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O Sabiá Os raios de sol atravessando as muralhas e as paredes do grande e protegido casarão, entravam por entre as cortinas. A menina tinha sensibilidade muito leve e acordara sempre que a luz vivida daqueles raios amarelos lhe tocavam as pálpebras. Como era de se esperar, ela estava descontente. Naquela manhã ela decidiu contar ao pai os motivos da sua consternação que para tentar aliviar a melancolia da menina a levou no mercado para que comprasse o animal que quisesse para lhe fazer companhia. De longe a menina avistara um sabiá pequenino com possivelmente apenas alguns dias de vida, pois possuía a cauda e o bico ainda muito curtos. Sem nem procurar no restante do mercado, ela quis leva-lo de imediato. O pai da menina contestou alegando que o animal não lhe traria diversão para curar a balburdia, pois viveria enjaulado e consequentemente não resolvendo quanto ao apelo que ela havia feito pela manha. Contrariando a vontade do pai, a menina quis levar o passarinho a todo o custo para casa. O vendedor ainda advertiu: “Pequena dama, não preferes levar esse outro da mesma espécie, porém um pouco mais velho. Esse que queres ainda é muito jovem e nunca o ouvi cantar.” Porém não houve jeito, a menina estava resignada a levar o passarinho que a cativara desde a primeira vista. Escolhera


uma gaiola dourada linda para a mascote e o levaste já aprisionado de para o casarão. Passaram-se os dias e a garota não ouviu o pássaro cantar sequer uma vez, ela devia ter considerado a incitação do comerciante. Porém já era tarde pra balburdiar as ocupações de seu pai. Como dito o pai dela, o pássaro não trouxera animação à triste menina e ela sem que pai soubesse resolveu soltá-lo. Certa noite quando a lua cheia já brilhava radiante no céu ela levara a gaiola à janela de seu quarto e abriu a porta na intenção que o pequenino fosse embora para todo sempre, pois ela acreditara que o pássaro estava descontente por estar aprisionado. A ave surpreendeu a pequena dama, pois mesmo com seu encarcere aberto o pequenino sabiá não saiu e continuou voando de um lado para o outro dentro da gaiola. A menina desistiu de espera-lo sair e foi se deitar, deixando a gaiola com a porta aberta na intenção de acordar e não encontrar o pássaro pela manhã. A menina acordara alegre e sem entender o motivo. Novamente foi surpreendida pelo sabiá que se mantinha dentro da gaiola. Durante alguns meses ela manteve a sina de querer libertar o pássaro e inexplicavelmente acordava feliz todos os dias. O sabiá também não cantava de jeito nenhum. Chegada à primavera a menina acreditara que seu companheiro de asas por fim voaria em busca da liberdade e do amor. Certa noite ela não estava com sono e jazeu sobre a cama, fingindo dormir e a observar a ave. Quando tudo se tornou o absoluto silêncio, a pequena dama ouviu o mais lindo canto


de toda a sua vida. O sabiá cantara para ela todas as noites enquanto ela descansava. Quando era chegada a hora do crepúsculo, a ave abriu as asas de modo que a sombra formada não permitisse que a luz degradada do amanhecer incomodasse o sono da menina. O pássaro só abaixou as asas ao perceber que ela havia acordado. Ela aproximou-se da gaiola e dissera para o pequeno amigo: ”Deveras eu saber que muitas vezes, mesmo quando não percebemos, os verdadeiros amigos estão sempre cuidando de nós”. Ouvido isso, o sabiá por fim alçou voo até a menina o perder de vista no horizonte com os olhos cheios de lágrimas. No horizonte a dama ainda olhava, eram passados nove anos daquela singela lembrança. Com o coração aquecido por aquela linda recordação ela ainda disse para si mesma antes de deitar: “Por mais longe que estejas pequeno amigo, seu cantar ainda ressoa no pulso de meu coração. Com seu canto me ensinaste que é possível sentir-se alegre na solidão. Quando me sentir sozinha, lembrar-me-ei sempre da tua melodia que ficaste encravada no profundo da minha alma.” A sombra de asas permaneceu protegendo as pálpebras da dama pelo amanhecer durante todas as manhãs. ”Há proteção que não precisamos enxergar.”

Michael Josh (SÃO PAULO – 01 de Novembro de 2012)

Proibida a reprodução parcial e/ ou total dessa obra sem autorização por parte do autor.

Conto - O sabiá  

Capitulo I do Livro "Julieta Esquecida" de Michael Josh

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