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A DitADurA militAr em Goi谩s

depoimentos para a hist贸ria


antônio pinheiro salles (coordenador)

A DitADurA militAr em Goiás:

depoimentos para a história

Goiânia, 2008 Poligráfica Off-set e Digital


Copyright © 2008 by Antônio Pinheiro Salles (coord.)

Diagramação: Carlos Augusto Tavares Arte da capa: Carlos Augusto Tavares e Pinheiro Salles Capa: Fotos de representantes da ditadura e de duas pessoas (Ismael Silva de Jesus e José Porfírio) que deram a vida em defesa da democracia.

Coordenador: Pinheiro Salles Organizadores: Pinheiro Salles e João Bertolino Coordenação Gráfica:

Poligráfica Off-set e Digital Fone: (62) 3280-2000 www.poligrafica.com.br

CIP. Brasil. Catalogação na Fonte BIBLIOTECÁRIA PÚBLICA MUNICIPAL MARIETTA TELLES MACHADO S578d

Salles, Antônio Pinheiro - coordenador A ditadura militar em Goiás: depoimentos para a história / Goiânia : Poligráfica Off-set e Digital, 2008. 184 p. il. ISBN: 978-85-7766-353-8 1. Ditadura Militar - Goiás - história. 2. Goiás - história política. I. Título CDU: 321:64(817.3)

Ressalvando-se as questões legais, este livro pode ser copiado, reproduzido, no todo ou em parte, para contribuir com a informação das pessoas, principalmente dos jovens. Se for possível, que seja citada a fonte. Impresso no Brasil Printed in Brazil 2008

Para contatos: Gabinete do deputado Mauro Rubem (PT-Goiás), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa. Fones: (62) 3221-3223 / 3221-3222


Sumário Jardel Sebba - Compromisso com a História .............................................. 13 Mauro Rubem - Ditadura militar jamais ..................................................... 15 Pinheiro Salles - Recuperar a memória e caminhar para a frente ............ 25

DEPOIMENTOS Abrão Marcos da Silva - Forças Armadas exigem demissão ..................... 33 Aguinaldo Lázaro Leão - Morte de Israel e nomes de assassinos ............. 37 Alaor Souza Figueiredo - A necessidade do combate à tortura................. 43 Aldo Arantes - Minha atuação foi reconhecida nacionalmente............... 47 Antônio Pinheiro Salles - Meus sonhos sobreviverão nas flores vermelhas ........................................................................ 51 Carlos Alberto Santa Cruz - Ditadura anestesiou geração atual ..............63 Carmina Castro Marinho e Nélson Pereira Marinho - Repressão levou posseiro à morte ............................................................................... 67 Dirce Machado da Silva - Terror levado aos camponeses de Trombas e Formoso ............................................................................................. 71 Élio Cabral de Souza - Método Paulo Freire foi ao campo....................... 81 Eudes Pacheco - Juventude resiste e tem esperança................................... 87 Hugo Brockes - Que não se permita a volta da ditadura ........................... 91 João Silva Neto - Uma sucessão de sofrimentos e martírios .................... 95 Joaquina Ramos de Castro - Mulher, mãe, revolucionária ...................... 99


José Porfírio de Souza - Lendária luta camponesa de Trombas e Formoso .....103 Luiz Antero de Morais - Fiquei com seqüelas permanentes ................... 107 Luiz Carlos dos Santos - Carregamos Mauro Borges nos braços ........... 109 Marcantônio Dela Côrte - Muitas histórias dentro da História .............. 117 Márcio Beck e Maria Augusta - Chacina de Rio Verde tem autor identificado ................................................................... 127 Marcos Antônio Dias Batista - Menino enfrentou a ditadura ............... 131 Maria de Campos Batista - Mãe morre procurando o filho desaparecido .................................................................................. 133 Maurício Samuel Zaccariotti - Movimento estudantil e sindical, prisão, socialismo ........................................................... 137 Neso Natal - Militantes levam armas do quartel de Anápolis ............... 141 Sebastião Gabriel Bailão - Uma vida em defesa do socialismo.............. 145 Tarzan de Castro - Repercussão até no FBI.............................................. 149 Valdi Camarcio Bezerra - Prisioneiro de alta periculosidade ................ 153 Valterli Guedes - 1964: Goiás no contexto do golpe ................................ 159 Walderês Nunes Loureiro - Memória inclui muitos mortos ................... 163 Wilmar Antônio Alves - Wilmar demorou a voltar ................................. 173 Painel de fotos ............................................................................................... 177 Homenagem aos mortos e desaparecidos políticos de Goiás ................. 183


As minhas flores, plantadas (vermelhas, preocupadas) Lรก no fundo do quintal, Falam de corpo na maca, Marcado de medo e taca, Na terra do carnaval. Wilmar Alves


Este livro é dedicado aos familiares dos mortos e desaparecidos, que tanto sofreram, sofrem e resistem, participando das lutas do nosso povo. Ainda, à memória dos sobreviventes que se foram sem oportunidade de nos deixar os seus valiosos depoimentos. Especiais agradecimentos a Cecília Torres Borges, Fleurymar de Sousa, Salma Saddi, Kennedy Trindade, Jairo Vicente de Melo, Airvélton Machado, Roosevelt Arantes da Rocha, Luiz Signates, José Luiz Bittencourt Filho, Renato Dias, Pedro Júnior, Antônio Almeida, Fábio Fazzion, Batista Custódio, Geraldo Fábio de Assunção, Carlos Augusto Tavares, Alziro Zarur, Rodrigo Sanches Gracia e Paulino Alves.


Jardel Sebba

Compromisso com a História

P

or ser um poder democrático e transparente, que se esforça para se manter em profunda sintonia com a sociedade, a Assembléia Legislativa do Estado de Goiás tem um compromisso com a História. Compromisso que não se restringe a jogar luzes sobre feitos heróicos e momentos de glória. Compromisso que nos obriga, muitas vezes, a tocar em feridas antigas e jamais cicatrizadas. Por esse motivo, a Assembléia Legislativa do Estado de Goiás não titubeou ao publicar A ditadura militar em Goiás: depoimentos para a História. Por mais que fatos dolorosos tenham ocorrido, nunca poderemos relegar ao esquecimento tudo que este País viveu sob o regime militar, entre 1964 e 1985. Todos aqueles que exercem uma função pública têm o redobrado dever de contribuir para reavivar a memória dos que testemunharam aquele período, e apresentar os fatos com coragem e isenção às novas gerações. Não porque seja nosso desejo, simplesmente, cultuar a dor e o passado. Mas, principalmente, para que aprendamos com os erros e acertos, jamais esquecendo quanto nos são caros os valores democráticos. Não há bem mais valioso que a liberdade. Não há caminho mais seguro para a justiça e a igualdade do que a Democracia. 13


No momento em que os cidadãos demonstram profundo desencanto pela política partidária, é fundamental lembrar que este País teve suas liberdades democráticas resgatadas com sangue e lágrimas. A despeito das sucessivas crises e dos escândalos, somos uma Democracia e devemos nos orgulhar disso. Pagamos um preço muito alto pelo sagrado direito de escolher nossos representantes em eleições livres e diretas. Vidas se perderam para que pudéssemos ter liberdade de pensamento, de opinião e de associação política. O livro há de cumprir um relevante papel, contribuindo para a preservação da nossa memória. Os depoimentos contidos em A ditadura militar em Goiás, editado sob a coordenação da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás, foram prestados por pessoas envolvidas diretamente no processo de resistência. Todos os personagens estiveram presos e conheceram a brutalidade da tortura. As suas opções partidárias, no presente ou no passado, não foram consideradas pela coordenação dos trabalhos. Se concentramos as informações nos limites goianos, foi por compreender que o Estado é carente de informações regionalizadas. Que o nosso livro, portanto, vá para as ruas, conquiste lugar nas escolas e bibliotecas de Goiás, chegando especialmente às pessoas mais jovens. Que todos nós possamos encontrar nesse passado suficiente motivação para lutar com bravura pela construção de um Brasil melhor e mais justo. Goiânia, agosto de 2008 Jardel Sebba, deputado estadual, presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás 14


Mauro Rubem

Ditadura militar jamais

A

ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985, causou indescritíveis prejuízos ao conjunto da população de nosso país, embora as classes dominantes se iludam com o saldo político e econômico que conseguiram à sombra dos quartéis. Ninguém deixou de ser direta ou indiretamente atingido pelas malévolas garras do regime militar, todas desenvolvidas a partir do golpe tramado e executado com a assessoria do governo dos Estados Unidos, que calculou os seus efeitos em toda a América Latina. Com reconhecida experiência no desrespeito à autodeterminação dos povos, o imperialismo moveu, antes do golpe, uma nefasta campanha ideológica contra o governo de João Goulart. Para isso, houve uma intensa comunicação entre a embaixada norte-americana no Brasil e a Casa Branca, para aperfeiçoamento dos detalhes do apoio, dentro da Operação Brother Sam, que só foi desmobilizada após a confirmação do sucesso do movimento. A operação incluía: porta15


aviões, destróieres, navio para transporte de helicópteros, petroleiros, aviões de carga e de abastecimento, caças e um posto de comando aerotransportado, além de barris de combustíveis e 110 toneladas de armas e munições. Assim, o governo dos Estados Unidos monitorou as iniciativas dos militares, dos políticos e empresários golpistas. Conforme dados levantados por Janaína Teles e divulgados no seu livro Os Herdeiros da Memória. A Luta dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos por Verdade e Justiça no Brasil, mesmo não estando concluída a radiografia dos atingidos pela repressão política, já se pode afirmar: “Cerca de 50 mil pessoas foram presas somente nos primeiros meses da ditadura; cerca de 20 mil pessoas foram submetidas a torturas durante a ditadura; e há 356 mortos e desaparecidos políticos indenizados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Politicos da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República”. Ainda: “7.367 acusados e 10.034 atingidos na fase de inquérito em 707 processos judiciais, por crimes contra a segurança nacional, que foram estudados no projeto; milhares de presos por motivos políticos; quatro condenações à pena de morte; 130 banidos; 4.862 cassados; 6.592 militares atingidos; grande número de exilados; e centenas de camponeses assassinados” (esses dados constam, também, do livro Direito à Memória e à Verdade – a Ditadura no Brasil, 1964 a 1985). Dentre os primeiros cassados, estão: João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes e Celso Furtado. 16


Tão logo o presidente João Goulart foi afastado do governo, as perseguições políticas se espalharam pelo país inteiro. As primeiras denúncias de tortura vieram à tona no Rio de Janeiro e em Pernambuco, onde o admirado líder comunista Gregório Bezerra foi preso e entregue ao tenente-coronel Darcy Villocq Viana, que o amarrou e o arrastou (isso mesmo!) pelas ruas de Recife, em cenas mostradas na televisão, “para servir de exemplo”. Mas o terror absoluto somente se consolidou com a imposição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968 (certamente Hitler e Mussolini gostariam de assiná-lo). Esse tenebroso instrumento puniu, em 10 anos, 1.607 pessoas, incluindo-se a cassação do mandato de seis senadores, 110 deputados federais, 161 deputados estaduais, prefeitos e vereadores. A censura prévia vetou 500 filmes, 450 peças teatrais, 200 livros e 500 canções. Levando diretamente a censura para dentro dos jornais, rádios e televisões, o AI-5 somente liberava as matérias de interesse dos militares. A sede da União Nacional dos Estudantes, no Rio de Janeiro, foi ocupada e incendiada pelo aparelho repressivo da ditadura. Em Goiás, o governador Mauro Borges, filho do então senador e ex-governador Pedro Ludovico, manifestou seu apoio ao golpe de Estado (à “Revolução”). Mas, mesmo assim, intensificou-se a pressão sobre ele, ocasionando uma crise que atraía as atenções de todo o país. Diante das ameaças e da intranqüilidade gerada, Mauro Borges, sempre com muita calma e dignidade, procurou respaldo na mobilização popular. E, cada vez mais, o cerco foi 17


apertado, com uma permanente guerra de nervos, sendo fabricados argumentos para desestabilizar o governo e abalar a sua popularidade. Após um doloroso processo de intimidação, Mauro Borges caiu, é verdade, só que saiu do Palácio das Esmeraldas nos braços do povo. A partir daí, com maior facilidade se intensificou a repressão política, repetindo aqui o que acontecia nos demais Estados: medo, insegurança, violência, prisão, tortura, morte, desaparecimento... Tudo isso num clima de conspirações e disputas do mais baixo nível, tendo como principais atores os políticos fascistas, militares arrogantes, torturadores que conseguiram assento nos centros de intrigas, arengas, infâmias e asquerosas atitudes, como instalação de aparelhos de espionagem no gabinete do próprio governador biônico que tinha Hitler como ídolo. Os mortos e desaparecidos goianos, ou que tiveram sua história de vida (ou de morte?) ligada a Goiás, são: Arno Preis, Cassemiro Luís de Freitas, Divino Ferreira de Souza, Durvalino de Souza, Honestino Monteiro Guimarães, Ismael Silva de Jesus, James Allen Luz, Jeová de Assis, José Porfírio de Souza, Márcio Beck Machado, Marcos Antônio Dias Batista, Maria Augusta Thomaz, Ornalino Cândido, Paulo de Tarso Celestino e Rui Vieira Bebert. Eles foram mortos ou desapareceram, entre 1968 e 1979, porque defendiam a Justiça e a Liberdade, não se calando nem se omitindo diante dos crimes que os militares praticavam contra o povo. Em 28 de agosto de 1979, a anistia política foi vitoriosa, representando uma destacada conquista democrática e possibilitando o retorno dos banidos 18


e exilados, a abertura dos ferros que mantinham os sobreviventes nos porões do regime e o abandono da clandestinidade por quem ainda palmilhava os tortuosos caminhos não identificados pelos esquemas da repressão. Mas os militares tiveram a seu favor a “timidez” dos políticos vacilantes, conciliadores, sem compromisso para enfrentar os “argumentos” dos protetores de quem praticou crimes imprescritíveis. Ao contrário do que se fez em países vizinhos, aqui se assegurou a impunidade dos torturadores, com posicionamentos políticos que inibiram as necessárias iniciativas jurídicas. Os governos que vieram depois não tiveram pulso para repudiar os engodos dos criminosos. E isso, segundo o jornalista profissional, bacharel em Direito e ex-preso político Pinheiro Salles, traz uma série de preocupações, porque a educativa punição dos algozes é fundamental, principalmente para que as novas gerações nunca se intimidem diante das manobras de tão alto custo para o povo. Pinheiro Salles adverte: “Se os verdugos não são punidos e execrados publicamente, eles se sentirão estimulados a defender regimes autoritários; a população não se mobilizará para garantir o aprofundamento das conquistas democráticas; e nada será feito para concretizar uma definitiva ruptura com o tempo do terror”. A Comissão de Direitos Humanos, Cidadania e Legislação Participativa da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás, que pela segunda vez tenho a honra de presidir, tudo faz no sentido de não permitir qualquer omissão no combate ininterrupto à violência no Estado. 19


Assim, com a publicação deste livro reunindo depoimentos de pessoas que enfrentaram as atrocidades da ditadura militar, esperamos contribuir para a consciência do nosso papel na sociedade de classes em que vivemos. Ninguém tem o direito de fechar os olhos, ou lavar as mãos, quando a injustiça se levanta perto ou longe de nós, porque Goiás é um importantíssimo pedaço do mundo. Saúdo o Legislativo goiano, reconhecendo a força de sua participação na defesa da democracia e da justiça. Aqui se realizaram vigorosos debates, com os inevitáveis confrontos ideológicos e a preocupação de resgatar a memória das lutas do nosso povo. Quem ousa desfraldar a bandeira das transformações sociais, seguindo em direção a um futuro melhor, não pode fugir da correta interpretação da realidade atual, projetando a edificação de um mundo que valorize a vida. As pessoas que tentam ridicularizar o esforço para divulgação da nossa história, com o objetivo de levar informações à população, não sabem ou fingem não saber o que de mais nocivo proporcionou a ditadura militar para o povo brasileiro. O golpe de Estado no Brasil, em 1964, abriu as portas para implantação de outras ditaduras, alcançando índices alarmantes de crueldade na Argentina, no Uruguai e no Chile, com a presença do Paraguai na cooperação entre os agentes da repressão e os interesses das classes dominantes na América do Sul (a Operação Condor, com a ajuda financeira do imperialismo norte-americano, eliminou todas as fronteiras desses países). Além disso, imensos prejuízos aconteceram na educação, na ciência e tecnologia etc, com mais intensidade 20


no comportamento de grande parte da polícia, que continua desrespeitando os direitos humanos mais elementares. Essas lamentáveis constatações muito justificam a edição deste livro, gerido pela Comissão de Direitos Humanos, com apoio da Mesa Diretora da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás (responsável pela publicação), sob a presidência do deputado Jardel Sebba. Os depoimentos de militantes que incomodaram a ditadura possuem um inequívoco valor histórico, que o Legislativo goiano percebeu em boa hora, já que as denúncias e outras observações não devem seguir para o túmulo com os personagens daqueles soturnos tempos. Outros tantos depoimentos poderiam constar do livro, mas ficam de fora em função das dificuldades de localizar essas pessoas e produzir o material no prazo solicitado, para comemorar os 29 anos da anistia, no dia 28 de agosto (2008). Faltam, também, informações sobre a Guerrilha do Araguaia (1973-1974), encaminhada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B). Sem dúvida, foi uma das altas manifestações da resistência à ditadura militar. Ali, no norte de Goiás (antes da divisão do Estado) e sul do Pará, as Forças Armadas praticaram violências que ferem comezinhos princípios do relacionamento humano. Segundo as próprias pessoas que participaram dessa tétrica repressão, nada pode ser comparado às barbaridades que atingiram os simples moradores da região. Mas nada se fez, desde então, contra aqueles que violentaram os sonhos dos jovens de todo o país. Imprescindível é o reconhecimento, na edição deste livro, da contribuição oferecida pela Associação 21


dos Anistiados de Goiás (Anigo). Ela nos ajudou no levantamento dos dados para os respectivos depoimentos. Este nosso livro comprova a necessidade de outras providências, trazendo esses camaradas para o centro das discussões políticas e para uma atuação à altura do que eles representam. Isso tudo, naturalmente, com o expurgo dos oportunistas de plantão, hoje atrelados aos herdeiros do regime militar. Eles informaram que a luta de classes não prevê férias e aposentadorias, nem a mudança de lado no processo de emancipação do povo. Parte da imprensa goiana, movida pelo preconceito ou pela ignorância a respeito do terror implantado em Goiás e em todo o restante do Brasil, reúne argumentos chulos para desqualificar quem recebe uma reparação econômica e quem a paga, sem levar em consideração os mais relevantes aspectos analisados pela Comissão Nacional de Anistia, vinculada ao Ministério da Justiça. O governo federal só erra em não assumir publicamente, com entusiasmo, essa medida democrática, patriótica, que deveria ser motivo de orgulho para o conjunto da população brasileira. Do jeito atravessado que se trata a questão, os anistiados até se sentem constrangidos, envergonhados, por receber uma pensão, que, aliás, oferece as condições mínimas para a dedicação à continuidade da luta política por uma sociedade verdadeiramente democrática. Para concluir, faço um especial agradecimento aos familiares dos desaparecidos políticos e lhes recomendo a aceitação da honra de ser quem são. A Assembléia Legislativa de Goiás, em sua trajetória, ainda não havia se pronunciado, com tamanha galhardia, sobre o regime 22


autoritário dos militares, nem mesmo quando foram suprimidos mandatos de seus parlamentares. Se ela hoje homenageia os deputados que desafiaram a ditadura, perdendo por isso o mandato e a vida, sabe agora que não mais se calaria em situação semelhante. Muitas informações chegaram às nossas mãos, sobre a resistência dos perseguidos e sobre o sadismo dos repressores, que hediondos crimes cometeram em nossa terra. Estou convencido de que esse nosso trabalho não vai terminar aqui. Ninguém ousaria negar: houve momentos de inconfundível heroísmo na luta em defesa da democracia e da justiça; houve lágrimas na hora de alguns depoimentos; e houve, sobretudo, a alegria de verificar que, com mais firmeza, prossegue a nossa marcha democrática. Ditadura militar jamais. Mauro Rubem, deputado estadual, é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás

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Pinheiro Salles

Recuperar a memória e caminhar para a frente

O

s 21 anos da ditadura militar (1964-1985), que não teve limites na prática da violência contra seus opositores, continuam presentes na vida do povo brasileiro. Por isso, quando são comemorados 29 anos da anistia política, a Assembléia Legislativa e sua Comissão de Direitos Humanos dão uma significativa contribuição a esse debate, editando o livro A ditadura militar em Goiás: depoimentos para a História. E tudo adquire uma importância maior porque, pela primeira vez, ministros do governo admitem a punição dos torturadores. Até 1973, os agentes da repressão procuravam encobrir o assassinato de presos políticos entregando os cadáveres às suas famílias e dizendo que eles haviam morrido em “tiroteios”, “atropelamentos”, “tentativas de fuga” ou “suicídio”. A partir desse ano, sendo consideradas inconsistentes as justificativas, teve início a predominância do “desaparecimento”. Dessa forma, não se reconhecia a prisão (o seqüestro). E os corpos das vítimas eram jogados em alto mar ou sepultados, clandestinamente, na periferia das grandes cidades ou, ainda, enterrados como indigentes, com nomes falsos. 25


Evidentemente, os mesmos métodos de violência e opressão foram aplicados aqui em Goiás, onde também houve perseguição, tortura e morte, num clima de desconfiança que envolvia os militares e todos os que lhes davam sustentação política. Em 1964 e 1965, 147 oposicionistas goianos conheceram as prisões e os maustratos. Passando pelos aterrorizantes IPMs, eles deveriam, em seguida, ser enviados à Auditoria Militar de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Mas muitos foram poupados dessa viagem, à medida que não se preocupava com a formalização dos processos, especialmente durante o governo militar do interventor Emílio Ribas Júnior. Lembre-se, a propósito, que a intervenção no Estado de Goiás determinou o afastamento do governador Mauro Borges, do Palácio das Esmeraldas, no dia 26 de novembro de 1964. A ditadura, observando o apoio popular recebido pelo filho do Doutor Pedro Ludovico Teixeira (fundador de Goiânia, governador, senador), procurou amedrontar a multidão aglomerada na Praça Cívica. Mas, aos vôos rasantes dos aviões, muito barulho e ameaças diversas, as respostas do povo se davam com gritos que expressavam coragem e indignação. O povo dali somente se retirou carregando nos braços o seu governador. Dentre os verdugos goianos, alcançou maior notoridade o capitão Marcus de Brito Fleury. Tanto assim que, durante o governo de Irapuan Costa Júnior (biônico), ele foi secretário de Estado, com livre trânsito no Palácio do Planalto. Ao mesmo tempo, coordenou uma equipe de torturadores, composta pelos sargentos Tompson, Garcia Neto e Guido Fontegalnd Ferro. Se nacionalmente foi incentivado o dedodurismo como virtude cívica, em 26


Goiás essa nojeira ocupou níveis alarmantes, afirmandose como elemento fundamental para o preenchimento de altos postos no regime militar. Destacaram-se com competência, no degradante ofício de torturadores, os agentes José Xavier Bonfim, depois delegado do Dops; Almiro Cruz, José Azevedo Soares e Joveny Aparecido Cândido de Oliveira. Ainda: Jerônimo Geraldo de Queiroz, que delatou o reitor Paulo T. Borges e recebeu de presente a Reitoria da UFG. Na abjeta prática da violência, não poderiam ser excluídos o capitão Aníbal, capitão Albuquerque e o coronel Danilo. Também: Saleh Daher, Darci de Sá da Cunha Mello e o capitão Herbert Curado, que chegou a comandar a Secretaria de Segurança Pública. As acusações feitas a alguém quase sempre tinham em vista o cargo preenchido por esse alguém. O engenheiro Irapuan Costa Júnior, por exemplo, não perdia tempo. Conseguiu ser nomeado diretor da Faculdade de Engenharia, que era dirigida por Gabriel Roriz, de quem se fizeram as denúncias pertinentes. Então, quando falamos nos crimes da ditadura, não podemos limitar a nossa exposição às barbáries que nos levavam de volta aos primórdios da Idade Média. Sem possibilidade de fiscalização, o povo conviveu com o desperdício em obras faraônicas, socorro a empresas falidas, imorais privatizações, subornos, corrupção desenfreada... Mas nenhum governo, desde Sarney, assumiu um compromisso democrático que levasse ao encaminhamento de um debate público sobre a punição dos algozes e dos políticos que acobertaram os seus crimes. A falta dessa pedagógica iniciativa oferece aos torturadores, de bandeja, condições para retomar o discurso daquele tétrico 27


período, acreditando que a impunidade sempre lhes será assegurada. Desse jeito, as viúvas do mal procuram (e acham!) algum espaço para espalhar suas calúnias e difamações, com saudade do tempo em que o Palácio das Esmeraldas funcionava como centro de irradiação das concepções e ações nazi-fascistas. O jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo, afirma que “a memória da infâmia foi convenientemente arquivada”, dando-nos a conclusão de que, na América Latina, a “história continua sendo contada mais pelos algozes do que pelas suas vítimas”. Principalmente por isso, cresce a importância da edição do livro A ditadura militar em Goiás: depoimentos para a História. Estou convencido de que a Assembléia Legislativa de Goiás dá um passo além das mesquinharias e tapeações que permeiam a sociedade brasileira. Quanto à punição dos torturadores, o que falta não é a correta interpretação ou revisão da Lei da Anistia, mas a vontade política do governo federal. Se não forem punidos, os repressores se sentirão estimulados para construir outros regimes que valorizem seus métodos de interrogatório, silenciando o povo. Pouca gente se mobilizará para garantir o aprofundamento das conquistas democráticas. E nada será feito para consolidar uma definitiva ruptura com o tempo do terror. O Brasil tem de assumir a sua responsabilidade, para que um dia todos possamos viver em harmonia, sem os riscos de um passado que continue nos ameaçando com a possibilidade do seu retorno no futuro. Quando tudo nos parecia sem saída, compreendemos que, sendo imenso o mundo, nele, apesar de todos os desentendimentos, cada um de nós ainda vai viver sem o 28


desconforto de ser oprimido ou opressor. A punição dos torturadores continua sendo possível, porque os seus crimes, hediondos, não podem ser anistiados. Nós vencemos as trevas da ditadura, fizemos o nosso dever de casa. O resto, agora, mais necessita das articulações políticas, dando prosseguimento à luta que, a cada dia, assume características diferentes, dentro de um objetivo comum. A Assembléia Legislativa do Estado de Goiás mostra o caminho para o Legislativo de todos os demais Estados. O nosso descanso é confiar nos companheiros. Juntos, nós podemos acender o sol e iluminar os largos horizontes do nosso país. Pinheiro Salles é jornalista profissional (GO 00672 JP)

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Depoimentos


Abrão Marcos da Silva

Forças Armadas exigem demissão

N

atural da cidade de Inhumas, 60 anos de idade, médico psiquiatra por profissão, casado com Maria das Graças Nunes Brasil, também perseguida política, buscando alternativas eficientes para combater a ditadura imposta em 1964, ingressei no Partido Comunista Brasileiro (PCB) no ano de 1967, com militância na Organização de Base (OB) da Faculdade de Medicina da UFG. Devido à minha militância política nos movimentos estudantis universitários, fui indiciado em Inquérito Policial Militar (IPM), no ano de 1968, por ter contribuído na realização do Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna/SP. No ano de 1971, fui diretor-geral do jornal Esqueleto 21, órgão oficial do Diretório XXI de Abril, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), que publicava matérias de cunho tido pelos militares como sendo subversivo. Fui condenado pela primeira vez, em 14 de maio de 1971, com base na Lei de Segurança Nacional (LSN), à pena de oito meses de reclusão. 33


Fui arbitrariamente preso, sob forte aparato policial, em pleno centro de Goiânia, no dia 3 de julho de 1972, e levado para o 10º Batalhão de Caçadores, onde sofri torturas físicas e psicológicas por cerca de 35 dias. Em seguida, fui transferido para as dependências da Aeronáutica, em Brasília, e depois levado para o PIC (Pelotão de Investigações Criminais), do Exército. À época, julho de 1972, era plantonista concursado, lotado no Hospital Psiquiátrico Prof. Adauto Botelho, emprego que obviamente perdi ao ser preso pelos militares. Em dezembro de 1972, cursando o 6º ano de medicina, alcançou-me o Decreto-Lei nº 477, de 26/02/69, por ato do reitor da UFG, que, em conclusões sumárias, resolveu aplicar o referido ato discricionário, me punindo com a pena de desligamento e proibição de matricular-me em qualquer outro estabelecimento de ensino pelo prazo de três anos. Em 1973 consegui retornar à faculdade e assim concluir o curso. Fui novamente indiciado em IPM instaurado pelo Exército para apurar as minhas atividades políticas nas Organizações de Base do PCB em Goiás. Ainda em 1973, fui incorporado, como 2º tenente, na Força Aérea Brasileira (FAB), por ser médico. O fato curioso foi a minha expulsão, por incapacidade moral, com apenas três dias depois de eu ter me apresentado ao Comando, em Brasília, sob a alegação de que a FAB não poderia manter na corporação um elemento comunista e condenado pela Justiça Militar. 34


No dia 5 de março de 1974 perdi o cargo de médico perito do Grupamento de Perícias do Inamps, sendo informado que o órgão teria recebido uma circular, do alto comando das Forças Armadas, determinando meu afastamento devido ao indiciamento em IPM. Tal afirmação fora feita pelo médico Nagib Nehme, então superintendente de perícias, diante de outros colegas, argumentando: ou me despedia ou ele seria demitido. Em 20 de junho de 1975, o Superior Tribunal Militar me condenou à pena de dois anos de reclusão, como incurso nas sanções do art. 43, do Decreto-Lei nº 898/69 (Lei de Segurança Nacional). Cumpri parte da pena no Cepaigo, de maio de 1975 a março de 1976, quando me concederam a liberdade condicional. O fato é que o Brasil não pode sequer pensar na possibilidade da repetição de um regime que contraria todos os interesses do seu povo.

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Aguinaldo Lázaro Leão

Morte de Israel e nomes de assassinos

A

qui em Goiás, mais do que se imagina, a ditadura organizou o terrorismo contra todos os movimentos, atingindo até pessoas que nunca haviam tido qualquer militância política. Ainda hoje, estão presentes os resultados, nos mais distintos níveis da vida do povo goiano, da abusiva violência praticada pelos esquemas da repressão. Segundo o Comitê Brasileiro da Anistia, em Goiás, 284 pessoas foram mortas, entre 1969 e 1981. Só que ninguém tem demonstrado interesse em desenterrar o assunto e colocá-lo diante dos olhos do povo e da justiça (cega!), para que não se faça o jogo dos torturadores a serviço do regime militar. Em 1973, eu estava servindo o Exército, com lotação no 10º Batalhão de Caçadores (42º BIM), quando se iniciaram as prisões de pessoas ligadas a partidos e organizações que lutavam pela volta ao estado de direito. Uma dessas pessoas 37


era meu amigo de infância Ismael Silva de Jesus, que ainda não havia completado a maioridade. Sabendo da prisão desse meu companheiro e amigo, procurei descobrir a cela em que ele estava confinado. Com muita dificuldade, isso terminou sendo possível. E, numa noite em que eu tirava guarda, consegui trocar algumas palavras com ele. Explicou-me sua situação humilhante. A voz era rouca e baixa. Mas pude entender o seu recado: ele me pedia para dizer à sua família, principalmente ao seu pai, que não se preocupasse, para que não tomasse nenhuma atitude em relação à sua prisão, com medo de uma possível represália. E, a mim, Ismael confidenciou que estava extremamente debilitado, com um braço quebrado. Havia tomado muitos choques e recebido pancadas generalizadas, sendo freqüentes as torturas, durante dias e noites, já temendo não sobreviver. Pediu-me para fugir, porque ele não mais agüentava segurar as informações que os torturadores queriam, já que meu nome aparecia em tudo, em todas as atividades políticas e até no relacionamento pessoal. Concordei em fugir, deixando-o liberado para dizer o que fosse necessário, desde que isso pudesse atenuar seu sofrimento. Entretanto, não fugi, porque poderiam me perseguir, ainda, como desertor e “subversivo”. Dias depois, fui convidado a acompanhar um oficial na sua ida a Brasília. Tão logo me apresentei, me conduziram ao alojamento e me avisaram que o pessoal do S-2 me esperava junto ao portão de entrada do batalhão. 38


Aí me deram as últimas instruções sobre a viagem a Brasília. Imediatamente após, eles me levaram a uma casa junto aos muros do batalhão, local conhecido como Vila dos Oficiais. Lá começou o interrogatório sobre minha suposta participação nos movimentos de esquerda. Pior: confessasse ter incorporado às Forças Armadas para colher informações, roubar armas e outras coisas do gênero. Como não obtiveram sucesso na primeira investida, ameaçaram me levar até a Sala da Banda, local das sessões de torturas dos presos políticos. Com ironia, me disseram que ali eu iria colaborar mais. E o melhor era começar logo. Já na Sala da Banda, devidamente encapuzado, me disseram para fazer silêncio e aguardar. Pouco tempo depois, a porta se abriu e entraram algumas pessoas. Com voz de trovão, alguém perguntou: “Você conhece o Aguinaldo? Pode nos dar as suas características?” Demonstrando um pesado cansaço, a pessoa respondeu afirmativamente e descreveu a minha pessoa, cautelosamente, como se quisesse me poupar das informações mais graves. Sobre a minha militância no Partido Comunista Brasileiro, a sofrida voz confirmou. A seguir, o meu companheirinho Ismael Silva de Jesus não disse mais nada. Recebeu empurrões e outras formas de violência, enquanto eu só pensava na dor do seu braço fraturado... Dos parentes e amigos, acredito ter sido eu a última pessoa que esteve com ele. Faleceu no dia 09 de agosto de 1973, nas dependências do 10º BC, não mais suportando os maus-tratos que os torturadores goianos impingiam aos cidadãos que ousaram lutar por um Brasil verdadeiramente democrático. 39


As fotografias de Ismael pendurado pelo pescoço, com as pernas encolhidas e o tronco tão perto do chão, não convenceram ninguém de que ali houve um suicídio, porque ninguém é idiota como os torturadores queriam que a gente fosse. E os torturadores? E os assassinos de Ismael e de outros honrados jovens goianos que foram à luta, mesmo sabendo que a impunidade dos criminosos significava um estímulo à bandidagem? É bom lembrar que em 1964 e 1965, 147 pessoas foram presas e submetidas aos famigerados IPMs, com acompanhamento do interventor militar Ribas Júnior. Uma das principais acusações a essas pessoas era de que defendiam o voto do analfabeto e se manifestavam a favor da reforma agrária. O capitão Marcus Fleury foi o maior nome da repressão em Goiás. Por isso mesmo, ocupou a Secretaria de Governo de Irapuã Costa Júnior, com ilimitados poderes políticos e administrativos. Marcus Fleury talvez não tenha participado diretamente do processo de torturas, mas comandava a impiedosa equipe de torturadores formada pelos sargentos Guido Fontegald Ferro, Garcia Netto e Tompson. Contribuíam com eles e desempenhavam o sinistro papel de dedos-duros: José Xavier do Bonfim (foi, depois, delegado do Dops), Almiro Cruz, José Azevedo Soares, Joveny Aparecido Cândido de Oliveira e Gerônimo Geraldo de Queiroz (ocupou a Reitoria da UFG, conseguindo afastar o digno Paulo Borges). As futricas e conspirações, uns contra os outros, eram os métodos utilizados para cassar alguém “por subversão”, e ocupar o lugar dele. 40


Especializou-se nessa prática Saleh Daher, por exemplo, que, temendo alguma represália, mudou-se para os Estados Unidos e lá ficou. Os 147 perseguidos pela ditadura, em Goiás, estiveram presos na Escola General Fico, do 10º Batalhão de Caçadores. Por incrível que possa parecer, uma escola foi transformada em cadeia, para abrigar médicos, advogados, engenheiros e estudantes, que ficaram ali sujeitos à sanha dos agentes Darci de Sá da Cunha Mello, capitão Marcus Fleury e o capitão Hebert Curado, que veio a ser secretário de Segurança Pública. A sociedade se renova a cada momento, a vida é uma construção permanente, seguindo sempre em direção a um mundo melhor, muito melhor, um mundo sem as trevas que por tanto tempo tentaram obstruir os nossos caminhos.

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Alaor Souza Figueiredo

A necessidade do combate à tortura

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laor Souza Figueiredo, com uma intensa militância política, foi membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, em 1987, filiou-se ao PT, quando Pinheiro Salles estava na presidência do partido em Goiânia ele assumiu, prioritariamente, o trabalho de Organização e Formação. Sua trajetória comprova o elevado compromisso com o futuro da humanidade, quando as pessoas irão produzir de acordo com sua capacidade e tudo receber segundo a sua necessidade. Por atuar dessa maneira, com dedicação integral, nunca aceitou caminhar ao lado dos oportunistas e carreiristas, daqueles que colocam seus interesses pessoais na frente dos posicionamentos políticos. A presença de Alaor num partido de esquerda e nos movimentos sociais representa uma garantia de que o mundo pode ser diferente, de que todos nós temos motivos para acreditar na possível superação do ódio, da violência, da desigualdade e de todas as iniciativas que banalizam a vida. 43


Sendo assim, a ditadura militar decidiu perseguir o Alaor, prender o Alaor, torturar o Alaor. Mas não sabiam os ditadores que Alaor Souza Figueiredo não é feito do barro que pouca diferença tem da lama. Esse homem, com mais de 90 anos de idade, não abriga um só momento da sua existência que possa macular a condição humana. Felizes, portanto, são todas as pessoas que tiveram ou têm a oportunidade de conviver com ele. A Clotilde, sua esposa e companheira há cerca de 60 anos, é merecedora da convivência com Alaor. Ela compreende a importância das ações dos homens e mulheres que se fortalecem nas decisões coletivas. Esse casal não conhece desânimo, nada que não tenha sintonia com a vontade de mudar o mundo. Se ela não participa diretamente dos embates políticos que batem à nossa porta, é reconhecendo a necessidade de oferecer sustentação às lutas de Alaor, que são as lutas do povo. Depois de passar pelo interior de São Paulo – onde nasceu –, formou-se no Instituto Estadual de Educação Professor Caetano de Campos e começou a exercer o magistério no Instituto Frederico Hozanan, tendo, também outras atividades. Em 1940/41, iniciou sua militância no PCB e, pouco depois, casou-se com Clotilde Mascarenhas Horta. Em 1946, com sua família, foi para Apucarana, no Paraná, onde administrou uma fazenda de café e fundou associações e sindicatos, enraizando a consciência de classe nos trabalhadores da região. Com uma prática política libertadora, passou pelo PMDB e pelo Comitê Gregório Bezerra, só depois chegando ao PT, para militar numa corrente política de esquerda, marxista, defensora 44


do socialismo. Atuou, também, no movimento comunitário, em diversos bairros de Goiânia. Quando foi preso pelos militares, conheceu os mais abomináveis métodos de torturas, tanto aqui em Goiânia como em Brasília, no PIC. Informou apenas que era comunista, tendo a prática política baseada na teoria marxista-leninista. Deixemos, agora, a palavra com o professor Alaor. Ele é que sabe das coisas. A lembrança da tortura dói Dói muito, íntima e profundamente, ter de falar, de nos lembrar, das prisões e torturas, da desumana tentativa ditatorial de nos humilhar, nos aquebrantar, nos acovardar e nos eliminar, por fim. Dói muito quando pensamos na miséria humana de que se revestem seus agentes executores e os mandantes deles. São pessoas adestradas na prática da violência: de qualquer tipo, em qualquer parte do mundo. Não queremos pensar nisso, queremos nos livrar disso... Mas é preciso enfrentar a questão, denunciá-la! Assim, acabrunhados, machucados, nós precisamos participar, nos somando a todos aqueles que, com palavras escritas ou pronunciadas, continuam condenando, denunciando e combatendo, em qualquer tempo, de ontem, de hoje ou de amanhã, essa brutalização da pessoa humana, essa posição covarde contra a liberdade de pensamento e ação, da manifestação militante. É dever de cidadania evitar a indiferença e acomodação nas questões da tortura, em nosso chão ou 45


em terra longínqua, de outras gentes. Há-de se dar por toda parte, a todo tempo, o combate cívico, patriótico e democrático a essa degradação, para que se consolide a corajosa disposição de todos, com uma prática política libertadora: “Tortura nunca mais”!

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Aldo Arantes

Minha atuação foi reconhecida nacionalmente

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asci em Anápolis (Goiás), onde iniciei meus estudos. Sendo transferido para Goiânia, estudei no Lyceu e comecei a ter participação no movimento estudantil secundarista, nas atividades do Grêmio Félix de Bulhões. Mudei-me em seguida para o Rio de Janeiro, ingressei na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e, também, no movimento estudantil. Fui eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes e me tornei uma liderança estudantil reconhecida nacionalmente. Em 1961, cheguei à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE) e procurei desenvolver um trabalho à altura da importância da entidade. Criamos o Centro Popular de Cultura (CPC). Com minha colaboração, a UNE organizou a maior greve estudantil do país, em defesa da democratização da universidade brasileira. Percorremos o Brasil com a UNE Volante. A entidade assumia o seu devido 47


lugar na organização dos estudantes e na mobilização social. Foi assim que participou da “Campanha da Legalidade”, tentando impedir o golpe e garantir a posse de João Goulart na presidência da República. Entretanto, o golpe veio, em 1964. Passei a ser perseguido pela repressão e tive de viver na clandestinidade. Fugindo dos grandes centros, fui para o interior de Alagoas, lá desenvolvendo um trabalho de organização dos camponeses. Já na segunda metade da década, fui identificado pelos agentes da polícia repressiva e preso, junto com minha esposa e meus filhos menores. Com a ajuda de companheiros, conseguimos fugir e me desloquei para São Paulo, onde continuei a luta contra a ditadura. Em 75, quando eu participava de uma reunião do Comitê Central do PC do B, fui preso e, nessa operação, outros três dirigentes partidários – Pedro Pomar, Ângelo Arroio e João Batista Drummond – foram brutalmente assassinados. Esse episódio ficou conhecido como a “Chacina da Lapa”. Em São Paulo, permaneci preso por três anos, sofrendo as mais cruéis torturas físicas. Aliás, tratamento comum dispensado aos presos políticos nos porões da repressão. A crueldade dos militares era tamanha que sensibilizou a sociedade e mobilizou as entidades nacionais e internacionais de direitos humanos (igreja católica progressista, artistas e outros segmentos, que foram decisivos na conquista da Lei da Anistia, em 1979). Ao ser libertado, retornei a Goiás e iniciei uma nova fase de militância política. Agora, com os partidos de esquerda fechados pela ditadura, filiei-me ao MDB e, com outros companheiros, formamos o Bloco Popular. Com uma campanha empolgante 48


e com a presença em massa da juventude e dos trabalhadores, fui eleito deputado federal em 82. Na Câmara dos Deputados, procurei exercer o mandato de forma combativa, sempre fortalecendo a luta e os interesses do povo brasileiro, especialmente do povo goiano. A minha atuação parlamentar, em sintonia com as aspirações populares, ofereceu-me a garantia de continuidade da atuação na Assembléia Nacional Constituinte, onde tudo fiz para assegurar a consolidação da democracia em nosso país. Além disso, em nenhum momento negligenciei na luta pelos direitos da classe trabalhadora e do povo. A atuação coerente e firme me rendeu importantes manifestações de reconhecimento ao exercício parlamentar. Recebi, por exemplo, títulos do Clube dos Repórteres Políticos do Estado de Goiás: “Político do Ano” e “Melhor Político de Goiás”, ambos em 1983. Ainda: “Melhor Congressita”, em 1987. Recebi, também, o diploma de “Deputado Nota 10 na Constituinte”, concedido pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Em 1984, estive em quase todos os municípios goianos, participando de comícios, debates e mobilizações populares pelas Diretas-Já. Essa minha presença constante aconteceu nacionalmente, ao lado de Lula e de outras expressivas lideranças, como João Amazonas, Leonel Brizola e Ulisses Guimarães. Devo acrescentar que nunca deixei de estar presente no dia-a-dia das lutas populares, enfrentando polícia, jagunços e o poder econômico das 49


forças conservadoras. Sete anos de mandato parlamentar me tornaram identificado como inimigo dos latifundiários e gananciosos empresários, que são representantes de uma classe dominante decadente e reacionária. Quanto ao governo de Lula, devo dizer que ele tem uma importância extraordinária. Exercendo a presidência da República por duas oportunidades, Lula contou com total respaldo do PC do B, porque considera as suas vitórias uma conquista histórica do povo brasileiro e dos trabalhadores do mundo, tanto assim que o meu partido lhe levou apoio em todas as suas campanhas. Pela primeira vez, após a ditadura, os partidos de esquerda estão no governo, com os comunistas participando dos mais altos postos das instituições brasileiras.

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Antônio Pinheiro Salles

Meus sonhos sobreviverão nas flores vermelhas

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ubstituí, na última hora, o texto produzido para este livro por outro que me pareceu reunir mais concretas informações sobre a ditadura militar. Trata-se de uma carta ao presidente Lula, que agora vai chegar, com minha gratidão, também à população goiana, no Estado que me acolheu após a anistia política, em 1979. Aqui, minha companheira Elô e eu tivemos a alegria de assistir ao nascimento do nosso filho Raphael e de nossa filha Clara. Tamanha a generosidade do povo, que tive a honra de receber o título honorífico de Cidadão Goiano, proposto pelo deputado Mauro Rubem e aprovado pela unanimidade dos 41 parlamentares da Assembléia Legislativa. Hoje, mantenho uma estreita relação de confiança com esta cidade, podendo afirmar: quando eu morrer, meus sonhos sobreviverão nas flores vermelhas dos flamboyants de Goiânia. 51


Carta aberta ao presidente da República, sem o tratamento dispensado às autoridades Lula, tenho nas mãos o telegrama que você encaminhou aos familiares da senhora Maria de Campos Batista – a Dona Santa –, um dia depois da morte dela, apresentando as “sinceras condolências” e colocando o governo “à disposição para continuar a luta até encontrar os restos mortais de seu filho”, desaparecido em 1970, quando vigorava a truculência do general Médici. Então, Lula, que as suas palavras possam representar mais que um momentâneo lenitivo à família dessa mãe. Elas devem significar um compromisso, para que o seu governo fique na história como o primeiro, desde Sarney, que não aceitou ser cúmplice do regime implantado em 1964, principalmente do terrorismo disseminado a partir da edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968. Maria de Campos Batista procurou, durante 37 anos, o seu filho Marcos Antônio Dias Batista, sumido na ocasião em que era um líder estudantil de apenas 15 anos de idade. Por muito tempo, ela deixou aberta a porta da sua casa, em Goiânia, na esperança de que ele pudesse entrar a qualquer momento. E percorreu delegacias, quartéis e presídios de todo o país, na tentativa de localizá-lo. Em 1996, afinal, o governo o reconheceu oficialmente como morto. Mas ela não desistiu de procurá-lo. Em setembro de 2005, o juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho determinou ao ministro da Defesa, que, em “audiência reservada”, informasse à família de Marcos Antônio as 52


circunstâncias que envolveram sua prisão e morte, dando um prazo de 90 dias para entregar os seus restos mortais. Em seguida, no dia 15 de fevereiro de 2006, Maria de Campos e outras pessoas (incluindo os advogados Ricardo Dias Baptista – seu filho –, Raphael Salles e Edilberto de Castro) se dirigiram ao gabinete do ministro da Defesa e vice-presidente da República, José Alencar, em Brasília. Dona Santa foi encontrar o filho – Todos choraram durante a audiência, o ministro inclusive. Dona Santa saiu convencida de que não demoraria a sepultar Marcos Antônio, ou o que resta dele, no mesmo túmulo onde seu pai o esperava (Valdomiro Dias Batista faleceu lamentando não rever o seu menino). Retornando à capital goiana, Dona Santa teve o carro batido de frente por outro que seguia na contramão, causando-lhe a morte. No dia seguinte, presente no velório, José Alencar, mais uma vez com lágrimas na face, disse que, sendo tão grande a vontade dessa mulher de abraçar Marcos Antônio, já sem a expectativa de vê-lo vivo, decidiu ir ao local em que ele repousa para sempre. E Dona Santa seguiu em direção ao filho, como frisou o vicepresidente da República, mas o corpo dela se encaminhou para o túmulo em que planejava depositar os frágeis ossos da criança que teve de ser eliminada para que os poderosos homens da ditadura se sentissem mais seguros. Tudo isso, Lula, não acontece por acaso. Portanto, precisamos compreender o que realmente significou a ditadura militar na vida do povo brasileiro. Como presidente da República, você não desconhece o esforço que ainda se faz, cerca de 44 anos após o golpe de Estado, 53


para se garantir o esquecimento desses 21 anos de trevas. É que a ditadura militar traz uma série de incômodos aos políticos que direta ou indiretamente estiveram à sua frente e hoje se consideram arautos da democracia. Evitando o aprofundamento da questão, os governos que vieram depois se recusaram a enfrentar esse período obscuro, limitando-se a exonerar um ou outro torturador sendo ele identificado no exercício de um cargo público. Ignorância ou amnésia – Sabemos que a ditadura deixou a maioria da população doente, sem poder falar e com medo até de escutar. É terrível a constatação de que a democracia ainda seja tão frágil, tão vulnerável, que não permita a recuperação da memória, tornando as pessoas mais doentes, agora de ignorância ou amnésia, como se o passado nada tivesse a ensinar ao presente. E isso é muito perigoso, porque, como disse dom Paulo Evaristo Arns, “os povos que não podem ou não querem confrontar-se com seu passado histórico estão condenados a repeti-lo”. Os fatos pretéritos contêm não apenas traços de identidade de um povo, mas também lições expressivas que nos ajudam a entender o momento atual e a construir de melhor forma o futuro, evitando-se os riscos da repetição das atrocidades. Não é demais, Lula, a lembrança de alguns dados sobre a ditadura, insistindo no meu dever de, como Babeuf, morrer denunciando a opressão. Dentro de uma sórdida campanha ideológica, o golpe militar se efetivou com a agressiva presença do governo dos Estados Unidos, que calculou os seus efeitos em toda a América Latina. Houve uma intensa comunicação 54


entre o embaixador norte-americano no Brasil e os seus chefes na Casa Branca, aperfeiçoando os detalhes do apoio ao golpe, com a Operação Brother Sam, que só passou a ser desmobilizada após a confirmação do sucesso do movimento. A Operação incluía porta-aviões, destróieres, navio para transporte de helicópteros, petroleiros, aviões de carga e de abastecimento, caças e um posto de comando aerotransportado, além de barris de combustível e 110 toneladas de armas e munições. Primeiras denúncias de tortura – O governo dos generais foi reconhecido enquanto o presidente João Goulart ainda se encontrava no Brasil. E as perseguições políticas se estenderam pelo país inteiro. As primeiras denúncias de tortura vieram à tona no Rio de Janeiro e em Pernambuco, onde o admirado líder comunista Gregório Bezerra foi preso e entregue ao tenente-coronel Darcy Villocq Viana, que o amarrou e o arrastou pelas ruas de Recife, “para servir de exemplo” (a cena que vi na televisão não vou esquecer nunca). O medo corroeu a dignidade de milhares de brasileiros, que, sem alternativas a curto prazo, terminaram optando pela indiferença, calando-se, refugiando-se e tudo fazendo para que as suas famílias não fossem molestadas. Mas, com o tempo, a rebeldia de poucos virou a resistência de muitos. Apesar da intolerância em todos os níveis, 100 mil pessoas saíram às ruas, em junho de 1968, numa fulgurante manifestação no Rio de Janeiro. O terror absoluto não tardou. A imposição do Ato Institucional nº 5, que certamente Hitler e Mussolini gostariam de adotar, representou um golpe dentro do golpe, 55


e não deixou pedra sobre pedra. Você sabe o que vem depois, Lula, mesmo não tendo informações pormenorizadas a respeito da violência levada prioritariamente aos militantes políticos de esquerda (a tortura e a morte se transformaram numa prática rotineira). Entretanto, resistimos. Em 1980, você foi arrancado do seu sindicato, das suas articulações partidárias, e colocado atrás das grades por 51 dias, mas já havia sido retirado o sangue dos revolucionários das paredes e do piso dos cubículos em que você foi jogado. Era a época da “abertura política” do general Figueiredo, depois da “distensão lenta, gradual e segura” do general Geisel, após a Lei da Anistia. Por quem os sinos dobram – Lembre-se que a ditadura militar no Brasil descerrou as portas para outras no cone sul, isto é, na Argentina, no Uruguai e Chile, incluindo o Paraguai na cooperação entre os agentes da repressão e a atuação fascista na América do Sul (Operação Condor), na década de 70, com a ajuda financeira dos Estados Unidos. Assim, Lula, os malefícios da ditadura ainda permanecem nos vários escalões do Estado, e da própria vida do povo, porque nenhum governo adotou medidas que facilitassem a ruptura com o tempo do terror. Os prejuízos são incalculáveis na economia, na política, na educação, na ciência e tecnologia, na cultura, na comunicação, nas artes, no judiciário, no esporte e, mais ainda, no comportamento da maioria da polícia, que persiste desrespeitando os direitos humanos mais elementares. Quando acontecem tragédias como a de Dona Santa, Zuzu Angel e outras mães de desaparecidos, devemos nos 56


sentir diminuídos, porque, como disse um poeta citado por Hemingway, em Por quem os sinos dobram, fazemos parte da espécie humana. Mas não apenas por isso. Seus filhos foram heróis e, não sendo egoístas, lhes ofereceram a oportunidade de experimentar a grandeza das heroínas. É nesse momento que somos chamados a refletir sobre o nosso papel na sociedade de classes, sobre as conquistas coletivas, sobre a união dos oprimidos. E como estou me dirigindo ao presidente da República, devo dizer-lhe, Lula, que hoje você está no Palácio do Planalto por causa dessas pessoas e dos heróis anônimos que desafiaram as intempéries e compreenderam que ninguém tem direito à omissão diante da tirania. Completar a anistia política – Ganhando força a luta pela anistia política, por volta de 1977/1978, os clamores ocuparam as consciências e praças em todo o território nacional. Aqui em Goiás, por exemplo, o professor Pedro Wilson Guimarães e João Divino Dorneles (dentre outros) participaram dessa batalha de forma a colocar o povo goiano num privilegiado patamar de respeito e admiração. Decidindo o governo a encaminhar uma anistia limitada, os protestos se multiplicaram: todos a queriam ampla, geral e irrestrita. Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Vem completa, vem de túnica imaculada, vem nua, Anistia. E, nua, não darás margem a murmurações, recriminações, ressentimentos, vociferações e lágrimas. Assim te desejo, assim te espero para os que necessitam de ti e os que já não necessitam, pois habitam a mansão além da política, das crises sociais e da 57


injustiça”. Só que ela não veio assim. Pudemos deixar os porões da ditadura, retornar do exílio, sair da clandestinidade. Mas hoje, cerca de 30 anos depois, muitos ainda são os ressentimentos, as dores, recriminações e lágrimas. Ao longo desse tempo, os sucessivos governos vêm buscando meios legais para remendar a Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979, que teve a preocupação de cercear direitos e garantir a proteção dos algozes, mantendo espúrias conciliações. Apesar dos desgastes e cansaços dos familiares dos mortos e desaparecidos e das próprias vítimas vivas do regime discricionário, os governos sempre são importunados, porque não resolvem o problema, cedendo às pressões dos fascistas e de seus aliados, que mais gostariam de continuar prendendo, torturando, matando os opositores. E, sendo um anistiado, menos ainda você poderá dar as costas para os anistiados. Chegou a hora, Lula, de superar os seus antecessores, não deixar dúvida sobre seu compromisso democrático, enfrentar a extrema direita, o fascismo, os inimigos, completar a anistia política, colocar um ponto final nos dissabores e incertezas das pessoas envolvidas nesse processo doloroso, abrir uma nova página na história do Brasil. À espera da morte dos sobreviventes – Não deixe, Lula, que isso fique para depois. Faça-o agora, adquira mais condições de erguer a cabeça diante de quem participou da resistência, ampliando os horizontes da humanidade. Escancare os tão mutilados arquivos da repressão, assuma a busca dos desaparecidos, encontre alternativas para a Advocacia Geral da União não ficar forjando recursos 58


protelatórios (ridículos) à espera da morte dos sobreviventes que responsabilizam o Estado pelos crimes perpetrados, agilize a apreciação dos requerimentos na Comissão Nacional de Anistia, pague as indenizações concedidas, não seja (por favor!) conivente com torturadores. Erga no centro da Esplanada dos Ministérios um monumento aos mortos e desaparecidos na luta contra a ditadura militar. Desculpe, Lula, se insisto em acreditar que seu governo pode ser diferente, mesmo depois de tantas frustrações. A morte de Dona Santa me devolveu um pouco da justa indignação dos injustiçados. Posso até lhe afirmar que se no Brasil não morreram seis milhões de perseguidos em campos de concentração, a ditadura conseguiu ultrapassar os nazistas na intensidade da violência física contra os seus adversários. Sei que a comparação pode causar perplexidade. Entretanto, estou ciente da nossa responsabilidade, inclusive no prosseguimento da luta pelo socialismo, que jamais aceitaria Bush como “companheiro”. Se sou contundente nessas afirmações, é que os meus nove anos de cárcere (1970-1979) me levaram a presenciar o que meus olhos não desejam ver nunca mais. Eu ouvi gritos, berros inumanos, gemidos que me traziam a mesma dor indescritível das intermináveis sessões em que tive a alma dilacerada, a carne rasgada e os ossos partidos. Militante marxista – Acrescento, Lula, que o meu corpo e meu sangue testemunharam os horrores que jamais devem vilipendiar qualquer ser humano no mundo. Por isso, como cidadão, jornalista profissional, dirigente da Tendência Marxista (TM-PT) e militante do Partido dos Trabalhadores, não contribuirei com minha omissão para 59


tudo continuar como sempre foi. E você, presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não deixe que a diferença entre seu governo e os anteriores se restrinja, fundamentalmente, ao assistencialismo levado aos miseráveis do nosso país. Com problemas de saúde, agravados como conseqüência das irreversíveis seqüelas das torturas, minha fala foi comprometida (com uma distonia oromandibular, estou fazendo tratamento na Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, em Brasília). Tenho, portanto, mais razões para repassar, por escrito, estas informações às gerações mais novas. Se tudo está difícil, mais cresce a nossa responsabilidade, porque a vida só se justifica se ela é um instrumento permanentemente utilizado na construção de uma vida melhor, sem as contradições que hoje tanto nos limitam e humilham. Pediria, Lula, que você refletisse sobre as observações feitas, considerando a clássica declaração de Cícero, o insuperável tribuno romano: “A história é mestra da vida, senhora do tempo e luz da verdade”. Um abraço, presidente. Em tempo – Condenado a 54 anos e dois meses de reclusão, isso não me preocupava muito. Após nove anos de cárcere, em 1979, deixei o Presídio da Justiça Militar Federal de São Paulo, com a conquista da anistia política. Fui rever a minha pequena cidade de Guaratinga, no sul da Bahia, sem saber que o povo me esperava com uma festa inesquecível. E, no mesmo ano, vim para Goiás, onde residia a família da minha companheira Elô. Com o surgimento do Diário 60


da Manhã, em Goiânia, passei a trabalhar nesse jornal, ao lado de Marco Antônio Tavares Coelho, Antônio Carlos Moura e Wilmar Antônio Alves, que também foram presos políticos. Em companhia de companheiras e companheiros, participei da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e do núcleo de base Herzog, constituído por jornalistas e outros profissionais de comunicação (durante vários anos continuei sendo seguido pelo SNI), como atesta certidão expedida pela atual Agência Brasileira de Inteligência (Abin). As torturas sofridas durante os dois primeiros anos de cadeia aconteceram no Dops do Rio Grande do Sul, sob o comando do delegado Pedro Carlos Sellig; no DOI-Codi (Oban), em São Paulo, ao longo das sessões coordenadas por Carlos Alberto Brilhante Ustra; e no Deops (SP), onde atuava o chefe do Esquadrão da Morte, Sérgio Fernando Paranhos Fleury. Sem descabida presunção, mantenho as minhas convicções de 10, 20, 30, 40 anos atrás, ficando gradativamente mais radical à medida que envelheço. Conseqüentemente, repetiria todas as minhas ações, mesmo se os seus erros não pudessem ser corrigidos, acreditando no triunfo do socialismo, da liberdade e da paz.

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Carlos Alberto Santa Cruz Serradourada

Ditadura anestesiou geração atual

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m 1964, quando houve a golpe liderado pelos militares, eu era presidente da União Goiana dos Estudantes (Uges). E essa poderosa organização do movimento estudantil seguia a orientação socialista, já que quase todos os membros de sua diretoria pertenciam ao glorioso Partido Comunista Brasileiro (PCB), sonhando com a construção de uma sociedade justa e fraterna. Entre uma cadeia e outra (ao todo, foram nove), eu trabalhei no semanário Cinco de Março, passando pela Rádio Riviera e Televisão Anhangüera. Com a extinção dos partidos políticos pela ditadura militar e imposição das instituições do bipartidarismo, eu exerci durante muito tempo dupla militância partidária – no MDB e PCB. Essa dupla militância não era aberta, pois o Partido Comunista estava na ilegalidade e a direção do MDB estadual era extremamente conservadora para conviver com os comunistas. 63


Foi assim que nas eleições de 1974 (só para o Legislativo), o PCB me encarregou de escrever um pronunciamento para o candidato a senador, pelo MDB, a ser falado na televisão (nessa época, a propaganda na TV era ao vivo). E o meu nome foi levado para o candidato, que o refugou de plano, pois não aceitava discurso de comunista, por isso e por aquilo. Foi aí que o saudoso Élbio de Brito Guimarães resolveu o impasse: - O Santa Cruz escreve o pronunciamento e a gente diz para o nosso candidato que foi outro jornalista que fez. Assim aconteceu. Um incêndio na televisão. E o candidato do MDB foi eleito. Não só por isso, mas também por outras razões objetivas: o povo havia se cansado da ditadura militar e o MDB ganhou as eleições para o Senado de ponta a ponta. A democracia política restabeleceu-se, mas a ditadura econômica recrudesceu. A exploração do homem pelo homem ficou muito mais sofisticada. E instalou-se no Brasil a república do lixo e do luxo. Nunca houve tanta remessa de lucros para o exterior como agora. Os ricos são cada vez mais ricos. E os muito pobres são cada vez mais pobres. A corrupção é endêmica. E o maior crime da ditadura militar imposta em 64 foi praticado contra a nossa geração. Ela conseguiu anestesiar a geração atual, que hoje assiste complacente a todos os assaltos aos valores e à honra da coletividade. 64


Estudante não faz mais greve. A esquerda está fora de moda. Eu não mudei meu itinerário e, portanto, considerado na contramão da história. Com muita honra. E sabendo que tudo é uma questão de tempo. A geração atual, massacrada ideologicamente, não quer nem ouvir falar de nossa luta. A minha biografia política não tem importância nenhuma e pode ser escrita em apenas uma linha: fui socialista na juventude, continuei socialista na maturidade e agora, na velhice, sou socialista com redobrada convicção.

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Carmina Castro Marinho e Nélson Pereira Marinho

Repressão levou posseiro à morte

H

istória contada pela senhora Carmina Castro Marinho, esposa de Nélson Pereira Marinho, ativo militante da luta pela posse da terra na região de Trombas-Formoso, que foi preso e barbaramente torturado pelo Exército na época da ditadura militar. Nélson Marinho participava da diretoria da Associação dos Posseiros de Trombas e Formoso, que tinha como objetivo defender as terras adquiridas pelos posseiros. Em abril de 1964, logo após o golpe militar, o deputado José Porfírio de Souza, presidente da Associação dos Posseiros, conseguiu informações em Goiânia de que o Exército estava preparando uma invasão na região e conseguiu avisar a tempo. Assim foram organizados vários grupos que fugiram em debandada por lados diferentes. É claro que não tínhamos condições de enfrentar com armas, o truculento esquema, como queria Zé Porfírio. E esta foi a sua primeira derrota como líder dos posseiros. 67


Em abril de 1965, fui abordada por policiais da Dops de Goiânia, que me forçaram, por meio de torturas e da mira das armas, a dizer-lhes onde se encontrava o meu marido. Logo que ele chegou da roça, recebeu ordem de prisão e o levaram para Trombas. Lá, ele foi algemado e levado para a cadeia de Formoso, onde permaneceu três dias. Juntaram-se a ele, também como prisioneiros, o José Ribeiro da Silva, Cézar Machado, Onézimo Montesuma, Geraldo Tibúrcio e um jornalista. Foram todos transferidos para Goiânia e posteriormente para Brasília, ficando nas celas do PIC (Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército). Lá, o meu marido sofreu muitas atrocidades, como choque elétrico, corte do couro cabeludo e, segundo ele mesmo, fizeramno beber a própria urina, punção nas unhas da mão... Apanhou até perder o sentido e perdeu a voz, devido aos espancamentos na garganta, com arame e ferro, isso tudo estando encapuzado. Nélson Pereira Marinho passou por situações tão constrangedoras e humilhantes, que não tinha coragem de contar para ninguém. Foi liberado em julho do mesmo ano. Quando voltou, começou a ingerir bebida alcoólica, tornando-se um alcoólatra. Nessa época, meus filhos e eu sofremos as conseqüências das seqüelas que ficaram por causa da revolta e da prisão. Nélson Marinho tornou-se um homem amargo e distante. Esse vício foi aumentando gradativamente, tornando-o inválido e incapaz de conduzir a própria vida. 68


A sua segunda prisão ocorreu no ano 1972, em Trombas. Levaram-no para fora da cidade e o colocaram num acampamento improvisado, onde ficou dois dias amarrado, despido. Foram para a cadeia de Formoso, que estava lotada de presos políticos. Já tinham sido presos o Felipe Cardoso, José Ribeiro, José de Castro e Pedro Paraná, todos membros da Associação dos Posseiros. Foram levados, como na primeira prisão, para Goiânia e depois para os quartéis de Brasília, onde as torturas foram ainda mais intensas. Ao ser liberado, a sua situação muito se agravou, em vista das inúmeras sessões de choques elétricos que sofreu nos órgãos genitais, tornando-o impotente sexualmente. Isso o levou a refugiar-se totalmente no vício do álcool, às vezes ficando até 20 dias embriagado ininterruptamente. Em função da vida que levava depois das torturas, veio contrair cirrose hepática e câncer estomacal, que o levaram à morte em 15 de setembro de 1991. Durante esse período de perseguição ao Nélson Marinho, eu e minha família sofremos muito. Certa vez, os policiais chegaram em nossa casa e apontaram as suas metralhadoras a fim de nos intimidar para contar onde o meu esposo se encontrava. Nós todos fomos expostos a humilhações, ameaças e pressões de toda natureza. Certa feita, fui obrigada a defecar diante de um policial que me vigiava dia e noite. 69


Posso afirmar com toda convicção que nossas vidas poderiam ter seguido um curso bem diferente do que aqui foi relatado. Se não tivéssemos sido, o Nélson Marinho e toda a nossa família, atingidos pelas perseguições dos militares, certamente estaríamos, hoje, vivendo em um mundo mais justo, com um pouco mais de dignidade.


Dirce Machado da Silva

Terror levado aos camponeses de Trombas e Formoso

E

m abril de 1964, no calor do golpe militar, tive de fugir, porque pertencia ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e à Associação dos Posseiros de Formoso. O meu esposo, José Ribeiro da Silva, era o 1º secretário da entidade. Seis meses depois de me submeter a uma complicada cesariana, tive que entregar meus filhos, minha nenezinha de seis meses e mais duas crianças adotivas, aos cuidados de um tio. Minha mãe e meu irmão estavam em Brasília. Tão logo ficaram sabendo da minha situação de refugiada, vieram cuidar de meus filhos. Diante da gravidade da situação e da ferocidade da ditadura militar, fomos aconselhados a não esperar pela repressão. Nos escondemos nas montanhas. Fiquei 15 dias sozinha, debaixo de uma pedra grande, 71


dentro da mata. Os aviões passavam em vôo rasante. Meu marido tinha ido encontrar outros membros da direção da associação. Fui picada por uma lacraia da pedra e minha perna infecciou, provocando uma dor horrível. Foi um sofrimento. Meus peitos cheios de leite, longe de minha nenezinha, eu não sabendo o que ia nos acontecer. Sentia muita dor na perna, nos peitos... Tinha febre alta, sem remédios, dentro da mata. Chovia muito. E eu só ouvia e sentia a presença de bichos. Fui em busca de tratamento. Guiada por um amigo, viajamos dois dias e duas noites. Deixamos o animal na beira do rio Maranhão. Atravessamos o rio em uma velha canoa furada. Seguimos a pé até perto de Dois Irmãos. Lá pernoitamos dentro de umas manilhas na construção de uma ponte abandonada. No outro dia de manhã, pegamos um ônibus para Brasília. Lá estive fazendo tratamento da ferida em minha coxa. Quatro meses depois, voltei, clandestinamente, e fui encontrar meu marido nas montanhas. Tínhamos informações do que acontecia pelo rádio. As notícias mais precisas ouvíamos pela BBC de Londres. Em 65, resolvemos que eu me apresentaria. Fiz uma chegada simbólica. Meu marido teve uma desidratação aguda. Voltei ao acampamento. À noite, no mês de maio, fomos surpreendidos por um pelotão comandado pelo Dops. Fomos presos, levados até nossa casa. Já tinham feito minha mãe preparar janta para eles. Espancaram um tio meu, que era deficiente e nem conseguia falar direito. Espancaram o José Sivirino, quase o arrebentaram de tanto bater. Seguimos 72


algemados e a pé. A noite escura; caímos nos buracos e nos córregos. Viajamos 12 km até onde estavam três viaturas policiais e meu irmão Cézar Machado da Silveira. Algemados, os três, fomos levados, enquanto eles faziam toda espécie de ameaça. Passaram em uma venda e compraram várias garrafas de pinga, beberam e continuaram a beber na estrada. Uns 10 km. depois, pararam as viaturas em um cerrado fechado. Aí foi um terror. Começaram a espancar meu marido e o meu irmão. E eu virava o rosto para não ver. Os soldados me deram um safanão e puxaram meus cabelos, para que eu assistisse à horrível cena. Eles me perguntavam sobre o Mauro Borges, José Porfírio e outros líderes da associação, por pessoas que eu nem conhecia. Diziam que eu era uma “puta safada”, que eu preferia ver meu marido e meu irmão morrerem picadinhos e não contar onde estavam meus cúmplices. Meu irmão roxo de pancada, riscado de faca e queimado de cigarros; meu marido com o nariz quebrado, o rosto deformado de pancadas, ambos ensangüentados, e meu marido ainda foi amarrado pelos pés e pendurado em uma árvore. Eles me seguravam pelos cabelos e repetiam as perguntas e os mesmos palavrões. No ápice de meu desespero, eu disse em alto e bom som que eu não sabia, não ia mentir e se soubesse também não falava, preferia morrer. Então, eles me deram um bofetão com as duas mãos nos ouvidos de uma vez. Nesse momento, eu desmaiei, fiquei desacordada não sei quanto tempo. Quando voltei em mim, estava molhada de pinga e vomitando. Até hoje tenho problemas auditivos por causa do espancamento. Nos levaram para Formoso, ficamos presos em um quarto de pensão. Depois, eles voltaram à minha casa, fazendo ameaças para minha mãe, já idosa e doente. 73


Saquearam a casa e carregaram o dinheiro da safra, minha mãe ficando sem recursos para as despesas. Meu filho mais velho, de 14 anos, permanecia em estado de choque e os outros ficaram traumatizados. Passamos vários dias algemados, nos quartos de uma pensão, recebendo todo tipo de ameaça, além de sermos espancados, e ainda ouvíamos gritos horríveis de outras pessoas sendo torturadas. Fomos levados para Goiânia, algemados num caminhão, estrada de terra, buracos... Chegamos arrebentados, empoeirados e famintos. Os outros presos ficaram separados de mim. Eles falavam que tinham castrado meu irmão e meu marido. Eles estavam muito machucados. Eu não sabia o que realmente estava acontecendo. A guerra de nervos era tanta, que eu e os outros só ficávamos com disenteria. Fui colocada numa cela com três prostitutas e inclusive assassinas. Fiquei sem saber como agir, elas nuas como nasceram. Vinham se sentar unidas a mim, no meu colo, e os soldados nas grades morrendo de rir. Começaram a me perguntar onde era meu “ponto”, quem eu havia matado e onde eu assaltei. Elas tinham as leis delas e, como eu era a novata, devia me submeter a essas leis. Resolvi explicar a situação. Bem calma, contei que era da roça, tinha marido, quatro filhos e dois adotivos, era presa política. Mostrei a elas o corte repuxado da recente cesariana. Elas me perguntaram por que eu estava com o rosto roxo, inchado e com as pernas cheias de hematomas. Expliquei que tinha sido torturada, e elas começaram a chorar. Aí pedi a elas que se vestissem, porque eu ficava 74


com vergonha. Elas ficaram minhas amigas. Como passei vários dias em Goiânia, na Casa de Detenção, onde o colchão era um trapo sujo, imundo, o cobertor era duro de sujeira, onde eu ficava sem tomar sol e sem tomar banho, as presas arranjavam, escondidas, um litro com água para minha higiene íntima. Como eram analfabetas, comecei a alfabetizá-las. Também consertava suas roupas, a mão. Quando nos retiraram para Brasília, à noite, elas me abraçaram chorando, e a polícia nos empurrou com a maior brutalidade. Em Brasília, ficamos presos em um complexo policial. Chegamos tarde da noite, pois essas retiradas só aconteciam em altas horas. Fazia um frio terrível, sem agasalho nenhum, as celas eram só de grades, as correntes de ar pareciam faca na carne da gente. O banheiro era uma divisória com muretas, a porta tinha uma abertura na parte de baixo e de todo jeito que o usávamos, as outras pessoas nos viam, era um suplício. O colchão sujo, cheio de manchas de sangue velho. Os soldados e os paisanos, que circulavam, ficavam me perguntando onde era meu “ponto”, que programa eu fazia, mandavam que eu tirasse a roupa para mostrar-me para eles e os fardados davam gargalhadas. Um preso, de uma cela vizinha, mandou chamar o comandante e disse que eu estava sendo molestada, que eu era uma presa política, mãe de família, e que eu merecia respeito. Ele era preso porque tinha matado e que ele merecia ser castigado, mas não admitia falta de respeito com uma mãe de família. E, pelo comandante, me mandou uma colcha de lã, a qual devolvi no dia em que nos retiraram novamente para Goiânia. Fomos levados para a Casa de Detenção. Fiquei em uma cela sozinha. O banheiro 75


entupido não tinha descarga, um mau cheiro horrível. Me davam uma vasilha de folhas, suja, e mais ou menos dois litros de água por dia, era o que eu tinha para beber. De Formoso éramos um grupo de seis e juntaram a nós mais trẽs. Ficamos em nove: José Ribeiro da Silva, meu esposo, meu irmão César Machado da Silva, Onézimo Montezuma de Oliveira, Nélson Marinho, Aniceto Policarpo e eu, depois, Geraldo Tibúrcio, sindicalista de Anápolis, um jornalista, (Armando), e um estudante. Meu marido e meu irmão ficaram com os demais em uma cela. Eu ouvia gritos e pancadas, os policiais diziam que a turma estava apanhando porque eles não queriam “dar o serviço”. À noite, nos levaram para Brasília novamente, ficamos em uma cela do Dops, sentados no chão. Passamos a noite e o dia sem jeito de mudar de posição e os soldados andando de um lado para outro, nervosos e nos fazendo ameaças. Um padre foi visitar outro padre que estava preso, e como não o encontrou, nos deu as maçãs e o bolo que havia levado para o colega. Essa foi a refeição que tivemos. À noite, fomos levados para uma casa abandonada, no setor das mansões, suja e empoeirada, no matagal. No segundo dia apareceu o nosso advogado com o habeascorpus, os policiais ficaram umas feras. O jornalista passou uma reportagem escrita em um papel higiênico, que saiu no jornal Diário. 43 dias de sujeira, sem banho, sem trocar de roupa, sem sol, estávamos imundos. Todos os dias eram uma loucura: interrogatórios, ameaças, espancamentos... e a comida, quando nos ofereciam, era horrível, parecia 76


restos. Fomos transferidos para o BGP, os homens ficaram juntos em um cubículo, e eu fiquei em uma cela improvisada com armários, na dependência dos sargentos, onde l ficava uma sentinela armada com fuzil. No outro dia, pude tomar banho. Minha pele estava tão seca, que trincou toda, e ardia, parecia que a sujeira não ia desgrudar mais. Tive uma cama e um cobertor, o frio era intenso, estava tão abalada, que não conseguia dormir. Eu ficava ouvindo gritos alucinantes e os palavrões soavam nos meus ouvidos. Era só começar a dormir, vinha tudo de novo. Os interregatórios intermináveis e as acareações. Faziam de tudo para criar intrigas entre a turma. Minha irmã me levou uma lã e um par de agulhas de plástico, mas os guardas me tomaram as agulhas. Eu consegui dois palitos, estava tecendo com a maior dificuldade uma blusinha para minha nenezinha. Um tenente me perguntou por que os palitos, contei que tinham me tomado as agulhas de plástico, ele mandou me devolver, e ficou muito tempo me olhando tricotar. No outro dia, ele me perguntou se eu sabia costurar, disse que sim. Ele me perguntou se eu me dispunha a ajudá-lo preparar as costuras para a festa junina. Se eu me dispusesse, ele ia pedir permissão ao meu marido. Me levaram uma máquina comum, toda emperrada, na qual levei muitas horas para pôr em funcionamento. Fiz a roupa da noiva e do noivo, do casamento na roça, e o tenente deu-me a escrita, para que eu retocasse as falas e colocálas matutamente. Passou a festa, e os soldados gostaram e vieram me agradecer. Passei a consertar as roupas dos 77


soldados e para que alguém chegasse a mim tinha que pedir permissão ao meu marido e a todos os comandantes do dia. E, mesmo com toda essa “burocracia”, eu ainda tinha muita costura para fazer. Foi Deus quem me abriu essa porta, por que já estava ficando maluca. No último interrogatório o coronel me perguntou se eu não tinha vergonha de ser presa, e como eu enfrentaria meus filhos e meus pais, respondi que não me envergonhava de ser uma mulher honesta, não era grileira, nem ladra e nem prostituta, os grileiros, que ensangüentaram nossa região, estavam soltos, eu é que trabalhava na terra para sustentar meus filhos, e até na prisão eu estava trabalhando, graças a Deus, e que tinha muita vergonha de ser humana, preferia ser um quadrúpede, porque os animais respeitavam uns aos outros, e, nesses dias horríveis, eu havia visto e ouvido coisas deploráveis, que nunca havia pensado que pessoas batizadas fossem capazes de fazer. Fomos liberados sem dinheiro, minha irmã nos deu as passagens, meu marido foi para Goiânia, pois estava muito doente e foi procurar tratamento e eu e meu irmão fomos para Formoso. Chegamos arrasados, doentes, fracos e aterrorizados. Tudo o que tínhamos acabou, para comer tínhamos mandioca, mamão e banana, e para morar, apenas um rancho. Todo dinheiro que ficou com minha mãe, proveniente da venda da safra e da máquina de costura, os policiais do Dops, inclusive um conhecido como João Cascavel, roubaram também, saquearem a casa. Quando chegamos, é que vimos o absurdo. Nós sobrevivemos a essa tragédia com a solidariedade de amigos e vizinhos. 78


Tive que desmanchar um velho pano de bater arroz, para fazer colchão, coberta e lençol e o pano ainda era doado. Plantamos uma rocinha, começamos do zero. E meu marido sempre doente. No início da colheita, foi preciso levar meu marido para Porangatu. Ele estava muito mal, com problemas de estômago, devido aos espancamentos. De lá, fui para Goiânia, sem dinheiro e com a roupa e os calçados emprestados. Quando ele teve alta, eu o deixei em Goiânia, na casa de um amigo. Voltei para Formoso, devendo para o médico de Porangatu e de Goiânia. Um amigo me emprestou dinheiro para que eu pagasse os hospitais. Eu e os meus filhos pequenos fomos tocar as roças, os amigos fizeram vários mutirões para nos ajudar. O meu marido voltou e mesmo doente e fraco ia para a roça com os meus filhos. Na primeira safra pagamos as contas. Nem com as dificuldades não tínhamos sossego, sempre havia gente estranha fazendo perguntas, bisbilhotando tudo. Em 69, no mês de julho, próximo a agosto, à tardinha chegou uma tropa do Exército muito bem armada, o comandante me pediu acampamento, disse que estava em manobra. Os soldados me disseram que estavam com muita fome. Então, eu peguei os tachos grandes e comecei a providenciar a janta. O comandante não queria que eu o fizesse, mas como eu continuei e disse a ele que na minha casa ninguém dorme com fome, ele designou dois soldados para me ajudar. Matei 15 galinhas (as que eu tinha), fiz arroz, fui ao mandiocal com os meus filhos e dois soldados, arrancamos mandioca, iluminando com lanterna, depois eu as ralei de madrugada e fritei bolinhos para a tropa 79


tomar café. E os que sobraram, eles pediram e levaram. Meu marido conseguiu dois animais emprestados para que o comandante pudesse levar as armas até o entroncamento de Minaçu. E um peão trouxe de volta os cavalos. Depois que a tropa saiu, tive que ir no vizinho em busca de arroz limpo emprestado, para o almoço dos trabalhadores, porque o nosso era limpo no monjolo, em um processo manual e difícil. Em 72, nós nos mudamos para Formoso e lá tocamos uma pensão. Aparentemente, estávamos calmos. Sempre havia pessoas estranhas se hospedando em casa. Sabíamos que estávamos sendo vigiados. Um dia, foi uma loucura, prisões de todo jeito. Os policiais que moravam na pensão mudaram de comportamento, meu marido ao chegar da roça, mais uma vez foi preso, não deixaram nem pôr os pés dentro de casa. Eles haviam prendido muita gente, a cadeia ficou lotada. Fui interrogada e ameaçada várias vezes. Eles foram levados para Brasília, mas na época ninguém sabia o destino dos prisioneiros. Eles ficaram presos 30 dias. Quando meu marido chegou, ele estava doente, magro, pálido de tanto sofrer na prisão. Ele nunca mais teve saúde. Era uma guerra de nervos permanente. Meus filhos e eu estávamos arrasados, ninguém tinha mais sossego. Meus filhos tiveram prejuízos nos estudos e na saúde. Economicamente, o prejuízo foi incalculável. Com as torturas, meu marido, meu irmão e eu ficamos arrebentados. Mas sabemos que o nosso sofrimento não foi em vão. Nos resta a certeza de que, quando tudo terminar, a nossa contribuição continuará presente em cada conquista da sociedade futura. Nunca deve ser esquecido o mal que a ditadura fez ao povo. 80


Élio Cabral de Souza

Método Paulo Freire foi ao campo

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ascido em 13/11/1936, na Fazenda Ribeirão Grande, Mineiros/GO; casado, funcionário público e anistiado político, Élio Cabral participou intensamente dos movimentos estudantis na década de 60 e foi membro atuante do PC do B, integrante da Ala Vermelha do Partido. Devido às suas convicções ideológicas, posicionou-se radicalmente contra o regime militar e por isso foi duramente perseguido e penalizado pela repressão, tendo sido demitido do cargo de Fiscal Arrecadador da Secretaria da Fazenda do Governo de Goiás; foi preso várias vezes, indiciado e condenado pela Justiça Militar a 24 anos de reclusão por infringir a Lei de Segurança Nacional, considerado elemento comunista e subversivo;. Depois de cumprir cinco anos de prisão, foi liberado e colocado em liberdade condicional, numa história que ele mesmo conta de forma resumida. Fui alfabetizado somente aos 12 anos de idade, numa escola da zona rural, onde morava com os meus pais, uma 81


família de lavradores. Terminei o primário em Mineiros. Estudei em colégio interno até a 2ª série – Ginásio Padre Carlette, em Alto Araguaia/MT, e concluí a 4ª série no Ginásio Nestório Ribeiro, na cidade de Jataí. Iniciei a minha participação política nos movimentos estudantis. Fui eleito duas vezes para integrar a diretoria da Uges – União Goiana dos Estudantes Secundaristas –, primeiro em 1959 e depois em 1962, quando então ingressei nos quadros do PC do B, após a vinda a Goiânia do líder comunista João Amazonas. Em 1963-64 fiz curso na UNB, com Paulo Freire, sobre alfabetização de adultos e fui escolhido pelo MEC, mediante concurso público, juntamente com mais quatro companheiros, para aplicação do método “Paulo Freire” no campo. Nesse período, o momento político-cultural do país, sobretudo a partir da tentativa de golpe militar, em 1961, proporcionava uma fertilidade e efervescência que impressionavam. Havia uma enorme participação popular nas exigências de mudança do modelo político. E acentuou-se a luta pela reforma agrária, que serviu para o magnífico despertar do movimento camponês, do movimento operário e sindical e a rebelião dos sargentos da Aeronáutica em 1963, reivindicando o direito de votar e ser votado. Enfim, se desencadeou um grande momento cultural; do CPC da UNE surgiram grandes intelectuais. Em 1º de abril de 1964 eu estava em Brasília e, nesse dia, os agentes da repressão invadiram minha casa e levaram meus livros, documentos e fotos; em seguida, fui convocado, pela imprensa, para prestar depoimento no 82


IPM (Inquérito Policial Militar). Evidentemente, eu não compareci e a partir daí passei a viver na clandestinidade, tendo sido obrigado a abandonar o meu emprego de Fiscal Arrecadador da Secretaria da Fazenda, que só vim a recuperar 20 anos depois. Fui para o campo, no norte de Goiás, ajudar a organizar o movimento camponês. Após oito meses contraí malária e tive que regressar a Brasília para me tratar. Como tinha passaporte, fui mandado pelo Partido para a China, onde fiquei um ano fazendo curso de política e militar. Viajei sem visto no passaporte (arranjo diplomático), mas, na volta, os americanos tinham aumentado o controle na política do Paquistão e, numa simples escala técnica naquele País, eles recolheram os passaportes dos passageiros e os carimbaram. Fotografaram a nós todos e enviaram fotos para o governo brasileiro Ficamos algum tempo na França, sem poder sair para qualquer outro país, pois o controle dos americanos e dos seus aliados no continente era total. Nenhum consulado nos concedia o “visto”, sem o qual não poderíamos comprar as passagens. Vir direto para o Brasil seria suicídio. Depois de rodar pelos consulados sem nada conseguir, descobrimos o que era chamado de “porto livre”, em Paramaribo, na Guiana Inglesa. Daí fomos para a Guiana Francesa, alugamos um “teco-teco” e descemos na fronteira com o Brasil. Atravessamos de barco até San Antônio, um pequeno vilarejo, e embarcamos de avião para Belém/PA. Com o AI-5, o governo militar intensificou a caçada aos movimentos de resistência à ditadura militar, 83


uma quantidade muito grande de estudantes foi para a clandestinidade. Só da Ala Vermelha foram mais de 15 estudantes que, “de uma hora para outra”, tiveram que se esconder e viver na clandestinidade. E como sustentar esses jovens e muitos operários e funcionários públicos sem condições para a sobrevivência na clandestinidade e sem condições de sustentar as suas famílias? Alguns conseguiram trabalho com empresários que eram simpatizantes, mas a maioria não tinha condições de trabalhar, pois estavam sendo procurados, com fotos e nomes espalhados por toda parte. Deslocamos muitos companheiros para outros Estados, onde não eram conhecidos, mas o problema da sustentabilidade financeira persistia. Fizemos uma reunião da direção do Partido para analisar a questão, que era muito crítica e demandava urgente solução. Tomamos a decisão de resolver o problema das finanças por métodos não habituais, a requisição por expropriação do capital financeiro, do capital monopolista que sustentava a ditadura militar. Fui encarregado dessa tarefa. Escolhi mais quatro companheiros para pôr o plano em prática. Como tinha feito curso militar na China, fui encarregado de preparar os componentes do grupo. Segundo ponto: essa atividade era excepcional e de emergência, não sendo permitida divulgação para fins políticos; e terceiro ponto: não matar ninguém, nem arriscar as nossas vidas. Elemento surpresa: para isso, elegemos um alvo móvel de transporte de valores que fazia o recolhimento de dinheiro de fábricas, comércios e outros clientes. E assim fizemos: esse alvo móvel cruzava uma linha férrea, lugar de pouco 84


movimento; nos vestimos com o mesmo uniforme usado pelos ferroviários e com uma bandeirinha vermelha demos o sinal de parada. Abordamos o piloto, pegamos os malotes com o numerário, retiramos as chaves e fomos embora tranqüilos. No outro dia, os jornais estampavam manchetes: “Cenas hollywoodianas aconteceram...”. O resultado em dinheiro não foi muito bom, realizamos outras ações. Até então, a Ala Vermelha estava resguardada pela rígida disciplina e pelas normas de segurança muito rigorosas que vínhamos implantando. E foi justamente por desrespeitar a essas normas que fomos todos atingidos. Em conseqüência disso, fui detido pela Oban (Operação Bandeirantes), onde fui barbaramente torturado, conhecendo as mais torpes torturas físicas e psicológicas que se possa imaginar, tendo sido, inclusive, devido ao meu estado deplorável, encaminhado para o Hospital das Clínicas de SP. Tal fato está registrado nos arquivos da ditadura. Em 1966, fui indiciado no IPM, instaurado pela Justiça Militar para apurar “atividades subversivas” de integrantes do PC do B, no Distrito Federal e em Goiás. O encarregado do inquérito escreveu que, “... em virtude da periculosidade, o indiciado representa um perigo para a sociedade e para a Segurança Nacional”. Foi de parecer que era “conveniente” a decretação da prisão preventiva do mesmo...” Em 1969, fui indiciado em outro IPM instaurado pelo Deops de São Paulo para apurar e esclarecer “vários 85


atentados ocorridos durante os anos de 1968-69, praticados por elementos ligados à Ala Vermelha do PC do B”, segundo os militares, sob pretexto de uma revolução armada. Em 1971, fui condenado pela ditadura militar à pena de 18 anos de reclusão, sentença essa que foi reformada pelo Superior Tribunal Militar para sete anos e dois meses. Em 19 de dezembro de 1976, tendo cumprido cinco anos de prisão, fui colocado em liberdade condicional, depois de passar pelo Presídio Tiradentes (SP), Casa de Detenção (Carandiru) e Presídio da Justiça Militar Federal de São Paulo.

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Eudes Pacheco

Juventude resiste e tem esperança

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m junho de 1965, eu era estudante secundarista e participava da greve estudantil, que talvez tenha sido a primeira grande manifestação estudantil contra a ditadura militar, aqui em Goiânia. Com a demissão do diretor do Colégio Alcides Jubé, resolvemos fazer um ato público diante de todos os alunos e professores, no pátio. Subi na sacada e fiz um discurso indignado com a situação, encerrando com a seguinte frase: “A distância que existe entre o governo do Brasil e o povo é a mira de um fuzil”. Nesse período, o Serviço Nacional de Informações (SNI) e o Dops, sob o comando do tenente Benevides e dos seus agentes, iniciaram as ações de repressão e prisão. As mais relevantes foram a invasão da Rádio 13 de Maio, com a prisão da poeta e jornalista Elina Maria, que era a diretora. Em seguida, prenderam o juiz de Direito Orley Gavião Gonzaga, em sua residência. A partir daí, as coisas só foram piorando, como atestaram as prisões de estudantes e trabalhadores. 87


Fiquei detido no quartel da Polícia Militar, na cidade de Goiás. Dias depois, jogaram meu companheiro Humberto Andrade e eu num camburão. Fomos levados para a sede do Dops, em Goiânia. Numa cela fétida estavam vários estudantes e outras vítimas. Eles já traziam diversas marcas no corpo, alguns choravam de dor. Aquilo era como um aviso do que viria a acontecer conosco. Comigo não foi diferente: aos empurrões, pelo “cachorro da tortura” Ibrahim Chediak, chegamos a uma pequena sala e lá já estavam outros dois monstros: Benício Alves, do Dops, e Braz Gonçalves, bate-pau da Polícia Civil. De início, levei uma cacetada na nuca, que me deixou tonto. Em seguida, recebi uma seqüência de golpes nos rins, nádegas e nos órgãos genitais. Foram tantas as pancadas, que desfaleci de dor. Acordei em um lugar escuro. Tentei levantar e não consegui. Meus joelhos estavam inchados e insensíveis. Tive dificuldade de me movimentar, porque minha bolsa escrotal estava maior que um abacate. Isso me forçava a ficar com as pernas abertas. Arrastei-me até encontrar uma parede e nela me firmei para ficar de pé. Ouvi gemidos e gritos, fiz silêncio e com voz branda perguntei quem estava ali. “Sou Humberto”, respondeu. Vislumbrei um interruptor fosforescente na parede e ao acender a luz pude ver que estávamos numa sala desarrumada, ao lado de uma escrivaninha velha. Humberto deitado no chão, estirado de costas, todo ensangüentado. Estávamos nus. Ainda na madrugada, Humberto e eu fomos levados até um carro (parecia ser um jipe), algemados, braços sob pernas e jogados na viatura, amontoados como fardos, 88


num destino desconhecido por nós. Na parte da tarde, com um sol ardente, chegamos a uma delegacia em Goiatuba e fomos entregues aos policiais de lá, que nos trancafiaram. Ao chegar, vi meu rosto após as torturas, com olheiras roxas, lábios tão inchados que, mesmo se eu tivesse motivo, não conseguiria rir nem articular palavras. As narinas deformadas davam-me uma aparência monstrificada. Levei as mãos ao rosto e me assustei com filetes de sangue coagulado, sob as unhas, devido às perfurações com estilete. Pouca lembrança eu tinha do que me aconteceu. Apenas um vazio mórbido preenchia minha consciência. O corpo não importava, a vida não tinha mais referências. Por alguns dias, fomos medicados até que nossas aparências voltassem ao mais próximo do normal, graça à atenção do delegado local, Jurandir Rodovalho. Certa tarde, aparece uma figura macabra e fomos, novamente, algemados e colocados na parte traseira do jipe, sob as ordens de Ibrahim, que, quando já era noite, mandou que parasse o carro. Desceu, tirou as algemas que prendiam meus braços e ligou os faróis do veículo. Entregou uma caixa de fósforos e pediu que eu a colocasse a uns 30 metros distante da viatura. Ao levantar, percebi que estava com um revólver em punho e disse: “Vou acertar daqui, duvida comunista vagabundo?”. Atirou e derrubou a caixa. Em seguida, me estendeu a arma e disse: “Tente, comunista, quero ver se é bom nisso”. Pensei que era minha hora. Percebi que ele estava bêbado. Decidi matá-lo. Mas, nesse instante, apareceu outra viatura com as luzes acesas e nos assustou. Ele recolheu a arma. O carro parou e dele desceu o Nélson 89


de Castro, assessor direto do interventor de Goiás, marechal Emílio Ribas Júnior. Sem muita conversa, colocou-me no carro e foi para o Palácio das Esmeraldas. O marechal interventor concedia uma entrevista. Depois, aproximou-se de mim e disse: “Eu também já fui preso quando estudante”. Retorqui: “Mas você não foi para o pau-de-arara”. Ajeitando-se na poltrona, o interventor franziu a testa, indicou-me uma bandeja com bolachas: “Coma, não estão envenenadas”. No repente, exclamei: “Eu sei, você não chegaria a tanto!” Foi a gota d’água. O velho esbravejou: “Olha o respeito, moleque. Nélson, tira este comunista daqui”. Fui puxado pelo braço até a saída do palácio e, lá no pátio, dei-me de frente com a maior figura política de todos os tempos em nosso Estado: Mauro Borges Teixeira, com quem fui para sua residência e, chegando lá, perguntou: “O que os filhos da puta fizeram com você?” Dona Lurdes, sua esposa, atalhou: “Modere a linguagem, Mauro”. Paro por aqui. Se alguém me pergunta se valeu a pena, digo que sim. E, parafraseando Neruda, “confesso que vivi” os horrores de um regime ditatorial. Porém, graças à garra, à perseverança e luta de milhares de jovens brasileiros, como eu, resistimos a todo tipo de selvageria. Mostramos que havia resistência e esperança. No entanto, muitos não entenderam nossa luta. Aliás, a todos da imprensa, que ainda hoje se insurgem contra os anistiados como se fôssemos aproveitadores, desejo vida longa, para que possam perceber que viver sem liberdade não é próprio do ser humano e que a nossa luta, portanto, expresse um compromisso que não pode ser desclassificado por ninguém 90


Hugo Brockes

Que não se permita a volta da ditadura

A

ntes do golpe militar de 1964, eu já tinha militância política, procurando participar dos movimentos sociais, certo de que os regimes adotados em cada país devem expressar a vontade do povo organizado. Como se sabe, o governo de João Goulart foi rico em mobilizações populares, numa efervescência que assegurava à classe trabalhadora, a cada categoria e até mesmo a cada cidadão, a oportunidade de exercer um destacado papel nas lutas de libertação, possibilitando uma efetiva presença na História. Em 1961 contribuí, diretamente, com as lutas pela reforma agrária, ajudando a organizar as ligas camponesas, que tinham Francisco Julião como principal líder em nível nacional, e aqui, em Goiás, o Tarzan de Castro à frente desse movimento, que congregava militantes de grande importância, como a sua própria mãe, Joaquina, e o dirigente Élio Cabral de Souza. Também, eu participava do movimento estudantil, que contava com a orientação de Carlos Alberto Santa Cruz, James Allen Luz e vários outros, incluindo, mais uma vez, Élio Cabral e Tarzan de Castro. 91


Goiás deu uma respeitável contribuição a esse movimento, presidindo a poderosa UNE (União Nacional dos Estudantes), em duas oportunidades, com Aldo Arantes e Honestino Monteiro Guimarães. No interior de tudo isso, após a intervenção militar e deposição do governador Mauro Borges, ainda em 1964, se impôs um regime de terror e medo, multiplicando-se as prisões, torturas, mortes, corrupção, traições, delações, perseguições e tudo o que passou a ser natural, sabendo os autores que tinham a impunidade garantida. Fui um dos primeiros funcionários públicos estaduais demitidos com base em IPMs e Atos Institucionais, sem o recebimento até dos direitos trabalhistas. A partir de abril de 1964, para me proteger da fúria da repressão, estive escondido em cidades do interior do Estado. Mas, retornando a Goiânia, em agosto (1964), fui preso e conduzido ao quartel do 10º BC, onde me submeteram a uma imensa variedade de torturas, diariamente, com tal intensidade que, ainda hoje, sofro as suas conseqüências. Tão logo me colocaram em liberdade, procurei um cartório (Primeiro Tabelionato de Notas) e compareci como outorgante declarante, onde deixei registradas, em pormenores, todas as informações sobre o que sofri e testemunhei durante o tempo que permaneci preso. Em cerca de 20 páginas, a minha iniciativa não deixou absolutamente nada que pudesse ser levado pelo vento. O tenente Marcus Fleury parecia ser a pessoa de maior autoridade ali, mas também se destacavam os sargentos 92


Thompson, Guido e Garcia, além do coronel Danilo e do capitão Aníbal. Com a utilização desse expediente, declarei: “... Nesse terrível momento começaram eles a me espancar, batendo na barriga, no fígado, nos rins. Afirmou o declarante que, quando não mais agüentava, dizia um nome qualquer, para livrar-se da terrível agressão; que, se o declarante gaguejasse, recebia verdadeira saraivada de murros e socos”... De tudo, o que mais me impressionou foi o deplorável estado do preso político Paulo Gutko, que, em determinado dia, foi torturado das 8 horas da noite até às 4 da madrugada; “que Paulo Gutko proferia nomes a esmo, entre os quais o do tenente Fleury, capitão Aníbal, capitão Albuquerque e dos três famosos sargentos; que o declarante ouviu os soldados dizendo que os agentes da tortura haviam organizado um fuzilamento simulado com Paulo Gutko para destruí-lo psicologicamente; que o declarante viu Paulo Gutko beber água no vaso sanitário e passar fezes na cabeça, pegando-a na privada da cela do depoente”. Tudo ainda pode suportar o nosso povo. Mas que nunca, nunca, seja permitida a volta de alguma coisa semelhante em nosso país. Certamente, este livro sobre a ditadura militar em Goiás deve ter uma distribuição muito bem organizada, pela Assembléia Legislativa, para que chegue ao maior número possível de pessoas, especialmente nas escolas. Depois dessa dolorosa experiência, com mais responsabilidade, temos todos que nos unir para reafirmar o compromisso com a defesa da democracia, da justiça e da vida.

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João Silva Neto

Uma sucessão de sofrimentos e martírios

N

asci em dezembro de 1945, morei até 1957 na fazenda e até 1959 na cidade de Cumari/GO. Vim para Goiânia em 1960, fiz o curso secundário no Colégio Estadual Pedro Gomes e posteriormente o curso de Direito na Universidade Federal de Goiás (UFG). Na cidade de Cumari, meu pai era dirigente do PTB getulista, o que me chamou a atenção para a atividade política e a interessar-me para as lides sociais. Iniciei minha atuação política em 1963 com a efervescência do movimento estudantil da época. Em janeiro/fevereiro de 1964 organizei uma célula do Grupo dos Onze em Goiânia, conforme a concepção de Leonel Brizola. Espontaneamente e sem qualquer contato com o brizolismo, já tinha o grupo formado quando adveio o golpe militar, em 1964. Desorganizado o Grupo dos Onze, mantive um núcleo de pessoas dispostas a continuar a luta contra a ditadura recém-implantada. Decidimos estudar muito e 95


começamos pela literatura filosófica e científica, socialista, já planejando ações de cunho revolucionário contra a ditadura. Em agosto de 1964 esse grupo foi procurado por Sebastião Baylão e Élbio de Brito, dirigentes do PCB, que nos convidaram para entrar no Partidão. Prontamente todos aceitamos. Nesta decisão, eu desisti da luta armada e adotei outras formas de luta contra a ditadura. Fui o principal organizador de um poderoso movimento estudantil secundarista com base inicialmente no Colégio Pedro Gomes e depois proliferando para outros colégios e estudantes de Goiânia, onde se adotaram os chamados “cursos de oratória”, meio ideal para descobrir outros jovens rebeldes dispostos a enfrentar a ditadura. Com isso, foram se formando os grêmios estudantis e as células do PCB nos principais colégios da Capital. Devido à minha atuação na luta estudantil, recebi a tarefa partidária de reorganizar o setor operário do Partido, tarefa essa desempenhada com afinco e poucos resultados, o que me levou a uma dedicação maior ao movimento estudantil. Nesse campo, tivemos muito sucesso, pois, com o controle do grêmio do Colégio Pedro Gomes, na época um dos maiores do Estado, capitaneamos a participação em memoráveis movimentos contra a ditadura, fato que nos projetou para a continuidade da resistência democrática como um dos vereadores mais votados na eleição de 1970. No parlamento mostrei-me firme e combatente pela democracia e pela liberdade, combinando a minha atuação parlamentar com a militância estudantil no Centro 96


Acadêmico da Faculdade de Direito da UFG. Também como vereador fui pioneiro na organização popular, por meio das Associações de Moradores e, para isso, estimulava os meus companheiros do PCB a participarem dessa nova modalidade de militância. Eu sempre coloquei a luta pelo restabelecimento da normalidade democrática em primeiro plano. Em 1972 o governo ditatorial determinou a total destruição do Partido Comunista Brasileiro (PCB), quando mataram quase todos os membros de seu Comitê Central e prenderam seus militantes em vários Estados brasileiros. Fui preso em julho de 1972, levado ao então 10º Batalhão de Caçadores, em Goiânia, juntamente com outros companheiros do PCB. Fui barbaramente torturado com pancadas, choques elétricos e ameaças de morte, me causando seqüelas físicas irreversíveis, como surdez, devido aos choques que levei nas orelhas e “telefones” nos ouvidos. Levado a Brasília, continuei sendo torturado no quartel do PIC (Pelotão de Investigações Criminais do exército) até ser solto em dezembro de 1972. Daí em diante foi uma sucessão de sofrimentos e martírios. Em 1973, fui expulso da Universidade e proibido de estudar em qualquer escola brasileira, com base no Decreto-lei nº 477. Em 1974, fui condenado a seis meses de prisão, pena cumprida no Cepaigo. Quando pensava normalizar a minha vida, no início de 1975, fui preso novamente 25 dias antes do meu casamento devido ao aumento da minha pena para dois anos de reclusão, tendo sido levado novamente para o Cepaigo, onde cumpri mais 10 meses de cadeia. 97


Com essa nova condenação, tive os direitos políticos restringidos, como determinava a Lei de Segurança Nacional do governo militar. Libertado em fevereiro de 1976, não desisti de combater a ditadura. Sem medo, passei a me reunir com os meus antigos companheiros, planejando ações de resistência democrática. Mesmo em liberdade condicional, não esmoreci e ao lado do então deputado estadual João Divino Dorneles, de saudosa memória, participei ativamente da organização do Comitê Goiano pela Anistia. Consegui retornar à Faculdade de Direito em 1976 e concluí o curso em 1979, não sem antes participar da vitoriosa diretoria do Centro Acadêmico XI de Maio, da Faculdade de Direito da UFG, mesmo com a oposição raivosa de alguns professores daquela instituição de ensino. Em 1982 fui novamente eleito vereador, pelo PMDB; participei das inesquecíveis jornadas pelas “Diretas Já” e, posteriormente, pela anistia aos perseguidos políticos. Aqui em Goiás, participei ativamente da resistência à ditadura militar. Fui um dos organizadores do Comitê Goiano pela Anistia e da criação da Associação dos Anistiados Políticos (Anigo), sendo seu presidente desde o início, pela vontade dos meus companheiros. Nunca me cansei de lutar e continuo buscando o necessário esclarecimento sobre os mortos e desaparecidos políticos, e pela abertura total dos documentos da repressão, para que a sociedade tome conhecimento das atrocidades cometidas pelos militares contra os cidadãos brasileiros. 98


Joaquina Ramos de Castro

Mulher, mãe, revolucionária

N

ascida no dia 18 de agosto de 1918, em Correntina/ BA. Antes do golpe de 64, já era militante ativa em defesa dos direitos humanos e das reformas sociais. Com o golpe militar, foi uma adversária ardorosa da política imposta pela ditadura. Por sua maneira de ser, sempre esteve aberta ao diálogo e disposta à luta quando o assunto eram as liberdades públicas e o bem-estar de todos os brasileiros. Mãe de Tarzan de Castro, conhecido pelo seu passado ligado aos movimentos estudantis dos anos 50 e início dos anos 60. Teve o socialismo como sua bandeira de luta e as liberdades democráticas como principal objetivo. Mãe de filhos, jamais os desencorajou a lutar politicamente contra o governo, mas nunca deixou de ser a mãe preocupada e cuidadosa na segurança de todos. Foi aquela mãe que todo militante político, ao nascer, precisaria ter para tomar consciência de tudo o que se passava em seu país e no mundo. Era a pessoa necessária para um país 99


formar cidadãos conscientes, participativos e corajosos. O seu grande exemplo foi o destemor e coragem que passava a todos que a conheciam. Joaquina pertenceu ao mesmo partido político de seu filho, Tarzan de Castro. Ambos abraçaram a linha programática do PC do B, vindo ele a ser suplente do Comitê Estadual da Organização. Devido à sua intensa atuação política, foi presa e indiciada em Inquérito Policial Militar (IPM) por determinação do comandante militar de Brasília e 11ª Região Militar, em 11 de novembro de 1966. Em 30 de dezembro desse ano, o encarregado do inquérito, em seu relatório, a enquadrou na Lei 1.802/53, Lei de Segurança Nacional. Joaquina foi submetida às sansões correspondentes, por “haver tentado subverter, por meios violentos, a ordem política e social, com o fim de estabelecer uma ditadura de grupo (inciso IV do art. 2°); tentado diretamente mudar, por meios violentos, a Constituição e a forma de governo por ela estabelecida (art.5°); e ser filiada ao Partido Comunista do Brasil e o ajudado financeiramente” (art.10). Em 25 de janeiro de 1971, prestou declarações no Departamento de Operações Internas do Centro de Operações de Defesa Interna do II Exército, em São Paulo (DOI/Codi). De acordo com certidão fornecida pela Abin, o Conselho Permanente de Justiça para o Exército (CPJEx), julgando o processo em que 29 pessoas foram acusadas de pertencer ao PC do B, com atuação na área do Distrito


Federal e Goiás, condenada à pena de um ano de detenção, como incursa no art. 36 do Decreto-Lei 314/67. Diversas vezes prenderam a Joaquina, mas sempre se manteve firme em seus ideais. Emocionante é o depoimento de seu filho, Tarzan de Castro, a respeito dessa mãe. Ele diz: “Devo pelo menos três vidas a ela. A primeira é do meu nascimento e as outras duas de quando ela não permitiu que eu fosse assassinado pelos militares”. Disse, sobre essa revolucionária,o escritor Antônio José de Moura: “Uma mulher progressista e ativista que estimulava seus filhos a militarem. Sempre jovem espiritualmente, Joaquina tinha uma enorme capacidade de congregação, sendo amiga de todos”. Joaquina morreu aos 83 anos, em 17 de dezembro de 2001, deixando o legado de uma mulher tão corajosa que todos a queríamos como mãe e companheira. Como A Mãe, de Gorki (1869-1936), também a Joaquina poderia dizer: “Os nossos filhos andam pelo mundo, oferecem a sua força irresistível a uma só coisa: a justiça. Marcham para a vitória sobre a dor humana. Pegaram em armas para varrer o mal do mundo. Lutam pelo triunfo sobre a maldade”.

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José Porfírio de Souza*

Lendária luta camponesa de Trombas e Formoso

L

íder dos posseiros de Trombas-Formoso, José Porfírio de Souza foi o carismático líder camponês da legendária mobilização contra latifundiários e grileiros. Casado duas vezes, teve 18 filhos. Quando desapareceu, aos 61 anos de idade, estava casado com Dorina Pinto da Silva. Foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas atuou também na AP e no PRT. Sua primeira mulher morreu após ter sido agredida por jagunços. A história política de José Porfírio começou em 1949, quando tinha 36 anos e resolveu, juntamente com outros lavradores, deslocar-se de Pedro Afonso (sua terra natal, no norte de Goiás, hoje Tocantins) e buscar terras melhores, numa região de serras e córregos na margem esquerda do rio Tocantins. Mais camponeses foram chegando, atraídos pela propaganda sobre colonização agrícola em Goiás. Por volta de 1951, foram iniciadas manobras cartoriais de 103


grilagem das terras ocupadas pelos posseiros, que reagiram a todas as tentativas de expulsá-los. Teve início, então, uma forte resistência, que se tornou um dos capítulos mais importantes da luta pela reforma agrária no Brasil. Até hoje, publicações da imprensa, livros e teses universitárias reproduzem a história desse conflito agrário, mencionando muitas vezes a existência de uma “república” popular de Trombas e Formoso, pelo tipo de organização política, econômica e social ali vivida durante aqueles anos. O Partido Comunista Brasileiro foi um importante vetor nessa mobilização, sendo que seu dirigente nacional Gregório Bezerra foi deslocado de Pernambuco para atuar durante alguns anos em Goiás, contribuindo na formação dos quadros partidários que influenciaram a liderança política de José Porfírio de Souza até integrá-lo ao Partido por volta de 1956. Entre 1954 e 1957, a área foi palco de persistentes conflitos, muitas vezes com enfrentamento armado, e um número não conhecido de mortos, entre camponeses, jagunços e policiais a serviço dos latifundiários. As lutas de Trombas e Formoso só tiveram desfecho quando Mauro Borges, eleito governador de Goiás, em 1962, iniciou a distribuição de cerca de 20 mil títulos de propriedade. Na mesma eleição de Mauro Borges, o líder dos posseiros foi eleito deputado estadual pela coligação PTBPSB, com uma expressiva votação. Pela primeira vez, um líder camponês chegava à Assembléia Legislativa. Foi o primeiro deputado originalmente camponês da história do Brasil. Nesse período, ajudou a fundar a Associação dos Trabalhadores Camponeses de Goiás e foi um dos 104


organizadores do Congresso de Camponeses de Belo Horizonte, em 1963. Depois de ter o mandato de deputado cassado pela ditadura, em 9 de abril de 1964, voltou para a região de Trombas e Formoso, tentando novamente organizar a resistência. Não obteve sucesso, a começar pelos seus próprios companheiros do PCB, que discordaram de qualquer tentativa de reação, considerando mais prudente a atitude de recuar. E assim, juntamente com os irmãos Arão de Souza Gil, Manoel de Souza Castro e os filhos Durvalino e Manoel Porfírio (passou anos na prisão, inclusive em São Paulo), além de Geraldo Tibúrcio, membro do PCB, eles conseguiram fugir antes da chegada dos militares na região de Trombas. Porfírio seguiu para o sul do Maranhão, onde se vinculou à AP, com o grupo dissidente liderado pelo padre Alípio Cristiano de Freitas e pelo ex-presidente da UNE Vinícius Caldeira Brandt, fundador do PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores). Foi preso na Fazenda Ribeirão Angelical, município de Riachão, em 1972. E foi levado para o DOI-Codi, em Brasília, onde ficou preso, sofrendo bárbaras torturas físicas e psicológicas. Solto no dia 7 de julho de 1973, foi almoçar com a sua advogada, Elizabeth Diniz, que depois o levou à rodoviária de Brasília, onde pegaria o ônibus para Goiânia. José Porfírio tinha a passagem comprada. Depois disso, nunca mais foi encontrado. A sua família sempre esteve a procurá-lo. E, até hoje, aguarda desesperadamente uma posição do governo quanto ao seu paradeiro. * Texto extraído, quase todo, do livro Direito à Memória e à Verdade, lançado pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos da Presidência da República.

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Luiz Antero de Morais

Fiquei com seqüelas permanentes

N

ascido em Goiânia, vivi no início da minha juventude um período de intensas movimentações políticas. Iniciei minha participação no movimento estudantil secundarista, no Grêmio Literário Castro Alves, da Escola Técnica de Comércio de Campinas, e na União Goiana dos Estudantes Secundaristas (Uges), ocupando cargos nessas organizações. Tive, ainda, atuação destacada nacionalmente, quando ocupei cargo de diretor do Restaurante Péricles José de Moura. Esse restaurante era destinado a estudantes carentes, um dos poucos no país. No início dos anos 60, participei da refundação do Partido Comunista do Brasil (PC do B), envolvido no ideário de se fazer uma revolução social no país, como ensina a doutrina marxista-leninista. E fui, ainda, um dos fundadores da organização Política Operária (Polop), também de orientação marxista, ocupando a função de tesoureiro regional. 107


Em 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), fechou-se o cerco aos militantes de esquerda. E, nessa ocasião, fui preso, junto com outros companheiros. Levados ao 10º Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro, em Goiânia, lá fui submetido aos maiores constrangimentos morais e psicológicos, que a mente humana possa conceber, durante minuciosos e intermináveis interrogatórios. Das sessões de torturas físicas, que prefiro não descrever, carrego seqüelas permanentes e irreversíveis. E, como se isso não bastasse, perdi o emprego e os amigos. Mais: fui impedido de voltar a estudar na rede pública de ensino, devido à minha atuação no movimento estudantil. Quando procurava emprego, exigiam atestado de bons antecedentes, que, com o nome registrado no Dops, tudo ficava ainda mais difícil. Contudo, a ditadura, que os militares acreditavam que seria eterna, chegou ao final, não deixando dúvida sobre a importância das lutas do povo.

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Luiz Carlos dos Santos

Carregamos Mauro Borges nos braços

O

meu ideário juvenil cheio de esperança de justiça, liberdade e paz se defrontava com a realidade de minha época. Por um lado, aqui no Brasil, com a implantação de um regime totalitário, eu percebia as imensas desigualdades sociais, o analfabetismo, a mortalidade infantil, a concentração das riquezas nas mãos de poucos, o latifúndio se expandindo ao mesmo tempo que famílias de trabalhadores morriam de fome sem terra para trabalhar. Lá fora, o cenário apontava alternativas intrigantes. Cuba, no quintal do imperialismo norte-americano, conseguia se libertar da ditadura e implantar o regime socialista. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se tornara uma potência mundial. A China crescia de forma rápida e organizada. Enfim, o princípio da filosofia do socialismo, que é a igualdade e fraternidade, me chamou a atenção, o mesmo acontecendo com um grande número 109


de jovens que compartilhavam dos mesmos sonhos e angústias. O regime militar tomava conta do país. Em Goiás, ainda restava a chama da resistência durante o governo de Mauro Borges. Contudo, foi decretada a intervenção federal no Estado e havia possibilidade de resistência, já que o povo goiano apoiava a continuidade de Mauro no Governo. Eu, com meus 17 anos, fui à praça me juntar a essa força para resistir e manifestar-me contra os militares, que ameaçavam invadir o Palácio das Esmeraldas. A força aérea dava rasantes sobre a Praça Cívica, tentando nos intimidar. Até o último momento ficamos lá, protestando contra aquela truculência. E só saímos carregando nos braços o governador deposto. Após a participação nesse momento histório do nosso Estado, entendi que era preciso me organizar para conseguir nosso objetivo. Foi aí que me filiei ao PC do B e, tempos depois, integrei as fileiras do PCB. Participei de vários movimentos estudantis e conseguimos ganhar as eleições na Confederação Goiana dos Estudantes (CGE). No partido, era membro do Comitê Secundarista e, como tal, percorríamos vários estabelecimentos de ensino, levando a nossa esper5ança de libertação. Estive na organização de várias greves nos anos de 1966, 67, 68 e 69. Com a imposição do AI-5, o radicalismo da ditadura chegou ao extremo, e as perseguições aumentavam a cada dia. Companheiros “caíam”, eram torturados e alguns morriam em função das atrocidades do regime. A Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), ligada à 110


Polícia Federal, nos perseguia em todos os lugares. Não permitia nem mesmo os raros momentos de lazer. Se quatro ou cinco amigos se encontravam em uma lanchonete, eles logo chegavam com toda truculência, ameaçavam fechar o estabelecimento e prender quem ali estivesse. Certa vez fui surpreendido, em local público, quando lia o semanário O Pasquim, publicação legal e autorizada, por um dos policiais da repressão, com ameaça de prisão e, aos gritos, chamavam a todos de “comunistas” e “terroristas” e uma série de xingamentos de baixo calão. Certo dia, em uma das greves no Lyceu de Goiânia, estava com um grupo de militantes e percebemos a presença da polícia. Procuramos fugir pela Rua 24, no Centro, e nos deparamos com uma viatura da polícia. Então, um jovem que parecia estar com a gente atirou uma pedra no veículo dos policiais. Imediatamente, eles desceram e saíram correndo em nossa direção e nós, perseguidos, entramos na casa paroquial da Catedral de Goiânia. Os padres que lá se encontravam mandaram que fóssemos para o quintal. Como a polícia tinha o costume de entrar em qualquer lugar, percebi o perigo. Pulei o muro e saí correndo até a casa de uma senhora muito simpática e solidária, que prontamente deu abrigo e escondeu-me num quarto de despejo, no fundo do quintal, até as coisas se acalmarem. Tão logo se sentiu segura, ela e uma amiga me orientaram para entrar e deitar no banco de trás de um carro. Me cobriram com um monte de roupas e saíram em 111


direção à minha casa. No caminho, foram abordadas pela polícia, por duas vezes, que, nada percebendo, liberou as bondosas senhoras, que me deixaram em casa são e salvo. Nesse caso, pude perceber que parte da Igreja e o povo apoiavam a resistência à ditadura. Mais tarde, analisando o acontecido, conclui que o jovem que atirou a pedra não correu nem foi preso e certamente era um informante da polícia infiltrado no nosso movimento. Seu ato não passava de uma provocação para que meus companheiros e eu fóssemos presos. Isso não me desanimava, pelo contrário, era um estímulo a mais para combater o regime ditatorial. No início da década de 70, na condição de funcionário da Televisão Rádio Clube, passei a militar no movimento sindical. No partido, por estar ligado à imprensa, passei a ser membro do Comitê de Agitação e Propaganda (Agiprop), onde fizemos um boletim do Comitê Municipal e me tornei o responsável pelo envio de artigos e matérias ao jornal A Voz Operária, órgão oficial do PCB. Esse comitê era composto por jornalistas, radialistas e escritores. Além dessas atribuições, fazíamos propaganda com pichamentos, panfletos, discursos relâmpagos, driblando a censura e até mesmo nos veículos de comunicação legal. No sindicato, recebi a missão de candidatar a tesoureiro. Os candidatos a presidente e secretário também eram do Partido e da minha Organização de Base (OB). Ganhamos a eleição principalmente por causa da liderança do companheiro candidato a presidene. 1972 foi o ano em que a repressão quase acabou com o Partido. Digo quase porque o Partido é composto de 112


homens e idéias. Nesse ano os comitês estadual, municipal, universitário, secundarista, radialista e jornalista “caíram”, em efeito dominó. As atrocidades eram tantas que o companheiro Ismael Silva de Jesus, apesar de tentar resistir às torturas, não conseguiu, faleceu. A censura não permitiu que saísse sequer uma nota na imprensa, mesmo trabalhando em jornal. Além disso, os familiares quase foram impedidos de ver o corpo e prestar as últimas homenagens ao bravo companheiro. Em outubro de 72, eu fui preso nas dependências da televisão, enquanto trabalhava. Procuraram impedir que eu avisasse alguém do que estava acontecendo. Mesmo assim, quando descia as escadas, gritei a uma companheira de trabalho que eu estava sendo preso pela Polícia Federal. Recebi empurrões e por pouco não caí na escada. Tentar avisar que estava sendo preso era uma orientação do partido para denunciar a situação e evitar a morte ou o “desaparecimento”. Na prisão foram longas as sessões de torturas psicológicas e duras sessões de torturas físicas. Numa determinada noite, diante de minhas negativas, ameaçavam até arrancar o feto da minha companheira, que estava no oitavo mês de gestação. Eu tentava o tempo todo desviar das perguntas, pedindo para ir ao banheiro a cada uma delas, para dar um tempo e pensar melhor nas respostas. Numa das vezes em que fui ao banheiro, sempre acompanhado por um policial, entrei por engano em uma sala com muitos gravadores em uma mesa e com uma roda 113


de agentes se acotovelando em torno dela. Foi o bastante. Levei um puxão violento e “telefones”, que causaram uma séria lesão no meu tímpano esquerdo. Fiquei incomunicável. Apesar da mobilização da minha família e dos colegas da TV, nenhuma informação foi conseguida a meu respeito no Exército e no Dops. Em 74, fui julgado no STM e indiciado no artigo 14 da LSN. Dos 30 indiciados, somente Aloízio Mota e eu fomos condenados a seis meses de prisão. Saímos do julgamento já presos e encaminhados para o Centro de Custódia. Lá estavam o Ronald Biggs (assaltante da Inglaterra) e outros estrangeiros que esperavam julgamento de extradição. Estávamos seminus e os companheiros de cela foram solidários emprestando agasalhos para a gente suportar o frio de Brasília. Ao ser transferidos para Goiânia, nos levaram para a Casa de Detenção, junto com presos comuns de todas as origens. Um fator esteve a nosso favor. Eles nos respeitavam muito e m chamavam de “professor”. Depois de 15 dias naquela cela imunda, lotada, com apenas um vaso sem descarga para todos os presos, fomos encaminhados ao Cepaigo. Após o cumprimento da pena, fomos conduzidos, algemados, em um camburão, até Brasília, para assinar a sentença. Antes do início da viagem, o comandante entregou aos policiais armas pesadas e, em nossa presença, orientou que em qualquer tentativa de fuga “era para matar”. Ficamos apreensivos, pois isso era comum na época. Fomos algemados em um camburão pequeno e dividido ao meio, sem condições de movimentar e de ver o outro. E, para piorar a situação, o comandante da escolta parou no 114


Núcleo Bandeirante para ver uma namorada e, enquanto isso, ficamos horas sob um sol quente, aguardando os “pombinhos”. O meu companheiro e eu saímos da prisão em setembro, antes do último grupo que chegava ao Cepaigo. Tinha consciência de que seria útil na tentativa de abreviar a estada deles na prisão e me liguei aos seus familiares. Tomamos todas as medidas possíveis para atingir nosso intuito: procuramos advogados, fomos ao STM e os visitávamos sempre que conseguíamos autorização. Após esse período, continuei sendo monitorado pela Abin, recebendo interferência na minha vida profissional, pelos militares, inclusive fazendo com que proposta de emprego já oferecida voltasse atrás. Consta no relatório da Abin que eu era membro do Instituto Cultural Brasil–União Soviética. Tudo faço, hoje, para que os jovens sejam informados sobre esse período abominável de nossa história. E que outros companheiros não tenham de passar pelo sofrimento, pelas torturas, que, além de tudo, me deixaram seqüelas para sempre.

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Marcantônio Dela Côrte

Muitas histórias dentro da História

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ão desejo falar aqui isoladamente de minha militância política. Ela abrange um tempo longo que começa, em 1963, quando ingressei no PC do B. Sonhava com uma revolução que transformaria este mundo num lugar mais justo, igualitário e mais humano para todos os homens e mulheres. Acredito que a essência de toda luta política não se restringe a atos solitários, mas, sim, a ações coletivas que legitimam a prática revolucionária e sustentam, ideologicamente, os objetivos a ser alcançados. 13 de abril de 1969: dia de nossa prisão. Era um domingo calmo e nada deixava transparecer o que nos aguardava... Goiânia tinha ainda alguma coisa de cidade pequena e interiorana, mas já com características de urbanização que atraía fluxos migratórios do interior e de outros Estados. Estava destinada a crescer e ser uma grande cidade. Aquele 13 de abril de 69 ficaria marcado para sempre na vida de oito jovens estudantes. Naquela noite, uma 117


reunião numa pequena escola no Setor Norte Ferroviário, para onde cada um de nós se dirigiu e, ironicamente, a polícia também: parecia até um “encontro marcado...” Não havia retorno. A noite estava fresca e enluarada. Um vento calmo e manso vinha do norte da cidade, abrandado pelas matas que existiam naquela região – hoje toda desmatada e habitada – e chegava até ao centro de Goiânia mais ameno e tornava o clima melhor que agora. Convergimos todos nós para aquele local. Zuelton, Mauro Brom, Félix Valóis, Paulo de Jesus, Antônio Batista Machado (falecido), Leo Lince, Elias Moreira Borges (falecido) e eu. Com menos de uma hora de reunião, quando discutíamos vários assuntos relacionados à realidade brasileira, fomos surpreendidos por agentes da Polícia Federal e da Dops que, de imediato, nos dominaram. A superstição nunca fez parte da minha vida. E, naquele ambiente, onde os agentes já dominavam totalmente a situação, um delegado da Polícia Federal, Jesus Lisboa, dirigiu-se a mim com ironia e disse:: “Marcantônio, sabe que dia é hoje? 13, Marcantônio. É a segunda vez em menos de dois anos que você é preso em flagrante num dia 13. Você é pé frio. Larga disso, cara”. Não respondi nada e pensei comigo mesmo: “Deixa isso pra lá. O que está feito, tá feito.” A verdade era: algum tempo atrás, no dia 13 de novembro de 1967, o companheiro Juarez Ferraz da Maia e eu fomos presos, pela polícia estadual, distribuindo panfletos contra o governo. Tudo mera coincidência, nada mais que isso. A única diferença era que em 1967 não 118


havia o AI-5, agora sim, e dificilmente eu sairia tão cedo da cadeia. Não houve nenhuma resistência de nossa parte, mas, mesmo assim, alguns companheiros foram agredidos fisicamente. Qualquer reação seria loucura. Não portávamos nenhuma arma nem tínhamos preparo para reagir. Éramos membros do Comitê Secundarista do PCB. A nossa luta era política. Mesmo assim, do ponto de vista da Lei de Segurança Nacional, nossas ações colocavam em risco a segurança do País tanto quanto as ações das esquerdas que participavam da a luta armada. Antes de ir para a reunião, estava ouvindo uma música de Marcos Valle: “Viola em noite enluarada, no sertão é como espada, esperança de vingança.” Aquela noite enluarada nunca mais me saiu da memória, como a música de Marcos Valle. A quietude e a beleza daquele céu estrelado, clareando aquelas redondezas, tornavam tudo mais natural e agradável. Em contraste com tudo isso, dentro daquela sala, a lógica da ansiedade, da incerteza e do confronto prevalecia. Por algum momento a esperança esvaiu-se de vez e tudo parecia perdido diante de tantos fracassos e prisões que sofri e presenciei. Não havia nada de bom dali para a frente. Estava só começando mais um longo caminho de inquéritos, maus-tratos, interrogatórios, julgamentos e tantas outras situações difíceis, dolorosas e humilhantes. “Esperança de vingança,” verso que ficava em minha mente e que me levava a ter pensamentos sombrios e de revolta. Mas isso logo passava e ficava somente um sentimento de resignação e 119


aceitação. Eis o maior desafio: aprender a aceitar situações adversas e contorná-las sem maiores conseqüências. Como se isso, naquele momento, fosse possível. A noite caiu sobre nós. Não havia saída. Não havia nada mais perigoso do que ter como inimigo o próprio Estado, dominado por grupos radicais e sectários que fazem tudo para se manter no poder. E havia uma Organização que precisava ser preservada. Um companheiro havia deixado, na outra sala, muitos documentos do Partido e tudo foi parar nas mãos da polícia. Mesmo assim, conseguimos preservar a Organização. Como? Contando uma história, criando um falso personagem, o “Neiva”, elemento do Partido que nos recrutou e que armou todo esquema de encontros e reuniões. Isso só se tornou possível porque o flagrante foi à noite e até eles nos levarem até a sede da Polícia Federal ficou muito tarde e deixaram para lavrar o flagrante no outro dia. Não nos separaram e aí bolamos a história... Todos os que estavam naquela reunião eram muito jovens, sem experiência e completamente vulneráveis ante o poder da repressão que existia. Éramos loucos, lunáticos e acreditávamos que a história estava do nosso lado e a vitória um dia aconteceria. Talvez, sim. Só o tempo iria trazer a verdade e mostrar, concretamente, se estávamos certos ou não. Somente a história poderia nos dizer se tinha valido a pena renunciar a tanta coisa e amar essa gente a ponto de querer que o Brasil fosse outro; que o mundo fosse, também, um lugar melhor para viver. Como poderíamos com a consciência que tínhamos viver uma vida normal sem questionar o que estava acontecendo? Como poderíamos ficar quietos vendo tanta injustiça? De que forma? 120


Como nossos corpos e nossas mentes, embora às vezes cansados, não deveriam estar a serviço da justiça e do bem? Éramos talvez loucos cheios de amor e com sonhos milhões de vezes sonhados por milhões de pessoas desamparadas e esquecidas. Mas sonhadores e lutadores contumazes, que não arredam pé e sempre estão prontos a dizer sim à verdade, à justiça, à igualdade e ao bem maior que é o próprio amor à vida e aos nossos irmãos de todo o mundo. Éramos muito jovens, porém sabíamos o que queríamos: um Brasil livre e democrático. O mais velho era eu, com 22 anos, já com várias prisões, a primeira em 1966, com 20 anos e vendo, naquele momento, tudo acabar de uma só vez. E como foi difícil superar esta fase tão sofrida e continuar caminhando. Quando, dessa prisão em 1969, já havia três processos em andamento contra mim na Quarta Região Militar, cumpria pena de confinamento em Goiânia e sendo monitorado pelos órgãos de repressão. Os demais, pela primeira vez, iam presos. Ficamos primeiramente no 10º BC, depois na Casa de Detenção e, finalmente, no Cepaigo, até sermos transferidos para Juiz de Fora-MG, sede da Quarta Região Militar. Estávamos presos no Cepaigo. E, numa manhã, agentes Federais e da Dops nos levaram para a sede da Polícia Federal, que ficava na Avenida Goiás esquina com a rua 2, no centro da cidade. Durante todo o tempo os policiais que nos escoltavam diziam que seríamos levados para Juiz de Fora de avião. Ficamos por algum tempo na sede daquela delegacia. Depois, nos conduziram para a Avenida Goiás, onde se encontrava estacionado um furgão, próprio para 121


o transporte de presos dentro da cidade. Eram mais ou menos 9 horas da manhã e muitas pessoas se aglomeraram em volta do carro, por curiosidade, sem saber o que estava acontecendo. Naquele momento, um dos policiais falou bem alto que aquele veículo era somente para nos conduzir até o aeroporto. Mentira! Desconfiados começamos a protestar, porque sabíamos que aquele camburão não oferecia as mínimas condições de transportar tantas pessoas para tão longe. Tudo em vão! O compartimento para o transporte de presos era pequeno. Só as bagagens ocuparam quase a metade do espaço. Fomos colocados naquele cubículo apertado, amontoados como animais. Fecharam a porta. O ambiente era escuro, havia apenas os minúsculos orifícios para ventilação. O ar logo ficou saturado pelo número de pessoas e isso passou a ser um problema sério, causando muito incômodo e constituindo-se uma tortura permanente até chegarmos a Juiz de Fora-MG, distante mais de mil quilômetros de Goiânia. Saindo daqui, passamos por Brasília e seguimos para Minas Gerais. Gradativamente, na medida em que o tempo ia passando, as condições internas daquele cubículo, pouco ventilado e muito pequeno para o número de pessoas, iam se deteriorando e transformando nossa vida, ali dentro, num pesadelo. Fizeram uma parada na cidade de Cristalina. Deixaram o veículo por muito tempo sob um sol extremamente forte. O calor ficou insuportável. Os orifícios, muito pequenos, não eram suficientes para ventilar o ambiente nem com o 122


carro em movimento, imagine-se ele parado e exposto ao sol! A situação chegou a um ponto intolerável e começamos a gritar, protestar e bater na lataria do veículo pedindo que abrissem a porta. Após certo tempo, a porta foi aberta e nos deram uma refeição e fomos ao banheiro, escoltados, um de cada vez. Quando assisti ao filme A Lista de Schindler, impressionou-me uma cena que sempre me faz lembrar dessa viagem absurda, pois várias vezes ficamos expostos a condições semelhantes. A cena a que me refiro é aquela dos vagões lotados de “judeus”, sob um sol escaldante, onde o personagem principal do filme joga, com uma mangueira, água nos vagões para diminuir o sofrimento daquelas pessoas. Essa viagem prosseguiu dessa forma humilhante e inconcebível sob qualquer ponto de vista. E, assim, chegamos a Juiz de Fora no outro dia pela manhã. Ficamos parados dentro desse camburão por algum tempo em um quartel (tudo fazia crer que estavam decidindo o que fazer quanto ao nosso destino). Esse quartel era o 10º RI. Fazia um calor insuportável ali dentro: estávamos cansados, esgotados, com falta de ar e molhados de suor. Quando abriram a porta, sentimos o choque térmico, pois do lado de fora fazia muito frio (Juiz de Fora está numa região montanhosa, é um local bem mais frio que Goiânia e estávamos no inverno). Naquele quartel ficamos, o Paulo de Jesus, Félix, Elias e eu, os demais foram levados para outro local, o Regimento de Obuses. 123


Escoltaram-nos até a cela. Estávamos tão esgotados, cansados e abatidos que logo dormimos e só acordamos no outro dia, tamanho foi o desgaste que aquela viagem nos ocasionou. Após algumas semanas, os outros companheiros foram soltos e esperariam o julgamento em liberdade. Por ser reincidente, permaneci preso naquela cidade até a conclusão dos julgamentos e o cumprimento das condenações. Este relato é uma pequena parte de uma história de quem, já naquele tempo, queria e sonhava com um país melhor. Somos apenas cidadãos conscientes, brasileiros que, nos momentos mais difíceis e importantes na história desta nação, lutamos pela liberdade e pela democracia. Hoje, temos plena consciência da importância dos nossos atos no passado. Não fomos omissos. Muitas vezes até fraquejamos perante tantas incertezas e desilusões. Contudo, fizemos aquilo que nos foi possível fazer e o que nossa consciência de bons brasileiros determinava. Aquele caminho percorrido que parecia interminável teve o seu fim? Talvez para alguns de nós, sim. Mas para quase todos, não sei. Aqueles momentos, eternamente existentes em minha vida, ainda cheia de lembranças e recordações perenes e, quase que doentiamente, ainda batem como um martelo em uma bigorna e não me deixam esquecer nunca a fragilidade das nossas vidas naquela época. Como o homem, acreditando e tendo um ideal, consegue suportar qualquer sacrifício!... Às vezes, perde-se a vida como muitos brasileiros perderam na história recente de nosso País. Independente de ser ou não protagonistas 124


de ações contra o regime fascista, muitas vezes pessoas anônimas também foram sacrificadas inocentemente. É o caso, em Goiânia, de Ornalino Cândido, lavador de carros que foi morto com um tiro na cabeça quando, em 68, acontecia uma grande manifestação contra a ditadura. A lógica do confronto não obedece a nenhuma determinação racional. Os acontecimentos seguem sua própria ilogicidade e nada é matematicamente certo quando se trata de fatos históricos e de vidas que se cruzam entre aqueles que lutam conscientemente e os que nenhuma relação têm com os fatos. A vida passa a ser um lixo e os fatos no momento exato de seu acontecer, podem parecer algo tremendamente injusto e inoportuno. E o imponderável quase sempre faz parte do dia-a-dia de quem vive no limiar do perigo. Essa viagem pode parecer surrealista. Contudo, é real no seu contexto histórico. Produzida e concebida num momento em que a vida não era nada importante para aqueles que mandavam e determinavam o rumo dos acontecimentos. Tudo foi produto de uma época e, como tal, assim deve ser visto. Fomos, sim, passageiros de uma agonia que parecia nunca terminar. A nossa idade (média de 19 anos) não ajudava muito a termos um preparo psicológico para agüentar tudo aquilo com a tranqüilidade necessária que se exige de um revolucionário ou militante político contra o regime. Um fato é bom ressaltar: mesmo pertencendo a um partido de esquerda, que atuava na clandestinidade, não 125


tínhamos nenhum treinamento eficaz para enfrentar uma situação como aquela. E quem afirmar o contrário estará mentindo. É um mito e os órgãos de repressão faziam tudo para disseminar a idéia de que éramos agentes preparadíssimos para tudo e que éramos, também, financiados pelo “ouro de Moscou”. Na verdade, éramos jovens estudantes, podendo até ser considerados imaturos, porém plenamente conscientes do que estávamos fazendo. Nosso Partido não adotava a luta armada para chegar ao poder. Acreditava que poderíamos vencer o governo militar, unindo as forças progressistas e democráticas numa grande frente política que poderia desestabilizar e derrubar a ditadura, constituída pela força das armas. A história veio demonstrar que estávamos no caminho certo (outros militantes tinham e têm outra opinião). E tudo foi só uma questão de tempo para que o governo se desgastasse, que o povo tomasse consciência e que as forças progressistas se unissem numa grande frente pela campanha das Diretasjá, que culminou com a indicação de Tancredo Neves para presidente da República.

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Márcio Beck e Maria Augusta

Chacina de Rio Verde tem autor identificado

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ovens estudantes paulistas, Márcio Beck Machado e Maria Augusta Thomaz estavam sendo muito perseguidos pelos órgãos de repressão de São Paulo. Sabendo dos riscos de prisão e de morte na tortura, eles decidiram se refugiar no distante interior de Goiás, numa pequena fazenda entre Rio Verde e Jataí, onde esperavam a tempestade passar. Militantes do Movimento de Libertação Popular (Molipo), ele era estudante de Economia da Universidade Mackenzie; e ela estudava no Instituto Sedes Sapientae da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Com informações arrancadas na tortura a presos políticos, os órgãos de repressão de São Paulo tomaram conhecimento do paradeiro dos estudantes e solicitaram “providências” ao capitão Marcus Fleury, que era o principal nome da tortura em Goiás. Assim, numa madrugada de 127


maio de 1973, o temido capitão e sua equipe de malfeitores cercaram a casa da fazenda em que os dois jovens se abrigavam. Segundo “Índio”, uma testemunha ocular localizada em Ribeirão Preto (SP), os agentes goianos se aproximaram e chamaram Márcio e Maria Augusta, que estavam dormindo. Em seguida, arrombaram a porta e entraram atirando. Os estudantes morreram sem se levantar da cama. O dono da fazenda enterrou os corpos, sob ameaças para nada revelar a ninguém, senão também ele iria morrer. Cerca de nove anos depois desse crime absurdo, o jornalista Antônio Carlos Fon, de São Paulo, foi contratado pelo goiano Diário da Manhã, em março/abril de 1980/83, que nascia para revolucionar a imprensa no Centro-Oeste. Aqui, Fon teria um bom começo, disposto a levantar toda a história da “Chacina de Rio Verde”, iniciando pelos despojos de Márcio e sua companheira Maria Augusta. Alertados não se sabe por quem, os assassinos foram a Rio Verde antes do jornalista e desapareceram com os ossos das vítimas. Quando Antônio Carlos Fon chegou ao local, nada mais encontrou além da terra afofada, dos vestígios de roupas, dentes e fragmentos de ossos. A investigação de Fon, que teve a colaboração da jornalista Marta Regina, vinda de São Paulo para também trabalhar no Diário da Manhã, foi surpreendida com esse aparente malogro. Mas o trabalho jornalístico não parou por aí. Contando ainda com a participação de profissionais goianos, como o competente Zé Luiz, Fon e Marta passaram a ouvir pessoas de Rio Verde, comprovadamente 128


conhecidas da moça e do moço de São Paulo, que “só queriam a felicidade do povo”. Procurado para dar informações, o delegado José Xavier do Bonfim tentou desestimular o trabalho da equipe. Poucos dias depois, Marta Regina escapou por pouco de um atropelamento no centro de Goiânia. Então, Fon retornou a Ribeirão Preto e conseguiu localizar antigos companheiros de Márcio e Maria Augusta. Com essa iniciativa, importantes depoimentos foram recolhidos na cidade, inclusive do ex-preso político “Índio”, que, não resistindo à violência de Marcus Fleury, aqui em Goiás, conduziu os torturadores ao local onde se escondiam os militantes da Molipo. Tantos anos depois, quando Fon lhe apresentou uma fotografia do capitão Fleury, imediatamente “Índio” o identificou como o comandante do assassinato dos indefesos estudantes paulistas. E foi com esses dados, consistentes e sincronizados, que a equipe preparou uma das mais belas reportagens do Diário da Manhã. O editor Antônio Carlos Moura, com sua competência, coragem e coerência, acompanhou pessoalmente a diagramação da página, com grandes fotos de “Índio” e do algoz Marcus Fleury. Desse jeito, numa azul manhã de domingo, o Diário circulou com a última reportagem da série que conferiu aos seus autores o prêmio Vladmir Herzog, considerando sua contribuição à defesa dos direitos humanos. Mas a ditadura, se já estava na UTI, continuava respirando sem necessidades de aparelhos. O governador nomeado Ary Valadão ainda tinha poderes para humilhar a imprensa e o povo. 129


Em Jataí e Rio Verde, a notícia se espalhou. No conflito entre cabeça e coração, o Diário ficou nu: enquanto Valadão e Fleury exigiam a demissão de Fon, Marta e Moura, nacionalmente o jornal era procurado para ser cumprimentado e dar informações sobre a “Chacina de Rio Verde”. Márcio Beck Machado e Maria Augusta Thomaz, com a humildade dos revolucionários, certamente não aceitariam qualquer homenagem. Mas, ainda assim, Rio Verde e o estado de Goiás têm a obrigação de homenagear esses jovens, que receberam a pena de morte pelo crime de defender a democracia.

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Marcos Antônio Dias Batista Texto: Renato Dias

Menino enfrentou a ditadura

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o dia 24 de outubro de 1969, o estudante Marcos Antônio Dias Batista, então membro da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares) e da Frente Revolucionária Estudantil (FRE), reuniu peças de roupas em uma sacola, deixou sua casa e caiu na clandestinidade. Foi visto, pela última vez, no norte de Goiás, hoje Tocantins. É um dos desaparecidos políticos do Brasil. Matriculado no colégio Atheneu Dom Bosco e depois no Lyceu de Goiânia, Marcos Chinês, como era conhecido, participou das manifestações de 1968 contra a ditadura. Com a certeza na frente e a História na mão, foi ao Congresso da Ubes, em Salvador. Após a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), partiu para a luta armada. Sonhava com a liberdade, o socialismo e o homem novo. Tendo apenas 15 anos de idade, organizou estudantes, reuniu-se com camponeses, estruturou a FRE, integrou uma organização política e militar, explodiu uma 131


bomba no jeep do coronel Pitanga Maia, então secretário de Segurança Pública de Goiás, atacou o carro do chefe da repressão política no Estado, Marcus Fleury, e fez pichações pelas liberdades democráticas. Companheiro de jornadas de lutas de Allan Kardeck Pimentel, Olga Darck, Jackson Pires, João Arnolfo, Francisco Sapiência, Sérgio Said Esteves, Waldomiro Batista, Erotides Borges, Ademir Lima e Silva, Juarez Ferraz da Maia, Itamar Correia, Marcantônio Della Corte, foi seduzido pelos discursos do enfant terrible Euler Ivo Vieira, à época dirigente da Ubes. Preso em maio de 1970, torturado, morreu e os seus restos mortais nunca foram entregues à família. A sua mãe, Maria de Campos Baptista, ouviu do médico Laerte Chediack, em 1980, que ele foi preso pela equipe do capitão Fleury, exdiretor regional da Polícia Federal. Com a lei 9.140, de 1995, a União emitiu o seu atestado de óbito. Resta saber onde estão seus ossos e quem são seus algozes.

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Maria de Campos Batista Texto: Renato Dias

Mãe morre procurando o filho desaparecido

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ímbolo das lutas democráticas e republicanas em defesa dos direitos humanos no Estado de Goiás, Maria de Campos Baptista nasceu no dia 25 de dezembro de 1927, em Cuiabá (MT), e morreu no dia 15 de fevereiro de 2006, na estrada que liga Brasília (DF) a Goiânia (GO). Ela vinha de uma audiência com o vice-presidente da República e ministro da Defesa à época, José Alencar. Filha de Antônio Benedito de Campos e Antônia Botelho de Campos, fez o supletivo depois dos 50 anos de idade, prestou vestibular e formou-se em Serviço Social, na Universidade Católica de Goiás. Mais: concluiu curso de Saúde Pública. Funcionária da Secretaria de Estado de Saúde, trabalhou 30 anos no Centro de Saúde Juarez Barbosa, em Goiânia. Casada com Waldomiro Dias Baptista, Dona Santa teve nove filhos: Waldomiro Batista; Silvino Batista, 133


engenheiro; Marcos Antônio Dias Batista, desaparecido político; Honorina Maria, odontóloga; Antônia Elizabeth, médica; Martha de Lourdes, professora de Educação Física e Psicóloga; Ricardo Dias, advogado; e Renato Dias, sociólogo e jornalista (um filho morreu ao nascer). Durante a ditadura militar (1964-1985), Maria de Campos Baptista foi uma voz ativa que se levantou contra a caserna. Como Zuzu Angel – estilista que denunciou a morte de seu filho Stuart Angel Jones e acabou assassinada em um trágico acidente de carro, em 1976, no Rio de Janeiro –, fez de seu cotidiano uma luta permanente pela elucidação do desaparecimento do filho. O menino, Marcos Antônio Dias Batista, participou das lutas políticas no ano de 1968. Estudante do Lyceu, integrou, em 1969, a Frente Revolucionária Estudantil e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VARPalmares), organização de que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, fez parte nos turbulentos anos 60 e 70. Marcos Antônio Dias Batista foi preso, torturado e assassinado aos 15 anos de idade. Os seus restos mortais nunca foram encontrados. Maria de Campos Baptista ficou 36 anos procurando-o. Ela deixou por décadas o portão da casa e a porta da cozinha abertas aguardando em vão o retorno do filho querido. E foi numa tentativa de encontrálo que cruzou com a morte. A Justiça Federal determinou (em sentença inédita) ao então ministro da Defesa e vice-presidente da República, José Alencar, que a recebesse em audiência, consultasse 134


os arquivos das Forças Armadas (Exército, Marinha, Aeronáutica e Abin) e esclarecesse as circunstâncias da prisão e morte e informasse o local onde estão os restos mortais de Marcos Antônio Dias Batista. Após a audiência, Maria de Campos Baptista, no trecho das Sete Curvas, sofreu um acidente e morreu no local. O carro em que estava era dirigido por seu filho Silvino Antônio Dias Batista. Na parte de trás do veículo, estavam a sua filha Honorina Maria Dias Batista e o neto Yanko Batista Lobbet. Os três sofreram escoriações. Ao seu velório compareceram o vice-presidente da República José Alencar, o ministro de Estado da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (Sedh), Paulo de Tarso Vannuchi; o então governador de Goiás, Marconi Perillo; seu vice Alcides Rodrigues; o prefeito de Goiânia, Iris Rezende; o presidente da Câmara de Vereadores, Cláudio Meirelles; e o presidente da Assembléia Legislativa, Samuel de Almeida, além de vereadores, deputados estaduais, deputados federais, prefeitos e autoridades do Ministério Público e Judiciário.

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Maurício Samuel Zaccariotti

Movimento estudantil e sindical, prisão, socialismo

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asci em Uberlândia, Minas Gerais. E cedo iniciei minha militância política. Ainda bem jovem, me filiei à União da Juventude Comunista (UJC); logo, também, comecei no mundo do trabalho. Em 1954, fui contratado pelo Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais e participei de todos os movimentos promovidos pelo Sindicato dos Bancários daquela cidade. Em 57, consegui minha transferência para Goiânia, onde já estava morando toda a minha família. Aqui, poderia realizar meu sonho de estudar advocacia, uma vez que não havia esse curso em Uberlândia. No banco, como reconhecimento pela minha dedicação, fui promovido e, mais tarde, tive que renunciar a uma promoção, por incompatibilidade com os horários da faculdade. Filiado ao Sindicato dos Bancários, participei de inúmeras ações em defesa da categoria e ocupei cargos importantes na diretoria da entidade. 137


Ainda estudante secundarista, minha atuação foi destacada, chegando a ocupar o cargo de secretário geral da União Goiana dos Estudantes Secundaristas (Uges). Ao ingressar na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG), passando no vestibular, além de ser um aluno aplicado, tive intensa participação no movimento estudantil universitário. Inclusive, fiz parte da caravana de estudantes que foi ao Festival Mundial da Juventude e do Congresso Mundial da União Internacional dos Estudantes (UIE), em Helsinque, na Finlândia. Tão logo terminou o festival, tive a honra de ser convidado, ao lado de outras lideranças, pelo governo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) para ir a Moscou e conhecer o fantástico mundo socialista. O convite se estendeu até a Checoslováquia e Alemanha Oriental. De volta a Goiânia, em maio de 63, fui eleito presidente do Centro Acadêmico XI de Maio (Caxim), da Faculdade de Direito. Em 1° de abril de 64, mesmo dia do golpe militar, aconteceu uma “assembléia” do Centro Acadêmico que envergonhou o movimento estudantil. Toda a diretoria eleita e legítima foi destituída e, no seu lugar, assumiu uma “junta governativa” integrada por esbirros dos golpistas. Isso era um claro sinal da “caça aos comunistas e subversivos” cujos desdobramentos eram incertos. No dia 7 de abril, o então governador Mauro Borges, ainda apoiando a ditadura militar, atendendo ordens do comandante do 10º Batalhão de Caçadores, coronel José de Souza Júnior, e do general de Brigada Rafael Aguiar, 138


do Comando Militar do Planalto, ordenou a prisão dos considerados comunistas, dentre os quais figurava na lista o meu nome. Dia 11 de abril, eu fui preso pela primeira vez, levado para o Dops e fui identificado criminalmente e liberado em seguida. Já no dia 29, do mesmo mês, de conhecimento de eu ser membro do PCB, a minha casa foi invadida por agentes da ditadura, que confiscaram todo o meu acervo bibliográfico, aliás, nunca foi devolvido, e levado para o 10º Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro, onde permaneci detido ao lado de Ronaldo Moraes Jardim e Valterli Leite Guedes, dentre vários outros companheiros. Foram 30 dias sofrendo as mais fortes pressões físicas e psicológicas. Em 9 de março de 1965, após várias outras prisões, fui preso com mais 15 companheiros e levados ao Cepaigo, por 20 dias. De lá fomos libertados por força de habeascorpus, concedido pelo Supremo Tribunal Federal. No início de 68, fui indiciado em outro IPM, desta feita por meu envolvimento em movimentos estudantis do Distrito Federal, e preso com mais 147 pessoas, somando a acusação de atividades subversivas na UFG e no Governo do Estado de Goiás. Durante as diversas vezes que estive preso, o banco, onde eu trabalhava, descontava os dias não trabalhados na folha de pagamento. E considerando as constantes perseguições e prisões, além dos dias que eu não podia ir ao trabalho, para não ser preso, havia ainda o constrangimento da presença da polícia política dentro da agência ou nas 139


imediações me seguindo e anotando cada passo meu. A minha situação funcional ficou insustentável e culminou num “acordo amigável”, ou melhor, demissão. Daí em diante, o que já não era fácil ficou ainda pior. A vida de um perseguido político é um dilema, ora você tem que ser invisível para se livrar da mira dos agentes da ditadura, ora você sofre com o afastamento de pessoas tão caras. Até parece que éramos acometidos de uma doença transmissível e digna de preconceito. No meu caso, foi muito difícil ficar sem conseguir um emprego por anos e anos. Mas, como nada é eterno, a esperança é que o socialismo ainda triunfará, contando com a nossa contribuição, para que o Brasil, superando as desigualdades sociais, possa ser um país verdadeiramente democrático.

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Neso Natal

Militantes levam armas do quartel de Anápolis

N

asci na cidade de Goiandira, interior de Goiás. Iniciei meus estudos em Anápolis e Ceres. Ao mudar para Goiânia, comecei a estudar no Colégio Dom Bosco. Nesse colégio sofri minha primeira e marcante punição política ao ser expulso por lutar pela legalização do Partido Comunista. Matriculei-me no Colégio Lyceu de Goiânia e, ali, desenvolvi diversas e importantes atividades da política estudantil e partidária. Pois a liberdade, igualdade e fraternidade foram bandeiras que minha geração abraçou desde jovem e nunca as abandonou, esperando um dia ir além da Revolução Francesa. Depois de algum tempo militando no PCB passei a discordar da sua linha partidária e ingressei no PC do B, para somar forças no sentido de apressar a luta armada em combate ao regime militar que vigorava no Brasil a partir de 1964. Em Goiás, o então governador Mauro 141


Borges se beneficia e lidera o golpe até que as forças da direita, comandadas pela UDN, se organizam e preparam a sua derrubada, que acontece em novembro de 1964. O governador tinha o apoio popular por desenvolver uma administração progressita e democrática. Porém, esse apoio não foi suficiente para impedir que as antigas oligarquias goianas voltassem a ocupar e repartir, entre si, o comando do Estado. Certo de que isso iria acontecer, liderei um grupo que arquitetou um plano de tomar o quartel do Tiro de Guerra, em Anápolis. A execução do plano foi um sucesso. Daniel Ângelo, Belmiro Vieira de Rezende, Jaime José Mendes e eu conseguimos trazer para Goiânia um grande estoque de armas e munições, que deveriam ser utilizadas em caso de confronto com as Forças Federais. No entanto, a nossa ação só fez com que os militares apressassem a intervenção em Goiás. Talvez, por falta de experiência, dias depois fui pego pela polícia repressiva e levado a Brasília. Lá fiquei preso por alguns meses até ser libertado por meio de um habeascorpus impetrado junto ao Supremo Tribunal Federal. Em liberdade, fui para Ceres e condenado à prisão, por seis anos, pela 4ª Auditoria Militar. Refugiei-me no Uruguai, mas logo decidi voltar ao Brasil e fiquei alguns meses no Rio de Janeiro, até que consegui ir para Moscou, em 1967. Na União Soviética, estudei geologia e me casei com Maria Evguenievna Lell Natal e tivemos dois filhos, Daniel e Maya. Oito anos depois de sair do Brasil, imaginando que a situação política estivesse resolvida e a prescrita, com o 142


diploma de geólogo e casado, resolvi voltar e recomeçar a vida na minha pátria. No entanto, o serviço de informação da ditadura me localizou em Santos e me seqüestrou. Fui levado a São Paulo e preso no DOI/Codi, onde conheci as mais cruéis formas de tortura que se possa imaginar. Dentre elas, a que chamavam de “cadeira do dragão”. Os torturadores pareciam não se conformar pela minha ousadia de ter, em 64, tomado o Tiro de Guerra, de Anápolis, e estavam convencidos de que eu era um agente da KGB. Fiquei por dois meses em São Paulo e, em seguida, conduzido para Brasília e as torturas físicas e psicológicas não cessaram, ao ponto de eu tentar o suicídio como forma de me libertar daquele sofrimento. Trazido para Goiânia, colocaram-me no Cepaigo e lá convivi com outros presos políticos, como João Silva Neto, o jornalista Vilmar Alves, Elias Moreira Borges, o operário Tibúrcio, Clovis Bueno, o médico Abrão Marques e tantos outros que me acolheram e me ajudaram a recuperar daquela degradação física e mental a que cheguei. Recuperei as forças, a vontade de viver e de lutar pelo restabelecimento da democracia no Brasil. Em julho de 77 conquistei a tão sonhada liberdade e, desde então, apesar de toda a crueldade que sofri, não me arrependo de nada que fiz. Tudo faria de novo, se necessário fosse, para derrotar qualquer tipo de governo autoritário e antidemocrático, como foram os militares no Brasil. Só lamento não ter conseguido exercer a profissão de geólogo, devido às sequelas físicas e mentais, como conseqüência das torturas. Mas, isso nunca será motivo para impedir que eu lute pela democracia, sempre. 143


Sebastião Gabriel Bailão

Uma vida em defesa do socialismo

S

ebastião Gabriel Bailão nasceu na cidade de Martins Campos, em 02 novembro de 1927. Mineiro de nascimento e goiano por opção, destacou-se como um dos principais líderes de camponeses na época da ditadura militar. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), levado pelo líder camponês Geraldo Marques, o “Geraldão” de Trombas-Formoso. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Goiás (Fetaeg). Teve uma destacada atuação no PCB, no comitê zonal de Trombas-Formoso, ao lado de Zé Porfírio, Geraldo Tibúrcio, José Ribeiro, Dirce Machado e “Geraldão”, seu cunhado, dentre outros companheiros. Em Goiânia, promoveu o treinamento e encaminhamento de jovens camponeses, selecionados pelo “Comitê Central”, para estudar na União Soviética. 145


Elegeu-se vereador na cidade de Itauçu por duas legislaturas e teve seu mandato cassado em 4 de abril de 1964, por meio de Projeto de Resolução nº 03/64, sob a argumentação de que aquela “Casa não poderia abrigar de nenhuma maneira um elemento que é manifestamente contrário à Constituição e à inviolabilidade do regime vigente no País”. Na justificativa da proposição, afirma-se que “Bailão, pelas atitudes assumidas, principalmente na atual conjuntura política, tornou-se elemento pernicioso e subversivo, contra as instituições democráticas da Nação. É elemento comprovadamente comunista”. Em dezembro de 1964, foi denunciado em IPM pela Justiça Militar da 4ª Região Militar, diante da acusação de crimes contra a Segurança Nacional. Segundo o relatório do inquérito, ele e outros eram “perigosos agitadores, comunistas e subversivos” e que “alguns foram para Cuba,” hoje sendo especialistas em guerrilha. Ainda: “participavam de reuniões de camponeses e operários”. No início dos anos 70, a repressão militar tornouse mais intensa e o principal instrumento de exceção da época era o Ato Institucional n° 5 (AI-5). Bailão, que era um militante ativo do PCB, temendo ser novamente preso, fugiu para São Paulo. Lá, foi descoberto e preso por mais três meses, pelo DOI-Codi. Sofreu torturas físicas e psicológicas. Posteriormente, recambiado para o Pelotão de Investigações Criminais do Exército (PIC), em Brasília, ficou mais seis meses encarcerado, conhecendo na pele os mais variados espancamentos, quase chegando à morte. Foi colocado várias vezes no “pau-de-arara”, que era uma 146


posição em que o torturado ficava pendurado e, depois, submetido a choques elétricos por todo o corpo, “telefones” nos ouvidos, simulações de fuzilamento, pancadas nas pernas com cassetetes de madeira e outras atrocidades. Depois de ser liberado, aguardou o julgamento pela 4ª Auditoria da 11ª Região Militar, sendo condenado a quatro anos de reclusão. Cumpriu mais da metade da pena no Cepaigo, vindo a ser liberado (livramento condicional) em maio de 1977. Sebastião Gabriel Bailão, até seus últimos dias, lutou pela redemocratização do país e em defesa do socialismo.

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Tarzan de Castro

Repercussão até no FBI

T

arzan de Castro é o meu nome. Com o golpe de Estado, em 1964, recebi diversos outros nomes, que, na verdade, eram codinomes, pelo menos durante os períodos da minha atuação na clandestinidade. As perseguições e prisões que tantos padecimentos me causaram – numa luta desigual contra o aparelho repressivo montado pela ditadura militar – repercutiram até em outros países, provavelmente pelo fato de eu ter sido um dos principais assessores do governador Mauro Borges, que foi cassado ainda no ano de 1964. Hoje, nesse meu pequeno depoimento, não poderia esquecer a solidariedade do povo goiano, especialmente da minha mãe, Joaquina Ramos de Castro, uma das mais corajosas mulheres conhecidas por mim. Em 1956, quando era estudante no Lyceu de Goiânia, comecei a fazer parte do movimento secundarista (presidi importantes entidades). Engajei-me, também, na luta pela 149


reforma agrária, participando ativamente da fundação de associações e sindicatos. Conforme dados levantados pela Polícia Técnica do Dops, minha ficha fazia parte de todos os arquivos do país e até do FBI, sob o pretexto de registrar a liderança exercida por mim em todos os movimentos no Estado de Goiás. Com uma prática que se tornaria costumeira, os algozes da ditadura em Goiás passaram a perseguir vários membros da minha família, ameaçando-os com prisão, tortura e outras mazelas que lhes viriam a acontecer, particularmente à minha mãe, que foi presa e torturada diversas vezes. Meu irmão Erlan de Castro, que sustentava parte da nossa família, com seu emprego, foi demitido da Secretaria da Fazenda do Estado. Conseqüentemente, minha permanência em Goiás tornou-se um grande risco. Então passei a viver na clandestinidade. Sofri, ainda, todas as arbitrariedades e violências patrocinadas pela ditadura. A imprensa nacional e estrangeira deram um grande destaque às acusações que me eram feitas. O Correio da Manhã, sem muito violentar a ética jornalística, apresentou grandes matérias a meu respeito. Até afirmou que, diante de tudo o que acontecia no país, as minhas declarações eram “corajosas”. Observou: “Tarzan de Castro foi um dos primeiros a protestar contra as torturas”. A esse jornal informei: “Fui preso no dia 18 de abril de 1964, numa fazenda do interior de Goiás. Fiquei sabendo, posteriormente, que a minha prisão se deu em vista de um processo em que somos como um dos indiciados, como participante em movimentos de guerrilha no município de Dianópolis”. 150


Fui transferido da penitenciária para o 10º Batalhão de Caçadores, no dia 3 de setembro. Na mesma noite da transferência, os sargentos Thompson e Guido Ferro colocaram-me em dois sacos que me cobriram do abdome até a cabeça. Algemaram-me e, em seguida, me transportaram para uma área próxima ao quartel, para uma sessão de torturas, que demorou das 21 às 24 horas. Recebi choques, pancadas, chutes, fuzilamentos simulados e muitos outros métodos. No dia seguinte, tudo se repetiu com a mesma intensidade, dessa vez com a presença, ainda, do sargento João da Costa Garcia Neto. Os encarregados do inquérito foram: Aníbal Coutinho, tenente Marcus Antônio Brito Fleury e Silésio Gusmão. Esse difícil périplo continuou, assumindo matizes os mais surpreendentes e demolidores. Exemplo: permaneci dias dentro de uma latrina infecta, localizada no rancho do quartel. Muito eu poderia ainda dizer, mas tudo o que se possa imaginar de crueldade, sem limite, a ditadura fez. Portanto, certamente, não houve exceção. E se em mim praticaram tantas atrocidades, mais graves métodos de torturas levaram aos camponeses e operários, por exemplo. As declarações e os documentos que instruem este capítulo vergonhoso e triste, por sua autenticidade, o que não se pode dizer sobre as calúnias e difamações arrancadas contra o governador Mauro Borges, que não aceitou permanecer nessa lama preparada pelas Forças Armadas, com integral apoio do governo dos Estados Unidos, contra os brasileiros que sonhavam construir 151


um país melhor, diferente, com respeito ao povo e a cada cidadão e cidadã de um país rico e belo, que tudo oferece para garantir dignidade ao ser humano. Além das prisões, de fugas que pareciam impossíveis, de exílios em inúmeros países, tão logo o povo conquistou a anistia política, vindo da França desembarquei no Aeroporto Santa Genoveva, encontrando uma festa estampada na face de amigos e amigas, companheiros e companheiras, podendo demoradamente abraçar a minha mãe. Posteriormente, como parlamentar, experimentei uma diferenciada forma de luta. Continuo no caminho, sabendo que muito chão temos de percorrer, com a juventude levantando a nossa bandeira de libertação.

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Valdi Camarcio Bezerra

Prisioneiro de alta periculosidade

N

asci em janeiro de 1947, em Porto Nacional, no Tocantins. Concluí o curso ginasial em 1960, no Colégio Sagrado Coração de Jesus, na minha cidade natal. Cursei o científico no Lyceu de Goiânia, fiz cursinho no Colégio da Universidade Federal de Goiás (UFG) e ingressei na Faculdade de Medicina, da UFG, em 1967. Participei ativamente do movimento estudantil: fui secretário do Centro Acadêmico XXI de Abril, da Faculdade de Medicina, vice-presidente e presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE). Como jovem idealista, tive expressiva liderança no movimento estudantil, que na época se constituía um dos principais esteios do movimento de esquerda no país. Imbuído de um ideal transformador, militei na organização de esquerda Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil. Além de estudante do 5º ano de Medicina, fui professor no recém-inaugurado Colégio Universitário Estadual de Goiânia (Colu). 153


Na tarde de 18 de novembro de 1971, quando eu retornava da faculdade, para minha residência, fui surpreendido com uma abordagem violenta de agentes do Serviço Secreto do Exército. Com grande brutalidade, eles me jogaram em um Fusca, que estava estacionado, de portas abertas. Rodaram por toda a cidade e, encapuzado, fui levado para o 10º BC de Goiânia (hoje, 42º Batalhão de Infantaria Motorizada). Durante a noite toda, fui submetido aos mais cruéis maus-tratos, como pancadas e choques elétricos, além das abomináveis torturas psicológicas. No dia seguinte, fui conduzido a Brasília, inicialmente para o prédio do Ministério do Exército. Em seguida, para o Pelotão de Investigações Criminais da Polícia do Exército (PIC), onde fiquei preso. As sessões de tortura continuaram de forma permanente, tendo em vista a obtenção de informações sobre pessoas e organizações de esquerda. Fiquei, durante cerca de um mês, sem que meus familiares soubessem de meu paradeiro. Eu estava totalmente incomunicável. Após uma busca incessante, na véspera do Natal, a Auditoria Militar confirmou à minha família que eu estava preso em Brasília. Então, com muita dificuldade, meus familiares conseguiram fazer contato comigo. Fui sempre tratado como um prisioneiro de alta periculosidade. Incomunicável, a qualquer acontecimento político externo eu sofria reprimendas, voltando às intermináveis sessões de torturas. Só depois de a Auditoria Militar assumir publicamente a minha prisão, os meus familiares tiveram autorização para me visitar, 154


semanalmente. Mas as visitas eram restritas aos parentes diretos. Muitas vezes eram suspensas de forma arbitrária, sem qualquer explicação. Familiares e outras pessoas queridas passavam por constrangimentos e humilhações. Todos sabiam que eu estava submetido a um tratamento desumano. Ali, no PIC, cada visitante enfrentava uma série de transtornos: a) o tempo era curto, 15 minutos apenas; b) somente duas pessoas podiam entrar de cada vez; c) elas passavam por uma rigorosa triagem, com a apresentação prévia de documentos. Conseguindo a autorização, eram submetidas a uma revista humilhante; d) o cubículo, insalubre e deprimente, não tinha ventilação; e) sempre contava com a companhia de um policial fardado e empunhando fuzil; e f) somente uma pessoa entrava no corredor, apenas para me ver, através das grades, sem qualquer contato físico. Além disso, todas as conversas eram gravadas e as correspondências submetidas a uma rigorosa censura. Houve períodos de mais endurecimento. As alterações conjunturais políticas do país determinavam diferenças no tratamento recebido no presídio. Era comum a transferência de presos do PIC para lugares desconhecidos. Isso aconteceu com vários companheiros e comigo também. Em junho de 1972, minha família foi visitar-me e não me encontrou no PIC, onde estava preso. Não receberam qualquer informação a meu respeito. Depois de muita busca, localizaram-me no BGP, dormindo no chão de uma cela, sem colchão e sem agasalho, num período de muito frio. 155


O meu julgamento ocorreu em julho de 1972, na Auditoria Militar do Ministério do Exército, com um forte aparato militar. Meus companheiros de processo e eu permanecemos algemados, em frente aos militares e torturadores à paisana, que mais tentavam nos intimidar. Apesar da defesa, emocionante, do excepcional advogado Rômulo Gonçalves (ele defendia os presos políticos por idealismo), ainda fui condenado a mais um ano e dois meses de prisão. Este resultado foi até comemorado, porque, segundo comentários, a minha pena seria de oito anos. Os familiares se mobilizaram para conseguir a transferência dos presos goianos para o Cepaigo. É que eles estavam preocupados com o risco de os militares nos executarem, incluindo-nos na relação dos desaparecidos políticos. No meu caso, pesava o fato de eu ser considerado, pelos militares, uma pessoa perigosa e hábil articulador político. Em 1972, ano em que eu deveria concluir o curso de Medicina, estava preso. Além disso, fui atingido pelo Decreto Lei 477, que me afastou da UFG ao longo de três anos. Por ironia, naquele mesmo ano, meus colegas de turma tiveram como paraninfo o coronel Jarbas Passarinho, nosso principal algoz, que me aplicou a absurda punição. Mesmo saindo da prisão em fevereiro de 1973, só pude retomar meus estudos em 1975, conseguindo terminar o curso em 1976. Médico, com especialização em Urologia, participei de concurso e me tornei professor na faculdade em que, por algum tempo fui impedido de estudar. 156


Dando continuidade à minha militância política, em 1980 participei da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), em Goiás e no Brasil. Exerci a presidência do Diretório Municipal de Goiânia, do Diretório Estadual e fui membro da Executiva Nacional do partido. Elegi-me vereador em 1992 e deputado estadual em 1994. No ano de 1993 fui secretário de Governo da Prefeitura Municipal de Goiânia e, em 2003, presidi a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), no primeiro mandato do presidente Lula. Hoje, continuo sendo professor da UFG e sou presidente do Diretório Estadual do PT de Goiás.

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Valterli Guedes

1964: Goiás no contexto do golpe

O

governador Mauro Borges Teixeira (PSD e os partidos aliados) estava, em 1964, distanciado do então presidente da República. Comenta-se que, como participara do movimento em favor da sua posse, João Goulart, o Jango, em 1961, logo depois da renúncia do presidente Jânio Quadros, Mauro Borges julgava que Goiás seria merecedor de um tratamento diferenciado. Mas nada veio dos recursos vultuosos sonhados pelo governador. No terreno administrativo, o que se viu foi a ascensão do deputado federal Alfredo Nasser (PSP), um adversário, ao cargo de ministro da Justiça e Negócios Interiores, quando Tancredo Neves era 1º ministro. Tudo isso, na prática, resultou no seguinte quadro: aquele que, resistindo ao golpe não causaria surpresa, no caso o governador, posicionou-se com os militares golpistas. Os naturais apoiadores, caso estivessem naquele momento em sintonia com seus líderes nacionais, foram apanhados, 159


como eu diria? Com as calças nas mãos. Nos primeiros dias de abril, enquanto um governador afinado com Mauro seguia preso para a ilha de Fernando de Noronha, caso de Miguel Arraes, de Pernambuco, o governador de Goiás fazia medo a seus adversários. Criou até uma comissão, integrada especialmente por procuradores do Estado e por empresários, com a finalidade de investigar pessoas contra as quais o governador pudesse aplicar penas previstas no Ato Institucional de 10 de abril de 1964, mais tarde rebatizado com o nome de Ato Institucional nº 1. Mas aos poucos os adversários do governador Mauro Borges foram se mobilizando e conseguiram, em poucos meses, inverter as posições. Em 26 de novembro de 1964 o presidente general Humberto de Alencar Castello Branco decretou intervenção federal em Goiás, única no Brasil, uma vez que governadores cassados, de outros Estados, foram substituídos por seus vices. Uma particularidade a mais: a queda de Mauro Borges, filho do Pedro Ludovico, marcou o fim da era ludoviquista em Goiás, iniciada em 1930, quando ocorreu a ascensão de Ludovico em substituição ao domínio de Antônio (Totó) Ramos Caiado, que ascendera em 1909, substituindo os Bulhões. Eu, um estudante secundarista de 18 anos, recémchegado do meio rural e assim sem nenhum embasamento cultural, por mais rudimentar, para ser um comunista, fui apontado como tal. Por quem? A ficha a mim enviada, com intimação para que me defendesse perante a tal comissão criada pelo governador, era da Dops (Delegacia de Ordem Política e Social). Prestei um depoimento e, em 7 de 160


outubro daquele ano, o Diário Oficial do Estado publicou decreto do governador me demitindo do cargo que eu exercia num órgão estadual. Antes mesmo da demissão, permaneci preso nas dependências do então 10º Batalhão de Caçadores, atual 42º BIM. Tive, na prática, os meus direitos políticos suspensos, com um detalhe: aqueles cujos direitos políticos eram suspensos assim ficavam por 10 anos. Para as punições iguais à minha, não havia prazo previsto. Era uma pena vitalícia, caso a ditadura perdurasse. Em 1972, já estudante de Direito na UFG, nova prisão, no mesmo quartel, "para averiguações". O aparelho de dar choque elétrico estava sempre na cadeira onde me mandavam sentar, para os longos depoimentos. Não o utilizaram em mim e, mais tarde, entendi o motivo: foi nesse período que, sob tortura, haviam assassinado Ismael Silva de Jesus. Então, ao que me parece, houve uma determinação visando evitar outros "suicídios". De concreto, ficam para mim dois ensinamentos, o primeiro, no campo pessoal: quando se é jovem, as vicissitudes iguais às que experimentei são positivas. Perdi vários empregos sob pressão da ditadura. E daí? Sobrevivi, sempre otimista. Ruim é ficar desempregado na velhice. No plano histórico-político, a lição é que o Brasil hoje é outro, sob o prisma democrático. Seria ótimo se essa evolução democrática houvesse sido alcançada sem os transtornos de uma ditadura que matou, torturou, baniu. Mas a História bem demonstra que foi este o preço da 161


evolução de um povo, agora ansioso por novas conquistas. Quais? Resumidamente: ver colocado em prática tudo aquilo que está no papel da Constituição e de outras leis. O tempo continua sendo de luta. Afinal, a vida continua. Agora (escrevo em maio de 2008), posso dizer com Neruda: “Hoje é hoje, ontem se foi, não há dúvida”.

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Walderês Nunes Loureiro

Memória inclui muitos mortos

A

memória desses tempos difíceis não é individual, por se referir a uma história coletiva. Em vários momentos, senti dificuldade de saber em que pessoa o verbo deveria ser usado: se na primeira pessoa do singular ou do plural. Isso porque essa minha vida parece conter a vida de muitos, dos quais muitos mortos. As origens da participação política Nascida e criada na zona rural até o final do curso primário, em escola multisseriada, mudei-me com minha família para a cidade de Nanuque, no interior de Minas Gerais, no final da década de 1950, para que eu continuasse os estudos no curso ginasial. Nessa época, passei a integrar o primeiro núcleo da Juventude Estudantil Católica (JEC) da cidade, dando início à minha militância. A partir dessa atuação, criamos a União dos Estudantes de Nanuque. 163


Talvez, em virtude dessa prática política que se iniciava, fomos capazes, apesar de estudarmos em colégio católico, de discordar da posição assumida pela igreja católica, contrária a educadores que, como Florestan Fernandes e Anísio Teixeira, defendiam a escola pública no processo de discussão do Projeto de Lei de Diretrizes e Bases aprovado em 1961. Fomos também capazes de perceber a organização prévia dos fazendeiros da região para apoiar o golpe de 1964, que se aproximava, e já, naquele momento, nos colocarmos do lado contrário. Para essa lucidez muito contribuiu a influência do meu pai, que durante toda a sua vida, na sua condição de classe subalterna, sempre se colocou ao lado dos seus iguais e era ouvinte assíduo de Brizola e da Rádio Mairinque Veiga. Além disso, vivia-se um momento democrático pelo qual passava a sociedade brasileira, com muitos debates, que chegavam a Nanuque pelo rádio e pelo jornal. A entrada na Universidade Enquanto cursava Pedagogia, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tiveram grande importância na minha formação política o ingresso, em 1966, no ensino público como professora primária e a militância no movimento estudantil. Encontrei no curso da UFMG um corpo docente do qual vários professores tinham sido cassados ou aposentados após 1964, sendo substituídos com base em critérios de seleção, adequados ao momento, em que a posição política, evidentemente, 164


tornava-se um critério prioritário. Sendo assim, Marx e o marxismo não existiram durante o curso, a filosofia não saiu da Grécia e a didática, numa linha tecnicista, enfatizava a elaboração de objetivos e de estratégias para atingi-los. Em minha vida de professora primária da escola pública estadual, fui, por dois anos, professora em curso noturno de um bairro operário, constituído por alunos que eram crianças precocemente integradas ao trabalho e, por dois outros anos, alfabetizadora em uma favela. Os professores da rede pública de Belo Horizonte também se integraram na luta contra os desmandos do governo militar consubstanciado em uma degradação dos seus salários, o que nos levou a deflagrar uma greve por melhores condições de trabalho. Na UFMG, fui recepcionada pelos ex-companheiros de JEC da minha região, atuantes no movimento estudantil, e por uma passeata de calouros que reuniu mais de dois mil estudantes na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte. A repressão foi violenta, tendo os estudantes sido perseguidos e espancados, até mesmo no interior da Igreja São José, no centro da cidade. Em 1966, o movimento estudantil apresentava os primeiros sinais de recuperação após o golpe de 1964; intensificou-se em 1967 nas lutas contra os acordos MECUsaid e culminou, em 1968, com manifestações estudantis em todos os estados acompanhadas pelas greves operárias de Contagem (MG) e Osasco (SP). Os debates culturais eram intensos: as peças Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, e Morte e Vida Severina, de 165


João Cabral de Melo Neto, fizeram temporada em Belo Horizonte, momento que tinha como seu hino a música “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré. Debates promovidos na Faculdade de Filosofia da UFMG contavam freqüentemente com a presença de atores e atrizes de peças de teatro em exibição na cidade. Lembro-me de que em um desses debates uma platéia indignou-se com Paulo Autran, que acabava de voltar de Portugal, quando afirmou que a ditadura portuguesa de Salazar era mais sangrenta e repressiva do que a brasileira. Mal sabíamos nós, vivendo sob o governo de Castelo Branco, que a liberdade seria ainda mais cerceada e que seu governo seria considerado, posteriormente, liberal quando comparado com o trágico e sangrento governo do general Médici. A organização estudantil, após a ditadura, fazia-se por meio dos Diretórios Acadêmicos – DAs – que no caso da Fafich/UFMG, representava os estudantes de todos os cursos, como filosofia, química, ciências sociais, pedagogia etc. Cada curso se organizava em Centros de Estudos (CE) que compunham o DA. Fui presidente, por dois anos, do CE de pedagogia, quando organizamos inúmeros debates em busca do entendimento da conjuntura do país. Em dezembro de 1968, numa sexta-feira que segundo o ministro Gama e Silva, em uma cínica afirmação, “foi sexta-feira 13 para muita gente”, foi baixado o Ato Institucional nº 5, que estabelecia as novas regras políticas sob as quais o país passaria a viver. Nos primeiros dias de janeiro de 1969 já se podia antever o alcance desse Ato: cassação dos mandatos de 35 deputados federais, dois 166


senadores e aposentadoria de três ministros do Superior Tribunal Militar. A repressão truculenta atingiu pessoas das mais diferentes categorias que haviam resistido à ditadura militar implantada em 1964: jovens estudantes, operários, intelectuais, lideranças camponesas, religiosos. No curso de pedagogia, assistíamos aula com um professor em uma semana e na seguinte ele já não aparecia; estava na cadeia ou foragido para não sofrer torturas e prisão. Clandestinidade, prisão e mortes Concluí o curso de pedagogia em 1969 e no ano seguinte casei-me com Eduardo Antônio da Fonseca, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN). Logo a seguir, Eduardo e eu ficamos procurados pela polícia e passamos a ter vida clandestina em São Paulo, cidade que, pelo seu tamanho, possibilitava o anonimato de que precisávamos e se tornou, então, refúgio de muitos perseguidos pela ditadura. Entre 1971 e 1974, como milhares de pessoas neste país, fui impedida de exercer a minha profissão pelo aprimoramento da ditadura propiciado pelo AI-5 e realizado em sua plenitude durante o governo Médici. Metade desse tempo passei fugindo da polícia e lutando pela sobrevivência como operária de fábrica; a outra metade passei na prisão. Foram anos carregados de muitas lágrimas e muito sofrimento pelas mortes de meu marido e de companheiros 167


e companheiras com os quais convivíamos em um dia e de cujas mortes víamos, no dia seguinte, o anúncio estampado nos jornais. Eduardo morreu aos 24 anos, em 1971, em uma emboscada preparada pela repressão, em São Paulo, quando morreram também dois outros companheiros que não tiveram qualquer possibilidade de resistir, o que indica intenção da repressão de eliminá-los, e não de efetivar a prisão. Eduardo recebeu quatro tiros na região inferior, que não provocariam morte imediata, apontando para a possibilidade de ter havido omissão de socorro, considerando-se que houve uma diferença de três horas e quarenta minutos entre o horário de confronto e a entrada do corpo no IML, além de não afastar a hipótese de ele ter sido levado ferido para um centro de torturas, quando deveria ter sido socorrido em um hospital. Como explicar sua morte em conseqüência de dois tiros na região glútea e dois nas pernas? Esses disparos já o imobilizariam, impedindo a fuga.1 Em 1972 conheci José Júlio de Araújo, também da ALN. No dia 18 de agosto daquele ano, descemos de um ônibus na Vila Mariana e entramos em um bar para beber água. Estávamos sentados quando o bar foi invadido por uma equipe do DOI-Codi, fortemente armada, que gritava que éramos perigosos ladrões de carro. Dominada por dois policiais, eu gritava que era mentira. Foi a última vez que vi José Júlio, enquanto ele se debatia com muitos policiais, MIRANDA, Nilmário e TIBÚRCIO, Carlos. Dos Filhos deste Solo. São Paulo: Boitempo, p. 64. 1

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tentando se livrar, pois, no DOI-Codi, fomos levados para celas diferentes. Na primeira parte do meu interrogatório sob tortura, os torturadores visavam unicamente obter dados sobre José Júlio. Na madrugada do dia 19 de agosto fui transferida para uma sala onde se encontravam as roupas com as quais José Júlio havia sido preso, algumas peças rasgadas, outras ensangüentadas. A partir de então, nada mais me foi perguntado sobre ele. Os relatórios da Marinha e da Aeronáutica dizem sobre José Júlio: “Preso em 18 de agosto de 1972 e, após interrogatório, levado para encontrar outro terrorista quando entrou em luta corporal com um policial que o escoltava, apossando-se de sua arma e tentando fugir, atirando, quando então foi baleado, vindo a falecer.” 2 Foi com mentiras que inúmeras mortes sob tortura nos porões dos órgãos de repressão da ditadura foram explicadas. Além da perda, da revolta e da violência, essas mortes traziam o sentimento de desolação, solidão e medo ao pensar que estávamos cada vez mais sós e próximos daquele mesmo fim. Apesar de ter sido presa pela justificativa de ser comunista e lutar por uma revolução social no país, foi na cadeia que tive o meu primeiro contato com teóricos marxistas, como Marx, Engels, Lênin, Mao Tse Tung, Althusser, Adolfo Sánchez Vasques e Caio Prado Júnior. Essa leitura tinha objetivos bem definidos: a busca de solução para o impasse a que chegamos, ou seja, como continuar, de forma mais eficaz e menos suicida, a luta contra a 2

Idem, p. 83

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ditadura? O que fazer quando sair da prisão? A busca de uma saída, o entendimento conjuntural e estrutural do país era, naquele momento, sem nenhuma força de expressão, uma questão vital. A prática teórica proposta por Althusser significou a saída para muitos; “dois passos à frente e um atrás”, de Lênin, a saída para outros e “o caminho se faz ao caminhar”, do poeta espanhol Antônio Machado, a diretriz de muitos outros entre os quais me incluí. Em 1979 o saldo macabro dos governos militares era de “50 mil pessoas arrastadas aos cárceres por motivos políticos, 20 mil torturadas, 320 militantes mortos, 144 dados como “desaparecidos”, quatro condenações à morte, 130 brasileiros banidos do País e 780 cassações de direitos políticos”. 3 A volta ao mundo dos vivos Em 1974, terminei de cumprir a pena de um ano e meio e retomei minha vida profissional sem muita possibilidade de escolha, porque tive dificuldade de ser aceita em vários trabalhos pelo fato de ter sido presa política. Os patrões e dirigentes não queriam comprometer-se com os militares, ainda no poder, aceitando uma “subversiva” como empregada. Perdi meu emprego de professora concursada e efetiva do Estado de Minas Gerais, quando meu afastamento foi, arbitrariamente, considerado abandono de cargo por não ter comparecido ao trabalho, quando, na verdade, estava perseguida e presa pela ditadura. Meu primeiro trabalho depois da prisão foi de 3

MANFREDINI, Luiz. As moças de Minas. São Paulo: Alfa-Omega, 1989. p. 131

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coordenadora pedagógica de uma escola particular que só foi possível com a apresentação de uma ficha “limpa”, elaborada pelos órgãos de repressão, que foi conseguida pela solidariedade de amigos. A ficha foi exigida pelo diretor da escola para que ele se resguardasse de qualquer problema, caso fosse abordado pela repressão para explicar minha presença na escola. Em 1975, mudei-me para Goiânia, onde, em agosto de 1978, ingressei como professora na Universidade Federal de Goiás (UFG). Foi exigido o preenchimento de uma ficha, denominada Modelo14, para investigação de meu passado político pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), ficha essa exigida comumente de todos os funcionários ingressantes em órgãos públicos. A demora da burocracia, já em um contexto de movimentação e luta pelo fim da ditadura e pela anistia, que acabou sendo aprovada em 1979, tornou inócuas as informações colhidas por intermédio dessa ficha, que, quando chegaram à UFG, não puderam mais resultar em minha demissão da universidade. Ao rever minha vida de militante política e de vítima da ditadura, concluo que toda ela foi pautada pela busca da transformação social. Esse comprometimento com a transformação assumiu características e matizes os mais diversos ao longo do tempo e de acordo com as possibilidades de luta do momento. Poderia dizer que a insatisfação com o presente e a utopia de um futuro melhor e mais justo para os oprimidos foi sempre seu fio condutor. A forma de transformar o estabelecido e o papel da educação nessa transformação foram os grandes conflitos e desafios que vêm permeando minha existência. 171


Wilmar Antônio Alves (13/04/50 - 20/06/2006) Texto: Laurenice Noleto Alves

Wilmar demorou a voltar

G

oiânia, 12 de julho de 1972. Início da noite. E uma fila de estudantes já descia pela escada do prédio da Reitoria da Universidade Federal de Goiás (UFG), na Praça Universitária, onde ficava também o Restaurante Universitário (RU). Naquele dia, o aglomerado de pessoas não era tão grande, porque na véspera havia começado o período de férias. A maior parte da clientela do RU era formada por estudantes que moravam em repúblicas ou na Casa do Estudante Universitário (CEU) e muitos já tinham ido para suas casas, no interior ou mesmo em outros estados. Naquele fim de tarde, eu estava ali no prédio para me encontrar com o meu namorado, Wilmar, 22 anos, jornalista e diretor da Rádio da Universidade Federal de Goiás, Rádio Universitária. Iríamos a uma reunião política naquela noite. Era reunião secreta e clandestina, onde ocorreria a minha entrada para o Partido Comunista 173


Brasileiro, PCB, comumente chamado de Partidão. Wilmar, com o sobrenome Antônio Alves e codinome Fred, era quem tinha feito a minha preparação e iria me apresentar. Wilmar estava ligado ao partido desde os 14 anos de idade. Foi cooptado pelo jovem comunista e líder estudantil Leo Lynce, quando ainda era estudante secundarista e, junto com uma meia dúzia de outros colegas, integrava uma célula do partido no Lyceu de Goiânia. Mas, quando me levava, ele já participava de outra célula do Partidão – a Célula Universitária, à qual, provavelmente, eu também seria integrada. Eu até tinha escolhido o meu codinome: iria me chamar Luana. Na bolsa de lona usada a tiracolo, trazia um punhado de livretos que ele me havia emprestado, a fim de me preparar para uma “sabatina” a que deveria ser submetida naquela noite. Admitido na Rádio Universitária (RU) por meio de concurso público, aos 19 anos, como noticiarista desde os 17, antes mesmo de se abrir em Goiás a Faculdade de Jornalismo, ele já escrevia para o jornal Tribuna do Oeste. E, além de dirigir a rádio, ele produzia e colocava no ar, no início da noite, antes da Voz do Brasil, um boletim de notícias da UFG; e escrevia crônicas que, quase diariamente, eram lidas ao vivo noutro programa da RU – o Mensagem. Para ludibriar a censura imposta à época pela ditadura militar a todos os veículos de comunicação do país, usava do simbolismo metafórico – assim como também um monte de outros poetas, escritores, compositores e artistas. Falava de questões políticas e sociais como se fossem meros temas do cotidiano. 174


Do tipo poucas conversas, fala baixa, linguagem quase clássica, sem nunca usar gírias e palavrões, no máximo Wilmar se permitia um “supimpa” ou “batuta”, para acompanhar o gesto com o polegar, expressando sua satisfação ou aprovação de alguma coisa. Só se descontraía quando, lendo gibis ou assistindo a um desenho animado na TV, se desdobrava em gargalhadas. Mas, naquele 12 de julho, na fila do RU, eu estava por demais ansiosa para jantar sozinha ou esperar pelo Wilmar lá embaixo. Por isso, decidi subir os dois lances da escada que nos separavam e assistir à transmissão do programa. Minutos depois, um jovem, aparentando 25 anos, alto, bem claro, cabelos curtos, vestindo jaqueta e calça jeans, entreabriu a porta da sala e, colocando a cabeça para dentro, com voz grave e demonstrando intimidade, chamou-o pelo nome e pediu-lhe que chegasse até lá fora, “só um minutinho”. Meu namorado me olhou, piscou o olho, jogou um beijinho e saiu, fechando a porta atrás de si, acompanhando o rapaz. E não retornou tão cedo... No Cepaigo, para onde mais tarde foi conduzido, escreveu o seu único poema: Flores no Quintal As minhas flores, plantadas (vermelhas, preocupadas) Lá no fundo do quintal, Falam de corpo na maca, Marcado de medo e taca, Na terra do carnaval. 175


No ritmo do samba quente, Como um bater de dentes, Elas tremem sem cessar. São flores encabuladas, Sensíveis, indignadas Pelo próprio tremular. Me fazem sentir no lombo A dor primeira do tombo (A rasteira no “porão”) Enquanto a folia, lá fora, Envolve a gente que chora A dura falta do pão. A lembrar que meu recado Por inteiro não foi dado, Faltando o grito fatal, Alertam para o momento De entoar a todo vento Do gentio a voz geral. Na terra da batucada, Do homem da goleada, Querem ver um ir e vir Que o corpo erga da maca E destrua medo e taca E deixe a gente sorrir. Chegará o fim da era Da vida sem primavera, Do lombo ardendo em sal; Virá um tempo diferente Aos olhos de toda a gente... E pras flores no quintal.

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Painel de fotos Fotos de arquivos de alguns grandes jornais e outras de autores desconhecidos

Ao centro, o lendário José Porfírio de Souza, que organizou e dirigiu a luta camponesana contra grileiros e latifundiários na região de Trombas e Formoso. Deputado cassado, é desaparecido político

Presos condenados a mais de 30 anos de reclusão. Da esquerda para a direita, em pé: Francisco Carlos de Andrade, Manoel Cyrillo e Altino Dantas Júnior; sentados: Diógenes Sobrosa de Souza e Ariston Lucena (dois dos quatro brasileiros condenados à pena de morte), Aton Fon Filho, Pinheiro Salles (pena: 54 anos e dois meses de reclusão) e Francisco Gomes da Silva, irmão de Virgílio Gomes da Silva, que morreu na tortura.

A camponesa Dirce Machado da Silva e seu marido José Ribeiro da Silva, companheira e companheiro de José Porfírio nas lutas em Trombas e Formoso

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Presos políticos que cumpriam pena no Presídio da Justiça Militar Federal (Presídio Político de São Paulo). Estão aí pessoas ligadas a Goiás: 1 - Élio Cabral de Souza, 2 - Manoel Porfírio (filho de José Porfírio), 3 - Osvaldo Rocha e 4 - Pinheiro Salles

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Ismael Silva de Jesus, preso no 10º Batalhão de Caçadores (42º BIM), onde morreu na tortura e foi apresentado à imprensa como se tivesse cometido suicídio.

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Tantas eram as provocações, calúnias e infâmias dos órgãos de repressão, que a maioria da população se sentia agredida a cada momento. Entretanto, com poucas alternativas de oposição, considerando os esquemas de dominação, que pouco se fazia para manter o respeito que merece o ser humano. Mas, tudo se tornava pior, ainda, quando se saía do discurso e se enveredava na prática hedionda da tortura

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Em 75, Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista, do PC do B, foram assassinados quando participavam de uma reunião do Comitê Central.

Edson Luiz e Janaína Teles, filho e filha de Amélia e César Teles, em dia de visita ao pai e aos seus companheiros no presídio político de São Paulo. As duas crianças foram torturadas, na frente da mãe e do pai.

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HOMENAGEM AOS MORTOS E DESAPARECIDOS POLÍTICOS Que cada leitor ou leitora guarde na memória e no coração os 15 nomes de brasileiros aqui relacionados. Eles foram mortos ou desaparecidos, entre 1968 e 1979, porque defendiam a democracia e o socialismo, para que tivéssemos uma vida melhor. Não se omitiram diante dos crimes praticados pelos defensores da ditadura militar. Eles são goianos ou tiveram, de alguma forma, sua histórica atuação ligada a Goiás. Com muita honra, transcrevemos seus nomes. Sem dúvida, são heróis que devem ser conhecidos e reconhecidos pelo povo do nosso Estado: • Arno Preis • Cassemiro Luís de Freitas • Divino Ferreira de Souza • Durvalino de Souza • Honestino Monteiro Guimarães • Ismael Silva de Jesus • James Allen Luz • Jeová de Assis • José Porfírio de Souza • Márcio Beck Machado • Marcos Antônio Batista • Maria Augusta Thomaz • Ornalino Cândido • Paulo de Tarso Celestino • Rui Vieira Bebert 183


Este livro foi impresso na oficina da Poligráfica Off-set e Digital: Fone: (62) 3280-2000 - www.poligrafica.com.br A revisão desta obra é de responsabilidade do autor.

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