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Uma nova materialidade: steel frame p. 2

A Casa Schroeder e sua importância para o projeto p. 2

Pondo um fim à tipologia Tripartida p. 1

Extra-extra! Chega a Uberlândia o mais novo projeto de Habitação de Interesse Social! Chega a Uberlândia o mais novo projeto de Habitação de Interesse Social, que vem sendo desenvolvido por duas alunas do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Uberlândia, Karen Carrer Ruman de Bortoli e Michelle Cristina de Pádua Pedrosa. O projeto consiste em uma solução inovadora e que respeita as diferenças de seus usuários. Entenda quais foram os passos e reflexões que levaram à concepção final do projeto.

O Bairro Jardim Holanda - Um modelo de HIS O bairro Jardim Holanda, localizado na periferia da cidade de Uberlândia, foi o ponto de partida desse trabalho. Através da Análise Pós - Ocupacional (APO) feita pelos alunos da disciplina de API V do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Uberlândia, foi percebida a necessidade do desenvolvimento de melhores soluções habitacionais no que se refere às habitações de interesse social. Dessa forma, concluiu-se que é preciso repensar o modelo tripartido, que vem sendo repetido em moradias de dimensões reduzidas, ao que não se adapta com qualidade.

A Avaliação Pós-Ocupacional A APO é uma ferramenta que possibilita, por meio da aplicação de técnicas variadas, descobrir quais aspectos dos espaços arquitetônicos atendem às necessidades dos usuários e quais deles precisam ser repensados. O objetivo da APO feita no bairro Jardim Holanda foi levar os estudantes ao conhecimento de quais são as reais necessidades e aspirações de populações que adquirem habitação de interesse social, visando uma maior compreensão do tema e, consequentemente, uma melhor compreensão de projeto por parte dos futuros arquitetos. A partir dos dados recolhidos na APO, ficou claro que a maioria das queixas apresentadas pelos entrevistados com relação à casa diz respeito às dificuldades encontradas para adaptá-la às suas necessidades. As dimensões especialmente reduzidas da área de serviços, por exemplo, composta por cozinha e lavanderia, levam a maioria dos entrevistados a realizar ampliações para melhor acomodar essas atividades.

Um novo modelo de HIS para Uberlândia

Além disso, percebeu-se que o bairro possui grande carência de espaços públicos, prejudicando o convívio entre moradores vizinhos. Para o desenvolvimento de uma tipologia adequada, ficou decidido que questões como acessibilidade, flexibilidade, sustentabilidade, e uso de novas tecnologias construtivas não poderiam deixar de estar no projeto. Isso garante que o usuário seja beneficiado com uma habitação de qualidade, que atenda de forma satisfatória as suas necessidades. E são essas as questões às quais o projeto apresentado a seguir pretende suprir.

Percebe-se que há uma grande deficiência no conjunto habitacional no que se refere aos espaços coletivos, o que acaba prejudicando o lazer e o convívio social. Para Coelho (2009, p.9) ‘‘Na relação entre casa e cidade, há que dar a devida importância à presença (...) do verde urbano pois este (...) é essencial para a saúde global do habitante, é vital factor de bem estar urbano, e constitui importante elemento amenizador da cidade. (...) E não tenhamos dúvidas que, tal como defende Keneth Frampton, apenas o verde urbano poderá redimir muitas das ruas que hoje se caracterizam por ambientes insuportáveis.’’ Abaixo, há o esquema indicando a divisão da casa em áreas: social, íntimo e serviços, segundo resultados da APO.

A habitação aqui desenvolvida visa atender às necessidades dos novos tipos de famílias brasileiras, sendo eles: a tradicional família nuclear, composta por pai, mãe e filhos; a coabitação, em que os moradores não possuem relação de parentesco; o dinc, ao qual pertencem os casais que não possuem filhos e não pretendem tê-los. Essa adaptabilidade das moradias será atendida por meio das possibilidades de ampliações. O modelo básico atende à tipologia dinc e a ampliação máxima atende às necessidades de famílias nucleares e coabitações.

Conceitos para uma nova era A palavra de ordem dos dias atuais é transformação. Transformam-se os gostos, as roupas, as músicas, as cidades, a moda muda, o mundo gira e se revira de cabeça para baixo. Como não pensar que o modo de morar muda? Antes, pai, mãe e filhos. Hoje, nada mais de normalidade, ela agora é outra. A diferença é o ‘‘X’’ da questão. E é tecendo a própria poesia que as pessoas fazem o seu mundo. É preciso que as casas sejam abrigos que permitam que as pesso-

as possam pensar, mudar, ao mesmo tempo em que deixa a sua marca no seu ‘‘pedaço’’. As habitações devem ser flexíveis, de forma que atendam às necessidades dessa variedade de usuários. Devem ser sustentáveis, ambientalmente e socialmente falando. Os espaços e materiais devem ser racionalizados, a construção deve ser feita de forma inteligente. A vizinhança deve ser valorizada, para que os muros não transformem as casas em prisões.

A construção de uma nova materialidade Sustentabilidade aqui é tratado como método projetual. Está presente tanto na escolha dos materiais quanto na flexibilidade proposta para os espaços. Está no mobiliário e na implantação.

O uso das ecoplacas, vem para reforças a sustentabilidade ambiental do projeto. Feitas de restos de embalagens Tetra-Park, aproveitam o lixo para sua fabricação. Além disso, é barata e possui bom desempenho. As eco-

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placas também possuem ótima resistência térmica. Eventuais resíduos dessas placas que sobrarem da obra também são 100% recicláveis. A racionalização dos espaços e materiais é feita por meio da modulação da edificação. As ecoplacas são aplicadas em todo o revestimento interno e externo da edificação, com exceção das áreas úmidas, em que foi adotada a placa cimentícia, que é mais durável e resistente, porém mais cara e menos sustentável que a ecoplaca. A modulação utilizada de 1,2 x 2,4 metros, corresponde ao tamanho das placas,otimizando o aproveitamento do material em toda a edificação. Nos casos em que foi necessário fazer cortes nas placas, estes foram pensados para evitar o desperdício do material. Os pedaços restantes de um corte foram necessariamente usados em outras partes do projeto, sendo dimensionados em valores múltiplos de 1,2. Em nosso projeto, usamos uma estratégia que incentiva ao convívio dos moradores: o estacionamento está localizado em um dos cantos do terreno, de forma que a pessoa estacione o seu carro e tenha que passar por um caminho comum entre as casas para chegar na entrada da sua. Dessa forma, os moradores se vêem mais, e podem se juntar para cuidar dos jardins em volta da casa, e criar hortas comunitárias para abastecimento das habitações. O piso externo adotado é o Pavi T i j o l o , d a Te c P a v i P i s o s Intertravados.

No piso interno, adotamos o cimento queimado, que é uma alternativa que vem ganhando o mercado nos últimos anos. O cimento queimado, além de ser bastante resistente, é barato: custa de R$ 12 a R$ 18 o metro quadrado. A sua limpeza é mais fácil pelo fato de a superfície ser mais lisa e uniforme. O material ainda, quando executado com qualidade, dá um toque de requinte rústico à casa, tornando o ambiente mais belo. Isso mostra que podemos usar materiais de qualidade sem prejudicar o orçamento de projetos de HIS. Abaixo, um exemplo de aplicação do cimento queimado.

Composição estrutural Para a estrutura da edificação, foi usado o steel frame, que consiste em montantes e guias metálicos, unidos por parafusos, formando uma estrutura leve e resistente aos carregamentos deste tipo de construção. Uma das principais vantagens do sistema é o fato de que o canteiro de obras é muito mais limpo quando comparado à alvenaria convencional, que é um dos métodos construtivos mais usados em HIS. Abaixo, um exemplo de estrutura feita em steel frame.

Referência-Casa Schroeder A casa Schroeder é um excelente exemplo de arquitetura flexível. Os seus vários painéis, que se movimentam, permitem que a casa admita várias configurações. Uma parte bem peculiar dessa edificação é o banheiro que fica praticamente imperceptível no espaço quando fechado pelos painéis. A casa é dividida não por cômodos, mas por ações: comer, dormir, trabalhar, ler, banho, cozinhar, comer e conviver.

As placas solares são mais um indicativo da sustentabilidade do projeto, uma vez que contribuem para a redução do consumo de energia da edificação e reduzem os A tipologia habitacional [mora] gastos dos moradores com a conta de energia elétrica. Dessa forma, a foi desenvolvida por diversos alunos habitação se torna financeiramente da FAUeD - UFU, orientados em pesquisas de iniciação científica. O e ambientalmente sustentável. projeto é importante por ser uma referência feita em uma proposta semelhante à feita no API-V, de produzir uma unidade habitacional para a cidade de Uberlândia que atendesse às necessidades dos usuários. Para isso, o [mora] possui boas soluções, com ambientes que podem ser integrados entre si por meio da movimentação de painéis de correr. A cozinha integra-se ao quintal, formando uma extensão da casa. O banheiro tripartido mostrase uma solução alternativa à cons-

Referência - [mora] trução de um segundo banheiro, uma vez que permite que mais de uma pessoa o utilize ao mesmo tempo, realizando atividades distintas. Além disso, o projeto também prevê futuras ampliações, como mostrado na figura anterior. Os materiais usados são semelhantes aos adotados no presente trabalho: sistema steel frame, com fechamento em placas cimentícias. O revestimento interno é feito com placas de OSB. A modulação do projeto é feita da seguinte forma:

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Escolha do terreno

As diferentes tipologias Os terrenos do lado esquerdo do loteamento foram escolhidos por propiciarem uma melhor orientação solar ao projeto. Uma vez que o bairro é muito mal equipado, optamos por um terreno posicionado em área relativamente central, que se liga facilmente às principais vias de conexão com o restante da cidade. A escolha do terreno no qual será desenvolvido o projeto da Casa Mínima mostra-se cheia de potencialidade, uma vez que já nos leva ao exercício de pensar como funcionaria uma vila nesse espaço independentemente de onde ele fosse implantado.

Para um melhor atendimento das necessidades, foi criado um modelo que permitisse várias possibilidades de ampliações. Dessa forma, ele se adapta ao DINC, à coabitação e às famílias nucleares. A tipologia de habitação DINC visa atender aos casais que não possuem filhos e não pretendem tê-los. É o modelo-base, de área igual a 50m², do qual irão partir todas as ampliações. A tipologia da família nuclear visa atender à família convencional, com pai, mãe e filhos, ou apenas um dos pais e filhos. Apresenta 60m². A coabitação é a tipologia de maior área, que é de 70m², isso se justifica pelo fato de que, nesse caso, as pessoas não possuem relações próximas de parentesco, o que leva a requerer ambientes maiores, e quartos individuais.

Tipologia acessível

PLANTA ESCALA. 1/50 DINC - 50 m ²

Possibilidade de Geminação

FAMÍLIA NUCLEAR - 60 m ² COABITAÇÃO - 70 m ²

PLANTA ESCALA. 1/50

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Tipologia não-acessível: pavimento térreo No pavimento térreo localizase um espaço amplo, que funcionaria como a sala, mas admitindo-se a multiplicidade de usos da mesma. Um armário separa a sala da área de serviço e cozinha. Uma porta na área de serviço liga a casa ao quintal.

PAVIMENTO TÉRREO ESCALA 1/50 Possibilidade de Geminação

PAVIMENTO TÉRREO ESCALA 1/50

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Tipologia não-acessível: segundo pavimento No segundo pavimento dessa tipologia, encontram-se os espaços destinados às atividades de dormir, trabalhar e fazer a higiene pessoal. O quarto transforma-se em escritório quando a cama escamoteável é recolhida.O quarto também pode ser fechado, por meio da divisória móvel P4.

PAVIMENTO SUPERIOR ESCALA 1/50 Possibilidade de Geminação

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ESTACIONAMENTO

PROPOSTA PAISAGÍSTICA A imagem acima mostra a forma como foi resolvida a implantação no caso de as duas tipologias (acessível e nãoacessível) estarem simultaneamente colocadas no terreno e com sua ampliação máxima. O lote possui as mesmas dimensões dos lotes do bairro Jardim Holanda, de 250 m², porém, enquanto no projeto existente no bairro é colocada apenas uma casa no lote, aqui são colocadas quatro, quando geminadas. O uso de muitas árvores e de um paisagismo adequado, que será melhor desenvolvido na fase posterior do projeto, em que ele deverá ser inserido no contexto de uma vila, melhora a qualidade dos ambientes comuns. Elas são dispostas de forma que possam ser colocadas redes para descanso amarradas nas mesmas. O estacionamento coletivo força o convívio entre os moradores. Por mais que a cultura dos dias atuais valorize a individualização, o uso de ações que forcem o contato entre vizinhos contribui para a quebra desses paradigmas.

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Atelier em jornal  

Trabalho da disciplina de Teoria e Crítica - 1º semestre de 2012

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