a obra era rica na descrição de vivências e costumes do século que retrata. É uma cópia fiel à sociedade e aos acontecimentos históricos passados na altura. Vejamos, por exemplo, um dos momentos em que Luís Bernardo janta com os amigos: o narrador descreve a política da Conferência de Berlim e do Mapa Cor-de-Rosa, dando também a opinião (não muito favorável) que vigorava no país relativamente a esses assuntos. Ora, isto dá, indiscutivelmente, um grande poder à obra, mais que não seja pela pesquisa que o autor decerto exerceu e que expõe de uma forma bastante inovadora, colocando essa informação não só no texto narrativo em si mas também em diálogos entre as personagens, como aconteceu no momento que anteriormente referi. •Apresentação do episódio mais marcante e justificação. O que eu mais gostei em todo o livro foi toda a história em si, porém, o aspeto que mais

O que eu mais gostei em todo o livro foi toda a história, porém, o aspeto que mais se destacou e que, no meu ponto de vista, levou a narrativa toda a desenrolar-se da forma que se desenrolou foi o estado político em que se encontrava Portugal na época deste romance. O Império Português estava ameaçado em 1884/85. A Conferência de Berlim deixou Portugal numa posição delicada, pois era um dos países com uma ocupação mais antiga no continente africano. Esta espécie de reunião tinha como objetivo definir regras de ocupação dos territórios africanos. Perante a necessidade de delimitar as suas possessões, Portugal apresentou o projeto do Mapa-Cor-de-Rosa, que consistia na ocupação de um território contínuo entre Angola e Moçambique. A reação negativa surgiu por parte da Inglaterra, pois a proposta portuguesa colidia com a sua própria, do Cairo à Cidade do Cabo. Perante a insistência portuguesa em manter o seu plano, as autoridades britânicas enviam, então, um ultimato a Portugal, exigindo a retirada dos territórios situados entre Angola e Moçambique. O país luso, consciente da sua incapacidade de resposta, cedeu. •Indicação e opinião acerca do tema principal da obra. Nesta obra, podemos destacar variadíssimos temas, mas nenhum nos marca mais do que o colonialismo português: "Por outras palavras falhei a missão de que Vossa Majestade me encarregou: quer junto do cônsul inglês, a quem não consegui convencer da seriedade das nossas intenções de mudar o estado de coisas actual, quer junto dos nossos agricultores, a quem não consegui convencer da necessidade dessas mudanças". Na época em que a ação da obra é narrada, a escravatura era ainda uma realidade nos territórios portugueses, embora esta fosse um pouco 'encoberta' por se tratarem os escravos de uma forma mais leve e mais ''livre''. Nas colónias, viviam os grandes exploradores de recursos naturais (recursos agrícolas, minerais...) vindos da 53 metrópole e nas roças, espécie de território


(recursos agrícolas, minerais...) vindos da metrópole e nas roças, espécie de território que lhes pertencia, trabalhavam essencialmente negros, os quais faziam os trabalhos pesados e árduos. Estes eram pagos com miseráveis tostões e, muitas das vezes, nem com isso, pois a comida servia como moeda para muitos devido à escassez de alimento a que essa parte da população estava sujeita. O que mais nos deixa a pensar é o simples facto de como é que um país como o nosso - que na altura se proclamava como sendo um país no qual se abolira a escravatura - conseguia enriquecer à custa de milhares de pessoas que eram tratadas de um modo inimaginável. Como é que alguém consegue suportar esse facto e deixar continuar tudo na mesma? Claro que a riqueza era necessária ao país, mas não haveria de ser desta forma que tudo devia de ser tratado, pois existem outras alternativas de trabalho (totalmente distintas ao aplicado nas colónias) que geram tanto dinheiro como a escravatura. •Motivação para a leitura do livro. Eu acho que este livro é uma obra que nem todos conseguem ler. Não pela sua dimensão, mas sim pelo assunto que trata, o qual poderá não ser do interesse de muitas pessoas. Para quem gosta de História e dos seus factos, acredito que a leitura será compulsiva e que seja bastante simples, pois o livro está repleto desses pormenores. Por outro lado, a complexidade da escrita é algo que deixa o leitor um pouco ''às voltas'', visto que, muitas vezes, sentimos a necessidade de voltar atrás e reler tudo, pois não acompanhámos o raciocínio que o narrador quer seguir, sendo, portanto, uma obra que exige a construção da sua compreensão. Por outro lado, existem partes que dá gosto ler, tendo em conta que a narrativa é de tal forma estimulante que parece que estamos a ver um filme na nossa cabeça: parece que vemos as personagens, as diferentes paisagens, os edifícios majestosos e os nem tanto... É um livro que tem os seus "prós e contras", tendo, por isso, de existir uma grande motivação quando se pensa lê-lo, pois só desta forma é que iremos conseguir tirar partido da leitura que efetuámos. da leitura que efetuámos.

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PLANO DE EXPOSIÇÃO ORAL Introdução: 

A Europa e Portugal no fim do século XIX:  disputa de África;  Conferência de Berlim;  'Mapa Cor-de-Rosa';  ganância inglesa;  ultimato inglês a Portugal.

Desenvolvimento:   

Apresentação de São Tomé e Prícipe como cenário principal da obra; Apresentação da trama principal de forma bastante resumida, não revelando partes importantes do suspanse criado; Visionamento do trailer da série "Equador", baseada na obra.

Conclusão:  

Leitura dos últimos dois parágrafos da obra; Breve esclarecimento da escravatura em Portugal no século XIX.

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A FECHAR Até Setembro de 2012, nunca tinha ouvido falar de uma disciplina que se chamasse 'Literatura'. Sim, pode soar um pouco a ignorante, mas é verdade! O nome pareceu-me bem, na realidade. "Okay, deve ser ler uns clássicos e já está, não se deve fazer mais do que isso... Devo safar-me, até porque ler não é assim uma coisa que eu não goste de fazer". Agora, quando constatei que a 'Literatura' se juntava a palavra 'Portuguesa', as coisas mudaram um pouco. Nunca fui muito bom leitor de obras portuguesas. Não sei, talvez por não ter sido habituado a tal ou porque, simplesmente, agora nesta ''aldeia global'', com tanta oportunidade de escolha, nunca escolhi de livre vontade uma obra portuguesa. Mesmo assim pensei em ver no que tudo isto ia dar. No início, foi um mundo à parte, completamente. Termos de ler 5 obras por ano, termos de fazer fichas e textos e tudo mais, darmos "poemas" metade em espanhol, metade em português... "O que é isto??" Sim, estava metido numa realidade paralela. Era muita coisa para assimilar - novos amigos, novo sítio para viver, novas mentalidades, novas pessoas, novos horários, nova escola, novas disciplinas. Foi um ano de mudanças, disso não há dúvida. Como tudo, foi uma questão de hábito. As cantigas tornaram-se uma companhia habitual e revelaram não ser assim tão difíceis de compreender (embora a ideia de chamar ''senhor'' a uma mulher ainda me faça alguma confusão). De resto, pude verificar que Literatura tinha muito a ver com História, o que poderia (e mostrou) ser um ponto a meu favor, visto ser uma disciplina na qual eu tenho alguma facilidade e da qual eu gosto bastante. Em termos de PIL é que nem tudo funcionou tão bem. A ideia de ter prazos de leitura e tudo mais foi algo que nunca me entrou na cabeça. Eu acho que um livro deve ser lido com tempo, sem pressões, pois só desta forma é que conseguiremos tirar maior partido do processo de leitura. Depois, eram as fichas e relatórios e trabalhos criativos e textos de apreciação crítica.... Era tudo e mais alguma coisa!! Já para não falar das mudanças repentinas de trabalhos que a professora propunha que nós fizéssemos, pois cada período era dito para fazermos coisas diferentes. Este ano, porém, tudo - desde testes, matéria e PIL - mostrou-se mais acessível, pois era um meio no qual já estava inserido. Também é de referir que já estávamos a estudar uma fase mais avançada da Literatura Portuguesa, o que, sem dúvida, facilitou um pouco a parte da compreensão e de análise de textos. O Projeto também sofreu algumas alterações, é verdade, mas não foi por isso que deixou de ser mais fácil ou menos trabalhoso. Pessoalmente, acho que este foi o ano em que o PIL se mostrou mais difícil de trabalhar. No ano passado, embora tivéssemos de trabalhar mais, fazendo relatórios e tudo isso que anteriormente referi, acabou por ser mais fácil, pois não existia tanta pressão para finalizar tudo a tempo e horas. O problema do 11º ano, acho eu, é a falta de tempo. Temos tudo e mais alguma coisa com que nos preocupar: as aulas, os testes, os exames, o estudo para os mesmos, as apresentações orais, os trabalhos de pesquisa, os programas e projetos exteriores às aulas que a escola oferece... Queremos (e pensamos que conseguimos) fazer tudo, mas a verdade é que nem sempre acontece como prevemos. Claro que nada disto são desculpas para não conseguirmos fazer o pretendido, pois ''com vontade tudo se faz'', mas o que acontece é que chega a um certo ponto e sentimo-nos cansados, quase sem vontade nenhuma para encarar mais um dia de escola. Pondo esta questão de parte, eu acho que este ano o PIL exigiu um pouco mais de nós. Talvez em termos de calendarização e de rigor (não sendo isto mau de todo, pois prepara-nos para a vida real). Fora disso, achei o Projeto um pouco mais flexível em termos de podermos trabalhar as nossas ideias e interpretações de outras formas que não as tradicionais e definidas, dando-nos assim mais liberdade - e talvez vontade - de ir mais além e de fazer mais e melhor. Considero que o balanço deste ano foi bastante positivo (se calhar até mais do que o esperado!) Vendo bem, Literatura é uma disciplina que, sim, é verdade, dá trabalho, no entanto, pessoalmente, é uma das disciplinas de que mais gosto e pela qual eu estava (e estou) sempre à espera que comece - embora não seja presença assídua logo no início das aulas devido aos atrasos que, infelizmente, já fazem parte da rotina.

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*Relaxa e lĂŞ um livro


Portefólio de Literatura Portuguesa (2013/2014)