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Relacionamento Talita e Bruno se conheceram em 2003: respeito ao tempo do outro

Briga BOA

Depois de um rompimento, o casal Talita Lanzo e Bruno Baccaro criou sua tática para superar momentos difíceis O que já aprenderam com as brigas? Talita Com elas, nós vimos que não nos escutávamos. Hoje, sabemos como conversar e nos respeitamos. E percebi que as coisas que eu considerava como defeitos dele não me incomodavam tanto assim. Bruno Depois de muitas brigas, notei que os pontos positivos da relação eram maiores que os negativos e valia investir. Mas, para chegar a esses aprendizados, passaram por muitas discussões? Talita Até rompemos. Namorávamos desde maio de 2003 e nos separamos em 2010. Só voltamos um ano depois. Após sete anos juntos, a relação havia se desgastado. Naquele momento, tínhamos objetivos diferentes. Eu queria casar, e ele curtir a vida. Estávamos sem nenhuma conexão e qualquer probleminha parecia uma tragédia. Chegou uma hora em que as brigas eram tantas que preferimos a separação. E terminamos brigados. Não queria nem ouvir o nome dele!

Os desentendimentos podem contribuir para estreitar os laços e melhorar a qualidade da vida a dois desde que o casal desenvolva sua tática de administração de conflitos. Saiba o que levar em conta para criar uma estratégia eficiente m i c h e l l Lot t / fotos J ú l i a Ro d r i g u e s

É

claro que nenhum casal quer ficar discutindo a toda hora e que bate-bocas sucessivos e sem solução não são benéficos para a qualidade da convivência. Ao mesmo tempo, a verdade é que desavenças são inevitáveis na vida a dois. A solução para o dilema é criar uma estratégia de administração de conflitos. Com essa ferramenta, as contendas até melhoram a relação, em vez de desgastá-la. Primeiro, porque sua frequência tende a diminuir. Segundo, porque os confrontos que eventualmente ocorrerem serão vistos como oportunidades para eliminar ou atenuar as diferenças e os ruídos entre marido e mulher, fortalecendo o vínculo. “Uma boa briga de vez em quando pode ser importante para oxigenar o relacionamento”, afirma o psicólogo e terapeuta de casais Luiz Hanns, autor do recém-lançado A Equação do Casamento (Paralela).

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Note que o especialista diz “de vez em quando”. Se for sempre, as discussões do casal não apenas desestabilizam a relação como podem fazer mal para a saúde emocional e até física dos envolvidos. Um estudo da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, mostrou que em períodos de turbulência e caos no casamento o colesterol aumenta, o sistema imunológico enfraquece e os processos de cicatrização tornam-se mais lentos. Mas a pesquisa americana demostrou também que, além da assiduidade com que montamos o ringue, colabora para todo esse impacto negativo sobre o organismo a maneira como conduzimos os confrontos. Quando o parceiro dá sinais de conciliação durante uma briga, por exemplo, nossos glóbulos brancos sobrevivem melhor ao stress do que quando ele apenas age de forma fria ou agressiva. “Sempre que uma discussão serve

só depois que a raiva passar

como um chacoalhão e leva o casal a tentar promover um reposicionamento, ela é válida”, resume Hanns. E acrescenta: “É por isso que a grande questão não é não brigar nunca, e sim brigar do jeito certo”. Os empresários paulistanos Simone e Alexandre dos Santos, ela com 42 anos e ele com 47, são casados há 25 anos e dizem que foi graças a uma sequência de destemperos que eles aprenderam a respeitar mais a individualidade um do outro e a lidar de forma adequada com os pontos de tensão comuns em um relacionamento. Os dois nunca se esquecem de uma discussão feia que tiveram no quarto ano do casamento. O episódio quase levou a uma separação, mas acabou desencadeando todo um processo de aprendizado. “Hoje, mais de 20 anos depois, nós até damos risada do que aconteceu naquele dia. Mas, na época, foi muito forte e abalou. O bom é

E como isso passou e voltaram? Bruno Eu a procurei e pedi para voltar. Ela colocou a condição de planejarmos um futuro juntos, e eu aceitei. Um mês depois, no aniversário dela, pedi a mão da Talita em casamento. Talita Com o processo, as mágoas passaram e vi que o que me incomodava no Bruno não era tão importante. Hoje, qual é a a principal estratégia de vocês para administrar conflitos? Talita Já sabemos que, quando estamos nervosos, tudo vira medição de forças. Sou explosiva, e o Bruno, que é mais calmo, hoje espera minha ira passar para conversarmos e colocarmos todas as cartas na mesa. Aprendemos a respeitar o tempo e o jeito do outro. AGOSTO 2013

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Relacionamento que nos fez entender que existem limites que não devem ser ultrapassados durante uma briga, por mais raivosos que estejamos”, afirma Simone. Graças a essa e outras lições, na casa de Simone e Alexandre, conflito, agora, é chance para fazer a relação crescer e amadurecer (leia no quadro abaixo entrevista com o casal). O primeiro mandamento para transformar as pelejas amorosas em um fator positivo para a relação é saber discernir aquelas que realmente valem a pena das que devem ser abortadas. Segundo pesquisas do Instituto Gottman, nos Estados Unidos, um dos mais renomados centros de terapia de casal e estudos de relacionamento do mundo, apenas um terço das brigas trata de coisas passíveis de ser resolvidas – e somente essas batalhas compensam. Tem mais: existe uma cota de stress que relações saudáveis e duradouras suportam. Se ela for ignorada, o copo tende a transbordar. Depois de 40 anos acompanhando e observando a intimidade dos casais, o pesquisador John Gottman, fundador do instituto, concluiu que a harmonia da vida a dois depende de cinco momentos positivos para cada negativo. Ou seja, a melhor atitude é sempre se segurar um pouco. “Em qualquer relacionamento, é preciso abrir mão de algumas coisas e aprender a respeitar as vontades do outro. Por isso, o ideal é deixar as discussões acaloradas somente para aquilo que for mais grave”, aconselha o psicoterapeuta Anto-

respeito em primeiro lugar

Uma discussão acalorada quando Alexandre e Simone tinham apenas quatro anos de casamento rendeu aprendizados que, segundo acreditam, contribuíram para a união já durar 25 anos

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Por que chegou a esse ponto? Alexandre Estava nervoso e a Simone me xingou. Nunca gostei de palavrão e perdi as estribeiras. Até a expulsei de casa. No calor do momento, joguei coisas dela na rua, pela janela mesmo. Ela ameaçou levar nossos dois filhos, ainda pequenos, se fosse embora. Mas resolvemos terminar a discussão só no dia seguinte, quando estivéssemos mais calmos, e tudo se resolveu. Simone Essa discussão foi um marco na nossa relação. Tudo ficou diferente depois e mudou para melhor. O que aprenderam dessa vez? Simone A respeitar mais o espaço, a

sitiva, vale saber que existem pontos sobre os quais não adianta argumentar, e é melhor passar longe deles se a proposta é ter um final feliz. Cabe aqui lembrar que a grande função de uma discussão é buscar uma solução satisfatória para ambos os lados, não sair com o troféu de primeiro lugar nos debates. “Nessas horas, é preciso deixar de lado a vontade de ter razão para encontrar um ponto de vista em comum”, avisa Magdalena. Um certo autocontrole é outro fator importante para um acerto de divergências não desandar. Pesquisadores do Centro de Aconselhamento e Saúde Mental da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, desenvolveram um guia para ajudar casais a superar conflitos e construir relacionamentos saudáveis. No documento, os especialistas consideram essencial expor as reclamações com calma, clareza e também objetividade. Funciona mais dizer “Eu gostaria que você pegasse mais vezes na minha mão quando estamos caminhando na rua” do que “Meu sonho é que você seja mais atencioso”. Mensagens vagas dão margem a múltiplas interpretações. É bom também lembrar que reivindicar é diferente de acusar. Assim, é aconselhável fugir de frases incriminadoras do tipo: “Você nunca ajuda em casa” ou “Como consegue ser tão preguiçoso?” É mais sábio dizer: “Vamos precisar dividir as tarefas da casa porque estou sobrecarregada”. Apenas falar o que quer ou sente é mais eficaz do que rotular o parceiro. “Até nas lutas existem regras e golpes baixos não valem”, lembra o terapeuta Amador Pereira. Por falar nisso, o conselho é se manter no presente e resistir à tentação de tirar do baú ressentimentos de anos atrás. “Falar de vários assuntos de uma só vez dificulta qualquer conclusão”, afirma o psicólogo Hanns. O casal Talita Lanzo, 29 anos, e Bruno Baccaro, 31, diz que, no final, as brigas ensinaram a escutar o outro e a pleitear de forma mais efetiva melhorias para a relação (leia entrevista do casal no quadro da página 173). Mas os dois tiveram de percorrer um longo caminho para chegar até aí. Depois de sete anos de namoro, iniciado quando ainda eram muito jovens, eles contam que entraram em uma espécie de círculo vicioso: com a convivência, as diferenças começaram a aparecer e a conexão natural do início da relação foi se perdendo. Isso gerou brigas e mais brigas – que, por sua vez, os afastavam mais ainda. Acabaram rompendo, mas, tempos depois, retomaram o relacionamento e se casaram. “Não nos escutávamos mais e ninguém cedia”, lamenta Talita. E conclui: “Mas hoje, ainda bem, sabemos conversar”.

quando o coração passa dos 100 batimentos por minuto, a conversa fica improdutiva

Alexandre e Simone, 25 anos de união: temas delicados só sozinhos e calmos

Qual foi a maior briga de vocês? Alexandre Foi quando tínhamos quatro anos de casados. A minha faculdade era mais longe do que a escola técnica da Simone, e eu costumava estar em casa antes dela. Mas, um dia, cheguei tarde da noite e ela não estava. Fiquei preocupado, peguei o carro e fui até a escola para saber o que tinha acontecido. Não a achei. Na época, não existia telefone celular, e eu rodei todos os bares em vão. Desisti e acabei voltando para casa, onde a encontrei. Naquela noite, a gente quebrou o pau. Simone Chegou ao ponto de ele jogar coisas minhas pela janela!

nio Carlos Amador Pereira, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Às vezes, se adaptar a uma pequena diferença vale mais a pena do que iniciar uma briga”, completa Hanns. Se a briga entra na categoria das necessárias, é preciso saber o momento de fazer isso. Quase sempre a melhor hora para discutir a relação não é a da explosão. “Expressar os sentimentos é muito válido”, diz Amador Pereira. “Mas a discussão deve acontecer depois da raiva.” Assim, se você estoura de vez em quando, tudo bem. Mas não prossiga: ponha panos quentes e adie a continuação dos debates. Segundo dados do Instituto Gottman, quando o coração de quem está brigando passa dos 100 batimentos por minuto, a conversa torna-se improdutiva. Em momentos de stress e nervosismo, o raciocínio fica turvo e os argumentos confusos. “A tensão nos tira o foco do que realmente importa”, alerta a terapeuta Magdalena Ramos, de São Paulo, autora de livros como Introdução à Terapia Familiar (Claridade). Se nessas ocasiões nós mesmos não temos clareza do que nos incomoda, como o outro lado poderá entender as reclamações e mudar? Além do mais, quanto mais calma estiver uma pessoa, menor é o risco de ela ofender o companheiro dizendo algo que não devia – e às vezes nem acredita. Isso tira todo o caráter produtivo que a briga poderia ter. Confrontos positivos para o relacionamento também têm lugar para acontecer. Roupa suja se lava em casa, diz o ditado popular, e é verdade. Se a discussão começa em lugares públicos, é melhor interromper e retomar mais tarde. “Casais precisam do mínimo de privacidade para acertar diferenças”, diz Amador Pereira. Se, em vez de guerra, for possível buscar ajustes em forma de conversa séria, marido e mulher ganharão ainda mais com isso. De qualquer maneira, o indicado é saber abordar qualquer assunto que possa gerar briga. Os especialistas recomendam já chegar mostrando ao parceiro que a missão é de paz. Nesses momentos, vale até iniciar a conversa pedindo desculpas, o que é um sinal de boa vontade para acertar os ponteiros. Depois, é importante deixar claro que há disposição para escutar os argumentos e pontos de vista alheios. “Sempre peço para os casais descreverem um mesmo objeto, e cada parte faz uma descrição totalmente diferente”, conta a terapeuta Magdalena. “Isso mostra como a percepção das pessoas varia.” Ao escutar o outro lado, aliás, não interrompa. E ouça de verdade, em vez de só fixar os olhos enquanto já pensa na sua réplica. Detalhe: para que qualquer briga seja po-

opinião e a individualidade um do outro e ter disponibilidade para rever as próprias atitudes quando necessário. O episódio, por exemplo, me ajudou a parar de falar palavrão (risos)! Hoje, qual é a principal estratégia de vocês para administrar conflitos? Alexandre Em primeiro lugar, nos respeitamos. Hoje procuramos conversar muito antes de os atritos virarem briga. Também não nos deixamos mais abalar por pequenas diferenças. O bem-estar da família vem antes. Simone Outro detalhe é que agora só discutimos os assuntos delicados quando estamos sozinhos e calmos.

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Briga Boa  

Os desentendimentos podem contribuir para estreitar os laços e melhorar a qualidade da vida a dois desde que o casal desenvolva sua tática...

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