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SIGNA O estudo do papel das redes sociais

na formação do sujeito político e nos movimentos sociais contemporâneos e uma proposta alternativa às relações digitais convencionais

MIDORI HAMADA


SIGNA O estudo do papel das redes sociais na formação do sujeito político e nos movimentos sociais contemporâneos e uma proposta alternativa às relações digitais convencionais

MIDORI HAMADA ORIENTADA PELA PROFA DRA. MARIA BEATRIZ RUFINO

trabalho final de graduação em arquitetura e urbanismo universidade de são paulo

‘ FAUUSP dezembro de 2019


AGRADECIMENTOS À Rosana, pelo companheirismo e parceria recriado entre mãe e filha, e agora entre amigas. Ao Mario, pelo apoio inquestionável. Ao Kendy, pela parceria no mosh e no corre. Ao Alê, por ter alimentado a minha rebeldia com livros e paciência. À Carol, por ter sempre me acolhido e protegido. Aos meus amigões Lu, Ched, Ju, Clara, Ota, Juca, Bob, Alina, Merréco, Marilis e Mat, por me ensinarem que o melhor de nós é o que fazemos juntos. Às bruxas Bah, Deb e Fab, pelas palavras em feitiços, pelas luas celebradas, e pelo cuidado selado. Em especial, à Nat, companheira de TFG na busca pela coerência e autocrítica. Á Lore, pelas discussões que alimentaram esse trabalho, pelas leituras cruzadas e pela companhia conspiradora e rebelde de cada dia. À Eunice, Ricardo e Edgar, do CESAD, por terem recebido minhas dúvidas e meus projetos georreferenciados com tanto carinho e incentivo. À professora Beatriz Rufino e ao professor Paulo César Xavier, por terem me oferecido espaços de debate tão estimulantes e sempre abertos às minhas perguntas. Ao Calixto, rei do design, que transformou este trabalho de um zine punk para uma publicação de respeito. Ao Seu Nelson, que me pergunta desde 2013 quando é que eu vou me formar. E às mulheres anarquistas que me inspiram todos os dias à celebrar a rebeldia.


SUMÁRIO 1. Introdução e justificativa p.9 2. Análise do uso das redes sociais na organização e articulação de movimentos sociais contemporâneos

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2.1. Movimentos sociais contemporâneos 2.1.1. Primavera Árabe 2.1.2. Jornadas de Junho 2.1.3. The revolution of our times 2.1.4. Revolución de los 30 pesos

2.2. Análises

3. As redes sociais como negócio p.65 4. A SIGNA p.77 4.1. A SIGNA como proposta 4.2. A SIGNA como projeto 4.3. A SIGNA como conceito 4.4. Referências 4.5. A SIGNA como rede social 4.6. A SIGNA e sua autonomia

5. Comentários finais p.95 6. Notas e referências p.101 7. Bibliografia p.111


1. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA

“Meu otimismo é baseado na certeza de que esta civilização está prestes a entrar em colapso. Meu pessimismo está nas coisas que estão nos levando a queda.”* * “My optimism is based on the certainty that this civilization is about to collapse. My pessimism lies on the things that are dragging us down in its fall”, On Modern Servitude.

Após sete anos de formação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, apresento como Trabalho Final de Graduação (TFG) a pesquisa sobre o papel das redes sociais na formação do sujeito político no mundo contemporâneo e concluo apresentando a SIGNA como alternativa às relações digitais existentes. A SIGNA é uma rede social, com versão web e versão mobile, onde será possível georreferenciar chamadas de projetos no território, e encontrar colaboradores para construir vontades coletivas na cidade. Este trabalho está estruturado de modo a apresentar a pesquisa sobre as redes sociais e seu uso como ferramenta política; as lógicas que operam as redes sociais convencionais e por fim, a apresentação da SIGNA. A coerência da proposição e desenvolvimento de um projeto digital e imaterial como a SIGNA dentro do curso de arquitetura e urbanismo se justifica através do meu percurso na graduação e das pesquisas guiadas pela curiosidade e indagações pessoais ao

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longo da formação acadêmica. Meu ingresso na universidade pública foi marcado por dois fatores: a crença na possibilidade de justiça social e espacial por meio da educação e luta política, e a convicção no poder de transformação do conhecimento acadêmico. Hoje, entendo esse como o primeiro passo do meu aprendizado. Desde o primeiro ano tive a oportunidade de trabalhar com proximidade de realidades sociais e urbanas, permitindo que a sensibilidade me apontasse quais as experiências, relações e comportamentos eu reconhecia como justas, frutíferas e construtivas e quais me incomodavam pelo descolamento entre discurso e prática. Ao passo que as discussões se complexificavam, as relações e processos de decisão política sobre a construção da cidade e reprodução dos modos de vida se mostravam distantes do conhecimento elaborado na academia, e principalmente distantes da possibilidade de decisão social e coletiva. Diante do desconforto em reconhecer quais as barreiras entre o lugar de produção crítica e a construção efetiva da existência social, busquei perspectivas de luta social e urbana para além da universidade. A cada nova experiência e contato imediato com lutas urbanas, a crítica que apontava para a acadêmia também foi direcionada à minha própria atuação profissional e pessoal. Me desconstruí marxista e hoje me afirmo anarquista. E temo que isso tornou a mim e ao meu discurso um tanto radicais. Fica aqui a ressalva. Das grandes experiências sociais de organização e construção coletiva de vontades sociais, advindos do meu percurso acadêmico e militante, pude tirar importantes lições e reflexões sobre a transformação de realidades sociais quando operada pelas próprias

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pessoas. E independente das múltiplas dinâmicas, estratégias e conflitos que diferem tais experiências, elas podem ser comparadas quanto a resposta violenta, institucional e financeira, que recebem do sistema estabelecido. Seja falando da lógica de funcionamento de grandes operações urbanas e outros instrumentos urbanísticos, da remoção forçada de populações precarizadas, da criminalização de experiências habitacionais - como o Cajueiro Seco em Pernambuco ou os movimentos por moradia em São Paulo -, de transformações espaciais gentrificadoras, e até mesmo dos processos de decisão política. Estamos falando de um mesmo modo de operar o controle monopolista e exploratório do território e das pessoas que o ocupam. Nesse sentido, pensando nos processos e atores da transformação espacial, critico a disciplina do planejamento urbano que se realiza como instrumento de ordenação capitalista do espaço. Por isso não me reconheço no título oficial da profissão. Tal forma de atuação sobre o território é uma das formas existentes -, e também a forma hegemônica do poder criar áreas interessantes para o capital investir e imprimir dinâmicas sociais que sustentem o modo de produção exploratório. No entanto, tive o privilégio de encontrar na FAUUSP espaço fértil para a construção crítica da minha atuação como detentora de conhecimentos e ferramentas específicas, teóricas e práticas. Ao invés de viabilizar a determinação de realidades espaciais segundo lógicas autoritárias, trabalhos como os realizados por alguns professores acadêmicos e profissionais em conjunto com movimentos sociais são exemplos das práticas profissionais possíveis no campo da disputa pelo território. Compartilhar conhecimento, viabilizar projetos democráticos legal e tecnicamente, instrumentalizar a população de

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forma a promover autonomia de pensamento, de organização e de construção. Estas são as atuações que reconheço como coerentes e justas por operarem de forma horizontal nas relações entre os envolvidos ao mesmo tempo em que promove autonomia de pensamento e de construção social. Não acredito numa receita social pronta a ser implementada, não acredito em projetos urbanos de grande escala que ignoram realidades cotidianas, não acredito na determinação das dinâmicas espaciais centralizadas em figuras de autoridade institucional. Não acredito nem defendo a construção da cidade a partir de idealizações burguesas e de fetichismos do cenário urbano segundo o imaginário capitalista europeu. Mas acredito na construção coletiva do espaço e das relações sociais que o permeiam, partindo da interação e organização política dos habitantes das cidades. Diante da dificuldade quase impeditiva de realização da vontade social, tanto no espaço quanto na política , me lancei na pesquisa de reconhecer quais os fatores que se colocam como entraves para a construção da cidade e da vida segundo princípios democráticos, e quais os instrumentos usados para desarticular e desmantelar iniciativas libertárias que não contemplam programas neoliberais. Com libertário, quero assinalar movimentos, ações e relações sustentadas por princípios de liberdade, construção de autonomia, livre associação, liberdade de expressão, autodeterminação e de responsabilidade individual sobre o bem-estar coletivo. Princípios opostos à ideologia capitalista. Do meu processo de aprendizado, faço uma leitura de cinco discussões que acredito serem essenciais para qualquer possibilidade de transformação efetiva

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1. Tal formato de governo ainda se encontra validado mesmo que impactado por discursos neoliberais. Ao mesmo tempo em que a globalização relativiza as escalas de poder e controle dos Estados-nação sobre as trocas capitalistas e a crescente necessidade de mobilidade do capital financeiro. 2. Abdullah Öcalan, 1948, Confederalismo Democrático, tradução Coletivo Libertário de Apoio a Rojava, Rio de Janeiro, Rizoma, 2016., p.18.

da realidade, das relações sociais e da lógica urbana. As quatro primeiras são necessárias para ilustrar o campo de conhecimento que uso para organizar e sustentar meus valores e minha atuação pessoal e profissional. A quinta discussão é o objeto de estudo desta pesquisa, a questão central para qual meu trabalho se volta. A primeira discussão parte da crítica à formação e estruturação do Estado-Nação e ao planejamento urbano como legitimadores do sistema de exploração capitalista através da ordenação do espaço urbano onde se operam as explorações. Entendo o Estado-nação1 como um pilar da organização do sistema capitalista, analisando-o através de seu desenvolvimento desde o começo da Revolução Industrial, “por um lado, com a acumulação não regulada do capital e, por outro, com a exploração sem obstáculos de uma população em rápido crescimento”2. Com a estruturação da classe burguesa e o crescimento do seu poder financeiro, o Estado-nação surge como substituto à ordem feudal, às estruturas tribais e a lógica dos direitos herdados. Com essa transformação, o espaço que até então era monopólio de elites religiosas ou aristocráticas, é inserido no circuito produtivo do capitalismo. A terra, agora conformada em propriedade privada, é passível de ser vendida, comprada e de recolhimento de renda através do título de propriedade. Quem oficializa e legitima a propriedade, o título e o mercado é o Estado. Do mesmo modo, o controle do espaço e da conformação física das cidades é ditada de acordo com interesses logísticos e estratégicos do capital, legitimados pela autoridade do Estado. A nação como conceito, por sua vez, surge como proposta identitária homogênea na conformação do

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território nacional. A necessidade de diluir a heterogeneidade social vem acompanhada dos movimentos de silenciamento e destruição cultural e étnica que foram operados em nome de uma sociedade unitária imaginária. O nível de controle do Estado-nação revela a condição monopolizadora do sistema capitalista operado através deste agente. A concentração da regulamentação, legitimação, e operação de destruição e construção material e social na figura do Estado são sinais do monopólio sobre as instâncias de regulação da vida. “Mas, sobretudo, o Estado-nação deve ser pensado como a forma máxima de poder. Nenhum dos outros tipos de Estado tem tal capacidade de poder. Uma das principais razões disso é que a parte superior da classe média esteve conectada ao processo de monopolização de maneira crescente. O Estado-nação em si é o monopólio mais completo e elaborado. É a mais desenvolvida união de monopólios como o comércio, a indústria, as finanças e o poder. E é preciso pensar também o monopólio ideológico como parte indivisível do monopólio do poder.”3 Seja através do seu controle centralizado sobre as conformações físicas e infra estruturais das cidades, seja através da expansão das responsabilidades do Estado em subscrever os custos da acumulação de capital4. Em todos os sentidos, seu posicionamento e ação se voltam para a sustentação da lógica imposta pelo urbanismo capitalista5. Nesse cenário, o papel do planejador urbano ou urbanista é guiado pela lógica financeira da construção da cidade e dividido entre a realização técnica da disciplina em organizar os modos de produção

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3. Öcalan, Abdullah, 1948, Confederalismo Democrático, tradução Coletivo Libertário de Apoio a Rojava — Rio de Janeiro : Rizoma, 2016., p.18. 4. “O Estado promove a acumulação de capital em uma escala além da qual sua produção pode ser absorvida (a preços cartelizados) pela demanda privada; e, portanto, o capital depende do Estado para dispor desse excedente.”Tucker, Benjamin, State Socialism and Anarchism, Liberty, 1888. 5. Stephen Schecter, A política da Libertação Urbana, Sementeira, Lisboa, 1947, p.30.


material e social, ou a militância interna ao aparelho do Estado como forma de “resistir por dentro” aos planos e projetos capitalistas para as cidades. Com cuidado, quero pontuar meu posicionamento acerca do profissional urbanista que opera segundo a lógica da máquina estatal. Acredito que aquele que está viabilizando intenções capitalistas diretamente e operacionalizando a transformação da cidade, sem qualquer relação com a promoção de autonomia e representatividade política para as populações urbanas é responsável pelo avanço capitalista sobre o espaço e sobre a exacerbação dos conflitos sociais e espaciais. Reconheço a atuação do profissional com atuação de base junto à movimentos sociais - exemplo do trabalho hercúleo de amigos profissionais na Prefeitura do Município de São Paulo - no esforço de estender o canal institucional à população e implementar processos de decisão participativa sobre o território. Em sua grande maioria, tais iniciativas são sustentadas pela motivação pessoal, sendo frutos do empenho voluntário do urbanista militante. Exemplos disso são as audiências públicas e processos participativos para a elaboração do Plano Diretor Estratégico de São Paulo (2014) e o trabalho em conjunto com movimentos de moradia e ocupações na cidade, seja em forma de militância, instrumentalização e consultoria técnica e legal. Porém, mesmo diante de ganhos sociais significativos através da luta e militância de profissionais, acadêmicos e da sociedade civil organizada, não é possível confiar plenamente na capacidade do Estado em operar transformações sociais efetivas. A descontinuidade nas políticas públicas devido à disputas partidárias e a mudança de discurso e tratamento dos movimentos sociais segundo interesses pessoais dos atores políticos, reforçam a crítica à atuação do Estado como

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agente de promoção de processos democráticos. Enquanto a continuidade e manutenção de uma agenda social depender de vontades individuais e de iniciativas espontâneas, sem a criação de mecanismos de controle social sobre o governo, nenhuma mudança social terá garantia de persistência. A segunda discussão se volta para o principal instrumento de destruição e desarticulação de qualquer alternativa de produção, vida e construção para além da lógica capitalista. O monopólio da violência por parte do Estado, e o seu uso para o controle autoritário das relações sociais e espaciais é o principal instrumento para a eliminação de qualquer possibilidade de mudança. Quanto às relações sociais que menciono, entendo-as como formas de interação e organização social que conformam a vida cotidiana e são reflexos de dinâmicas globais. Relações sociais de colaboração, autodeterminação, organização, autonomia e solidariedade são certamente destruídas quando chegam a ameaçar o sistema capitalista, seja diretamente ao quebrar algum de seus monopólios, seja por sua simples existência comprovar a possibilidade de alternativa. Aponto o Estado como elemento estruturante da operação exploratória capitalista a partir da manutenção de relações autoritárias de exploração, subordinação e espoliação6. A violência cotidiana, racista, machista, fascista e homofóbica, a estruturação de guerras, repressão policial, o assassinato e aprisionamento injustificável de pessoas participantes em movimentos sociais, além da lógica do encarceramento em massa de um sistema prisional racista e classista. Todos meios legitimados de silenciamento e implosão de vontades sociais coletivas e de um controle higienista da sociedade.

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6. Devon Douga Bowers and Colin Jenkins, Violence, Counter-Violence, and the Question of the Gun, Social Movement Studies, Analysis, The Hampton Institute, 2016.


7. ŞOREŞA ROJAVAYÊ: Revolução, uma palavra feminina, Biblioteca Terra Livre e Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo, 2016.

Ao passo em que se faz necessário discutir com seriedade o monopólio da violência pelo Estado como instrumento de ataque, eu pontuo a necessidade de se discutir a violência como instrumento de defesa. Acredito que enquanto não formos capazes de nos defender, defender nossos espaços, modos de vida, relações sociais, práticas produtivas, mentes e corpos, não seremos capazes de defender ideais libertários e democráticos. A violência como defesa é perspectiva do movimento curdo segundo seu líder ideológico Abdullah Ocalan, que sustenta que para além de alcançar ideais democráticos e autônomos, devemos ser capazes de defendê-los contra o surgimento do poder centralizado e da estatidade7. Um exemplo disso é a formação do exército feminino do movimento curdo, em 1993. O movimento sustenta que a primeira forma de desigualdade operada no mundo patriarcal é a desigualdade de gênero e a submissão da mulher, e que é também o primeiro passo da libertação humana de todo tipo de exploração. Ao compreender que o primeiro inimigo de uma mulher é o homem, o exército feminino surge não apenas como articulação da força de defesa dos abusos autoritários dos homens quanto também introduziu novas condições para a construção do movimento junto aos povoados e comunidades. As mulheres, além de proteger o território no conflito armado, também criaram pontes de sociabilidade entre as pessoas e a extensão dos aprendizados revolucionários para além do momento de confronto. Analisando a lógica monopolista do sistema capitalista, a violência não é o único instrumento de controle social. O monopólio sobre todos os recursos necessários para a sustentação e reprodução da vida garante a manutenção da dinâmica de ex-

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ploração. A propriedade privada da terra, dos recursos naturais que nela se encontram, da moradia e seu acesso socialmente determinado, além de garantir o controle sobre o acesso à esses recursos - como água, energia, terra cultivável - tem também o poder de deformar, inundar, cercar e contaminar grandes porções do território. “Nos anos 2000, em Cochabamba (Bolívia), a população derrotou a privatização da empresa responsável pelo abastecimento de água (SEMAPA). Os cochabambinos sofriam com a escassez d’água há muitas décadas, oriunda da sua própria geografia e do descaso dos gestores públicos. Por anos, não houve investimento adequado para ampliação da infra-estrutura e nem para captação alternativa de água. Dessa forma, a população acostumou-se a buscar autonomamente soluções para a escassez. Sob pressão do Banco Mundial e do FMI, o governo de Cochabamba, com apoio da administração federal, decidiu privatizar a SEMAPA. E para assegurar o monopólio aos interesses privatistas, aprovou uma Nova Lei de Águas que, entre outras coisas, determinava a exploração da água como um direito privado. Após uma intensa luta que uniu a população do campo e da cidade, os cochabambinos - sob a liderança da Coordenadora de Águas de Cochabamba - conseguiram reverter a privatização e revogar a nova lei, um feito inédito na América Latina”8 . Belo Monte também é exemplo. O empreendimento deslocou mais de 10 mil famílias para instalação de sua infraestrutura e reservatório. O plano de mitigação de impactos pressupunha a realocação dessas famílias

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8. Nathalie Drumond, A guerra da água na Bolívia: A luta do movimento popular contra a privatização de um recurso natural, Revista Nera – Ano 18, Nº. 28 – Dossiê 2015.


9. Relatório sobre os direitos da população atingida pela implementação da usina hidrelétrica de Belo Monte e da Mineradora Belo Sun, Conselho Nacional dos Direitos Humanos - CNDH, 2017. Kena Azevedo Chave, Mario Monzoni, Letícia Ferraro Artuso, UHE Belo Monte: reassentamentos rurais, participação social e direito à moradia adequada. Rev Direito GV, Vol 15 n.2 São Paulo, 2019. 10. Margaret Robinson, Nativas Feministas Comem Tofu, Coisa Preta, 2017. 11. Andrew Jacobs and Matt Richtel, Como a Grande Indústria Viciou o Brasil em Junk Food, NY Times, 2017.

em novas áreas recém urbanizadas. No momento do licenciamento para funcionamento da usina hidrelétrica, o IBAMA assim como o Conselho Nacional de Direitos Humanos, apresentou relatórios indicando a falta de participação popular, e múltiplas violações nos direitos humanos e nos códigos ambientais. Para ilustrar o cenário, as famílias removidas, de suas casas, culturas e produções, foi reassentada em novos bairros recém construídos e que contaria com sistema de saneamento básico graças a instalação de estações de tratamento de esgoto. As casas e as estações de tratamento foram construídas, mas não conectadas9. A indústria alimentícia, o monopólio genético de espécies cultivadas, e a cultura de consumo de comidas industrializadas garantem nossa dependência ao sistema. A expulsão da etnia indígena Mi’kmaq de seu território originário, hoje parte do Canadá, e a transformação de sua da cultura alimentar é exemplo disso. A partir da colonização, e com um longo percurso de exclusão e marginalização, a proibição da caça e da monopolização de áreas cultiváveis tornou a população Mi’kmaq em consumidores da indústria de alimentos. Hoje boa parte da população enfrenta problemas como diabetes, obesidade e pedras rim10. Outro exemplo foi a presença do barco supermercado da Nestlé em regiões amazônicas, prometendo geração de emprego no porta-a-porta e acesso ao desenvolvimento. Além de aumentar em mais de 25% o número de pessoas obesas, hipertensas e com diabetes nessas regiões, também contribui para a geração de lixo sem o devido tratamento do plástico das embalagens. O que foi chamado de inovação em comércio pode ser visto como a captura de um mercado precarizado e distante e a transformação nos hábitos alimentares das populações11.

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Por sua vez, o monopólio sobre corpos femininos, seu trabalho não pago como reprodutoras e mantenedoras do protagonismo masculino e o impedimento da autodeterminação da mulher sobre sua capacidade reprodutiva, garante a subordinação da mulher ao domínio do homem, ao mesmo tempo em que viabiliza a reprodução gratuita da força de trabalho explorada12. A discussão sobre monopólios capitalistas não é nova13 , no entanto, parece distante dos espaços de reflexão e de luta social acadêmicos e nos movimentos influenciados pela universidade. Acredito que para qualquer mudança efetiva, devemos nos debruçar primeiramente na construção de possibilidades de autonomia em relação às relações que nos aprisionam e nos assassinam. Este é um princípio libertário. Dentro da estrutura da lógica capitalista - da concentração de monopólios e do uso destes como forma de manutenção da exploração - as relações íntimas que constituíam a formação social e cultural são, e a cada dia mais, substituídas por relações comerciais do indivíduo com o mercado. As populações urbanas são completamente dependentes de “artefactos sociais para a satisfação de suas necessidades14”, se distanciando de relações humanas ao ponto em que se busca no mercado a realização de todas as vontades e necessidades, físicas, mentais e emocionais. Quem pode, paga por tudo. Por moradia, por alimentação, por transporte, por educação, por formas comerciáveis de amor, por suporte emocional na sala de um psicólogo, por lazer na embriaguez. Enquanto consumimos nossas necessidades em forma de produtos, nos vemos presos por mais de 10 horas diárias em atividades laborais que também nos consomem e nos impede de manter a saúde e o sentido da própria vida.

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12. Silvia Federici, O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, Editora Elefante, 2019. 13. Pierre-Joseph Proudhon, The System of Economic Contradictions, The Marxists Internet Archive, 1847. 14. Harry Braverman, Labor and Monopoly Capitalism: The degradation of work in the Twentieth Century, p.276-277, Monthly Review Press, 1974.


15. Edward O. Wilson, A conquista social da terra, Companhia das Letras, 2013.

Tenho construído a percepção de que eu, como ser humana, tenho necessidades emocionais e comunitárias que me foram negadas e impedidas. Todas elas transfiguradas pelo processo capitalista de domesticação e encarceramento da vida e das relações. Nós, como espécie, nos desenvolvemos e evoluímos graças a capacidade de nos comunicar, criar relações, compartilhar noções sociais e nos proteger coletivamente diante da natureza. Não somos mais rápidos que outros animais, não possuímos proteção dérmica natural às intempéries, não temos garras, dentes ou presas afiadas. Se chegamos tão longe e fomos capazes de construir o mundo ao nosso redor, foi graças a nossa capacidade de nos reconhecer, construir relações, compartilhar universos e intimidades necessárias para significar a nossa existência e dela produzir aquilo que achamos dignos e importantes para a nossa realização15. Gosto de pensar na humanidade primitiva, com seus mitos, ritos, celebrações, construções simbólicas para dar sentido e abarcar as nossas necessidades físicas, emocionais e subjetivas e comunitárias. Gosto de pensar nas culturas, seus modos de significar o nascimento, a morte, a colheita, o plantio, o sofrimento, o amor, as divindades, as parcerias, os espaços de partilha, os espaços de acolhimento, os espaços de magia e de acesso à subjetividade que nos é inerente. Penso nas civilizações que nos antecederam, nas estruturas sociais que permitiam o compartilhamento e reprodução de conhecimentos, nos laços e relações necessárias para o pleno desenvolvimento de um novo ser em comunidade. Penso em todas essas reentrâncias e desdobramentos do que significava ser humano, e no que nos restou hoje. E é aqui que reconheço que todas as nossas relações sociais, foram desmontadas

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e reconstruídas sob a égide de lógicas exploratórias, concentradoras, monopolistas e comerciais16. O dano dessa transformação é a perda de contato com os modos produtivos e com valores simbólicos das atividades humanas, e assim o enfraquecimento das relações sociais essenciais para a construção de um futuro democrático a partir de valores libertários. As relações sociais contemporâneas, estreitadas à lógica capitalista, não deixam lugar, espacial e temporal, para relações humanas capazes de construírem coletivamente uma realidade social livre de explorações. “Assim, a população já não depende dessas formas de organização social que são a família, os amigos, os vizinhos, a comunidade, os mais velhos, as crianças, mas, com poucas exceções, tem que contar com o mercado e apenas com o mercado, não só para obter alimentos, vestuário e habitação, mas também distrações, divertimentos, segurança, cuidados para os mais jovens, para os mais velhos, para os doentes e para os deficientes. Com o tempo, deixam de ser apenas as necessidades materiais e de serviços a serem canalizadas para o mercado, mas o mesmo passa a acontecer com tudo o que se refere à dimensão afetiva da existência.”17 Não basta apenas desfetichizar as relações ao destrinchá-las em seus meandros e reconhecer as forças e opressões nelas existentes. Devemos principalmente reconstruir e reatar relações sociais mais humanas através da ressignificação dos modos de produção e consumo, além de fazer o esforço de ramificar nossas atividades e experiências coletivas em todas as esferas da vida social. É imperativo ressignificar trabalho e o seu reconhecimento cultural como manifestação de

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16. Não quero com isso defender o mito do bom selvagem, mas quero apontar para a diferença entre relações e estruturas sociais construídas a partir de dinâmicas próprias de uma cultura, lugar e povo, em contraponto à cultura capitalista global que é inserida cirurgicamente na paisagem urbana, nas interações cotidianas e na trama social. 17. Harry Braverman, Labor and Monopoly Capitalism: The degradation of work in the Twentieth Century, p.276-277, Monthly Review Press, 1974.


desejos humanos para fora da compreensão de valor do dialética capitalista. Seguindo a análise, introduzo a quinta discussão que dá origem para esse trabalho. Aponto aqui a as redes sociais como nova fronteira do controle monopolista. O período histórico atual é marcado pela presença, acesso e desdobramento da utilização de tecnologias de interação online através da internet, as redes sociais. Partindo da perspectiva de que relações sociais são formadas por processos de interação e comunicação entre pessoas e que são constituintes de qualquer projeto de transformação social e material, elaboro a questão do monopólio das relações sociais na dimensão da vida cotidiana e o modo como são operadas e controladas as redes sociais virtuais. Os últimos 10 anos têm sido marcados por manifestações sociais organizadas em redes sociais, pela divulgação de conteúdo e informação descentralizados e pelo engajamento global em lutas territorializadas. No entanto, a falta de controle social sobre as plataformas, seus modos de funcionamento, lógica de financiamento, além da subordinação aos algoritmos, representam riscos para as formações sociais contemporâneas. Mais do que possibilitar comunicação instantânea, as redes sociais e meios de comunicação (facebook, twitter, instagram, whatsapp) determinam de que forma esta é realizada. Reduzir discursos a 280 caracteres, imagens, memes, figurinhas, posts. Reduzir relações a curtidas e compartilhamentos. Reduzir as possibilidades de interação e acesso à conteúdos através de bolhas algorítmicas de informação e desinformação. Os riscos e consequências são muitos, seja na escala das relações humanas cotidianas quanto na escala de formação política do sujeito social. E questionar a

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efetividade e segurança da internet como espaço de formação e organização política é um imperativo. No entanto, diante do rápido avanço da internet e sua presença crescente no cotidiano, a pergunta deixa de ser se a internet é o espaço de formação, e se volta para como ela pode ou não pode ser. É sobre este último ponto que se desenvolve o TFG. O monopólio da comunicação e interação entre as pessoas, e suas consequências nas possibilidades de transformação e revolução democrática são o objeto de estudo deste trabalho. Para tratar da questão, o trabalho foi organizado de forma a percorrer primeiramente os movimentos organizados a partir das redes sociais, suas consequências positivas e negativas, além de olhar com atenção para movimentos silenciados em tais plataformas. No segundo capítulo, analiso a estruturação das redes sociais dominantes e analiso suas mudanças de plataforma nos últimos 15 anos. Assim, são abordados questões como privacidade, algoritmos e sustentação financeira das empresas que operam as redes sociais. Por fim, apresento a SIGNA como alternativa aos modos de interação digital predominantes, como resultado da busca por redes sociais capazes de estabelecer relacionamentos efetivos entre usuários e conectar pessoas além da interface digital. Ao permitir a interação e a colaboração entre pessoas que compartilham motivações, vontades e propostas semelhantes, a SIGNA surge com a intenção de promover o reconhecimento de iniciativas e intenções urbanas e uma maior participação democrática no processo de transformação da cidade. O projeto da rede social e aplicativo vêm sendo desenvolvidos com o apoio do Programa InovaGrad, uma parceria da Agência USP de Inovação e o SEBRAE, do professor doutor Leandro Velloso (FAUUSP Design).

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* “Siempre hemos vivido en la miseria, y nos acomodaremos a ella por un tiempo. Pero no olvide que los obreros, son los únicos productores de riqueza. Somos nosotros los obreros, los que hacemos marchar las maquinas en las industrias, los que extraemos el carbón y los minerales de las minas, los que construimos las ciudades....¿por que no vamos, pues, a construir y en mejores condiciones para reemplazar lo destruido ?. las ruinas no nos dan miedo. Sabemos que no vamos a heredar más que ruinas, porque la burguesía trata de arruinar al mundo en la última fase de su historia. Pero te repito que no nos dan miedo las ruinas, por que llevamos un mundo nuevo en nuestros corazones. Y ese mundo esta creciendo en esta instante.” Buenaventura Durruti, em entrevista ao jornalista Van Passen, 1936.

2. ANÁLISE DO USO DAS REDES SOCIAIS NA ORGANIZAÇÃO E ARTICULAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS CONTEMPORÂNEOS “ Não temos o menor medo de ruínas. Nós vamos herdar a terra, não há a menor dúvida sobre isso. A burguesia pode explodir e arruinar seu próprio mundo antes de deixar o palco da história. Nós carregamos um mundo novo, aqui, em nossos corações. Esse mundo está crescendo neste minuto.”* Desde seu surgimento,nos anos 2000, as redes sociais - conjuntamente com a expansão do acesso de smartphones - vêm impactando o modo como interagimos, entre nós e com o mundo online, como nos relacionamos e, principalmente, como nos identificamos com comunidades desterritorializadas e nos manifestamos como grupo. Depois de termos superado o tempo como fator determinante da comunicação através das tecnologias telefônicas, ultrapassamos agora o espaço e o alcance como fatores limitantes de nossas mensagens. As redes sociais podem ser vistas como parte da evolução de tecnologias para suprir a nossa necessidade de comunicação. As redes sociais provocaram muitas mudanças, tanto para a vida cotidiana quanto para o modo como nos entendemos, nos identificamos e nos posicionamos num mundo virtual onde tudo é possível. A relativa liberdade que ainda desfrutamos na internet, - e que, vale dizer,não é a realidade de muitos países em

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que se aplicam censuras aos conteúdos disponíveis na internet -, nos possibilitou reconhecer a existência de multidões1. Seja através da participação em fóruns, grupos, e outros ambientes digitais (incluindo aqueles voltados para atividades nocivas), onde diferentes pessoas podem interagir no quase anonimato da virtualização da existência; seja através da presença física da multidão em espaços públicos, mobilizadas, de certa forma, espontaneamente. Em um cenário onde o trabalho, como conceito e experiência, tem sido diluído, pulverizado e precarizado, as relações de trabalho que seguem essas mudanças se viram reduzidas a desarticulação do trabalhador como categoria social e seu isolamento individual. Ao enfraquecer as formas históricas de organização de luta e revolta social e destruir os locais e dinâmicas de trabalho que promoviam a relação de classe dos trabalhadores, greves e manifestações deixaram de fazer sentido para a realidade social do mundo contemporâneo. Diante da lacuna na identidade pessoal e política, deixada pelo esvaziamento do trabalho, o incentivo sistemático à construção da mesma a partir do consumo de produtos e imagens, e a aparente liberdade democrática que as gerações a partir dos anos 90 desfrutaram, a internet surgiu para muitos de nós como o lugar da busca e construção de si mesmo, assim como da construção de relações e comunidades virtuais. Dos fóruns, salas de bate papo, blogs e mensagens instantâneas, os modos de comunicação pela internet mudaram com o advento das plataformas de redes sociais. Especialmente com o surgimento do Facebook. A mudança foi sentida em curto período de tempo. Até 2008, os blogs prevaleciam como espaço de distribuição de informação, escrita e discussão2. A partir desse momento, e com mais intensidade a partir de

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1. Michael Hardt e Antonio Negri, Multidão - Guerra e Democracia na era do Imperio, 2005, Editora Record. 2. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 132, Yale University Press, 2017.


2010, as redes sociais se tornaram o ambiente concentrado de toda interação com a internet. Relações afetivas e familiares, posicionamentos políticos, ideológicos e interesses de lazer, agora se sobrepõe em um mesmo domínio e em tempo real. A comunicação e a linguagem também mudam, assim como o alcance da informação e nossa consequente percepção do mundo contemporâneo. Me arrisco a dizer que o acesso a internet também muda o caráter de como percebemos e reconhecemos as lutas sociais. A partir da experiência virtual de democracia e o contato com informações e notícias globais, fora do filtro do jornalismo da grande mídia, populações sem histórico de movimentação política se viram inspiradas por princípios democráticos e de resistência política. A experiência da Primavera Árabe, começando em 2010 na Tunísia e se estendendo para países como Egito, Líbia, Síria e Iêmen e Barém, surpreendeu o mundo com suas multidões tomando as ruas e protestando contra regimes opressivos com longa sucessão de governos autoritários e sectários. A conexão global da internet permitiu o acesso à informações atualizadas dos acontecimentos; assim como permitiu que uma multidão ainda maior de internautas acompanhasse a possibilidade da revolta social. As motivações dos movimentos - contra a corrupção, desemprego, pobreza, políticas de austeridade, violações de direitos humanos e impossibilidade de participação nas decisões políticas -, se revelaram quase universais nas manifestações ao redor do mundo, permitindo a identificação de demandas comuns à realidade de concentração de recursos e a falta de distribuição de benefícios sociais. As notícias e análises das experiências apontavam as redes sociais como protagonistas dos movimentos

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que tomaram o mundo árabe e começavam a se espalhar por outras regiões do globo, ignorando processos anteriores às manifestações. Indicadores como número de participantes ou quantidade de protestos se tornaram parâmetros para medir a relevância, legitimação e força das manifestações. Porém, a efetividade e capacidade de transformação social das manifestações se encontram além da plataforma usada para articulação e adesão da população. Zeynep Tufekci, em seu livro Tear gas and Twitter, analisa o uso das redes sociais nos movimentos e manifestações do século 21, com atenção para os movimentos a partir de 2010. Depois da onda inicial de esperança e euforia diante dos grandes protestos articulados através do Facebook e Twitter, a autora se preocupou em examinar as experiências segundo três capacidades fundamentais para a efetividade de suas demandas e respaldo social a longo prazo. Segundo Tufekci, a tecnologia que viabiliza a organização de grandes protestos também pode impedi-los de desenvolver a competência necessária para alcançar seus objetivos e garantir a manutenção das transformações conquistadas. Como chave análitica, a autora turca apresenta três capacidades necessárias aos movimentos sociais e as usa como método para examinar seus resultados e consequências. As três capacidades são: narrativa, disruptiva e institucional. O conceito de capacidades é adaptado das teorias de desenvolvimento humano, utilizado pela vencedora do Prêmio Nobel Amartya Sen. Com o conceito, Sen quer abrir caminho para análise dos resultados sociais baseados nas oportunidades e habilidades das pessoas e da sociedade, ao invés de medi-los através de parâmetros do desenvolvimento convencional.

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3. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 192, Yale University Press, 2017.

“No contexto dos movimentos sociais, uma abordagem de capacidade significa avaliar a habilidade coletiva do movimento de alcançar mudanças sociais, em vez de medir apenas os parâmetros de referência disponíveis.” 3

4. Tufekci demonstra que mesmo movimentos com grande participação da população, até em casos de adesão internacional à luta, como as manifestações contra guerra no Iraque (20032004), não possuem capacidade institucional suficiente para transformar a realidade, no caso, evitar a invasão americana ao país.

A capacidade narrativa diz respeito à habilidade de divulgar e propagar uma determinada perspectiva da realidade e construir uma compreensão coletiva sobre a situação e contexto. A capacidade narrativa de um movimento se realiza no momento em que o discurso e lógica de reivindicação é legitimada pela coesão popular em torno do tema4. A capacidade disruptiva é avaliada segundo a competência do movimento em intervir e impedir o curso regular da realidade e “normalidade” estabelecida. Protestos, manifestações, greves, boicotes, ou outras formas de interrupção das dinâmicas cotidianas e do status quo são formas disruptivas da realidade. A capacidade institucional, por sua vez, sinaliza a habilidade dos movimentos em colocar ameaças ao poder estabelecido e serem reconhecidos como verdadeiros atores políticos no processo de efetiva transformação da realidade e legitimação legal de suas demandas. É com tal quadro conceitual que vou percorrer a análise de quatro movimentos distintos em dois momentos do uso contemporâneo das redes sociais. A experiência da Primavera Árabe, pioneira no uso das plataformas online como forma de articulação social em grande escala; o Movimento Passe Livre, e a resposta da população brasileira ao aumento da passagem do transporte público em 2013; “The revolution of our times”, e as estratégias de organização do movimento democrático de Hong Kong; e por fim, o caso recente

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dos protestos no Chile, e a desfetichização da espontaneidade das revoltas populares. Para fins desta análise, me fixei a organizar informações que me possibilitaram compreender como os movimentos se articularam, qual o contexto no qual se encontram, métodos e estratégias, o uso específico das redes sociais, e seus resultados e consequências. As informações que se apresentam abaixo não correspondem à totalidade e complexidade das experiências.

2. 1. Movimentos sociais contemporâneos 2.1.1. Primavera Árabe

“the people want to bring down the regime” Onde: Tunísia, Libia, Egito, Iemen, Siria, Marrocos, Iraque, Algeria, Libano, Jordânia, Kuwait, Oman, Sudão, Djibouti, Mauritania, Palestina, Arabia Saudita Início: 2010 Fim: 20115 Histórico Primavera Árabe, termo usado para indicar a série de protestos e manifestações ocorridas nos países do norte da África e do Golfo Pérsico, se construiu ao redor de reivindicações como o fim do autoritarismo e regimes monárquicos, sectarismo, corrupção política, violações dos direitos humanos, e questões sociais como desemprego e pobreza. Os primeiros protestos começaram na Tunísia, estendendo as experiências para outros países do mundo árabe. Ao contrário da espontaneidade com que foi veiculada pela mídia, lugares como Tunísia, Egito, Algeria e Saara Ociden-

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5. Em 2019, múltiplas revoltas e protestos ocorrerão na Algeria, Sudão, Iraque, Líbano e Egito. Tais manifestações podem ser entendidas como uma continuidade da Primavera Árabe


6. Brian Whitaker, How a man setting fire to himself sparked an uprising in Tunisia, The Gardian, 2010. 7. Kara Alaimo, How the Facebook Arabic Page “We Are All Khaled Said” Helped Promote the Egyptian Revolution, Social Media + Society, 2015.

tal já viviam manifestações e revoltas organizadas por movimentos dos trabalhadores denunciando a pobreza extrema em que se encontrava a população. Exemplos disso são, os contínuos protestos na área de mineração em Gafsa (2008), as manifestações e atividades do movimento trabalhista no Egito - que permitiram as organizações iniciais e a prática de protesto do grupos de manifestantes -, e o estopim que provocou a adesão da maior parte da população, o suicídio de Mohamed Bouazizi. Bouazizi. Desempregado e vendedor ambulante de frutas, Bouazizi teve suas mercadorias confiscadas por agentes municipais e foi impedido de realizar a atividade ao longo das estradas. Diante da situação, Mohamed jogou gasolina no próprio corpo e ateou fogo, no dia 17 de dezembro de 2010. A população, que já sofria com a pobreza e recursos escassos, se rebelou diante do acontecimento levando ao levante popular que alimentou os primeiros protestos na Tunísia6. Métodos de articulação e estratégias políticas A internet teve um papel importante na articulação dos protestos e a coordenação destes ao longo do tempo. Mesmo em países com menor cobertura e acesso à internet, o uso de email, mensagens SMS, e compartilhamento de vídeos no YouTube, permitiu o acompanhamento local e internacional dos acontecimentos. A morte de Khaled Mohamed Saeed, ocorrida durante sua custódia policial em junho de 2010 no Egito, a veiculação de imagens e informações sobre a violência e tortura policial a que foi submetido, incitou os protestos da Revolução no país em 2011. A página no Facebook, sob o nome de “We are all Khaled Said”7, foi de extrema importância para a divulgação das notícias de brutalidade policial e uso de violência estatal, assim

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como para articulação dos protestos através da criação de eventos. Além do Facebook, o Twitter e o Youtube também foram amplamente usados como forma de publicizar as violações aos direitos humanos e fazer chamadas abertas para participação nos protestos. Em vários dos países, governos ditatoriais derrubaram blogs, páginas do Facebook e impediam as pessoas de acessá-las. Além da censura digital aos conteúdos, houve perseguição policial aos responsáveis pelas páginas e perfis nas redes sociais. Junto com as formas de ativismo digital, a Primavera Árabe foi marcada por experiências de desobediência e resistência civil, manifestações pacíficas, revoltas, e diante da violenta resposta governamental, encamparam guerrilhas urbanas contra as forças militares e elites especiais. Resultados e consequências Em sua maioria, a Primavera Árabe teve como resultado a instabilidade política e econômica, guerras civis, além de expressiva violência e repressão estatal. Os resultados a longo prazo ainda devem ser analisados à luz de dinâmicas capitalistas globais e do interesse pelo petróleo como chave de compreensão para o território. Mesmo em países em que o regime autoritário foi derrubado, e processos de decisão democrática foram instaurados, poucas mudanças sociais efetivas ocorreram. Associações e reformulações de poder entre as elites e os movimentos cooptados também se revelaram como resultado das manifestações em lugares como o Marrocos e países do Golfo Pérsico. Conflitos e guerras civis se originaram durante as manifestações, como o caso da Guerra na Síria, e a instauração de guerras religiosas entre grupos muçulmanos sunitas e xiitas. A variedade de resultados se tornou objeto de

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8. Migdal, Joel S (1988). Strong Societies and Weak States: State-Society Relations and State Capabilities in the Third World. Princeton, NJ: Princeton University Press. Putnam, Robert D (2001). Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. New York: Simon & Schuster.

estudo para alguns cientistas sociais8, que apontam questões estruturais para análise. A relação de força entre o poder do Estado instituído e o poder do movimento, a existência de diferentes formas de associações e organizações sociais, além da solidez de instituições ou do regime ditatorial anterior às reformas. Outro componente preponderante foi a presença da mídia internacional no território, divulgando o avanço de estratégias repressivas e violentas por parte do governo, e a capacidade dos governos em censurar os meios de comunicação. As conformações internas de poder, e a existência ou não de uma homogeneidade étnica ou religiosa também podem ser entendidos como influências para o posicionamento tomado pelos militares em cada um de seus países. Em lugares como o Egito e a Tunísia, os exércitos tomaram o lado dos manifestantes, facilitando o processo de transição democrática e apoiando as eleições, não significando com isso verdadeiras transformações na conformação do poder institucional. No caso do Egito, o mesmo exército que apoiou o povo, derrubou Hosni Murabak, e garantiu a realização de eleições - com a vitória da Irmandade Muçulmana -, tomou o poder dois anos mais tarde em um golpe militar. Já em países como a Arábia Saudita e a Síria, onde o poder governamental estava concentrado nas mãos de elites religiosas ou étnicas, o exército se manteve junto ao governo na repressão aos manifestantes. Vale pontuar que o conflito na Síria se origina com partes dissidentes do exército protegendo a população durante as manifestações da Primavera Árabe, com o avanço do Estado Islâmico sobre o território sírio e o envolvimento de entidades como Estados Unidos, Rússia, Irã, Iraque Turquia, Israel, o movimento curdo e a OTAN.

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2.1.2. Jornadas de Junho de 2013

“Vem pra rua” “Não é só por 0,20 centavos, é por direitos.” Onde: Brasil Início: 2013 Fim: 2013 Histórico As Jornadas de Junho foram as primeiras experiências de manifestação política popular maciça no Brasil desde 1992, durante o processo de impeachment do até então presidente Collor. Os protestos foram inicialmente articulados pelo Movimento Passe Livre (MPL), fundado a partir de mobilizações estudantis em 2005 numa plenária do Fórum Social Mundial. O MPL se articula a partir da pauta do acesso ao transporte público e defende a adoção da tarifa zero para transporte coletivo. Desde sua criação, o movimento se espalhou por diferentes cidades brasileiras e organizou diversos protestos contra o aumento das passagens do transporte público, culminando na articulação nacional das manifestações em 2013. Desde janeiro deste ano, o país vivenciou protestos consecutivos, nas cidades de Porto Alegre, São Paulo, Natal, Goiânia, Belo Horizonte, Recife e muitas outras, como resposta aos aumentos. A experiência pode ser analisada em dois momentos distintos, o início dos protestos contra o aumento da passagem que abrem o mês, conjuntamente com a resposta repressiva da polícia militar, e a adesão popular aos protestos como reação à escalada da violência policial. A primeira fase é caracterizada pela pauta unificada em torno do passe livre, a mobilização de milhares de pessoas - em sua

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9. Detenção sem flagrante usada por governos autoritários e ditatoriais para a perseguição da população. O vinagre no Brasil é uma substância legalmente permitida. A solução era usada para aliviar a ardência nos olhos, nariz e boca quando do contato com gás lacrimogêneo.

grande maioria estudantes - e a narrativa midiática de desaprovação e a construção da imagem do movimento segundo ocorrências de vandalismos e a presença de blackblocks. A polícia militar reprimiu violentamente a maior parte das manifestações, intensificando sua resposta já nos primeiros protestos do mês de junho, fazendo uso de gás lacrimogêneo e tiros de borracha. No dia 13 de junho, várias cidades aderiram aos protestos, acontecendo também em Teresina, Maceió e Sorocaba. Em São Paulo, a violência policial deixou muitas pessoas feridas e cegas, incluindo jornalistas que até então tinham criticado o movimento. Mais de 300 pessoas foram presas e mais de 100 pessoas foram detidas para averiguação por portarem vinagre9. A segunda fase das jornadas é marcada pela adesão da população às manifestações de forma pacífica, inserindo a violência policial como mote de articulação. A resposta da mídia, divulgando o nível de violência e repressão por parte da polícia militar levou ao apoio popular dos protestos, chegando ao número de 300 mil pessoas manifestando em 12 cidades brasileiras. Ao longo dos dias 17 ao 21, os protestos ocorreram diariamente ao redor do Brasil, com muitas cidades tendo suas demandas atendidas pelo governo municipal. A partir disso, as Jornadas de Junho passam a tomar um novo caráter, agora sendo articuladas por temas como a discussão das PECs 37, os gastos excessivos com as construções para a Copa de 2014, e com forte discurso anti corrupção. Métodos de articulação e estratégias políticas Desde sua criação em 2005, e da inclusão do princípio do federalismo como constituinte do movimento em 2006, o MPL se estruturou segundo princípios como: horizontalidade, autonomia, independência e aparti-

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darismo. O movimento nas diferentes cidades tinham caráter federativo, ou seja, formavam uma unidade em torno de responsabilidades mútuas ao mesmo tempo em que mantém a autonomia na organização local. Os movimentos se articulam nacionalmente através de grupos de trabalho, ações conjuntas, produção de conteúdo e o Encontro Nacional do Movimento Passe Livre (ENMPL). Os trabalhos realizados exclusivamente pelo MPL são de divulgação e engajamento, estudos coletivos e formação de base, além de fazerem uso de manifestações e ação direta. O movimento se define como apartidário, o que não significa antipartidarismo. A autonomia do MPL se dá não apenas em relação aos partidos, mas também em relação à organizações da sociedade civil, instituições religiosas e financeiras. O processo de decisão coletivo é o de propostas consensuais, recorrendo à votação quando da impossibilidade da resolução dos conflitos. Mesmo o MPL não rejeitando a cooperação com partidos, as jornadas foram marcadas por forte sentimento de anti partidarismo partindo da própria população. Muitas vezes manifestantes vaiaram grupos partidários quando estes hastearam suas bandeiras. A mobilização das Jornadas de Junho foi feita através da divulgação de eventos no Facebook. A plataforma também permitiu o compartilhamento e divulgação de informações sobre a violência policial, a existência de policiais infiltrados que promoviam atos de vandalismo - qualificando as acusações contra a força estatal. Os protestos tinham como estratégia se manifestarem em lugares simbólicos da cidade, ocupando grandes avenidas, marcos históricos, e prédios institucionais. Com a transformação do caráter das jornadas, os modos de organização, os alvos dos protestos e sua composição se vêm diante da dificuldade de organizar

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10. Vincent Bevins, From YouTube to law: How the ‘5 causas’ of Brazil went viral, Los Angeles Times, 2013. 11. O conceito de Nova Classe Trabalhadora é colocado por Josué Medeiros. Para ele, os dez ano de política de distribuição de renda do governo petista, permitiu a inserção de uma nova classe de trabalhadores que antes se encontravam por demais precarizados sem a assistência social. Josué Medeiros, Breve história das jornadas de junho: Uma análise sobre os novos movimentos sociais e a nova classe trabalhadora no Brasil, História e Perspectivas, Uberlândia (51): 87-117, 2014.

uma massa de pessoas sem unidade política ou sem pautas consensuais. Ao passo que diversas demandas eram adicionadas, ao longo dos protestos, as estratégias de ocupação da cidade passaram a incluir os locais das construções para a Copa das Confederações e do Mundo como alvo de protestos. Em 18 de junho, as demandas do movimento foram divulgadas através de um vídeo publicado supostamente pelo coletivo Anonymous10. Nele, as 5 causas são: a rejeição ao PEC 37, a renúncia de Renan Calheiros da presidência do Senado, investigações e punição de irregularidades nas obras da Copa do Mundo, a criação de lei que tornasse corrupção crime hediondo e o fim do foro privilegiado. O vídeo, traduzido também para o inglês, teve alcance internacional, chegando até o número de 1.7 milhões de visualizações. Manifestações e apoio em cidades internacionais também ocorreram. A composição das manifestações era majoritariamente de jovens, com boa parte sendo jovens da classe média e de uma nova classe trabalhadora11, constituída nos últimos dez anos e sem tradição coletiva. Resultados e consequências A resposta estatal inicial sobre os protestos, que criticavam a realização das manifestações, a desordem social e principalmente o ataque às construções das Copas, também pode ser caracterizada pelo apoio da presidenta Dilma na autorização do reforço de forças militares para a repressão dos protestos. No entanto, com o aumento da adesão aos protestos e as demandas constituídas, a presidenta Dilma passou a se articular com outros atores do governo para a apresentação dos cinco pactos nacionais, como resposta à população. Dilma declarou estar “ouvindo essas vozes pela mudança”, e tentou abrir caminho para um plebiscito

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para reforma política, não conseguindo passar com a proposta de reforma política. A pressão política do movimento foi capaz de derrubar a PEC 37 e promover a criação e discussão sobre o projeto de lei de anticorrupção. Outros resultados podem ser vistos a partir do surgimento de.articulações populares em torno dos temas expressos nas jornadas, como o Comitê Popular da Copa12 e o movimento dos estudantes secundaristas. A derrubada do projeto de lei conhecido como “cura gay”aconteceu em 2019 13, quando foi oficialmente proibida pelo STF. Além das consequências diretas das jornadas de junho, pode-se indicar como resultado da experiência o processo de assimilação e apropriação da estratégia de manifestação e ocupação do espaço público por diversos movimentos, com diferentes pautas e vertentes ideológicas. Com a mudança no discurso da mídia convencional sobre as manifestações, ocorreu também a indução de uma perspectiva conservadora sobre os valores das manifestações. Segundo Gilberto Calil e Felipe Demier, afirmam que é nesse momento que “a grande mídia tenta colocar em ação esse pensamento conservador que já existia. É nesse momento que o verde e amarelo, o “sou brasileiro com muito orgulho, a pauta anticorrupção, numa forma muito rebaixada, vêm à tona disputar os rumos de junho de 2013”14. Para eles, a experiência reintroduziu os protestos como forma de manifestação política para todos, porém revestidos de valores conservadores articulados pela mídia hegemônica e alimentados por conteúdos antipetistas. As manifestações, que em 2013 foram caracterizadas por protestos unificados e com a adesão de diferentes parcelas da população, se transformou em 2015 em polarização política através da estruturação

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12. O Comitê Popular da Copa de São Paulo é um grupo aberto, horizontal e apartidário de articulação e resistência contra impactos e violações de direitos humanos da Copa do Mundo de 2014. Larissa Alcantara Viana, Da conquista à resistência: Copa do Mundo, moradia, remoções e movimentos socias em Fortaleza - CE, Dissertação de Mestrado, FAUUSP, 2015. 13. Alexandre Putti, Terapia da “cura gay” é proibida pelo STF, Carta Capital, 2019. 14. André Antunes, Cinco anos das Jornadas de Junho: um legado em disputa, Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio - Fundação Oswaldo Cruz, 2018.


15. O projeto de lei foi proposto por Hong Kong em fevereiro de 2019, na tentativa de solicitar a entrega de um suspeito de Hong Kong em um homicídio cometido em Taiwan

de movimentos de direita no país. A prática dos protestos passou a ser utilizada pela população promotora de uma agenda conservadora e religiosa. O processo de impeachment da presidenta Dilma também foi marcado por forte presença popular nas mesmas ruas que haviam sido ocupadas em 2013, e por um discurso emocional contra a corrupção. Outra consequência das jornadas é a aprovação do projeto de lei, em 2016, que tipifica crime de terrorismo e determina limitações às possibilidades de manifestação política. O projeto de lei estava sendo elaborado ainda durante o governo de Dilma. As limitações para os modos de protestar foram sendo intensificadas a partir das Jornadas de Junho e dos movimentos contrários à Copa do Mundo, hoje sendo passível de ser acusado de terrorismo qualquer um que usar máscaras ou esconder o rosto em protestos, bloquear rodovias, ferrovias e estradas. 2.1.3. The revolution of our times

“Liberate Hong Kong, the revolution of our times” Onde: Hong Kong Início: 15 de março de 2019 Fim: Histórico: Os protestos de 2019 são inicialmente articulados como resposta ao projeto de Lei de Extradição de Hong Kong, que legalizava a extradição de infratores fugitivos para países como Taiwan15, Macau e China Continental. O marco legal levou muitos profissionais, juristas, jornalistas, direitos humanos, empresas

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e estudantes a reconhecerem o perigo da lei para a autonomia política de Hong Kong em relação à China Continental. A liberdade e o alto grau de autonomia desfrutado por Hong Kong desde 1997 é resultado do acordo de transferência de soberania entre a Inglaterra e o governo chinês, e tem validade até 2047 (50 anos de acordo). Os protestos podem ser entendidos como continuidade dos movimentos articulados durante as eleições legislativas de 2016, e a disputa por cargos representativos de candidatos pró democracia e candidatos pró Beijing. O slogan do movimento “The revolution of our times” foi o tema de campanha do candidato Edward Leung durante as eleições, em que ele enfatizava que qualquer um poderia fazer parte da mudança e transformação, independente da idade, levando à revolução de nosso tempo. Métodos de articulação e estratégias políticas Os movimentos sociais e revoltas populares têm aprendido a lidar com a tecnologia e as redes sociais ao longo dos últimos dez anos. O compartilhamento e conhecimento de vídeos e informações sobre os movimentos têm sido de extrema importância para o aprendizado coletivo e contínuo de revolta. O movimento de Hong Kong manifestou várias vezes quanto o Inverno Ucraniano influenciou e ensinou estratégias diante da resposta violenta do governo ucraniano, e da elite militar russa enviada para assassinar manifestantes. O movimento conhecido como Euromaindan foi a resposta popular a decisão presidencial de se afastar de acordos de relações com a União Européia e o estreitamento de laços com a Russia. O movimento ocupou a praça Maidan Nezalezhnosti (Praça da Independência), na capital Kiev, durante os três meses mais frios do inverno ucraniano. O governo, com reforço russo,

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16. Ukraine’s parliament just threw President Yanukovych under the bus. That’s great news, Washington Post, fevereiro de 2014. 17. Andrew Roth, Ukraine’s ex-president Viktor Yanukovych found guilty of treason, The Guardian, janeiro de 2019. 18. Hong Kong protests: How the city’s Reddit-like forum LIHKG has become the leading platform for organising demonstrations, Today Online, agosto de 2019.

além de reprimir violentamente os manifestantes e persegui-los, fez uso de tanques, milicias paramilitares ligadas ao movimento fascista e atiradores de elite para assassinar as pessoas em protestos. No final de fevereiro de 2014, o presidente Viktor Yanukovych perdeu apoio no parlamento, o que permitiu a aprovação de leis que cancelaram as investidas antiprotesto e o uso de força policial, restauraram a constituição de 2004, liberaram detidos políticos e removeram o presidente16. Este fugiu de Kieve e se negou a aceitar as decisões do parlamento. Novas eleições foram antecipadas pelo parlamento e ocorreram em maio de 2014. Em 2019, Yanukovych foi julgado culpado de traição, de pedir a Putin o envio de tropas militares russas para invadir a Ucrânia depois que ele foi deposto. O ex-presidente ucraniano vive na Russia desde que fugiu da Ucrânia17. A articulação de manifestações, ações e processos de decisão são realizadas dentro da plataforma LIHKG. COM18, um fórum com múltiplas categorias similar ao Reddit. O site está hospedado em Hong Kong, e mesmo sendo aberto para todos na internet, apenas pessoas com números de registro na cidade de Hong Kong podem criar contas, postar conteúdo, comentar, e validar. As informações do número de registro são necessárias apenas para a plataforma, e LIHKG não exige que os usuários introduzam nenhuma informação adicional. Mesmo sem fazer uso das informações de registro, a plataforma ainda seria obrigada a entregar informações à autoridades se um mandado de busca for emitido. O que aconteceu com a antiga plataforma usada pela população, HKGolden, que foi obrigada a entregar o endereço de IP de um usuário de 23 anos à polícia. O usuário foi responsável por fa-

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zer chamadas abertas no fórum sobre atacar a polícia e bloquear as estações de metrô durante o movimento pró democracia Occupy de 2014. Mesmo assim, os habitantes de Hong Kong se sentem seguros para usar a plataforma, e isso se deve à Cloudflare, uma rede de mediação e distribuição de conteúdo, serviços de segurança da Internet e serviços de servidor de nome de domínio distribuído, localizados entre o visitante e o provedor de host do usuário da Cloudflare, agindo como um proxy reverso para sites19. Com sua tecnologia de segurança, oferece proteção aos dados privados dos clientes e seus conteúdos. Foi responsável pela defesa ao maior ataque DDos20 registrado em 2014, durante os protestos Occupy. O ataque foi direcionado a uma série de sites de mídia independente de Hong Kong, se configurando como o maior ataque cibernético da história, até então. Através da plataforma, as pessoas são capazes de criar espaços para discussão de propostas e estratégias e articularem ações. Debatem a utilização de métodos radicais, denunciam abuso policial ou identidade dos policiais em comando, e principalmente, compartilham mensagens de apoio e motivação. O lema “be water, my friend”, usado pelo mestre Kung Fu Bruce Lee, tem sido um guia para as táticas de ocupação da cidade, significando a flexibilidade e fluidez que deveria caracterizar as manifestações. Ao invés de se manifestarem todos juntos num mesmo espaço público, os manifestantes têm se distribuído espacialmente, mesmo assim se conformando em grandes números, de forma a dissolver as forças policiais pela cidade. Assim que a polícia surge, os manifestantes dispersam e esperam a oportunidade de voltar a ocupar o espaço assim que os policiais saírem. Além da ocupação física da cidade, o movimento de Hong Kong têm usado

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19. Definição segundo Wikipedia. 20. Definição segundo Wikipedia: Um ataque de negação de serviço (também conhecido como DoS Attack, um acrônimo em inglês para Denial of Service), é uma tentativa de tornar os recursos de um sistema indisponíveis para os seus utilizadores. Alvos típicos são servidores web, e o ataque procura tornar as páginas hospedadas indisponíveis na rede. Não se trata de uma invasão do sistema, mas sim da sua invalidação por sobrecarga


21. Lennon Wall é o nome do mosaico criado pelo Umbrella Moviment. Uma expressão espontânea e coletiva onde os habitantes colam mensagens de apoio e motivação, desenhos e trabalhos artísticos sobre os manifestantes e a repressão policial, além de se tornar um lugar de memória dedicado àqueles que estão sendo presos e mortos durante os protestos.

táticas disruptivas através de ações coordenadas. Durante algumas manhãs da semana, manifestantes apertavam simultaneamente os botões de segurança das portas de metrô, causando o atraso dos trabalhadores a seus locais de trabalho. Além disso, adotaram roupas pretas, capacetes, máscaras de gás, óculos de proteção e guarda-chuvas como forma a se protegerem do gás lacrimogêneo, ataques policiais e câmeras de vigilância com tecnologia de reconhecimento facial. Os manifestantes formalizaram suas cinco demandas e seguem articulados até o atendimento de todas elas, que são: retirada absoluta do projeto de Lei de Extradição, retração da designação “motim” a protestos, anistia para todos os manifestantes presos, criação de uma comissão independente de inquérito sobre conduta policial, sufrágio universal duplo para as eleições do Chefe do Executivo e do Conselho Legislativo. A composição da manifestação é dividida entre dois grupos. O grupo pacífico e não violento, que articula ações como correntes humanas, greve de fome, e manifestações artísticas pela cidade, como a Lennon Wall21 que se replicou por toda a Hong Kong. lançando aplicativos de boicote a estabelecimentos comerciais pró-Beijing. Além disso, esse grupo foi responsável por angariar fundos de apoio às manifestações, para compra de equipamentos de segurança e primeiros socorros. Trabalham também como paramédicos e socorristas no atendimento aos feridos pela violência policial. Já o grupo de “guerreiros”, como é chamado em mandarim, é responsável por ações violentas e radicais contra o governo e a polícia, tanto em defesa quanto ataque. São eles que reagem violentamente quando precisam proteger outros manifestantes, destróem câmeras e postes de vigilância e expulsam manifestantes suspeitos de serem policiais infiltrados - ao

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passo que estão incitando atos violentos dentro dos protestos pacíficos. Outro movimento de proteção aos manifestantes, em sua grande maioria adolescentes e jovens, é a liga de proteção organizada por um pastor que visa articular pessoas idosas para o enfrentamento com a polícia. Eles formam cordões que impedem o avanço da polícia sobre os manifestantes. Mesmo diante da diferença de ações e posicionamento, os dois grupos se apóiam mutuamente, tendo manifestantes mais pacíficos assumindo que mesmo não concordando plenamente com as ações violentas, admite que a continuidade dos protestos não seria possível sem a defesa física das pessoas. Resultados e consequências Os protestos em Hong Kong ainda não cessaram de acontecer. Por isso, aqui estarão organizados os resultados e consequências do movimento até novembro de 2019, devido ao momento de fechamento do trabalho. Em quase oito meses de protestos contínuos, os resultados podem ser avaliados pela remoção definitiva da lei de extradição no dia 4 de setembro de 2019 e pela escalada da repressão policial e as táticas de controle usadas com autorização do governo de Hong Kong. A polícia tem sido repetidamente acusada de má conduta, abuso de força, tortura e abuso sexual. Manifestantes têm sido atacados com gás lacrimogêneo, balas de borracha, spray de pimenta, canhões de água e mesmo com armas de fogo letais. A polícia tem feito uso ofensivo de sua artilharia, mirando para a cabeça e torso das pessoas, deixando muitas pessoas feridas, cegas e mortas. O suprimento de gás lacrimogêneo chinês, que até então era alimentado pelo grupo Chemring, empresa britânica, agora passou a ser fornecido por empresas chinesas. Os novos estoques de gás possuem

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quantidade de explosivos e outros componentes tóxicos acima do limite considerado permitido por instituições americanas, e já foram comprovados de levarem à morte por asfixia. Essa mudança de aparato é ainda mais alarmante levando em conta a prática da polícia de lançar bombas de gás dentro de ambientes fechados e estabelecimentos enquanto segura a população dentro do espaço. A violência direcionada à imprensa, desde abuso verbal a coerção violenta é realidade cotidiana para aqueles que se aventuram a gravar e compartilhar os acontecimentos. Ativistas e militantes proeminentes estão sendo presos ou encontrados mortos após visitas da polícia. Casos de estupro, feminino e masculino, além de serem boa parte das acusações contra a atividade policial, também fazem parte do discurso coercitivo dos próprios policiais, que ameaçam os jovens manifestantes com promessas de estupro coletivo. A desumanização dos manifestantes cresce à medida que a força policial se refere aos jovens como baratas que tem de ser exterminadas. Muitos dos vídeos de abuso de força policial contra os manifestantes, que por vezes terminam em imagens de um manifestante caído, desacordado e de poças de sangue ao redor, tem denunciado o possível abuso de substâncias como anfetaminas por parte dos policiais. Outra prática que tem sido revelada por fotografias do transporte de manifestantes mulheres presas durante os protestos, é a presença de uma numeração tatuada em suas mãos - mesma prática realizada pelo governo nazista. Em termos econômicos e financeiros, Hong Kong tem enfrentado crises nos negócios, desde a suspensão de contratos empresariais e institucionais, a queda no turismo devido à insegurança internacional, até a crise ou falência de estabelecimentos comerciais.

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2.1.4. Revolución de los

Onde: Chile Início: 2019 Fim: -

30 pesos

“Por el derecho de vivir en paz “ “No estamos en guerra”

Histórico O movimento no Chile, tendo como estopim o aumento de 30 pesos sobre a passagem de metrô, não pode ser entendido como uma revolta espontânea desarticulada, mas sim como resultado dos 50 anos de experiência pioneira do neoliberalismo como modelo econômico, o agravamento das condições de vida e aumento dos custos de moradia, saúde, remédios, educação e a descrença generalizada na política e seus operadores. A espontaneidade do movimento é desconstruída ao passo que se reconhece os três principais condutores e articuladores dos protestos, os movimentos estudantis22, os movimentos feministas23, e o movimento do povo Mapuche24. Estes se mostram protagonistas das manifestações populares desde 2006, em um processo de reativação política de movimentos territoriais, ambientalistas, pela diversidade sexual e novas organizações étnicas. Os movimentos estudantis foram os primeiros articuladores dos protestos contro o aumento da passagem do transporte. As propostas dos movimentos feministas se dividem em duas ordens. Uma articulada dentro da formulação de políticas públicas apoiadas pelos governos locais e outra uma vertente de ideal autônomo em que se rejeita a cooptação dos movimentos por grupos de poder instituído e buscava desenvolver uma concepção de ação política e cultura de feminismo fora das constrições da ação do Estado.

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22. Camila Cárdenas Neira, El movimiento estudiantil chileno (2006-2016) y el uso de la web social: nuevos repertorios de acción e interacción comunicativa, Última Década N°45, Proyecto Juventudes, 2016. 23. Silvia Lamadrid Alvazes, Alexandra Benitt Navarrete, Cronología del movimiento feminista en Chile 2006-2016, Rev. Estud. Fem. vol.27 no.3 Florianópolis. 24. El pueblo mapuche y su rol en las protestas chilenas, TeleSurTv, outubro de 2019.


Enquanto isso, o povo Mapuche têm se tornado referência e bandeira para os protestos, contando com grande mobilização da luta pelos direitos do povo indígena. Estes têm sobrevivido desde a colonização à perseguições, desapropriação de terras e ao preconceito e desigualdade em relação ao resto da sociedade chilena. Um dos slogans usados durante os protestos, “O neoliberalismo nasceu no Chile, e vai morrer no Chile” apontam o modelo econômico responsável pela situação de pobreza e desigualdade em que se encontra o país. O neoliberalismo como conceito e modelo a ser implantado, foi primeiramente cunhado na América Latina, fruto de associações entre o governo americano, a Universidade de Chicago e os governos ditatoriais durante os anos 70 e 80. Até recentemente, o Chile era indicado como o exemplo de sucesso do modelo por economistas e professores universitários de grandes instituições, chegando a ser referido como o “Milagre Chileno”. No entanto, a população parece reconhecer as consequências e estruturas do modelo econômico e sua relação com a precária situação em que se encontra maior parte da população. Métodos de articulação e estratégias políticas Os movimentos no Chile têm sido articulados pelas redes sociais como Facebook, e com maior atenção para o Instagram e Twitter. O uso das hashtags têm sido mais uma vez um caminho para articulação de conteúdo e organização de ações, além de servir como resposta coletiva ao poder governamental. Logo após os primeiros protestos, iniciados em 14 de outubro de 2019, o presidente Sebastián Piñera declarou em seu Twitter que a situação era de guerra, acionando forças policiais e militares para conter os protestos e declarando estado de emergência e toque de recolher.

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As medidas não impediram o avanço dos protestos, e como resposta, a população declarava nas ruas e no Twitter, #Noestamosenguerra. No instagram, muitas contas compartilham imagens da repressão policial, confrontos abertos e vídeos que mostram policiais ateando fogo à patrimônios - incêndios que estão sendo atribuídos ao movimento. As chamadas para as manifestações também é feita através do Instagram, com o post de imagens convidando à participação nos protestos. Vários usuários desse tipo têm sido excluídas pelo próprio Instagram, porém os manifestantes voltam a abrir novas contas. Não é apenas no Chile que as contas de Instagram têm sido derrubadas pela plataforma. Páginas que articulam informações sobre Hong Kong, movimento curdo e outros também têm sofrido instabilidade. O início dos protestos foi articulado pelos estudantes, promovendo o boicote às tarifas através da entrada forçada pelas catracas do metrô, o que levou à companhia de metrô a mobilizar forças armadas para defender as estações. O início dos protestos é marcado pelo boicote e queima de várias estações, com o sistema de transporte sofrendo severos danos até fechar suas operações. Mesmo depois da decisão de manter o preço do metrô sem o acréscimo de 30 pesos, os manifestantes não diminuíram a intensidade e presença nas ruas. O movimento chileno se constrói ao redor da pauta da reivindicação por uma nova constituição para o país, rejeitando a constituição atual promulgada durante a ditadura de Pinochet. Além de exigirem uma nova constituição para o país, incluem em suas demandas aumento de salários, melhores condições de saúde, educação e moradia, além de questões de mobilidade como descontos nos preços dos pedágios e mais ciclovias25.

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25. Manifestantes ampliam demandas e Piñera não consegue conter protestos no Chile, Estadão - Época Negócio, outubro de 2019.


26. One Million Take to Streets of Chile in the “Largest Mobilization Since the End of Dictatorship”, Democracy Now, outubro de 2019. 27. José Urrejola, Chile: destrucción de monumentos como protesta contra la historia oficial, Deutsche Welle, novembro de 2019.

O posicionamento anticapitalista, pode não ser consenso entre os manifestantes, mas é expressivo nas ações de destruição e depredação à símbolos de consumo, como televisores e outros aparatos de tecnologia. Durante os protestos, várias lojas foram invadidas, roubadas e queimadas. Muitos vídeos mostram manifestantes tomando as mercadorias roubadas das mãos das pessoas e jogando-as numa fogueira na rua. Protestos diante do prédio da empresa de energia Enel, e a crítica às empresas mineradoras, usurpadoras de terra e água das comunidades Mapuche , são estratégias de ataque às formas estruturantes do neoliberalismo. Pela articulação feminista, a proposta é organizar movimentos de base e incentivar as pessoas a tomarem conta das próprias questões. Um dos pontos é estruturar espaços e dinâmicas de cuidado, a partir do cuidado coletivo de crianças e pessoas idosas, assembléias locais para organizar questões de alimentos, e principalmente abrir espaços de discussão para o que querem como futuro e como país26. Assembléias populares têm sido articuladas nos bairros, performances artísticas e musicais também se unem as formas de protesto. As manifestações concentram-se nas regiões da cidade onde se encontram edifícios institucionais como o Palácio de Governo Principal e o Palácio Presidencial de La Moneda. Protestos de ciclistas e com bicicletas também se tornaram presentes na realidade das manifestações chilenas. Outra estratégia de apropriação do espaço público é a construção coletiva de marcos referenciais da paisagem e a destruição compulsória de monumentos em celebração à colonizadores europeus ou oficiais da ditadura27. A rejeição aos símbolos do autoritarismo oligárquico e militar revela o nível crítico e de reflexão histórica do movimento, que além de destruir os mo-

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numentos têm substituído-os por imagens simbólicas para a luta democrática do povo chileno. Resultados e consequências Assim como o movimento em Hong Kong, as manifestações no Chile continuam ocorrendo quase diariamente, até o momento em que escrevo esse trabalho, novembro de 2019. A repressão policial chilena têm escalado ao mesmo tempo em que se realizam assembléias de bairro, chamadas de greve, a consolidação das demandas dos movimentos chilenos, e confrontos abertos entre a polícia e a população, com o aumento da violência estatal. As três semanas de protestos resultaram em danos consideráveis à cidade, infraestrutura e para a imagem das instituições políticas e de defesa perante a população. Em termos materiais, a infraestrutura de metrô de Santiago teve 118 de suas 136 estações destruídas, 25 delas incendiadas em zonas povoadas pela classe trabalhadora chilena Estima-se que os danos estejam em torno de US$350 milhões28. Os dados oficiais do governo estimam que a depredação de patrimônios privados, como estabelecimentos comerciais, lojas e empresas, ultrapassa o valor de US$ 900 milhões. Ao longo dos protestos - e da resposta popular à imagens de Piñera jantando com seus netos enquanto a cidade protestava29 -, o presidente chileno declarou num num primeiro momento que os manifestantes estavam em guerra contra o governo, mudando de postura e passando a se mostrar aberto a conversar. Mesmo assim, a aprovação do governo Piñera cai a cada dia, e conta com a menor aprovação desde o início do processo de redemocratização do chile. (13% segundo o Cadem - empresa chilena de pesquisa e opinião pública). Piñera cancelou a realização da Conferência das Na-

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28. Dezenas de milhares vão às ruas em ‘supersegunda’ de protestos no Chile, Folha de São Paulo, outubro de 2019. 29. Em meio aos protestos, a foto do presidente Sebastián Piñera foi flagrado comendo pizza com seus netos em comemoração ao aniversário de um deles, viralizou no Twitter. Presidente do Chile vai a pizzaria durante protestos e foto viraliza, outubro de 2019.


30. Marcelo Mella pesquisa conflitos políticos em processos de transição e consolidação democrática e em política de educação superior. Professor da Faculdade de Humanidades da Universidade de Santiago de Chile.

ções Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2019, que seria realizada em Santiago e que foi então transferida para Madrid. Assumiu que o cancelamento se justifica pela atenção necessária às demandas sociais e que a prioridade de seu governo agora é endereçar uma nova agenda social. O presidente anunciou medidas como descontos na luz e medicamentos, aumento do salário mínimo e pensões, e desconto no salário de parlamentares. No entanto, segundo o político Marcelo Mella30, em uma entrevista à revista Época Negócio (Globo), o presidente chileno está se organizando com a classe política, já que não tem consegue dialogar diretamente com os movimentos sociais sem liderança e sem identificação partidária.

2.2. Análise Utilizo as três capacidades - narrativa, disruptiva e institucional - como chaves de análise dos movimentos, entendendo-as como sugere Tufekci que as vê como “músculos” necessários à todos as manifestações sociais que buscam transformar a realidade. A força e resistência desses músculos são capazes de determinar os resultados de uma manifestação, segundo a autora. Em relação à capacidade narrativa, a maior parte das revoltas sociais analisadas neste trabalho, e tantas outras que foram deixadas de fora da análise, alcançaram adesão de um grande número de pessoas em torno de suas demandas e pautas. O reconhecimento de questões como a desigualdade, pobreza e falta de liberdade e sua relação direta com a corrupção institucional das elites e classes políticas é elemento presente em todas as manifestações, independente do tipo de demanda ou agenda política. As gerações nascidas ao longo do período de 40 anos de democracias estéti-

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cas agora confrontam os aparentes modelos exitosos de transição democrática, desvelando tensões sociais que a globalização e o capitalismo têm acumulado, principalmente na américa latina com a ampliação da desigualdade. Assim, em sua grande maioria, as narrativas promovidas e sustentadas pelos movimentos são passíveis de serem identificadas pela maior parte da população. No entanto, além da capacidade de transmitir uma compreensão da realidade e ter essa compreensão reconhecida socialmente, a capacidade de mobilizar pessoas em torno de uma determinada pauta e reivindicação não promove a aglomeração espontânea de pessoas. A solidez do movimento em torno de sua narrativa é construída a priori, a partir de articulações de base em torno de demandas específicas anteriores à manifestações disruptivas. Isso fica claro nos casos analisados que mostram que a continuidade e habilidade de perseverar dos movimentos dependeu da estrutura de organização anteriores às experiências de protesto. É necessário articular uma visão de mundo e convencer as pessoas, tanto aquelas que são diretamente afetadas quanto a sociedade em geral, de que as pautas do movimento são legítimas. Porém, no momento de mobilizá-las, entraves de outra ordem surgem, como entraves psicológicos resultantes da ideologia capitalista. É necessário também convencer as pessoas de que é importante e possível buscar por mudanças, apontar um caminho de luta política e enfrentar perspectivas hegemônicas e capitalistas que já foram adotadas mesmos pelas comunidades mais exploradas. A possibilidade de divulgar sua perspectiva através da mídia é também um ponto central da capacidade narrativa, já que em muitas vezes as informações e imagens sobre os protestos são transmitidas

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31. Com conteúdo transacional quero indicar conteúdos que induzam o consumo de produtos relacionados à ele. Por exemplo, uma imagem de uma pessoa de férias pode se converter em consumo de hotéis, roupas de banho, procedimentos estéticos, etc. 32. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 193, Yale University Press, 2017.

e televisionadas segundo o ponto de vista do poder autoritário. Muitas das notícias sobre as manifestações mostram destruição, incêndios, manifestantes atirando pedras e quebrando carros, veiculando a ideia da violência dos movimentos enquanto encobre as verdadeiras experiências sociais. Além disso, muitas das informações sobre abuso de força policial e militar é ocultada do público, invisibilizando a brutalidade das ações estatais contra as pessoas. No caso brasileiro, é possível relacionar a narrativa da grande mídia às pautas conservadoras que se viram fortalecidas após a experiência das Jornadas de Junho. Nesse sentido, as mesmas redes sociais que permitem o compartilhamento mundial de informações, também são responsáveis pela controle de plataformas que priorizam conteúdos palatáveis e transacionais31 ao invés de materiais jornalísticos. Segundo Tufekci, “o poder de dominar a sociedade se relaciona com o poder de dominar a maior parte das perspectivas individuais sobre o mundo, e induzir as pessoas a aceitarem a ordem das coisas como corretas ou naturais32. Da minha experiência com o compartilhamento de informações sobre as manifestações de 2019, percebo que a maior parte das pessoas prefere não ver ou não ter contato com conteúdos sobre violência estatal. Ou seja, além do filtro externo da censura e dos algoritmos, os movimentos enfrentam também filtros internos ao indivíduo socialmente distanciados e desarticulados. Quanto à capacidade disruptiva, os diferentes métodos e estratégias usados e sua efetividade em interferir e romper com a normalidade, dependem também do nível de acesso e instrução tecnológica da população, o grau de censura e controle aos meios de comunicação em cada contexto. Em termos de estratégia e

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coordenação de ações, além do momento específico da manifestação, o movimento de Hong Kong é referência de organização. A composição do movimento, em sua grande maioria adolescentes e estudantes, têm alto grau de conhecimento tecnológico e são versáteis nos processos de decisão coletiva através de plataformas digitais. Creio que, levando em consideração a dimensão da multidão demandando por participação política e a necessidade de métodos e ferramentas para implementar processos participativos de decisão nesta escala, a capacitação tecnológica e o desenvolvimento de novos meios de comunicação e organização devem ser entendidos como prioritários para o sucesso dos movimentos. De modos distintos os movimentos descritos reconhecem o espaço urbano como um alvo primordial para as ações disruptivas. Seja fechando estradas, ocupando praças e grandes avenidas, inutilizando serviços de transporte ou impedindo seu funcionamento, as experiências de revolta social se voltam para o espaço físico das cidades e para as artérias do funcionamento da dinâmica do trabalho e do capital. Além da ocupação dos espaços públicos e do ataque direto a símbolos de poder, outras estratégias disruptivas se provam necessárias. O boicote a estabelecimentos que apoiam o poder instituído, organização de redes de apoio, compartilhamento de informações e conteúdos que comprovam uso desumano da força policial, e a construção popular de lugares de memória, são todos métodos disruptivos. As transformações nas relações sociais cotidianas, que sustentam os protestos e manifestações, também devem ser entendidos como parte da capacidade disruptiva. No vazio deixado pelas dinâmicas de trabalho e exploração quando durante períodos de revolta so-

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cial, cooperar global e localmente e poder vivenciar relações colaborativas a muito excluídas do cotidiano são também processo de aprendizado libertário. São disruptivas por operarem quebras, não apenas na dinâmica de funcionamento do capitalismo mas também, por romperem os laços exploratórios cotidianos que mantém o tecido social coeso, e a substituição destes por relações diretas de solidariedade. Tufekci descreve como se sentiam os manifestantes durante os protestos do Parque Gezi, na Turquia em 2013: “Os protestos do Parque Gezi, como muitos outros protestos em todo o mundo, favoreceram a auto-organização e rejeitaram políticas e organizações formais. Os voluntários administravam tudo, incluindo cozinhas comunitárias, bibliotecas e clínicas que cuidavam tanto de manifestantes com doenças menores quanto de pessoas com ferimentos graves. O parque tinha uma economia compartilhada onde nada era comprado e nada era vendido. As pessoas trocavam o que tinham e recebiam o que precisavam. Muitos manifestantes me disseram que essas trocas sem dinheiro estavam entre os aspectos mais agradáveis e​​ gratificantes de sua experiência com o Gezi. Pode parecer contra-intuitivo, mas muitos manifestantes também valorizaram o que aconteceu depois de serem intoxicados com bombas de fumaça , borrifados com pimenta, canhões de água e atacados pela polícia: estranhos os ajudaram e os protegeram. Não há nada agradável em ser contaminado por gás lacrimogêneo, mas a experiência de solidariedade e altruísmo nas comunidades engajadas em rebeliões coletivas foi profundamente comovente para pessoas cujas vidas eram dominadas

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pelas lutas mundanas pela sobrevivência e pela busca por dinheiro.”33 A capacidade institucional, ou seja, o que Tufekci entende como a “habilidade do movimento de evitar que políticos sejam eleitos, reeleitos ou nomeados à menos que estes adotem e apliquem políticas amigáveis à agenda social dos movimentos, ou a habilidade de forçar mudanças nas instituições através de estratégias internas e externas”34 se refere à solidez do movimento em enfrentar o poder instituído no mesmo lugar onde sua lógica é operada. Para que a realidade opressora seja transformada e as mudanças exigidas instituídas, Tufekci aponta questões influentes na capacidade institucional, como o controle estatal sobre a mídia e a questão do financiamento privado de campanhas políticas. Tais relações estruturadoras, porém extrínsecas, ao processo eleitoral impactam como o restante da sociedade vai reconhecer e legitimar os movimentos e suas demandas. De uma maneira ou de outra, a autora turca coloca a capacidade institucional como a processo de conformação do movimento social em um agente político capaz de disputar e discutir no mesmo nível de legalidade das estruturas do poder instituído. A conformação em partidos políticos é um caminho apontado por Tufekci como uma maneira de se consolidar o poder popular através de representatividade institucional. Contudo, o descontentamento com a falta de representatividade política dos movimentos, aliado a crescente desconfiança com a democracia representativa, fazem com que os movimentos não procurem se organizar em relações partidárias ou representativas. Não apenas pela descrença no funcionamento do Estado, mas também pelo perigo que correm aqueles que se colocam como líderes ou representantes populares.

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33. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, Prefácio XV, Yale University Press, 2017. 34. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 193, Yale University Press, 2017.


35 Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 190, Yale University Press, 2017.

Ao longo de seu livro, Tufekci apresenta a capacidade institucional dos movimentos como uma habilidade de mudar as opiniões políticas e impulsionar mudanças legitimadas pelo poder consolidado. No entanto, diante de demandas tão complexas e dificilmente de serem resolvidas dentro da lógica do funcionamento de Estados inseridos na dinâmica global do capitalismo, o ano de 2019 tem sido marcado pela repressão, silenciamento dos movimentos e as reações violentas a eles. Nesse ponto, a observação das práticas mostra que a capacidade institucional tem sido limitada. Me parece que mudar a cabeça dos líderes políticos não é um elemento interno da capacidade institucional, ou seja, não depende do nível de organização do movimento e sua legitimidade em relação à sociedade. Para além do número de pessoas protestando, da duração das manifestações ou do respaldo social, o reconhecimento das demandas e a efetiva transformação do funcionamento social não parece estar nas mãos da sociedade civil organizada. Diante da violência articulada e operada contra a população, nenhum movimento popular será capaz de superar ou vencer os governos através de conflitos armados. Mesmo Tufekci reconhece que “é raro que os movimentos sociais tenham tanto força quanto número para derrubar um Estado moderno, especialmente um [Estado] repressivo que consegue operar violência indiscriminadamente. Poucos movimentos sociais foram bem sucedidos através de força bruta, e a maioria deles não busca conflitos diretos ou violentos, o que não poderiam vencer de qualquer maneira. A polícia e exércitos, e as sofisticadas capacidades de vigilância, inteligência, comunicação e estratégia, podem ser mais fortes do que qualquer movimento social seria capaz de concentrar”35. O uso de armas e tecnologias “não-letais”, além de documentos

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internacionais regulamentando o uso e composição de armas químicas, não oferece segurança o suficiente para as populações dependentes das forças armadas como proteção. O que faz um povo quando aqueles comprometidos em protegê-lo, o atacam? Em grande parte das experiências, os movimentos têm feito o esforço de chamar a atenção da comunidade internacional e acionar mecanismos de intervenção humanitária. Seja recorrendo à ONU, Anistia Internacional e outros agencias políticas de direitos humanos, os manifestantes têm usado todas as ferramentas disponíveis na tentativa de publicizar suas demandas, questões e repressões. A centralidade dos Estados Unidos como mediador é hoje posta em dúvida devido à seus próprios interesses geopolíticos e econômicos nos conflitos internos aos países, assim como pelo comportamento displicente do presidente americano Trump. Dito isso, me dou o espaço de explorar o conceito de capacidade institucional em outra chave do que sugere a autora. Para ela, a institucionalidade se deve a capacidade do movimento de operar mudanças dentro das estruturas existentes e reformulá-las de acordo com a vontade social. Proponho entender institucional como processo e movimento, segundo a perspectiva da construção coletiva de organizações e modos de se relacionar para além das estruturas burocráticas que mantém. Não apenas mudar o funcionamento institucional existente, mas também erguer novas instituições sociais a partir dos movimentos. Nesse sentido, a capacidade disruptiva e institucional seriam realizadas concomitantemente. À medida em que as relações sociais capitalistas são quebradas mediante a ruptura do status quo e da dinâmica coti-

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36. Omaira Gill, Melissa Network: A hive built by migrant women, Deutsche Welle, 2017. 37. Nathan Schneider, Thank You, Anarchists, 2011.

diana de exploração, novas relações de cooperação, solidariedade e responsabilidade comunitária são fortalecidas a partir da organização do trabalho colaborativo. Conformar novas maneiras de se produzir e consumir, sustentar a vida e a satisfação das necessidades de todos, que me parece ser a discussão implícita em todos os movimentos, e garantir a manutenção dos valores democráticos dependerá da nossa capacidade de estruturar outras lógicas de organização da vida social. Exemplos de tais experiências disruptivas-institucionais são as bibliotecas, cozinhas, creches, e postos de saúde e atendimento psicológico comunitários e voluntários que surgem nos espaços públicos de cidades revoltas, assim como as relações de solidariedade que sustentam estes espaços. A realização de assembléias, cursos capacitantes, compartilhamento de bens sem a troca monetária também são um modo de instituir novas compreensões e possibilidades. Cito como exemplo Melissa Project, é um projeto para mulheres imigrantes na cidade de Atenas, na Grécia. Atende mulheres e crianças diariamente, oferecendo cursos de línguas, reforço escolar e almoço colaborativo. As mulheres que frequentam o espaço, mesmo sendo de diferentes culturas, idiomas e religião, se relacionam livremente e criar laços de solidariedade entre elas e com outras mulheres voluntários no projeto. 36. Assim como os métodos e estratégias de processos de decisão participativa direta. O movimento Occupy em Nova Iorque e em Atenas são exemplos dos processos de decisão participativa que ocorriam no momento das ocupações dos espaços públicos. Grandes assembleias tomavam conta do espaço, com a exploração de diferentes dinâmicas de participação coletiva37. O apoio coletivo, material e financeiro, já é hoje uma realidade para a construção dos movimentos. No Iraque, por

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exemplo, dentro do contexto de protestos que estão ocorrendo em 2019, os motoristas de Tuk-Tuk têm realizado o serviço de ambulância para os feridos durante os confrontos com o governo. Mesmo que eles não aceitem dinheiro em troca do serviço, os manifestantes têm angariado recursos para custear o combustível para os motoristas38. Ainda assim, penso que o sucesso dos movimentos não deve ser analisado diante da consolidação de suas mudanças ou medidos dentro de parâmetros e métricas do desenvolvimento convencionais. Em termos de aprendizado social, socialmente construído e globalmente compartilhado graças a internet, as reações e manifestações sociais têm alargado as possibilidades de relações humanas. Seja na interação virtual que permitiu que muitos de nós tivesse contato com as experiências e histórias narradas pelos próprios manifestantes, quanto pela capacidade de quebra da normalidade através de articulações locais e presenciais. Em 2019, o mundo assiste a destruição intensiva da terra e das pessoas que por ela lutam, o extermínio de etnias e suas propostas alternativas de vida, a exacerbação da desigualdade através da exploração de recursos monopolizados, a tentativa de manobrar a realidade através de contínuas reconstruções narrativas, e o filtro de conteúdo das redes sociais permite que a maior parte da população continue alheia à realidade dos conflitos. A violência estatal contra a sociedade civil desarmada não parece ter barreiras, legais ou humanas. Mesmo assim, insistimos em resistir e lutar por transformações reais. Submissão autoritária não é uma condição natural do ser humano, muito pelo contrário. Ao longo

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38. How tuk-tuk drivers became the unlikely heroes of Iraq’s popular revolt, NBC News, novembro de 2019.


da história da humanidade, a resistência e luta por liberdade tem sido fenômeno contínuo e espontâneo. Contínuo por se manifestar em todos os momentos da história e em todas as etapas de implantação do modelo monopolista. E espontâneo, por se apresentar como manifestação humana genuína em todas as culturas e sistemas políticos. Tais experiências têm sido compulsoriamente apagadas da memória social e política e mantidas distantes do imaginário social. A opressão, por sua vez, é operada sistemática e repetidamente pela história através de aparatos de violência e coerção, promoção de leituras ideológicas da realidade e o controle das condições de manutenção da vida. Diante de tal cenário, resistir à opressão, destruir estruturas sociais autoritárias e construir instituições comunitárias é a expressão mais honesta que podemos tomar pelo que resta de genuinamente humano em nós.

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3. AS REDES SOCIAIS COMO NEGÓCIO

“Se você não está pagando pelo serviço, então você deve ser o produto.”*

* “If You’re Not Paying For It, You Become The Product”, Scott Goodson, Forbes, 2012. Disponível em: https://www.forbes. com/sites/marketshare/2012/03/05/ if-youre-not-paying-for-it-you-become-the-product/#5b4e75f65d6e. Acessado em 18/11/19. 1. The Top 20 Valuable Facebook Statistics – Updated November 2019.

As redes sociais e demais tecnologias de comunicação pela internet têm sido ferramentas de extrema importância para a articulação dos movimentos nos últimos 15 anos. Passada a euforia inicial do uso do Facebook e Twitter durante a Primavera Árabe, tais plataformas se transformaram e aperfeiçoaram seus modelos de negócio. Este capítulo procura explorar as lógicas de funcionamento da plataforma, da interface, dos algoritmos e dos modelos de negócio das empresas Facebook (proprietária também do Instagram e Whatsapp) e Twitter. Todas as redes sociais funcionam numa mesma lógica, o seu efeito de rede. O interesse por determinada rede se baseia na quantidade de pessoas conectadas à ela e nossa relação com o conteúdo encontrado nelas. O Facebook oferece hoje conexão com 2,45 bilhões de pessoas1, o que significa a possibilidade de se relacionar com mais de um terço da população mundial. Hoje é possível, adicionar novos amigos, manter contato com pessoas para além do espaço e tempo, e nos

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manter atualizados sobre o que os outros estão fazendo sem precisar nos relacionarmos diretamente com eles. A possibilidade de conversar diretamente com outros usuários, criar grupos de interesse e compartilhar eventos, tudo isso disponível mundialmente, nos deu novas maneiras de interagir, e de entender o mundo sem a mediação de instituições e setores oficiais no processo de interação social. O Twitter por sua vez, hoje com 330 milhões de usuários mensalmente ativos2, permitiu que ideias, formuladas em 280 caracteres, repercutissem mensagens pro mundo inteiro assim como favoreceu o surgimento dos influenciadores digitais - sem esquecer da relevância de plataformas como o YouTube e Instagram nesse fenômeno. O uso do Twitter por figuras públicas que fazem uso da plataforma para pronunciamentos não oficiais, são também sinal tanto da proeminência da ferramenta para a comunicação no mundo contemporâneo quanto da apropriação destas por figuras de poder. Quanto mais pessoas conectadas à plataforma, maior o poder de atração ao conteúdo disponível nela3. Isso sinaliza não apenas o poder de atrair mais pessoas e mantê-las conectadas, mas principalmente, o poder sobre as informações e comportamentos dos usuários. Transformados em dados e análises econômicas, estes se tornam o principal produto das plataformas, conformando seus modelos de negócio. Com o produto da interação dos usuários, entre si e com a interface, as empresas Facebook, Twitter e Google, usam dos dados para se financiarem em mais de 85% através de publicidade4. No caso específico do Facebook, o financiamento por publicidade representa 98% de sua receita. O espaço de publicidade dessas empresas, organizado pelo algoritmo, permite que propagandas e anúncios de produtos específicos sejam

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2. Number of monthly active Twitter users worldwide from 1st quarter 2010 to 1st quarter 2019. 3. Isso não significa, no entanto, que essas empresas continuarão tendo o maior número de usuários ativos. Os últimos anos, após pesquisas e investigações sobre a influência e responsabilidade do Facebook em conflitos políticos e comerciais, o número de usuário tem oscilado e muitas pessoas optam por deletar suas contas. 4.Alphabet Announces Fourth Quarter and Fiscal Year 2018 Results. The Top 6 Shareholders of Facebook. Twitter, Inc. Common Stock (TWTR) Institutional Holdings.


apresentados aos usuários no momento em que estes são procurados. Ao invés de anunciar para um público heterogêneo em um canal de televisão, rádio ou outdoor, as plataformas digitais permitem a indicação individual de produtos segundo os interesses do usuário, sua proximidade geográfica e no exato momento em que estão sendo procurados. O pagamento pela publicidade também é diferenciado, já que é cobrado do anunciante um baixo custo inicial e tarifado segundo a quantidade de cliques recebidos pelo anúncio. Com a justificativa de nos ajudar a encontrar o que queremos no momento certo, essas plataformas não parecem entender que queremos mais do que consumir. O coração e mente das empresas é o algoritmo, ou seja, o código que determina o que é possível, como e com quem podemos nos relacionar. Além de mediar nossa interação digital, os algoritmos determinam o modo como interagimos. Com algoritmos construídos segundo a intenção de coletar dados para alimentar a operação de publicidade, ao invés de de promover conexões humanas, estas linhas de código estabelecem lógicas externas às interações sociais. O Facebook e o Twitter se viram sendo usados pelos manifestantes do mundo inteiro como ferramenta de organização política de grande impacto. Isso não significa que as empresas tenham reconhecido o uso ou celebrado as experiências. Ao contrário, o que pode ser visto nos últimos anos é a mudança no algoritmo e a lógica de funcionamento das plataformas, rearranjando as possibilidades de interação. Tanto o Facebook quanto o Twitter vêm aprimorando seus códigos com a justificativa de se tornarem mais precisos ao responder às buscas e interesses dos usuários com conteúdos transacionais, assim como para man-

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tê-los conectados constantemente, pelo uso ativo da plataforma ou pela coleta passiva de informações áudio e localização dos smartphones. As mudanças algorítmicas não dizem respeito unicamente às novas funcionalidades da plataformas, mas também como o conteúdo dentro delas é publicado e visualizado, impactando o alcance e resposta das postagens. Até 2016/17, os usuários recebiam as informações em seus feeds, Facebook e Twitter, em ordem cronológica de postagem das contas que seguiam. Em momentos diferentes, as duas empresas mudaram seus códigos de modo a hierarquizar e priorizar certos conteúdos em relação à outros. Antes a visibilidade das postagens não era editada ou ranqueada, muito menos eram priorizados certos conteúdos publicitários no feed. As modificações na plataforma abriram espaços privilegiados para os conteúdos pagos, e a reorganização do conteúdo apresentado ao usuário promoveu a canalização das fontes de informação específicas a cada usuário. Com a justificativa de manter o Facebook como espaço de interação entre amigos, a plataforma digital deslocou os conteúdos postados e compartilhados por amigos pro topo da lista, enquanto reduziu a visibilidade de páginas oficiais (diferentes das páginas de perfis de usuários). Para que as páginas oficiais vissem seus conteúdos voltando a atingir o mesmo número de visualizações anterior às mudanças, precisavam agora pagar por postagens patrocinadas. Diante da crise financeira do Twitter, este têm operado transformações em seu algoritmo, seguindo o movimento do Facebook. A empresa agora direciona conteúdos relevantes para a comunidade Twitter (segundo número de seguidores, curtidas ou comentários) com base na amostragem de interesses do usu-

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5. Will Oremus, Twitter’s New Order, Slate, março de 2017.

ário na plataforma. Para manter o usuário conectado, o feed é organizado de modo a otimizar as informações, organizá-las em blocos de interesse e mostrar as postagens com mais impacto no topo. A mudança garante que os tweets mais populares tenham lugar de destaque, permitindo a viralização de conteúdos em uma escala sem precedentes5. Além disso, ao passo que figuras públicas e políticas se utilizam da plataforma para comunicar mensagens não oficializadas, a relevância da rede social se coloca como canal direto de comunicação, assim como torna-o mais parecido com um canal de notícias atualizadas em tempo real, do que um meio de comunicação entre usuários. As métricas e análises do nosso comportamento induzido pelo algoritmo são usadas em relatórios econômicos de pesquisa de negócios. Manter o usuário online por longos períodos de tempo sem que este perceba, priorizar conteúdos palatáveis e transacionais, e monopolizar a atenção cotidiana através da liberação de doses de dopamina provocadas pela interface, são tópicos estruturais para o design da experiência do usuário na plataforma. Além da conformação da interação segundo a lógica do modelo de negócio por publicidade, os algoritmos têm influenciado restrições no alcance de certos conteúdos, enquanto impulsionam a propagação de outros, além de sugerir conteúdos que tenham relação com o comportamento do usuário na rede. As bolhas das redes sociais, resultado dos filtros operados pelos algoritmos, constroem canais restritos de informações que correspondem com certa visão específica do mundo. O usuário confortável com o reforço constante de suas crenças reage positivamente aos conteúdos e se mantém conectado por mais tempo. Para conseguir conquistar grandes porções do nosso tempo online, as empresas têm provocado ví-

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cios de uso das plataformas, através de estratégias de manipulação do comportamento humano. Pesquisas mostram como a interação e a validação social que recebemos através das redes sociais provocam respostas neurais muito semelhantes à experiência em máquinas caça níquel e uso de cocaína. A dopamina, um neurotransmissor produzido no cérebro, é responsável pela regulação e indução de comportamento com base em sistemas de recompensa operados pelo cérebro6. A experiência positiva e recompensadora, seja por comer uma comida saborosa, fazer exercícios físicos, sexo ou interações sociais satisfatórias, libera dopamina na circuito neural e ativa sensações de prazer7. O mesmo acontece quando nos relacionamentos socialmente através dos aplicativos, seja recebendo curtidas numa foto ou interagindo positivamente com outros usuários. Uma vez que a dopamina for liberada, o cérebro entende essa atividade como geradora de prazer, e recorre a ela toda vez que as sensações de prazer são demandadas. É comum abrir os aplicativos ao primeiro sinal de tédio ou desconforto, mesmo quando este acabou de ser fechado. Ao usar nossos sistemas biológicos de recompensa, os aplicativos garantem que nos manteremos online e consumindo os conteúdos apresentados. O Instagram, ao explicar como funciona seu algoritmo, deixa claro sua estratégia de uso das nossas respostas neurais no processo de manter o usuário interessado pela interface. O algoritmo que comanda o envio de notificações das curtidas da foto é programado de modo a criar um atraso inicial no recebimento das notificações. Assim, o usuário experimenta uma inicial sensação de frustração pela falta de resposta social, que é superada pela chegada em bloco de curtidas, provocando maior liberação de dopamina no cérebro.

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6. Trevor Haynes, Dopamine, Smartphones & You: A battle for your time, Harvard University - The Graduate School of Arts and Science, 2018. 7. Radiyyah Hussein, Functions of Dopamine: What is Dopamine and How Does It Affect you?, Cognifit Health, Brain & Neuroscience, abril de 2019.


8. William BradyJay Van BavelJohn JostJulian Wills, An ideological asymmetry in the diffusion of moralized content among political elites, Ideology Assymetry in Moral Contagion, 2019.

No caminho para explorar cada vez mais o comportamento humano, as empresas têm reforçado conteúdos e reestruturado a linguagem para alcançar e manter maior número de usuários por mais tempo. Uma análise feita por acadêmicos dos departamentos de psicologia, política e ciência de dados, e neurociência das universidades de Yale, Princeton e Nova Iorque, estudou cerca de 286 mil tweets de políticos durante o ano de eleição presidencial nos Estados Unidos em 20168. A conclusão da pesquisa é que tweets com maior apelo moral e com linguagem emotiva têm maior alcance entre os usuários da plataforma. A análise do discurso das postagens revela a articulação ideológica das mensagens através de linguagem moral-emocional, e dessa maneira também induzindo a percepção da realidade segundo esses mesmos filtros. A linguagem moral-emocional têm se tornado a lógica de discurso dos tweets, recorrendo a recursos linguísticos metafóricos e abstratos para a transmissão de uma compreensão de mundo. Esse tipo de mensagem provoca reações emocionais nos leitores, que acabam por sustentar seus posicionamentos dentro de argumentos de ordem afetiva e negar discussões análiticas sobre os temas. As pessoas não apenas reagem mais a esse tipo de postagem, como este têm se tornado a regra discursiva dos tweets. A mídia oficial, ao passo que volta sua atenção às postagens de políticos e presidentes, reforça e valida a mensagem e a linguagem. Desde 2011, pode-se dizer que, a internet e as redes sociais se legitimam como espaço público de participação política do mundo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que as condições de conformação das bolhas de conteúdos através dos algoritmos, as estratégias psicológicas de indução do comportamento

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vicioso, e os mecanismos linguísticos utilizados, influenciam e determinam o modo como nos entendemos, nos relacionamos e nos posicionamos online. A discussão política, que desde o período de redemocratização - pelo menos no Brasil - se encontrava amornada e com um posicionamento apolítico compartilhado por grande parte da população, se manteve distante do universo de reflexão política e social da maior parte da população. Lilia Schwarcz, em seu livro “Sobre o autoritarismo brasileiro”, analisa a guinada do movimento conservador e reacionário no Brasil contemporâneo e a queda da máscara de cordialidade que recobriam a pretensiosa identidade brasileira9. A esse processo relaciona também a exacerbação da polarização política advinda do uso das mídias digitais. Através da veiculação de discursos morais em plataformas alternativas à comunicação oficial, da suspeita em relação à imprensa, da deslegitimação do discurso de direitos das minorias e da descrença no conhecimento da academia. Tais táticas, aliadas às estratégias de uso das redes sociais, legitimam sentimentos autoritários, endossam posicionamentos conservadores e abrem caminho para a polarização afetiva da política. Ao passo que os discursos, mensagens, e notícias se radicalizam, independente da orientação política ou partidária, o espaço para o debate político se estreita aos comentários de ódio e memes. No momento em que a construção política volta a ser um elemento constituinte do processo de formação identitária, a internet e as redes sociais oferecem certa autonomia individual de aprendizado político ao mesmo tempo em que possibilitam horizontalidade de relações em contraponto ao seu controle oficial e hierárquico. Diante do sentimento generalizado de insatisfação com a realidade - e com a exacerbação de ques-

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9. Camilla Veras Mota, Brasileiro abandonou ‘máscara’ de cordial e assumiu sua intolerância, diz Lilia Schwarcz, Junho de 2019.


tões como desigualdade, insegurança e percepção da corrupção -, as pessoas se viram empoderadas por discursos que correspondiam com sua interpretação das explorações vividas. Tanto o caso do crescimento da direita quanto da esquerda, são resultados de um forte sentimento de rejeição da institucionalidade diante da falta de confiança da população com relação à imagem do poder instituído. A sensação de que as informações nas redes sociais seriam mais verdadeiras ou confiáveis por não passarem pelo filtro autoritário do governo e das mídias oficiais, permitiu não apenas a viralização de notícias falsas como também a ilusória percepção do alcance da vontade popular em tais plataformas. Para uma boa parte dos brasileiros que se sentiram parte de um ambiente político graças às redes sociais, ser político significa ter opiniões e defendê-las nas plataformas como forma de posicionamento e de construção de identidade. Compartilhar informações, eventos e notícias, adicionar filtros às fotos de perfil se tornaram o cerne da manifestação política individual. Participar de manifestações, que se tornaram uma realidade para o país desde 2013, é também um espaço de reconhecimento social, político e público. Se manifestar politicamente se realiza de duas maneiras: a ocupação efetiva do espaço público urbano e a divulgação de imagens, fotos e vídeos da participação individual nos atos e protestos políticos. A espetacularização da participação política individual através das redes sociais conformam as peculiaridades da construção do sujeito político contemporâneo ao passo que influenciam o processo de educação política. Resumidos às interações digitais semióticas e emocionais, comentários revestidos de discursos de ódio, e reforços ideológicos de suas interpretações sobre a realidade, os usuários entendem sua formação

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política como construção da solidez de seus argumentos e perspectivas. Enquanto isso, o debate, a construção coletiva e os processos de decisão participativa são elementos rarefeitos na experiência política virtual. A discussão política é achatada a tweets, memes, stories, operada por robôs com respostas automáticas e, muitas vezes, impossibilitada pela irracionalidade de posicionamentos radicais e intransigentes (à exemplo daqueles que negam as pesquisas científicas sobre o aquecimento global, o formato redondo da terra e a veracidade de notícias de corrupção). As bolhas de conteúdo e o reforço da linguagem moral-emocional propiciam a percepção de indignação social ao mesmo tempo em que não apresentam caminhos de transformação ou construção coletiva. O desencanto e desesperança com relação ao futuro e com o grau de autonomia e responsabilidade individual sobre a construção coletiva, por sua vez, servem de discurso para questionar a efetividade e legitimidade de lutas sociais. Para aqueles, como eu, que transitam em ambientes com diferentes níveis de envolvimento político e consciência social, não é raro escutar comentários desconfiados que ridicularizam quaisquer esforços por mudanças estruturais. Ao passo que entendemos como funcionam as redes sociais convencionais e as implicações do seu uso no processo de formação política contemporânea, resta perguntar se a Internet pode continuar sendo vista como espaço democrático, livre e aberto mesmo quando suas estruturas dependem de serviços monopolizados. Questionar o avanço do uso da internet e das redes sociais como ferramentas de formação, articulação e organização política é necessário. Porém, creio que esta questão se responde rapidamente dian-

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te do movimento acelerado do crescimento do uso da internet e da tecnologia e pela ampliação da sua presença em atividades e relações que já são parte inseparável do nosso cotidiano. Por isso, além de reforçar o espaço cibernético como espaço de luta política, defendo neste trabalho que nos apropriemos da internet e de sua tecnologia computacional, algorítmica e infraestrutural para construir ambientes democráticos que operem fora da lógica capitalista da comercialização de dados. Tais ambientes devem ser construídos levando em conta questões como autonomia da tecnologia de comunicação, segurança e promoção de conexão e colaboração humana.

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4. SIGNA

“ Sabendo usá-la, toda ferramenta é uma arma.”*

* “Every tool is a weapon if you hold it right”, Ani DiFranco.

Após as análises das redes sociais, e dos movimentos que têm feito uso delas, é possível reconhecer que a relação entre usuários é estabelecida quase que unidirecionalmente de indivíduo para indivíduo, ou de indivíduo para grupo. A visibilidade e interação dessas entidades é quase sempre determinada pelas relações já existentes, dificilmente promovendo espaços de encontro e colaboração entre os usuários. Além disso, as redes mais comuns permeiam o ambiente digital com débeis vínculos com o espaço físico, e mesmo quando promovem a ocupação da cidade, o fazem de modo pontual e temporário, assim como anônimo para o participante. A lógica de operação dos aplicativos nos induz a passar mais tempo online, consumindo conteúdos e interações virtuais ao passo que nos dá uma falsa sensação de proximidade e relação coletiva. Além de alterar a percepção que temos das nossas relações humanas, o uso constante das redes sociais reitera a distorção da percepção do espaço ao nosso redor. To-

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mando a metrópole de São Paulo e suas questões espaciais e sociais como foco para o desenvolvimento da SIGNA, levo em consideração a heterogeneidade do espaço urbano, o modo de operação do capital financeiro na cidade, o histórico de disputas urbanas e principalmente, a dificuldade de construir relações sociais para fora da rotina de trabalho e doméstica. A dimensão da mancha urbana, a setorização territorial da dinâmicas urbanas - moradia, trabalho, lazer -, e as condições de acesso ao transporte público da cidade são determinantes no nosso modo de experienciar a cidade. Consequentemente, impactam nossas possibilidades de relações e interações e a capacidade de construir coletivamente a realidade que vivemos. A experiência de interação nas redes sociais convencionais se limitam à produção e consumo de conteúdo, quase sempre de autopromoção, apego estético e transacional. Mesmo quando procuramos conteúdo político ou crítico, os digerimos a partir de imagens, memes e mensagens curtas. A rapidez e a mistura de diferentes conteúdos no feed suportam a compreensão confusa da realidade e das relações. Temos a falsa impressão de já termos entendido tudo, através de grandes títulos e linguagem moral-emocional. Confiamos nas opiniões, compartilhamos tweets, produzimos memes a partir de recortes da realidade que falsamente aparentam comunicar a totalidade. Enquanto consumimos, construímos nossos posicionamentos políticos, mas não propriamente uma habilidade política. Com habilidade política quero indicar a capacidade de ser responsável por seu posicionamento de modo a sustentá-lo segundo valores de justiça e veracidade, e estar disposto a empregar o tempo e o esforço necessários para processos participativos e de construção coletiva.

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1. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 5, Yale University Press, 2017.

Uma das aproximações teóricas que fiz para conseguir explorar a sociabilidade nas mídias digitais foi usar do conceito de razão comunicativa, e a consequente teoria da ação comunicativa, por Jurgen Habermas. Para Habermas, a linguagem é meio pelo qual nos articulamos, organizamos nossa vida, e formamos a nós mesmo e o ambiente ao nosso redor. Desse modo, a linguagem é uma ferramenta de transformação. E é através da ação comunicativa que podemos transformar a realidade ao nosso redor. A ação comunicativa pressupõe um espaço onde ela se realiza. Para Habermas, no século 19 os espaços públicos de relevância eram os cafés burgueses, por se transformarem em espaço de discussão política, de visibilidade e interação. Mesmo levando em consideração o recorte de classe de quem pode acessar tais espaços, a teoria pode servir de aproximação para concebermos espaços públicos de interação e discussão política nos ambientes digitais. Gerard Hauser coloca o mesmo conceito como “o espaço discursivo em que cada indivíduo e grupo se associam para discutir questões de mútuo interesse e, quando possível, alcançar um consenso sobre ele” 1.

4.1. A SIGNA como proposta Diante desse cenário, a primeira motivação por trás da SIGNA foi encontrar uma maneira de abordar o desenvolvimento político e social através das mídias sociais e da internet, de forma a abrir espaço para redes sociais capazes de estabelecer relacionamentos efetivos entre usuários e conectar pessoas para além da interface digital. A SIGNA foi desenhada com a intenção de promover o reconhecimento de iniciativas e intenções urbanas e uma maior participação democrática no processo de transformação da cidade, pensada

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como uma ferramenta social de conexões humanas a partir de sua interface digital que promove relações horizontais e multidirecionais entre as pessoas, suas propostas e projetos e sua efetiva transposição para o espaço urbano de maneira democrática. A SIGNA está sendo desenvolvida, como pesquisa e como projeto, desde agosto de 2018. No início de 2019, o projeto foi selecionado pelo Programa InovaGrad2 e está recebendo apoio na elaboração de modelos de planos de negócios, capacidades de empreendedorismo e desenvolvimento de startups. Além da qualidade do suporte ao programa, o projeto SIGNA não segue o plano de negócios comercial ou corporativo, nem pretende ser um serviço lucrativo. Por esse motivo, a SIGNA não procura investimentos reembolsáveis ​​e não é reconhecido como um modelo de inicialização. Acredito que a SIGNA é necessária como um projeto piloto para discutir autonomia e liberdade na interação humana por meio de plataformas digitais, que agora pertencem principalmente a empresas guiadas pelo lucro. Ao propor a SIGNA, espero encontrar uma maneira de refletir sobre a segurança da interação social e suas implicações de uso nas relações humanas, organização e lutas políticas. Muitas outras propostas de mediação social e ferramentas de conectividade devem surgir para oferecer às pessoas uma infinidade de possibilidades em interação e colaboração. Além disso, o projeto propõe uma das muitas maneiras de interagir online. O principal objetivo do aplicativo em si é conectar pessoas com interesses semelhantes, a fim de promover a colaboração na construção de projetos coletivos na cidade. Incenti-

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2. Iniciativa da Universidade de São Paulo em parceria com o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).


vando reuniões e encontro presenciais, localizadas em lugares estrategicamente centralizados onde o projeto pretende ser desenvolvido. A SIGNA quer fazer uma ponte entre interações virtuais em plataformas online e relações sociais concretas. Com isso em mente, espera-se ser uma das muitas possibilidades de transposição da conexão virtual para experiências sociais e espaciais reais. Os princípios que a SIGNA deseja promover são de colaboração horizontal, organização livre, solidariedade e a possibilidade de criar uma identidade pessoal e política através de experiências sociais coletivas. Ao pensar no perfil dos beneficiários, o objetivo é indivíduos, grupos, organizações, movimentos e instituições, ansiosos por construir parcerias e esforços conjuntos na realização de projetos. Como forma de exemplificar os possíveis usos do SIGNA, listo quatro projetos possíveis: - Indivíduos que procuram parceiros em atividades de lazer ou hobbies específicos; - Grupos comunitários que propõem a limpeza, recuperação ou intervenção em espaços públicos dentro do bairro; - Grupo de pessoas (profissionais, voluntários, ativistas) construindo projetos de apoio social, a fim de abordar problemas sociais e dinâmicas exploratórias. - Na organização de eventos colaborativos. Durante a pesquisa, realizei entrevistas e contatos com grupos e indivíduos que me pareciam de interesse para o desenvolvimento da plataforma. O planejamento do trabalho pressupunha a realização de vários contatos que trabalhassem com temáticas diferentes, no entanto apenas algumas instituições estavam dis-

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poníveis para me receber. As entrevistas foram realizadas com: - Ciclocidade (Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo - Coordenação de Políticas Públicas para a População em Situação de Rua e Coordenação de Políticas Públicas para Imigrantes, ambos parte da Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo - ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, Escritório de São Paulo - Rede Butantã, uma Rede de Movimentos Sociais na Região do Butantã, em São Paulo - Fundação Rosa Luxemburgo, Escritório de São Paulo - Movimentos da contracultura, anarquistas e antifascistas

4.2. A SIGNA como projeto A SIGNA, a princípio, se chamava INCUBA. A ideia de incubadora estava inicialmente relacionada com o ato de proteger e nutrir iniciativas urbanas. No entanto, após o curso do SEBRAE, pude entender que a palavra incubadora tem outro significado no mundo dos negócios, se relacionando com ambientes empresariais de investimento de recursos financeiros que serão depois reembolsados quando o projeto - ou, geralmente, a startup - alcançar estabilidade e ser escalável3. Por isso, o projeto foi rebatizado por SIGNA, palavra sinônima de bandeira. A bandeira por sua vez, é o logo da SIGNA, ao passo que simboliza o hastear de diferentes bandeiras no território. Proponho quatro maneiras de interagir na plataforma: A SIGNA é para quem procura formas de propor projetos para a cidade-região-bairro, de forma

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3. No vocabulário do empreendedorismo de startup, escalável significa ser capaz de crescer rapidamente e reproduzir seu modelo de negócio em maior escala sem ter de alterar significativamente a base da operação.


colaborativa; para aqueles interessados ​​em participar de projetos coletivos; e para aqueles interessados ​​em apoiar as propostas, material, espacial ou financeiramente. Propor um projeto - Criar uma chamada de projeto e descrever quais são os objetivos, público-alvo, plano de ação inicial, parcerias existentes e o que considera mais relevante. Indicar também o tipo de participação entre livre, limitado e selecionado, a data da primeira reunião e o local da reunião. Ao escolher o ponto de encontro, lembrar de locais facilmente acessíveis por transporte público. Se não possuir espaço dedicado, dê preferência a locais públicos, como centros culturais, bibliotecas e cafés. Envolver-se / Participar - Encontre um projeto que lhe interessa. Peça para participar: A SIGNA promove três tipos de participação: livre; limitado, com um número limitado de participantes; e selecionado, onde os organizadores selecionarão os participantes de acordo com o perfil mais compatível com as atividades. Apoie - Se não puder participar, não tem problema. Se gostar do projeto, pode apoiar a ideia doando materiais, serviços, hospedando espaço ou ajudando financeiramente. O último assume que o projeto utiliza plataformas de crowdfunding. Avalie - votar e promover projetos para posições de destaque, aumentando a visibilidade das chamadas. Os votos ajudam os organizadores a receberem seus comentários sobre a ideia e sua representatividade na cidade.

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4.3. A SIGNA como conceito Para o desenvolvimento da SIGNA, três questões-chave foram levadas em consideração, a questão do espaço, a questão da identidade e a questão do projeto como articulador social. O espaço, como percepção e como acesso, determina nossa relação com a cidade e com os outros habitantes. O tempo de trânsito cotidiano de pessoas pela metrópole acaba reduzindo a disponibilidade e a disposição dessas em se envolverem em projetos ou ideias para além da dinâmica do trabalho. Por isso, a SIGNA se volta para a proximidade territorial como determinante da conexão entre usuários e projetos. Sendo possíveis transformadores da realidade urbana, material e socialmente, os projetos serão publicados como bandeiras georreferenciadas em um mapa interativo da cidade, permitindo a disseminação das propostas e os usuários a navegar, analisar, engajar e propor novas idéias. Dessa forma, abordando bairros, regiões, pessoas e questões que interessam. Os projetos são inseridos segundo seu raio de abrangência - determinado no momento de criação da chamada de projeto - o que permite que a escala urbana da ideia seja levada em consideração. Projetos que se voltam para a construção de iniciativas de bairro, organizadas e abertas para moradores e frequentadores da região e que se baseiam em relações de proximidade geográfica, são caracterizados por sua escala local. Isso significa que apenas pessoas que cruzarem a área de abrangência receberão a notificação de aviso do projeto, ainda que o projeto seja visível para todos aqueles registrados na plataforma. Projetos que se propõem urbanos, onde a quantidade ou diversidade

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4. Conceito marxista que entende o fetiche como o ofuscamento das relações sociais que moldam determinado fenômeno. 5. A revolução espanhola em 1936, experiência anarquista de resistência ao avanço fascista do exército de Franco, teve duração de três anos. Mas que se pudesse viver três anos de revolução e autonomia política, a Espanha passou por 70 anos de educação anarquista no território.

de participantes são de interesse, são caracterizados pela escala urbana. Já projetos que abrangem toda a metrópole de São Paulo, se caracterizam por sua escala metropolitana. A questão da identidade por sua vez é colocado ao passo em que me perguntava o que era necessário para que as pessoas se identificassem com determinada visão de mundo e como se identificavam em grupo. A polarização política tem impedido diálogos por causa de conflitos partidários ou discursos morais-emocionais recheados de conceitos ambíguos, seja pelos fetichismos4 que os recobrem seja pela disformidade da compreensão social sobre eles. No entanto, entendendo político como a construção de uma atitude aberta, comunicativa e democrática no processo de decisão coletiva sobre o futuro, o posicionamento individual é deslocado e posto em paralelo às vontades coletivas. O esforço de associar os anseios individuais e as necessidades coletivas é o campo do aprendizado político que se opera dentro da ação comunicativa. Para que isso seja possível, precisamos aprender a colaborar e a criar relações de sociabilidade autônomas e livres da dinâmica do capital. Esse aprendizado não é rápido5 e muito menos provocado pela explosão espontânea de uma revolução, mas sim um longo processo de distribuição de educação e valores democráticos e libertários. A capacidade das organizações de proteção à floresta amazônica de constituir resistência frente aos ataques ocorridos em 2019 - num cenário de desarticulação e desmonte das políticas de proteção ao território e aos povos que nela vivem - podem ser entendidos como resultados do processo de educação social e política ocorrida durante o período de rede-

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mocratização. A validação da luta indígena e a demarcação das terras indígenas, a luta dos seringueiros com destaque para o seringueiro Chico Mendes, e a validação internacional à agenda ambiental, foram processos de legitimação de uma agenda social e ambiental que permitiu o aprendizado e desenvolvimento política da população da região. Esse aprendizado é hoje visível pela capacidade de articulação nacional e internacional das lideranças indígenas e das comunidades. A SIGNA propõe que a construção política seja realizada segundo aspectos múltiplos de construção da personalidade, onde as pessoas possam se associar segundo suas vontades e ideias não necessariamente articuladas com discursos partidários ou diretamente ligados a um posicionamento ideológico6. Por isso, a questão do projeto como dinâmica de articulação social é vista como estratégia para viabilizar a ação comunicativa. No momento em que temos que discutir propostas reais, um campo novo de comportamentos deve ser praticado de forma a estarmos politicamente dispostos a construir coletivamente. O exercício de colaborar, decidir e organizar coletivamente um projeto, independente da escala ou do tema, é fundamental para garantir a possibilidade de transformação social, assim como a educação política engajada com a realidade, a convivência e a troca. Além de abrir espaço para a discussão e realização de vontades coletivas, a SIGNA propõe relacionar usuários a seus temas, permitindo que cada um seja capaz de encontrar propostas e pessoas de interesse.

4.4. Referências Ao longo de um ano e meio de pesquisa, algumas referências de projetos similares me influenciaram.

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6. Um exemplo disso é o caso do Movimento Otaku, no Chile, onde aqueles se identificam como Otakus se juntaram aos protestos a partir de suas referências internas. Otaku é uma palavra japonesa usada para designar fãs fanáticos por animes e mangás.


Aqui apresento as três referências base para a SIGNA, descrevo-as brevemente e sinalizo quais as diferenças entre a proposta da SIGNA e o projeto de referência. Projeto SynAthina (Grécia)

https://www.synathina.gr/en O SynAthina é uma plataforma de inovação social criada por Atenas para envolver os cidadãos nessas reformas e para colocar a sociedade civil em contato e dialogar com a administração e os líderes políticos da cidade. Reforma e para colocar a sociedade civil em contato e dialogar com a administração e a administração da cidade. A Synathina, um dos cinco vencedores europeus do Bloomberg Mayors Challenge Award, mapeia essas iniciativas, aumenta sua visibilidade e as ajuda a se conectar com o setor privado, especialistas e administrações locais. Ao avaliar as atividades dos cidadãos e reconhecer as melhores práticas da sociedade civil, a synAthina informa constantemente a administração municipal sobre as prioridades dos cidadãos e apela a regulamentos atualizados, procedimentos simplificados e sinergias criativas com os cidadãos, a fim de melhorar a eficiência da administração na resposta aos cidadãos. O contato com o projeto SynAthina me permitiu entender sua proposta e pensar em como aumentar a autonomia, a colaboração e a solidariedade, promovendo o reconhecimento social das iniciativas urbanas. O SIGNA difere do SynAthina, dissolvendo a responsabilidade concentrada e a legitimidade do município como validador e apoiador de projetos, e distribuindo-o à comunidade e aos moradores da cidade.

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Colab.re (Brasil)

https://www.colab.re/ O Colab é um aplicativo, com funções semelhantes ao instagram, que fornece uma ferramenta online para os cidadãos postarem fotos de problemas da cidade (situação da calçada, problemas de coleta de lixo, etc.) e aumentam a conscientização do município sobre a manutenção do espaço urbano. A Colab já fez contratos com alguns municípios do Brasil como forma de legitimar o uso das informações do aplicativo como estratégia de comunicação governamental. O SIGNA difere da Colab em sua atitude ativa e proposital, como contraponto às demandas populares das instituições públicas. Tem açucar (Brasil)

http://www.temacucar.com/sobre-nos A plataforma quer facilitar o compartilhamento de coisas entre vizinhos. Eles buscam promover a colaboração, camaradagem e um senso de comunidade. Ele quer resgatar o hábito de bater na porta de um vizinho para pedir um copo de açúcar. E dá uma mãozinha para bater em várias portas em minutos. Através do aplicativo, é possível oferecer ou solicitar e se comunicar com os vizinhos em uma mensagem rápida e disseminada. O SIGNA difere de Tem Açúcar em sua abordagem ativa e orientada ao projeto, e possibilita espaço para que as pessoas possam manifestar suas propostas.

4.5. A SIGNA como rede social Para que a SIGNA seja legitimada como rede so-

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cial, as pessoas precisam se interessar por ela, criar contas e interagir pela plataforma. Tendo isso em mente, a SIGNA tem um plano de engajamento das pessoas a partir de uma campanha de divulgação e de workshops de instalação. A campanha de divulgação será realizada em meios digitais e físicos. Os meios digitais serão através de postagens patrocinadas nas redes Facebook e Instagram, de forma a também acessar tais usuários. As intervenções físicas serão em forma de pôsteres colados em locais públicos, se utilizando também do espaço físico da cidade para chamar a atenção do possível usuário. Os workshops de instalação serão realizados com movimentos e organizações interessados, consistindo da instalação, criação de conta e usabilidade do aplicativo. Além dos workshops programados, penso fazer algumas intervenções em locais públicos de lazer para divulgar a plataforma. Depois que o aplicativo for validado e o software concluído, o próximo passo será ampliar o alcance da SIGNA para outras cidades do mundo, como uma maneira de aumentar a conscientização sobre as atividades coletivas globais e promover a colaboração em todo o mundo. Nesta fase, é altamente importante considerar como e qual serviço de servidor em nuvem será usado para hospedar o SIGNA e quais são as implicações nos dados e na segurança do usuário. Mais adiante, discuto as questões sobre a infraestrutura de servidor da SIGNA. Como parte do objetivo de incentivar relações políticas horizontais de solidariedade, colaboração e organização, a SIGNA quer ajudar as pessoas a exercer

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seus valores comunitários, bem como sua força de autodeterminação, apoiando o processo de criação e coordenação de projetos e propostas sociais. Para atingir esses objetivos, e quando os recursos estiverem disponíveis, a SIGNA propõe um escritório aberto no centro da cidade de São Paulo, onde a equipe da SIGNA estará disponível semanalmente para oferecer apoio estratégico e organizacional para quem deseja criar projetos mas não sabe como propô-los, além de um espaço de coworking aberto para reuniões de projetos. O aplicativo SIGNA está em fase de idealização. O primeiro rascunho do protótipo foi feito usando o Adobe XD e o vídeo da apresentação está disponível em sites.usp.br/incuba, juntamente com uma pesquisa que espera coletar o feedback das pessoas sobre a ideia. O site está disponível em várias línguas, com vídeo de apresentação e questionário também em inglês. A divulgação da plataforma tem sido feita pelo Facebook (conta pessoal), Instagram e pelo Reddit.

4.6. A SIGNA e sua autonomia Para garantir que a SIGNA seja autônoma, segura e confiável, a infraestrutura da plataforma deve ser construída, física, informacional e legalmente de forma que não pressuponha a comercialização de dados ou o uso do espaço virtual a partir da lógica da publicidade. Para isso, a sustentabilidade financeira do projeto tem sido estudada de modo a abrir caminho para tecnologias de comunicação social alternativas. Para qualquer ambiente digital, existem algumas demandas básicas para seu funcionamento. Estes são os códigos que comandam as operações e funcionalidades, os códigos que caracterizam esteticamente a interface, os servidores onde estarão hospedados os

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códigos e dados dos usuários e os meios pelos quais as pessoas podem acessar, baixar e instalar o aplicativo em seus celulares. Levando isso em consideração, a SIGNA é concebida como uma plataforma de código aberto e com controle social sobre as mudanças no algoritmo e interface. Isso significa ter autonomia sobre os códigos do aplicativo. Quanto aos servidores, a pesquisa ainda não está resolvida. Meu aprendizado sobre o funcionamento dessas tecnologias caminha junto ao desenvolvimento da pesquisa. O que entendo é que para que o aplicativo e todos seus dados estejam disponíveis para os usuários conectados pela internet, ele precisa ser conectado à rede através de um servidor. O servidor armazena os códigos e dados, opera programas e distribui informações. E é necessário um servidor para hospedar a SIGNA e mantê-la conectada aos usuários em tempo real. Entendendo a importância do servidor quanto à segurança dos dados e a sua utilização comercial, a primeira ideia foi construir e manter a própria infraestrutura de servidores e garantir segurança de rede aqui mesmo em São Paulo. No entanto, questões como a instabilidade de serviço e dificuldade de escalar o aplicativo me fizeram considerar a possibilidade de usar serviços das grandes empresas de servidores em nuvem. Os servidores em nuvem oferecem serviços com maior estabilidade por estarem hospedados em uma série de servidores conectados ao redor do mundo. Empresas que oferecem tal serviço são a Amazon Web Services (AWS), a Google Cloud Platform (GCP), e a Azure - empresa pertencente à Microsoft. Qualquer uma dessas empresas possui centros de servidores em diferentes lugares do mundo, e é possível escolher a

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localidade que você quer hospedar seus dados. As duas mais competitivas em preço são a AWS e a GCP. Mesmo não compreendendo em detalhes a configuração dos serviços que as empresas oferecem, procurei entender de que forma elas reconhecem e interagem com os dados hospedados. A AWS diferencia os dados de duas maneiras: as informações do cliente, ou seja nome, endereço, informações de pagamento, etc da pessoa que contratou o serviço; e o conteúdo do cliente, que diz respeito aos dados e códigos armazenados na nuvem. O primeiro tipo de dados, as informações do cliente, são insumos comercializáveis para a empresa, enquanto que o conteúdo do cliente não é. Para a GCP, estes assumem que seus dados estão protegidos por termos de uso, e que a Google poderá ter acesso as suas informações apenas se for permitido. A Google têm desenvolvido ferramentas de análise de dados para diferentes serviços, exemplos disso é a Google Search Console, permitindo que webmasters verifiquem o status de indexação e otimizem a visibilidade de seus sites, e o Google API Console, oferecendo serviços de API. As mesmas ferramentas estão disponíveis para o cliente da GCP no tratamento e análise dos dados do servidor. No entanto, usar tais ferramentas significa dar acesso a Google às informações armazenadas e alimentar os processos de aprendizado de máquinas7. Existem críticas ao desenvolvimento de inteligências artificiais8, o que não tem impedido a tecnologia de avançar. Profissionais da área de tecnologia, psicologia e sociologia apontam diferentes impactos do processo, seja no modo como o modelo de aprendizado é construído quanto das implicações no futuro. A minha crítica específica é a ausência de regulações sérias sobre a proteção dos direitos das inteligências artificiais. Sem a proteção

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7. O machine learning faz parte do conceito de inteligência artificial, que estuda meios para que máquinas possam fazer tarefas que seriam executadas por pessoas. Um exemplo disso é o desenvolvimento do GPT-2, um modelo que prevê palavras e é capaz de compôr textos a partir do conjunto de dados de mais de 8 milhões de páginas da internet. 8. Despite advances, Artificial Intelligence still faces critics, CGTN, maio de 2017.


do direitos de autonomia das máquinas, sua utilização poderia ser considerada escravizadora e exploratória, sendo apenas um novo passo para o movimento de concentração capitalista. Por isso, me coloco contra a perspectiva de alimentar o aprendizado Google com dados humanos A minha crítica ao aprendizado de máquinas, e ao processo de desenvolvimento das inteligências artificiais, me faz optar pelo serviço da AWS. Entendo que isso implica a limitação das análises de interesse que seriam possíveis com as ferramentas da Google.

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5. COMENTÁRIOS FINAIS

“Apenas a inquietação constrói saberes desviantes.” *

* “Solo la inquietude construye saberes desviantes.” Fernanda Grigolin, Soy aquella mujer del extremo izquierdo del cuadro.

Com esse trabalho procurei apresentar o que reconheço como a única ferramenta de transformação social efetiva. Não o aplicativo ou a rede social, mas a livre associação de pessoas, a partir de suas afinidades, na construção coletiva de novas relações sociais. Acredito que a revolução, como processo, deve se realizar através da destruição das condições de exploração capitalista concomitantemente a construção de instituições, reorganização e ressignificação das atividades necessárias à manutenção da vida de acordo com nossas próprias lógicas de cooperação e solidariedade. O vácuo deixado pela destruição das estruturas de exploração é um risco a todos os movimentos por ser historicamente neste momento em que as revoluções são cooptadas por discursos autoritários ou burgueses. Não acredito na revolução imediata, espontânea e repentina. E também não acredito em um modelo autoritário de transição. Vejo a revolução como um lento processo de aprendizado social e político e de retomada do poder popular segundo articulações autônomas

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e libertárias, e sua articulação segundo o federalismo. A capacidade de instituir relações e instituições coletivas e comunitárias, estruturar modelos de produção e consumo que se baseiam na satisfação universal das necessidades essenciais e construído a partir do respeito mútuo a todas as espécies da terra. Nada disso é novo, nada disso é impossível. As inúmeras experiências de resistência, enfrentamento e recusa à imposição de explorações e monopólios, assim como suas propostas de sociabilidade, cultivo, consumo coletivo e colaboração comprovam a habilidade humana de continuar procurando por formas alternativas à realidade capitalista. Dentro dos meus estudos, até o momento, olho pro movimento curdo como o modelo de libertação a partir de suas propostas coerentes com a efetiva extinção das estruturas de dominação. Resumo as três propostas do movimento curdo: a abolição da dominação da mulher pelo homem, conjuntamente a inserção destas em todas as instâncias da vida social e política (incluindo a formação de um exército feminino armado como forma de garantir a defesa da mulher diante da violência patriarcal); a rejeição da organização do Estado-nação e a adoção do confederalismo democrático como conformação política e territorial, promovendo a inserção política de toda população para além de sectarismos étnicos, religiosos ou sexistas; e a orientação do modelo econômico segundo princípios da ecologia, de forma a respeitar e manter a livre existência de todas as espécies do planeta. Anarquista foi o nome dado a todos àqueles que buscavam a liberdade e a autodeterminação como princípios para a Revolução Francesa. Anarquista foi o nome dado àqueles que se opuseram à determinação da 5º Internacional de instituir o poder concentrado a

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partir da transformação do movimento operário em um partido único. Anarquista é o nome dado para todos àqueles que se vêm combatendo a opressão em suas formas estruturais com o ideal de promover a distribuição de poder e garantir a defesa popular dos valores democráticos e libertários. Os princípios anarquistas têm ressurgido no mundo contemporâneo, manifestando-se anonimamente na organização de movimentos com diferentes orientações e bandeiras. Organização horizontal, apoio mútuo, solidariedade, ação direta, rejeição à formação partidária ou à democracia representativa, e a rejeição à relações comerciais, são princípios baseados em relações livres de opressão e sem desbalanço de poder. Independente de como nos chamam, anarquistas são aqueles que sentem repulsa imediata a toda forma de opressão e autoritarismo e que se manifestm através de uma genuína busca por liberdade. Ainda assim, quero deixar claro que valorizo as lutas legais e aquelas que se voltam para a construção de uma agenda social dentro do Estado. Por entender que a transformação só será possível a partir do aprendizado social e da distribuição popular de educação política, vejo como vantajosas todas as iniciativas que visam empoderar movimentos populares no processo de disputa política. No entanto, acredito ser necessário abrir espaço para a crítica e análise das consequências e resultados advindos dessas relações, de modo a avaliar quais processos promovem autonomia e fortalecimento e quais colocam os movimentos em posições vulneráveis à cooptação ou silenciamento por parte do Estado. Por fim, quero reforçar a importância de criarmos estruturas e estratégias que possibilitem o surgimento

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de novos espaços seguros e autônomos na internet. Assim como ampliar e distribuir o conhecimento técnico e o controle social sobre a tecnologia e seus modos de operação. O discurso da inclusão digital, como processo de democratização do acesso à tecnologias da informação, não deve ser limitado apenas ao fornecimento de dispositivos para conexão, acesso à rede e o domínio dessas ferramentas. A inclusão deve garantir a instrumentalização da população como criadores, produtores e mediadores das tecnologias e não apenas como consumidores de tais tecnologias. Durante o desenvolvimento deste projeto percebi a impossibilidade de viabilizá-lo sem aporte financeiro. A contratação de profissionais programadores, serviço de hospedagem e pagamento de taxas para a disponibilização do aplicativo na Play Store e Apple Store, além do material de divulgação e custos de transporte, são despesas reais para a realização da SIGNA. Por isso, entendi desde o princípio que a dificuldade de construir a proposta seria a barreira que qualquer proposta fora da lógica capitalista enfrentaria. O curso oferecido pelo SEBRAE, através do Programa InovaGrad, e o suporte na elaboração de planos de negócio, desenvolvimento de capacidades empreendedoras e de criação de startups, foi importante no entendimento das possibilidades de financiamento e dos moldes de sustentação financeira da plataforma. No entanto, por não seguir plano de negócios comercial ou corporativo, nem pretender ser um serviço lucrativo, a SIGNA não procura investimentos reembolsáveis e​​ não é caracterizada como startup. A solução foi procurar financiamentos não reembolsáveis na forma de editais abertos que contemplassem a proposta da plataforma.

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Até o fim deste trabalho, submeti a SIGNA ao edital Internet Freedom Fund, da Open Technology Fund. A fundação financia projetos como Tor Onion Services, Qual.net e Open Archive, entre outros. Os projetos mencionados oferecem formas de monitorar o nível de censura em países autoritários, e a contornar limitações de acesso impostas por esses governos.

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6. NOTAS E REFERÊNCIAS 1. Introdução e Justificativa 1. Tal formato de governo ainda se encontra validado mesmo que impactado por discursos neoliberais. Ao mesmo tempo em que a globalização relativiza as escalas de poder e controle dos Estados-nação sobre as trocas capitalistas e a crescente necessidade de mobilidade do capital financeiro. 2. Öcalan, Abdullah, 1948, Confederalismo Democrático, tradução Coletivo Libertário de Apoio a Rojava, Rio de Janeiro, Rizoma, 2016., p.18. 3. Öcalan, Abdullah, 1948, Confederalismo Democrático, tradução Coletivo Libertário de Apoio a Rojava — Rio de Janeiro : Rizoma, 2016., p.18. 4. “O Estado promove a acumulação de capital em uma escala além da qual sua produção pode ser absorvida (a preços cartelizados) pela demanda privada; e, portanto, o capital depende do Estado para dispor desse excedente.”Tucker, Benjamin, State Socialism and Anarchism, Liberty, 1888. 5. Stephen Schecter, A política da Libertação Urbana, Sementeira, Lisboa, 1947, p.30. 6. Devon Douga - Bowers and Colin Jenkins, Violence, Counter-Violence, and the Question of the Gun, Social Movement Studies, Analysis, The Hampton Institute, 2016. Disponível em: http://hamptoninstitution.org/ violence-counterviolence-and-guns.html. Acessado em 16/11/19. 7. ŞOREŞA ROJAVAYÊ: Revolução, uma palavra feminina, Biblioteca Terra Livre e Comitê de Solidariedade à Resistência Popular Curda de São Paulo, 2016. 8. Nathalie Drumond, A guerra da água na Bolívia: A luta do movimento popular contra a privatização de um recurso natural, Revista Nera – Ano 18, Nº. 28 – Dossiê 2015. Disponível em: http://revista.fct.unesp.br/index.php/nera/article/view/3998. Acessado em: 16/11/19. 9. Relatório sobre os direitos da população atingida pela implementação da usina hidrelétrica de Belo Monte e da Mineradora Belo Sun, Conselho Nacional dos Direitos Humanos - CNDH, 2017.Kena Azevedo Chave, Mario Monzoni, Letícia Ferraro Artuso, UHE Belo Monte: reassentamentos rurais, participação social e direito à moradia adequada. Rev Direito GV, Vol 15 n.2 São Paulo, 2019. 10. Margaret Robinson, Nativas Feministas Comem Tofu, Coisa Preta,

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2017. Disponível em: https://coisapreta.noblogs.org/nativas-feministas-comem-tofu/. Acessado em 18/11/19. 11. Andrew Jacobs and Matt Richtel, Como a Grande Indústria Viciou o Brasil em Junk Food, NY Times, 2017. Disponível em: https://www. nytimes.com/2017/09/16/health/brasil-junk-food.html. Acessado em 18/11/19. 12. Silvia Federici, O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista, Editora Elefante, 2019. 13. Pierre-Joseph Proudhon, The System of Economic Contradictions, The Marxists Internet Archive, 1847. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/pierre-joseph-proudhon-system-of-economical-contradictions-or-the-philosophy-of-poverty#toc20. Acessado em: 16/11/19. 14. Harry Braverman, Labor and Monopoly Capitalism: The degradation of work in the Twentieth Century, p.276-277, Monthly Review Press, 1974. Disponível em: https://caringlabor.files.wordpress.com/2010/11/ 8755-labor_and_monopoly_capitalism.pdf. Acessado em 16/11/19. 15. Edward O. Wilson, A conquista social da terra, Companhia das Letras, 2013. 16. Não quero com isso defender o mito do bom selvagem, mas quero apontar para a diferença entre relações e estruturas sociais construídas a partir de dinâmicas próprias de uma cultura, lugar e povo, em contraponto à cultura capitalista global que é inserida cirurgicamente na paisagem urbana, nas interações cotidianas e na trama social. 17. Harry Braverman, Labor and Monopoly Capitalism: The degradation of work in the Twentieth Century, p.276-277, Monthly Review Press, 1974. Disponível em: https://caringlabor.files.wordpress.com/2010/11/ 8755-labor_and_monopoly_capitalism.pdf. Acessado em 16/11/19. 2. Análise do uso das redes sociais na organização e articulação dos movimentos sociais contemporâneos 1. Michael Hardt e Antonio Negri, Multidão - Guerra e Democracia na era do Imperio, 2005, Editora Record. 2. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 132, Yale University Press, 2017.

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3. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 192, Yale University Press, 2017. 4. Tufekci demonstra que mesmo movimentos com grande participação da população, até em casos de adesão internacional à luta, como as manifestações contra guerra no Iraque (2003-2004), não possuem capacidade institucional suficiente para transformar a realidade, no caso, evitar a invasão americana ao país. 5. Em 2019, múltiplas revoltas e protestos ocorrerão na Algeria, Sudão, Iraque, Líbano e Egito. Tais manifestações podem ser entendidas como uma continuidade da Primavera Árabe 6. Brian Whitaker, How a man setting fire to himself sparked an uprising in Tunisia, The Gardian, 2010. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2010/dec/28/tunisia-ben-ali. Acessado em 16/11/19. 7. Kara Alaimo, How the Facebook Arabic Page “We Are All Khaled Said” Helped Promote the Egyptian Revolution, Social Media + Society, 2015. Disponível em: https://doi.org/10177/205630511 5604854. Acessado em 16/11/19. 8. Migdal, Joel S (1988). Strong Societies and Weak States: State-Society Relations and State Capabilities in the Third World. Princeton, NJ: Princeton University Press. ISBN 9780691010731.Putnam, Robert D (2001). Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. New York: Simon & Schuster. ISBN 9780743203043. 9. Detenção sem flagrante usada por governos autoritários e ditatoriais para a perseguição da população. O vinagre no Brasil é uma substância legalmente permitida. A solução era usada para aliviar a ardência nos olhos, nariz e boca quando do contato com gás lacrimogêneo. 10. Vincent Bevins, From YouTube to law: How the ‘5 causas’ of Brazil went viral, Los Angeles Times, 2013. Disponível em: latimes.com/world/ la-xpm-2013-jul-17-la-brazil-protests-video-anonymous-20130716-story.html#axzz2mdixCAPn. Acessado em: 16/11/19. 11. O conceito de Nova Classe Trabalhadora é colocado por Josué Medeiros. Para ele, os dez ano de política de distribuição de renda do governo petista, permitiu a inserção de uma nova classe de trabalhadores que antes

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se encontravam por demais precarizados sem a assistência social. Josué Medeiros, Breve história das jornadas de junho: Uma análise sobre os novos movimentos sociais e a nova classe trabalhadora no Brasil, História e Perspectivas, Uberlândia (51): 87-117, 2014. Disponível em: http://www. seer.ufu.br/index.php/historiaperspectivas/article/view/28888/16044. Acessado em: 16/11/19. 12. O Comitê Popular da Copa de São Paulo é um grupo aberto, horizontal e apartidário de articulação e resistência contra impactos e violações de direitos humanos da Copa do Mundo de 2014. Larissa Alcantara Viana, Da conquista à resistência: Copa do Mundo, moradia, remoções e movimentos socias em Fortaleza - CE, Dissertação de Mestrado, FAUUSP, 2015. 13. Alexandre Putti, Terapia da “cura gay” é proibida pelo STF, Carta Capital, 2019. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/diversidade/terapia-da-cura-gay-e-proibida-pelo-stf. Acessado em 18/11/19. 14. André Antunes, Cinco anos das Jornadas de Junho: um legado em disputa, Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio - Fundação Oswaldo Cruz, 2018. Disponível em: http://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/reportagem/cinco-anos-das-jornadas-de-junho-um-legado-em-disputa. Acessado em 18/11/19. 15. O projeto de lei foi proposto por Hong Kong em fevereiro de 2019, na tentativa de solicitar a entrega de um suspeito de Hong Kong em um homicídio cometido em Taiwan. 16. Ukraine’s parliament just threw President Yanukovych under the bus. That’s great news, Washington Post, fevereiro de 2014. Disponivel em: https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2014/02/20/ ukraines-parliament-just-threw-president-yanukovych-under-the-bus-thats-great-news. Acessado em 18/11/19. 17. Andrew Roth, Ukraine’s ex-president Viktor Yanukovych found guilty of treason, The Guardian, janeiro de 2019. Disponível em: https:// www.theguardian.com/world/2019/jan/25/ukraine-ex-president-viktor-yanukovych-found-guilty-of-treason. Acessado em 18/11/19. 18. Hong Kong protests: How the city’s Reddit-like forum LIHKG has become the leading platform for organising demonstrations, Today Online, agosto de 2019. Disponível em: https://www.todayonline.com/world/

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hong-kong-protests-how-citys-reddit-forum-lihkg-has-become-leading-platform-organising. Acessado em 18/11/19 19. Definição segundo Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia. org/wiki/Cloudflare. Acessado em 18/11/19. 20. Definição segundo Wikipedia: Um ataque de negação de serviço (também conhecido como DoS Attack, um acrônimo em inglês para Denial of Service), é uma tentativa de tornar os recursos de um sistema indisponíveis para os seus utilizadores. Alvos típicos são servidores web, e o ataque procura tornar as páginas hospedadas indisponíveis na rede. Não se trata de uma invasão do sistema, mas sim da sua invalidação por sobrecarga. Os ataques de negação de serviço são feitos geralmente de duas formas: forçar o sistema vítima a reinicializar ou consumir todos os recursos (como memória ou processamento, por exemplo) de forma que ele não possa mais fornecer seu serviço; obstruir a mídia de comunicação entre os utilizadores e o sistema vítima de forma a não se comunicarem adequadamente. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ataque_de_negação_de_serviço. Acessado em 18/11/19. 21. Lennon Wall é o nome do mosaico criado pelo Umbrella Moviment. Uma expressão espontânea e coletiva onde os habitantes colam mensagens de apoio e motivação, desenhos e trabalhos artísticos sobre os manifestantes e a repressão policial, além de se tornar um lugar de memória dedicado àqueles que estão sendo presos e mortos durante os protestos. 22. Camila Cárdenas Neira, El movimiento estudiantil chileno (20062016) y el uso de la web social: nuevos repertorios de acción e interacción comunicativa, Última Década N°45, Proyecto Juventudes, 2016. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/312566426_El_movimiento_estudiantil_chileno_2006-2016_y_el_uso_de_la_web_social_ nuevos_repertorios_de_accion_e_interaccion_comunicativa.

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em 18/11/19. 23. Silvia Lamadrid Alvazes, Alexandra Benitt Navarrete, Cronología del movimiento feminista en Chile 2006-2016, Rev. Estud. Fem. vol.27 no.3 Florianópolis. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid= S0104-026X2019000300216. Acessado em 18/11/19. 24. El pueblo mapuche y su rol en las protestas chilenas, TeleSurTv, ou-

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tubro de 2019. Disponível em: https://www.telesurtv.net/news/chile-pueblo-mapuche-protestas-simbolo-20191031-0006.html. Acessado em 18/11/19. 25. Manifestantes ampliam demandas e Piñera não consegue conter protestos no Chile, Estadão - Época Negócio, outubro de 2019. Disponível em:

https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2019/10/epoca-

-negocios-manifestantes-ampliam-demandas-e-pinera-nao-consegue-conter-protestos-no-chile.html. Acessado em 18/11/19. 26. One Million Take to Streets of Chile in the “Largest Mobilization Since the End of Dictatorship”, Democracy Now, outubro de 2019. Disponível em: https://www.democracynow.org/2019/10/28/chile_massive_protests_sebastian_pinera. Acessado em 18/11/19. 27. José Urrejola, Chile: destrucción de monumentos como protesta contra la historia oficial, Deutsche Welle, novembro de 2019. Disponível em:

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tos-como-protesta-contra-la-historia-oficial/a-51202577. Acessado em 18/11/19. 28. Dezenas de milhares vão às ruas em ‘supersegunda’ de protestos no Chile, Folha de São Paulo, outubro de 2019. Disponível em: https:// www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/11/em-terceira-semana-de-manifestacoes-milhares-protestam-no-chile-em-supersegunda.shtml. Acessado em 18/11/19. 29. Em meio aos protestos, a foto do presidente Sebastián Piñera foi flagrado comendo pizza com seus netos em comemoração ao aniversário de um deles, viralizou no Twitter. Presidente do Chile vai a pizzaria durante protestos e foto viraliza, outubro de 2019. Disponível em: https://noticias. uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2019/10/20/presidente-do-chile-vai-a-pizzaria-durante-protestos-e-foto-viraliza.htm?cmpid=copiaecola. Acessado em 18/11/19. 30. Marcelo Mella pesquisa conflitos políticos em processos de transição e consolidação democrática e em política de educação superior. Professor da Faculdade de Humanidades da Universidade de Santiago de Chile. Fonte: https://historia.usach.cl/marcelo-mella-polanco. Acessado em 18/11/19. 31. Com conteúdo transacional quero indicar conteúdos que induzam o consumo de produtos relacionados à ele. Por exemplo, uma imagem de

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uma pessoa de férias pode se converter em consumo de hotéis, roupas de banho, procedimentos estéticos, etc. 32. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 193, Yale University Press, 2017. 33. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, Prefácio XV, Yale University Press, 2017. 34. Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 193, Yale University Press, 2017. 35 Zeynep Tufekci, Twitter and Tear Gas – The Power and Fragility of Networked Protest, p. 190, Yale University Press, 2017. 36. Omaira Gill, Melissa Network: A hive built by migrant women, Deutsche Welle, 2017. Disponível em: https://www.dw.com/en/melissa-network-a-hive-built-by-migrant-women/a-41222240. Acessado em 18/11/19. 37. Nathan Schneider, Thank You, Anarchists, 2011. Disponível em: https://www.thenation.com/article/thank-you-anarchists/. Acessado em 18/11/19. 38. How tuk-tuk drivers became the unlikely heroes of Iraq’s popular revolt, NBC News, novembro de 2019. Disponível em: https://www.nbcnews.com/news/world/how-tuk-tuk-drivers-became-unlikely-heroes-iraq-s-popular-n1082021. Acessado em 18/11/19. 3. AS Redes sociais COMO NEGÓCIO 1. The Top 20 Valuable Facebook Statistics – Updated November 2019. Disponível em: https://zephoria.com/top-15-valuable-facebook-statistics/. Acessado em 18/11/19. 2. Number of monthly active Twitter users worldwide from 1st quarter 2010 to 1st quarter 2019. Disponível em: https://www.statista.com/statistics/282087/number-of-monthly-active-twitter-users/. Acessado em 18/11/19. 3. Isso não significa, no entanto, que essas empresas continuarão tendo o maior número de usuários ativos. Os últimos anos, após pesquisas e investigações sobre a influência e responsabilidade do Facebook em conflitos políticos e comerciais, o número de usuário tem oscilado e muitas pessoas optam por deletar suas contas.

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4.Alphabet Announces Fourth Quarter and Fiscal Year 2018 Results. Disponível em: https://abc.xyz/investor/static/pdf/2018Q4_alphabet_earnings_release.pdf The Top 6 Shareholders of Facebook. Disponível em: https://www.investopedia.com/articles/insights/082216/top-9-shareholders-facebook-fb.asp. Twitter, Inc. Common Stock (TWTR) Institutional Holdings. Disponível em: https://www.nasdaq.com/symbol/twtr/ownership-summary. Todos acessados em 18/11/19. 5. Will Oremus, Twitter’s New Order, Slate, março de 2017. Disponível em:

http://www.slate.com/articles/technology/cover_story/2017/03/

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ser capaz de crescer rapidamente e reproduzir seu modelo de negócio em maior escala sem ter de alterar significativamente a base da operação. 4. Conceito marxista que entende o fetiche como o ofuscamento das relações sociais que moldam determinado fenômeno. 5. A revolução espanhola em 1936, experiência anarquista de resistência ao avanço fascista do exército de Franco, teve duração de três anos. Mas que se pudesse viver três anos de revolução e autonomia política, a Espanha passou por 70 anos de educação anarquista no território. 6. Um exemplo disso é o caso do Movimento Otaku, no Chile, onde aqueles se identificam como Otakus se juntaram aos protestos a partir de suas referências internas. Otaku é uma palavra japonesa usada para designar fãs fanáticos por animes e mangás. 7. O machine learning faz parte do conceito de inteligência artificial, que estuda meios para que máquinas possam fazer tarefas que seriam executadas por pessoas. Um exemplo disso é o desenvolvimento do GPT-2, um modelo que prevê palavras e é capaz de compôr textos a partir do conjunto de dados de mais de 8 milhões de páginas da internet. Disponível em: https://openai.com/blog/better-language-models/. Acessado em 18/11/19. 8. Despite advances, Artificial Intelligence still faces critics, CGTN, maio de 2017. Disponível em:https://america.cgtn.com/2018/05/17/despite-advances-artificial-intelligence-still-faces-critics. Acessado em 18/11/19.

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Este trabalho foi composto em Montserrat e Crimson e impressa sobre papel pรณlen 80g/cm2 em novembro de 2019.


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