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mesum verma photography

red bull india story

RenĂŠ Wildhaber


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DE BICICLETA COM BUDA > XPRESSION ONBIKE 24

De Bicicleta Com Buda René Wildhaber parte à aventura pelos Himalaias TEXTO: RENE WILDHABER FOTOS: MESUM VERME/RED BULL PHOTOPHILES

Estou sentado no jardim do Jigmet, um pequeno hotel em Leh, no Norte da Índia, mesmo no coração dos Himalaias. O empregado trouxe-me um bule de “chai”, que é nada mais nada menos que chá preto com uma peculiar mistura de especiarias, leite e montes de açúcar. Aprecio as flores no jardim porque não vi muitas flores nas últimas semanas. Em contrapartida passei por algumas aventuras incríveis. Observo-as espalhadas pela mesa sob a forma de apontamentos no meu diário. Enquanto me ocupo a organizá-las a viagem repete-se na minha cabeça.

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DE TÓQUIO A NOVA DELI

Apenas algumas horas mais tarde, fui transportado para outro mundo, Nova Deli, Índia. Aqui é preciso força muscular para abrir as portas dos táxis e nervos de aço para avançar por entre a multidão de motoristas agressivos antes de nos podermos sentar no veículo escolhido. Enormes buracos nas estradas substituem o piso que absorve o ruído em Tóquio, o tráfego é lento, o ar está saturado de fumos de escape e cheira a excrementos de animal. As vacas sagradas estão por todo o lado e são tratadas com enorme respeito. Embora tenha viajado imenso durante a minha vida, Nova Deli foi o primeiro sítio onde senti um choque cultural. Mesum já estava habituado a isto, é indiano, apesar de viver na Suíça. Também ele queria fugir do ritmo caótico de Nova Déli. A nossa próxima ONBIKE 24 | DEZEMBRO JANEIRO | .014

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paragem seriam as paisagem verdejantes do Vale Kullu. Depois de várias negociações e de uma viagem de autocarro, repleta de aventuras, que durou dezasseis horas, chegamos finalmente a Manali. Era com enorme entusiasmado que Dorjee Tsering, que seria o nosso guia nas próximas semanas, esperava por nós. Colocamos as bicicletas no jardim de sua casa na companhia de uma vaca e um bezerro. Manali situa-se na base dos Himalaias, dois mil metros acima do nível do mar, um local ideal para nos aclimatizar-mos. Preparamo-nos para as montanhas centrais dos Himalaias, que têm mais do dobro da altitude de Manali, fazendo pequenas passeios nas nossas bicicletas. Passados alguns dias, sentíamo-nos preparados par a o grande salto. Despachamos o material para a nossa excursão e de seguida apanhamos

um táxi para Darsha, o ponto de partida da nossa aventura. Foi lá que Tashi Phutsok, o nosso cozinheiro, e Santosh o responsável pelos cavalos, se juntaram a nós. A partir de agora os cavalos carregariam a nossa bagagem enquanto eu, Dorjee e Mesum seguiríamos de bicicleta e tiraríamos umas fotos. Uma rotina diária simples mas fascinante começou a desenvolver-se: O dia começava com um “Chai” de bons dias, seguido do pequeno almoço, do levantar do acampamento e do carregamento dos cavalos. Depois das tarefas concluídas nada nos conseguia impedir de montar nas nossas bicicletas e seguir. NÓMADAS, IAQUES E BICICLETAS

Viajamos por diferentes caminhos todos os dias e descobrimos diferentes paisagens, as quais


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nunca deixaram de me impressionar profundamente. Acho que é quase impossível descrever o fascínio que as paisagens dos Himalaias exerceram sobre mim, as fotos do Mesum são certamente mais capazes de explicar o que quero dizer. Logo no segundo dia atravessámos a passagem de Shingu La a uma altitude 5100 metros, coberta por 60 centímetros de neve. Tive de carregar ou empurrar a minha bicicleta durante umas oito horas. Sentia-me um cavalo de carga, apesar de eles levarem a minha. Pelo menos ninguém teve enjoos devido à altitude. Depois da marcha forçada, presenteamos os cavalos e nós mesmos com um dia de descanso. Quase não existe população na zona e apenas nos cruzávamos ocasionalmente com outros viajantes. A certa altura deparámo-nos com um grupo de mulheres nómadas e observamo-las a ordenharem Iaques. Provamos o leite fresco e o queijo fumado que se mantém fresco durante muito tempo. Eu venho de uma família de camponeses de montanha, mas o que vi aqui é totalmente diferente. As mulheres cantam enquanto trabalham, o que parece acalmar os animais. Como um pequeno gesto de gratidão oferecilhes uma volta de bicicleta. Apesar das mulheres nos Himalaias não saberem andar de bicicleta gostaram de ser empurradas e uma delas até comentou que era um “bom cavalo”! Pouco depois, a primeira vila que encontramos ONBIKE 24 | DEZEMBRO JANEIRO | .016

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na nossa viagem destacava-se na paisagem ocre. Rapidamente a juventude local se aproximou e todos queriam dar uma volta de bicicleta, o que eu naturalmente permiti. A escola local era dirigida por um professor da República Checa que nos convidou para uma visita. Graças a donativos que ele próprio organizava e à ajuda de emigrantes nepaleses que viviam no estrangeiro, o edifício escolar estava quase concluído. DE MOSTEIRO EM MOSTEIRO

À medida que o clima se tornava mais quente e soalheiro, os “sinlgle tracks” melhoravam e o prazer de andar aumentava de dia para dia. “Stupas” budistas e muros “Mani” simbolizavam as crenças da população. Stupas são monumentos que contêm reliquías budistas, e que servem também de guia para o próximo mosteiro e proporcionam conhecimento sobre os seus ensinamentos. A pequenas muralhas de pedras soltas são chamados de muros de Mani. Alguns Manis contêm mantras gravados. Como é comum em todos os lugares sagrados budistas, quem contornar um Mani no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio será abençoado. Com cerca de mil anos, Pukthal Gompa é o mosteiro mais antigo na região de Zanskar. Os monges ficaram fascinados com as bicicletas e com os capacetes da Red Bull e experimentaram

tudo. Apenas alguns dos monges já tinham visto uma bicicleta por perto. Apesar do responsável pelo Mosteiro não se ter mostrado tão impressionado, convidou-nos para um chá de manteiga salgado e Dal Bat, um prato típico de arroz e lentilhas. Com as energias repostas, Mesum e Dorjee içaram duas bandeiras de agradecimento. A visita ao mosteiro deu-me também uma energia renovada e pela primeira vez a esta altitude consegui pôr o pé no acelerador. O trilho acompanhava o curso do Rio Tsarap, subindo e descendo, alternando entre técnico e incrivelmente rápido, bem a meu gosto. Para minha surpresa, sobrevivi ao treino intervalado a 4 mil metros com pernas doridas mas sem dores de cabeça. A FONTE DE ENERGIA DE GENGHIS KHAN

Ao nono dia da nossa viajem, chegámos a Padum, uma vila com uma rua. Por estar situada numa zona de trânsito as suas características tradicionais tinham-se modificado. Viam-se lojas e lixo espalhado por todo o lado. As pessoas usavam jeans em vez das suas tradicionais roupas de lã, que são mais apropriadas para o seu clima e geografia. Graças à electricidade, telefones, televisão, camiões e carros, um ritmo mais acelerado tinha carimbado a vida local. Passámos rapidamente e com a pedalada distanciamo-nos das mulas por algumas horas.


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Usei o tempo que tinha ganho para observar uma velha camponesa que separava os grãos de cevada das espigas. Como recompensa, foi servido chá de manteiga e uma refeição de cevada chamada Zampa. Diz-se que o vitorioso exército de Genghis Khan sobreviveu alimentando-se de Zampa, chá de manteiga e carne seca. A vida desta camponesa impressionou-me, trabalha todos os dias, sem pressão de horários, do nascer até ao pôr do Sol. A energia da Zampa veio mesmo a calhar, uma vez que ainda tínhamos nove passos de montanha para ultrapassar. O mais alto de todos seria o passo de Sengi La, com uma altitude de 4900 metros. À medida que a subida se tornava incrivelmente acentuada, obrigando-me a carregar a bicicleta muitas vezes, os sinlge traks tornavam-se mais divertidos para se andar. Durante a nossa subida para o passo de Hanuma LA, os turistas disseram-nos que a descida seria intransponível. Quando cheguei ao cume, não podia acreditar no que via. Por baixo de mim um trilho interminável serpenteava até ao vale. Prazer ciclistico sem limites. À medida que acelerava pelo trilho ia gritando de alegria até ficar sem oxigénio. Devido a todas estas sensações agradáveis esqueci-me que um acidente e um ferimento poderiam ter graves consequências, tendo em conta que o salvamento seria muito difícil. O

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hospital mais próximo ficava a dias de viagem e esses dias seriam os mais longos e desconfortáveis da minha vida. Felizmente cheguei são e salvo ao final do trilho. Aproveitámos para visitar outro Mosteiro, o Lingshed Gompa. Os monges também gostaram das aulas de ciclismo e mais tarde convidaram-nos para nos juntarmos às orações matinais. Um zumbido que tinha tanto de fascinante como de irritante, acompanhado de tambores e sinos enchia a sala. Um Lama levou-nos numa visita guiada pelos lugares mais sagrados do Mosteiro, enquanto que Mesum, um budista praticante, foi autorizado a fotografar algumas cerimónias religiosas. MAIS DO QUE UM MUNDO

O décimo sétimo dia terminou com a nossa última refeição juntos. Tínhamos chegado a Wanla e celebramos o sucesso da nossa viagem com um banquete. Os Momos, raviolis tibetanos recheados de carne de Iaque, estavam deliciosos. Bebemos Chang com a refeição, um sumo de cevada fermentado que diluímos com água. Afinal de contas somos atletas. Adoramos a nossa última subida ao passo de Prinkiti La. A descida que se seguiu foi mais um momento alto e uma óptima conclusão da nossa viagem. Tínhamos chegado a Lamayuru, o nosso destino final. A visita ao Mosteiro local deu-nos

a oportunidade de agradecer a Buda pela protecção durante as nossas aventuras. Agradeci também a Mesum pelas fotografias fantásticas. Dorjee deu-nos um Katak, um lenço local, como sinal de amizade. Santosh regressou a casa com os cavalos enquanto que o Dorjee e o Tashi acompanharam-nos até Leh. Descansámos uns dias nesta pequena cidade, que agora nos parecia enorme e movimentada. À medida que o Verão se aproxima do fim e o Inverno começava a mostrar as suas garras, ficámos ansiosos por viajar para o Sul tão rápido quanto possível. Estamos em Outubro, em breve os passos estarão cobertos de neve e intransponíveis. Uma tarde, depois de um litro de chai, continuava sentado no jardim em Leh, local onde escrevi no meu diário as memórias mais marcantes das últimas semanas. Na Índia conheci um outro mundo, na verdade, diversos outros mundos, todos atraentes e assustadores em simultâneo. Foi um enorme privilégio poder conhecer as montanhas dos Himalaias de bicicleta, uma vez que existem muito poucas estradas mas muitos single tracks. Em Nova Déli, outra Índia esperava por mim, no entanto, depois das experiências das últimas semanas, a capital parecia-me bem menos assustadora que na minha primeira visita. RW .017 | D E Z E M B R O J A N E I R O | O N B I K E 2 4


Bici da Montagna

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ISSN 1123-9220

5,50 € - Anno XX, n. 210, febbraio 2009 - Tariffa R.O.C. (ex 20/B): Poste Italiane S.p.A. - Sped. in abb. Post. - D.L. 353/2003 (conv. in L. 27/02/2004 n° 46) art. 1 comma 1, DCB Roma

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Red Bull, India Story 2008