Issuu on Google+

Quinta da Confusão – O nascimento de um império estação de Quinta da Perfeição – Mina de Carvão. A linha contava já com 400 metros de comprimento, pelo que decerto não faltaria muito tempo para isso. A construção estava a avançar a um bom ritmo, e os cientistas esperavam que daí a 1 ou 2 horas alcançassem o fim provisório da linha. Quando acordaram, os soldados da Quinta da Confusão foram autorizados pelos comandantes a voltarem aos seus antigos trabalhos, de onde retirariam os seus rendimentos. Assim, os quartéis ficaram temporariamente vazios. Mas, para os soldados se manterem treinados, estes acabaram por ser convocados para um treino militar de duas horas a norte da Quinta da Confusão. O cavalo 3 e o porco 30 sabiam a importância do treino, descrita pelos donos enquanto conversavam entre si sentados no sofá a ver televisão, pelo que não hesitaram em esforçar os soldados, leválos a correr e a combater até ao cansaço. Agora, 13:00, os animais regressavam aos quartéis para descansarem e para ouvirem os seus comandantes. Isso porque, enquanto os soldados trabalhavam nas suas antigas profissões, o cavalo 3 e o porco 30 reuniram-se com os Comandantes da Infantaria, da Artilharia e da Cavalaria para debaterem uma questão: a pólvora. O grupo entendera que o explosivo era o futuro das Forças Armadas da Quinta da Confusão, mas estas não possuíam nenhuma pólvora. O único carregamento que usaram na sua história fora gasto na Guerra contra a Herdade dos Ovos, e desde então as Forças Armadas não tinham arranjado mais pólvora. Assim, os comandantes decidiram que a Artilharia deixaria de usar arcos e flechas e passaria a usar cilindros de pólvora para atacar os inimigos. Já a Infantaria e a Cavalaria, assim como a Marinha, passariam a usar uma arma à base de pólvora que foi o principal motivo pelo qual todos os soldados foram convocados ao quartel do Exército. Lá, os comandantes expuseram o problema aos soldados. Sugeriram-lhes que, enquanto trabalhassem, fossem pensando numa arma à base de pólvora para substituir a espada. Logo os soldados pensaram nas armas de fogo dos donos, usadas na 3ª Batalha da Quinta da Confusão com sucesso contra os animais da Quinta da Perfeição. Assim, estes abandonaram o quartel e começaram a pensar em como fariam as armas. Rapidamente alguns esboços foram feitos, mas de momento nada definitivo foi criado. Ainda se levaria algum tempo até se chegar à arma.

14:30 Habitantes: 590 Dois dias e uma hora após a partida dos 3 cartógrafos da Quinta da Perfeição, a carruagem onde estes e os animais que naufragaram no Douro viajavam alcançou a Herdade dos Ovos. Se os 3 cartógrafos viajassem sozinhos, estes contornariam a quinta por acharem que esta ainda era um

251


Quinta da Confusão – O nascimento de um império país independente. Mas os acompanhantes, ao verem a quinta, calcularam que a Quinta da Confusão tivesse vencido a Guerra contra a Herdade dos Ovos (o seu navio passara pela quinta durante os últimos combates da guerra) e que a tivesse ocupado. Assim, os 3 cartógrafos optaram por terminar a sua longa jornada na Herdade dos Ovos, a mais recente anexação do Império da Quinta da Confusão. Estes dirigiram-se à feira da quinta (tiveram que a procurar, por não saberem onde esta ficava) e puseram cópias dos seus mapas à venda. O que os três animais não sabiam era que a história do seu desaparecimento correra o império. O director da feira não a conhecia por ter vindo da Herdade dos Ovos, mas dois clientes reconheceram os animais pela descrição que corria deles. Estes perguntaram-lhes de imediato por onde tinham andando, e quando os cartógrafos saíram da feira outros animais também os questionaram. Assim, perante uma audiência que acabou por ser de dezenas de animais, os 3 cartógrafos contaram a história da expedição que os tornara famosos: «Quando saímos da Quinta da Perfeição dirigimo-nos para este, evitando a Quinta da Confusão que nessa altura ainda tinha os touros [os animais que naufragaram contaram aos 3 cartógrafos o que acontecera no império durante a sua ausência], e logo a seguir virámos para norte. Já que conhecíamos parcialmente Carrazeda de Ansiães, fizemos questão de a explorar até ao fim. Fomos para Carrazeda de Ansiães, e acabámos por andar por ali explorando o concelho enquanto seguíamos para norte. Depois de andarmos algumas horas, já de noite, encontrámos um marco que delimitava o concelho de Carrazeda de Ansiães18. Para lá dele seguiase um novo concelho, o de Vila Flor. Antes de entrarmos nesse concelho explorámos o limite norte do concelho de Carrazeda de Ansiães, e acabámos por dormir na carruagem sem entrarmos no concelho de Vila Flor. No dia seguinte lá explorámos todo o concelho, desde as aldeias aos limites. O que há para dizer sobre ele? Não muito, é apenas um concelho perfeitamente comum. Não difere muito de Carrazeda de Ansiães. Pois lá pela tarde, quando acabámos de cartografar o concelho de Vila Flor, regressámos ao concelho de Carrazeda de Ansiães para explorarmos o seu limite este, que era a única coisa que nos faltava desse concelho. A este, Carrazeda de Ansiães faz fronteira com o concelho de Torre de Moncorvo, para onde fomos a seguir. Entrámos nesse concelho pelo sudoeste, junto ao Rio Douro, e visitámos aldeias como Lousa, Cabeça Boa e Foz do Sabor19. Marcos fictícios. Os únicos marcos que surgem a delimitar divisões administrativas em Portugal são os das fronteiras. 18

Estas povoações são reais, e situam-se no sudoeste do concelho de Torre de Moncorvo. 19

252


Quinta da Confusão – O nascimento de um império Esta última povoação fica junto ao sítio onde um novo rio que descobrimos, o Rio Sabor, desagua no Rio Douro. Continuámos a explorar aquela parte do concelho de Torre de Moncorvo, que ficava a oeste do Rio Sabor, até já não haver mais nada para descobrir. Nesse processo tínhamos descoberto uma ponte, inserida numa estrada intitulada N102, que cruzava o Rio Sabor. Atravessámos o rio aí, e como vimos um marco quilométrico a dizer que estávamos perto de Torre de Moncorvo permanecemos na estrada até chegarmos à vila. Uma coisa que vale a pena destacar é que Torre de Moncorvo tem um castelo, à semelhança de Vila Flor [os animais sabiam o que eram castelos devido às informações dadas involuntariamente pelos donos]. Só restavam secções das muralhas, mas ainda assim fomos ver de perto as ruínas da fortaleza. Depois disso, deixámos Torre de Moncorvo e fomos explorar o concelho, tal como fizemos em Vila Flor. A este de Torre de Moncorvo ficava o último concelho que explorámos nesta viagem, o de Freixo de Espada à Cinta. Como pudemos constatar, era um concelho estreito e comprido, situado no canto sudeste do distrito de Bragança. Mais uma vez, não há muito a dizer sobre esse concelho. Mas aí descobrimos que o Rio Douro, que até aí ia para este, passava a seguir para norte. E, para lá dessa parte do rio, ficava um novo país: a Espanha. Não descobrimos muito sobre essa nação, para além de descobrirmos que tinham uma língua diferente do português que é o espanhol, até porque nem chegámos a cruzar o Douro. A nossa viagem decorreu apenas no sul do distrito de Bragança. Pois o troço do Rio Douro partilhado entre Portugal e Espanha tem o nome de Douro Internacional, e foi no seu começo, junto à tríplice fronteira entre os distritos de Bragança e Viseu e Espanha, que passámos a noite. Não chegámos a encontrar o outro extremo do Douro Internacional, que continuava para lá do concelho de Freixo de Espada à Cinta. No dia seguinte, acordámos cedo. Era ainda noite, não deviam ser mais do que 6 da manhã. A única coisa que faltava para explorar os 4 concelhos aonde fomos na totalidade era cartografarmos o curso do Rio Douro a oeste do Douro Internacional, pelo que partimos nessa direcção. Após alguns minutos de viagem, encontrámos uma grande construção que bloqueava o curso do Douro que tinha o nome de barragem20. O desnível entre a água de um lado e a água do outro era impressionante, nunca tínhamos visto nada assim. A barragem fica 40 km a este da Quinta da Confusão. Logo a seguir ouvimos um estrondo longínquo e um clarão no horizonte, no Rio Douro. Algumas centenas de metros depois deparámo-nos com os animais que vieram connosco, molhados como se tivessem nadado no rio. E tinham mesmo. Eles contaram que tinham levado um navio da Quinta do Douro até 20

A barragem citada pelos 3 cartógrafos é fictícia.

253


Quinta da Confusão – O nascimento de um império ali, onde acabaram por encalhar. No dia seguinte, ou seja hoje, tentaram acender a sua caldeira. Mas a chaminé estava bloqueada com gelo, pelo que a pressão foi tanta que o navio explodiu e se afundou. Depois disso não há grande coisa a dizer. Chegámos ao Rio Sabor, atravessámo-lo na ponte que já tínhamos usado antes e continuámos a cartografar o Douro até aqui». Ao todo, os 3 cartógrafos tinham percorrido cerca de 400 km na sua jornada, que resultara na cartografia perfeita dos concelhos de Carrazeda de Ansiães, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta. Quando a descrição dos 3 cartógrafos terminou, um dos ouvintes perguntou «E agora, o que vão fazer?». Os cartógrafos responderam «Continuar a explorar. Mas não por agora». Dito isto, subiram para a carruagem que os acompanhara na viagem e começaram a andar em direcção à Quinta da Perfeição, onde trabalhavam antes da jornada. Enquanto isso, os mapas detalhados feitos pelos três foram rapidamente comprados por fabricantes de instrumentos, que se apressaram a copiar repetidamente os mapas que desvendavam o que havia naquela região para os venderem.

Ilustração 25 – Percurso da viagem efectuada pelos 3 cartógrafos entre os Dias 7 e 9, excluindo os constantes desvios do percurso geral. Legenda: Amarelo – Concelhos abrangidos pela viagem dos 3 cartógrafos, da esquerda para a direita: Carrazeda de Ansiães, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta; Verde – Quinta da Perfeição, início da viagem; Vermelho – Herdade dos Ovos, fim da

254


Quinta da Confusão – O nascimento de um império viagem; Branco – Concelhos do distrito de Bragança não abrangidos pela viagem; Cinzento-claro – Espanha; Cinzento-escuro – Concelhos de outros distritos; Laranja – Capitais de concelho; Azul-turquesa – Percurso efectuado no Dia 7; Azul – Percurso efectuado no Dia 8; Azulescuro – Percurso efectuado no Dia 9. Nota: Em virtude de as localizações exactas da Quinta da Perfeição e da Herdade dos Ovos não existirem, apresentam-se no mapa localizações aproximadas.

Ao fim de 6 horas e meia de trabalho, a Linha Azul alcançou o local onde seria construída a estação de Quinta da Perfeição – Mina de Ferro. Assim, os trabalhadores construíram a agulha do final da linha, puseram as tábuas de madeira a delimitar as linhas ferroviárias e começaram a construir a estação de Quinta da Perfeição – Mina de Ferro. Enquanto trabalhavam, os cientistas começaram a debater o assunto da gestão da Linha Azul. Quem iria garantir que os comboios cumpriam os horários, contratar e pagar aos trabalhadores, entre outras coisas? Foi então que um animal se voluntariou para ser ele o responsável. Este disse que desde a fundação da Casa da Moeda e da feira da Quinta da Confusão que queria também ter uma empresa, mas que até esse momento não encontrara um momento oportuno para a fundar. A questão da gerência da Linha Azul era o momento ideal para o animal fundar então a sua empresa. Este arranjou então os trabalhadores que achava necessários: 2 maquinistas, um para cada sentido da linha; 2 revisores para verificarem se os passageiros tinham bilhete e para fecharem e abrirem as portas; 2 outros animais que viajavam na carruagem das mercadorias para ajudarem ao embarque e desembarque de cargas e por fim 4 animais para ocuparem as bilheteiras. Depois de contratados os trabalhadores, que seriam pagos no final do dia, o animal foi para ao pé da Estação da Quinta da Perfeição e montou lá um pequeno barracão com uma porta, por cima da qual colocou uma placa a dizer «TFQC – Transportes Ferroviários da Quinta da Confusão». A sede temporária da empresa, até se arranjar um edifício maior para ser a sede definitiva. Sem nada para fazer na sede da TFQC, o director da empresa voltou então para junto dos construtores da Linha Azul e continuou o trabalho. Estava fundada a TFQC, pela acção de um animal empreendedor. A 6ª empresa a ser fundada no império, a seguir às três feiras, à indústria das uvas e à Casa da Moeda da Quinta da Confusão. Uma hora e meia depois de os comandantes militares da Quinta da Confusão terem lançado o desafio, um grupo de 3 soldados empunhando algo tapado por peles (as feiras vendiam peles que eram usadas como mantas pelos animais) apresentaram-se no quartel do Exército. Entraram na camarata onde os comandantes conversavam entre si e cumprimentaramnos com uma continência. Depois, disseram «Senhores comandantes, eis a

255


35-O regresso dos 3 cartógrafos