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As dádivas da vida. Dívidas. Dividas, que de poucas vidas precisarás para pagá-las.

Ana tinha dormido com medo de não acordar mais. Medo de querer ficar nos sonhos pretos e brancos e deixar as cores pra lá. Mais uma noite vinha e lhe levava para longe do abajur de estrelinhas... e lá deslizou Ana pela noite fria. O cobertor lhe era como um útero zeloso e ela sabia.. Os tais felpos macios a faziam sentir Lar. Desde muito antes sua mãe lhe compensava a ausência com ninhos de lã e ela ficava sozinha coberta sentindo o vento sul entrar pelas frestas da janela. O vento a criança e a casa no meio das dunas no meio do nada. Batiam à janela vozes longínquas de seu pai lhe chamando para fora, sempre em ventanias, mas ela entrava mais ainda para dentro do ninho. O vento gritava para lhe acordar do sono de criança. Para seguir por uma aventura qualquer.. criança, crescer, mulher.. Mas chegava a noite e ela se encolhia vazia no cobertor. Fugidia da vida; não sabendo por que de tanta dor. E seu refugio favorito, tão melancólico, lhe abria feridas. Sim! de um mundo aquático que ela odiava mergulhar. Um mar particular. As paredes do útero eram aquosas e todos os irracionais exalavam no ar. As raivas que ela tinha, os medos do escuro, a saudade do que estava tão perto e não a via. Parecia um bichinho olhando grande para os lados. E todos os negrativos vinham à noite para lhe tecer uma concha. Tinha pesadelos se escondia no travesseiro. Aqueles sentimentos todos por dentro.. era um mundo estranho a lhe corroer, a crescer estrangeiro por dentro. Sua fuga favorita era sua maior armadilha. Ser criança indefesa, pra dentro, como lhe doía. Ia aos poucos aprendendo a nadar. Suas idas ao inconsciente inconsistente, às sombras marítimas, se tornaram viagens repetidas. O tempo lhe incubava. Ela fugia pelas noites, sem saber pra onde, numa angústia perdida, num surrealismo infantil. Buscava sentidos, e tudo que via eram pedaços de si irreconhecíveis, meio água meio terra meio ar fogo fera. Sua mãe não poderia saber porque o ninho lhe afligia. E continuava a por-lhe cobertas e a ir pra longe da menina. Ana continuava a nadar. Nadou tanto que um dia começou a emergir de leve em direção ao sol que penetrava no mar.


Ana resolveu acordar. Depois de 10 anos imersa em seus subterrâneos, voltou. Abriu os olhos, era um dia de tarde colorida, folhas por toda parte, flores nos canteiros e pessoas andando apressadas pela rua. Era dia. Olhou pela janela atônita, era o mundo, que era ontem todo escuro, todo mudo. “como está mudado” Ana levantou-se, olhou o espelho e pela primeira vez se sentiu alguém firme. Tudo bem que escorria água pela sua pele como um rio a desaguar. Mas ela estava tão diferente e atraente, que se apaixonou pelo que viu. Sentiu prazer em ver um rosto esperto e expansivo. “Tão rico. Tão rico.” Ela pensou. E desejou o mundo de fora muito mais do que seu ninho. Desejou experimentar as cores ao seu redor. Desarrumou a cama, pendurou o edredom no varal e vendo-o branco ao sol dançando com o vento sul decidiu. Sorriu grande para as montanhas do horizonte e correu até seu topo com toda graça e sinestesia. Chegando ligeira ao cume avistou todo um horizonte azul marinho. Ela e seu edredom branco, Mais nada. Apalpou seu corpo e percebeu o quanto de água havia escorrido por entre seus olhos e cavidades por tantos sonhos! Agora estava tão leve. Vívida. Seus cabelos estavam negros e sua pele áspera. Percebeu com surpresa o que era. uma mulher. Tão ardente, a ponto de explodir explodir explodir! Então acarinhou o edredom, aprumou-lhe nas costas como uma capa heróica e num impulso desesperado e radiante se jogou da montanha ao mar. 1 segundo 2 segundos 3 segundos 4 segundos 5 segundos 6 segundos... E Ana do ar, voltou ao mar. Imenso profundo que parecia lhe esperar. Até hoje Ana de dez em dez anos volta às montanhas para percebe-se nova. Terra. perdida. Heróica. Emerge das águas, pega seu ninho e de cima da montanha mais alta se joga rumo ao nada. Apenas para sentir-se leve e livre, renovar-se em outras elevações, durante 6 segundos ela e o ar se confundem para então naufragar novamente ao mar essência escura que lhe habita e carrega. Ana Marina passaram a lhe chamar. E de tão cíclica suas subidas virou Ana Marina Ana.. um nome sem fim, uma história sem fim. De terras firmes, ventos, noites, montanhas, e um mar eterno a lhe tomar a alma.

A Sereia Celestina  

Um conto sobre Marina e suas subidas.