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Quinta da Confusão – O nascimento de um império Rés-do-chão: Azul-escuro – Sala; Verde – Cozinha; Laranja – Lareira; Vermelho – Corredor; Azul-claro – Garagem; Rosa – Porta da garagem; Amarelo – Arrecadação \ Despensa; Castanho – Casa de banho; Roxo – Escadas; Cinzento – Passagem para o primeiro andar; Branco – Portas. 1º andar – Verde – Átrio; Vermelho – Armários; Azul-escuro – Quarto dos donos; Laranja – Chaminé; Amarelo – Escritório; Castanho – Antigo quarto dos pais dos donos \ Actual quarto das visitas; Azul-claro – Casa de banho; Cinzento – Passagem para o rés-do-chão; Branco – Portas

A luta durou alguns minutos, até que os animais que tinham ido explorar o andar de cima regressaram. À excepção das duas pistolas encontradas nos sofás todas as armas de fogo da casa dos donos estavam no seu quarto, assim como as munições. O ruído da luta atraíra a atenção dos 5 animais, que foram apressadamente ao andar de baixo com 5 espingardas carregadas verem o que se estava a passar. Quando entraram na sala depararam-se com um cenário inesperado: vários objectos caídos no chão, a mesa e as cadeiras empurradas contra a porta que dava acesso à cozinha, os móveis e os sofás cheios de golpes de espadas e de cadeiras e os 6 animais à luta no meio da sala. Um soldado da Quinta da Perfeição acabara de derrubar um inimigo com um grande vaso quando apareceram os 5 animais armados. Estes não hesitaram em disparar, e os 3 soldados rapidamente foram alvejados e mortos. A Quinta da Confusão tinha vencido aquela luta, mas ainda faltava outra. Um soldado da Quinta da Perfeição vira os 5 animais a descerem as escadas da casa dos donos armados com espingardas (a porta de entrada estava escancarada, e as escadas estavam em frente à porta), e chamou outros 6 companheiros para juntos irem em busca da reserva de armas de fogo da casa. Para não serem vistos, treparam ao 1º andar usando as janelas do rés-do-chão como pontos de apoio, e entraram no andar depois de terem aberto as janelas dos quartos usando as espadas como alavancas. Ainda restavam algumas armas e munições no quarto dos donos, pelo que os soldados pegaram nelas e foram para as escadas. À entrada depararam-se com os 8 animais da Quinta da Confusão, que vinham também buscar as armas que restavam para as levarem para a batalha. Instintivamente, os soldados recuaram até aos quartos: três foram para o antigo quarto dos pais dos donos, outros dois para o escritório e os restantes 2 para o quarto dos donos. Por sua vez, os animais recuaram e deitaram-se nas escadas: a partir da posição onde os inimigos estavam, enquanto não se levantassem não poderiam ser atingidos. O tiroteio começou quando um animal da Quinta da Confusão se levantou e disparou contra a porta do quarto dos donos, achando que havia um soldado atrás dela, baixando-se logo a seguir. Estava errado, e a bala acertou numa janela. Mas os dois soldados que estavam no

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Quinta da Confusão – O nascimento de um império quarto ripostaram, e rapidamente foram seguidos por todos os outros animais que estavam na casa dos donos. Os soldados da Quinta da Perfeição tinham sobretudo pistolas, mais fracas do que as espingardas dos animais da Quinta da Confusão. Mas ambos os tipos de arma eram capazes de matar um animal com uma só bala, e isso foi constatado pelos animais da Quinta da Confusão quando um deles se expôs por demasiado tempo ao fogo inimigo e foi fatalmente alvejado por dois tiros de pistola. Haviam apenas 5 espingardas para 8 animais, pelo que um dos que não tinha nenhuma arma pegou na espingarda do companheiro morto e continuou o tiroteio. As paredes perto das escadas e das portas dos quartos e do escritório, assim como as próprias portas, tinham já bastantes danos à conta dos disparos, mas os animais não paravam de lutar. Um dos animais da Quinta da Confusão, apenas com duas balas, arriscou e disparou quase ao acaso contra o quarto dos donos. Quis o destino que nesse preciso momento os dois soldados que estavam lá dentro se expusessem para disparar contra os inimigos, e ambos foram atingidos e mortos pelas duas balas. Os dois soldados refugiados no escritório viram tudo, e optaram por se refugiar no antigo quarto dos pais dos donos. Arriscando-se a serem abatidos, os dois deixaram o seu esconderijo e correram o mais depressa que puderam, conseguindo alcançar o quarto e juntando-se aos 3 companheiros que estavam lá dentro. Os animais da Quinta da Confusão, com 2 baixas causadas pelo tiroteio, decidiram invadir o quarto e matar os inimigos sem mais demoras, antes que houvessem mais mortes e estragos. Assim, esgueiraram-se para a parede do quarto das visitas e daí tentaram entrar de rompante na divisão, para apanharem de surpresa os inimigos. Mas estes reagiram mais depressa do que o esperado, e o animal que ia à frente do grupo foi abatido assim que cruzou a porta do quarto das visitas. Os companheiros ripostaram ao tiro, e conseguiram fuzilar 3 inimigos. Os restantes dois refugiaram-se na casa de banho, e daí prolongaram o tiroteio com os animais da Quinta da Confusão. Estes, sem nada no quarto que os protegesse das balas, refugiaram-se atrás da ombreira da porta que dava para o átrio e aí responderam ao ataque. Os animais da Quinta da Confusão tinham na sua posse as munições dos donos, pelo que puderam disparar balas atrás de balas, sem pausas, para a porta da casa de banho até os inimigos se exporem para atacar. Com essa estratégia, os 2 soldados rapidamente foram mortos. A ameaça inimiga da casa dos donos fora finalmente vencida. Agora que tinham as armas de fogo na sua posse, os 5 animais sobreviventes dos combates na casa dos donos já as podiam levar aos companheiros. Ainda assim, insistiram primeiro em procurar mais armas. Até esse momento tinham encontrado 8 pistolas, 6 espingardas e munições, mas isso não chegava para os cerca de 150 animais aliados que combatiam no exterior. Acabaram por fazer uma grande descoberta na arrecadação

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Quinta da Confusão – O nascimento de um império (que também servia de despensa): fogos-de-artifício. Todos os anos, na noite de Ano Novo, os donos lançavam foguetes para comemorar a passagem do ano, e todos os 5 animais se recordavam da festa mais recente. Os fogos-de-artifício tinham um grande potencial explosivo, e decerto fariam grandes estragos se fossem lançados contra os alvos certos. Por isso, arranjaram isqueiros para os acender e canos do algeroz partido pelo touro nessa manhã para direccionarem o lançamento. Houve, no entanto, outra coisa que chamou a atenção dos animais: a bilha de gás da casa. Os donos tinham, desde 1955, esgotos e electricidade da rede em casa. Mas, estando isolada no meio do campo e a km da povoação mais próxima, a casa dos donos não tinha fornecimento de gás e de água. A água vinha da ribeira que atravessava a Quinta da Confusão, sem ligação à rede, e o gás vinha das bilhas de gás que os donos compravam. Um dos animais recordava-se de ter espreitado pela janela da sala dos donos (estes, quer sabendo-o quer não, haviam sido constantemente espiados pelos animais durante anos) numa altura em que estavam a comentar uma explosão de gás que se sucedera recentemente. Pelo que o animal se recordava (ainda era irracional quando ouvira a conversa, não lhe dando importância na altura), se uma bilha tivesse uma fuga e se o gás que escapasse alcançasse uma chama, haveria uma grande explosão. Era precisamente isso que os animais queriam, pelo que arrastaram a bilha para a garagem. Mas agora os animais tinham tanta coisa que sem uma carroça não conseguiriam levar tudo para o campo de batalha. E eles não queriam uma simples carroça, queriam algo que fosse mais veloz do que um cavalo para superarem em velocidade todos os inimigos. Assim, abriram a porta da garagem, trouxeram para dentro uma carroça e, com a ajuda de um livro intitulado «Manual de Mecânica», modificaram a carroça para ser mais rápida do que um cavalo. Quando a porta da garagem se voltou a abrir, o veículo que saiu ainda era uma carroça, mas com algumas modificações improvisadas pelos animais inexperientes no campo da Mecânica. Tinha um espantoso total de 10 motores, retirados de 1 máquina de lavar roupa; 1 máquina de lavar louça; 1 máquina de secar roupa; 2 motosserras; 2 máquinas de cortar a relva e 3 ventoinhas eléctricas, todos eles ligados ao eixo de trás. Os motores das ventoinhas ainda tinham as hélices, e estavam voltados para trás para darem impulso à carroça. Como acelerar 10 motores um a um demorava muito tempo, estes tinham sido ligados a uma alavanca que regulava a potência de todos os motores em simultâneo. O eixo da frente tinha sido ligado a um volante, que por sua vez tinha ao pé um velocímetro retirado de uma máquina de cortar a relva. As ventoinhas não funcionavam sem electricidade, pelo que se ligaram os seus motores a uma caixa contendo todas as pilhas encontradas na casa que faria de bateria. Os animais não tinham, no entanto, arranjado travões: era suposto diminuir-se a potência dos motores para abrandar a carroça. Se fosse preciso travar

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Quinta da Confusão – O nascimento de um império mais depressa, duas vassouras empurradas contra as rodas da frente fariam de travões. Para terminar o conjunto, os animais tinham arranjado dois faróis, ligados à bateria improvisada. A bilha de gás fora amarrada ao fundo do veículo, e as armas e os fogos-de-artifício arrumados ao pé dos 5 animais. Para testarem o veículo, os animais acenderam os faróis ligando os seus cabos à bateria e arrancaram. Aparentemente estava tudo a funcionar, o que espantou os próprios animais. Sem qualquer experiência em Mecânica, tinham conseguido fazer uma carroça a motor. Como o veículo estava a trabalhar bem, os animais desligaram as luzes acesas da casa dos donos, fecharam a porta da garagem e regressaram à carroça. Viraram à direita e aceleraram rumo às estufas, onde decorria o combate iluminado pelas tochas postas nas estufas para darem alguma luz. Mas, antes de lá chegarem, depararam-se com as carroças da Casa da Moeda e da feira a seguirem na sua direcção, alguns metros à frente dos perseguidores. Os veículos tinham acabado por voltar à Quinta da Confusão e contornado a ribeira, sempre perseguidos pelos inimigos. Passaram perto do local da batalha, onde foram vistos pelo comandante. Este, com mais 4 soldados, deixou a batalha e tentou alcançar os companheiros, que pararam para o receber. A paragem permitiu às carroças ganharem algum avanço, o que seria vital para o plano feito pelos animais da carroça a motor. Estes, ao verem os 25 soldados a perseguir as carroças da feira e a Casa da Moeda, tiveram a ideia de usar a bilha de gás que transportavam para acabar com os invasores. O condutor da carroça a motor acelerou ao máximo os motores, que deram uma velocidade de 60 km\h. Um cavalo podia alcançar essa velocidade, mas os cavalos dos soldados e das carroças estavam cansados após km de corrida e eram incapazes de cavalgar tão depressa nesse momento. Assim, a carroça a motor conseguiu pôr-se entre as carroças aliadas e os soldados inimigos. Um dos animais que ia a bordo soltou a corda que mantinha a bilha de gás presa ao veículo, e esta caiu no chão e ficou para trás. Imediatamente a seguir, outro animal pegou numa espingarda e deu um tiro na bilha, deixando sair um jacto de gás invisível mas altamente inflamável. Por fim, o animal que soltara a bilha pegou num fogo-de-artifício, acendeu o seu rastilho, colocou o foguete num cano e fez pontaria ao buraco da bilha. Este descolou do cano deixando um rasto de chamas e fumo atrás de si, e voou em direcção ao alvo. Quando a chama do foguete entrou em contacto com o gás, mesmo na altura em que os soldados inimigos passavam pela bilha, deu-se uma enorme explosão que iluminou a noite. Uma bola de fogo surgiu no local onde estava a bilha, seguida de um grande estrondo, e ergueu-se no ar para desaparecer ao fim de alguns segundos. Mas a carroça a motor estava demasiado perto do local da explosão. A madeira do veículo foi atingida por uma fagulha, e rapidamente surgiram chamas nesse local. Os 5 ocupantes do veículo tentaram apagar o fogo, mas este propagou-se para os motores e,

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Quinta da Confusão – O nascimento de um império alimentado pelo seu combustível, tornou-se impossível de apagar sem água. Os animais não tinham água ao seu alcance, pelo que tiveram de evacuar as armas e os fogos-de-artifício e deixar a carroça arder. Apesar da destruição da sua carroça a motor, tinham conseguido levar uma bilha de gás para o local certo à hora certa. Aliados e inimigos correram para o local da explosão, alertados pelo estrondo e pelas chamas, e viram que todos os inimigos que tinham perseguido as carroças da feira e da Casa da Moeda jaziam mortos no chão. Vinte e cinco mortos num único golpe, incluindo o comandante do exército invasor da Quinta da Confusão. Os 30 soldados sobreviventes, sem comandante e sozinhos contra 180 animais, preferiram desertar. A Quinta da Confusão vencera a 3ª Batalha da Quinta da Confusão, e impedira a sua anexação pelo inimigo.

3ª Batalha da Quinta da Confusão • Data: 17:30 – 18:00 do Dia 6 • Local: Quinta da Confusão e arredores • Resultado: Derrota da Quinta da Perfeição; realização do 3º Conselho da Quinta da Confusão • Combatentes: Quinta da Perfeição X Quinta da Confusão • Forças: Quinta da Perfeição – 100 soldados; Quinta da Confusão – 285 animais; 10 carroças; 20 carruagens; 1 carroça a motor • Líderes: Quinta da Perfeição – Cão 20 (morto); Quinta da Confusão – Nenhum • Baixas: Quinta da Perfeição – 70 soldados; Quinta da Confusão – 105 animais; 1 carroça a motor Agora em paz, os animais puderam retomar a sua vida normal. Enterraram os mortos, incluindo os que estavam na casa dos donos, taparam a cratera provocada pela explosão da bilha de gás, devolveram as armas e os fogos-de-artifício dos donos aos sítios onde estavam e retomaram as suas actividades normais. A ribeira por fim voltara aos seus níveis normais, pelo que todos menos os mineiros podiam trabalhar como normalmente. Mas a paz que os animais viviam era temporária: nada garantia que daí a poucas horas não pudesse aparecer outro exército da Quinta da Perfeição, e a Quinta da Confusão poderia não ser capaz de voltar a vencer o combate. Além disso, havia outro pormenor até aí ignorado pelos animais: eles consideravam a Quinta da Confusão como uma quinta, mas não a consideravam um estado. Com a 3ª Batalha da Quinta da Confusão, os animais perceberam que, para a Quinta da Perfeição, a Quinta da Confusão era um estado, um país animal. Um país

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Parte XXXI  

Parte XXXI de «O nascimento de um império»

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