Casa do Benin na Bahia: projetos, memórias & narrativas

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CASA DO BENIN NA BAHIA

PROJETOS, MEMÓRIAS & NARRATIVAS LUCAS FERES & LUCAS LAGO



CASA DO BENIN NA BAHIA

SALVADOR [ BAHIA ] 2021

PROJETOS, MEMÓRIAS & NARRATIVAS LUCAS FERES & LUCAS LAGO


Título Casa do Benin na Bahia: projetos, memórias e narrativas Autores Lucas Feres e Lucas Lago Coordenação Editorial Lucas Feres, Lucas Lago e Sarah Marques Autores Convidados Marcelo Ferraz e Rogério Felix Pinturas Isabela Seifarth Revisão Lucas Feres, Lucas Lago e Sarah Marques Tradução Jamie D. I. Duncan and Alexander T. Reddaway Projeto Gráfico e Diagramação Ana Luísa Oliveira e Igor Queiroz Editora Pinaúna Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD C334

Casa do Benin na Bahia [recurso eletrônico] : Projetos, Memórias e Narrativas / Lucas Feres, Lucas Lago ...[et al.]. - Salvador : Pinaúna, 2021. 268 p. : PDF; . Inclui índice. ISBN: 978-65-86319-27-9 (Ebook) 1. Cultura. 2. Cultura negra. 3. Arte. 4. Acervo. 5. Benin. 6. Bahia. 7. Museu. 8. África. 9. Brasil. I. Feres, Lucas. II. Lago, Lucas. III. Ferraz, Marcelo. IV. Felix, Rogério. V. Título. CDD 708 CDU 069

2021-1426 Índice para catálogo sistemático: 1. Arte : Museu 708 2. Arte : Museu 069

Projeto contemplado pelo prêmio Jaime Sodré de Patrimônio Cultural, da Fundação Gregório de Mattos, Prefeitura de Salvador, por meio da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, com recursos oriundos da Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Governo Federal. Realização


à Editora Corrupio


MEMÓRIAS SITUADAS

A CASA DO BENIN NA BAHIA


O projeto Memória situadas: a Casa do Benin na Bahia propõe investigar e colocar em movimento os atravessamentos históricos, técnicos e políticos que constituem o complexo cultural da Casa do Benin na Bahia. A Casa do Benin, desde sua idealização, conjuga diversos aspectos que documentam um conglomerado de ideias e projetos que se articularam no campo de pensamento baiano dos anos 80, relacionados a certas concepções ‘modernistas’ brasileiras e baianas. Sua criação, no contexto do projeto Bahia-Benin, resulta de tentativas de reaproximação política e cultural da cidade de Salvador com o continente africano, em confluência a tentativas de desenvolvimento de um plano de intervenção urbanística para o Centro Histórico de Salvador. O projeto Memórias Situadas propõe pensar museus, arquiteturas, espaços, cidades e territórios a partir dos trânsitos que os constituem, buscando trabalhar com a inflexão da memória em situação – a memória como ação do presente e na presença. Assim, é a partir do ser-em-situação, do corpo-a-corpo com os espaços de investigação e intervenção, e os seus respectivos contextos, que buscamos colocar os mais diversos elementos em

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relação. No exercício imaginativo que é a produção de memórias com os trapos da história, o projeto Memórias Situadas percebe os vazios em sua potência de fazer ecoar no presente tempos espiralares, vozes, gestos, ideias, lugares, objetos, projetos e narrativas. Assim, tomamos a Casa do Benin como território de investigação e intervenção, buscando montar narrativas a partir tanto dos vestígios encontrados nos arquivos e documentos sobre a sua conformação, quanto a partir da investigação do seu espaço, dos seus usos cotidianos e das memórias do próprio lugar, sempre na tentativa de ativar no presente as potências e latências capazes de fazer mundos. Nesse sentido, essa publicação reúne textos, arquivos (documentos, jornais, fotografias) e imagens do acervo, da arquitetura e do mobiliário da Casa do Benin para revisitar a experiência resultante da confluência de múltiplas forças aglutinadas em torno dos esforços iniciais de Arlete Soares, Lina Bo Bardi e Pierre Verger. Conta também com dois textos-interlocuções com autoria de Rogério Felix e Marcelo Ferraz. O primeiro apresenta um outro olhar sobre as concepções museais e expográficas relacionadas ao acervo da Casa do Benin, enquanto o segundo apresenta um relato dos ocorridos e experiências em torno da criação da mesma entre 1986 e 1988. A partir desse material buscamos pôr em contato discursos e narrativas sobre a Casa do Benin que, por diversos motivos, encontram-se compartimentalizados (ou ausentes) em campos disciplinares distintos e, em muitos casos, com circulações que mantém certo distanciamento dos atravessamentos que constituíram a Casa nos últimos 30 anos.

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A Casa do Benin na Bahia se configura como o registro de diversos projetos descontinuados que tiveram no momento de sua criação em 1988 um certo fôlego que nos possibilita vê-los do presente, ainda que de relance. Assim, buscamos rastrear onde essas memórias de futuro estão, visto que foram lançadas do passado como um feixe de luz sobre nós. Além disso, o


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cruzamento das narrativas sobre o acervo e arquitetura da Casa do Benin nos revela diversas nuances e discursos que, de algum modo, permanecem como tensões até os dias de hoje. Com esta publicação, buscamos colocar esses tempos em contato através de composições e montagens, não a partir de um exercício teórico ou analítico. Propomos, a partir da reunião de diversos fragmentos, criar um percurso, compor uma paisagem que possa fazer comunicarem entre si as memórias situadas na/ da Casa do Benin na Bahia. Esse pesquisa teve início no ano de 2019, quando o projeto Fluxos: acervos do Atlântico Sul propôs a realização de uma série de investigações artísticas relacionadas aos acervos da Casa do Benin e do MAFRO-UFBA. Nesse sentido, agradecemos ao Intervalo Fórum de Arte pelo estabelecimento de espaço-tempo de reflexões coletivas e encontros, como foi o projeto Fluxos e a exposição Nkaringana, organizados por Ines Linke, Lia Krucken e Uriel Bezerra. Dedicamos esta publicação à Editora Corrupio, iniciativa pioneira criada por Arlete Soares e Rina Angulo em um contexto próximo ao da Casa do Benin, responsável, desde de sua fundação, por colocar muitas dessas memórias e ideias em movimento.

[1] Lucas Feres é artista e pesquisador, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Bahia (PPGAV/UFBA), bolsista FAPESB. [2] Lucas Lago é artista e pesquisador, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal da Bahia (PPGAV/UFBA), bolsista CAPES. [3] Sarah Marques é artista e pesquisadora, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (PPGAC/UFBA), bolsista FAPESB.

Lucas Feres [1] Lucas Lago [2] Sarah Marques [3] Salvador, março de 2021

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MEMÓRIAS SITUADAS a casa do benin na bahia

A Casa do Benin é um equipamento cultural da Prefeitura Municipal do Salvador, administrado pela Fundação Gregório

de Mattos, pensado e projetado para realizar, promover, divulgar e apoiar os artistas que têm como inspiração a arte de matriz

africana. Desse modo, o espaço contribui de maneira significativa com o reconhecimento e valorização dessa arte, além de incentivar os artistas que nela investem e se inspiram.

A construção da casa foi resultado de uma parceria entre a Prefei-

tura de Salvador, capitaneada pelo então prefeito Mário Kertész, e o Benin, país de onde foram retirados, de forma violenta, a

maioria dos negros escravizados que povoaram o Recôncavo

Baiano no século XVIII. Foi também a realização de um sonho

do etnólogo e sociólogo francês radicado na Bahia Pierre Verger, apaixonado por desvendar as semelhanças entre os países sepa-

rados pelo Oceano Atlântico. E, dentro da ideia de construir um espaço de intercâmbio entre baianos e beninenses dos dois lados: aqui, a Casa do Benin na Bahia; lá, a Casa do Brasil no Benin. Aqui em Salvador, a Casa nasceu por meio do projeto

da arquiteta italiana, naturalizada brasileira, Lina Bo Bardi. Atualmente, dispõe do Espaço Museal Pierre Verger, onde estão

expostas as peças do acervo permanente com obras beninenses, trazidas e doadas por Pierre Verger, da sua coleção pessoal; a Sala de Exposição Lina Bo Bardi, que recebe mostras temporárias; o Auditório Gilberto Gil, local de realização de eventos

e oficinas de pequeno porte voltadas para a comunidade; e o Espaço Gourmet Jeje Nagô, com arquitetura inspirada no estilo

de restaurantes antigos das comunidades rurais beninenses, onde

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acontecem diversos eventos, principalmente voltados para a cultura gastronômica afro-baiana. Para a FGM, é de extrema importância contemplar propostas de valorização ao patrimônio histórico-cultural, em especial este trabalho de Lucas Lago e Lucas Feres, que é muito consistente, elaborado com muito cuidado e que faz jus à importância da Casa do Benin para Salvador. Fernando Guerreiro Presidente da Fundação Gregório de Mattos Chicco Assis Gerente de Equipamentos Culturais da Fundação Gregório de Mattos

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“[...] a história da mobilidade mundial é também uma história de inclusões e exclusões, fronteiras e limites – geográficos, sociais, económicos e culturais. Ultrapassar os conflitos que daí podem emergir e abrir o mundo que compartilhamos exige práticas e reflexões arrojadas.” [1] “A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de 'agoras'.” [2]

É com grande satisfação que aceitamos o convite para apresentar essa publicação. Aproveitamos este espaço para refletir sobre a ideia de tempo da memória, das histórias dos objetos, mas também para lembrar dos encontros no contexto do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFBA e do projeto “Fluxos - Acervos do Atlântico Sul”, que possibilitaram reunir o grupo de autores deste livro: Lucas Feres e Lucas Lago que conhecemos como amigos, colegas e discentes do Mestrado em Artes Visuais, Sarah Marques no contexto das atividades presenciais da exposição “Nkaringana'', Rogério Félix e Isabela Seifarth ao longo do desenvolvimento de trabalhos de pesquisa e projetos ligados à UFBA. A construção da parceria com a Casa de Benin e os diálogos com Arlete Soares, a Fundação Pierre Verger e o CEAO - que perpassam este livro e apresentam o seu acervo, submetendo-o a um trabalho investigativo e crítico - conecta diversas histórias da memória e do esquecimento. Assim, olhando para a rede que se forma em torno deste livro, pensamos numa partilha de singularidades e na ética do encontro. [3]

[1] Achille Mbembe, Políticas da inimizade, Lisboa, Antígona, 2017. p. 243. [2] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1994.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [3] Achille Mbembe, Sair da grande noite: Ensaio sobre a África descolonizada, Petrópolis, Vozes, 2019. p. 119.

Percebemos a responsabilidade de apresentar tal livro neste momento político porque reflete a importância dos vínculos construídos num passado recente e afirma o papel da universidade pública que, além de suas atribuições quanto à formação específica dos sujeitos, é lugar de promover encontros, criar redes colaborativas e mobilizar as mais diversas ações que extrapolam a academia. Para situar esses encontros, retornemos ao ano de 2017. A partir de inquietações que surgiram em meio à aulas da pós-graduação, além de debates e eventos ocorridos no campo cultural de Salvador, foi idealizada uma plataforma em parceria com diferentes instituições, na qual pudéssemos compartilhar publicamente experiências, rever temas prioritários, reavaliar o passado, assim como discutir perspectivas futuras relacionadas ao campo das artes em Salvador. Criamos uma plataforma, o Intervalo Fórum de Arte que promoveu pesquisas, entrevistas, ciclos de debates e encontros periódicos com interlocutores das mais diversas áreas de conhecimento, incluindo os residentes do programa Vila Sul, do Goethe-Institut Salvador-Bahia. Assim se iniciou a construção de um espaço, uma rede formada por pessoas (pesquisadores, artistas, produtores, gestores, funcionários e, educadores, convidados, públicos) com seus interesses e vontades.

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Em 2019, o fórum voltou-se às questões relacionadas a acervos de matriz africana/afro-brasileira. Nos aproximamos, especialmente, de dois espaços museológicos: o Museu Afro-brasileiro da Universidade Federal da Bahia e a Casa do Benin. Ambos ligados aos trabalhos e trânsitos de Pierre Verger, realizados entre a Bahia e a África Ocidental. Com o projeto Fluxos: acervos do Atlântico Sul - que compreendeu oficinas, seminários e processos artísticos que resultaram em uma exposição em diálogo com os acervos e uma publicação - pensamos olhar para os trânsitos, fluxos e mobilidades produzidas entre os países do Atlântico Sul que perpassam os acervos e exibições do Museu Afro-brasileiro da Universidade Federal da Bahia e da Casa do Benin; também


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pensamos em estimular a construção de “agoras” que ativassem a memória e participassem com as discussões do presente. As diversas atividades produziram olhares sobre os espaços e, mais especificamente, na Casa do Benin conduzimos reflexões sobre a idealização do espaço, a reforma do prédio e o patrimônio cultural do centro histórico de Salvador, a formação do acervo, as transformações e atualizações, os dispositivos expositivos, e a relação entre o Centro Cultural e seu entorno. Os olhares foram se deslocando por diversos elementos ligados à história do conjunto e às histórias de peças específicas. Nos encontros com as obras, foram ativadas histórias, buscadas memórias assim como criadas novas lembranças. A discussão sobre os objetos se mostrou um campo fértil para retomar os fluxos, repensar os fatores que contribuíram com este espaço singular e os elementos que compõem a história da Casa do Benin (presentes na exposição Nkaringana - objetos e histórias em trânsito e na publicação homônima). Ficamos felizes em perceber que os fluxos de Verger e os movimentos criados pelas pessoas envolvidas no projeto Fluxos: acervos do Atlântico Sul continuam vibrantes na presente publicação. A Casa do Benin se torna plataforma de pesquisa e território de investigação, de busca de sentidos e significados. Criam-se histórias, não para esgotar todas as possibilidades ou preencher todos os vazios de uma sequência cronológica, mas para situar nossas memórias desenhando relações e tecendo histórias a partir do momento presente (Lei Aldir Blanc) com as questões e a partir das necessidades que perpassam nosso tempo. Desta forma, este livro participa da construção de uma história “repleta de atualidade” por meio dos materiais produzidos, dos documentos reunidos, das pesquisas realizadas antes e durante a organização do livro, como também das lacunas e esquecimentos que marcam a história da Casa do Benin. O centro cultural não é apresentado como um ‘projeto concluído’ e sim como um lugar que se constrói nas relações entre países, lugares,

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pessoas e objetos, por meio de fragmentos que nos convidam para iniciar uma viagem pelas partes do livro. Nos colocamos em movimento para renovar nossa ligação com o passado, reavaliar nossas compreensões do presente e construir projeções para o futuro. As imagens dos objetos ausentes, as lembranças das descontinuidades, das perdas da memória de grande parte dos objetos atestam os desafios colocados para os gestores dos espaços e instituições, para os pesquisadores, mas também para a responsabilidade dos usuários em ativar os espaços culturais reconhecendo seu próprio papel nos processos da memória e nas estratégias do esquecimento. Também evidenciamos a importância da publicação dentro do contexto local, como um esforço para continuar as colaborações e diálogos, experiências, compartilhamentos, trocas e aprendizagens como estratégia de sobrevivência em um tempo marcado pelo descaso, a amnésia coletiva, o abandono, a ruína e a morte. Que as crises e os desafios tragam espaço para novos encontros, novos arranjos e formas de cuidar e de valorizar nosso patrimônio cultural, nossas singularidades, nossas diversidades, e contar histórias ainda não contadas. Que sigamos buscando formas de resistência poética, política e ética. Esperamos que esta publicação estimule fluxos futuros, propagando e continuando os efeitos e configurando sentidos. Intervalo Fórum de Arte Ines Linke Lia Krucken Uriel Bezerra

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MEMÓRIAS SITUADAS a casa do benin na bahia

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ESCALAS DE LEOPARDOS, TRANÇAS E SERPENTES PELO ATLÂNTICO NEGRO ROGÉRIO FELIX [ 56 ]

[ 20 ]

O PARQUE HISTÓRICO DO PELOURINHO [ 91 ] O PÁTIO [ 100 ] O RESTAURANTE DO BENIN [ 115 ] AS RESIDÊNCIAS BENINENSES [ 124 ] O MOBILIÁRIO [ 132 ]

A CASA DO BENIN COMO CANTEIRO DE OBRAS MARCELO FERRAZ [ 157 ]

CONSTRUÇÕES

FLUXOS

[ 43 ] MAISON DU BRÉSIL

ARQUITETURAS, PAISAGENS & INTERVENÇÕES

DIÁLOGOS & MOVIMENTOS TRANSATLÂNTICOS [ 29 ] PROJETO BAHIA-BENIN

[ 72 ]


HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DOS OBJETOS [ 210 ]

OBJETOS

ACERVO EM TRANSFORMAÇÃO [ 188 ]

EXPOGRAFIA, ACERVO & TRANSFORMAÇÕES

A EXPOSIÇÃO INAUGURAL [ 184 ]

[ 176 ]

LISTA DE IMAGENS [ 261 ] REFERÊNCIAS [ 265 ] MEMÓRIAS SITUADAS [ 267 ]


TRANSITS ACROSS THE BLACK ATLANTIC FOR LEOPARDS, BRAIDS AND SNAKES ROGÉRIO FELIX [ 65 ]

[ 50 ]

PELOURINHO HISTORIC PARK [ 147 ] THE PATIO [ 149 ] BENIN RESTAURANT [ 150 ] RESIDENCES FOR VISITORS FROM BENIN [ 152 ] THE FURNITURE [ 153 ]

CASA DO BENIN AS CONSTRUCTION SITE MARCELO FERRAZ [ 168 ]

CONSTRUCTIONS

FLOWS

[ 53 ] MAISON DU BRÉSIL

ARCHITECTURES, LANDSCAPES AND INTERVENTIONS

TRANSATLANTIC DIALOGUES AND MOVEMENTS [ 51 ] THE BAHIA-BENIN PROJECT

[ 145 ]


HISTORIES AND MEMORIES OF OBJECTS [ 255 ]

OBJECTS

COLLECTION IN TRANSFORMATION [ 254 ]

EXPOGRAPHY, COLLECTION AND TRANSFORMATIONS

THE INAUGURAL EXHIBITION [ 253 ]

[ 253]

IMAGE LIST [ 261 ] REFERENCES [ 265 ] SITUATED MEMORIES [ 267 ]


FLUXOS

DIÁLOGOS & MOVIMENTOS TRANSATLÂNTICOS


“A Casa do Benin é a documentação realizada do “Fluxo e

Refluxo”, o livro fundamental de Pierre Verger sobre o não tão longínquo episódio África-Brasil”, assim no ano de 1988 Lina Bo Bardi apresentava em documentos e reportagens a Casa do

Benin na Bahia, espaço cultural então recém inaugurado no centro histórico da cidade de Salvador, em uma encruzilhada que

conecta o Largo do Pelourinho à Baixa dos Sapateiros, bairro do Comércio e Santo Antônio Além do Carmo.

Fruto de um projeto de parcerias comerciais e culturais entre o governo do Benin e a prefeitura de Salvador, a Casa do Benin

na Bahia era também a retomada de um antigo projeto desenvolvido na década de 60 por Lina Bo Bardi e Pierre Verger e consistia em um projeto piloto de um novo plano municipal de

restauração do centro histórico de Salvador, idealizado em 1986. No final dos anos 80 o cenário político e cultural em Salvador

era efervescente. O país estava em pleno processo de redemo-

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [1] O termo reafricanização refere-se a um movimento social atribuído à juventude negra e negromestiça da cidade de Salvador expresso pela afirmação da negritude e suas origens africanas, sendo localizado no início da década de 70, em especial após a criação do bloco afro Ilê Aiyê em 1974.

cratização, as discussões a respeito da nova constituição estabeleciam um cenário favorável à prospecção de outros futuros. Em continuidade ao cenário de ‘reafricanização’ [1] marcado por disputas sociais e culturais emergentes na cidade de Salvador na década de 70, blocos afro como Olodum, Ilê Aiyê, Malê Debalê ocupavam as ruas do centro histórico com canções e mensagens de protesto e resistência. Cada vez mais o candomblé e as manifestações culturais afro-brasileira tinham maior reconhecimento nacional e internacional. Em 1959 havia sido criado o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), órgão da Universidade Federal da Bahia destinado ao desenvolvimento de estudos afro-brasileiros e ações afirmativas. A partir da atuação do CEAO, concebeu-se em 1974 o Museu Afro Brasileiro da UFBA, que só seria inaugurado em 82. O Movimento Negro Unificado havia sido criado em 78, fortalecendo disputas sociais associadas à negritude e a afirmação das contribuições culturais oriundas do continente africano para a constituição brasileira. Em 1985 o conjunto arquitetônico e urbanístico do centro histórico de Salvador havia sido tombado pela UNESCO como Patrimônio Mundial. Foi nesse contexto que Arlete Soares, então diretora da Fundação Gregório de Mattos - órgão destinado à gestão cultural da prefeitura de Salvador - articulou o desenvolvimento do Projeto Bahia-Benin, incluindo em seu escopo a criação da Casa do Benin na Bahia. Arlete, para além do referido cargo que ocupava na gestão municipal, também havia criado em 78 a Editora Corrupio, dedicada à difusão e publicação da obra do fotógrafo e etnólogo Pierre Verger relacionada à diáspora africana.

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Na ocasião da criação da Casa do Benin, a presidência da Fundação Gregório de Mattos havia sido assumida por Gilberto Gil, um dos responsáveis pela articulação de múltiplas ideias relacionadas às políticas culturais que, anos mais tarde, seriam


FLUXOS diálogos e movimentos transatlânticos

desenvolvidas a nível nacional - quando ocupou o cargo de Ministro da Cultura entre 2003 e 2008. O surgimento da Casa do Benin na Bahia se deu, portanto, a partir da convergência de forças e projetos diversos, aglutinando ideias, interesses e disputas que buscavam difundir determinados ideários políticos e fortalecer as conexões entre as duas margens do Atlântico. Assim, propunha novos caminhos para os fluxos e refluxos entre a costa africana e a Bahia, estabelecidos a partir do violento processo de escravização entre os séculos 16 e 19, para disputar e produzir novos sentidos no presente.

[ Documento 1 ] O Projeto Exposição África/Brasil depois viria a se transformar nas exposições realizadas pelo projeto Bahia/Benim: África Negra (MASP) e Exposição Bahia-Benin (Casa do Benin). O documento (páginas seguintes) contém algumas das ideias iniciais sobre as concepções e funcionamentos idealizados para a Casa do Benin na Bahia, desde questões técnicas e expográficas até questões relacionadas à programação, função e usos dos espaços.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

PROJETO EXPOSIÇÃO BRASIL/ÁFRICA O NEGRO NO BRASIL / O NEGRO NA AFRICA

Apresentar ao público o mais amplo quadro possível das influências entre a África e o Brasil. - Artes Plásticas - Teatro - Cinema - Dança - Música - Religião - Culinária - Artesanato - Literatura - Linguagem - etc... Através de mostras interativas, exposição de documentos, fotos, objetos, até mesmo da montagem de espaços representativos do ambiente afro brasileiro. Uma visão do Brasil como Afro América e não como Latino-America. Para poder arregimentar o maior painel possível, é preciso contar na sua produção com a colaboração de entidades ligadas ao tema, nas diversas regiões do país e, inclusive, na África, Europa e Estados Unidos. É o caso, a título de exemplo, da Fundação Joaquim Nabuco (Recife), do Centro de Estudos Africanos (USP), do Museu Afro Brasieliro (Bahia), do Musée de L’Homme (Paris), do Museu de Uidá (Benim), da Fundação Gulbankian (Portugal), entre tantos outros. As atividades propostas para projeto seriam, resumidamente, as seguintes:

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1°) - Mostra propriamente dita, divididas em duas secções, sobre o Brasil na Africa e a África no Brasil. Constará de obras de arte africanas, sua influência na pintura, escultura, na própria concepção de cerâmica de artistas brasileiros e estrangeiros. A obra de artistas mestiços, da época colonial, como Aleijadinho e o Cabra. Ampliações em grandes formatos de documentos e mapas da época colonial. A sociedade escravocrata vista pelos olhos de Rugendas, Debret e pelas descrições de viajantes, jornalistas da época, etc.... A influência dos escravos libertos que voltaram à África, convertidos ao catolicismo e implantados modos “abrasileirados” em suas cidades de origem. A festa do senhor do Bonfim no Benim, os sobrados inspirados naqueles em que moravam os antigos senhores de engenho. O Bumba-Meu-Boi, a festa de Cosme e Damião, o candomblé. 2°) - Apresentação de filmes e vídeos sobre o tema, ou influenciados por ele. Assim, seriam desde obras de Glauber Rocha, até documentários sobre o Brasil, o Benim e a Nigéria. Nesse ponto, um esclarecimento: Já estão prontos, aguardando apenas complementação com filmagens da região do Golfo do Benim, cerca de dez horas de gravação em VI profissional de alta qualidade (Com direção de Pierre Verger e direção de fotografia de José Guerra) abordando a Bahia e a cultura negra. Para as gravações complementares na África já existem contatos oficiais com o governo do Benin, que concederá facilidades de transporte interno para a equipe técnica, etc. Com este material, poderemos mostrar ao público brasileiro, com todo o vigor do meio televisivo, as influências recíprocas dos dois lados do Atlântico.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

O Projeto pode beneficiar-se, inclusive, da existência de um acordo político-cultural unindo a Bahia e o Benim recentemente firmado pela Prefeitura de Salvador e o governo do Benim. Para a exibição dos filmes, vídeos e também de discos e gravações de músicas africanas e brasileiras, seriam montadas stands separados acusticamente, acessíveis a grupos ou individualmente, com exibições de sessões contínuas ou em horários marcados. Entre o material disponível, constam gravações de músicas rituais colhidas na década de 50, arquivadas no Musée de L’Homme. 3°) - Eventos complementares calcados em obras literárias consagradas, versando sobre o negro e sua influência no Brasil: A obra de Gilberto Freyre, semana o quizena de culinária baseada nos pratos descritos por Freire. O equivalente para a obra de Jorge Amado. Os filmes baseados na sua obra, exibições de capoeira em cima da história de capitães da areia, enfim, desdobramentos de Jorje Amado, no que ela se refere ao Negro. Eventualmente podem ser programados eventos similares, baseado na obra de outros autores nacionais e mesmo estrangeiros. 4°) - Exibição de grupos de dança africanas, assim como de artesãos, ceramistas, escultura em ferro e madeira, trabalhos em palha etc. A ideia é mostrar as obras e seus autores envolvendo ainda o público em aulas abertas, para ensinar danças, luta, técnicas de artesanato e até mesmo culinária, medicina a base de ervas, etc…

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FLUXOS diálogos e movimentos transatlânticos

5°) - Palestras e debates sobre os diversos aspectos do tema da cultura negra no Brasil, com a participação de pesquisadores, estudiosos e professores. Um elenco de personalidades de diversas áreas, da cultura à política, passando pelas artes, história, etc… 6°) - Este vasto painel pode dar origem a um livro recebendo tratamento editorial e gráfico de qualidade. O mesmo tratamento deverá ser dado ao catálogo-revista. ***

DETALHAMENTO O evento, em Salvador como em São Paulo, terá atividades nas seguintes áreas: ARTES PLÁSTICAS - Fotos (painéis de mapas, documentos e gravuras em tamanho 3X1, 5m; e fotos da África e do Brasil, em tamanhos de 1 x 1m); Esculturas (peças de museus e coleções particulares, especialmente Bronze, peças de barro e madeira, incluindo objetos religiosos); Pintura (telas e pinturas em panos, murais etc, enfocando diretamente temas afro-brasileiros ou que tenham sofrido influência da arte africana); Artesanato (trabalhos de bronze por moldes de cera perdida, panos tingidos ou recortados, madeira entalhada, cerâmica e palha ou bambu trançados, para exposição com os respectivos artesãos para oficinas abertas ao público em esquema de exibição e aulas das técnicas). CINEMA E VIDEO - Mostra de filmes (obras de autores brasileiros e estrangeiros, sobre o negro, a escravidão etc.) Vídeo (obras sobre a influência

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negra no Brasil, especialmente através da Bahia e um vídeo de longa metragem apresentando o refluxo, ou seja, a influência brasileira na África, pela via dos africanos que retornaram após a abolição). MÚSICA - Audições (gravações de músicas e ritmos religiosos africanos, em poder do Musée de L’Homme, em stands isolados acusticamente para indivíduos ou grupos); Apresentações (músicos contemporâneos que sofrem influência african, especialmente percussionistas brasileiros e grupos africanos); Oficinas (apresentação de músicos africanos em contato com o púbico para ensinar as técnicas musicais e também a fabricação de instrumentos). CULINÁRIA - Livros (exposição de obras raras e publicações, documentos de época, venda de livros ligado ao tema); Debates palestras (ciclio de encontros, em auditório, com autores, pesquisadores da história do negro no Brasil, antropologia, religião etc) TEATRO E DANÇA - Teatro (apresentação de grupos e atores nacionais); Dança (apresentação de grupos folclóricos africanos e brasileiros, assim como oficina e apresentação de dança afro e ritmos baianos, como ijexá, afoxé, capoeira etc). PUBLICAÇÕES DA EXPOSIÇÃO - Catálogos, folhetos, livros de arte, cartaz oficial (material para divulgação interna e externa da mostra, assim como obras para distribuição a leitores indicados pelos patrocinadores).

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Projeto Bahia-Benin De caráter binacional, o Projeto Bahia-Benin estabelecia a aproximação e o intercâmbio entre a cidade de Salvador e a República do Benin. No decorrer do projeto ocorreram três viagens de comitivas de Salvador para o Benin entre 87 e 88 e a vinda de comitivas beninenses em missão cultural no ano de 87 e na ocasião da inauguração da Casa do Benin, em 88. Teve como desdobramento o firmamento de protocolos de acordo comercial e cultural, declarando as cidades de Salvador (BR) e Cotonou (BEN) como cidades oficialmente irmãs. O projeto previa a construção de casas de cultura nos respectivos países, assim como o estabelecimento de um programa de intercâmbio acadêmico, artístico e cultural.

[2] A realização da Exposição África/ Brasil chegou a ser negociada com o SESC Pompéia no início da década de 80, entretanto a exposição não chegou a ser realizada.

Foi nesse contexto que o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger e a arquiteta Lina Bo Bardi foram convidados para participar do Projeto Bahia/Benin, retomando o projeto de uma exposição concebida nos anos 60, intitulada África-Bahia, quando Lina era diretora do Museu de Arte Popular (Solar do Unhão). Como uma das quatro exposições que comporia o Programa Civilização Brasileira, esta exposição seria realizada conjuntamente por Bo Bardi e Verger a partir da pesquisa acerca dos fluxo e refluxos da diáspora africana e da cultura baiana, estudados por Verger, e do programa de exposições desenvolvido por Bo Bardi para refletir acerca das matrizes culturais que constituiriam uma cultura popular brasileira. Apenas a primeira das quatro exposições foi realizada e o Programa Civilização Brasileira foi interrompido quando em 1964, após o Golpe Militar, o museu foi fechado. Foi no contexto do projeto Bahia/Benin que muitas das ideias contidas nesse projeto de exposição foram retomadas, em grande parte como resultado da articulação realizada por Arlete Soares. Algumas das concepções do projeto da exposição não realizada nos anos 60 [2] foram aplicadas tanto nas concepções em torno da criação da Casa do Benin na Bahia quanto na exposição realizada no MASP na mesma ocasião, a África Negra.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [3] A vinda das peças do Museu do Homem para a Casa do Benin em Salvador não foi autorizada pelo museu francês, sendo permitida apenas sua exibição no MASP. [4] Segundo reportagem publicada pela revista Veja em 88, “os eventos de África Negra inclui ainda intervenções constantes de seis artistas do Benim, entre os auditórios e mezaninos, podendo até estender-se ao vão livre da Paulista e às rampas de acesso à avenida 9 de julho. Entre os artistas convidados estão Wilson Sueles Sewoa, Cassou Sean, Kandji Codjolude e Codja Comi Innocent (Balé Popular do Benin, Egblemavhou)”.

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A exposição África Negra foi realizada no Museu de Arte de São Paulo (MASP), sendo inaugurada no dia 12 de maio de 1988. Contou com peças de arte africana oriundas do Museu do Homem de Paris e do Museu de Artes Africanas e Oceânica, apresentadas pela primeira vez no Brasil [3]. Também compuseram a exposição peças africanas de coleções particulares, fotografias de Pierre Verger, programação com exibições de filmes e documentários e apresentações de dança do Balé Popular do Benin (Egblemavikou) [4]. Já em Salvador, foi inaugurada no dia 06 de maio de 88 a Casa do Benin, como um espaço cultural permanente, destinado a promover um constante intercâmbio entre a cidade de Salvador e a cultura beninense. Para a inauguração da Casa foi organizada por Lina Bo Bardi, Pierre Verger e Arlete Soares a exposição Bahia-Benin, uma mostra de artesanato beninense, a partir de empréstimos e de peças que passariam a constituir o acervo permanente da Casa, adquiridas nos mercados populares do Benin em uma das viagens realizadas. Também foi organizada, para a inauguração da Casa, uma exposição temporária no primeiro andar apresentando fotografias de Pierre Verger, fortalecendo a relação de paralelismo entre a mostra apresentada na inauguração da Casa do Benin e a exposição África Negra apresentada no MASP. O projeto do espaço cultural ainda previa a existência de um restaurante de comidas afro-brasileiras, que foi inaugurado em novembro do mesmo ano, a residência permanente de um representante diplomático do Benin e um projeto de intercâmbio acadêmico e cultural que receberia estudantes beninenses para o desenvolvimento de projetos e pesquisas.


FLUXOS diálogos e movimentos transatlânticos [ Imagem 1 ] Em janeiro de 1987 ocorreu a segunda viagem do Projeto Bahia/Benin. As fotografias de Arlete Soares, que compõem o acervo da Casa do Benin, registram momentos da comitiva oficial da prefeitura de Salvador no Benin. Participaram dessa comitiva, entre outras pessoas, o prefeito Mário Kertész e sua esposa Silvania Rocha, Pierre Verger, Gilberto Gil, Arlete Soares, João Jorge Rodrigues, Roberto Dias, Mãe Stella de Oxóssi, Mãe Hilda Jitolu, Obaràyí Balbino Daniel de Paula, Pai Moacyr de Ogum, Carybé, Vivaldo Costa Lima, Vovô do Ilê, Arany Santana, secretários, vereadores e vereadoras da cidade de Salvador. [ Imagens 2 e 2.1 ] Acordo entre as cidades de Salvador e Cotonou assinado em 17 de junho de 1986, em Salvador, pelo prefeito Mário Kertész e, da parte do governo do Benin, pelo Ministro do Comércio, Artesanato e Turismo Soulé Dankoro. O documento já previa a posterior assinatura de um acordo definitivo na ocasião da viagem do prefeito de Salvador ao Benin e manifestava o mútuo interesse na realização de atividades de intercâmbio que englobassem ações ligadas à gastronomia, apresentações culturais, futebol, música, artesanato, fotografia e programas de rádio e televisão. O acordo também estabelecia que a prefeitura de Salvador ofereceria ao governo do Benin uma casa no centro histórico para a instalação da Casa do Benin e este ofereceria a aquele uma casa de arquitetura brasileira na cidade de Ouidah para a instalação da Casa de Salvador da Bahia.

IMAGENS

[ Imagens 3 e 3.1 ] Em um gesto simbólico, uma chave em bronze da cidade de Cotonou foi entregue ao prefeito de Salvador. Posteriormente essa peça foi incorporada ao acervo da Casa do Benin. [ Imagem 4 ] A comitiva de Salvador foi recebida no Benin com eventos oficiais e atos em praças públicas que reuniram um grande número de beninenses. A fotografia de Arlete Soares mostra crianças que recebiam a comitiva de Salvador segurando bandeiras do Brasil e da República Popular do Benin, estado socialista de orientação leninista-marxista que vigorou no país entre 1975 e 1990. [ Imagens 5 e 6 ] O mapa e as fronteiras políticas e geográficas do Benin são retratadas em algumas peças que compõem o acervo da Casa do Benin, como é o caso dessa peça em bronze e da bandeira ideográfica. Ao norte, o país africano faz fronteira com o Rio Níger e ao sul com o Oceano Atlântico.

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FLUXOS diálogos e movimentos transatlânticos

Maison du Brésil A construção da Casa do Benin na cidade de Salvador e da Casa do Brasil em Ouidah tinha como objetivo principal o estabelecimento de intercâmbios constantes. As Casas receberiam estudantes e pesquisadores e seriam administradas por representantes oficiais dos respectivos governos, cabendo à prefeitura de Salvador a administração da casa em Ouidah e ao governo do Benin a administração da casa em Salvador. O projeto arquitetônico para a Casa do Brasil em Ouidah chegou a ser desenhado por Lina Bo Bardi e estabelecia uma correspondência com o projeto arquitetônico da Casa do Benin na Bahia, sobretudo no que diz respeitos às áreas externas, ao projeto dos restaurantes, às partes dos edifícios restaurados posteriormente e à presença de coqueiros e fontes de água nos pátios. Entretanto, a ida da arquiteta e a implementação deste projeto não aconteceu e a restauração do casarão que atualmente sedia a Casa do Brasil em Ouidah aconteceu de outra forma. A obra de recuperação do casarão colonial francês designado para abrigar a Casa do Brasil foi finalizada em 1992, o andar superior foi convertido em dois apartamentos e o teto passou a ser uma laje de concreto, ao invés de simples forro. O edifício anexo projetado por Bo Bardi para abrigar um restaurante não chegou a ser construído. Após o ano de 1988, mudanças na conjuntura política de Salvador e do Benin provocaram descontinuidades na execução do Projeto Bahia/Benin e na administração das Casas do Benin e do Brasil. No ano de 1989 o foco da nova gestão municipal de Salvador passou a priorizar a exploração turística da Casa do Benin e seu restaurante, em detrimento de um intercâmbio cultural efetivo com o país africano. A exposição com fotografias de Pierre Verger que se encontrava exposta no primeiro andar desde a abertura da Casa foi desmontada e as mudanças de direcionamento na condução do funcionamento e programação da Casa levaram Arlete Soares a se retirar do projeto.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

Em 1989 o cenário político no Benin também passou por significativas transformações. Neste ano o estado stanilista de partido único, vigente desde 75, foi formalmente encerrado quando o presidente Kérékou permitiu que outros partidos políticos concorressem à eleição, resultando em sua saída do poder em 1991, quando houve um processo formal de democratização e restauração de um mercado capitalista no país. Nos anos conseguintes existiram diversas iniciativas para que os representantes do Brasil e do Benin fossem enviados para assumirem a administração das respectivas casas, como havia sido previsto inicialmente na concepção do projeto. No ano de 92 há uma tentativa de negociação da ida do casal de antropólogos brasileiros Sérgio e Mundicarmo Ferretti, vinculados à Universidade do Maranhão, para residirem na Casa do Brasil em Ouidah e assumirem sua administração. Entretanto, nenhum dos esforços de envio de representantes oficiais foi exitosa e ambas as casas passaram a ser geridas pelas respectivas administrações regionais, perdendo laços e não realizando ações de intercâmbio cultural entre os dois países.

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IMAGENS

FLUXOS diálogos e movimentos transatlânticos

[ Imagens 8, 9, 10 e 11 ] Foi designado, pelo então governo do Benin, um casarão colonial de arquitetura francesa na cidade de Ouidah, para abrigar a Maison du Brésil. Em uma concepção inicial do projeto, ali funcionariam espaço expositivo, restaurante, residência para intercambistas e residência para um representante oficial brasileiro. Em 1989, Lina Bo Bardi, com colaboração de Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki, desenvolveu um projeto de intervenção arquitetônica para a Casa do Brasil em Ouidah. O casarão histórico seria restaurado e adaptado para novas funções, o pátio traseiro abrigaria o restaurante que seria construído em concreto, com formato circular e varanda com cobertura de palha, rodeado por coqueiros e espelho d’água. Este projeto não foi executado, mas o casarão foi reformado e a Casa do Brasil encontra-se atualmente em funcionamento.

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives

FLOWS

TRANSATLANTIC DIALOGUES AND MOVEMENTS

[1] The term reafricanization refers to a social movement attributed to black and black-mixed youths from the city of Salvador as expressed through the affirmation of blackness and its African origins, and with this movement’s roots being located in the early 1970s, especially following the creation of the Afro bloco group Ilê Aiyê in 1974.

Casa do Benin is the living manifestation of “Fluxo e Refluxo” (Flow and Reflow), Pierre Verger´s foundational book about the not so distant Africa-Brazil episode’. In 1988, through reports and news stories at the time, this is how Lina Bo Bardi described ‘Casa do Benin in Bahia’, a cultural space recently installed in the historic centre of Salvador, situated at a crossroads which connects Largo do Pelourinho, to Baixa dos Sapateiros, Bairro do Comércio, and Santo Antônio Além do Carmo. Although involving the revival of ideas from an older project in the 1960s by Lina Bo Bardi and Pierre Verger, Casa da Benin in Bahia resulted from a commercial and cultural partnership between the government of Benin and the municipal government of Salvador, where it served as a kind of pilot project, forming part of a new municipal urban planning scheme devised in 1986 to revitalise the historic centre of Salvador. At the end of the 1980s, the cultural and political landscape in Salvador was an effervescent one. The country was going through a process of redemocratization, with discussions underway about a new constitution which was to establish better prospects and a different future. There was also a continuing scene of ‘reafricanisation’ [1], which marked the social and cultural disputes in 1970´s Salvador, with African percussion parades Olodum, Ilê Aiyê and Malê Debalê occupying the streets of the historic centre with songs and messages of protest and resistance. Candomblé and Afro-Brazilian culture were gaining more and more national and international recognition. In 1959, the Centre for African and Oriental Studies (CEAO in Portuguese) was created as a department of the Federal University of Bahia and became central in the development of Afro-Brazilian studies and affirmative actions. With the actions of the CEAO as a starting point, the Afro-Brazilian Museum at the university was then idealised in 1974, before finally opening in 1982. The Unified Black Movement was created in-between in 1978, strengthening social disputes associated with ´blackness´ and affirming cultural contributions from the African continent in relation to the Brazilian constitution. Then, in 1985, the conjoining architecture and urban area of Salvador´s historic centre became listed as a UNESCO world heritage site. It was within this context that Arlete Soares, then director of the Gregório de Mattos Foundation - an organ dedicated to the administration of cultural at the municipality of Salvador - announced the development of the Bahia-Benin Project, which would include within its scope the creation of Casa do Benin in Bahia. Besides this position she held in city government, in 1978 Arlete had also created Editora Corrupio, a publishing house that was devoted to distributing the work of the photographer, and ethnographer, Pierre Verger, whose focus was the African diaspora. During the period of Casa do Benin’s creation, the presidency of the Gregório de Matos Foundation was undertaken by Gilberto Gil, one of the people responsible for articulating numerous ideas regarding policies on culture which, years later,


FLOWS transatlantic dialogues and movements would be developed at a national level – when he became Minister of Culture between 2003 and 2008. The emergence of Casa do Benin in Bahia resulted, therefore, from the convergence of several forces and projects, including ideas, interests and disputes seeking to diffuse a certain political principle and to strengthen connections between the two sides of the Atlantic. Thus, it proposed new pathways for flows and reflows between the coast of Africa and Bahia, established through the violent process of enslavement between 16th and 19th centuries, in order to dispute and to produce new senses in the present. Caption: [ Document 1] The Africa/Brasil Exhibition Project would later become part of exhibitions put on at the Bahia/Benin project: África Negra (MASP) and at the Bahia-Benin Exhibition (Casa do Benin). The document contains some of the initial ideas about concepts and foundations idealised for Casa do Benin in Bahia, from technical and expographic questions to those relating to its programming, function, and uses of the space. The Bahia-Benin project Binational in character, the Bahia-Benin Project aimed to establish close ties and exchanges between the city of Salvador and the government of Benin. Over the course of the project, delegations from Salvador travelled three times to Benin between 1987 and 1988, and groups from Benin visited Salvador on cultural missions in 1987 and also for the inauguration of the house in 1988. One major outcome was the firming up of commercial and cultural protocols, declaring the cities of Salvador, Brazil, and Cotonou, Benin, as official sister cities. The idea was then to build cultural houses in each respective country, as well as to establish an academic, artistic, and cultural exchange program. With this scenario as a backdrop, the photographer and ethnographer Pierre Verger and the architect Lina Bo Bardi were invited to participate. Thus, they restarted the groundwork for an exhibition first conceived in the 1960s named África-Bahia, when Lina was director of the Popular Art Museum (Solar do Unhão). As one of the four exhibitions which would make up what was referred to as the Brazilian Civilization Program, this one was realized jointly by Bo Bardi and Verger, and was based both on Verger´s research concerning the flows and reflows of the African diaspora and Bahian culture, as well as on an programme of exhibitions developed by Bo Bardi, reflecting on the cultural matrices which have informed Brazilian popular culture. Only the first of these four exhibitions was ever showcased, however, and the Brazilian Civilisation Programme was interrupted, when the museum was closed in 1964, following a military coup. It was in light of the Bahia-Benin project that many of these ideas would be taken up again, mostly thanks to the efforts of Arlete Soares. These included, for

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [2] The Africa/ Brazil exhibition project started to be negotiated with the SESC Pompéia at the beginning of the 1980s, but never materialised. [3] The arrival of artefacts from Museu do Homem (Museum of Mankind) at Casa do Benin was not authorised by the French museum, permission had only been granted for the exhibition at the MASP. [4] According to a report published in Veja magazine in 1988, “the events of Black Africa included ongoing interventions from six artists from Benin, in between auditoriums and mezzanines, and extending out towards Avenida Paulista and the access ramps on 9 de Julho. Amongst the artists invited were Wilson Sueles Sewoa, Cassou Sean, Kandji Codjolude, and Codja Comi Innocent (Balé Popular do Benin, Egblemavhou)”.

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instance, examples of exhibition concepts which did not end up being applied in the 1960s [2] that could be seen re-established through both the creation of Casa do Benin in Bahia and through an exhibition put on in the MASP around the same time, named Black Africa. The latter occurred in the Museu de Arte de São Paulo (MASP), starting on the 12th May 1988, and featured African artwork from the Paris Museum of Mankind and the African and Oceanic Art Museum which were presented for the first time in Brazil [3]. African pieces from private collections were also exhibited, along with photographs from Pierre Verger and a selection of films and documentaries and dance presentations of the Benin Popular Ballet (Egblemavikou) [4]. Just days earlier in Salvador, on the 6th March 1988, Casa do Benin had been opened as a permanent cultural space, having been put together as a project to promote ongoing exchange between the city of Salvador and the culture of Benin. Lina Bo Bardi, Pierre Verger and Arlete Soares organised the Bahia-Benin exhibition for the inauguration, with samples of art and craft from Benin. Some of these artefacts were lent for the occasion whilst others would become permanent installations in the house having being purchased previously in local markets during a trip to the country. In addition, a temporary exhibition presenting Pierre Verger´s photography was displayed on the first floor during the inauguration, further emphasising a parallel between material shown at Casa do Benin and also at the Black Africa exhibition at the MASP. Beyond this, the broader plan for the project as a cultural space was for it to involve in particular, an Afro-Brazilian restaurant (which would open in November of the same year), a permanent residence for a diplomat from Benin, and an academic and cultural exchange project due to receive students from Benin so as to develop projects and research. [ Image 1 ] The second of the trips of the Bahia-Benin project, occurring in January 1987. Forming part of the Casa do Benin collection, Arlete Soares´ photographs document official delegates from Salvador municipal government in Benin. Amongst others, the following people participated: Mayor Mário Kertész and his wife Silvania Rocha, Pierre Verger, Gilberto Gil, Arlete Soares, João Jorge Rodrigues, Roberto Dias, Mãe Stella de Oxóssi, Mãe Hilda Jitolu, Obaràyí Balbino Daniel de Paula, Pai Moacyr de Ogum, Carybé, Vivaldo Costa Lima, Vovô do Ilê, Arany Santana, as well as secretaries and city councillors from Salvador. [ Images 2 e 2.1 ] The signing of an agreement between the cities of Salvador and Cotonou, on 17th June 1986, in Salvador, with Mayor Mário Kertész and, on behalf of the government of Benin, the Minister of Commerce, Arts and Tourism, Soulé Dankoro. The document left space for a subsequent signature and finalising of the definitive agreement which was due to be done after the Mayor of Salvador


FLOWS transatlantic dialogues and movements travelled to Benin. This stated a mutual interest in carrying out exchange programmes covering a wide range of areas including gastronomy, cultural presentations, football, music, arts and crafts, photography, and television and radio programs. The agreement also established that the Salvador municipal government would offer the Beninense government a house in the historic centre to set up Casa do Benin, and in return, they would offer a house with Brazilian architecture in the city of Oudah for Casa de Salvador da Bahia. [ Images 3 e 3.1 ] As a symbolic gesture a bronze key to the city of Cotonou was presented to the Mayor of Salvador. Later this piece was added to the collection at Casa do Benin. [ Image 4 ] The delegate from Salvador was received in Benin with official events and activities in public squares which brought together large numbers of local people. Arlete Soares’ photographs show children welcoming a delegate holding Brazilian flags along with those of their own country, the Popular Republic of Benin, a socialist state of Marxist-Leninist orientation between 1975 and 1990. [ Images 5 e 6 ] A map with the political and natural borders of Benin can be seen portrayed on some of the pieces on display in Casa do Benin, as in the cases of a bronze item and an ideographic flag. To the north, the African country borders the Niger River, and to the south, the Atlantic Ocean. Maison du Brésil Casa do Benin in the city of Salvador and Casa do Brasil in Ouidah were developed primarily so as to establish ongoing intercultural exchange. Both houses would receive students and researchers and would be run by official representatives of each respective government, with Salvador’s municipal government managing the house in Ouidah, and the government of Benin running the house in Salvador. The architectural project at the Casa do Brasil in Ouidah was designed by Lina Bo Bardi to establish a corresponding style to Casa do Benin in Bahia, particularly with regards to its outdoor areas, a restaurant due to be installed behind the restored buildings, and palm trees and water fountains on its patios. However, the passing away of the architect around the time meant this project was not implemented and the restoration of the old mansion which housed Casa do Brasil in Ouidah developed in a different way. The renovation works were done in a French colonial mansion chosen to house Casa do Brasil and were completed in 1992. The upper floor became converted into two apartments and the original traditional style roof was replaced with a concrete roofing slab. The annex designed by Bo Bardi which was going to the host restaurant would never actually be built.

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives After 1988, changes in the political scenes in both Salvador and Benin caused changes in direction for the Bahia-Benin project and for the administrations of Casa do Benin and Casa do Brasil. In 1989, for example, the municipal government of Salvador altered the focus to prioritise tourism at Casa do Benin, and at its restaurant, to the detriment of the planned cultural exchange with the African country. The Pierre Verger photography exhibition which had been on the first floor from the start was also now dismantled and alterations in the management and the planning of the house led Arlete Soares to resign from the project. In 1989, the political scene in Benin also went through significant transformations. During that year, the one-party Stalinist regime, in place since 1975, was formally brought to an end, with president Kérékou now allowing other political parties to run in the election, and with this resulting in him leaving power in 1991, and after that, the commencing of a formal process of democratisation and the restoration of a capitalist market in the country. Over the following years, there were various initiatives aiming to resend representatives from each country to the other, so as to take up the administration of the respective houses once again, as initially planned when the project was conceived. In 1992, for instance, there was an attempt by a couple named Sérgio and Mundicarmo María Ferretti, both anthropologists from the University of Maranhão, to go and reside in Casa do Brasil in Ouidah and start running it. However, none of the initiatives to send officials was successful and both houses began to be managed by each region´s own administrative teams, thus losing ties, and halting the original plan to encourage cultural exchanges between the two countries. [ Images 8, 9, 10 e 11 ] The government of Benin at the time chose a colonial mansion with French architecture in the city of Ouidah to house the Maison du Brésil. In early plans for the project it was going to include an exhibition space, a restaurant, lodgings for exchange students, and a residence for an official Brazilian representative. In 1989, Lina Bo Bardi, with collaboration from Marcelo Ferraz and Marcelo Suzuki, developed an architectural project for Casa do Brasil in Ouidah, with the historic house due to be restored and adapted for its new role. The rear patio was to become a restaurant, constructed in concrete, with a circular format, and a thatched veranda, surrounded by coconut palms and a water mirror feature. This project never came into fruition, but the building was renovated, and Casa do Brasil is currently up and running.

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[ FLUXOS ]

ESCALAS DE LEOPARDOS, TRANÇAS E SERPENTES PELO ATLÂNTICO NEGRO ROGÉRIO FELIX Curador independente, bolsista de pesquisa-IC do Programa Milton Santos/UFBA


[ FLUXOS ] escalas de leopardos, tranças e serpentes pelo atlântico negro

“Decidi-me pela imagem de navios em movimento pelos espaços entre a Europa, América, África e o Caribe como um símbolo organizador central para este empreendimento e como meu ponto de partida. A imagem do navio – um sistema vivo, microcultural e micropolítico em movimento – é particularmente importante por razões históricas e teóricas que espero se tornem mais claras a seguir. Os navios imediatamente concentram a atenção na ‘Middle Passage’ [passagem do meio], nos vários projetos de retorno redentor para uma terra natal africana, na circulação de ideias e ativistas, bem como no movimento de artefatos culturais e políticos chaves [...]” Paul Gilroy [1]

França-Brasil As relações entre pessoas de distintos continentes estão repre-

sentadas, objetivamente, nas obras reunidas e transformadas no acervo da Casa do Benin. A coleção testemunha passagens entre locais separados pelo oceano Atlântico e integra uma teia de exibições que vêm sendo organizadas com motivação na

decodificação de sistemas culturais não europeus, suas tecnologias e artes [2]. Ambos eventos, deslocamento e visibilização

- mediados por navios e aviões - são partes inextricáveis da biografia desse tipo de seleção de peças. Marcam os modos de

vê-las. Por isso me são mais prementes para refletir, brevemente, sobre os arranjos de significados feitos para entrelaçar os objetos,

[1] GILROY, Paul. O Atlântico Negro – Modernidade e dupla consciência. São Paulo: Ed. 34; Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001. p. 38. [2] A prática de coletar artefatos africanos para exibição em museus, galerias foi estrambólica ao longo do século 20, animando inclusive o nascimento das tendências modernistas europeias. Como consequência, singularmente entre Nova York-Paris, em ambientes públicos e privados, proliferaram exposições/investigações sobre etnografia, primitivismo (sic), surrealismo, expressionismo abstrato, entre outras tendências que compõem as narrativas historiográficas da arte da época – usualmente escamoteadoras das agências negras.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [3] Particularmente, promovido por empresas portuguesas/europeias em conjunto com soberanias como o Reino do Daomé.

alçados à plenipotência de informar uma sangrenta estruturação nacional, às trajetórias das diásporas na Bahia. Assim, alerto que vislumbraremos espólios de itinerários de gente, coisas que - no momento de suas capturas - foram despojadas entre rotas da triangulação Brasil-França-Benin.

[4] Conferir Enganar o olho (p. 35-8). in: SODRÉ, Muniz. O Terreiro e a Cidade: a forma social negro-brasileira. Rio de Janeiro: Imago Ed.; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2002. O Rio de Janeiro e Recife são apontadas como cidades onde, similarmente, os planos de urbanização/modernização (sic) foram orientados pelas ideias de Haussmann.

Dessas direções, é notável que, na esteira do “ordenamento para o progresso”, várias têm sido as influências louvadamente assimiladas para inventar a brasilidade, cujas materializações parecem simplesmente inatas. Aqui, desde Salvador, quero chamar a atenção para algumas daquelas sintonizadas da França, focando entre os séculos 19 e 20, enquanto as terras que agora compreendem as fronteiras nacionais da República do Benin estavam sendo postas sob o jugo colonial, a fim de interromper/”abolir” o tráfico transatlântico [3] de pessoas que para além de subjugadas ao escravagismo racial, assentavam-se em solos ameríndios. Tal qual suas culturas (i)materiais-visuais eram igualmente postas em curso para os mercados internacionais por meio de pilhagens, engodos e leotrias, até saciar o apetite voraz dos nascentes museus etnográficos.

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Nesta altura, por exemplo, as propostas do urbanismo fizeram a cabeça estética, sem responsabilidade social, das oligarquias brasileiras. Como consequência, a capital baiana foi impactada pela modernização (sic) ordenada por J. J. Seabra, adaptando as propostas feitas por Georges-Eugène Haussmann: corpos operários destruíram igrejas, abriram estradas, instalaram transportes. Seabra modelou centro e periferias étnicas em um esforço de superar a vinculação colonial com Portugal, expressa nas formas de construir - muito embora o alinhamento, no âmbito das relações exteriores, estivesse intacto na cumplicidade à expansão dominatória na África e Ásia - cofabricando a gênese do projeto de branqueamento, valendo-se da estratégia de ludibriar os olhares, conforme apontou Muniz Sodré [4].


[ FLUXOS ] escalas de leopardos, tranças e serpentes pelo atlântico negro

Outro exemplo da influência francesa, agora no campo da indu-

mentária, é o bordado richelieu, técnica têxtil que passou a circular

por diversas vias da cidade, pavimentadas ou de terra batida, como sinônimo de bem vestir. Vide o consecutivo uso nas roupas

litúrgicas afro-brasileiras, especialmente nos candomblés. Além

disso, no próprio cerne das políticas culturais (institucionais) de

preservação são ecoadas as premissas de aculturação e valorização da cultura popular, que foram insufladas perante o medo

iminente da perda síncrona das grandes revoluções e guerras do norte global: tanto na fundação de entidades federais, como o

atual IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1934), quanto na montagem da própria Casa do Benin

(1988). Esta última, vinculada ao governo executivo municipal,

[5] Para um panorama das ligações entre o musée Trocadéro, musée de l’Homme e musée du quai-Branly ver SOARES, Bruno César Brulon. Máscaras guardadas: musealização e descolonização. Tese (Antropologia Social). Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de Antropologia, 2012.

foi instalada através dos modelos curatoriais transpostos do

Museu Trocadéro [5] por Pierre Verger unido, principalmente,

à diretora Arlete Soares da Fundação Gregório de Mattos.

Salvador-Daomé Certamente, o exercício de contabilizar influências europeias

seria extenuante. Importa destacar que as relações exteriores com países africanos, mais ou menos compulsórias e demago-

gicamente exaltadas, são indeléveis de quaisquer pretensões de ampla narração histórica-cultural do Brasil. Logo, valorizá-las em

meios de comunicação pública tem sido um recorrente trampolim

utilizado para impulsionar a popularidade do grande número de

sucessivos homens brancos - mestiços - que vem se colocando, ou têm sido colocados, como governantes dessa cidade da baía

de Kirimurê: configurando-a, por petrificação, como produto turístico que contém o puro (sic) suprassumo afro-brasileiro.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [6] VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII a XIX. São Paulo: Corrupio, 1987. Publicação brasileira da tese apresentada em 1966 e lançada como livro em 1968. [7] 1897-1985. Curador parisiense, foi um dos principais responsáveis pela requalificação do Trocadéro e sua transição para musée de l’Homme. Tinha como premissa a funcionalidade educativa da prática museográfica. Além disso, seu engajamento no Conselho Internacional de Museus-ICOM foi decisivo para que os modos de tratar acervos - em suma, documentar, conservar e exibir - na Europa fossem repercutidos como recomendações, de escala global, às pessoas que já produziam/usavam os objetos em questão.

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Quando Verger começou a colaborar no Laboratório de Fotografia do Museu Trocadéro, por volta de 1934, o acervo da instituição já era contabilizado em mais de dez mil artefatos da América, África, Oceania e Europa; e o Daomé, atual Benim, era uma extensão territorial integrante da federação da África Ocidental Francesa. Desses contatos, contagiado ainda pela literatura de Jorge Amado, ele viajou, pelos lugares de que ouviu falar, intensivamente entre 1940-60, registrando suas interpretações das experiências interculturais sentidas. Na década de 1980 - cumprindo seus oitenta anos e longamente radicado em Salvador - já desacreditava das boas intenções político-governamentais, apesar de não ter dispensado a oportunidade de difundir, visualmente, suas pesquisas etnográficas que o consagraram como doutor em Estudos Africanos pela Universidade Sorbonne [6]. Em função disso, cruzou o Atlântico Sul, mais uma vez, rumo a feiras e mercados de cidades como Abomé e Cotonou, financiado pela gestão Mário Kertész. Replicando, se não integralmente, as estratégias colecionistas, pautadas na museografia praticada por Georges Henri Rivière [7], ao menos a busca por tipos de objetos eleitos a representar o Daomé - designados nas literaturas antropológicas, historiográficas e museológicas, mormente como arte africana tradicional. Numa iniciativa pioneira de elaborar um panorama imagético da cultura nacional da República Popular do Benin após o término formal da colonização [8]. A ideia de reunir esculturas, mapas, instrumentos musicais, jogos, indumentárias, fotografias, para instruir sobre lugares estrangeiros, diferente da pretensão da cena museológica europeia que mostrava o mundo “recém-descoberto”, “anexado” d’além mar, espetacularizando existências raptadas, aqui foi vertida a mostrar um lastro de ancestralidade decisivo na genealogia das matrizes africanas que se manifestariam mais intensamente na Bahia, em continuidade e similaridade com o autêntico correlato


[ FLUXOS ] escalas de leopardos, tranças e serpentes pelo atlântico negro

encontrado, especialmente nas cidades de Abomé, Porto Novo (Xogbonou), Uidá (aportuguesada como Ajudá) e Ketu. As esculturas, que predominam numericamente, são em madeira, metal e cerâmica. Digo que foram incutidas de aura do passado, à medida que copiam a produção da ‘arte de corte’, isto é, são bustos, recades, asséns [9], tronos, feitos segundo modelos de peças oriundas dos hábitos e influência do Reino do Daomé – monarquia mais proeminente nos limites da delimitação colonial (vide a linha do tempo nas tapeçarias que compõem o acervo). São também exibidos potes cerâmicos diversos, relacionados a ritos sagrados (como partos), fragmentos de máscaras geledés [10], cenas de cortejo, entre outras coisas sucessivamente reproduzidas e requisitadas pelo gosto turístico. Sem dúvida, as técnicas vernaculares, dominadas e transmitidas milenarmente, valeriam ainda um comentário mais minucioso. Detido, pelo menos, nas relações entre as especialidades das famílias/ateliês, seus papéis na cadeia de produção-consumo local e o impacto da internacionalização da demanda. Entretanto, cumpre dizer que das materialidades irradia, sumariamente, junto à história política, a ênfase nas crenças espirituais. Destes enfoques desenha-se a proposta de instruir a descendência africana local de suas conexões perdidas, dobrando o tempo-espaço para apresentar obras recém-adquiridas em referência direta ao transcurso dos séculos 17/19 - intervalo de 300 anos que compreenderia o ciclo do tráfico transatlântico, específico entre a província da Bahia e a Costa da Mina, que embasa a tese de Verger. Antecedendo àquele ano de 1988 que marcaria o centenário da abolição do regime de escravatura imposto às pessoas que, entre a diáspora e os retornos, teriam convivido, em alguma dimensão realista/mágica do cotidiano, com o artesanato - arte popular beninense - coletado, o qual corresponderia a expressões modernas da arte africana clássica [11].

[8] Pierre Verger também foi organizador-fundador do Museu de História de Uidá. Inaugurado em 1967, foi a transformação da então fortaleza de São João Batista de Ajudá - incursão militar portuguesa, datada do século 18, erigida para otimizar os esquemas de tráfico. EFFIBOLEY, Patrick. Les musées béninois: du musée ethnographique au musée d’histoire sociale. French Studies in Southern Africa, n. 45, 2015, p. 30-61. [9] Récaderes são bastões de madeira esculpidos com insígnias de reis de Daomé, que outorgavam voz real a quem o portava, chamado récadore; a designação deriva do português, ‘recado’. Asséns são altares mortuários de metal, feitos para homenagear ancestrais destacados. SOARES, Arlete (org.). Benin-Bahia, Salvador, n. 1, ano 1, mai. 1988.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [10] ‘Máscara Geledé’ é a designação genérica atribuída a partes do conjunto indumentário, criado/ utilizado por povos iorubá, para performar homenagens às Grandes Mães Ancestrais. Vale mencionar que, em 2008, a Tradição oral Geledé foi inscrita na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade/UNESCO. [11] Realidade mágica, artesanato, arte popular e arte africana clássica são categorias mobilizadas por Lina Bo Bardi e Pierre Verger para articular a exposição inaugural da Casa do Benin, aberta em 6 de maio, e sua parte irmã de curta duração, “África Negra”, que abriu cinco dias depois, de 11 de maio a 26 de junho de 1988, no MASP-Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Conforme indicam matérias veiculadas em periódicos como o Visão, Jornal da Tarde/Estadão e Folha de São Paulo, no período de abertura das mostras.

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Benim-Bahia Me parece que as expectativas do público baiano - e da massa de turistas além-fronteiras - por compreender as matrizes afro na história do Brasil, ou sintonizar culturas africanas, não podem ser satisfeitas simplesmente pela visualização estática das transmissões transatlânticas representadas por objetos que imitam e/ ou potencialmente são vestígios de danças, amuletos de fertilidade, voduns, dentre outras funções assinaladas nas etiquetas de identificação do acervo. Repetem-se, assim, as possibilidades argumentativas na vereda dos enredos da arte africana tradicional, cuja finalidade geralmente passa longe das pretensões de debates socioculturais aplicados. No curso dos modos de exibir a coleção, entre a inauguração e reaberturas dos anos 2000, uma modificação é emblemática da intensidade atual dos (re)fluxos criativos entre Benin-Bahia: a remoção das várias fotografias (de contexto, possivelmente das décadas de 1940-70) que acompanhavam a disposição dos objetos. Embora haja uma peça audiovisual para abordar os Agudás [12], a produção beninense atentamente orientada a disputar as narrativas em realidade virtual de instituições culturais, com outras linguagens como fotografia, cinema, pintura, performance, e assim por diante - continua passando ao largo dos tratamentos curatoriais. Aí importa mencionar, juntamente, a incorporação (por volta de 2014) de peças afro-soteropolitanas, oriundas da dispersão do acervo do Museu da Cidade [13]. Congregando, na mesma clausura, obras cujas autorias foram diluídas no Benin, e em alguns outros países da região da África ocidental, com trabalhos (representações de orixás) de Mestre Didi, Agnaldo Manoel dos Santos, Agnaldo da Silva, Tatti Moreno… distintas pessoas que coproduziram os modernismos baianos, sob as rubricas de


[ FLUXOS ] escalas de leopardos, tranças e serpentes pelo atlântico negro

arte afro-brasileira e cultura popular. Eis aí um panorama da arte (escultura) afro-diaspórica do século 20 e da demonstração do poder matricial continuado nos modos de fazer? Ou ainda, de como a modernidade está, de fato, fundada nos contatos ostensivos entre continentes?! Se considerarmos que a exposição de longa duração da Casa do Benin foi modelada arraigada à forma enciclopédica - característica das metodologias etnográficas, em que os fascículos estariam completos, explicando, decodificando, justificando e informando sobre o mundo mostrado diante dos olhos -, a continuidade do colecionismo para remontar discursos estaria prescindida. Culminando na questão: afinal, quais condições devem ser criadas para colecionar outras linguagens, mais obras, mostrando que a cultura não tem início, meio e fim? Exercitar a conjugação das coincidências de interesse, pelas vias da confabulação estética, histórica e sociocultural, como fundamento ativo das trocas pretendidas pelo acordo que irmana Salvador-Cotonou, efetivamente gira a chave do portal para canalizar as produções e discursividades contemporâneas – que, dentre outras proezas, revolvem proficuamente dimensões das relações pós-coloniais [14] - ampliando os indícios de tempo espiralado sediados na instituição. Enfim, fruir artefatos que propõem intervir nas identificações culturais é transitar por eventos diluídos na memória nacional, como a escravidão, genocídios, conquista de direitos, golpes políticos, modas de consumo, resultantes das relações engendradas nos itinerários de pessoas. Tais eventos usualmente estão implícitos nas expografias aplicadas a conjuntos como esse, aparentando dissociação com o presente, com as urgências da descendência da diáspora. Tendo em conta o paradigma arte-vida – em síntese, um tensionamento da produção de objetos

“África Negra” contou com obras emprestadas, dentre outras fontes, do musée de l’Homme. [12] A tese de Verger ressalta, reciprocamente às culturas africanas transplantadas, o impacto da “brasilidade” - leia-se influências europeias - difundida a partir de grupos de pessoas africanas e afro-descendentes que voltaram à África, fosse por deportação, recém alforria ou outra razão. ‘Agudás’, outra corruptela derivada de Uidá, é o nome pelo qual são reconhecidos no Benim. A arquitetura de casas, em forma de sobrados, a celebração do Senhor do Bonfim, as roupas, entre outras manifestações culturais, seriam vetores da brasilidade/baianidade. [13] Atualmente vinculado à Fundação Gregório de Mattos, foi aberto na década de 1970. Foi desativado, em 2014, para requalificação.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [14] Desde 2016, o Programa de Residências Vila-Sul, do Goethe-Institut (divisão de Salvador), tem agenciado artistas com origem/base em diversas partes do Sul global. Em sentido similar aos fundamentos que estruturam a Casa do Benin, colaborando para o famigerado intercâmbio cultural. Destaco a estadia do artista beninense Emo de Medeiros (1979), em 2018. Meschac Gaba (1961) e Idrissou Mora-Kpai (1967) são também excepcionais artistas contemporâneos do Benin que passaram por Salvador, em diferentes ocasiões, no MAM-BA, nas últimas duas décadas. Saliento, ao fim dessa recuperação de presentificações recentes, a exposição coletiva “O Benin está vivo ainda lá – ancestralidade e contemporaneidade”, organizada por Emanoel Araújo, que passou no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (SSA) e no Museu Afro Brasil (SP).

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com finalidade reduzida a incitar prazer estético / apenas ser algo belo, para que possam tomar parte na vida social – tão recorrente nas análises que se dedicam a examinar tratamentos dispensados à arte não-europeia, o acervo da Casa do Benin parece evocar, magneticamente, a manifestação das conexões problemáticas que unem ambos os lados do Atlântico. Mais adiante da harmonia sugerida na continuidade de um e outro saber fazer, explorar os imbricamentos dos entrelaçamentos de significados, inerentes aos modos de exibir e compreender artes africanas, pode ser ponto de partida não só para mudar o rumo da cadeia de sucesso das estratégias de aniquilamento físico-simbólico, detonadas no Brasil, que seguem ludibriando os olhos desatentos. Como ainda pode animar as preconcepções de estranheza e incompreensão que tanto marcam as primeiras aproximações com estas obras familiares desconhecidas.


[ FLOWS ] transits across the black atlantic for leopards, braids and snakes

[ FLOWS ]

TRANSITS ACROSS THE BLACK ATLANTIC FOR LEOPARDS, BRAIDS AND SNAKES ROGÉRIO FELIX Independent curator, ic-research fellow at the Milton Santos Program / Universidade Federal da Bahia.

“I have settled on the image of ships in motion across the spaces between Europe, America, Africa, and the Caribbean as a central organising symbol for this enterprise and as my starting point. The image of the ship - a living, micro-cultural, micro-political system in motion - is especially important for historical and theoretical reasons that I hope will become clearer below. Ships immediately focus attention on the middle passage, on the various projects for redemptive return to an African homeland, on the circulation of ideas and activists as well as the movement of key cultural and political artefacts […] Paul Gilroy [1] France-Brazil Relationships between people from different continents are represented, in objective ways, in the work gathered together in and transformed through the Casa do Benin collection. The collection bears witness to movements between places separated by the Atlantic Ocean and includes a weaving together of exhibitions that have been organized around the motivation to decode non-European cultural systems, technologies, and arts [2]. Events of both displacement and visibilization - mediated by ships and planes - are inextricable parts of the biography of this type of selection of museum pieces. They mark how these are seen. As such, for me what is most pressing to reflect on, in short, is the meaningful arrangement of intertwining objects, brought from plenipotentiaries that informed a bloody national structuring, into the diasporic trajectories of Bahia. So, I warn in advance that what will be encountered, include the spoils of people's travels, things that - at the time of their capture - were stripped away on the triangular route between Brazil-France-Benin.

[1] Gilroy, Paul. The Black Atlantic – Modernity and double consciousness. London/New York: Veros, 1993, p.4 [2] The practice of collecting African artefacts to display in museums was effervescent throughout the 20th century, and formed a part of the birth of European modernist tendencies. As a consequence, it featured especially in New York and Paris, in public and private environments, and could be seen to proliferate through exhibitions and investigations concerning ethnography, primitivism, and surrealism, amongst other trends that make up the historiographical narratives of the art of the time – most of which concealed black agencies. [3] Particularly promoted by Portuguese / European companies in conjunction with local sovereignties, such as the Kingdom of Dahomey. [4] See Enganar o olho (p. 35-8). in: SODRÉ, Muniz. O Terreiro e a Cidade: a forma social negro-brasileira. Rio de Janeiro: Imago Ed.; Salvador: Fundação

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives Cultural do Estado da Bahia, 2002. Rio de Janeiro and Recife are also identified as cities where urbanization plans were guided by Haussmann's ideas. [5] For an overview of connections between the Musée Trocadéro, Musée de l’Homme and Musée du quai-Branly see SOARES, Bruno César Brulon. Máscaras guardadas: musealização e descolonização. Tese (Antropologia Social). Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de Antropologia, 2012. [6] VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII a XIX. São Paulo: Corrupio, 1987. Brazilian publication of his thesis presented in 1966 and released as a bookin 1968. [7] 1897-1985. Parisian curator, he was one of the main responsible for the requalification of the Trocadéro and its transition to musée de l’Homme. Its premise was the educational

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From these directions, it is notable that, en route to so-called "order and progress", there have been several assimilated influences that have been widely lauded in the invention of Brazilianness, whose materializations seem simply innate. Here, from Salvador, I want to call attention to some of those relating to France, focusing between the 19th and 20th centuries, when the lands that now comprise the national borders of Benin were being brought under colonial domination, in order to interrupt / "abolish" the transatlantic [3] trafficking of people who, in addition to being subjugated by racial enslavement, were based on Amerindian soil. The same people, around the time, that is, whose material-visual cultures, were likewise being set in motion for international markets, through looting, deceit, and spiel, so as to satisfy the voracious appetite of the nascent ethnographic museum. At this time, the proposals of urbanism were filling the heads of Brazilian oligarchies aesthetically, and without any sense of social responsibility. As a consequence, for example, the Bahian capital was impacted upon by modernizations put in motion by J. J. Seabra, adapting the proposals of Georges-Eugène Haussmann: with workers' destroying churches, laying down roads, and installing transport. Seabra developed also a model of ethnic centres and peripheries in an effort to overcome colonial ties with Portugal, as expressed through building plans - even though how this actually panned out, in terms of relationships with foreign nations, retained a complicity with expansion and domination in Africa and Asia – co-fabricating the genesis of the project of whitening, and making use of a strategy which deceived the eyes, as put by Muniz Sodré [4]. Another notable example of French influence, now referring to the field of clothing, is though richelieu embroidery, a textile technique that started to circulate the streets of the city, both paved and unpaved, and became synonymous with being well-dressed. See, for instance, its subsequent usages in Afro-Brazilian liturgical clothing, especially in candomblé. Beyond this, at the very heart of cultural preservation policies, the premises of acculturation and the valorization of popular culture echoed, with these having been instilled in the face of the imminent fear of loss caused by the warring of the global north: as seen through the foundation of specific federal entities, such as the current IPHAN – the National Historical and Artistic Heritage Institute (1934), and in the setting up of Casa do Benin itself (1988). The latter example, which was linked to the municipal government executive, came to be installed especially through curatorial models that were transposed from the Museu do Trocadéro [5] by Pierre Verger. Salvador-Dahomey The exercise of accounting for European influences would prove to be strenuous, for sure. And it is also important to highlight here how foreign relations with African countries came to make up an indelible part of the pretenses of broad


[ FLOWS ] transits across the black atlantic for leopards, braids and snakes historical-cultural narratives in Brazil, becoming more or less compulsorily and demagogically exalted per se. The valuing of these in public communications and through the media has become a kind of springboard utilized recurrently in the propelling of popularity for a large number of successive white men - and/or mestizos - who have placed themselves, or have been placed, as governors of this city on the bay of Kirimurê: configuring it, through petrification, as a tourist product containing a supposedly pure and supreme Afro-Brazilian. When Verger began to collaborate in the Photography Laboratory of the Museu do Trocadéro, in around 1934, the institution's collection already contained more than ten thousand artefacts from America, Africa, Oceania, and Europe; with Dahomey, now Benin, still a territorial extension of the federation of French West Africa. So through these contacts, and under the influence of Jorge Amado's literature, he would later travel, intensively from 1940-1960, through places that he had heard about, recording his interpretations of the intercultural experiences that he had through this part of his life. Later on in the 1980s - having reached eighty years old and lived for a long time in Salvador - though he had lost belief in the good intentions of political-governments, he was still taking up any opportunities that came about to visually disseminate his ethnographic research, research that had nobly qualified him as a Doctor in African Studies at the University of Sorbonne [6]. As a continuation of this, he would cross the South Atlantic one more time, so as to move though the fairs and markets of cities such as Abomé and Cotonou. Funded by the Mário Kertész administration, in doing so, Verger now replicated, if not in their entirety, collection strategies orientated by the museography practices of Georges Henri Rivière [7], which later became widely transubstantiated through methodological proposals for museums and other similar environments globally. The search this time then was for objects chosen to represent Dahomey - designated in anthropological, historiographical, and museological literature, as notably traditional African art - that is, in a new pioneering initiative aimed at creating an imagistic panorama of Benin's national culture after the formal end of colonization [8]. Different to the pretenses of the European museological scene, showing a "newly discovered" world, "annexed" over the sea, spectacularizing abducted existences, here the idea of bringing ​​ together sculptures, maps, musical instruments, games, costumes, photographs, and profane or potentially sacred artiefacts, was rather to instruct about foreign places. Particularly so, to shed light on the crucial ancestry of the African genealogical matrices that would manifest themselves most intensely in Bahia, with both continuities and similarities to their authentic correlates found in Benin, especially so, in the cities of Abomé, Porto Novo (Xogbonou), Uidá (rendered in Portuguese as Ajudá), and Ketu. The sculptures, which are greatest in number, can be seen as made of wood, metal and ceramics. I say that they are inculcated with the aura of the past, as they copy

functionality of museographic practice. In addition, his engagement in the International Council of Museums-ICOM was decisive for the ways of treating collections - in short, to document, to conserve and to display - in Europe to be passed on as recommendations, on a global scale, to people who already produced / used the objects in question. [8] Pierre Verger was also the founding organizer of the Uidá History Museum. Inaugurated in 1967, the site of the museum was situated in and redeveloped the fortress of São João Batista de Ajudá – a Portuguese military incursion, from the 18th century, erected to optimize trafficking schemes. EFFIBOLEY, Patrick. Les musées béninois: du musée ethnographique au musée d’histoire sociale. French Studies in Southern Africa, n. 45, 2015, p. 30-61. [9] Récaderes are wooden canes carved with the insignia of the kings of Dahomey, which granted royal authority to those who

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives carried them; deriving from the Portuguese, ‘recado’(message). Asséns are metal mortar altars, made to honour important ancestors. [10] ‘Geledé Mask’ is the generic designation attributed to part of a set of clothing, created and used by Yoruba people, to pay homage to the Great Ancestral Mothers. It is worth mentioning that, in 2008, the oral tradition Geledé was inscribed on the list of Intangible Cultural Heritage of Humanity / UNESCO. [11] Magical reality, handicrafts, folk art, and classic African art are categories drawn on by Lina Bo Bardi and Pierre Verger to articulate the inaugural Casa do Benin exhibition, opened on May 6, and its short-lived sister installment, “Black Africa”, which opened five days later, from May 11 to June 26, 1988, at the MASP-Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. “Black Africa” featured works borrowed from the Musée de l’Homme and other French museums, as stated in articles

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the production of the 'court art', that is, where upper bodies, sceptres, assen alters [9], and thrones, have been made according to the models of pieces born from the habits and the influences of the Kingdom of Dahomey – the most prominent monarchy within colonial delimitation (see the timeline in the tapestries that make up the collection). Various ceramic pots can be also be seen exhibited, relating to sacred rites, and childbirth, as can fragments of Geledés masks [10], and courtship scenes, which have been requested and reproduced successively so as to satisfy the tastes of tourists. Undoubtedly, such vernacular techniques, mastered, and transmitted for millennia, are worthy of a more detailed and arresting commentary, not least in relation to the specialties of families and ateliers, their roles in the local production-consumption chain, and also the impact of internationalization, and its respective demands. Nevertheless, it has to be said that materialities irradiate summarily, together with political history, and an emphasis on spiritual beliefs. From these viewpoints, the approach has been to instruct local African descendants of their lost connections, doubling time-space so as to present newly acquired works in direct reference to a passage of time from the 17th to 19th centuries - an interval of 300 years that would comprise the transatlantic trafficking cycle - specifically, between the province of Bahia and the Costa da Mina, based on Verger's thesis. Prior to the year of 1988, the year that would mark the centenary of the abolition of the slavery regime imposed upon respective peoples, these same peoples, between their diaspora and coming and goings, would have actually coexisted, in some realistic and magical senses of day to day life, with the handicrafts seen collected – Beninese folk art - which corresponds to modern expressions of classical African art [11]. Benin-Bahia It seems to me that the expectations of the Bahian public - and of the masses of tourists from abroad - in understanding the Afro matrices in the history of Brazil, and in relating to African cultures, cannot be satisfied simply by the static visualization of transmissions from across the transatlantic, represented through objects that imitate and/or potentially bear traces of the dances, fertility charms, and vodou/vodun, which amongst other features can be seen signposted through the collection's identifying captions. I repeat myself here, then, that there are argumentative possibilities which inform the thematics of traditional African art, and with these an ultimate purpose that generally goes far beyond the pretenses of socio-cultural debates. In the course of the modes through which the collection has been exhibited, between its opening and reopening in the 2000s, one modification that is emblematic of the current intensity of creative (re)flows between Benin-Bahia has been the removal of various photographs (of context, possibly from the 1940s to 1970s)


[ FLOWS ] transits across the black atlantic for leopards, braids and snakes which had previously been seen accompanying the arrangement of objects. And though there is audiovisual content concerning the Agudás [12], in the main, Beninese productions orientated towards disputing the virtual reality narratives of cultural institutions - such as photography, cinema, painting, performance, and so on - still remain far from forming a part of the curatorial process. Here, it is also important to mention, the incorporation (from around 2014) of Afro-Brazilian pieces that had been accrued from the Museu da Cidade collection [13]. Thereafter, these pieces began to be brought together into the same enclosure with prior work whose authorship hailed from Benin and some other countries in the West African region, and with these newly arriving pieces including productions (such as representations of orixás) by Mestre Didi, Agnaldo Manoel dos Santos, Agnaldo da Silva, and Tatti Moreno – that is, all established names who were co-producers of Bahian modernism, if under the rubric of Afro-Brazilian art and popular culture. Is this meeting therefore a panorama of Afro-diasporic art (sculpture) from the 20th century and the demonstration of a power matrix that has continued through ways of being? Or perhaps, it is how modernity is, in fact, founded upon such ostensible contacts between continents?! When we consider that the long-term exhibition of Casa do Benin is a model with its roots in the encyclopedic form - characteristic of ethnographic methodologies, where collections are supposed to be complete, explaining, decoding, justifying, and informing about the world being shown before people’s eyes - if so, then the continuation of collecting so as to reassemble discourses should be dispensed with. Thus, we are led towards the question: at the end of the day, what exactly are the kinds of conditions that should be sought in the collecting other languages, and other museum pieces, which foster an understanding that culture has no beginning, middle and end? Through means of historical and sociocultural aesthetic confabulation, a conjoining set of coincidences of interest comes into play, which serves in turn as a dynamic focal point for the kinds of exchanges intended through the Salvador-Cotonou sister agreement. This effectively becomes the key that opens the door to a channeling of contemporary productions and discursivities - which, among other areas of prowess, revolve productively around the dimensions of post-colonial relations [14] - expanding evidence of spirals in time through the foundations of the institution. Finally, to possess artefacts with the purpose of intervening in cultural identification is to pass through events diluted in national memory: such as slavery, genocides, the conquest of rights, political coups, and fashions of consumption, all resultant from relations engendered by movements of people. Such events are usually left implicit in expographies applied to areas such as this, thus making apparent dissociations with the present and with the urgencies of the diaspora. Taking into account the art-life paradigm - in short, there is a tension therefore

published in periodicals such as Visão, Jornal da Tarde, Estadão, and Folha de São Paulo, during the opening period of the exhibition. [12] Verger's thesis stresses, conversely, on transplanted African cultures, the impact of “Brazilianness” – read here European influences - widespread across groups of African people and Afro-descendants who had returned to Africa, whether through deportation, recent manumission, or other reasons. ‘Agudás’, is another word originally derived from Uidá, and the name by which they are known in Benin. Architecture of houses, townhouse styles, the celebration of Senhor do Bonfim, and clothes, among other cultural manifestations, would all become aspects of Brazilianneess, and of Bahia. [13] Currently linked to the Gregório de Mattos Foundation, it was opened in the 1970s. Since 2004, it has been inactive and in process of requalifciation.

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [14] Since 2016, the Goethe-Institut (Salvador division) Vila-Sul Residency Program has been affording opportunities to artists orginally from or based in different parts of the global South. In a similar sense to the principles that structure Casa do Benin, they have collaborated in the well-known notion of cultural exchange. I highlight here the stay of the Beninese artist Emo de Medeiros (1979), in 2018. Meschac Gaba (1961) and Idrissou Mora-Kpai (1967) are also exceptional contemporary artists from Benin who have passed through Salvador, and the MAM-BA, on different occasions, over the last two decades. I stress, also, among recent notifications, the collective exhibition “Benin is still alive there - ancestry and contemporaneity”, organized by Emanoel Araújo, who visited the National Museum of Afro-Brazilian Culture (SSA) and the Afro Brasil Museum (SP).

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which appears in the production of objects bearing a reduced purpose only to invoke aesthetic pleasure, and serving only as something beautiful, so that they can take part in social life. As recurrent as this is in analyzes dedicated to examining treatments of non-European art, quite differently, the Casa do Benin collection can be seen to magnetically evoke manifestations of problematic connections that unite both sides of the Atlantic. Far from the harmony suggested in the continuities of individual areas of expertise, differently to this, is a need to explore an interweaving of intertwining meanings, a point inherently important to ways of exhibiting and understanding African art. This, then, can become a starting point, not only to change the course of a long and successful chain of physical-symbolic annihilation strategies, as discharged in Brazil, and which still continue to deceive inattentive eyes - but, also, function counter to the preconceptions of strangeness and incomprehension that so much marked the earliest approaches to this familiar unknown work.



CONSTRUÇÕES

ARQUITETURAS, PAISAGENS & INTERVENÇÕES


A arquitetura da Casa do Benin se constitui por meio da conjugação entre aspectos técnicos e formais com o registro de um projeto urbano para o Centro Histórico de Salvador diferente do que se sucedeu na década seguinte. Nesse sentido, podemos encontrar em sua arquitetura elementos característicos da arquitetura modernista, um discurso específico relacionado aos traços de aproximação entre cultura e paisagem africana e brasileira e um projeto piloto do modelo de restauração que se pretendia executar em toda a região onde encontra-se localizada.

[1] Fragmento do texto escrito por Mário Kertész em 1988 para o catálogo da exposição África Negra.

Mário Kertész, então prefeito de Salvador, escreveu no ano de 88: “A Casa do Benin surge como um duplo marco. Marco da luta pela recuperação e vitalização do centro histórico de Salvador, inclusive como primeiro casarão reconstruído nos termos de uma nova concepção de intervenção arquitetônica naquele conjunto urbano. E de marco do processo de reatamento prático das relações da Bahia com a África Negra” [1]. A intervenção arquitetônica da Casa do Benin no Pelourinho, desenvolvida entre 1987 e 1988, foi uma importante iniciativa em direção a um projeto de restauração planejado para a região. Era uma espécie de projeto piloto, foram restaurados três casarões de diferentes épocas e em diferentes estados de conservação.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

Em sua concepção foram aplicados os conceitos e técnicas que pretendiam ser utilizados em todo o projeto de recuperação do Centro Histórico de Salvador. Sua construção era a prova da eficiência arquitetônica do projeto pretendido e também um cartão de visitas da Prefeitura, que seguia buscando formas de viabilizar a recuperação do Centro Histórico. O projeto foi realizado pela arquiteta Lina Bo Bardi, com colaboração de Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki. A Casa do Benin foi então construída por meio da restauração de três imóveis: um sobrado do século XVIII, que havia sofrido um incêndio em 78, e as fachadas de dois casarões também em ruínas. As fachadas externas foram restauradas de modo clássico, buscando reconstruir as características originais das arquiteturas dos séculos anteriores. Já as partes interiores dos imóveis foram restauradas de forma a evidenciar as intervenções realizadas no século XX, de acordo com uma gramática arquitetônica modernista e as novas funções que seriam atribuídas ao espaço. Os três imóveis foram conectados internamente para abrigar um espaço cultural composto por salas expositivas, auditório, residência para intercambistas, restaurante e residência para um representante diplomático do Benin. Concomitantemente ao desenvolvimento do projeto arquitetônico de restauração, Lina e Verger planejavam a composição do acervo de peças de artesanato beninense que comporiam a exposição permanente da Casa do Benin. Nesse sentido, diversos elementos que fazem referência à produção artesanal beninense e seu vínculo com a cultura e produção brasileira foram incorporados à arquitetura.

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CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções [ Imagens 12, 13, 14 e 15 ] Entre os anos 50 e 70, anteriormente ao incêndio, o casarão que hoje abriga a Casa do Benin abrigou diversas atividades, como mercado de secos e molhados, fabricos de sapato e estúdio fotográfico.

[2] (PRAZZOLI, 2018, p.135)

[ Imagens 16, 17 e 18 ] O casarão de esquina entre a ladeira do Taboão e a ladeira do Carmo foi o primeiro a ser restaurado, sendo inaugurado em 06 de maio de 1988. A primeira imagem mostra a sua fachada externa restaurada pouco antes de sua inauguração. A segunda imagem mostra todo complexo que compõe a Casa do Benin, formado por três casarões. Após a inauguração do primeiro edifício, os dois casarões anexos foram restaurados para abrigar o Restaurante do Benin e a residência de um representante beninense, sendo a obra concluída e inaugurada em novembro do mesmo ano. Na terceira imagem, temos a vista externa do complexo arquitetônico que abriga a Casa do Benin no ano de 2021.

IMAGENS

[ Imagens 19, 20 e 21 ] Vista da parte interna da Casa da Benim onde é possível visualizar as colunas de concreto cobertas com palha trançada. As colunas de concreto preexistiam à intervenção realizada no contexto de criação da Casa do Benin, para a contenção do casarão após o incêndio de 78. Diante da impossibilidade de remoção das colunas, a arquiteta Lina Bo Bardi opta por revesti-las de palha trançada, tanto uma referência às técnicas artesanais de palha e cestaria, como ao ornamento renascentista e coluna vegetal de Francesco di Giorgio [2]. O revestimento manual consta no projeto arquitetônico original e foi realizado por artesãos da cidade de Salvador. A opção por materiais presentes na produção artesanal vernacular beninese e brasileira (como a palha, barro, madeira) é bastante recorrente no projeto arquitetônico, uma vez que buscava-se, através desses elementos, traços materiais que evidenciassem as influências recíprocas entre Brasil e África. Na restauração realizada em 2014, as palhas foram removidas deixando as colunas de concreto à mostra. [ Imagens 23 e 24 ] No vão aberto para conectar os três andares do casarão de arquitetura de estilo português foram instalados tecidos africanos. Estes também se fazem presentes entre o teto e a estrutura de iluminação da sala de exposição do acervo, no térreo. Paralelamente às paredes desta sala, foram posicionadas de forma suspensa as bandeiras ideográficas que compõem o acervo. [ Imagem 25 ] Muro-muralha que separa o prédio principal do pátio e dos demais prédios anexos. O reboco que cobria esse muro foi

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas descascado durante o processo de restauração. Sobre ele foi construída uma estrutura de vidro que se conecta com a parede superior, possibilitando a visão de ‘uma faixa de céu’ do interior da sala expositiva. A manutenção desse fragmento de muro de uma ruína do século XVIII é indicativo do caráter das intervenções sobre o complexo arquitetônico, evidenciando as múltiplas temporalidades ali presentes.

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CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções

O Parque Histórico do Pelourinho O Plano de Recuperação do Centro Histórico de Salvador havia sido elaborado em 1986 pela equipe de arquitetos Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki a convite da prefeitura. O projeto planejava uma intervenção urbanística em todo o centro histórico. Como nos conta Marcelo Ferraz, tratava-se de uma região que fisicamente encontrava-se em estado de ruína, entretanto seguia sendo “densamente habitada por gente que, à sua maneira e com os meios ao seu alcance, conservava ali a vida urbana” [3]. Os imóveis então em ruínas haviam sido há muito abandonados pelos seus proprietários oficiais, em decorrência de crises econômicas e alterações urbanísticas, sendo então ocupados por diversos outros habitantes, que passaram a constituir suas vidas nesses casarões abandonados. No momento da intervenção, o centro histórico da cidade era compreendido como um problema social pelos órgãos administrativos e pelas elites locais, que julgavam a região como um lugar de pobreza e marginalidade. Frente a esse cenário, havia um grande interesse político em projetos de restauração do centro histórico, uma vez que este aliava discursos em torno da preservação do patrimônio com interesses de exploração econômica da região e, ainda, ancorava tensões e disputas sociais em relação aos atuais habitantes. O projeto de “vitalização” do Pelourinho gestado pela prefeitura a partir de 1986, buscava confluir os discursos de preservação do patrimônio arquitetônico histórico a determinado reconhecimento da produção cultural da cidade de Salvador. A perspectiva cultural como condução da gestão política caracterizou a então gestão que assumia a prefeitura a partir daquele ano. A noção antropológica de cultura era incorporada na política, tanto de forma retórica e de marketing, quanto nas diretrizes e implementação dos projetos que passaram a vigorar [4].

[3] (FERRAZ, 2008, p. 01) [4] (KOPP, ALBINATI, 2005)

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

Nesse sentido, o projeto defendia uma intervenção atenta à “alma popular da cidade”, focando na preservação das manifestações culturais e formas de vida nela presentes, propondo uma abordagem socioeconômica que visava o desenvolvimento de uma economia alternativa baseada nas práticas já existentes naquele contexto. A proposta se apresentava como uma contraposição a determinados projetos de intervenção no centro histórico que já vinham sendo esboçados e que, anos mais tarde, ganharam muito mais vigor: intervenções que preconizam a expulsão da população local através de uma perspectiva voltada majoritariamente ao turismo e aos interesses econômicos das elites do capital financeiro. Portanto, nessa outra concepção tratava-se de um projeto que ao invés de propor o esvaziamento e expulsão dos habitantes da região, propunha a incorporação desses habitantes, a partir das suas especificidades econômicas e culturais. Como solução técnica para esse novo projeto de recuperação, foram desenvolvidos alguns módulos pré-fabricados em argamassa armada que poderiam ser utilizados para edificar estruturas de sustentação e contenção para os imóveis em ruína. A utilização de tal tecnologia, então desenvolvida pelo arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, para ser executada pela Fábrica de Equipamentos Comunitários (FAEC), possibilitaria uma recuperação rápida e econômica, considerando as especificidades da tecnologia pré-fabricada, como baixo custo, leveza, reversibilidade e durabilidade. Assim, adotava-se um modelo de restauração a partir do princípio da honestidade de propósitos, conforme recomendado pela Carta de Veneza, deixando aparentes as intervenções arquitetônicas contemporâneas, ao mesmo tempo que evidenciava o estágio de ruína a que a edificação chegou anteriormente à sua restauração.

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Assim, pretendia-se realizar gradualmente a recuperação dos imóveis, operando uma restauração em “efeito-dominó”, ou seja,


CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções

recuperar uma ruína ou imóvel desabitado, transformando-o em uma habitação plurifamiliar, composta por um conjunto de apartamentos. Para esses apartamentos seriam transferidas as famílias que habitavam as edificações adjacentes, para que em seguida esses imóveis fossem recuperados e assim sucessivamente. Dessa forma, considerando que cada imóvel seria ocupado por múltiplas famílias e que se destinava a funções não apenas residenciais, pretendia-se transformar os quintais localizados nas partes traseiras das construções, os “miolos de quadra”, em áreas comunitárias, jardins coletivos, com vegetação e múltiplas possibilidades de utilização. Assim mantinha-se o traçado original do Pelourinho e o processo de restauração seria pensado por quarteirões, não apenas por imóveis isolados. Como aponta Marcelo Ferraz: “um exemplo foi executado e com grande sucesso: a Casa e Restaurante do Benin. Do Largo do Pelourinho, de urbanismo “seco”, ninguém poderia imaginar que, cruzando poucos metros, atravessando uma portada, poderia encontrar coqueiros altos, trepadeiras e até uma cascata de água. E assim deveriam ser todos os miolos de quadra, de jardins ‘secretos’”.

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[ Imagens 26 e 26.1 ] Em paralelo à intervenção realizada na Casa do Benin estava sendo realizado, pela Fundação Gregório de Mattos, o Projeto Terreiros, responsável por restaurar diversos terreiros de candomblé na cidade de Salvador. As obras foram realizadas pela Fábrica de Equipamentos Comunitários (FAEC), que também forneceu as tecnologias para a intervenção na Casa do Benin e outras intervenções no centro histórico. Na ocasião da inauguração da Casa do Benin, fez parte da programação da comitiva oficial do Benin a visita a diversos terreiros seculares de Salvador. [ Imagem 27 ] Início das obras de recuperação da Casa do Benin no ano de 1987.

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[ Imagem 28 ] O Pelourinho visto do terraço da Casa do Benin.

IMAGENS

CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas


[ 26 ]


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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

O pátio O pátio interno da Casa do Benin, um protótipo de como poderiam ser os miolos de quadra de todo o centro histórico caso o projeto de 86 tivesse sido implementado, constitui-se como o espaço comum entre os três casarões, conectando o prédio que abriga salas expositivas ao anexo, planejado para abrigar a residência do representante do Benin à cozinha e restaurante. Em seu projeto inicial, o pátio contou com um paisagismo composto por meio da instalação de coqueiros e enramadeiras, uma cascata de água e uma construção especial para abrigar o restaurante. Também contava com uma entrada independente, através de três portas preservadas da fachada original de um dos casarões. Os projetos relacionados ao pátio interno e à praça anexa evidenciam as tentativas contidas no projeto inicial de estabelecer uma arquitetura e funcionamento para o espaço conectado com o entorno. Assim, o pátio conectava não apenas os três edifícios que compõem o complexo da Casa do Benin, como também era propício a múltiplas utilizações que aproximassem a população do entorno ao local. Para além do pátio interno, o projeto também previa a existência de um outro espaço comunitário na praça anexa à residência do representante beninense, a Praça das Flores, espaço que poderia ser utilizado para a produção e comercialização de artesanato e realização de oficinas e trocas de saberes.

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A proposta era que a praça fosse diretamente conectada à Rua das Flores e que o pátio funcionasse como um verdadeiro “oásis urbano”. Além do conforto térmico previsto por meio da sombra dos coqueiros, o pátio abrigaria o restaurante e seria um espaço de convivência. Nesse sentido, configura-se como um aglutinador das múltiplas funções às quais o complexo arquitetônico se destinava. Ao longo dos últimos 30 anos, nas sucessivas reformas


CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções

pelas quais a Casa do Benin passou, bem como em decorrência das mudanças de funções que foram atribuídas, alguns desses elementos constituintes do projeto original desapareceram. Todavia, o pátio continua sendo ativado para diversas atividades, sendo um espaço múltiplo que conjuga a utilização para fins de trabalho, comercialização de alimentos, transeuntes e como um espaço de lazer e encontros.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [5] (EKERMAN, 2005)

[ Imagem 29 ] Projeto para o pátio da Casa do Benin criado por Lina Bo Bardi. Neste projeto, podemos ver o restaurante e os coqueiros que foram dispostos em toda a extensão do pátio. Também é possível ver o projeto da Praça das Flores, no espaço anexo à Casa do Benin. A proposta paisagística tem nos coqueiros um elemento recorrente. Este pode ser pensado como estratégia de aproximações entre as paisagens do Brasil e do Benim. No projeto não executado, da Casa do Brasil em Ouidah, a concepção do pátio traseiro estabelece uma simetria com o da Casa do Benin, sobretudo através da recorrência dos coqueiros e da utilização da palha de coqueiro na cobertura de ambos os restaurantes. [ Imagens 30, 31 e 31.2 ] Nestas fotos, de Marcelo Ferraz, podemos ver o Restaurante do Benin em funcionamento no pátio interno, à sombra dos coqueiros. [ Imagem 32 ] Os coqueiros existiram no pátio da casa do Benin entre 1988 e 2014, quando foram retirados em uma das restaurações realizadas. Ainda hoje podemos observar o local onde se encontravam os coqueiros, por meio das marcações circulares que permaneceram no calçamento em paralelepípedo.

[ Imagens 37 e 38 ] O contraste entre o muro de barro, preservado de construções anteriores, e as paredes de argamassa armada pode ser visto como uma síntese de alguns aspectos da arquitetura da Casa do Benin, seja pelo paralelismo de técnicas construtivas e materiais (barro e concreto) como correlatos do binômio moderno/vernacular, seja pela evidente coexistência temporal, síntese da própria relação passado/presente. A parede de concreto foi produzida a partir de uma forma pré-moldada específica, desenvolvida pela FAEC (Fábrica de Equipamentos Comunitários) especialmente para as intervenções da arquiteta Lina Bo Bardi no centro histórico de Salvador. Também encontramos essa forma pré-moldada em outros trabalhos realizados pela arquiteta como na restauração do complexo da Ladeira da Misericórdia e na sede do bloco afro-baiano Casa do Olodum, no Pelourinho. A FAEC (Fábrica de Equipamentos Comunitários) foi um projeto desenvolvido pelo arquiteto João Filgueiras Lima (Lélé) a partir de 1986. A FAEC se configurava como uma indústria municipal de equipamentos urbanos que buscava atender às necessidades construtivas da cidade de forma eficiente e com baixos custos. A fábrica propôs um sistema de industrialização para a construção civil baseada em argamassa armada e aço [5].

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[ Imagem 39 ] No ano de 2019 o Intervalo Fórum de Arte propôs a realização de uma série de ações artísticas relacionadas aos acervos da Casa do Benin e do MAFRO/UFBA. Uma das ações realizadas no contexto do projeto Fluxos: acervos do Atlântico Sul foi a oficina Objetos e histórias da diáspora africana, ministrada por Lia Krucken e Nympini Khosa.

IMAGENS

[ Imagens 33, 34, 35 e 36 ] Vistas do pátio interno da Casa do Benin e de alguns dos seus elementos construtivos. Através das vistas do pátio é possível notar os principais materiais utilizados na intervenção arquitetônica, bem como alguns dos elementos dos casarões antigos que se preservaram.


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CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções

O Restaurante do Benin

[6] (SOGOBA, 2019)

Para a construção do Restaurante do Benin, foi projetada uma

arquitetura em formato de elipse, com paredes baixas, revestidas

com reboco grosso e coloração próxima ao barro, coberta de palha, com estrutura de madeira elevada, permitindo circulação de ar e entrada de luz natural. Para o seu interior foi projetada uma

única mesa comunitária, em formato também anelar, composta por quatro peças de madeira maciça, cercadas por 40 cadeiras

na parte interior e exterior da elipse. A circularidade da arquitetura, a proposição de uma experiência coletiva e propensa à

interação, os materiais utilizados pretendiam fazer referência às construções vernaculares africanas.

Para a concepção dessa construção, tomou-se como referência os

Tata Sombas, construções vernaculares do povo Batammariba, que atualmente ocupa a região de Koutammakou, localizada entre

o Benin e o Togo. São arquiteturas presentes em uma região rural e são construídas em barro, madeira e palha. Trata-se de

uma arquitetura fortificada, com torres, pátio interno e andares

que possibilitam, para além da habitação, o armazenamento de grãos, água e dos animais no interior da construção [6].

Tal estrutura arquitetônica possibilita o fechamento da construção como forma de defesa, preservando em seu interior os mantimentos necessários para a sobrevivência. Esse aspecto foi

fundamental em diversos momentos históricos de conflito do povo Batammariba, tanto em disputas com outras populações

locais, como na resistência à colonização francesa. Trata-se de uma complexa estrutura arquitetônica, sendo os arquitetos

aqueles que ocupam uma posição de prestígio nessa sociedade, havendo um sistema de ensino e aprovação das construções, que mantém as características das mesmas.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

Para a arquitetura do Restaurante do Benin foi desenvolvida uma estrutura construtiva a partir de uma forma modular, criada por Lina e Lelé. Esse módulo foi construído a partir da tecnologia pré-fabricada executada pela FAEC. Por meio da disposição desse módulo em diferentes sentidos, foi desenhado e executado o anexo que abrigou o Restaurante do Benin. O restaurante constituía um aspecto importante tanto do projeto arquitetônico, como museal. Ali pretendia-se servir pratos da culinária afro-brasileira, proporcionando um espaço de interação e descontração no qual seria possível uma experiência gastronômica que gerasse reflexões em torno às trocas alimentares entre o continente africano e a culinária brasileira.

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CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções [ Imagem 40 ] Restaurante do Benim ou Tata Somba, como popularmente é conhecido em referência à arquitetura beninense. Nessa imagem é possível perceber a estrutura modular construída para o restaurante. A estrutura do restaurante tem a forma de elipse, com duas entradas longitudinais. As paredes são inteiramente compostas pelo encaixe da estrutura modular de argamassa armada revestida com reboco grosso, atribuindo à arquitetura uma textura que se aproxima das construções de barro.

[7] Espaço relacional proposto por Lucas Feres, Lucas Lago, Sarah Marques e Yan Graco, no contexto da exposição Nkaringana, realizada na Casa do Benin em 2019.

[ Imagem 41 ] Miniatura arquitetônica de Tata Somba que integra o acervo da Casa do Benin, assinada por Iron de Fuite e datada de 2006. A peça reproduz as estruturas características da construção vernacular beninense.

IMAGENS

[ Imagem 42 ] Fotografia realizada por Pierre Verger em 1936, na região noroeste do Benin de Natitingou, da construção arquitetônica do Tata Samba. Pierre Verger realizou diversas viagens para algumas regiões da África ao longo da sua vida, realizando uma extensa pesquisa etnográfica, documental e fotográfica sobre os povos, o território e as práticas culturais e religiosas e também arquitetônicas de alguns países da África. Algumas pesquisas viriam a ser apresentadas no livro Fluxo e refluxo: A Diáspora Africana, publicado no Brasil em 1987 pela editora Corrupio, criada por Arlete Soares especialmente para editar a obra do etnólogo e fotógrafo. As percepções presentes nessa obra, bem como as ideias e articulações realizadas por Verger, constituem-se como uma linha estruturante do pensamento e concepção da Casa do Benin na Bahia. [ Imagens 43 e 44 ] A concepção arquitetônica do restaurante do Benim se apresenta portanto como um elemento central para materialização arquitetônica dos discursos e conceitos em torno da concepção e criação da Casa do Benin na Bahia. Dado os fluxos arquitetônicos históricos entre a Bahia e o Benin, o restaurante do Benin propõe uma reinterpretação modernista da arquitetura vernacular beninense a partir de elementos significativos das questões arquitetônicas da Salvador da década de 80. A forma modular que foi especialmente desenvolvida para essa construção também trazia consigo uma série de concepções sobre as formas de habitação, construção e intervenção arquitetônica vinculadas ao projeto desenvolvido por Lelé e executado pela FAEC. Nas imagens acima, vemos uma unidade da forma modular utilizada para a construção do restaurante e o desenho do projeto arquitetônico do restaurante a partir dessa estrutura modular. Por fim, a imagem de algumas miniaturas arquitetônicas dessa forma modular desenvolvidas em 2019 no contexto da instalação “Oficina-mutirão de arquiteturas impossíveis” [7].

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

As residências beninenses Um outro aspecto importante do projeto consistia no estabelecimento de trocas constantes entre Brasil e Benin por meio da construção de residências para beninenses na própria Casa do Benin. Foram construídas duas residências. No último andar do prédio principal foram construídos alojamentos coletivos, planejados para receber artistas e estudantes beninenses para a realização de projetos de pesquisa relacionados ao Brasil. A parte dos quartos dos estudantes é conectada ao andar inferior por meio de uma escada metálica de estrutura leve. Foram construídos quatro quartos e um banheiro coletivo. Já a residência projetada para receber o representante diplomático do Benin e sua família foi construída no edifício anexo. Conectada ao pátio por uma escada, esta residência ocupa o primeiro e segundo andar, sendo composta por sala, cozinha, quartos e um terraço com uma dupla vista, tanto para o centro histórico, como para o próprio pátio interno onde está localizado o restaurante. O edifício anexo foi construído a partir da restauração de dois imóveis cujas fachadas eram as únicas partes que haviam permanecido em pé. Portanto, para sua construção, os pré-fabricados em argamassa armada foram amplamente utilizados. O projeto também contou com a construção do mobiliário para a casa, entretanto a vinda do representante beninense nunca se realizou e outros usos foram posteriormente atribuídos ao espaço.

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IMAGENS

CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções

[ Imagens 45 e 46 ] Escada de metal que conecta o terceiro pavimento do prédio principal, onde se localiza o auditório, com o 4° pavimento, projetado originalmente para servir de residência aos estudantes beninenses. O pavimento é composto por 4 quartos com armários e mesas de trabalho fixos e um banheiro coletivo. [ Imagens 47, 48, 49 e 50 ] Vistas da residência do representante do Benin construída a partir das fachadas de dois casarões, conectada ao restante do complexo pelo pátio central. Para a residência, optou-se pela larga utilização das estruturas modulares de argamassa armada, sendo construída uma casa de dois andares.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

O mobiliário O mobiliário desenvolvido para a Casa do Benin é fruto da

confluência entre a trajetória de atuação no design de móveis

de Lina Bo Bardi e a atuação dos arquitetos Marcelo Ferraz, Marcelo Suzuki e Francisco Fanucci, que naquele momento estavam criando uma nova marcenaria, a Baraúna.

A Marcenaria Baraúna foi fundada em 1986, a partir do maior contato dos arquitetos com a movelaria na colaboração com o

desenvolvimento do projeto do Sesc Pompéia, também realizado por Bo Bardi.

Foi a partir desse contexto, e motivados por uma insatisfação

com as peças de mobiliário disponíveis à época no mercado

brasileiro, que um novo mobiliário foi projetado para a Casa do Benin e para alguns outros espaços que estavam sendo restaurados pelos arquitetos no centro histórico, como o Teatro Gregório de Mattos, a Casa do Olodum e o restaurante do Coaty.

Por uma questão logística e de tempo, os móveis foram plane-

jados a partir da parceria de Lina com a Marcenaria Baraúna, entretanto não foram construídos pela mesma, sendo executados em Salvador.

O mobiliário da Casa do Benin, em geral, é marcado pelo uso

de madeira maciça de origem brasileira, estrutura mínima, sin-

tetizando formas e uso de materiais e o desenvolvimento de

móveis que convocam o usuário a uma postura ativa por meio

do desenvolvimento de peças projetadas para um “conforto duro”. Um espaço central para compreendermos alguns aspectos do

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mobiliário da Casa do Benin é o restaurante. Para ele foi desen-

volvida uma única mesa em formato anelar, construída em


CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções

madeira maciça. Projetada como uma mesa comunal, a circu-

laridade e a possibilidade de ser utilizada tanto a parte externa como interna da elipse convidam o público do restaurante a uma

experiência gastronômica mais comunitária, favorecendo trocas

e interações por meio do projeto arquitetônico e de mobiliário. Também para o restaurante foi desenvolvida uma peça que

hoje em dia é considerada um destaque do design brasileiro, a

cadeira Girafa. Idealizada tendo como inspiração o mobiliário

desenvolvido pelo arquiteto húngaro Alvar Aalto, em especial

seu famoso banco de três pés, para a construção da cadeira Girafa

foi utilizada madeira maciça bastante dura, o Angelim Pedra, conferindo à peça mais peso e resistência.

O projeto da cadeira foi apresentado à equipe idealizadora do

Projeto Bahia/Benin em Salvador e também a alguns represen-

tantes beninenses. Foi justamente nessa ocasião, na visita de uma

comitiva oficial do Benin e do então Ministro do Comércio, Artesanato e Turismo, Soulé Dankoro, à casa de Lina Bo Bardi em São Paulo que a cadeira foi assim batizada. Posteriormente toda uma linha de móveis foi desenvolvida pela Marcenaria

Baraúna a partir da cadeira Girafa, como bancos, mesas, bancos de bar e cadeiras bordadeiras.

Outra importante cadeira que compõem o mobiliário da Casa

do Benin na Bahia é a Frei Egídio. Projetada nesse mesmo contexto, foi desenvolvida a partir de tradicionais cadeiras flo-

rentinas do século XVI, as Cadeiras Fratianas. As muitas ripas

de madeira da cadeira de inspiração foram sintetizadas pelos arquitetos em apenas três gomos, conformando uma cadeira de formas simples e contemporâneas.

Essas cadeiras leves e dobráveis foram utilizadas para equipar

o auditório localizado no terceiro andar da Casa do Benin,

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

facilitando múltiplas disposições e rearranjos. As cadeiras Frei Egídio também foram utilizadas no projeto do Teatro Gregório de Mattos, construído logo em seguida no centro histórico de Salvador. Também foi projetado e construído o mobiliário expositivo para apresentação do acervo e o mobiliário para o que seria a residência do representante diplomático do Benin, no edifício anexo. Infelizmente o mobiliário desenvolvido para a residência se perdeu no decorrer das mudanças de utilização atribuídas ao edifício anexo.

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CONSTRUÇÕES arquiteturas, paisagens e intervenções

[ Imagem 51 ] Mesa de madeira em formato de elipse projetada para o interior do restaurante acompanhada das Cadeiras Girafa. [ Imagens 52 e 53 ] Cadeira Girafa, peça que compõe o mobiliário da Casa do Benin. [ Imagens 54 e 55 ] Cadeira Frei Egídio, peça que compõe o mobiliário da Casa do Benin.

IMAGENS

[ Imagem 56 ] O nome da cadeira Girafa surgiu durante uma visita do ministro beninense Soulé Dakoro à Casa de Vidro no contexto do Projeto Bahia-Benin. [ Imagem 57 ] Banco de tubo azul celeste. Este banco foi inicialmente desenvolvido por Lina Bo Bardi entre os anos 50 e 60, integrando o projeto original da Casa de Vidro, justamente por isso a cor utilizada para revestir a tubulação se aproxima da cor das pastilhas do piso da casa de São Paulo. No projeto original o banco foi construído com assento revestido por material próximo à formica, da cor preta. Já para os bancos tubulares da Casa do Benin, o assento revestido de preto foi substituído por madeira maciça. [ Imagens 58 e 59 ] Banco alto desenvolvido no ano de 1986 por Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki para o Bar Gregório de Mattos no complexo da Barroquinha, também no contexto das obras municipais de recuperação do Centro Histórico de Salvador. Posteriormente foi também escolhido para compor o mobiliário da Casa do Benin.

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CONSTRUCTIONS architectures, landscapes and interventions

CONSTRUCTIONS

ARCHITECTURES, LANDSCAPES AND INTERVENTIONS

The architecture of Casa do Benin involves a conjoining of technical and formal aspects, which serve as a record of an urban project in the historic centre of Salvador that would be quite different from what followed in the decades after. In this sense, we encounter elements of modernist architecture, specific discourses approximating African and Brazilian cultures and landscapes, and then a pilot project bearing a model of restoration which was due to be extended across the region.

[1] Part of the text written by Mário Kertész in 1988 for the África Negra exhibition catalogue.

Mário Kertész, the then Mayor of Salvador, wrote thus in 1988: “Casa do Benin rises up as a landmark in two ways. It is a reference for the recuperation and revitalization of the historic centre of Salvador, especially so, as the first old mansion to be reconstructed following a new concept of architectural intervention in this urban area. And, it is a reference, also, in a process of practically re-establishing relations between Bahia and Black Africa” [1]. The architectural intervention of Casa do Benin in Pelourinho, developed between 1987 and 1988, and it became an important initiative in moving towards the planned project for the restoration of the region. It was a kind of pilot project, centering on three mansions from different epochs that were in varying states of conservation. It was also conceptualised using concepts and techniques which would be later used in the recuperation of many parts of Salvador´s historic centre. Its construction, in turn, served as proof of the architectural efficiency of the project’s intentions, as well as being a valuable showpiece for the municipal government, which was striving to find ways of making such a recuperation of the historic centre feasible. The project was carried out by Lina Bo Bardi, with the collaboration of Marcelo Ferraz and Marcelo Suzuki. Casa do Benin was developed through the restoration of three different properties: a townhouse from the 18th century which had suffered a fire in 1978, and from the façades of two mansions, which were also in ruins. The façades were recuperated in a classic manner, looking to reconstruct their original characteristics from previous centuries. The interiors of these old houses were then redone slightly differently, though, retaining several of the alterations that had been made already during the 20th century, whilst also according with the modernist architecture, and the new functional purpose of the space. The three old residences were connected internally so as to house a cultural space made up of exhibition rooms, an auditorium, and lodgings for exchange students, as well as a restaurant, and a residence for a diplomatic representative from Benin. Simultaneously to this restoration, Lina and Verger were also planning the collection of Beninense artisan and art pie-

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [2] (PIRAZZOLI, 2018, p.135)

ces which would make up the permanent exhibition at Casa do Benin. In this sense, diverse elements referencing Benin’s artisanal production and its links with Brazilian culture and craftsmanship were incorporated into the architectural plans. [ Images 12, 13, 14 e 15 ] Between the 1950s and 1970s, before the fire, the mansion which now houses Casa do Benin was home to various enterprises, such as a ´dry and liquid´ goods and grocery store, shoe factories, and a photography studio. [ Images 16, 17 e 18 ] The large house on the corner of Ladeira do Taboão and Ladeira do Carmo was the first to be renovated, being inaugurated on the 6th of May 1988. The first image shows its restored façade shortly before its opening. The second photo shows the entire Casa do Benin space, made up of parts of three mansions. After the inauguration of the first building, the two others beside it were restored to house the Benin Restaurant and the residence of a Benin representative, with the refurbishments concluded and the inauguratation held in November of the same year. In the third image, taken in 2021, we can see the rear view of the architectural complex which makes up Casa do Benin. [ Images 19, 20 e 21 ] Looking at the interior of Casa do Benin, we can see the concrete columns covered with woven straw. These concrete columns were already there, before the new design project, serving as a precautionary structure to support the building after the fire of 1978. Given the impossibility of removing these columns, the architect Linia Bo Bardi decided to give them this outer coating of woven straw, in part, in reference to the craftsmanship of thatching and basket making, but also just as much to the renaissance décor and vertical landscaping of Francesco di Giorgio [2]. This manually crafted overlay featured in the original designs and was done by artisans from Salvador. The decision to use common materials from vernacular Beninese and Brazilian craftmanship (such as straw, mud, and wood) recurs significantly through the architectural planning, with this approach meant to evidence through these elements, material characteristics that emphasised reciprocity between Brazil and Africa. In the restoration of 2014, the straw was later removed, leaving the columns of concrete exposed once again. [ Images 23 e 24 ] The open gap which connects the three floors of the Portuguese-style mansion, where African textiles have been hung. These can also be seen between the ceiling and the lighting structure in the exhibition room on the ground floor. Parallel to the walls of this room, decorative flags and draperies are suspended as part of the collection.

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[ Image 25 ] The high wall which separates the main building from the patio and the annex buildings. The plasterwork used to cover this wall was scraped off


CONSTRUCTIONS architectures, landscapes and interventions during the restoration work. On top of it, a glass structure was built which connects it to the upper wall, enabling the visitor to see a ‘strip of sky’ from inside the exhibition room. Keeping this section of wall from an 18th century ruin intact is indicative of wider interventions within the architectural setting, for example, choosing to highlight fragments of the different constructions and the multiple temporalities present there.

[3] (FERRAZ, 2008, p. 01) [4] (PIRAZZOLI, 2018, p.135)

Pelourinho Historic Park The Recuperation Plan of the Historic Centre of Salvador was elaborated in 1986 by the architects Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz, and Marcelo Suzuki, on invitation by the municipal government. The project planned urbanistic interventions across the whole of the historic centre. As Marcelo Ferraz put it, this was a region physically lying in ruins, but which at the same time was ‘densely inhabited by people who, in one way or another, and through whatever means possible, were conserving urban life there’ [3]. Ruined properties had been abandoned long beforehand by their official owners, as a result of economic crises and urban changes, but were later be occupied by a range of other residents, who in turn made them their own homes. At the time of the intervention, then, the city´s historic centre was presented as a social problem by government bodies and by local elites, who deemed it to be a place full of poverty and crime. Against this backdrop, there was huge political interest in restoration projects in the centre, since around these there was a wide range of discourses about the preservation of heritage, interests in the economic development of the region, as well as ongoing tensions and social disputes in relation to its current inhabitants. The “revitalization” of Pelourinho, managed by the municipal government from 1986 onwards, sought to join discourses about preserving the historical architectural heritage together with recognition of the cultural significance of Salvador, for example. And this use of a cultural perspectiv of as a part of the political conduct of the administration was one notable characteristic of the municipal government around this time. An anthropological notion of culture could be seen incorporated into politics, here, in particular, just as much in rhetoric and marketing, as in the guidelines and the implementation of the projects that came into force [4]. With this in mind, the project defended a type of intervention aware of the needs of the “popular soul of the city”, and one focussing on preserving cultural manifestations and ways of living already present there. It proposed a socioeconomic approach per se, which aimed to develop an alternative economy based upon already existing practices in their local contexts. The proposal thus was positioned in counterpoint to certain other intervention projects, which had already been in discussion for the historic centre, and which, years later would gain much more traction. These were interventions which favoured the removal of the local popu-

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives lation, through a perspective mainly focused on tourism and the economic interests of financial elites. In contrast to these, in the viewpoint put forward by the project in question, instead of proposing the expulsion and emptying of inhabitants from the region, the idea would be seek to include and incorporate these local inhabitants, based accordingly on their economic and cultural specificities. One technical solution for the new recuperation project was the designing of prefabricated sections of reinforced cement, which could be used to build in structural support and containment for buildings in states of ruin. The use of such technology, was developed by the architect João Filgueiras Lima, or Lelé, and manufactured by the Fábrica de Equipamentos Comunitários (FAEC), and this enabled a fast and economical recuperation owing also to the characteristics of the materials utilized, which were low cost, light in weight, reversible, and durable. In short, the model of restoration adopted was based on what is referred to as the principle of honesty and purpose, as recommended by the Venice Charter. This would leave contemporary architectural alterations visible and at the same time show the stage of ruin the building had reached before its renovation. In this way, the idea was to gradually restore the buildings with a kind of ‘domino effect', that is to say, recuperate one ruin or an empty house and transform it into a multifamily residence made up of a series of apartments. Families inhabiting adjacent buildings in poor states of conservation would move into these new apartments, so that these other buildings could be recuperated successively. Considering that each building would be occupied by multiple families, and that not all of them would be for residential purposes, another intention was to turn disused spaces around neighbourhood blocks and squares, known locally as ‘miolos de quadra’, into community areas, and collective green zones, with a range of possible uses. By doing this, the original layout of Pelourinho would be preserved, and the restoration project would be considered from block to block, rather than just from building to building. As Marcelo Ferraz put it, ‘one example that was completed with great success here was Casa do Benin, and its restaurant. From Largo do Pelourinho, with its “dry” urban aspect; nobody could have imagined that, just metres away on the other side of a doorway, they would find tall palm trees, vines, and even a water fountain. That's how all block gardens should be, like “secret” gardens.’

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[ Images 26 e 26.1 ] In parallel to the intervention at Casa do Benin, the Fundação Gregório de Mattos was working on Projeto Terreiros, responsible for restoring various Candoblé sites in the city Salvador. The work was carried out by the Fábrica de Equipamentos Comunitários (FAEC), which also provided the technology for Casa do Benin, and the entire historic centre. When Casa do Benin was inaugurated, the official delegate from Benin visited several of Salvador's secular Candomblé sites.


CONSTRUCTIONS architectures, landscapes and interventions [ Image 27 ] The beginning of restoration works at Casa do Benin in 1987. [ Image 28 ] Pelourinho district seen from the terrace of Casa do Benin. The Patio The internal patio at Casa do Benin served as a prototype showing how block gardens could have been all over the historic centre, if, that is, the 1986 project had been implemented. The patio occupied a communal space in-between the three mansions, interconnecting the building with exhibitions to the annex, with plans for a residence for a representative of Benin, a kitchen, and a restaurant. In the initial landscaping plans, the patio itself was to feature coconut palms and enramadeira plants, a water fountain, and a specially-designed construction to house the restaurant. It was also going to have its own entrance, through which people would arrive by passing through three doors which were preserved from the original façade of one of the mansions. The designs related to the internal patio and the annex show an attempt to create a project which, from the outset, sought to establish the kind of architecture and functionality which would connect the space to its surroundings. The patio did not just connect the three buildings that make up Casa do Benin, then, but also, it could be seen as conducive to particular usages which would attract the local population into the area. Apart from the internal patio, the project also envisaged another community space in the square, beside the residence of the representative from Benin. The “Praça das Flores” (Square of Flowers) is it was known was to become a space that could be used for the creation and trade of arts and crafts, as well as for workshops, and exchanges of ideas. The proposal was that the square would connect directly to Rua das Flores and that the patio functioned as a kind of "urban oasis". Besides the relief that the shade of the palms would provide, the patio itself would form a part of the restaurant and become a meeting place. In this sense, it was configured in a way to bring together many of the functions for which the architectural complex had been intended. Over the past 30 years, through the successive renovations that Casa do Benin has undergone, as well as due to changes in functions that became attributed to it, some of the constitutive elements from the original project ended up disappearing. However, the patio continues to be used for various activities, being a space which combines multiple uses, for work purposes, food markets, passers-by, leisure, and as a meeting space. [ Image 29 ] Patio project created for Casa do Benin by Lina Bo Bardi. In this patio project we can see the restaurant and coconut palms that surround the entire

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [5] (EKERMAN, 2005)

extension of the patio. It is also possible to see Praça das Flores in Casa do Benin’s annexed space. The landscaping design recurrently emphasises the palm tree aspect and this can be seen as one of the elements of the project that encourages us to draw parallels between the landscapes of Brazil and Benin. In the other project that was never actually materialised, in the Casa do Brasil in Ouidah, the concept of the rear patio was supposed to create a symmetry with Casa do Benin, above all, through the recurrence of coconut palms and the use of palm leaf roofs above both restaurants. [ Images 30, 31 e 31.2 ]In these photographs, by Marcelo Ferraz, we can see the Benin Restaurant up and running on the internal patio in the shade of palm trees. [ Image 32 ] The palm trees existed on the patio of the Casa do Benin between 1988 and 2014, whereafter they were removed during one of the restoration sessions. We can still see where the palm trees used to be when we look at the circular beds embedded in the cobble stones. [ Images 33, 34, 35, 36 e 37 ] Views of the internal patio of Casa do Benin and of some of its design details. Via these images we can note the main materials used in the architectural intervention, as well as some of the other original features of the old mansions which were preserved. [ Images 38 e 39 ] The contrast between the clay wall, preserved from previous constructions, and the reinforced mortar walls, can be seen as a synthesis of particular aspects of the architecture of Casa do Benin - whether through the parallelism of the construction techniques and materials (clay and concrete) correlating the modern and vernacular, or through what is made evident as temporal coexistences as syntheses of past and present relations. The concrete wall was created by means of a specific prefabricated mould, developed especially by the FAEC (The Communitarian Equipment Factory) for Lina Bo Bardi´s work in the historic centre. We find this prefabricated formula in other work carried out by the architect also, such as at a site on Ladeira da Misericórdia and at the headquarters of the Afro-Bahian percussion parade, Casa do Olodum in Pelourinho. The FAEC (Fábrica de Equipamentos Comunitários) was developed by the architect João Filgueiras Lima (Lélé) in 1986. FAEC was a public company which manufactured construction equipment, which aimed to satisfy the needs of urban development, both in an effective, and a low-cost way. This factory proposed an industrialization system for civil construction based on reinforced mortar and steel [5]. Benin Restaurant

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For the Benin Restaurant build they adopted an ellipse format, with low walls finished with thick plaster of an earthy colour, thatched, and with a raised wooden structure which allowed better circulation of air and sunlight. On the inside, there is one communal table shaped like a ring, consisting of four solid pieces of


CONSTRUCTIONS architectures, landscapes and interventions wood, with forty chairs inside and outside of the ellipse. The circular architecture encourages interaction and collective experience, whilst the materials used were intended to reference African vernacular constructions.

[6] (SOGOBA, 2019)

The main source for this construction concept was the Tata Sombas - the vernacular constructions of the Batammariba people, who currently inhabit the Koutammakou region, between Benin and Togo. Tata Sombas are rural dwellings made of earth and wood with thatched rooves. Their architectural design is fortified one, with towers, an internal patio, as well as other floors which can not only provide lodging but also space inside to store food, water, and animals [6]. Such an architectural structure enables a total closure as a form of defence, preserving inside the necessary supplies to survive. The design of these houses was of fundamental importance during various periods of conflict throughout the history of the Batammariba people, from disputes with neighbouring villages to resistance to French colonisation. The architects of these complex dwellings are highly respected in society, and there is an educational and testing system to uphold traditional techniques and maintain their characteristics. ‘Restaurante do Benin’ was built in a modular form created by Lina and Lelé, using the prefabricated model manufactured by FAEC. The restaurant annex was also designed and created through diverse usages of these different building sections. The restaurant thus became both an important aspect of the architectural design and of the museum itself. Here, Afro-Brazilian dishes would be served in an interactive and a relaxed space, where the idea was for it to be possible to have a gastronomic experience which would generate reflections on the interchange of food from the African continent to Brazilian cuisine. [ Image 40 ] Benin Restaurant or Tata Somba - as this architecture from Benin is commonly referred to. In this image we can see the modular structure of the restaurant in its ellipse format with a door at each end. The walls are made entirely of pre-moulded reinforced concrete and finished with a thick plastering and daubing effect, giving it a feel of real earthen huts. [ Image 41 ] An architect´s miniature model of a Tata Somba that forms part of the collection at Casa do Benin, created by Iron de Fuite in 2006. The piece displays the characteristic structures of vernacular building in Benin. [ Image 42 ] Photographs taken by Pierre Verger in 1936 in the north-eastern region of Benin named Natitingou, showing the Tata Somba building style. Pierre Verger went on several trips to different parts of Africa throughout his life, carrying out extensive ethnographic research and photographing local people, their lands, religions, building styles, and local customs, whilst also making documentaries about

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [7] Relational space proposed by Lucas Feres, Lucas Lago, Sarah Marques and Yan Graco, in the context of the Nkaringana exhibition, held at the Casa do Benin in 2019.

these. Some of his research would later be presented in his book ‘Fluxo e refluxo: The African diaspora’, published in Brazil in 1987 by Currupio publishing house, which was created by Arlete Soares specially to put this ethnologist and photographer´s work into print. Perspectives emanating from his work are one of the main lines of thought informing the ideas and concepts behind Casa do Benin in Bahia. [ Images 43 e 44 ] The architectural design of the Benin restaurant itself can be seen as a central element for the architectural materialization of discourses and concepts at the core of the creation of Casa do Benin in Bahia. Given the historical architectural flows between Bahia and Benin, Benin restaurant proposes a modernist reinterpretation of Benin's vernacular architecture based upon significant elements of Salvador's architectural thematics in the 1980s. The modular format specially designed for this also explored a series of new ideas about living space, construction, and architectural intervention, all linked to Lelé´s project, with collaboration from the FAEC. In the above images, we can see one of the modular pieces used in the build, and where this fits into the restaurant´s design. Finally, there can be seen an image of a few miniatures of this building technique created in 2019, for the art installation ‘Oficina-mutirão de arquiteturas impossíveis’ (Collective workshop of impossible architectures) [7]. Residences for visitors from Benin Another important aspect of the project was the ongoing exchange of information and ideas between Benin and Brazil, with the actual construction of a living space for visitors from Benin at Casa do Benin. Two residences were built. On the top floor of the main building, there are collective lodgings, designed to receive artists and students to participate in research projects about Brazil. The part with the students´ rooms is connected to the floor below by a lightweight metal staircase, and there are four bedrooms with a communal bathroom. The residence allocated to the diplomatic representative from Benin and his or her family was created in the annex building. Connected to the patio via some stairs taking you up to the first and second floors, included here are a living room, a kitchen, bedrooms, and a splendid view looking out over the historic centre in one direction and the internal courtyard with the restaurant in the other. The annex was built as part of the restoration of the two houses next door, which had fallen down, leaving only their façades. In doing this, the premade reinforced concrete parts were used to good effect. The project also included the building of furniture for this space, however, the representative never actually came, and it ended up being used for other purposes.

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[ Images 45 e 46 ] Metal stairs which connect the third floor of the main building, and where the auditorium is, to the fourth floor, which was originally designed


CONSTRUCTIONS architectures, landscapes and interventions as lodgings for students from Benin. The floor comprises four bedrooms with fixed wardrobes, and desks, and a communal bathroom. According to the architect Marcelo Ferraz, the design of the space was inspired by convents, as commonly seen in the colonial architecture of Salvador. [ Images 47, 48, 49 e 50 ] Views from the residence of the representative from Benin, built behind the façades of two ruined mansions, and connected to the rest of the house by the central patio. Being a two-storey house, the residence was built using prefabricated reinforced concrete structures. The furniture The furniture collection at Casa do Benin developed through a meeting of Lina Bo Bardi´s designs with those of the architects Marcelo Ferraz, Marcelo Suzuki, and Francisco Fanucci, who around the time were creating a new style, named Baraúna. Marcenaria Baraúna (Baraúna Carpenters) was founded in 1986, after extensive contact between architects and furniture businesses during the SESC Pompéia project, which was also created by Bo Bardi. In this context, motivated by a lack of interest in much of the furniture available in Brazil at the time, a new type of furniture was designed for Casa do Benin and for other spaces being restored in the historic centre, such as the Gregório de Mattos Theatre, Casa do Olodum, and the Coaty Restaurant. For logistical and time reasons, the furniture was planned based on Lina's partnership with Marcenaria Baraúna, however it was not built by them, but rather, in Salvador. For the furniture in general at Casa do Benin, the use of solid Brazilian woods is abundant, with minimalist structures which synthesize shapes, and using materials in a way to create pieces which encourage an active posture for the user, with a kind of “hard comfort”. A central focal point to better understand the nature of the furniture at Casa do Benin is the restaurant, for which a ring-shaped table was built from solid wood. Designed as a communal table, the roundness and the possibility to sit either inside or outside of the ring creates a sense of a community dining experience. Also for the restaurant, a chair known as the ‘Giraffe’ was designed which is now deemed an iconic piece of Brazilian furniture design. With inspiration drawn from designs by the Hungarian architect Alvar Aalto, in particular, his famous three-legged stool, a hardwood named Angelim Pedra was used for this Giraffe chair, which made it heavier, and sturdier.

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives The chair project was presented to the design team on the Bahia-Benin project in Salvador and also to some representatives from Benin. It was on this exact occasion, during a visit to Lina Bo Bardi´s house in São Paulo by an official delegate from Benin and the Minister of Trade, Arts and Crafts and Tourism, Soulé Dankoro, that the chair was ´baptised´. After that, an entire range of furniture was developed by Marcenaría Baraúna, stemming from the Giraffe chair, including benches, tables, bar stools, and casual seating. Another important chair which furnishes Casa do Benin in Bahia is the Frei Egídio, with a design inspired by traditional Florentine chairs from the 16th century, the so-called Fratina Chairs. The many wooden slats which make up these chairs were shaped by the carpenters into three segments, creating a simple and contemporary style. These light and foldable chairs were used to equip the auditorium on the third floor of Casa do Benin, providing many different seating arrangements and layouts. Frei Egídio chairs were also used in the Gregório de Mattos theatre project, constructed shortly afterwards in Salvador´s historic centre. Besides these previous examples, furniture had to be designed and produced for the exhibition as well for the residence for the diplomatic representative of Benin in the annex. Unfortunately, the furniture destined for this residence was lost over time due to the changing functions and usages of the annex building.

[ Image 51 ] Ellipse-shaped wooden table designed for the restaurant´s interior. [ Images 52 e 53 ] Giraffe chair, part of the furniture collection at Casa do Benin. [ Images 54 e 55 ] Frei Egídio chair, part of the furniture collection at Casa do Benin. [ Image 56 ] The name of the Giraffe chair came up during a visit from the Benin minister Soulé Dakoro to the Casa de Vidro (Glass House), concerning the Bahia-Benin project. [ Images 57 ] Sky blue bench. Initially designed by Lina Bo Bardi between 1950 and 1960 as part of the original Casa de Vidro Project. The colour was chosen to match the floor tiles at the house in São Paulo. In the original project the bench was made with a black formic-like material. At Casa do Benin, however, the seat finished in black was swapped for a solid wood top.

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[ Images 58 e 59 ] Tall stool designed in 1986 by Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz


CONSTRUCTIONS architectures, landscapes and interventions and Marcelo Suzuki for the Gregório de Mattos Bar in the Barroquinha complex, also in the context of municipal works in Salvador´s historic centre. Afterwards, this was also chosen to be part of the furniture collection at Casa do Benin.

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[ CONSTRUÇÕES ]

A CASA DO BENIN COMO CANTEIRO DE OBRAS

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MARCELO FERRAZ Arquiteto formado pela FAU-USP em 1978, é sócio do escritório Brasil Arquitetura, onde tem realizado vários projetos com premiações no Brasil e exterior. É também sócio fundador da Marcenaria Baraúna, onde desenvolve projetos de mobiliário desde 1986.


[ CONSTRUÇÕES ] a casa do benin como canteiro de obras

É difícil falar da Casa do Benin sem falar na volta de Lina Bo Bardi para a Bahia, desse segundo momento que durou quatro anos, de 1986 a 1990. Foi uma história muito interessante, porque Lina não queria mais saber da Bahia depois do período final dos anos 50, começo dos 60. Comecei a trabalhar com Lina em 1977, trabalhei 15 anos com ela, que dizia que a Bahia era uma gaveta fechada na sua vida - não queria voltar, não queria saber, e a gente sempre insistindo: vamos para a Bahia! Mas, neste momento, acho que uma conjunção boa aconteceu, o Mário Kertész estava na Prefeitura, tendo Roberto Pinho como secretário de projetos especiais, extraordinários, chefe também da Casa Civil. Começamos a tramar a volta de Dona Lina. Posso dizer com bastante segurança que foi uma trama bem montada, por Roberto, por mim, com a minha colaboração, para conseguirmos levar Lina de volta à Bahia, para fazermos o trabalho que foi feito nesses anos, e teríamos feito muito mais se tivesse tido mais condições, mais tempo. A trama foi porque ela se recusava a ir à Bahia, se recusava a trabalhar, já havia sido convidada várias vezes. Então Roberto armou uma premiação, o Prêmio 2 de Julho, ‘vamos trazê-la para a Bahia para receber a Comenda 2 de Julho’, até aquele momento só o Dorival Caymmi tinha sido agraciado com essa Comenda. Ela não teve como escapar, Mário Kertész liga para ela, manda um convite formal muito bonito e então marcamos a ida para a Bahia.

[1] Texto construído a partir da transcrição de depoimento realizado por Marcelo Ferraz em julho de 2020, no contexto do projeto Diálogos: Casa do Benin (Casa do Benin - FGM).

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [2] Referência ao texto Cinco anos entre os ‘brancos’, escrito em 1967 por Lina Bo Bardi sobre o período anterior em que viveu em Salvador. (N. do E.)

Hotel da Bahia, onde ela gostava de ficar, já tinha morado lá. Chegamos e estava o circo todo armado, os ex-colaboradores de Lina já estavam esperando por ela no hotel: tinha Nemésio Sales, Waly Salomão, muitos outros colaboradores, e tinha uma

exposição montada no saguão do Hotel, que seria uma surpresa

para a Lina. Então foi depois do ato de entrega da Comenda, o auditório lotado, estava Carybé, o Rogério Duarte fortemente

engajado, muitos jornalistas. Depois desse ato da entrega o prefeito coloca na mão de Lina o prêmio e diz: “a cidade está em

suas mãos, o Centro Histórico está em suas mãos. Gostaria de

fazer formalmente e em público o convite para que a senhora nos ajude a recuperar o Centro Histórico de Salvador!”.

Não teve como! Saímos dali, fomos para o saguão do próprio

hotel, abriram uma cortina e tinha uma exposição montada, comandada pela Arlete Soares que tinha feito essa curadoria do

trabalho da Lina realizado nos anos 50. Foi uma coisa incrível: ela foi ver, rememorar. Estava Vivaldo da Costa Lima, Antonio Risério e aquele passeio dos cinco anos entre os brancos [2] né?!

Foi um nocaute, foi incrível. No dia seguinte vem a imprensa, Roberto Pinho que tinha armado toda essa história, nos pega no

hotel de manhã e passamos o dia rodando o Centro Histórico, Península de Itapagipe, Bonfim, rodamos toda essa Bahia antiga, importante, vendo principalmente a destruição. O estado de abandono, de desgraça e tudo mais. Aquilo foi enchendo Lina de ódio, de amor e de paixão e a deixando super comovida. Ao fim desse dia toda a imprensa foi ao Hotel da Bahia fazer uma

entrevista com ela, com participação de Waly Salomão. Lina já

estava toda equipada de energia para falar sobre o que aconteceu com a Bahia, dizer que aquilo tinha sido um terremoto voluntário

e dar uma entrevista fortíssima, criticando todos os políticos e

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administradores que passaram pela gestão naqueles anos entre 1962/64, quando ela deixou a Bahia, até 1986.


[ CONSTRUÇÕES ] a casa do benin como canteiro de obras

Nesse momento ela já tinha decidido que ia ficar e trabalhar na Recuperação do Centro Histórico. Roberto apresentou várias possibilidades. Sentamos no dia seguinte, trabalhamos o dia todo pensando por onde começar e elencamos alguns trabalhos no Centro Histórico: Ladeira da Misericórdia, para ser a ladeira piloto; Forte de São Pedro, que ia ser uma espécie de Sesc Pompeia – era um sonho fazer uma coisa como o Sesc Pompeia, cuja segunda etapa tinha acabado de ser inaugurada em 1986 em São Paulo -; a Casa do Benin e a Casa do Olodum. A Casa do Benin foi eleita como primeiro projeto, porque já estavam restabelecendo relações diretas da cidade de Salvador com o governo do Benin. A ideia inicial era construir várias casas: Casa do Benin, Casa de Cuba, Casa de Portugal/Fernando Pessoa e assim ir criando uma certa irmandade entre estas casas, entre a cidade de Salvador e estes países, povos, culturas. Então a Casa do Benin tem esta importância, foi o primeiro projeto feito em pouquíssimo tempo, tenho a impressão de que foram seis meses no máximo, entre obra e inauguração. Foi escolhida essa casa onde está hoje a Casa do Benin, no Pelourinho. Uma casa que tinha sido reformada alguns anos antes após ter sofrido um incêndio. Tinha caído toda a estrutura, os assoalhos, o telhado, então fizeram uma estrutura grosseira de concreto por dentro, grotesca, terrível, lajes de concreto, colunas. Imagine, é uma casa que tem um vão pequeno, imagino que de seis metros, em que botaram uma coluna para dividir esse vão, uma coisa absurda; porém demolir seria um trabalho muito grande, um absurdo entrar naquele momento e demolir uma estrutura de concreto, era capaz de a casa cair inteira junto, a carcaça da casa. Foi o primeiro desafio: trabalhar num casarão antigo muito bonito, uma presença fortíssima na paisagem do Centro Histórico no Pelourinho, e ter que engolir aquela estrutura. É dessa leitura do espaço, resultante daquele espaço que já estava lá, que

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [3] Refere-se à Fábrica de Equipamentos Comunitários, também conhecida como Fábrica de cidades, coordenada pelo arquiteto e engenheiro João Filgueiras Lima, o Lelé, que desenvolveu uma tecnologia de baixo custo e curto prazo para a realização de inúmeras obras públicas na década de 80 na cidade de Salvador. (N. do E.)

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nasce a escada que vai subindo e perpassando aquela parede. Nós descascamos o paredão de baixo para descobrir o pouco que restava do muro de terra, de tijolo e pedra - aquela mistura toda que está ali descascada no térreo da Casa do Benin - e foi feita uma escada independente, uma estrutura independente que ia furando os andares até chegar no sótão, onde há uma nova escada metálica. O sótão foi uma exigência, uma necessidade porque a Casa do Benin deveria abrigar visitantes, pesquisadores, estudantes que viriam do Benin e passariam um tempo, depois viriam outros... Então ali seria também a casa para hospedar essa gente que vinha estudar, dar cursos e pesquisar. Foram feitos aqueles quartinhos lá em cima, em um modelo próximo a uma coisa de convento mesmo. Essa nossa ideia de arquitetura contemporânea, em 1986, estava imbuída das lições do passado: da arquitetura colonial, dos conventos e tudo mais. Foi uma experiência fantástica, o grande projeto piloto desses 4 anos da segunda etapa de Lina na Bahia. Também existia esse terreno ao lado que daria para ocupar, naquele momento só tinha a ruína da casa ao lado. Era só a fachada e o quintal, que não tinha nada, não tinha nenhum coqueiro como tem hoje. Então a experiência foi bastante completa, porque a ideia já foi relacionada com a alta tecnologia do concreto, da argamassa armada pré-moldada desenvolvida por Lelé [3], que seria uma solução para todo o Centro Histórico. Ou seja, iam-se recuperando ruínas, fazendo uma medição do que daria para conservar e do que não daria mais, e entraríamos com a argamassa armada, uma tecnologia de ponta, para refazer todo o centro de Salvador no final dos anos 80, começo dos anos 90. A ideia era essa, então a Casa do Benin foi um projeto piloto. Deixamos a fachada ao lado para a casa que hospedaria o representante do Benin, uma espécie de embaixador cultural que deveria morar aqui, assim


[ CONSTRUÇÕES ] a casa do benin como canteiro de obras

como deveria ter alguém de Salvador em Ouidah. Chegamos a fazer um pequeno estudo para a casa que foi doada pelo governo do Benin em Ouidah para ser a casa representativa de Salvador, considerando que então começava esse intercâmbio cultural. A casa daqui, nós a fizemos toda com a tecnologia da argamassa armada, as lajes, os pisos, respeitando a fachada, que nos dava as dicas dos pés direitos. Então a gente restaurou a fachada, as janelas, mas deixamos aquela entrada como se fosse uma grande boca que daria num quintal. No que diz respeito a esse quintal, mais uma vez a Casa do Benin é pioneira desse ideário que estava sendo colocado - do ponto de vista urbanístico, arquitetônico – para o Centro Histórico. Esse quintal é o ‘fundo de lote’, ‘fundo de quadra’. No nosso projeto, pensávamos em criar em todo ‘fundo de quadra’ do Pelourinho uma área de convivência, conservando toda a vegetação e plantando mais. Então, os antigos quintais das casas estariam unificados com mangueiras, goiabeiras, pitangas, com isso e com aquilo, com caminhos. Seria uma espécie de oásis dentro de um Centro Histórico com um urbanismo bastante árido, seco – como é o Centro Histórico em geral das cidades coloniais brasileiras, Salvador não é diferente. Então era a secura da cidade, mas ao entrar se encontraria o ar mais fresco, sombra das árvores… era essa a ideia do ‘fundo de quadra’. Fizemos na Casa do Benin esse fundo de quadra pequeno, plantamos acho que onze palmeiras, já trouxemos os coqueiros grandes, colocamos a água, que é a cachoeira do Pai Xangô, e fizemos a Tata-Somba, como vocês chamam, que é o modelo de casa Tata-Somba do Benin. Mas nem chamávamos de Tata-Somba naquele momento, para nós era somente o Restaurante do Benin - uma área fechada para grupos maiores, uma representação de uma arquitetura de barro, telhado de palha, uma grande mesa coletiva, mesa pesada em forma de ‘C’ para 20 ou

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

30 pessoas, não me lembro exatamente, e com as cadeirinhas ‘girafa’, criadas especialmente para o restaurante. Voltando para o ‘fundo de quadra’, é importante dizer que essa ideia foi depois retomada em outra gestão, outra administração muitos anos depois na Recuperação do Centro Histórico. Mas foi retomada como uma espécie de praça de shopping center, uma coisa terrível. Essa descoberta, essa surpresa em que você atravessava o umbral de uma porta e descobria esse oásis de um ‘fundo de quadra’, essa proposta foi transformada nestas quadras que foram feitas, até como praças, parece mais praça de shopping center: vários pisos, granitos, águas, vidros, acrílicos, estruturas metálicas, foi uma grosseria. Veja bem como uma ideia muito boa, se não é tratada com a delicadeza e a inteligência necessárias, pode virar um desastre, como virou o Centro Histórico de Salvador. Coisas que vieram do nada, formas de auditórios, anfiteatros gratuitos, como acontece muito na arquitetura que não é feita com rigor. Esse rigor é justamente o link das soluções, como você liga as soluções, liga o que você vai fazer do ponto de vista físico, do ponto de vista dos materiais com certas estruturas já existentes, estruturas que às vezes nem se vê muito bem, mas que são os materiais, que são as formas, que são os eixos que você descobre numa arquitetura colonial, que parece que é uma coisa anômala ou uma coisa espontânea, mas que não é, né?! É uma coisa construída, projetada, medida.

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A Casa do Benin, do ponto de vista urbanístico, tinha essa super importância. Primeiro por estar no centro do Pelourinho, ser um exemplar que ligava, que unia, o restauro que queria se fazer, pintando a casa de branco – que foi uma outra grande briga. Nós queríamos pintar todas as casas de branco justamente para neutralizar essa coisa que a Lina chamava de sorveteria. O Centro Histórico de Salvador parecia uma ‘sorveteria’ de todos os sabores, ‘corzinha’ para lá, ‘corzinha’ para cá, rosinha, ama-


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relo, azul, vermelho, por que isso? Pensávamos em fazer todas brancas, depois o tempo vai acinzentando à sua maneira, com seu uso, cuidado maior ou menor. Isso foi muito combatido, inclusive por setores do Patrimônio Histórico. A casa tinha essa importância do restauro, tinha a importância da incorporação das novas tecnologias com a participação do arquiteto Lelé e tudo o que ele criou. Lelé criou peças especiais para o nosso trabalho no Centro Histórico, não eram as peças que ele usava para fazer os hospitais ou as escolas. Eram peças especiais para que as pessoas entrassem no Centro Histórico, para que duas pessoas carregassem uma peça – não precisaria de mais que duas pessoas – tinha uma questão de peso, uma questão de tamanho para atravessar escadarias e becos, como foi na Ladeira da Misericórdia. Além disso, a ideia do ‘miolo de quadra’, ou seja, o tratamento urbanístico para os antigos quintais que já não seriam mais casas com quintal. As casas com quintal tinham acabado no século XIX, começo do XX, até aos anos 30/40, depois aquilo desapareceu. Aquilo era para ser encarado como lugar de visitação sim, mas também de habitação, habitação de professores, habitação de pequenos negócios. Tudo isso estava presente no projeto da Casa do Benin. Voltando para a questão do restaurante, este foi construído justamente para trazer as pessoas e mostrar: olha como acontece aqui dentro, você atravessa um portal e descobre um restaurante na sombra dos coqueiros. Já sobre a cadeira – voltando à mesa coletiva desenhada para lá, de angelim-pedra, uma madeira muito dura - nós desenhamos duas cadeiras nesse momento. A Lina também não queria mais saber de desenhar mobiliário, ela dizia que tinha caído no vazio, que tudo que ela tinha desenhado, que o sonho dela do industrial design [4] tinha desaparecido porque as pessoas copiavam e se tornava coisa de luxo. Mas nesse momento ela resolveu resgatar umas ideias que tinha para cadeiras há muitos anos e começamos a trabalhar.

[4] Vale destacar a relação de Lina Bo Bardi com o design industrial no final da década de 40 em sua atuação junto ao Studio de Arte Palma e à fábrica de móveis Pau Brasil, assim como o projeto não realizado da criação de uma Escola de Design Industrial na Bahia, no final da década de 50, que articularia os saberes populares do préartesanato do nordeste como base para o desenvolvimento do design industrial brasileiro. (N. do E.)

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A cadeira ‘girafa’ tem como base a banqueta do Alvar Aalto, que por sua vez deve ter como base uma outra banqueta de séculos atrás. Nós começamos a trabalhar com madeira maciça - feita de pinho, araucária - depois de muitos e muitos protótipos a fizemos na nossa marcenaria, em que trabalhávamos eu e o Suzuki. O Marcelo Suzuki, aliás, é importante dizer que na Bahia estávamos eu e Marcelo Suzuki como colaboradores de Lina, representando aqui a ‘ala São Paulo’ no projeto. Nós tínhamos uma base importante em Salvador, no 18 do Pelourinho, que era comandada pelo arquiteto Maurício Chagas, com vários estagiários que faziam os levantamentos dos casarões, cadastros das casas e ruínas, que começaram um pouquinho depois da Casa do Benin. A Casa do Benin foi realmente uma experiência relâmpago para dizer que rumo deveríamos tomar. Acho que essa foi uma escolha sábia do Roberto, porque era uma casa muito evidente no Pelourinho. Voltando para a cadeira – depois também quero falar do programa da Casa – essa cadeira virou hoje um clássico, virou um grande sucesso. Ela está na coleção do MOMA, a cadeira ‘girafa’ acabou criando uma família, com a ‘mesa girafa’, a ‘banqueta girafa’, a ‘bordadeira girafa’, o ‘banco de bar girafa’. Tudo isso a partir de uma ideia que em certo momento a Lina dizia que não dava certo, que não ia dar certo e depois a gente, com muitos protótipos, conseguiu chegar a ela. Mas a cadeira também começou na Casa do Benin. Chegamos a desenvolver o mobiliário da casa do representante do Benin também, chegamos até a ocupar a casa com esse mobiliário, mas depois tudo isso desapareceu, não sabemos que fim levou.

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Chegando ao programa da Casa do Benin, o que não é de forma alguma dissociado da arquitetura, eu falei bastante da arquitetura e da construção, mas as coisas andavam completamente juntas. Aí tem uma pessoa além de Pierre Verger – que era Pierre Verger de


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um lado e Lina do outro, se reencontrando muitos anos depois para uma experiência, um trabalho conjunto - isso tudo estava gerenciado por uma curadoria forte da Arlete Soares. Arlete Soares foi a pessoa que trouxe Verger para o projeto e que fazia essa mediação em todos os sentidos. Então uma comitiva foi para o Benin - com Verger, Arlete e várias outras pessoas - para fazer os convites oficiais e trazer de lá coisas para a Casa do Benin: tecidos, muitos objetos, mapas, documentos, réplicas de documentos, muita coisa veio de lá. O que não veio de lá foi recolhido na cultura iorubá de Salvador, principalmente nos terreiros de Candomblé, como um trono maravilhoso que ficou muito tempo na Casa do Benin, que era emprestado, assim como alguns tabuleiros do jogo do ifá. Muita coisa também estava já na Bahia, coisas africanas que tinham sido trazidas sabe-se lá quando do antigo Daomé. Esse encontro foi muito interessante, quando o pessoal veio com o programa do que íamos fazer na Casa do Benin. O térreo vai ser uma grande exposição contando essa história da cultura iorubá para dizer: olha baianos, brasileiros, soteropolitanos, todo esse povo de santo, ou não, toda a Bahia - como sempre foi chamada a Bahia, Salvador e o Recôncavo, tudo isso era a Bahia – olha o quanto disso vem da costa da África, o quanto ainda está vivo aqui em Salvador. O primeiro pavimento também foi inaugurado com uma exposição fotográfica, mas era um espaço para exposições temporárias, encontros e eventos, e depois a habitação lá em cima. Na montagem dessa exposição aconteceu uma coisa muito interessante - porque nós desenhamos todo esse mobiliário que deve estar ainda lá, que são aqueles expositores de madeira bruta, pregados ora com vidro em cima, ora com uma vitrine que sobe, ora com tampão, ora mais alto, mais baixo - e aí começamos a trabalhar nas coleções, nas amostras de cada coisa. Então tinham

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [5] A exposição África Negra foi realizada entre maio e junho de 1988 no Museu de Arte de São Paulo, apresentando peças de arte africana oriundas do Museu do Homem de Paris e do Museu de Artes Africanas e Oceânica, fotografias de Pierre Verger e programação com exibições de filmes, documentários e apresentações de dança do Balé Popular do Benin. (N. do E.)

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coisas que Verger dizia: ‘isso não pode estar perto disso, isso tem que estar longe disso, não pode estar junto. Isso é uma coisa, isso aqui é outra!’, e a Lina dizia: ‘mas Verger, isso aqui é uma exposição e na exposição mando eu. Na exposição não é assim, na exposição fica bom como exposição!’. Vez por outra tinha uma discussão assim, era muito interessante. Um defendendo a lógica do uso de certos objetos, de certas coisas dentro dos cultos, ou a questão expositiva, a questão da comunicação com o público que viria visitar a Casa do Benin. Eram muitos embates do Verger com a Lina, que depois continuaram em São Paulo. Da Casa do Benin, os dois vêm para São Paulo para fazer a exposição do centenário da abolição da escravatura, em 1988, no MASP: a exposição África Negra, também com coisas do Benin [5]. Esse programa de intercâmbios foi implantado na Casa do Benin: isso é o que nós queremos na casa de outros países, de outros povos e de outras culturas. A Casa do Benin estava pronta, foi inaugurada com uma comitiva muito grande do Benin, veio o Ministro da Cultura, o prefeito de Cotonou, se não me engano, Ministro de Relações exteriores, enfim, uma comitiva grande, grupos de música, dança, estudantes, pesquisadores que ficaram na casa num primeiro momento. Essa gente veio para passar um tempo em Salvador e também visitar alguns terreiros. Foram encontros maravilhosos em volta da inauguração da Casa do Benin, a gente teve almoço no Ilê Axé Opô Afonjá, tivemos almoços e jantares em outros terreiros. Apresentações e cultos em que os meninos, jovens que tinham vindo do Benin, conseguiam cantar os mesmos cantos, tocar os mesmos toques de atabaque, dançar. Quer dizer, era uma coisa, uma separação do Brasil e da cultura Iorubá e da África, desse golfo do Benin, de quase 100 anos, mas que estava presente, estava vivíssimo, aqui e lá. A Casa do Benin teve essa importância, de ligar essas duas coisas, de fazer com que se


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reencontrassem para que daí para frente novas coisas fossem criadas. É o tipo de projeto que vale a pena fazer, projeto com consequências fortes, que forma pessoas, forma gerações, educa, tudo o que a gente gostaria que fosse uma arquitetura. Quer dizer, a arquitetura pública deveria servir sempre nesse sentido. Deveria servir para abrigar, para ser recipiente para este tipo de existência, esse tipo de conteúdo.

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [1] Text produced from the transcript of a statement given by Marcelo Ferraz in July 2020.

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CASA DO BENIN AS CONSTRUCTION SITE 1 MARCELO FERRAZ Architect that graduated from the Faculty of Architecture at the University of São Paulo (1978). He is a partner in the firm Brasil Arquitetura, where he has carried out several awarded projects in Brazil and abroad. He is also a founding partner of Mercenaria Baraúna where he has developed furniture projects since 1986.

It is difficult to talk about Casa do Benin without mentioning Lina Bo Bardi's return to Bahia, that is, about Lina's second moment in Bahia, which lasted for four years, from 1986 to 1990. This was a very interesting story, because Lina had not actually wanted anything to do with Bahia after the late 1950s to early 1960s period. I started working with Lina in 1977 and accompanied her until her death in 1992, so, for almost 15 years. And even until 1986, I would repeatedly hear her saying how “Bahia was a closed book” in her life – how she didn't want to go back, and that she just didn't want to know. Nevertheless, we, as her working collaborators, had always kept on insisting: come on… let’s go to Bahia! Then, around this time, what I knew would turn out to be a good connection of people started to come together, with Mario Kertész at City Hall, and Roberto Pinho as the special or extraordinary projects secretary, as well as head of the Casa Civil, if I'm not mistaken. Thereafter, together, we would all start to plot Mrs Lina's return.

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I can say quite confidently that this was a very well put together scheme, by Roberto, and with my collaboration, to get Lina back to Bahia, and do the work she did in those 4 years – indeed, she would have done a lot more if conditions had of been better, and with more time. This plotting of ours was necessary, because of how she had refused to go to Bahia, and refused to work there, even though she had been invited to do so several times. Accordingly, what Roberto did was to set up a tribute event that would be impossible for her to refuse: that is, he suggested that we would bring her back to Bahia to receive the 2nd of July Commendation (the Legislative Assembly of Bahia’s highest honour awarded to people for services rendered to the State of Bahia) – an award, which, up to that point, only Dorival Caymmi had ever received. So, she had no escape, with Mário Kertész calling her, then sending a really classy formal invitation, and then soon after, we scheduled our trip to Bahia. For our arrival, we booked into the Hotel da Bahia, where Lina liked to stay, and where she had lived on her first stay (1958/1962). And when we actually got there, there was already a whole circus in waiting, including many of her friends and former collaborators that had been expecting


[ CONSTRUÇÕES ] casa do benin as construction site her: Nemésio Sales, Noenio Spinola, Rogério Duarte, Waly Salomão and others. An exhibition also had been set up in one of the side room of the hotel lobby, as a surprise for Lina. Then slightly later on, after the act of presenting the award in a packed auditorium, there was Carybé, and Rogério Duarte - strongly in on what was going on – with a load of journalists waiting to talk to her. After the award had actually been presented to her, the mayor then took Lina's hand, and said, emphatically: “the city is in your hands, the historic centre is in your hands, and I would now like to publicly and formally invite you to help us restore the historic centre of Salvador!”

[2] Reference to the text Five years among the 'whites' written in 1967 by Lina Bo Bardi about the previous period in which she lived in Salvador (editor’s note).

There was no way out! On leaving, next, we went out to the lobby of the Hotel da Bahia itself, opened a curtain, and entered the exhibition that had been set up, or rather curated by Arlete Soares, about Lina's work from the period 1958 to 1962. Then something incredible happened - she actually went along to see it, and to remember. Along the way and throughout a guided tour, she was accompanied by Vivaldo da Costa Lima, to whom she made ongoing comments that were at times acidic, and at times emotional, relating to her journey of “five years amongst the white people [2]”, right?! Antonio Risério and Gilberto Gil were also there... It was a knockout, incredible. The next day, the story would appear in the press. But prior to that, Roberto Pinho, who had orchestrated this whole sequence of events, had picked us up at the hotel in the morning, and we ended up spending the day running around the historic centre (of Salvador), the Itapagipe Peninsula, and Bonfim, travelling to all these old places, this important Bahia, seeing what had mainly become depredated. We saw this disgraceful state of abandonment, destruction, and everything else related to it. And all this filled Lina with hate, love, passion, and indignation ... she was extremely moved. Then, later on, at the end of the day, the press came to Hotel da Bahia to do an interview, with the participation of Waly Salomão, Risério, Rogério, and Roberto, if I remember correctly. By this stage, Lina was already full of energy in talking about what had happened to Bahia, saying that there had been a kind of “self-induced earthquake”, and giving a very forceful interview, criticizing all of the politicians, and administrators, who had come and gone since 1986. She also criticized those who took her place in the MAMB after 1962, when she left Bahia. By that time, then, she had already decided she was going to stay and that she was going to work on the restoration of the historic centre. So the next day we sat down, working all day at Hotel da Bahia, thinking about whereabouts to start, and we started to list some of the main jobs that needed doing in the historic centre: Ladeira da Misericórdia was to be the pilot slope, Forte de São Pedro was going to be a kind of SESC Pompeia - and it was a dream do something like the SESC Pompeia that had only just opened in São Paulo in 1986 - then Casa do Benin, and Casa do Olodum. Casa do Benin was elected as the first project because direct relations between Bahia, the city of Salvador, and the government of Benin had already been established, and there was already this idea at that time

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives to build several themed houses: Casa do Benin, Casa de Cuba, Casa de Portugal Fernando Pessoa – and also to create a kind of brotherhood between these houses, between the city of Salvador, and these countries, peoples, and cultures. So, Casa do Benin has this particular importance, it was the first project and one done in a very short time. I have the impression that it took a maximum of six months, between its construction and inauguration, and the house that was chosen for this installation of Casa do Benin is the same one as today, in Pelourinho. This house had been renovated only a few years earlier, after suffering a fire: with the whole structure having collapsed, the floors, and the roof, and where inside they had built a coarse, gross, and in fact terrible concrete structure, where there were concrete roofing slabs, and unnecessary columns. It is a house that has a only a very small width span, I imagine about six meters - and they had even put a column in dividing this, which is absurd; to demolish this would have been a really big job, honestly, demolishing such a concrete structure at that moment would have been crazy to enter into, with the possibility of the whole house falling down, leaving only an empty shell. This was the first challenge: working on such an old mansion house, which was very beautiful, and with a very strong presence in the landscape of the historic centre in Pelourinho - but having to make do with that structure. In turn, it would be from a reading of this space, and resulting from all that had been previously there, that its stairway which goes up and through the large wall came into being. There, we peeled away the bottom walling so as to discover what little was left of earth, brick and stone - all of that peeled off mixture that can be seen on the ground floor of Casa do Benin - and then, following that, we then built an independent stairway, as an independent concrete structure passing through all of the floors, until it reached the attic, which already had another metallic staircase. The attic was a requirement, a necessity in fact, because Casa do Benin was due to house visitors, researchers, and students who would come from Benin and spend time there, as would other people afterwards. As such, this area would become a temporary home for people, who came to study, teach courses, and research. The small rooms that can be seen up there were actually built following a particular model very closely, similar to those found in convents locally. Our whole idea of contemporary architecture in 1986 was imbued in such ways with lessons from the past: colonial architecture, convents, and all the rest. It was a fantastic experience, this pilot project, and these 4 years of Lina's second period in Bahia. Moreover, next to the house itself, there was also another plot of land that was possible to utilize, where what remained were only the ruins of a house that had been next door, just the façade, and the yard, with nothing really there, not even the coconut tree that there is today, there was nothing.

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From that point on onwards, the project also started to develop in significant ways, for example, through the idea of combining high technology concreting,


[ CONSTRUÇÕES ] casa do benin as construction site through the use of Lelé's precast reinforced mortar [3] – a process which would later become employed as a solution across the whole of the historic centre, for instance, where ruins were recuperated where possible, making decisions about what could be preserved and what could not, before bringing in this reinforced mortar and the latest technologies, as would done in the restoration of the entire centre of Salvador in the late 1980s and early 1990s. This, then, was the pilot. Meanwhile in the house next door, we made a decision to leave up the original façade, and we were notified soon after that this house was to become a place to host a representative of Benin, that is, as a kind of cultural ambassador who was supposed to come and live there, just as there was due to be someone from Salvador going to live in Ouidah in exchange. We even did some research about a house that had been donated by the Benin government in Ouidah which was due to become the house for the representative of Salvador there, and it was around this time therefore that this cultural exchange started up. Later on, we started to rebuild the whole of the house next door, using reinforced mortar technology again, on the concrete roofing slabs, and the floors, whilst respecting the façade which gave us a clue about the correct ceiling height to adopt internally. We then restored the façade, and all the windows, but we left the entrance as it was, as if it were a large mouth, opening out into the backyard. In this backyard, once again, Casa do Benin can be seen as at the forefront of a whole pioneering idea that was being put forward - from an urban, architectural point of view - for the historic centre. This idea concerning urban garden spaces was referred to in short as the ‘back of the plot’ or ‘the back of the block’ idea. In our project, we then thought about how to create one such 'back of the block' area, in Pelourinho, as a kind of living area, which would conserve all the existing vegetation, whilst also planting more. The overall idea was for the old backyards and disused spaces behind houses to be brought together, with mango trees, guava trees, pitanga trees, and pathways, as a kind of oasis within a historic centre that is a very arid and dry urban area - as are the historical centres in general in Brazilian colonial cities. Salvador is no different. So, in contrast to this ‘dryness’ of the city, upon entering such a mansion house, one would encounter the freshest of air, the shade of the trees, it was this that was the idea of the ‘back of the block’. And we made a small size proto ‘back of the block’ at Casa do Benin… planting, I think, 11 palm trees, as well as coconut trees which were already large, then we installed a water source, via the Pai Xangô waterfall, and thereafter we built a Tata Somba, as they are called – a Tata Somba model house from Benin. We didn't actually use this Tata Somba at that time, however, and it later became the Benin Restaurant: an enclosed area for large groups of people, displaying traditional clay architecture, with a thatched roof, and a large size communal table - a kind of ‘C’ shaped table seating around 20 to 30 people - as well as a distinctive chair in the form of a ‘Giraffe’, which had actually been built specially for the restaurant.

[3] Reference to the Fábrica de Equipamentos Comunitários (Community Equipment Factory), also known as the City Factory, coordinated by the architect and engineer João Filgueiras Lima, or Lelé, who developed a low-cost and short-term technology for the implementation of countless public construction works in Salvador in the 1980s (editor’s note).

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives Regarding this idea of the ‘back of the block’, it is important to say that this notion would later be taken up, although wrongly, by other forms of management, and during another administration - that is, many years after the restoration of the historic centre, where, in sum, it would appear as a kind of shopping centre square, a terrible thing. What was supposed to feel like a kind of discovery, a kind of surprise when you went through a doorway and discovered an oasis of conjoining backyards, became, in these later versions, simply a common town square… a kind of a shopping mall square: with various forms of flooring, granite with water and glass, acrylics, and metallic structures, all completely gross. See, then, here, how a very good idea, if not treated with the necessary delicacy and intelligence, can turn into a disaster, indeed, like much of the historic centre of Salvador would later become! Things start to appear out of nowhere, like low cost auditoriums and amphitheatres, and other forms of architecture that are not done with rigour. And it is precisely this rigour that is the necessary link for finding new solutions, it is through this that you create a sense of unity… through an interconnecting of what you are planning to do from the physical point of view, from the point of view of materials, and in terms of working with already existing structures, structures that are sometimes not completely envisaged, but which include materials, forms, and axes which you discover throughout colonial architecture, and which seem to be an anomaly, or something spontaneous, but that are not - right?! These are constructed, projected, and measured things, all very well thought out.

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Casa do Benin from an urbanist point of view had this special importance. First, because it is in the centre of Pelourinho, it became a model interconnecting and bringing together ideas for restoration which we wanted to do, another of which was painting the house white – and this became another big struggle for us. We wanted to paint all the houses white, in fact, so as to neutralize this thing that Lina called the ‘ice cream shop’. That is, the historic centre of Salvador looked like an ‘ice cream shop’ made up of every possible flavour - ‘a little colour’ over there, ‘a little colour’ here, pink, yellow, blue, and red, why is that? We said ‘we’ll make them all white, then as time goes by, they’ll start to go grey their own way, through usage, and as they are looked after more or less’. This idea was then very much fought against, including by the historical heritage sector. The house had this kind of importance in relation to ideas about restoration. It was also important in terms of the incorporation of new technologies such as through the participation of Lelé and everything that he created. Lelé, for instance, developed a range of special materials for our work in the historic centre which were different from those used elsewhere, such as in the building of hospitals or schools. These special materials facilitated access to our work in the historic centre, because they would not take more than two people to carry. This question of weight and size was important owing to the need to crossover stairways and alleyways, as where we are talking about, here, is the Ladeira da Misericórdia. Then, on top of all this, there was also the previously mentioned idea of the ‘back of the block’, that is, the urbanizing of old backyards, to become unified and public spaces. It would no longer be a case of each house with its own yard.


[ CONSTRUÇÕES ] casa do benin as construction site The traditional idea of a house with a backyard, stemming from the 19th century to the beginning of the 20th century, and surviving up until the 1930s and 1940s, disappeared - I mean… its function as a family yard lost its meaning. Differently to this, we wanted to see the entire historic centre as a place of visitation, yes, as strong in this sense, but also as a lived space, with housing for teachers, small businesses, and services. All of this was thought through at Casa do Benin. And returning once more to the question of the restaurant, the idea here was precisely to bring people there an show them: have a look what is happening in there, go through that doorway and discover a restaurant in the shade of coconut trees. Then there was Tata-Somba, with its especially designed collective table - made of angelim-stone, and bearing hard heavy wood, and also the Giraffe chair. Regarding the latter, although some of us on the project were already designing chairs around that point, but Lina herself had not wanted to know about designing furniture. She said everything that she had designed previously, that her dream of industrial design [4] had disappeared, because people just copied it, and it ended up as luxury items. But around that moment, something seemed to change, and she ended up changing her mind, deciding to recall some of the ideas that she had for chairs, and we started to work on them. The ‘Giraffe’ chair is based on a stool by Alvar Aalto, and inspired by other stools from centuries ago. We started working on it using solid wood - araucaria, Brazilian pine - and after many, many prototypes we achieved a good result. We tested these prototypes and produced everything ourselves in our joinery (Barauna, with our partners Marcelo Suzuki and Francisco Fanucci). In fact, it is important to say that Marcelo Suzuki and I were in Bahia as Lina's collaborators, representing there a kind of 'São Paulo wing' of the project. We had an important base in Salvador as well though, in Pelourinho 18, and this place was being supervised at the time by the architect Maurício Chagas, and where several interns were doing surveys of mansions, and registrations of houses and ruins, and with this having started up only shortly after Casa do Benin. Casa do Benin, then, for us, had the sense of a kind of lightning bolt, letting us know which direction we should take. I think it was a wise choice by Roberto, as the house had this special visibility in Pelourinho. Going back to the chair again briefly – then afterwards I want to talk about the Casa do Benin programme - this chair, actually became a classic, and had great success. It is now in the MOMA collection, for example, and in turn, a kind of family followed on from it, with a 'Giraffe table', a 'Giraffe stool', a 'Giraffe embroiderer', and a 'Giraffe bar stool'. All of these came out of an idea, which for a certain period of time, Lina kept said was not working, and was not going to work, yet after many prototypes, we finally got it right. This Giraffe chair also started out at Casa do Benin then. Later on, we would develop the furniture for the Benin representative's house as well, filling up the house with furniture, in fact, but it would all disappear subsequently, and we do not actually know what happened to it in the end.

[4] It is worth highlighting the relationship between Lina Bo Bardi and industrial design in the late 1940s, her work with Studio de Arte Palma, and the furniture factory Pau Brasil, as well as an unrealized project at the end of the 1950s to create Bahia Industrial Design School, which was due to emphasize popular knowledge of northeastern pre-craft as a basis for the development of Brazilian industrial design (editor’s note).

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives Coming round now to the Casa do Benin programme, which is by no means dissociated from its architecture - I have talked a lot about architecture and construction - but all of these things actually went along completely together. Here, then, there is another very important person: Arlete Soares. Besides Pierre Verger on one side and Lina on the other - people who would meet up again after many years for this experience, and to work together as part of it - in addition to them, everything was also being guided by the strong curatorship of Arlete Soares. Arlete was the person who brought in Verger and mediated this in every sense. Around the time, an entourage had gone out to Benin, with Verger, Arlete and several other people, to make official invitations and bring things from Benin back to the house: fabrics, lots of objects, maps, documents, replicas of documents - a lot of things came from there. What did not come from there was collected from the Yoruba culture of Salvador, mainly from candomblé sites, such as one wonderful throne which resided for a long time in Casa do Benin, but was actually borrowed, as were some ifá board games. There was a lot already in Bahia, African things that had been brought in who knows when, whilst Benin was the old (Kingdom of ) Dahomey. Thus, this meeting of work was a very interesting one, as people were coming up with the programme of what we were going to do at Casa do Benin. Through this, for instance, the ground floor was decided on as a main exhibition space that was to tell the story of Yoruba culture, saying: take a look at Bahians, Brazilians, Salvadorans, its holy people, all of Bahia - as it was always called, including Salvador, and Recôncavo, everything was Bahia - look at how much of all of this that comes from the coast of Africa is still alive here. The first floor was also inaugurated around the time with a photographic exhibition, and afterwards, this became a space for temporary exhibitions, meetings, and events, and then later, upstairs, a living space.

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In setting up the exhibition, something very interesting happened as we were starting to work on the collection and the samples of each thing to be shown – by the way, we designed all of the furniture that must still be there now, such as the nailed up raw timber exhibitors, with upwards glass planes, and with higher and lower sealing. Getting back to the point, at that time, there were comments that Verger used to keep making from the perspective of an ethnologist, such as: ‘this cannot be close to that, that needs to be far from this, these cannot be together… this is one thing and that is another!’, to which Lina would reply: ‘…but Verger, this is an exhibition, perhaps I should take you to one, it’s not actually like that in exhibitions, and an exhibition should to be good as an exhibition!’. From time to time, then, they had these kinds of arguments, which were very interesting to listen to. One person was defending a logic concerning the use of certain objects, of certain things within religious activities, whilst the other, the expository question, the question of how to communicate with the public who would be coming along to visit Casa do Benin. There were many such clashes between Verger and Lina and these would continue later on in São Paulo. Where from Casa do Benin, they both went on to São Paulo afterwards, to do the centenary of the abolition


[ CONSTRUÇÕES ] casa do benin as construction site of slavery exhibition, which was two years later in 1988, at the MASP. This was known as the Black Africa exhibition and it also including items from Benin [5]. In turn, then, the programme came to be implemented in Casa do Benin – and it is this model that what we want for similar houses in other countries, for other people, and for other cultures. Moreover, with Casa do Benin now being ready, its inauguration followed on, and with a very large delegation attending from Benin, with the Minister of Culture coming, the Mayor of Cotonou, and if I'm not mistaken, the Minister of Foreign Affairs - in short, a large entourage, also including music groups, dancers, students, and researchers, all of whom stayed at the house during this first moment. These people therefore spent time in Salvador and went on to visit some candomblé sites. There were these wonderful meetings around the opening of Casa do Benin, including lunch at Ilê Axé Opô Afonjá, lunches at candomblé grounds, and dinners. There were presentations and religious activities in which boys, and young people, who had come from Benin, sang their songs, and played their rhythms on atabaque drums, whilst dancing together with the Brazilians. I mean… in spite of the separation of almost 100 years between Brazil and Africa, Yoruba culture, and the Gulf of Benin was very much present, it was very much alive here. Casa do Benin had this importance, connecting these two sides, making them meet again from then on, and creating new ties in doing so. It is the type of project which is always worth doing, a project with strong consequences that trains people, trains generations, and educates, everything that we would really like architecture to be. For us, public architecture should always encourage and serve this kind of purpose. It should serve to shelter, and to be a recipient of this type of existence, and this type of subject matter.

[5] The Black Africa exhibition was held between May and June 1988 at the Museu de Arte de São Paulo (MASP), featuring African artwork from the Paris Museum of Mankind and the African and Oceanic Art Museum, photographs from Pierre Verger, and a selection of films, documentaries, and dance presentations from the Benin Popular Ballet (editor’s note).

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OBJETOS

EXPOGRAFIA, ACERVO & TRANSFORMAÇÕES


O acervo da Casa do Benin é apresentado no andar térreo do edifício, por onde o visitante acessa o complexo museal. Trata-se de uma sala longitudinal, com doze portas de madeira abertas para as ruas do entorno, onde são dispostos uma série de objetos africanos e afro-brasileiros, como esculturas em madeira e metal, cerâmica, cestaria, tapeçaria, instrumentos musicais, objetos cotidianos e rituais. Os objetos do acervo são expostos em tótens e vitrines de madeira, ambos com cobertura de vidro. O mobiliário expositivo foi disposto em linhas frontais à entrada do espaço, com certa distância entre si. Para além do mobiliário expositivo, peças de tapeçaria ideográfica são expostas fixadas a partir do teto, perpendicularmente às paredes laterais. O estabelecimento do projeto arquitetônico e expográfico ocorreu simultaneamente ao processo de aquisição de parte das peças que compõem o acervo. Determinados elementos são, inclusive, difíceis de serem enquadrados como pertencentes ao acervo ou ao projeto expográfico, como é o caso dos tecidos tradicionais africanos presentes no vão. Ao longo do Projeto Benin-Bahia foram realizadas três viagens de comitivas soteropolitanas para o Benin. A terceira dessas viagens, realizada em março de 1988, foi destinada à aquisição de peças para constituir o acervo da Casa do Benin. As peças

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [1] Citações extraídas da entrevista concedida em 2016 por Arlete Soares a Joaquim Araújo Filho, presentes na dissertação África seja aqui: as casas do Benin, Angola e Nigéria na cidade do Salvador e suas representações de culturas africanas.

foram adquiridas em mercados tradicionais como o mercado de Dantokpa em Cotonou, Ahidaho em Porto Novo, o grande mercado de Abomei, o de Adjara, Parakou na província do Borgou, Ntitingou em Atakora e os mercados de Nadali, Ouaké e Mono. As peças foram adquiridas por Arlete Soares e Pierre Verger, que já mantinha relações com a região e conhecia a produção de arte e artesanato local. Ele já havia colaborado com diversos museus, desde sua atuação no Musée d'ethnographie du Trocadéro na década de 30. Entre os anos 60 e 70 Verger participou da criação do Museu Histórico de Ouidah, colaborando também com a aquisição de seu acervo, e foi o principal articulador para a implementação do Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia na cidade de Salvador, cuja coleção africana foi adquirida por ele entre 1975 e 1976. Para compor o acervo da Casa do Benin foram selecionadas principalmente peças de artesanato, com caráter utilitário, cotidiano ou ritualístico. Arlete Soares relata que os objetos foram adquiridos a partir de uma orientação formulada por Lina Bo Bardi, que segundo Arlete “agiu por intuição e pelo conhecimento cultural que tinha, visto que jamais tinha estado naquela parte da África” [1]. Os planos iniciais previam que o acervo fosse uma amostra da produção artesanal contemporânea presente nos mercados populares do Benin. Assim, previa um acervo em constante alteração, que seria expandido pela incorporação de novas peças, à medida que as relações bilaterais de intercâmbio entre Salvador e Benin se intensificassem.

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IMAGENS

OBJETOS expografia, acervo e transformações

[ Imagens 60, 60.1 e 61 ] Nessas duas fotografias tiradas por Pierre Verger nos anos 50 no mercado de Abomei podemos ver vasos cerâmicos semelhantes aos posteriormente adquiridos para o acervo da Casa do Benin. Em seguida, vemos uma lista de artistas beninenses organizada pelo Ministério da Cultura do Benin, no ano de 1986, para o encarte Art Artisanat Abomey, encontrado na biblioteca de Pierre Verger. [ Imagens 62 ] Lina e Verger trabalhando na montagem da Exposição Bahia-Benin em 1988, fotografia de Arlete Soares.

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[ 60 ]


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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

A exposição inaugural Para a inauguração da Casa do Benin, em 06 de maio de 1988, foi organizada uma primeira exposição para as festividades de abertura da Casa e recepção da comitiva de autoridades beninenses que veio

à Salvador nessa ocasião: a Exposição Bahia-Benin.. Essa exposição foi realizada com parte dos objetos adquiridos nos mercados

beninenses, assim como foram incorporadas outras peças oriun-

das de empréstimos de coleções privadas e terreiros de candomblé. A expografia e o acervo atual da Casa do Benin seguiram em constante transformação em decorrência das alterações de consti-

tuição do acervo e das atividades da Casa. Entretanto, preserva-se, em linhas gerais, a proposta expográfica estabelecida por Lina para essa exposição, pautada pela apresentação de diversos e

distintos objetos em um mesmo expositor, os quais são dispostos de forma a possibilitar múltiplos percursos de visita e uma visão

ampla e simultânea tanto do acervo, quanto da arquitetura da sala expositiva.

Essa proposta expositiva previa a apresentação de um acervo

dinâmico, com constantes incorporações. Assim, opta por apresentar os objetos de artesanato beninese a partir de uma proposta cenográfica, que convida o visitante a uma experiência lúdica e

imersiva, prevalecendo a apreensão de uma atmosfera relacionada

à arte e ao artesanato beninese, e suas proximidades técnicas e materiais com a produção brasileira, em detrimento de uma

abordagem que insira tais objetos em uma narrativa didática, cronológica ou contextualizante. Como nos conta Arlete Soares:

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“(...) eles (Verger e Bo Bardi) tinham pensamentos muito

convergentes e ao mesmo tempo muito díspares. Porque


OBJETOS expografia, acervo e transformações

Verger era assim didático, metodológico, preto é preto, branco é branco, azul é azul. E a Lina tinha uma coisa imaginativa, uma coisa criativa, que era o barato dela. Verger era o pesquisador, fotógrafo, detalhista. A Lina era sonho também, conhecimento, sabedoria e sonho. Então às vezes eles entravam em atrito, porque a Lina queria botar, digamos, esse celular junto desse ipad. Ai Verger dizia: ‘não! Porque o celular saiu muito primeiro, foi criado muito antes, ele tem que estar em outro contexto’. E a Lina queria passar por cima, porque ela não estava ali para fazer uma coisa didática. Ela queria uma coisa mais grandiosa.” [2]

[2] (apud ARAÚJO FILHO, 2017, p. 194)

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

Acervo em transformação Em dezembro de 1988 as peças que haviam sido emprestadas por coleções particulares para a exposição inaugural foram devolvidas e novas peças foram incorporadas à exposição permanente. Essa nova apresentação do acervo foi organizada por Arlete Soares e passou a apresentar tanto as peças adquiridas pela prefeitura de Salvador nas viagens ao Benin, como por objetos da cultura beninense doadas pelo governo do Benin e trazidas por sua delegação na ocasião da inauguração do espaço. À época também se acreditava que uma nova remessa de peças seria incorporada ao acervo quando se efetivasse a transferência de um representante oficial do Benin para residir na Casa do Benin, no edifício anexo cujas obras já haviam sido concluídas. Apesar da vinda do representante oficial não ter se efetivado, ao longo dos últimos trinta anos algumas incorporações foram feitas ao acervo em decorrência de doações por parte de comitivas africanas em visita à cidade de Salvador. Outra importante transformação no acervo deu-se por conta da incorporação de peças advindas do extinto Museu da Cidade. Quando este museu foi desmembrado, peças de seu acervo foram aglutinadas, em comodato, ao acervo da Casa do Benin. Foram incorporadas peças de mobiliário, escultura e joalheria. Tratam-se de peças produzidas por artistas e artífices brasileiros, diferente das peças que originalmente constituíam o acervo da Casa do Benin, representativas da produção artesanal beninense. A partir dessas novas incorporações foram acrescentadas à exposição esculturas de proeminentes artistas afro-brasileiros, como Mestre Didi, Agnaldo dos Santos e Agnaldo Silva.

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OBJETOS expografia, acervo e transformações

IMAGENS

[ Imagens 65 e 66 ] A palha trançada, utilizada para revestir as colunas de concreto, também estava presente na exposição de inauguração da Casa do Benin por meio de esteiras, cestaria e utensílios artesanais construídos por meio desta técnica. No expositor ao lado, era apresentada uma série de máscaras africanas, incluindo algumas máscaras Geledés. [ Imagens 67, 68, 68.1, 69, 70, 70.1 e 70.2 ] Ao compararmos a atual disposição da sala expositiva com um esboço do projeto inicial, podemos perceber a continuidade de uma proposta espacial específica. Os expositores utilizados são os mesmos, desenvolvidos por Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki no ano de 1988. Esses expositores possuem uma base de madeira maciça, ora coberta por vidro, ora com uma vitrine elevada, possibilitando abrigar e agrupar peças de diferentes caráteres e formatos. Os expositores desenvolvidos para a exposição África Negra possuíam uma estrutura semelhante, de bases sólidas de concreto, cobertas por vitrines de vidro que possibilitavam apresentar múltiplos objetos, entretanto para a exposição do MASP optou-se por uma disposição circular das peças. Em ambas as mostras, tecidos tradicionais africanos foram instalados a partir do teto e o elemento da palha trançada se fez presente.Tanto no andar superior do MASP como no da Casa do Benin foram expostas fotografias de Pierre Verger que apresentavam práticas e objetos utilizados tanto no continente africano, como no Brasil. [ Imagens 71, 72, 73, 74, 75, 76 e 77 ] Desde sua inauguração, em 1988, diversas peças passaram pela exposição térrea da Casa do Benin. Como o único registro de algumas dessas peças são rastros fotográficos, as pinturas de Isabela Seifarth trazem para o presente possíveis imagens de peças que não constam mais no acervo.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

Histórias e memórias dos objetos As escolhas expográficas e curatoriais adotadas para a exposição permanente da Casa do Benin apresentam uma confluência discursiva com propostas curatoriais e expográficas que priorizam a disposição dos elementos em simultaneidade e de forma não linear, sem identificação temporal ou mesmo de autoria. Entretanto, no caso específico da Casa do Benin, tais operações encontram como correlata a dificuldade da preservação e compreensão da história e memória dessas peças. A proposta de um acervo cuja fruição tivesse como proposta sua relação com o presente e cujas peças fossem continuamente se transformando encontra uma ressonância controversa nas descontinuidades do projeto original e na não efetivação do intercâmbio cultural e político. Tais operações também ganham novos contornos e complexidades ao considerarmos as práticas e discursos museológicos historicamente atribuídos a acervos etnográficos e africanos. O projeto expográfico desenvolvido para a Casa do Benin na Bahia estabelece-se por meio da dissolução da cronologia, da linearidade e da hierarquia entre objetos, técnicas e suporte. Essas noções são características das concepções expográficas adotadas por Lina Bo Bardi em diversos dos seus projetos. Dessa forma, a partir da sugestão expográfica da arquiteta, e das diversas alterações posteriores, encontramos apresentados de maneira indistinta objetos utilitários adquiridos nos mercados populares do Benin, brinquedos, armas, cestaria, peças ritualísticas, máscaras, tapeçarias ideográficas, tecidos tradicionais africanos.

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Assim, ao pensarmos a relação proposta no projeto expográfico da Casa do Benin entre os objetos do acervo e os visitantes, estes são convidados a assumirem um papel ativo de fruição frente às múltiplas possibilidades de percorrer o espaço e articular novos sentidos à exposição. Entretanto, é importante


OBJETOS expografia, acervo e transformações

refletirmos sobre quais são as implicações de tais escolhas expo-

gráficas para a apresentação de uma coleção de objetos de arte-

sanato beninense em um contexto brasileiro e soteropolitano. É imprescindível termos em vista que a realização de tais operações expográficas - de apresentação dos itens de um acervo

a partir de uma condição de recontextualização dos objetos no presente e desvinculando-os de uma referência direta e racionalizante à sua origem - dá-se de maneira distinta em relação

aos diferentes tipos acervos. Ao compararmos a aplicação desses princípios expográficos em relação à coleção de arte europeia do

MASP - como realizado por Lina Bo Bardi em 1957 na Pinaco-

teca de cavaletes de cristal [3] - tais operações claramente diluem

[3] A arquiteta Lina Bo Bardi foi responsável pela expografia da pinacoteca do MASP, propondo exibir as pinturas em cavaletes de cristal dispostos de forma simultânea e com múltiplas possibilidades de percurso. A arquiteta também desenvolveu outros expositores e estruturas expográficas em que essa relação é privilegiada.

uma cronologia bem estabelecida por campos do conhecimento

e estabelecem uma ordem crítico-reflexiva sobre determinadas perspectivas historiográficas que aprisionam as imagens

e/ o objeto a uma cronologia linear, autoral e historicizante. Todavia, ao tratarmos dos objetos que constituem o acervo da Casa do Benin, é importante levarmos em consideração que a

produção material, artística e artesanal africana historicamente

foi abordada - a partir da racionalidade moderna colonial como atemporal, desprovida de autoria e caracterizada por certo caráter primitivo e mágico como forma de redução e

desqualificação. Portanto, cabe nos perguntarmos quais seriam

as implicações de uma expografia que opta pela apresentação independente e descontextualizada quando se trata de obje-

tos artesanais do Benin, considerando as especificidades dos

imaginários e discursos referentes aos acervos não-ocidentais. É a necessidade de conhecer e de ouvir as histórias que esses objetos têm para nos contar que nos força a pensar critica-

mente sobre os efeitos situados das operações modernistas.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas

As peças do acervo da Casa do Benin hoje guardam o mistério de um projeto interrompido, lançando-se como projéteis críticos das próprias narrativas que constituem as suas histórias. Isso certamente evidencia a necessidade de lançar o olhar e reconhecer a importância desse acervo, bem como a necessidade de pesquisá-lo, compreendê-lo e narrá-lo. Não para circunscrever as peças em uma cronologia linear a racionalizante, nem para compreendê-las como documentos de verdade das formas de vida de determinados territórios, mas para que, de alguma maneira, possamos escutá-las. Apresentamos, a seguir, algumas das peças que constituem esse acervo atualmente, buscando marcar os discursos, ausências e silêncios em torno desses objetos, à medida que também buscamos fazê-los circular e, quem sabe, possibilitar que alguém os escute ou os faça dizer sobre suas memórias e histórias.

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OBJETOS expografia, acervo e transformações [ Imagem 78 ] Peça 1: Máscara Geledé, madeira e tinta industrial. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 79 ] Peça 2: Máscara, madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 80 ] Peça 3: Xangô, madeira. Agnaldo Manoel dos Santos, 1958. Peça advinda do Museu da Cidade. [ Imagens 81, 82 e 83 ] Peças 4, 5 e 6: Estatuetas, madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 84 ] [ Imagem 85 ] Peça 7: Vodun, bronze, 2006. Autoria, e local de produção desconhecidos. Doação de Boni Yayi, então presidente do Benin. [ Imagem 86 ] Peça 8: Iemanjá, Tatti Moreno, 1896, ferro. Peça advinda do Museu da Cidade. [ Imagem 87 ] Peça 9: Boneca Akuaba, madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagens 88 e 89 ] Peças 10 e 11: Potes de madeira entalhada. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 90 ] Peça 12: Trono em madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagens 91, 92, 93 e 94 ] Peças 13, 14, 15 e 16: Vasos ritualísticos, cerâmica. Autoria, data e local de produção desconhecidos.

IMAGENS

[ Imagem 95 ] Peças 17 e 18: Cosme e Damião, miaeiro, madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 96 ] Peças 19 e 20: Par de mesas, madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 97 ] Peça 21: Galo de bronze. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 98 ] Peça 22: Cortejo real, madeira e metal. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 99 ] Peça 23: Récade, madeira e metal. Autoria, data e local de produção desconhecidos.

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CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas [ Imagem 100 ] Peça 24: Assén. metal. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 101 ] Peça 25: Exu, Agnaldo Silva da Costa Ferreira, metal. Peça advinda do Museu da Cidade. [ Imagem 102 ] Peça 26: Tabuleiro de Ifá, madeira, cordão e búzios. Autoria, data e local de produção desconhecidos. Peça advinda do Museu da Cidade. [ Imagem 103 ] Peça 27: Jogo de ayô/mancala, madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 104 ] Peças 28 e 29: Par de motos, brinquedo, madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 105 ] Peça 30: Barco, madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 106 ] Peça 31: Kora, instrumento, couro, cabaça e búzios. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 107 ] Peça 32: Tambor, instrumento, couro e madeira. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 108 ] Peças 33, 34 e 35: Chocalhos, madeira, miçanga e búzios. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 109 ] Peça 36: Opô Baba N’lawa, Mestre Didi, palha, buzios, couro e miçangas. Peça advinda do Museu da Cidade. [ Imagem 110 ] Peça 37: Chapéu, tecido. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 111 ] Peça 38: Facão e bainha, couro e metal. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 112 ] Peça 39: Bandeira ideográfica, tecido. Autoria, data e local de produção desconhecidos. [ Imagem 113 ] Peça 40: Agogô, instrumento, metal. Autoria, data e local de produção desconhecidos.

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FLOWS transatlantic dialogues and movements The collection of artefacts at Casa do Benin is exhibited on the ground floor, where the visitor enters the museum complex. There is a long rectangular room with twelve doors looking out to the surrounding streets. Within the room there are a series of African and Afro-Brazilian artefacts on display, including wooden and metal sculptures, ceramics, baskets, tapestries, and musical instruments, as well as day to day and ritualistic objects.

OBJECTS

EXPOGRAPHY, COLLECTION AND TRANSFORMATIONS

The objects are displayed on plinths and in wooden display cases, both covered with glass. The furniture on show was placed in lines by the entrance, a little distance apart. Besides the furniture, ideographic tapestries were fixed onto the ceiling, hanging perpendicular to the lateral walls. As the architecture and exhibition project was going on, so was the process of procurement and acquisition of part of the collection. Certain elements are not officially part of the collection or the exhibition display, however, for example, the traditional African textiles hung up in the high open throughway.

[1] Quotations extracted from a 2016 interview by Arlete Soares with Joaquim Araújo Filho, present in the dissertation ‘Africa is here: Houses of Benin, Angola, and Nigéria in the city of Salvador, and their representations of African cultures.

Over the duration of the Benin-Bahia project delegates from Salvador made three trips to Benin. On the third trip, in March 1988, the aim was to purchase pieces for the collection. These were found in traditional markets such as Dantopka in Cotonou, Ahidaho in Porto Novo, the great markets of Abomei, Adjara, Parakou in Borgou province, Ntitingou in Atakora and also in Nadali, Ouaká, and Mono. The pieces were acquired by Arlete Soares and Pierre Verger, who already had connections in the region and knew the local arts and crafts scene. Verger had already collaborated with various museums, ever since his involvement with the Musée d'Ethnographie du Trocadéro in the 1930s. Between 1960 and 1970 Verger took part in the creation of the Ouidah History Museum, also collaborating with the sourcing of the collection there. He was also the main proponent for the implementation of the Afro-Brazilian Museum at the Federal University of Bahia in Salvador, putting together its African collection between 1975 and 1976. Most of the pieces on display at Casa do Benin are of a utilitarian, quotidian, or ritualistic nature. According to Arlete Soares, Lina Bo Bardi stood behind many of the choices of items. Arlete said that she ‘acted through intuition and through the cultural awareness that she had, given that she had never been to that part of Africa’ [1]. The initial plans stated how the collection should offer a view into the contemporary craftsmanship present in the markets of Benin. In as much, it was supposed to remain in a state of constant alteration, expanding with the arrival of new artefacts, as Salvador and Benin strengthened their ties with one another.

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [ Images 60, 60.1 e 61 ] In these two photographs taken by Pierre Verger in the 1950s in the Abomei market we can see ceramic vases similar to those later purchased for the Casa do Benin collection. Next, we see a list of artists from Benin, organised by the Benin Ministry of Culture in 1986, for the booklet Art Artisanat Abomey, found in Pierre Verger´s library. [ Image 62 ] Lina and Verger working to set up the Bahia-Benin exhibition in 1988. (Photo: Arlete Soares) The inaugural exhibition For the inauguration of Casa do Benin, on 6 May 1988, a first exhibition was organized by Lina Bo Bardi for the opening festivities of the house and the reception of the delegation of Beninese authorities who came to Salvador for the occasion. Several of the pieces acquired in the markets of Benin were displayed, along with others that had been lent from private collections and candomblé sites. The exhibition and the collection on display at Casa do Benin have been in ongoing transformation since, due to changes, both in the collection itself, and in current activities at the house. However, in the main, the expographic project that was established by Lina for the exhibition has largely been preserved, with this based on the presentation of multiple and diverse objects within the same exhibitors, and with these arranged in such a way as to allow multiple routes for visitors moving through the space, as well as, simultaneously, a sweeping view of both the collection and the architecture of the exhibition room. The intention was to develop a dynamic collection, with new items being brought in all the time. As such, the artefacts from Benin are presented in a scenographic manner, which thus invites the visitor into an immersive and entertaining experience in an atmosphere richly laden with in arts and crafts from Benin, if with technical and material links to Brazilian craftsmanship. This is in deliberate contrast, then, to curatorial approaches that seek to insert such objects into didactic and chronological narratives and contextualization. Here, Arlete Soares highlights a particular creative tension between two of the founders of Casa do Benin, where, as she explains:

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“(Verger and Bo Bardi) had really converging thoughts, but ones which were at the same time very dissimilar. This was because Verger was so didactic, and methodological, where black is black, white is white, blue is blue… Lina meanwhile had this imaginative side, a creative side, and with this being her thing. Verger was a researcher, a photographer, with an eye for detail. Lina was a dreamer too, with


OBJECTS expography, collection and transformations knowledge, wisdom, and dreams. So sometimes the two clashed, because Lina wanted to, let´s say, put some cell phone together with some iPad. To which Verger would then say ‘no!’ Because the cell phone had come out first, it was created way before, so it needed to be within another context. Then Lina always wanted to go over his head, because she was not there to do things in such a didactic manner. She wanted something much more grandiose”. [2]

[2] (cited in ARAÚJO FILHO, 2017, p. 194)

Collection in Transformation In December of 1988, pieces that had been loaned from private collections for the inaugural exhibition were returned and new items were incorporated into the permanent exhibition. This new presentation of the collection was organised by Arlette Soares and it would present both pieces acquired through the municipality of Salvador on trips to Benin, as well as cultural objects from Benin donated by the Benin government and brought along by its delegates to the occasion of the inauguration of the space. At the time, it was also believed that a new shipment of pieces would be incorporated into the collection with the carrying out of a transfer of an official representative from Benin to reside in Casa do Benin, due to stay in the annex building, where construction had already been completed. Despite the fact the arrival of this official representative was never actually realised, over the past thirty years, other instalments of items into the collection have been made as a result of donations by African delegates visiting the city of Salvador. Another important transformation in the collection came about through the incorporation of pieces from the defunct Museu da Cidade. When this museum was closed down, items from its collection were transferred and merged into the Casa do Benin collection. These newly incorporated pieces included furniture, sculpture, and jewellery. Produced by Brazilian artists and craftsmen, this work was, therefore, different from the pieces that originally constituted the Casa do Benin collection and specifically represented Benin's artisanal production. Amongst the newly incorporated pieces from Museu da Cidade, in particular, there could now be seen sculptures by prominent Afro-Brazilian artists that were added into the exhibition, such as work by Mestre Didi, Agnaldo dos Santos, and Agnaldo Silva.

[ Images 65 e 66 ]Straw braiding, used to overlay concrete columns, and seen at the inaugural exhibition of Casa do Benin, through the use of mats, basketry, and handcrafted utensils produced through this technique. In the display alongside, a series of African masks was also presented, including some Geledés masks.

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [ Images 67, 68, 68.1, 69, 70, 70.1 e 70.2 ] By comparing the current layout of the exhibition room with an outline of the initial project, we can see the continuity of a specific spatial proposal. The exhibitors utilized are the same ones, as developed by Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz and Marcelo Suzuki in 1988. These exhibitors have a solid wooden base, sometimes covered by glass, and sometimes with an elevated showcase, thus making it possible to house and group pieces with different characters and formats. The exhibitors developed for the Black Africa exhibition had a similar structure, with solid concrete bases, and were covered by glass showcases, which made it possible to present multiple objects - however, differently, for the MASP exhibition, a circular arrangement of the pieces was chosen. In both displays, traditional African fabrics were installed from the ceiling and a woven straw element was presented. Both on the upper floor of the MASP, and in Casa do Benin, photographs by Pierre Verger were exhibited, showing practices and objects used both on the African continent and in Brazil. [ Images 71, 72, 73, 74, 74.2, 75, 76 e 77 ] Since its inauguration, in 1988, numerous pieces have passed through the ground floor exhibition of Casa do Benin. As the only records we have left of some of these items that were presented are old photographic, Isabela Seifarth's paintings bring to the present some possible images of pieces that are no longer in the collection. Histories and memories of objects The expographic and curatorial choices adopted for the permanent exhibition at Casa do Benin present a kind of discursive meeting of curatorial and expographic proposals which prioritize the arrangement of elements in simultaneity, in a non-linear way, and without temporal identification or authorship. In the particular case of Casa do Benin, one correlate of such approaches, however, is that there have been certain difficulties encountered in the preserving and understanding of the histories and memories of respective pieces. Indeed, a collection whose purpose is based on its relationship with the present, and where its museum pieces are continually being transformed in different ways per se, can end up encountering a range of such difficulties, including, for example, discontinuities with prior project designs, and a kind of non-realization of cultural and political exchanges. Such approaches develop further complexities and contours when considered, in particular, in relation to museological practices and discourses historically associated with ethnographic and African collections.

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The expographic project developed for Casa do Benin in Bahia was notionally based upon such dissolutions of chronology, linearity, and hierarchy, between objects, techniques, and materials. Such notions are indeed characteristic of the expographic conceptions adopted by Lina Bo Bardi and can be seen in several of her projects. In such a way, founded on this architect's expographic suggestions and


OBJECTS expography, collection and transformations how these developed in various ways over time, we encounter items presented in a specific indistinct manner, such as a range of utilitarian objects purchased in Benin's popular markets, including toys, weapons, basketry, religious items, masks, ideographic tapestries, and traditional African fabrics. Thus, when we consider the relationship proposed through the Casa do Benin expographic project, between objects in the collection, and its visitors, an emphasis can be seen placed on visitors being invited to take an active role in the enjoyment of the multiple possibilities of traversing the museum space, and to articulate new meanings through the exhibition in doing so. However, as previously alluded to, it is necessary to reflect on what the implications of such expographic choices are for the presentation of a collection of Beninese handicraft objects specifically in a Brazilian and Salvadoran context. It is essential to bear in mind, here, that the performing of expographic approaches which seek to present pieces in collections as objects recontextualized into the present - and thus as detached from their origins and respective frames of reference and rationale - can be seen realized, in quite different ways, through different types of collections. In the example of Lina Bo Bardi’s work, for instance, such expographic principles can be seen enacted, influentially, and in particular ways, through her contribution to the MASP European art collection in 1957 via the so-called Pinacoteca of cristal easels [3] – where what can be seen clearly demonstrated are expographic approaches that dilute the chronologies of well-established fields of knowledge, and instead, establish a critical-reflexive ordering over particular historiographic perspectives that seem so often to imprison images and objects into linear, authorial, and historicizing chronologies.

[3] The architect Lina Bo Bardi was responsible for the exhibition of the MASP Pinacoteca, proposing to exhibit paintings on crystal easels arranged simultaneously and with multiple possibilities for the visitor to view. The architect would develop other exhibitors in several exhibitions that she put on, in which this arrangement is favoured.

Yet, once again, when dealing with the objects which make up the Casa do Benin collection, it is particularly important to take into account how African material and artistic and craft productions have been addressed historically – i.e. from a modern colonial rationality - as ahistorical, devoid of authorship, and characterized by a certain primitive and magical character, and with this often having been done as a form of reduction and disqualification. It is worth asking ourselves, therefore, once more, in relation to handcrafted objects from Benin, what might be the implications of expographies that opt for such independent and decontextualized presentations, considering, that is, the specificities of the social imaginaries, and respective discourses, which relate to non-Western collections. One way of thinking about the pieces in the Casa do Benin collection today is simultaneously how they can be seen to retain the mystery of an interrupted story, whilst also launching themselves as projectiles critical of the very narratives that have constituted their histories. This would indeed highlight the need to look closely at, and recognize, the importance of this collection, in particular, as well as

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives the need to research, understand, and narrate it. The point, here, then, in sum, is not to try and circumscribe these pieces into some kind of linear chronology, so as to rationalize, or to understand them, as documents which articulate some kind of truth of the ways of living of some particular territory - but rather, it is in some sense, that we can try ourselves to listen to them. Below, we present some of the pieces that make up the collection today, and in doing so, we also seek to highlight discourses, absences, and silences that surround these objects, as we make them circulate, and who knows, perhaps even open up the possibility of people listening to them and talking about their memories and histories.

[ Image 78 ] Piece 1: Geledé mask, wood and industrial paint. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 79 ] Piece 2: Mask, wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 80 ] Piece 3: Xangô, wood. Agnaldo Manoel dos Santos. Piece accrued from Museu da Cidade. [ Images 81, 82 e 83 ] Pieces 4, 5 and 6: Figurines, wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 85 ] Piece 7: Vodun/Vodou, bronze, 2006. Unknown authorship, date, and place of production. Donation by Boni Yayi, then president of Benin. [ Image 86 ] Piece 8: Iemanjá, Tatti Moreno, iron. Piece accrued from Museu da Cidade. [ Image 87 ] Piece 9: Akuaba doll, wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Images 88 e 89 ] Pieces 10 and 11: Carved wooden pots. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 90 ] Pieces 12: Wooden throne. Unknown authorship, date, and place of production.

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[ Images 91, 92, 93 e 94 ] Pieces 13, 14, 15 and 16: Ritual pots, ceramics. Unknown authorship, date, and place of production.


OBJECTS expography, collection and transformations [ Image 95 ] Pieces 17 and 18: Cosme e Damião, box, wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 96 ] Pieces 19 and 20: Pair of tables, wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 97 ] Piece 21: Bronze cockerel. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 98] Piece 22: Royal procession, wood and metal. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 99 ] Piece 23: Récade, wood and metal. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 100 ] Piece 24: Assén, metal. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 101 ] Piece 25: Exu, Agnaldo Silva da Costa Ferreira, metal. Piece accrued from Museu da Cidade. [ Image 102 ] Piece 26: Ifá board, wood, cord, and shells. Unknown authorship, date, and place of production. Piece accrued from Museu da Cidade. [ Image 103 ] Piece 27: Ayô / mancala game, wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 104 ] Pieces 28 and 29: Toy bicycle pair, wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 105 ] Piece 30: Boat, wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 106 ] Piece 31: Kora, instrument, leather, gourd and shells. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 107 ] Piece 32: Drum, instrument, leather and wood. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 108 ] Pieces 33, 34 and 35: Rattles, wood, beads, and shells. Unknown authorship, date, and place of production.

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CASA DO BENIN IN BAHIA projects, memories & narratives [ Image 109 ] Piece 36: Mestre Didi, straw, conch, leather and beads. Piece accrued from Museu da Cidade. [ Image 110 ] Piece 37: Hat, fabric. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 111 ] Piece 38: Machete and scabbard, leather and metal. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 112 ] Piece 39: Ideographic flag, woven. Unknown authorship, date, and place of production. [ Image 113 ] Piece 40: Agogô, instrument, metal. Unknown authorship, date, and place of production.

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LISTA DE IMAGENS [ 1 ] Fotografias de Arlete Soares. Benin, Benin, 1987. Acervo da Casa do Benin. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 2 ] Protocolo do projeto Bahia-Benin. Salvador, 17/06/1986. Registro: Lucas Feres. Fonte: Arquivo da Fundação Pierre Verger. [ 3 ] e 3.1. Peça do acervo da Casa do Benin. Autoria e data não identificadas. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 4 ] Fotografia de Arlete Soares. Benin, 1987. Acervo Arlete Soares. Cortesia da fotógrafa. [ 5 ] Peça do acervo da Casa do Benin. Autoria e data não identificadas. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 6 ] Idem. [ 7 ] Reportagem do jornal A TARDE, Salvador, 10/01/1987. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 8 ] Reportagem do jornal A TARDE, Salvador, 10/05/1988. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 9 ] Maison du Brésil. Ouidah, Benin, data desconhecida. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Lago. [ 10 ] Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki. Planta da Casa do Brasil no Benin. c. 1989 Hidrográfica, grafite, lápis de cor e reprografia sobre papel offset 50, 0 x 70, 4 cm. Registro: Henrique Luz. Fonte: Instituto Bardi / Casa de Vidro. [ 11 ] Maison du Brésil. Ouidah, Benin, 2020. Foto: Adébola Ogounchi. Cortesia da fotógrafa. [ 12 ] Ruínas, interior do terreno anexo à Casa do Benin. Fotografia de Milton Mendes. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 13 ] Fachada do prédio que abriga a Casa do Benin na década de 70. Fotografia de autoria não identificada. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Lago. [ 14 ] Idem. [ 15 ] Idem. [ 16 ] Fachada restaurada da Casa do Benin. Salvador. Fotografia de autoria não identificada. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 17 ] Complexo restaurado da Casa do Benin. Salvador. Fotografia de autoria não identificada. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 18 ] Fachada da Casa do Benin. Salvador, 2021. Foto: Lucas Feres.


[ 19 ] Sala expositiva da Casa do Benin. Salvador. Fotografia de autoria não identificada. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 20 ] Casa do Benin - revestimento do pilar. Fotografia de Alonso Rodrigues. Salvador, 24/03/1988. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 21 ] Idem. [ 22 ] Jornal CORREIO DA BAHIA, Salvador, 11/08/1988. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 23 ] Tecidos africanos e a arquitetura da Casa do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Feres. [ 24 ] Idem. [ 25 ] Detalhe da arquitetura da Casa do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Lago.. [ 26 ] Jornal A TARDE. Salvador, 05/08/1988. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 26.1 ] Jornal Tribuna da Bahia. Salvador, 09/05/1988. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 27 ] Recuperação da Casa do Benin. Salvador. Fotografia de autoria não identificada. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 28 ] Terraço da Casa do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Feres.l. [ 29 ] Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki. Planta da Casa do Benin na Bahia. c. 1987. Grafite, lápis de cor e reprografia sobre papel offset 24, 2 x 21, 1 cm. Registro: Henrique Luz. Fonte: Instituto Bardi / Casa de Vidro. [ 30 ] Restaurante do Benin. Salvador, 1988. Fotografia: Marcelo Ferraz. Cortesia do fotógrafo. [ 31 ] Idem. [ 31.2 ] Idem. [ 32 ] Pátio da Casa do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Feres. [ 33 ] Idem. [ 34 ] Idem. [ 35 ] Idem. [ 36 ] Idem. [ 37 ] Idem.

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[ 38 ] Idem.


[ 39 ] Oficina Objetos e histórias da diáspora africana, ministrada por Lia Krucken e Nympini Khosa, no pátio da Casa do Benin. Salvador, 2019. Foto: Lucas Feres. [ 40 ] Detalhe da arquitetura da Casa do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Lago. [ 41 ] Peça do acervo da Casa do Benin. Iron de Fuite, local não identificado, 2006. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 42 ] Foto Pierre Verger©Fundação Pierre Verger. Natitingou, Benin, 1936. [ 43 ] Desenho da forma modular do restaurante da Casa do Benin. Hidrocor sobre papel manteiga. Registro: Lucas Feres. [ 44 ] Registro da obra Oficina-mutirão de arquiteturas impossíveis (Ian Graco, Lucas Feres, Lucas Lago, Sarah Marques). Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 45 ] Detalhe da arquitetura da Casa do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Feres. [ 46 ] Idem. [ 47 ] Idem. [ 48 ] Detalhe da arquitetura da Casa do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Lago. [ 49 ] Idem. [ 50 ] Detalhe da arquitetura da Casa do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Feres. [ 51 ] Mesa do Restaurante do Benin. Salvador, 2021. Fotografia: Lucas Feres. [ 52 ] Cadeira Girafa. Acervo da Casa do Benin. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 53 ] Idem. [ 54 ] Cadeira Frei Egídio. Acervo da Casa do Benin. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 55 ] Idem. [ 56 ] Ministro Soulé Dankoro em visita à Casa de Vidro. São Paulo, 1997. Fotografia: Marcelo Ferraz. Cortesia do fotógrafo. [ 57 ] Banco de tubo azul celeste. Acervo da Casa do Benin. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 58 ] Banco alto. Acervo da Casa do Benin. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago. [ 59 ] Idem. [ 60 ] Foto Pierre Verger©Fundação Pierre Verger. Mercado de Abomé, anos 50..

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[ 60.1 ] Foto Pierre Verger©Fundação Pierre Verger. Mercado de Abomé, anos 50.. [ 61 ] Lista de artistas beninenses contida no encarte ART ARTISANAT ABOMEY, produzido em 1986 pelo Ministério da Cultura do Benin. Encarte encontrado no arquivo de Pierre Verger. Fonte: Arquivo da Fundação Pierre Verger. [ 62 ] Fotografia de Arlete Soares, Salvador, 1988. Acervo Arlete Soares. Cortesia da fotografa. [ 63 ] Jornal A TARDE. Salvador, 25/05/1988. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 64 ] Jornal da Bahia, Salvador, 15/12/1988. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 65 ] Visitante na sala de exposição da Casa do Benin. Salvador. Fotografia de autoria não identificada. Arquivo Histórico Municipal de Salvador. Registro: Lucas Feres. [ 66 ] Idem. [ 67 ] Lina Bo Bardi, Pierre Verger, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki Layout da mostra da Casa do Benin, Salvador, 1988 Heliográfica e grafite sobre papel offset 35,4 x 50,9 cm. I Registro: Henrique Luz. Fonte: Instituto Bardi / Casa de Vidro. [ 68 ] Vista do acervo da Casa do Benin, Salvador, 2020. Registro: Lucas Feres. [ 68.1 ] Idem. [ 69 ] Lina Bo Bardi, Pierre Verger, Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki Projeto de expositor para a mostra da Casa do Benin, Salvador, 1988 Heliográfica sobre papel offset 49,6 x 71,0 cm. Registro: Henrique Luz. Fonte: Instituto Bardi / Casa de Vidro. [ 70 ] Vistas da exposição África Negra, no segundo subsolo do MASP, 1988. Foto: Desconhecido – Arquivo do Centro de Pesquisa do MASP. [ 70.1 ] Idem. Vistas da exposição África Negra, no segundo subsolo do MASP, 1988. Foto: Acervo Marcelo Ferraz. [ 70.2 ] Idem. [ 71 ] Pintura de Isabela Seifarth, Salvador, 2021. Registro: Lucas Feres [ 72 ] Idem. [ 73 ] Idem. [ 74 ] Idem. [ 75 ] Idem. [ 76 ] Idem.

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[ 77 ] Idem. [ 78 a 113 ] Peças do acervo da Casa do Benin. Registro: Lucas Feres e Lucas Lago.


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MEMÓRIAS SITUADAS a Casa do Benin na Bahia FICHA TÉCNICA DO PROJETO

Concepção Lucas Feres e Lucas Lago Direção

Lucas Feres, Lucas Lago e Sarah Marques Pinturas Isabela Seifarth Textos da publicação Lucas Feres, Lucas Lago, Marcelo Ferraz, Rogério Felix Textos do site Lucas Feres, Lucas Lago e Sarah Marques Projeto gráfico Ana Luísa Oliveira e Igor Queiroz Assessoria de imprensa Gil Maciel Rocha e Jordan Dafné (Estúdio Arroyo) Editora Pinaúna AGRADECIMENTOS

Acervo Arlete Soares, Acervo Marcelo Ferraz, Adébola Ogunchi, Arquivo Histórico Municipal de Salvador, Biblioteca José Pedreira, Museu de Arte da Bahia, Casa do Benin, Fundação Gregório de Mattos, Centro de Pesquisa do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), Fundação Pierre Verger, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi / Casa de Vidro, Yan Graco Cafezeiro, Intervalo Fórum de Arte, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV/UFBA), Grupo de Pesquisa Urbanidades, Igor Tiago.


CASA DO BENIN NA BAHIA projetos, memórias & narrativas



CASA DO BENIN IN BAHIA PROJECTS, MEMORIES & NARRATIVES LUCAS FERES & LUCAS LAGO